segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Tudo mudou

- Bom dia Melanie! Sim minha filha já é dia e o teu filho está a gritar por ti à horas. Vê se tomas uma banho para despertares e aproveita e diz ao não-sei-quantos que está aí debaixo dos lençóis para levantar o rabinho porque tenho de fazer a cama imediatamente.
- Quoi?
Já estive mais longe de expulsar a rameira, só não o fiz ainda por causa da criança. Isto tem sido um trabalhão com tanto alemão cá na pensão. Para além de se deitarem tarde e a más horas, beberem que nem umas retretes e comerem que nem porcos gostam muito que se faça tudo por eles. Deixam a roupinha toda espalhada no chão e andam pelos corredores de cuecas e péugas apalpando as clientes e de vez em quando o senhor padre vejam só. E depois são brutos, não se pode repreender os meninos que começam a gritar obscenidades e Hitler para aqui e para ali. "Olhe minha senhoga eu posso dag-lhe um tigo aqui!" coisas do tipo. Eu não sou mulher para ter medo destes malcriados, não passam de uma data de putos alcoolizados que se viram sem a mãezinha por perto e então é borga todos os dias. Mas comigo eles vão ver. A boa vida acabou!
- Senhoga Celestina, tgaga uma cegeveginha aqui para o Hans! Já sabe é para o 107!
- Oh meu menino, tens perninhas para andar e saúdinha também por isso ...
- Pog isso o quê?? Você sabe com quem está a falage?? Sou sobginho digeito do Hitleg! Eu tenho contactos pgeviligiados com o máiog! Sua vaca velha e gasta eu ...
- O que é que fazes? Han seu frangote??
- BBBppp ... Ahh ... desculpe madame, eu vou já buscage a cegveja ... ui!
Devem estar a perguntar o que é que fiz para mudar as ideias ao alemão. Um truque muito simples que aprendi no convento ... um bom aperto nos tomates e os homens caem a nossos pés. Não vos contei dos meus tempos no convento? A verdade é que foi lá que cresci, me fiz mulher. Podem acreditar que as freiras sabem muito bem lidar com os homens, melhor até que muitas mulheres. Aprenderam a defender-se dos tarados que gostam de carne fresca, ou pelo menos carne intocada. Aprendi umas quantas coisas lá. Quando de lá saí foi com a vontade de encontrar o amor e de estabelecer a minha pensão tal como a minha familia há gerações. Mas estou para aqui a falar e o programa da Fátinha prestes a começar!
"No nosso programa de hoje, temos o prazer de receber um convidado muito especial. Peço o vosso aplauso para ... Miguel Roscas! (clap,clap,clap)
- É um prazer ...
- Oh Fatinha gosto tanto de si, gosto tanto de a ver trabalhar ... é tã linda Fatinha ... quer casar comigo?
- Por amor de Deus não exagere Miguel ... que brincalhão!
- Nã é a brincar, é que ando a procura de namorada a minha mulher deixou-me e ...
- Lamento muito Miguel. Vamos agora ao que interessa.
- Ah sua malandrona!
(ahahahaha)
- Bom você diz que anda à procura de alguém muito especial?
- Sim, sim ... a senhora!
- Por amor de Deus não to para aturar estas merdas, Carlão vai me buscar a minha bolsa e vamos embora daqui ...
(olá .... chegou ...)
- Desculpem caros espectadores virgúla mas a Fátinha sofreu um esgotamento nervoso depois de vários anos a realizar este programa ponto final ... Pedimos as nossas desculpas ponto de exclamação a partir de agora eu virgúla o assistente das limpezas serei a vossa companhia das manhãs ponto final. Miguel fale-nos dos eu caso.
- Ora bem eu ando à procura da minha irmã Rosália.
- Gosto muito da sua irmã ponto de exclamação
- Nem por isso. Mas a magana roubou todo o meu dinheiro e integridade.
- Como assim ponto de exclamação
- Bom ... a maldita levou-me o dinheiro todinho que eu andava a guardar à anos para comprar uma máquina de fazer sumos!
- Isso é estúpido virgúla para além de uma máquina de fazer sumos não ser assim tão cara ponto de exclamação e movimentar a cara para os lados como forma de reprovação.
- Eu não ganho assim tantoe era uma máquina deveras boa. Para além disso andou a enrabixar-se com a minha esposa.
- Mas que me ...
(Devido a problemas técnicos o programa "Fátinha" teve de ser interrompido ... voltamos amanhã às 10 com um novo apresentador. O nome de programa será alterado provisoriamente para "Morangos com Açúcar".)"
- Oh Meu Deus! A Rosália para além de panelona é ladra! Pobre homem ... estava claramente com os copos mas ainda assim sentia-se um certo tom de amargura na sua voz. De qualquer maneira não preciso de arranjar problemas com a Rosália. Desde que casou a mulher anda ainda mais amarga e desagradável. Ameaças e chantagens são o prato do dia. E depois são os carinhos forçados com o pobre homem, que apesar de tudo é um homem simpático e até jeitoso.
- CELESTINEEE! - grita o pobre Jean Paul de desespero.
- O que foi meu amor?
- Maman não vem ... eu (snif, snif) ela já non gosta de mim?
- Que desparate filho! Claro que gosta. A mãe está ocupada e por isso não ... mas o que é que se passa? Tens fominha é?
- Non ... só queria que ela viesse cá abaixo para me ajudarr a escolherr a toilette. Diz lá Celestine ... azul ou verde água?
- TU MERECIAS ERA UMAS PALMADINHAS NESS RABO SEU ... seu anjinho má lindo! A Celestina não se consegue zangar contigo, oh meu amor!
- Estás a everrgonharr-me Celestine ... tens clientes na recepção!
- Já vou, já vou depois de dar um grande beijinho nestas bochechinhas lindas e fofas ... Schuac!
- Celestina por amor de Deus largue a criança! Não tenho o dia todo!
Era a Panelona mais o seu marido troféu e a pobrezinha da Regina.
- Desculpem se vos fiz esperar ... passa-se alguma coisa?
- Nada que te diga respeito. Vim aqui deixar a Regininha pois ela já não é bem-vinda na minha casa.
- Mas o que se passou? - a pobre Regina estava lavada em lágrimas.
- Oh sua velha metida precisamos de um quarto para a rapariga e é tudo!
- Desculpe ... com certeza vou já arranjar um quarto! Talvez o 108 ... aquele porco do alemão já se foi, se bem que tem outro ao lado mas ...
- Que disse? - o maridinho exaltou-se.
- Calma minha bolinha de Berlim ... olha a tua tensão!
- Desculpa meu pastel de Belém mas esta gente iggita-me. Wolfgang queg beijinho ... uhuh!
- A mãezinha dá beijinho ... uhhh!
Que nojice! Já assisti a muita coisa nojento na minha vida ... proncipalmente protagonizada pela Melanie, mas isto bate tudo. Imaginem como seria o beijo entre um sapo e um papa-formigas.
- Então está feito ela pode ficar. Vou chamar alguém para ajudar a carregar as malas e ...
- O Wolf leva-as para cima, não se incomode.
Coitadinha da Regina, estava completamente devastada. Eu perguntei-lhe o que se passou porque estava preocupada e não por cosquisse.
- Então minha querida. Tens aqui um cházinho bem quentinho e uns bolinhos de mel que eu acabei de fazer. Se precisares de falar estou aqui para te ouvir está bem?
- Obrigada Celestina.
- Não queres falar?
- Agora não, estava a pensar beber o chá e ir dormir um bocadinho.
- Mas vê lá ... dizem que não faz nada bem a pessoa ir dormir com a cabeça cheia de problemas!
- Sempre ouvi dizer o contrário. Eu também não vou dormir muito, tenho de ir trabalhar e ...
- Nem pensar! Liga-se aos Bellini e hoje ficas a descansar.
Não lhe consegui arrancar nadinha. Acho muito estranha esta situação. Desde que chegou com a Regina que a panelona não tirava os olhos dela, parecendo estar à espera de alguma coisa. Agora isto. Deixou-a aqui sem ninguém para vigiar. Não está à espera que eu lhe faça um relatório diário dos hábitos da moça! Tenho mais que fazer. Estará relacionado com o Miguel, aquele senhor que foi aos "Morangos com Açúcar"?
Liguei para os Bellini e fiquei na porta ao lado à espera que a Regina decidi-se sair. Para disfarçar fui metendo conversa com o alemão, e com a Regina que andava a trabalhar por casa.
- Por favor Regina vê se vestes alguma coisa, o teu filho pode entrar!
- Celestine o Jean Paul já é crescidinho. Tem de saberr como a mãe ganha a vida.
- Eu vou buscágue o puto e resolvemos já isso!
- Tenha juízo alemão, conheço o seu ponto fraco.
- Pgonto, pgonto!
- E o pãozinho sem sal não saiu do quarrto?
- Ainda não. Já está lá fechada à duas horas, achas que ela está bem?
- Boa não está ... boa sou eu não é Hans mon chérie?
- Para com isso Melanie. Tu é que podias ir falar com ela!
- Moi???? Nem pensarr, recuso-me a falarr com a concorrência.
- Não me digas que a Regininha também é ...?
- Non, non! A pobrezinha não se conseguia sustentarr! É por causa de mon amour ... le russe!
- Quem? Russo? O Bógis?
- Sim pour quois?
- Esse bandido é a razão pogque nós estamos aqui! Tens de me dizeg onde encontgá-lo! Isto é pegfeito ... logo agoga que o führer chega à aldeia! Segei recompensado.
- O quê????
- Celestina?
Era a Regina tinha acordado e desatou a chamar por mim como o Jean Paul chama pela mãe, ou a Melanie pelo ... cliente com que está na ocasião.
- Que foi? Porque estás a chorar?
- F-foi ela!! A Rosália ... e-ela ...
- Acalma-te.
- Eu saí pela janela ... eu e o Bóris íamos fugir deste aldeia horrível e ... a Rosália perseguiu-me e ... ela matou-o!!!
- O quê? Não pode ser ... ela não era capaz de ...
- Pois não a cobarde! Apanharam-nos na estação de combóios ... os alemães cercaram-nos. A Rosália puxou-me pelo braço e levou-me para o carro. Os alemães levaram o Bóris para o mato e ...
- E ...
- E mataram-no!!
- Como é que sabes?? Tu não viste, ele pode ter fugido.
- Eu ouvi um tiro! E os alemães regressaram aos seus carros. Se ele tivesse fugido teriam ido atrás dele! Não quero mais viverrrrrrr!!
- Mas ... a Rosália pode ser muita coisa mas ela nunca seria capaz de mandar matar alguém. Ela só te queria proteger, esse homem podia não ser aquilo que tu pensas.
- O que é que sabes?
- Nada em especial. Como sabes a pensão está cheia de alemães e tenho ouvido falar sobre as coisas que esse Bóris fez ... ele matou a própria família!
- Isso é mentira! Como é que podes acreditar nas coisas que esses porcos dizem????
- Fala baixo! Só digo que isto está mal contado. Não acredito que lhe tenham feito mal. Espera uns dias para ver o que acontece. E agora vá precisas de descansar.
- Eu ... eu estou grávida dele Celestina.
- Foi por isso que a Rosália te expulsou?
- Não. Foi outra coisa.

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

The New Gil


- Bom dia!
- Bom dia, Gil! Bom olhos o vejam...ou não, quer dizer, mas que olho negro é esse?
- Hã?...Ah, nada, nada senhora Adelaide, fui eu que fui de encontra a um armário.
- A sério? Parece que andas-te à pancada...E a Regina? Ai, está tão linda, a rapariga! Ela está por lá para o restaurante?
- N...
- Ah! Claro que não, que cabeça a minha, está com a Rosália, não é? ISMAEL TRÁS O CHERNE! Onde é que eu ia? Exacto: A Regina e a Panelona, ai, credo, que Deus me perdoe, mas a história daquela mulher está muito mal contada não achas, Gil? Eu acho. ISMAEL ONDE ANDA O CHERNE? Queres Cherne, querido?
- N...
- O Ismael já trás. Onde é que eu ia? Ah, claro, a panelona, pois... Que coisa. E porque será que a Regininha não está a morar com os Paiva? Eu acho estranho, não achas? Cá para mim...E do russo? Não se sabe nada! Pois, claro, na volta engravidou a rapariguinha e agora não quer responsabildades, não é? Pois, eu sei como é, estes CHERNE! são todos os iguais e...Oh Gil! GIIIL! Onde é que vais? E o Cherne? ISMAEEEEEL!!!- A dona Adelaide, por incrivel que pareça devolveu-me a razão. Batalhei durante todo este tempo para tentar arranjar uma razão obvia para a Regina me ter deixado no altar e agora entendo: Ela está grávida! Nesse mesmo dia, em que tive a anterior conversa com a dona Adelaide da peixaria voltei para casa furioso, mais furioso do que o que estava na noite passada, infeliz e revoltado contra a minha vida. A verdade é que a explicação para este meu olho negro se chama: Punho do Bóris. Ontem revoltei-me e fui ao quarto dele, não tinha nada a perder e atirei-me a ele com toda a minha força! O problema é que toda a minha força está concentrada na mão esquerda dele. Sou um fraco...Levei um murro que me pôs K.O. Ele, ainda sem perceber quem o agredia, acendeu a luz e chamou logo os Bellini. Estou farto de ser o mais fraco, o trocado, o rejeitado, o que apenas limpa as mesas...Até o gay faz molhos! Estou farto de ser o Gil coitadinho, que foi deixado no altar. Nem a Regina me falou no dia do baile de máscaras! Isto vai mudar. Fui a casa da Panelona. Bati à porta. A Regina abriu-me a porta. Estava a limpar a casa.
- Gil! Hum...estou ocupada, ah...mas se vieste falar com a dona Rosália, ela está na drogaria, chegaram uns esfregões de arame e ela está a tira-los da caixa.
- Vim falar contigo.
- Mas estou em limpezas, não pode ser outro dia?
- REGINA! PARA QUÊ FUGIRES MAIS?- Ela ficou assustada e rapidamente me puxou para dentro, fechando a porta da rua.
- Queres fazer um escândalo? É isso que queres? Vem para dentro.
- AH! Agora estamos mais decididas! Há unas tempos atrás nem por isso...
- Vens me chatear podes sair.
- Que mudança Regina...Sabes, não tenho culpa que me tenhas deixado no altar por causa de um russo fugitivo.- Ela ficou constrangida com este comentário. Pousou a vassoura a um canto e mandou-me entrar para a sala de estar.
- Ouve Gil, eu peço desculpa, só não pedi antes porque não sabia como te encarar.
- Estás grávida?- Ela ficou de todas as cores.
- Gil...Mas que pergunta é essa?- Disse, fazendo um sorriso amarelo- Sabes bem que...
- Eu? Saber alguma coisa? Não sei...Sou sempre o último a saber. Até no meu casamento fui o último a saber de tudo! Estás ou não estás?
- Não! Mas que pergunta parva! Eu sou uma rapariga de respeito!
- Pronto, está bem...Então porque é que estás aqui na casa da Rosália?
- Por uma questão de gratidão.
- Gratidão? Tenho medo do que possas dizer a seguir...
- Ela encontrou-me na fronteira, lembras-te? E...eu quero sentir-me útil. Tenho a ajudado na lida da casa...
- Estou a ver...E pensas ficar aqui para sempre?
- Gil, estás tão diferente...Não és mais o Gil com quem me ia casar...
- Óptimo! Ainda bem! Pode ser que agora cases de vez!
- Gil...
- Casa comigo, Regina. Eu amo-te mais que tudo! E se tiveres grávida eu serei o pai do teu filho!
- Gil, não sejas lamechas! Não estou grávida e não quero casar!
- Imploro-te Regina. Eu arranjava um taxi, veveríamos do rolar dos meus peneus!
- Gil não...- Eu pego-lhe na mão, que safado!
- Gininha, amor, seríamos tão felizes! Se quisesses continuar aqui a trabalhar como mulher a dias eu compreendia, sou um homem moderno. Mas agora aquele russo...Amor, ele não tem futuro! Ele mais tarde ou mais cedo vai preso!
- Não!- Ela levanta-se do sofá bruscamete- Pára! Estás a dar comigo em doida! Ainda me sinto fraca com tudo o que vivi, as coisas por que passei!
- Mas...
- Cala-te!- Ela agora estava mesmo irritada, bolas...- Vai te embora, arranja aí uma sopeira qualquer e casa-te com ela, tenho a certeza de que serão felizes!- Ela magoou-me.
- Regina...Magoaste-me. Agora foste longe de mais!!!! São atitudes dessas que aprendes com o teu amorzinho russo, é? Pois, olha o que ele me fez à cara, olha!! É um bruto! Precisas de um homem sensível, Regina e eu estou mesmo aqui, à tua frente! Podes estar grávida, a sério, eu não me importo, confia em mim, juro que não digo a ninguém, mas deixa-me fazer-te feliz, meu amor...- Houve um silêncio. Era agora! Era agora ela ia dizer que
- Não, Gil, lamento mas eu não gosto de ti...Já errei uma vez, não vou errar outra!
- Ai é? Pois agora, daqui para a frente este Gil não existe mais.
- O que queres dizer com isso?- pergunta-me ela.
- Que as coisas vão piar mais fino. Que se não és minha, não és de ninguém.
- Isso já não é amor, é obsessão! Não tens o direito de...
- De quê, Regina? De quê? Pensas que o vou matar? Achas que não tenho tomates para isso?- Novo silêncio...- E não tenho!- Continuei- e é por isso mesmo que vou agora mesmo ao posto da guarda dizer ao guarda Firmino o que sei! O russo está no Dolce Piacere e tem mil e um cúmplices!
- Não tens esse direito! Ele nunca te fez mal!
- Não? Pronto, está bem, e tu? Já me fizeste mal? Até deves carregar um cordeirinho loiro dentro desse ventre!- Saio da casa num andar apressado. Depois, após uns passos desacelero o passo...Bolas, ela não vem atrás de mim? Mais devagar...de-va-gar...Estou quase a chegar ao posto da policia...Então, pá? Ah! Lá vem ela a correr! Passo apressado, passo apressado, tomates! Tomates, Gil! Tomates! Abro a porta do posto. Está lá o Firmino.
- Firmino!- digo- Tenho uma denúncia a fazer!
- Eh! Gil, então, tem de ser agora? Está na hora da Fátinha...
- Gil! Espera!-Era a Regina. Entra no posto.
- Elahhhhhh!- Comentário do Firmino.
- Não há nada a fazer, Regina! Já cá estou e...
- Eu carrego um cordeirinho loiro...

domingo, 2 de novembro de 2008

Os homens gostam é das balofas!

As cozas estão complicadas cá por caza. Mio amore voltou e eu deveria estare felice, pero as cozas não têm sido assim por causa de una certa pessoa ... Regina! A desgrazada apareceu e a minha relazione com o russo estagnou. Mas io sou uma pessoa idosa que non tem grande coza para fazere e por isso vou à luta. Como o russo anda escondido das autoridades, non pode saire de caza e portanto tenho-o sempre debaixo de olho. La polizia desconfia da nostra famiglia e já revistaram a caza várias vezes mas nós estamos sempre a escondê-lo no mesmo sítio em que eles nunca procuram ... debaixo do lava-louças! E assim vamos enganando os "bófias" como diz o matteo ou as "grandes bichonas" como lhes chama o Dário. Durante o dia ele fica no quartinho dele mas na "bella notte" vai dormindo em quartos diferentes para o caso de a polizzia não aparecer durante a noite. Hoje é a minha vez! E vou aproveitar a minha oportunidade ... ai se vou! Já tenho tudo preparado ... velas, velas e mais velas ... a mia camiza del amore que uzei na mia notte de núpcias. Sucezzo garantido ... hoje o russo é mio!
- Mamma venha para baixo, o jantare já está na meza.
- Ai figlia não estou a sentir-me lá muito benne ... acho que me vou deitare um pouco e talvez coma qualquer coza mais tarde.
- Como queira mama.
Mia fligia é muito inocente, não consegue perceber quando sua mamma está a mentir descaradamente de forma a poder enrabixar-se com el ruzzo! Só para acender todas las velas levei 1 hora ... otra hora só para vestir la camiza, já non tenho 20 anos e admito que estou mais redondita mas sempre ouvi que "os homens gostam é das balofas"!
Foi então que ouvi passos ...
- Posso entrar Dona Bellina? Está compostinha?
- Oh ruzzo não estava à espera! Define compostinha ...
- Está totalmente coberta dos pés à cabeça de forma a que eu não tenha qualquer noção do conteúdo ou forma das suas ... intimidades!
- Por enquanto ruzzo, mas nunca sabemos onde la notte nos leva.
- Se não se importa eu agora gostava de arranjar o colchão e dormir.
- Oh querido ruzzo quase me esquecia!
- O que é? Sente-se bem?
- Fabuloza, mas não é izo ... o colchão ... houve um, um terrivel acidente e o colchão ... PUFF ... rebentou!
- Estou a ver e posso saber como é que isso aconteceu?
- Aaaa ... simples ... o desgrazado do Nico borrou-se nele e ...
- Mas não tinha dito que tinha rebentado?
- Sim, mia filha tentou lavá-lo no tanque mas ... a ... caiu uma bomba e rebentou com o colchão!
- Uma bomba? Meu Deus que tragédia! A sua filha parece estar muito bem para quem ...
- Sabe como é ... las italianas son fortes como leoas e ... também são selvagens na ...
- Então se calhar é melhor ir falar com o Giuseppe para ver se posso dormir noutro sítio.
- NÃO! Já estão todos a dormir e tu sabes que o Giuseppe quendo bebe fica insuportável, se o acordas mais ninguém dorme questa casa!
- Mas ...
- Mas nada! A cama é bastante grande para noi due.
- Está bem.
Mio Dio ... nunca vi tamanha beleza. Aquele corpo, aquele cabelo ... ui que me arrepio toda!
- Que foi isto?
- Nada ... está frio non está?
- Está fresco sim. Dona Bellina? Isto que estou a sentir é o seu pé?
- Non claro que não! Sou uma mulher de respeito a menos que ... tu queiras que o meu pé ...
- Boa noite!
- Pfff ... sapere russo, pensava que eras mais divertido. Que tinhas todas as mulheres que querias, mas estás aqui a negar este mulherão ... algo se paza contigo!
- Será que você não percebe que eu estou apaixonado? E que não há ninguém no mundo que me consiga tirar a Regina do pensamento?
- Eu podia tentar ...
- Dona Bellina! Você tem o triplo da minha idade, não acha melhor procurar alguém mais vel ... apropriado?
- Velhos não!
- Homens maduros.
- Maduros? Eu nem gosto de fruta, amore mio.
- Você percebeu o que eu quis dizer.
- Claro ... eu repeito-te ruzzo, mas se queres que te diga a tua história com a Regina não me pareze que vá resultare!
- E posso saber porquê?
- Não é só o Gil, a rapariga está rodeada de problemas ... o pai alcoólico, a "panelona" que agora a tem na mão ...
- Como?
- Aquela figlia da mãe deve estar com alguma preparada e ... a menina Rosálea está a usar a Regina para chegar a ti.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Perdida entre mundos, achada em Coentros

-Viu-me lá na fronteira, dona Rosália?
- E-eu?
- Sim...foi a senhora que me ajudou. Se não fosse a senhora a esta hora ainda estava lá, ou presa, quem sabe?- Eu arrumava as coisas da minha sacola suja, só me apetecia dormir na noite em que cheguei e por isso as arrumações ficaram para depois. A minha vida não foi nada fácil...Tanta coisa, tanta coisa para agora estar novamente sem o Bóris. Fugiu da prisão? Mas ele não viu que isso só ia complicar as coisas? Enfim, já não sei de nada! Eu fugi porque estava farta de tudo, desta vida, e porque queria ir atrás daquele que ainda hoje é o meu grande amor. Se fui até Paris? Fui, sim. Mas lá só tive chatices. Fiquei numa casa de "colegas da Melanie". Fui bem tratada...atenção! Bem tratada em termos de hospitalidade e simpatia! Não tive cá contactos com outros indivíduos que não o meu grande amor...Como sonhei, deitada naquele pequeno divan perto da marquise. Lembrava-me dos seus beijos, dos seus carinhos, das seus monólogos revolucionários que me faziam calar-lhe a boca com mais um delicioso e libertino beijo. Lembrei-me também dos senhores Bellini, da velhota, do meu amigo Matteo, de quem quero matar as saudades. Saudades das nossas conversas pela noite fora...Tive saudades das meninas Bellini, das suas zangas e diabruras e ainda mais do Nico, o miúdo mais querido de Coentros e mais porco. Ai...Até do senhor Custódio e da senhora Adelaide tive saudades. E do Ismael também, aliás, foi graças a ele que parti nesta aventura! Ainda nem lhe falei direito...Nem com ele nem com toda a gente! Mas agora no baile de máscaras vai ser mais fácil matar as saudades. Fiquei na casa da menina Rosália, que, curiosamente, já não é menina, é senhora. Grandes mudanças. Fiquei lá porque a casa é maior e para descançar. Se ficasse na dos Castro teria de falar de tanta coisa que agora ainda não me apetece contar. Se ficasse nos Bellini, a senhora Belina torturava-me noite a fora não só por causa do Bóris, mas para saber o que tinha feito. Grande jornalista dava a senhora Belina. É o jornal de Coentros. Um jornal internacional. Prossegui então com a minha pergunta:
- Então menina Rosália? Não me vai dizer o que estava a fazer na fronteira às tantas da manhã?- Ela abria cuidadosamente um fato que a senhora Paiva e Castro me comprou para o baile de mascaras.
- E o que é que isso interessa agora, rapariga? Despe-te mas é e veste lá aqui o vestido de noiva!- Vestido de noiva...Meu Deus! Eu deixei o Gil no altar! Como é que o vou encarar agora? A dona Rosália contou-me toda a aventura dele e da Melanie e da dona Bellina, entre outros, para me encontrar e encontrar o Bóris. Deus meu...Como vou olhar agora para a cara dele, depois de ter partido em mil bocadinhos o seu coração? Que horror, fui tão cruel para o Gil. Mas que poderia eu fazer? Ao menos por esta noite de aniversário do Dolce, no baile, estarei mascarada. Não tenho de dar a cara, se é que me entendem. Como irão reagir as pessoas?
- Hum...Primeiro- continuei eu- não respondeu à minha pergunta, menina Rosália e...
- Senhora!
- Seja...e segundo: Eu não me vou vestir com a senhor aqui...
- Não seja por isso eu saio!
- Não antes de me dizer o que fazia na fronteira àquela hora!- Ela já ia a sair quando se virou e disse:
- Eu e o meu marido fomos lá buscar uma encomenda da minha prima Janete.
- De onde?
- França.
- E os correios?
- Hã?
- Normalmente as encomendas vêm por correios...pessoas que trazem coisas...
- Ah! Mas isso...era importante, sabes? Foi entregue em mãos.
- E o que era?
- Ora! Tenho de te contar? Uma pessoa é simpática, ficas aqui para ficares sossegadita e és assim? Veste lá o vestido que é bem jeitoso, vá...- e deteve-se ao pé da porta.
- Hum...dona Rosália?
- Que é agora?
- Saia do quarto.
- Ah, ok- E saiu. Não me cheira nada bem esta história. E não estou ao pé do Nico! Quando me apercebi do vestido que me tinham comprado fiquei espantada...era mesmo de sonho! E deve ter sido tão caro. Uso esta noite e amanha faço questão de o devolver. E...uma máscara dourada. Os senhores Castro são tão queridos...uns verdadeiros pais. Pais? O Quim é o meu pai!! E deixei-o na igreja também a ele! Parece que quando andei fugida as memórias se apagaram...O meu único pensamento, para além do Bóris, constantemente, era " como é que eu vou sobreviver hoje". Não pensei em mais nada. Salvo quando pensava na marquise, à noite. Mas apenas tinha saudades, não pensava, se é que me faço entender...As coisas más, confusas e inquietantes ficaram todas em Coentros. As boas levei-as comigo. Vesti o vestido e olhei-me ao espelho do armário da dona Rosália. Era muito pequeno, só via o meu busto. Foi então que decidi partir à procura de um espelho de corpo inteiro e entrei num quarto. Era o quarto dela, da senhora menina Rosália. Só havia fotos dela espalhadas por todo o lado. Fotos com paisagens atrás que se viam que eram falsas, fotos na praia com um fato de banho às riscas, fotos dela num piquenique, fotos dela com a família e...espera...há duas meninas Rosálias? Iguais. Como duas gotas de água, na foto com menos 10 anos, é certo, mas...a menina senhora Rosália tinha uma irmã gémea!! Nunca contou a ninguém...porque será? E se...não. Adiante. Procurei um espelho grande e encontrei: Estava ao lado da janela do quarto mesmo ao lado da mesa de cabeceira que estava mesmo ao lado da cama cheia de folhos e flores e mil almofas de renda. Olhei-me ao espelho e fiquei sem reacção. Nunca na vida me tinha visto com um vestido assim e percebi que não era tão feia como me sentia. Cheguei a pensar como foi possível o Bóris gostar de mim...Não tenho nenhum atractivo! Mas com aquele vestido eu estava uma diva. E os sapatos? Ficava mais alta uns centímetros. Ainda bem que brinquei com os sapatos da minha mãe em pequena, porque agora ajuda a andar com aqueles sapatos que, apesar de não serem nem de perto iguais aos da minha mãe, têm salto. E a máscara? Ficava misteriosa, exactamente o que eu queria. Saí do quarto e fui me arranjar. Chegando à hora fui ter à sala, levando uma bolsinha que também a senhora Paiva e Castro me emprestara. O marido da dona Rosália: A sua máscara: Ele mesmo: Oficial do exercito alemão.
- Bem, gapagiga, estás muito bem aganjada! Olha lá! Não há gusso que te escape assim!- "gusso", soa tão mal...
- Obrigada, senhor "gusso", digo, senhor...
- XARAM!- A dona Rosália entra na sala. Tinha um vestido do século dezoito, pelo que estudei na escola.
- Gostam? Tenho conhecidos no teatro...emprestaram-me.
- Amog! Estás uma pguincesa! Mas agoga como é que sais do hall de entgada?- Esse foi o problema. Para sair, para andar na rua e até para entrar no restaurante. Eu, que queria ser o mais discreta possível, tive de levar com os olhares de gente admirada e assustada por a menina Rosália estar presa na porta do restaurante. Aquelas ancas do vestido eram demasiado largas. Cá para mim, é vingança de alguém. Por favor! Até na rua os cães ladravam e as crianças choravam quando a menina Rosália passava. Não fui discreta, portanto. A sua chegada foi anunciada pelo choro do Nico, uma pequena abelhinha com ferrão que fiz questão de abraçar mais tarde. Depois, segui-se o episódio das "ancas presas" era o alemão a empurrar de fora para dentro e os convidados dos Bellini a puxar para dentro. Um escândalo. No meio daquilo tudo, tocava a um canto um quarteto de cordas, que alegrava a malta tocando uma tarantela italiana, rápida, inspirada no puxa empurra da dona Rosália. Durante este episódio, matava saudades do restaurante a olhar para as mesas, para a decoração e para o...Gil? O Gil não estava vestido de noivo, como da última vez que o vi, mas de padre. Estava a um canto, a preparar qualquer coisa, nem me viu. Óptimo, estarei assim tão diferente? Olha...o Dário. Estava tão engraçado. Imaginem só! Vestido de mulher...quem diria?Uma mascara de penas e plumas rosas tapava-lhe o rosto. Estava ao balcão. Estranho.Cheguei-me ao pé do balcão e vi que preparava molhos.
- Se esse molho é para mim, prefiro sem nós moscada- Ele olhou para cima e estagnou.
- Sim senhora...a única pessoa que não gosta de nós moscada é...Regina és tu, amor!!! Amiga!! Estava a ver que nunca mais vinhas!
- Shhhhhhh! Não quero que meio mundo fique a saber que cheguei- Naquele momento a dona Rosália é solta da porta.
- Obrigadinha!- grita ela de braços no ar- Está tudo nos conformes!- Os músicos seguem para o fim da tarantela e as pessoas ou dançam ou comem da imensidão de comida italiana que havia. O Dário, entretanto enchia-me de beijos viscosos na cozinha. Tirou-me a máscara para me ver bem a cara, abriu-me bem os olhos, mediu-me o pulso e apalpou-me o rado.
- Tudo no lugar!- disse ele- Agora, vamos voltar para a festa, amor. Aquilo está um máximo- eu ia-me a virar para voltar para a festa...- Regina, amor, espera- disse o Dário. Há uma coisa que te quero contar...
-Hoje não, Dário, por favor! Hoje só me quero divertir...
- Como queiras, fofa!- disse ele pondo a mascara na cara e levando-me para a festança italiana. Bois, abelhas, fadas, mulheres do século XVIII com ancas do tamanho do globo terrestre, ciganas, minhotas, divas, capuchinhos esquisitos, padres a fingir, padre a sério, mosqueteiros e duendes, mulheres homens e homens mulheres e...príncipes? Tudo se viu naquela festa. Estava sentada numa mesa, com a senhora Castro, que apenas se limitou a levar uma máscara de cara que valia por todas as outras da sala quando alguém me estendeu a mão. Um príncipe. A tarantela já não era tocada e no salão dançava um boi e uma cigana, o senhor Belini e a senhora Francesca, ao som de uma música também italiana, mas uma música mais lenta. Aceitei o convite do estranho que apenas me estendeu a mão. Surgiram mais pares na pista e nós éramos agora mais um deles. A minha mão pousava no ombro dele e a sua tocava na minha cintura num envolvimento estranho e não totalmente desconhecido. Tinha uma mascara que lhe cobria o rosto todo. Se ao menos tivesse apenas os olhos tapados...Mas não. Comecei a falar durante a musica e alguns encontrões da menina Rosália, encontrões esses que ela não sentia. As suas ancas haviam ganhado vida própria e dançavam uma para cada lado.
- Esta música é bonita.
- Hum, hum- respondeu ele. Cheirava tão bem.
- Este quarteto é mesmo bom.
- Hum, hum- respondeu ele. Cheirava tão bem.
- O senhor é daqui de Coentros? Nunca o vi por cá...Bom, também andei um pouco por fora estes tempos porque...Bom, não interessa o porquê...-Naquele momento começámos a dançar mais para o lado da porta do quintal, começa-mo-nos a desviar, por assim dizer. Eu não disse nada, poderia até ofender o cavalheiro. Mas ele abre a porta do quintal e seguimos a nossa dança, sem ninguém notar, pelo jardim a fora. E paramos ao pé da fontezinha que o senhor Guiseppe fez para embelezar o pequeno jardim. Naquele momento, sem tantas luzes e cores e música alta, com apenas o som miúdo do quarteto, que tinha ficado na sala de festas, consegui ver o luar reflectido nos seus olhos. Pensei: Isto é demasiado romântico, o que estou aqui a fazer eu amo o Bóris. Mas naquele instante:
- Talvez a mim me interesse o porquê de teres fugido...- Semiserrei os olhos e olhei bem nos dele e, lentamente, aproximei-me do príncipe. Levantei a minha máscara. Suavemente fui levantando a dele. Surgiu um beijo demorado. Era ele, o meu amor. Não houve gritos, nem abraços exagerados nem muitas palavras.
- Estou com os Bellini, mas ninguém pode saber.
- Está bem...mas porque fugiste?
- Isso não interessa, Regina...O que interessa agora é que finalmente estamos juntos. Onde andas-te? O que fizeste? Deixas-te o Gil, viste o meu diário, o Dário contou-me e...
- HEI! MES AMIES! VAMOS CORTARRR O BOLO DO DOLCE PRAZERR!! Não querrem virr? AH! E a velha Belina vai fazerrr striipp tizeeeeeeeee! Borra?- Quem mais poderia ser? Melanie. Melanie bêbeda. Sem capuz, já. No momento em que entrou de rompante pela porta do quintal o Bóris virou-se para a lua, de costas para ela. E se querem que vos diga, mesmo que ela o tivesse visto ela nunca se ia lembrar. Naquela noite tive de falar com muita gente mas só um não me falou: O Gil. Tive de dançar com alguma gente mas só um me fez feliz: O Bóris. Tive de ver muita coisa mas só uma me chocou: A dona Bellina, vestida de "Minhoca de croché", pelo menos era o que dizia de que estava vestida, argumentando que era uma maneira de se manter quente e estar linda...Ainda me chocou mais quando lutava contra as malhas da sua "máscara" para dazer um "strrriiiipe teeezêêê!!!", como dizia a Melanie bebendo de um em um, humm...deixa ver...segundo, um copo com qualquer coisa. Até podia ser álcool puro.Ainda bem, e não sei como, que o Nico dormia ao meu colo quando tal acontecimento se deu. Pobre menino e pobre de mim. Olhei para ele, era tão fofinho e gordinho, e lembrei-me de que ficou mesmo muita coisa por dizer ao meu grande amor.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O olhar de uma criança ... perdão ... um homem!

Parece que a festa vai ser já esta sexta-feira. A mãe tem andado muito atarefada a preparar tudo e nos intervalos aproveita para fazer o meu fato. É uma coisinha ridícula, cor-de-rosa, com botões e cheio de remendos em tons semelhantes, já que o tecido não chegou. A verdade é que estou um pouco para o cheinho, quiçá obeso, mas a minha mãe acha que eu estou perfeito. Chama-me "porquinho". Sim e o meu disfarce vai ser esse. Eu perdoo-lhe pois é mulher e elas tendem a olhar para o mundo de uma forma pirosa, sonhadora e ... estúpida! Mas pronto o que se pode fazer, apesar de tudo faz um pudim de banana divinal e por isso está perdoada.
- Mio bébé está tão lindo! Coza fofa da mamã!
Eu dou um risinho irritante para ela se derreter e me deixar em paz depois de um último "aperto" de bochechas. Queria ver se ela gostava se lhe fizessem o mesmo! Ás vezes ouço o meu pai a tentar as "bochechas" mas a resposta dela não é um risinho irritante mas antes uma chapada ruidosa seguida de um "abuzado".
Como está na hora do jantar a minha mãe desceu para ajudar no restaurante. Aproveitei para gatinhar até ao quarto do russo para continuar a minha leitura. A mamã ainda não mexeu no quarto desde que ele saiu, em parte porque a avó não a deixa, diz que ele vai voltar e por isso não se vai mover uma cadeira que seja. Ela vai para lá todos os dias, abre os armários, tira as roupas das gavetas e deita-se na cama abraçada a elas. Cheira-as, beija-as eu tenho impressão que a velha tem andado com as cuecas dele vestidas.
Bom, mas eu tenho é de procurar o livro ... ora eu deixei-o em cima da mesa-de-cabeceira. Onde está o livro??? Mas ... eu tinha-o deixado aqui tenho a certeza! Desatei a chorar.
- Qui foi mio amore? Tens cocó?
A consideração que esta mulher tem por mim! Ou está com fome, ou borrou-se ... francamente, este é claramente um choro de "mãe auxilia-me na procura do livro Crónicas da Batata Ferida de Dimitri Tuberculov"!
- Oh pobrezito! Devem ser cólicas ... mama chega aqui por favore!
- Le amore di mi vita voltou?
- Non mama, o Nico está com cólicas!
- Qué puto maricas.
Já te digo quem é o maricas velha trabiteira. Levanto-lhe a saia e ...
- Ah!! Maledito ... vais levar umas palma...
- MAMA? Essa cuecas são de ... MAMA!
- E depois? E-eu fiquei sem cuecas e ... tu não lavas as minha cuecas tenho de me arrandjar!
- Por amore de Dio tiro isso mama.
- Pronto, pronto!
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! Ponha de novo! Ponha de novo!
Nunca na minha vida pensei ver a ... intimidade de uma senhora de idade e prefiro não ter de assistir novamente ao ...
- Oh vomitou! O mio porquinho ... o almozo fez-lhe male. Pronto já passou!
E pronto, mais um dia que fiquei na agonia de não saber o que aconteceu à batata soviética ... se foi cozida ou assada. A mamã deitou-me na minha cama e apagou a luz. não tinha sono e fiquei a olhar para o tecto e a ouvir o barulho vindo do restaurante. A noite foi concorrida, ouvia-se muita gente a falar mas não conseguia perceber o que diziam. Depois comecei a pensar no meu fato, aquela coisa horrenda e cor-de-rosa, posso ser apenas um bébé mas tenho uma reputação a manter. O Jean-Paul também vai cá estar e vai me torturar a noite toda se me vir naquele estado. Tenho de fazer alguma coisa.
Os meus pensamentos foram interrompidos por um grito. Pareceu-me ouvir a Panelona a falar e depois a minha mãe gritou qualquer coisa que não percebi. Depois ouvi alguém a subir as escadas a correr, passos no corredor que param junto à minha porta. Fechei os olhos fingindo estara dormir.
- Nico? Estás acordado filho?
Mesmo que estivesse a dormir ela fez-me o favor de me levantar da cama. Levou-me para à rua. Estava muito frio e a chuviscar. Tapou-me com o seu casaco e entrámos num carro. Para onde será que vamos?
A viagem foi curta, menos de 10 minutos. A mamã e o papá deixaram-me a mim, às gémeas e ao meu irmão na casa dos Paiva. Despediu-se dizendo que iam fazer uma curta viagem e que estavam de volta na manhã seguinte. Deve ser grave para terem fechado o restaurante tão cedo. O senhor Paiva e Castro segurou-me ao colo. Gosto do homem. Inteligente e de poucas palavras, a primeira a pessoa que me trata como um adulto. Levou-me à janela para os ver partir. O carro era do marido da Panelona. Ele ía a conduzir com a esposa ao lado, a mamã e o papá vão no banco de trás. Coisa estranha!
- Não te preocupes os teus pais foram tratar de uns assuntos.
Olhei para ele com ar de quem quer mais informação ... ele percebeu-me.
- Parece que a minha Regina está na fronteira mas não consegue entrar no país porque não tem identificação. Eu bem queria ir ter com ela mas a Malú não me deixa, diz que estou velho para estas coisas.
Tentei transmitir-lhe, novamente através de um olhar, que as mulheres não percebem nada de ... coisas. Ele percebeu-me.
- Tens razão Nico eu devia ter ido. Não confio naquela mulher.
(Na minha mãe?)
- Não. Na Rosália, ela quer alguma coisa não ajuda as pessoas sem outra razão ou algo que lhe convenha. Ainda estou para perceber como é que ela soube onde a Regina estava.
(Deve ter sido através do marido.)
- Não ela sempre teve problemas de reumático!
Ele não me percebeu.
Dormi confortávelmente numa caminha de menino crescido, desculpem, numa cama de homem. Fui o primeiro a acordar e por isso resolvi dar uma volta pela casa, estava curioso para conhecer a biblioteca. A casa é grande, tem dois andares. Como todos os bébés odeio escadas e por isso rezei para que tudo o que me interessa-se estivesse naquele piso. As escadas são complicadas e não percebo como se utilizam. O meu percurso foi subitamente interrompido.
- Oh qui coisita mais fuofa!
Uma empregada espanhola, era só o que me faltava.
- Tão gordito.
Tentei ignorá-la mas ela pegou em mim e não pude fazer nada. Beijou-me, beliscou-me, abraço-me ... bolas que rapariga carente! No último abraço fiquei sem ar. Quase que desfaleci!
- Que está você a fazer? Deixe o Nico em paz não vê que a criança está roxa?
- Perdon senhore Paiva.
- Vá trabalhar "senhorita".
- Desculpa Nico não te falei da Pilar a nossa empregada. Ainda bem que estás acordado quero-te mostrar uma coisa.
Parece que leu os meus pensamentos. Levou-me à biblioteca e percorremos as estantes, as prateleiras ... foi mágico! Tentei dizer-lhe "adopte-me" com os olhos mas ele mais uma vez não percebeu. Acho que perdemos a nossa ligação.
- Eduardo! A Gigi chegou!
- Gigi!
E pronto. Quase que me deixou cair ao chão. Beijou-a, abraçou-a enquanto chorava desalmadamente. A rapariga estava diferente. Continuava bonita, mas estava magra e com um ar cansado. Deve ter tido uma viagem dificil.
A Panelona estava à porta com um ar misterioso, como se estivesse a planear alguma coisa. Depois veio juntou-se aos outros e anunciou que a Regina ía ficar na casa dela e não voltaria a trabalhar no restaurante. O Eduardo protestou mas a Regina nada disse. Saiu com a Panelona e o marido e nem se despediu.
Evitou-se falar na Regina, principalmente por causa do russo. Todos sabiam que estava fugido e não queriam que ele fizesse uma loucura e fosse apanhado novamente. A policia começou a desconfiar do padre e o papá ofereceu-se para abrigar o russo novamente. Volta hoje à tarde. A avó ainda não saiu da banheira, tem estado de molho a manhã toda. O Gil tem andado pela casa a protestar por causa do russo e a exigir que lhe contem sobre o paradeiro da Regina.
Para acalmar as coisas a mamã pediu para que ele e o Amadeu fossem ao mercado a "Trombas" para não haver confusão. Eu aproveitei e vomitei o meu fato de porco e a minha mãe começou a fazer um de abelha. Sempre é uma cor mais masculina.
O russo chegou descretamente pelas traseiras. E descretamente a minha avó atirou-se a ele.
- Amore mio!!! Nunca mais vais fugir de mim!
- Senhora Belina tenha calma. Não quer que me apanhem pois não?
- Claro que no. Vo parlare mais baixo amore!
- Deixe o homem mama! Vamos venha para cima o seu quarto está na mesma à espera que regressa-se.
- Obrigada. - disse o russo dando-lhe um beijo na face.
A minha mãe corou. Eu não sei o que é que aquele homem tem mas é o meu herói. Quando for grande quero ser como ele!
- Eu sei que pode paredzer cedo mas ... vamos ter a festa amanhã e ... eu arranjei-lhe um fato! Era do Giuseppe, mas agora não lhe serve. O desgrazado engordou!
O russo riu-se. Era o fato de principe do meu pai. "Princeppe Encantado" como ele sempre dizia. Não sei porquê mas acho que ele não gostar nada disto.
- Não posso aceitar! E o seu marido?
- Não se preocupe, o Giuseppe já tem fato! Fiz-lhe um que lhe serve que nem uma luva ... Boi! Com cornos e tuto!
- Está bem, então aceito.
No dia seguinte as coisas não foram tão pacíficas ...
- O Quê??? O meu fato???
- Sim Giuseppe acho que é bom mudar ... e tens de admitir qué engordas-te muito desde o ano pazado.
- Engordar ??? Io?
Ela lá o convenceu com um segredinho seguido de um sorriso malandro e é claro que eu sei o que isso significa. Ela vai devolver-lhe as botas de cowboy que lhe tirou na última vez que o apanhou com outra, envergando as ditas botas.
O fato de abelha não ficou nada mal. Tinha um ferrão e tudo ... o Jean-Paul ficou cheio de inveja. Aquele menino da mamã estava vestido de mosqueteiro ... espera lá! Ele tinha uma espada! Também quero buááá!!!
A Melanie estava muito produzida. Eu nem percebi qual era o disfarce dela, mas todos os homems ficaram a olhar para ela especados mal ela entrou. Tinha um vestidinho curtinho, apertadinho e com uma cor esquesita, era ... quase cor de pele e ...
- Transparente? Melanie vai por alguma coisa ... tapa-te com a capa ao menos!
Quando a mamã disse aquilo os homens começaram a olhá-la de forma maldosa. Depois é que reparei que a Melanie tinha um cestinho. Era o Capuchinho Pelado (na verdade ela tinha lingerie por baixo, mas o papá achou o nome engraçado).
Foi então que ela entrou. De vestido branco e longo, com o cabelo negro apanhado e uma máscara dourada. Estavam todos embasbacados com tamanha beleza. Percebi que ninguém a tinha reconhecido, mas eu vi logo que era a Regina. O russo também a reconheceu quando o vi estender a mão e a convidou para dançar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Salsa? Ou...Una mascherata!

- Amadeo portare la tavola! Gil lava il balcone! Dário prepara le salse! Mio amore, Francesca, non mettere più pepe nel cibo! Senhora Belina ... Fare qualcosa! Ma perché quella ragazza, Regina, tinha de partire? Perché, mio Dio??- Estava com ils nervos em franja, é vero, ma por una bonna razão! Il mio ristorante está cheio! Ma non é bello? Eco! Gente! Gente! Gente! Milhões de pessoas vêm de todo o lado de Moscardo! E tudo reclama, perché non temos muitos empregados...
- Senhor José, não temos mais salsa para o molho, e agora, amor? Que vamos fazer??
- Calma, Dário! Calma!
- Amore, dov'é lá cenoura para picar?
- Senhor Guiseppe, precisamos de mais guardanapos...
-Oh Maledeto, trás-me las pantofoles!
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH- gritei- Não lhe vou buscar as pantufas,
Sua vecchia noiosa e brutta! E...vou sair!
- Amore? Mas perché! Alora non!
- Non Francesca, agora si! Ma dov'è il Matteo? Dona Belina! Ma dov'é il tuo neto?
- Las pantofoles! Sem as mias pantufas non falo!- AHHHHHHHHHHHHHHH! Fui me embora e atrás de mi bloccato la porta del ristorante. Finito! Que inferno! Mamma mia! Ma que vida la mia! E que raio de vila esta Coentros! Allora il russo fugiu da prisão! Foi uma fuga planeada, segundo il povo conta. Parece que foram dois homens fortes e uma rapariga franzina, mas também ela esperta que tiraram il russo de la prisão e deixaram inconscientes dois guardas! Guardas esses que estão hospitalizados e...Immaginate: Os dois non se lembram de nada! Uma confusão! Mas Coentros está louco! Anda tudo cheio de guardas loiros e até la "panelona" está casada! Que confusão! A rua estava deserta, parecia que tuto o que era gente estava no ristorante, ma que cosa! Gritei: MATTEO! E um bando de pardalito assustou-se e volò. Porca miséria! Dov'é quello bandino? Ah...anda atrás da francesa ou da espanhola...
- Dário?- Vejo Dário, mio molhista, sair do ristorante e ir a casa do sacerdote! Ma que maledeto! Il ristorante está cheio de boca para comere! Fui atrás dele. Devia ir buscar salsa...No caminho encontrei Quim, il bebado que costumava estar no mio ristorante.
- Olá, senhor italiano mais velho!
- Quim, como stai?
- Não, não comi nada hoje, só bebi...alias, tenho aqui ainda uma gotinha...ahhh...ja está. Agora mesmo que lhe quisesse oferecer já não tinha nada, é a vida.
-Non...Só estou aqui a respirare um piccolo, perché hoje il mio Dolce Piacere está cheio de faminto!
- Ah, mas isso é bonzinho, não é?
- Eco. Ma non tenho gente para trabalhare...
- Ai! Não tem o camandro!
- Come?
- Come nada! Bebe! Vai um golito?
- Non! Que bafo de licore! Eu cheio de problema e tu so sabes beber!
- Epá, vamo lá com calma, oh senhor italiano! Aqui o Quim sabe de uma pessoa, Iph! Desculpai-me, que quer trabuquir.
- Sapete?
- Mau...já não é para o restaurante? Agora é sapateiro?
- Non, non, diz-me grande bêbado, quem é! Perché assim non consigo manter o negócio, et quello ristorante é la mia vita!- Então, o bêbado, levou-me até à casa do padre, ou será que fui eu que o levei? Ao entrarmos na casa, depois de muitas tentativas de abrir a porta com a chave...
- JARAAAAAM! Tás a ver o loiro sentado na cadeira? O russo...Ele tava a dizer ontem que queria arranjar trabalho!- Ele levantou-se rapidamente e ficou espantado. E io???
- Senhor Guiseppe, sente-se- o russo foi me buscar, fechou a porta da rua e sentou-me no sofá.
- POLICIA!
- Não!- disse il russo- não, por favor! Eu não fiz nada...
- Comunista!
- Não! Espere, sim! Não! Espere, senhor Guiseppe, por favor, não me denuncie, por favor...
- Ma tu raptas-te la nostra Regina...
-Não! Não, por favor! Acha? Ela fugiu, aliás eu estou só mesmo a tentar arranjar dinheiro para ir ter com ela...Quim, porque foste contar?- Ma Quim já estava dormindo no sofá.
- Ele estava bêbado...- disse eu- Ma figlio...non podes ser um fora da lei!
- Eu sei, senhor Guiseppe...mas...- Entra alguém de rompante pela casa.
- Dário? Tu aqui ragazzo? Ma tu...
- Oh!- disse la bicha- russo? Oh! Não! Hum...err....um russo!!!
- Calma Dário!- disse io levantando-me do sofá- Ele non fez mal a ninguém, não vas denuncia-lo!
- Não, não, não vou...oh...Mas russo, amor, tu por aqui?- Algo não me estava a fazer acreditar que o Dário non sabia...Io tinha o visto ir lá da prima vez!
- Ma tu non tinhas vindo cá buscar salsa?
- Eu?...Ah...mas não vi nenhum russo, senhor Guiseppe...Aliás, vou deixa-los! Adeus!- E saiu porta fora.
- Bóris, o padre sabe que tu stas aqui?
- Sabe...Ele, o Quim e o Dário...e agora o senhor.
- Attendere! Espera! Il Quim e il sacerdote sono li due uomini forti? E Dario e il ... Oh! era la bambina que o povo anda falando!- O Bóris non sabia de nada do que se passava fora da casa do padre.
- Agora só preciso de dinheiro para ir em busca da Regina. Sem dinheiro não consigo...
- Hum...aspetta um piccolo, ragazzo...- pensei eu- Já sei! Daqui a quatro dias é o secundo aniversário do Dolce Piacere e noi estávamos a pensar fazer una festa!
- Mas como é que isso me pode ajudar?
- Buonno, para agradar aos bambini nós concordámos em fazer o que eles queria: una mascherata!!!- Ele ficou com cara de parvo.
- Hã?
- Un baile de máscaras, mio Dio!
- Mas como é que isso me vai ajudar?
- Prima: Algum dinheiro da festa vai ser para ti e dopo tu podes aparecere sem te esconder...Tens una mascara! Ma,spiacente, ma tenho de dizer à mia Francesca...
-Não...
- Então, non há dinheiro!
- Combinado!
- Eco! Allora: Vamos ver o que Francesca diz! Ma ela é una bella donna, um dolce, ela vai compreender.
- Obrigada, senhor Guiseppe, por tudo. Por me ter ajudado tanto e por me estar a ajudar tanto agora!
- Oh, ragazzo! Tu és un uomo in amorato, come io...L'amore é la cosa più bella in questa vita! Ah! E mais una cosa!
- Diga, diga!
- Tens salsa?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Cães de louça

- Wolfgang está acordado?
- Sim chuchuzinho, deseja alguma coisa?
- Deixa-te disso não está ninguém a ver-nos, toca a levantar! temos muito que fazer hoje.
- Pgonto já vou. Vou tomage um banho e já desco liebling.
- Mau, mau deixa-te de lamechices!
Este homem tira-me do sério. Eu que nunca gostei de homens ando agora com este calmeirão cá por casa, a deixar as cuecas por aí espalhadas, arrotar à mesa e a beber o leite directamente da garrafa. Santa paciência!
- Estou pepgagado quegida.
- Tens a aliança?
- Opss, obgigado docinho!
O pior é fingir estar apaixonada pelo dito ... homem. Faço um esforcinho e agarro-me ao braço dele. Quando as pessoas passam junta-mos os lábios rapidamente. Ele tem andado a abusar ultimamente e por isso acabaram-se os beijos. Eu faço os possiveis para não arranjar suspeitas e por isso ando sempre alerta. Claro que sei os boatos que se circulam sobre mim. Aquele nome "panelona" que as crianças gritam por aí, os olhares vindos da Celestina, os comentários no restaurante e na própria drogaria. Mas eu não tenho tempo para perder com essa gente e não dou satisfações a ninguém.
A verdade é que esta gente é fácil de iludir. Ora eu desapareço do nada e volto casada, e alguém se lembra de me perguntar porque desapareci? Claro que não. Estão mais interessados no meu casamento devido às suspeitas que por aí havia. E é melhor assim, afinal não seria nada bom que descubrissem a verdadeira razão que me levou à Alemanha. Este país está cheio de estrangeiros malfeitores, bandidos e assassinos que vieram arruinar a paz do meu lar. Italianos, russos eu sei lá e agora os furagidos da guerra. Os judeus entram aqui e tomam conta de tudo. É só privilégios para os coitadinhos, e para nós as pessoas trabalhadoras que sempre deram a vida pela pátria ... nada! Ficam com os restos. Isto tem de acabar!
Decidi partir no momento em que estes inúteis estavam demasiado ocupados com os acontecimentos das suas vidinhas insignificantes. Ninguém me impediu ou questionou e suspeito que só deram por minha falta dias depois. Tenho família na Alemanha, gente importante. A minha prima Lucrécia é casada com um general alemão que é irmão de padeiro em Berlim. Padaria essa que é a preferida de Hitler e foi assim que o marido da Lucrécia conheceu o chefão. Ora eu fiquei hospedada na casa deles. Uma mansão enorme, com todos os luxos que se possam imaginar. A guerra não afecta os ricos e poderosos. O marido da Lucrécia apenas participa nos desfiles, levanta o bracinho e ouve os discursos, o resto do tempo está estendido no sofá a fumar charutos, na caça com os amigos ou metido num cabaret de volta das meninas da má vida.
Até que houve um dia que a Lucrécia recebeu convidados especiais. Sim, Hitler e os seus compadres foram jantar lá a casa a convite do Albert. Eu estava chiquissima nessa noite. Tinha um vestido de veludo azul e uma gargantilha de diamantes, o cabelo ao alto e uns sapatinhos pretos de verniz. Fiz sensação. passei-me pelo salão com um ar distante e desinteressado e logo chamei a atenção Führer.
- Gute Nacht dame!
- Ai senhor Hitler ... eu ... sou uma grande fã sua! Desculpe estou um bocadinho nervosa. O que é que disse?
- Oh priminha mais respeito. Sua excelência cumprimentou-te, agora levanta o bracinho e repete comigo ... Heil Hitler!
- Ai Hitler?? Mas isso é estúpido e ...
- Heil Hitler! - respondem todos em coro.
- Agora já podem falar.
- Mas Lucrécia, eu não percebo uma palavra de alemão! E não me parece que sua excelência perceba português.
- Aí é que se engana minha quegida! Vivi uns anos em Pézinhos-de-Lã e sei falag em pogtuguês pegfeito, modéstia à pagte.
- É o destino! A minha mãe era de Pézinhos-de-Lã! Passávamos lá os Natais.
- Que facto tão bonito meine liebe. Quegue dag-me o pgazeg de me acompanhague ao jantag na minha mesa?
- Será um prazer!
Falámos de tudo e mais alguma coisa. Das ruas de "Pézinhos", dos nossos pratos favoritos, dos filmes que gostamos, música, política internacional eu sei lá ... ah e no fim acabei por descobrir algo extraordinário ... partilhamos o ódio por judeus!
- Eu digo-lhe Hi, posso tratá-lo assim? Bom o que eu mais odeio nos judeus é o facto de serem individuos extremamente bem sucedidos e inteligentes que fazem parecer o comum dos mortais um completo asno. Eu sou uma defensora convicta de que o sucesso da pessoa deve ser baseada na ... batota! E você? Qual é o seu motivo?
- Cheigam mal dos pés.
- Ah ... pois, realmente é uma boa razão. Está bem visto sim senhor.
- Sabe minha quegida você é a pessoa mais integessante que conheci esta semana. Eu sei que isto da guegga paguece divegtido mas é uma chatisse. Dá pgezuíso e as manchas de sangue custam a saig. Não que eu me meta no meio da gentalha que está a lutag pelas minhas convicções, é que não tenho jeito nenhum paga fazeg a bagba e estou sempge a cogtag-me. Dito isto, peça-me qualqueg coisa e eu fagei pog si.
- Qualquer coisa?
- Qualqueg coisa.
- Bom ando com problemas na minha aldeia ...
Contei-lhe o meu plano, contei-lhe acerca do comunista e do judeu que por lá anda. Convocou os seus homens de confiança e disponibilizou alguns deles para me acompanharem. Foi aí que conheci o meu "marido", achei que era uma boa maneira de disfarçar perante os vizinhos e para acabar com a "panelona". Quero voltar a viver feliz na minha casa, feliz na minha vila. E também envolve outros assuntos que não vou revelar para já.
- Obgigada senhoga ... com a sua ajuda Pogtugal segá meu!
- E já agora ... sempre sonhei em ter um par de cães de louça na entrada da minha loja e ...
- Feito! Vou mandage fazeg um pag de canitos em ougo!
- Eu preferia em louça mesmo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Foi chiquérrimo!

- Percebes-te tudo, meu filho?
- Percebi, senhor padre...O Dário finge desmaiar, o senhor depois passa-me as chaves, corro, troco de roupa com o Quim.
- Então? Já não chega de falatório e pecadinhos?- disse o guarda, o Zé, um fofo.
- Ah! Sim- disse eu- falta só um pecadinho pequenino...Mas como está tão sozinho eu vou lhe fazer companhia e deixar este senhor se confessar em paz.
-Não, não se incomode...
- Faço questão! Até porque não é de bom tom estar aqui a ouvir o que este belo macho fez de mal na vidinha...Vá, vamos lá os dois conversar! Por acaso viu por aqui o Silva?- perguntei.
- Não, ele foi visitar a mãe.
- Óptimo!
- Óptimo?
- Claro, assim estamos mais...à vontadinha!- Nunca trocaria o russo pelo Zé Carlos! Oh, Cristo! Nunca na vida, isso seria um grande pecado, um pecadão! Mas pronto...Lá teve de ser. Ah! Já me esquecia:
- Bóris!- sussurei para o russinho, antes de seguir atrás do Zé- se o plano A não der certo, parte para o plano B!
- Hã? E como é que eu sei qual é o plano B??
- Vais saber!! Beijos.- E lá fui eu atrás do Zé Carlos. O Zé Carlos sentou-se numa cadeirinha de madeira, logo à saída das celas e eu fiquei em pé, a olhar para ele e para o guarda que organizava uns papeis numa secretaria ranhosa mais à esquerda. O silêncio era um horror.
- Está húmido...Ainda apanha aqui uma daquelas doenças dos ossos que agora se ouve tanto falar!- disse eu- Não o aflige?
- Nã! Sou forte!
- Lá isso é...E agora é guarda? Que giro...O que mais ambiciona?
- Hã? Não percebi.
- Nada, deixe estar...Está mesmo fresquinho aqui, possas! Estou a ficar com friozinho...Não tem uma mantinha?
- Não tenho cá nada dessas coisas...só uns cobertores nas celas.
- E não me quer ir buscar um? Estou a morrer de frio...Este Inverno tem sido gelado...Não acha?
- Sim, mas não tenho autorização para abrir as celas, peço perdão- Foi então que decidi que tinha de agir! Comecei então a encenar. Sempre tive jeito para o teatro, sou tão gira!
- Ai...Atchim!!
- Santinha! NHO! Desculpe...
- Ai...estou a sentir uns calores...Uns calafrios, uma dor de cabeça uma...acho que vou desmaiar!!!- encostava-me a uma parede fria daquela espelunca, a minha mão pousava suavemente sobre a minha testa e revirava os olhos de uma maneira tão doce que até me fez chorar de emoção...O que foi bom.
- Não vai nada desmaiar!- disse o Zé Carlos, levantando-se rapidamente da sua cadeira, assustando o seu coleguinha fofinho da secretária. Ai, que corpo! E a farda de guarda? Um xuxuzinho! Deixei o Zézinho se aproximar de mim e caí-lhe nos braços docement! Que musculos!
- Epá!! Oh Pascoal! Ajuda aqui que a bicha caiu!- Disse o Zé comigo nos braços. Naquele momento...
- Dário, meu filho!
- Senhor padre! Ele ou ela desmaiaram!
- Espere- disse o padre- tente deita-lo na secretária!- Esperto, o senhor padre, sabe a toda! Será que é gay? Bom, naquela coisa de me pegarem pelos ombros, de me pegarem pelos pés de me...oh! Que homens! O senhor padre zuca! Tira as chaves do bolso do Zé...Oh, Deus misericordioso! Ele mexeu no bolso dele! Porque é que tenho de ficar com os papeis mais frágeis? Não esperavamos que ele tivesse guardado as chaves no bolso, na verdade pensavamos que estavam penduradas na parede, por cima da cadeira dele, mas não...só nos dificultou a vida e o plano!
- Então, senhor prior? Onde é que está a pôr a mão?
- Ah, meu filho, Zé Carlos, isto é uma nova lei da igreja!
- Hã? E porque é que tem as chaves na mão?
- Hã? E-eu? Ah, isto...Pois, simboliza as chaves do céu! De S. Pedro, o guardião do paraíso!- Mas o Zé Carlos não é tão burro como isso. Ia se lançar ao padre (quem me dera) para lhe tirar as chaves da mão, quando de súbito eu acordei.
- CORRRAAAAAAA! PLANO B! PLANO B!- Gritei eu agarrado ao Pascoal, aquele que quiçá, um dia, será o meu amante quando me casar com o Bóris, isto se a Regina o regeitar...O que não vai acontecer, ou seja, Pascoal, meu amor, és meu. Ao ouvir o meu grito, o padre transformou-se num verdadeiro...hum...homem! Beijou o seu terço de madeira, que trás sempre ao pescoço, arregaçou as saias e, com as chaves na mão, correu como o vento até à cela do russo, que o esperava ansiosamente belo. Para dificultar a tarefa aos guardas, agarrava com unhas e dentes o Pascoal e tentava beija-lo, ali, selaríamos a nossa paixão repentina. No entanto, sou só um e não consegui impedir que o Zé Carlos corre-se atrás do padre, que só dizia "perdoai-me senhor". Não consegui por muito mais tempo segurar o Pascoal, ele era forte e másculo e atirou-me para o chão num acto sedutor de violência. Caí no soalho como uma menina desamparada e fiz beicinho, transportando o meu lábio inferior para a frente e fazendo-o tremer como se estivessem sete graus negativos. Mesmo assim, sem saber porquê, o Pascoal não se rendeu, e sendo assim, tive de pegar numa cadeira e dar-lhe com ela na cabeça, quando se preparava para seguir atrás do Zé e do senhor padre. Fez um estrondo enorme e pensei: "É por uma boa causa, amor, um dia vais me perdoar...". Depois lixei-me par ao Pascoal! Corri atrás dos outros e ainda consegui ver o Zé Carlos tropeçar no Quim, que tinha alargado o seu leito de descanço pelo chão todo do corredor das celas! O Zé caiu no chão, o padre abriu as grades da cela e...oh, não! O Zé vai se levantar! Tens de entrar em acção, Dário, amoooor! Saltei para cima do Zé...No ar, antes de cair em cima daquele corpo extremamente transpirado, senti-me leve, como uma pena, aquele salto pareceu durar minutos, e, finalmente, passou-me tudo pela cabeça: A Regina, o casamento, as situações por que passei, como estava a fazer uma boa acção e o mais importante de tudo: O facto de perceber que naquele preciso momento tinha conseguido resolver o meu grande problema, que atormenta à anos: A barriga inchada. POFFF! Caí!
- Sai de cima de mim bicha maluca!- Disse o Zé Carlos. Que excitação! Não aguentei, tive, sim, tive mesmo, foi um esforço, de beijar, sim, beijar, aquele bigode farfalhudo!! Entretanto, entre o beijinho, gritava: Plano B!(mais beijinho, o Zé esperneava) Plano B! (continuação do beijinho, o Zé grunhia)Plano B! (continua, o Zé esperneava e grunhia e tudo mais! Mas eu não o largava, não sei onde fui buscar tanta força! O Quim acordou estremunhado e eu fiz-lhe sinal para ir atrás dos outros. E lá foi ele. Depois, o que vou contar agora, foi o padre que me contou. Não sabiam o que era o plano B, mas logo ficaram a saber. Ao ouvir os outros guardas a chegarem esconderam-se numa portinha nas traseiras. Ah, ah! A portinha onde tinha guardado o plano B! Fiz questão de pôr lá dois sacos de plástico que diziam "Aqui está o plano B".
- Padre! O plano B!- disse o russo. Abriram o saco.
- Roupas?
- De senhora?
- De pêga, quer o senhor padre dizer!
- Jesus!- O papel dizia. "Vistam-nas". E vestiram-nas! (passado alguns minutos)
-Epááá!- o Quim avistou-as- Mas que beldades! Da onde saíram as meninas?- Eu também as vi, e logo larguei o bigode do Zé Carlos, para olhar para tais...aberrações. O Bóris, mesmo em gaja, fica um pão! De cabeleira loira e vestidinho rosa, era a melhor menina do plano B! E aquele leque lindo, que lhe cobria o rostinho...coisa mais linda! O senhora padre estava de freira. Uma fantasia, parva, que arranjei num bar de strip em A-dos-Cagados, perto de Moscardo. O Zé Carlos ao se ver solto por mim, começou a correr e desapareceu, ao abrir a porta das traseiras, deixando-nos sozinhos, com o Pascoal caído no chão.
- Rápido vamos embora daqui!- disse o Bóris arrastando as saias e lançado cabelinhos loiros da bela peruca que tinha.- Ai! Dário! Que foi isso?- Sim, eu apalpei-o! Que rabiosque!
- Vá, não podemos perder tempo!- disse o padre/freira arrastando do Quim.
- Esperem!- disse eu- E o Pascoal?
- O Pascoal? Vai ser minha testemunha!- disse o...Zé Carlos!!! Bolas! Percebeu que as miudas eram eles! Começámos a correr, mas ele vinha atrás de nós. Agarrou-se às saias do Bóris, ele caiu e eu não tolerei a presença de mais uma mão no meu território. PIMBAS! Levou com a mesma cadeira com que levou o Pascoal. Ficaram os dois estendidos no chão e nós lá fomos, pelas traseiras para a casa paroquial. Era hora de almoço, estava tudo a almoçar, não estava ninguém na rua e os guardas que nos viram, apenas atiraram para o ar uns piropos traquinas e malandrecos. Foi chiquérrimo!
- Finalmente em casa, senhor! Graças a Maria!- Disse o senhor padre, ao sentar-se no seu sofá, assim como todos nós, menos o Quim, que foi direito à garrafeira.
- Graças à Maria das Pernas Altas! Quer o senhor dizer! Que se não fosse ela a dispensar os trajes das suas meninas ainda agora aqui o russo mais lindo estava a ver o sol quadrado!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Resgate do Macho"

- Tu queres o quê?????
- Que me ajudes a libertar o ruxo! Qual é o problema Ilídio? O homem tá inoxente.
- Não foi isso que tu disses-te. Disse-teajudar o russo a fugir da prisão!
- Xão só palavras homem, bai dar tudo ao mesmo.
- E posso saber que interesse é que tu tens nisso? Em ver o russo fora da cadeia. Se ele lá está é por algum motivo.
- Ora motivo ... a berdade é que a minha Regina está em Franxa no meio da guerra, sozinha e indefesa! O russo vai atrás dela para a trajer de bolta para ao pé do xeu paizinho!!
- Que bonito Quim! Agora estás numa de paternal? Não vês que se o russo vai atrás da rapariga eles já não voltam! Vê se acordas!
- Então eu bou com ele pronto.
- Tu? Mal te aguentas em pé e para além disso ele está preso porque alguma coisa fez ... ninguém sabe bem de onde vem nem o que faz. Médico, russo pouco mais se sabe!
- Então hoxe à noite às 23h30 ao pé do restaurante adeus.
- Mas tu não ouviste nada do que te disse???
Este Quim dá-me cabo do juízo. Sou padre mas não sou santo e a minha paciência tem limites, não fosse ele meu irmão ... nem sei! Só sei que esta história ainda vai dar problemas. Por alguma razão ninguém comenta a prisão do russo na aldeia, parece que a coisa é grava e o rapaz nem vai a julgamento. Consegui perceber, pelos búrburinhos na missa, que o estavam a pensar tranferir durante a noite para não haver revolta dos populares. Ora a notícia já correu a vila, tenho de avisar o Quim ou eles ainda são apanhados e presos. Sim porque ao que parece o Dário também vai ajudar, sou padre e não faço julgamentos mas aquele rapaz tem algo de estranho. Falando no diabo.
- Senhor padre vim confessar-me.
- Já reparei rapaz. Faz favor de entrar no confissionário.
- Peço perdão padre ... eu ... é a minha primeira vez, não sei como fazer isto, só vi nos filmes!
- Isso explica a renda na cabeça ... diga "Perdoe-me padre pois pequei".
- Está bem.
- Então diz rapaz!
- Então mas o senhor padre acabou de dizer! É desnecessário eu repetir o que o senhor disse, e olhe que tenho muito para dizer não tenho tempo para estar aqui com estas parvoíces, desculpe senhor padre, e além disse tenho hora no cabeleireiro ...
- Já percebi, vamos passar à frente ... queres contar-me o que se passa?
- Mas quê? Todos os pecados desde o ínicio?
- Infelizmente lá terá de ser!
- Bom ... por onde começar ... já sei! No dia em que vi a minha mãe nua pela primeira vez!
- Oh meu Deus!
- É que eu sentia-me diferente sabe, desde gaiato, não me identificava com a minha salsicha e então um dia percebi que queria ser como a mamã ... queria ter uma ...
- Eu percebi meu filho, vamos passar à frente, temo que não tenhamos tempo para tantos promenores.
- O senhor padre é que sabe, tenho histórias bem pecaminosas por altura dos meus 4 até aos 7 anos, considero das épocas mais bonitas da minha vida e ...
- Prossiga!
Falou-me de tudo o que é possivel imaginar. Foram três horas repletas de lantejoulas, homens musculados, maquilhagem, plumas, cor-de-rosa, alcool ... e coisas que eu nem se quer me dei ao trabalho de tentar perceber, aliás até as vou apagar da mente.
- ... e foi assim que depilei as pernas pela primeira vez ... fim! Senhor padre está-me a ouvir?
- Claro filho, o teu sonho de infância era ser enfermeira.
- Molhista! Ejá o sou, se bem que enfermeira também era bom, podia mostrar as minhas ricas pernas e ...
- Mais alguma coisa?
- Hmmm ... acho que é tudo ... só uma coisa, não está bem relacionado com a área dos pecados acho eu, se bem que ...
- Diga mulher! Desculpe hom ... rapaz ... filho!
- É sobre "aquilo" de hoje à noite, o Quim disse para o lembrar que ... o russo sabe.
- Acho que isso já não vai acontecer, vão transferi-lo durante a noite e toda a gente vai lá estar para o achincalhar, insultar e atirar os legumes que apodreceram no Inverno.
-M-mas já está tudo combinado, temos de o salvar!! Ele é um bom homem, um homem bom e ... aii!
- Não sei se será bem assim.
- Acredite em mim eu conheço-o bem ... temos de o ajudar senhor padre!
- O que tens em mente?
- Bem, se o senhor padre diz que o vão levar à noite ... nós fugimos de dia, é uma óptima ideia não é?
- É uma péssima ideia! Em pleno dia?? Á gente nas ruas, não temos por onde esconder o rapaz ... sim porque têm de o esconder em algum lado antes de ele partir. Tem de se tratar dos bilhetes e ...
- Ele não precisa de bilhetes! Isso só serviria para chamar as atenções, e além disso a fuga é perfeita de dia, ninguém está à espera que tal aconteça. E para além disso ninguém nunca desconfiaria do senhor padre.
- Ai o que é que fiz para merecer isto! E diga lá onde pensa alojar o tal russo?
- O Quim sugeriu ... a sua casa.
- O quê??
- Pense bem, nunca ninguém vai desconfiar. Vamos lá como visitas fazemos o que temos a fazer, o russo foge e nós distraímos os guardas, eles nem sequer vão associar ...
- Tenho as minhas dúvidas. Mas tens a certeza que o rapaz é inocente?
- Absoluta! Juro pelo meu verniz "cherry red"! Estes alemães é que andam metidos nisto até ao pescocinho.
- Bom então vamos lá. Temos de ir buscar o Quim primeiro só espero que não esteja bêbedo!
Eu fechei a Igreja e deixei um bilhetinho a dizer que tinha de ir confessar o prisioneiro russo. Fomos direitinhos à pensão da Celestina à procura do "cabecilha" da missão "Resgate do Macho", ideia do Dário claro.
- Boa tarde Dona Celestina que Deus esteja consigo! Diga-me minha querida o Quim está por aqui?
- Está pois ... eu vou chamá-lo, só um momento senhor padre.
- Oh garanhão, a fazer olhinhos à Celestina!
- Por amor de Deus Dário! Respeitinho eu sou padre!
- Estava só a dizer. E olhe que ela também ficou toda nervosa.
- Pára com os disparates! Temos trabalho a fazer.
- Cá está ele senhor padre.
- Obrigado Celestina. Então Quim vamos lá tratar dos nossos assuntos (piscadela de olho).
- Hãn? Qué que ... quem?
- Quanto é que ele bebeu Celestina?
- Dois garrafões de vinha e água destilada.
- Eu? Eu 'to com sede, não há nada que se beba?
- Não Quim, agora temos o que fazer (piscadela de olho)!
A Dona Celestina também pisca o olho.
- Senhor padre a Celestina piscou-lhe o olho! - sussurra-me o Dário ao ouvido.
- Pára com isso! Será? De qualquer forma temos de ir embora ...
- ... temos muitas coisas para fazer darling! Dê beijinhos à pega!
Parámos na florista para o Dário comprar umas flores para o prisioneiro. Treze rosas vermelhas, começo a pensar que ele anda a sonhar demais, não me parece que queira cumprir o nosso plano. Mas a verdade é que não temos plano, o Quim está com a bebedeira do século e por isso vai se resumir ao improviso.
- Alto! Quem são vocês? - questiona o guarda da cadeia.
- Não se preocupe. Eu sou o padre da aldeia este ...
- Eu conheço-o!
- Cala-te Dário. Deixa-me resolver isto!
- Você é o ...
- Zé Carlos! De Lantejoulas!
- Pois é.
- E a Melanie vai boa ... quer dizer vai bem?
- Acho que sim não estou no mesmo meio dela mas ...
- Continuando ... podemos entrar? Vinhamos visitar o russo.
- Ora têm marcação?
- Marcaçã0? Não, não sabia que era ...
- Mas é. No ínicio não era necessário mas desde que uma velha começou a visitá-lo que não o largava e então tivémos de tomar medidas.
- Compreendo. Mas se não estiver lá ninguém podemos entrar? É urgente que este pecador se confesse!
- A velha deve estar a sair ... ora cá está ela. Então senhora Belina? Como está ele?
- Bello.
- Então resto de um bom dia! Cuidado com os degraus. Pronto já podem entrar.
Para ums esquadra o sítio está bastante arejado e limpo, com cores alegres e bons acabamentos. O Dário adorou o espaço e disse que gostava de se dedicar à vida do crime para poder estar num espaço tão chique.
- Boa tarde meu filho.
- E então? Vão-me ajudar a sair daqui? Para que é que são as flores?
- São para ti querido! Gostas?
- Ah já percebi! Têm alguma ferramenta aqui escondida para que eu ...
- Não são apenas um presente por seres ... lindo!
- Onde ... extou eu? Minha senhora podia dizer-me ...
- Não é uma senhora Quim! É o Dário e tu vê se te calas. É o seguinte, o melhor é falarmos sobre o que vamos fazer. O Dário está encarregado de distrair o Silva, eu fico aqui a conversar contigo como se te estivesses a confessar, o Quim fica aqui sossegado e sem piar!
- Sim e depois?
- Depois o Dário finge desmaiar, eu tiro a chave, atiro-te a ti e tu foges pelas traseiras. Trocas de roupa com o Quim para não seres reconhecido. Meu Deus que pecado, vou arder no Inferno!
- Não vai nada senhor padre, está a ajudar um homem inocente, Deus terá isso em conta!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Onde está Regina?

As coijas xão para xe fajer bem feitas. E eu fiz! Estive perturbado todo este tempo por cauja da minha filha, Regina Maria. Nunca lhe dixe que era pai dela porque não me foi, a bem dijer, permitido. A Aida e eu preferimos manter segredo e fingir que o Vasco da Pipa era o pai dela...Oh! Como era jovem quando procriei a Regina...Eu e a Aida eramos dois gaiatos. Moravamos em Canequinhas, uma terra, não muito longe de Moscardo. Eu morava na barraca da esquerda e ela na da direita. Dei por ela quando me pisou um calo que tinha feito no pé, ao deixar cair a enchada no dedo grande. Lavrava a terra, eu. Era mais uma mão para a terra do meu paizinho, Quim Perneta. Era perneta. Mesmo axim colocou ele próprio, com a ajuda do do meu tio Jojé do Deperdício, que tinha um ferro velho, um ancinho na perna. Ficava-lhe bem. A minha mãejinha é que não gostava muito, por cauja do chão da casa, ficava xempre todo riscado. Minha rica mãezinha, quanta cera comprava. Quando vinhamos da lavoura, comíamos, e íamos nos logo deitar. Quando antes do pôr do sol não estava um filho em casa, e chegava o paizinho...ui! Era tudo corrido ao ancinho. "LEVAS UM PONTAPÉ!", dijia o pai, e nós já saibamos que íamos acordar todos riscadinhos. Bons tempos. Mas estava a falar da Aida, era uma bela moça, agora em velha é feia, mas quando era nova tinha um bonito sorriso, que foi morrendo ao longo dos tempos...Não porque o Vasco da Pipa a trataxe mal, era bêbado e tal, e exa era a xua única virtude, mas porque os dentes foram caindo e caindo a ponto de lhe restar um pequeno molarzinho, com que comia velozmente os casqueiros. Ela gostava de mim, eu gostava dela, e um dia, estavamos nós a acabar o trabalho vai ela e diz se me quero banhar no rio. Ora eu, gaiato, cheio de calor, era Verão, claro que disse que sim. E fomos. Banha-mo-nos e coijo e depois paxado uns dias: "Olha Quim estou prenha". E eu " Epá, oh Aida, vira para lá exa boca" e ela " Cala-te que é verdade. " e eu "Oh diabo!". O problema é que ela estava de noivado com o Vasco, tinha mais terras que eu e tal, e então, como ia casar dali a uns dias combinamos axim, porque era uma vergonha para as noxas famílias e para o ancinho do paizinho. A Aida agora está lá para a nossa terra, o Vasco já não está entre nós e eu decidi contar à Regina que é feita da mesma substânxia que eu. Com muita sorte ou muito azar, olha, ela foi-se, mesmo no dia do cajamento, ficando isto tudo em àguas de bacalhau, não é? Depois do casamento da Aida, acabei por casar, sim, é verdade...Tenho filhos e tudo. Mas o meu irmão, o padre aqui da vila, decidiu que era melhor vir viver com ele, já que os meus filhos já são casados e a minha mulher é uma...
-Melanie!
- Bonjour senhorr Quim!
- Oh, Matteo, trás aí mais um bagaço, filho, aqui para o tio Quim...Tão e tás aqui a fajer o quê? Não andavam atrás do...russo?- Digo indignadiximo ao ver, da janela do restaurante dos italianitos, o russo, de algemas, com o Xilva e mais uma cambada de pessoas, uma comitivajinha atrás dele. Fui logo para a porta. Levei comigo o copo. As pessoas vinham às janelas para ver aquilo tudo...Apanharam o russo, o Bóris. E...a minha filha Regina? Deixei passar a multidão que apedrejava o russo e chamavam-lhe coijas feias. Depois, fui falar com o Xilva.
- XIIIILVA!- Gritei ao vê-lo sair da esquadra- Espera aí um minutinho que prexijo de ter dois dedos de proja contigo.
- Você está bêbado?- Disse logo ele.
- Não! Eu nunca estou bêbado...
- Mas cheira a alcool...Chegue-se para lá, este fato é novo.
- Ah e é muito jeitojo, mas olhe, e...a Regina?
- Não sei de nada, não falo de nada, agora é tudo com os advogados.
- Não, não está a perceber, a minha filha Regina, não sabe dela?
- Não sei de nada! E agora deixe-me ir...Melanie! Espere aí!- E lá foi ele atrás da francesa. Será que ela trabalha às manhãs? E por onde andava a minha filha? Decidi ir à esquadra. Quando lá cheguei pedi para falar com o russo e lá fui eu. Na xela estava lá a dona Franxesca, levava uns bolinhos e um refresco ao recém chegado.
- Bons dias!- disse eu.
- Quim? Ma que esta a fazere aqui?
- Vim falar com o moxo. Prexijo de projear com ele umn minutitos...
- Eu já estava de saída. Arivederci, Bóris. Chio Quim.- E lá foi a madama. Eu cheguei mais perto das grades.
- Então, bons dias.
- Só se for para si...
- Então, meu rapaz? Que se paxa?
- Estou preso...
- Ah...É chato. Olha, e onde é que deixas-te a Regina?
- A Regina? Para que quer você saber da Regina? Espere lá...você é aquele bêbado do restaurante dos Bellini, não é?
- Não sou bêbado sou aprexiador vinicula.
- Isso não existe...Mas enfim, para que quer saber dela? Sabe o porquê dela ter fugido? Sabe? Eu pensava que ela tinha casado com o Gil, mas depois disseram-me que não, que ela tinha fugido...- O rapajola estava agora agarrado ás grades, inquieto.
- Olha, moxo, eu xó xei que ela fugiu, e é o qua andam a dizer por aí, para ir ter contigo.
- Comigo? Oh...meu amor!
- Eu? Epáááá!
- Não! A Regina. E que mais sabe?- Foi então que lhe contei o que tinha acontexido. O eu lhe ter dito que era o xeu paizinho e ela ter saído a correr; quando a Melanie e mais uns foram à procura deles, enfim, tudo mais ou menos.
- É incrível...Pensam que ela fugiu por minha causa?
- Pensam, não- dixe alguém atrás de mim- eu tenho a certeza- Era o Dário. O larilas.
- Dário!- dixe o ruxo- Que saudades!
- A sério, amor?- dixe o enrrabixado de homens.
- Não interessa...Onde está a Regina? Morro de saudades dela, quero estar com ela! Quando me disseram que ela não tinha casado com o Gil fiquei feliz mas depois disseram-me que ela tinha fugido e...o mundo caiu-me aos pés.
- Ixo é mau...
- Onde está ela? Tu sabes?- continuou o ruxo.
- Não sei ao certo...- dixe o rapaz. E começou a contar uma história que dizia que depois do casamento ele e o Jean, o puto da franxeja, a tinam visto arrumar as coisas rapidamente e partir para o porto, onde dizia que ia apanhar um barco para Deolindinhos e seguir para...Paris!
- Paris?? Como? Porquê?- dixe o ruxo. E então o Dário contou uma outra história xobre um livro que o Ismael da peixaria tinha dado, pelo Natal, à minha filha, e que era o diário dele, do ruxo Bóris, e que lá a Regina tinha visto que o Bóris ia para Paris.
- O Ismael? Eu nem o conheço!
- Pois, Bóris, mas quanto a isso foi um engano...Ele não tinha nada para lhe dar e então deu-lhe o que encontrou, eu mesmo já fui falar com ele, amor. Agora quando à Gigi, não sei como vamos fazer...
- Podemos ir à procura dela- xugeri eu.
- Já anda muita gente à procura de muita gente e gente metida onde não é chamada e gente onde não deve!- dixe o moxo do restaurante.
- E eu estou preso...Dário, achas mesmo que ela está em Paris?
- Ela é de ideias fixas, amor, ela se disse que ia para lá, é lá que ela está...
- Pois, mas eu estou preso...
- E eu estou bêbado! E também ando nesta vida!
- Senhor Quim!- dixe o Dário- o senhor está bêbado porque quer! O Bóris não pode sair daqui!
- Não pode?- dixe eu- Ixo é o que vamos ver!

terça-feira, 30 de setembro de 2008

Estrela regional

Vida de fugitivo é dura. Eu já não podia viver mais em Coentros, a minha situação no país já era precária e com a Giselle noiva, não há nada mais que me prenda lá. Tenho andado pela região sem ficar muito tempo no mesmo sítio. Evito ficar em casas ou quartos alugados preferindo dormir nas ruas, debaixo de árvores e até mesmo de pontes. Não tem sido fácil, mas já estou habituado a esta vida a guerra apenas dificultou um pouco as coisas. Desde que saí da Rússia que é assim. Mas confesso que estava a gostar da vila, deixar a vida de militante e ficar por lá, casar e ter filhos como qualquer um. Mas a verdade é que tenho uma missão aqui e parece que os alemães já sabem do meu paradeiro. É tempo de partir.
Nós últimos dois dias fiquei na casa de uma senhora chamada Zulmira Borba, uma mulher que vive nos arredores de Lantejoulas-de-Cima. Conheci-a quando passei por Verdurinha, ela estava a sair do mercado quando um bandido qualquer tentou arrancar a bolsa à pobre mulher. Dei-lhe uma valente sova e a Dona Zulmira e perguntou-me de que forma me podia agradecer. Eu estava doente, os dias passados ao relento reflectiram-se na minha saúde e então pedi-lhe abrigo por uns dias. talvez tenha sido estúpido mas não tive outra opção. De qualquer forma a mulher parece inofensiva, nem acredito que tenho visto qualquer cartaz. Como vive sozinha tratou-me como um rei, alimentou-me e tratou de mim. Ainda tive receio pois lembrei-me da Dona Belina e dos seus "tratamentos" quando estive doente .... uh!
Já estávamos no fim da manhã e a Dona Zulmira não chegava a casa! Passa-se alguma coisa de certeza ... o mais certo é ter me denunciado à polícia, ou pior aos alemães! Tenho de sair daqui imediatamente!
Peguei nas poucas coisas que trazia e saí pelas traseiras. Foi aí que ouvi um carro a estacionar. Espreitei para ver quem era, era ... o Silva! Mas que faz ele aqui??
- Onde está ele??
- Ele estava aqui quando eu saí! Juro!!
- Velha maluca! Só me fizes-te perder tempo ...
A Dona Zulmira denunciou-me ... mas porquê? Por dinheiro? O que é que o Silva tem a ver com isto?
- Mas Sr. Silva eu juro!!
- Não está aqui ninguém e você vai ter de ser responsabilizada por "fazer perder tempo" a um agente da autoridade!
Autoridade? O Silva anda atrás de mim.
- Não lhe faça mal por amor de Deus!!!
Parece que a velha afinal não anda atrás do dinheiro, mas também não me serve de consolo. Desta é que deixo o país, aqui não estou seguro.
Esperei que o Silva saísse. Mas uma coisa é certa, se todos estão à minha procura é seguro ir a Coentros. Lá puderei recuperar os meus livros e talvez a Regina! Isto se os Bellini não estiverem do lado dos alemães. Seria típico dos italianos. Mas de qualquer forma gostava de saber mais sobre as intenções do Silva. Talvez seja estúpido mas ... acho que o vou seguir.
Foi difícil encontrar um meio rápido para chegar a Lantejoulas e foi aí que me lembrei ... barco! Basta "arranjar" (encontrar ou roubar) um barco e lá vou eu a remar pelas águas do "Cartilagem"! Dito e feito! É espantoso como nas alturas que mais precisamos nos surgem as oportunidades. Não sei se também vos acontece, mas quando estou em dificuldades de imediato me aparecem as coisas de que preciso. E lá estava ele ... lindo, esguio, de madeira podre ... alí desprotegido e ... espera afinal o dono está por perto! É velho e está a dormir, não me parece que dê luta. Pelo cheiro, deve ter tomado banho num lago de gin. Pé ante pé fui em direcção ao barco que estava preso na margem ... devagarinho sem ... fazer ... barulho ... ah! É sempre a porcaria do pau no caminho!
- Quem está aí?
- Desculpe eu ...
- Eu estou a conhecê-lo!
-Não está não eu ...
- Tu és o primo da Mariete!
- S-sou? Pois sou como está?
- Cá vamos andando filho, uns dias melhor, outros dias pior. Como vai a tua mãe?
- Vai bem graças a Deus!
- Ela não tinha ficado sem uma perna num acidente?
- Ficou, ficou pobrezinha!
- Então não vai bem! Vai cocha! Ahahaha ... to brincando contigo moço!
- Ahahah tá giro. Mas agora desculpe eu estou com pressa ...
- Espera lá! Já sei quem tu és ... és aquele moço dos cartazes que andam por aí a anunciar as festas de Santo Balofo! És o lider do rancho não é? Tavas a tentar roubar o barco não era?
- Eu não!
- Estavas sim ... e sabes o que eu tenho a dizer quanto a isso?
- ...
- Leva-o! É o barco do Ti Zé Lampreia. Foi mijar e deixou-me de olho nesse lixo.
- Mas ele não vai implicar consigo?
- Nã ... o homem nem dá por falta dele é muito esquecido.
- Obrigada, boa tarde!
- Tarde ... depois agente vê-se nas festas hã?
- Claro que sim.
Com isto perdi 10 minutos! 10 preciosos minutos!! Tenho de me apressar!!
- Oh moço!!! Tu loirinho!!
- Eu?
- Sim tu! Dá cá uma mãozinha, talvez duas, que eu estou a afogar-me.
- Mas você não parece desesperada!
- 'To que não posso filho. Sabes, isto é uma maneira das pessoas de Lantejoulas-de-Cima se expressarem ... sem emoção.
Ajudei a senhora a a subir para o barco.
- Obrigados. Devo-lhe a vida. Tem alguma coisa que se coma? Estou esfomeada.
- Não minha senhora e estou com pressa!
- Calma homem, tudo a seu tempo. Podia deixar-me em Varegeiras por favor?
- Varegeiras? Eu não sou nenhum taxi!
- Desculpe ... você tem aí escrito na frente "taxi".
- O quê? (Maldito bêbedo!)
Escusado será dizer que tive de ir a Varegeiras, não podia deixar a mulher no meio do nada! Varegeiras era relativamente longe e comecei a desesperar ...
- Então diga lá de onde é? Não tem ar de ser de região, é demasiado entusiasta.
- Não tem nada a ver com isso!
- Malcriadão. Você é um bruto sem educação.
- É verdade! Já agora podia calar-se? Estou a tentar remar!
- Olhando bem para a sua cara ... Meu Deus. Você é o rapaz que vai actuar nas festas. Ai quando as minhas amigas souberem. Podia dar-me um autógrafo aqui no cartaz.
Será que a mulher é estúpida ou não sabe ler?
- Não tenho caneta.
- Ora bolas. Tamanha desilusão só quando cancelaram o programa radiofónico da "Floritonta".
- Cá estamos! Pode saí boa tarde seja feliz!
- Espere lá. Quanto lhe devo?
- Foi de graça ... adeus!
- Conversa parva ... tome lá para um café. Prazer.
Por acaso um dinheirinho vinha mesmo a calhar mas as notas encharcadas é que não me serviram para muito. Cheguei a Lantejolas já o Sol se punha. Deixei o barco para trás e disfarçadamente procurei o Silva.
Fui a um café beber alguma coisa quente para aquecer os ossos. Estava praticamente vazio o que me deixou algo à vontade. Sentei-me numa mesa e li o jornal. Fiquei por alí algum tempo, sendo o único café da zona seria inevitável que o Silva aparecesse por aqui.
Esperei, esperei ... nada! Já estavam quase a fechar e tive de sair. Pensei em ir ver se o barco ainda estava por ali para poder dormir num sitio mais "confortavel"!
- Mon Dieu!! Bóris!!! És mesmo tu mon amour??? Não posso acreditarr!
Fiquei estupefacto, não consegui reagir! Fiquei imóvel enquanto a Melanie me encostava contra o peito e me borrava a cara de batôn.
- Eu sabia que te ía encontrarr!!! Mon amour!! Procurei-te porr todo o lado chéri! Vamos fugir nós os dois os outrros nunca irão saberr ...
- Que outros?
- Amore mio!! - exclama a velha.
- Onde é que está a Regina meu palhaço? - questiona o frango do Gil, ou melhor o frango que é o Gil.
- Eu não tenho nada a dizer. - diz o Amadeu.
- Mas? O que é ...
- A Regina!! Onde é que ela está?
- A Regina desapareceu?? Mas vocês estavam noivos!
- Não te armes em engraçadinho! Olha que eu vou-me a ti!
- Calminha chéri! Não tocas no meu Bórris!!
- Mio Bóris desgrazada!
- Querres apanhar velha choné?
- Vienne cá francesinha!
- Acabou festa!
- Silva?? Que fazes aqui chéri!
- Vim prender o teu "amour"!