Isto é que é vida! Se soubesse que ía ter estas comodidades fora de Santa Terrinha, tinha deixado o Leucárdio à muito mais tempo! Apesar de serem tendas não são menos luxuosas que qualquer corte europeia. E a principal vantagem é que posso estar com o meu espanholito e com O Leucárdio e a outra senhora longe da vista. A verdade é que estou um pouco preocupada com a minha situação, ela pode mudar subitamente. O ataque está para breve e se for mal sucedido eu estou em maus lençóis. O Raúl tem-se se mostrado carinhoso mas distante, e Javier olha para mim como uma ferramenta para atingir os objectivos. Tenho de fazer pela vida e fazer valer o meu estatuto de condessa, sim porque não pense divorciar-me do Leucárdio e perder os meus direitos! E duvido que consiga a permissão do Papa para tal.
Passei o dia na tenda rodeada das aias que me acompanharam. Enquanto tentava organizar os pensamentos elas não se calavam, preocupadas em decidir quem era a dama que conquistaria o coração do comandante Luiz Alvarez chegado recentemente de Castela a pedido do Conde Javier.
Umas gabavam-lhe os olhos, outras o corpo musculado e o sorriso sedutor. Mas esse comandante não chega aos pés do meu Raúl. Ai que saudades que tenho daquele señor! Saiu de manhã tão cedo e ainda não voltou, nem o conde que o acompanhava.
Foi-me trazida a refeição aos meus aposentos e como não havia sinais dos dois mandei as aias retirarem-se, mas eu fiquei a pé. Coloquei um manto sobre os ombros para me proteger do frio e andei de um lado para o outro, a tentar ouvir o que se passava lá fora a rezar para que nada de mal tivesse acontecido. Nisto oiço vozes a aproximarem-se. Reconheci imediatamente a voz de Raúl e em seguida a do conde. Nisto junta-se uma terceira voz que também não me é estranha mas ... não pode ser ... Odete! Perdi a cabeça e fiz uns escândalo dos antigos sem me preocupar quem estivesse para o ouvir.
- Que significa isto? Esta traidora não fica debaixo do mesmo tecto que eu!
- Acalma-te Isabel que isto é mais complicado do que pensas.
- Acredita mesmo nisso. Bem sei que o senhor conde anda de queixo caído pela donzela. Aliás os dois condes! A rapariga tem jeito para deixar a nobreza de joelhos ...
- Veja lá como fala!
- E o senhor quem pensa que é para se dirigir a mim dessa maneira!
- Acalma-te Javier! Dona Isabel precisa de digerir a novidade.
- Deixa querido Raúl. Acredita que a notícia está bem digerida, até porque nenhum dos ditos senhores me diz já respeito. E até me faz falta uma dama de categoria para me acompanhar nas cerimónias e ...
- Desculpe Dona Isabel mas creio que há um equivoco. - interrompe o Conde Javier.
- Como?
- Deixa-me explicar-lhe Javier, ela não ... - intervém Raúl.
- Aurora é agora minha companheira e brevemente minha esposa! E visto que a senhora não está mais casada com o senhor conde, Aurora estará numa posição superior à sua e você é que se encarregará de a acompanhar para todo lado, servi-la modestamente ...
- NUNCA! Raúl faz alguma coisa! E para sua informação continuo CASADA! E tratando-me nestes modos arrisca-se a que eu não cumpra o nosso acordo e ...
- E ...
- ... e abandone o acampamento e ... conte tudo ao senhor meu marido! Os planos ... tudo!
- Penso que Leucárdio não a quer ver nem pintada minha querida. Agora acalme-se sim? Esse comportamento é mais de uma mulher do campo do que uma senhora.
E o Raúl nada disse. Aquele infeliz não me defende depois de todas as calúnios que ouvi e o desrespeito que é aquela mulher estar na minha presença. Eles que nem sonhem que eu me vou ajoelhar a seus pés! Aquela camponesa mal nascida ficou ali especada, de olhos no chão, mas pálida que de costume e não disse uma palavra. Não sei como é que a sonsa os vai ajudar na conquista. Trata-se de um capricho, mais lenha para a fogueira com o Leucárdio. Mas eu vou-lhes fazer a vida num inferno! Ela não vai ficar a ganhar, nem que eu tenha de voltar para o Leucárdio e acabar com esta fantochada. Seja feita a minha vontade ... ou a de ninguém!