sábado, 21 de março de 2009

Euzinha faço tudo!


- Está melhor, Anne Marrie?
- Ah...doi-me o corpo todo, até as orelhas me doem!- disse a Anne Marie deitada na sua caminha branca.
- Ai, mon Dieu, mas e a loção que o boticário lhe receitou? Para as feridas!
- Ah...isso é o menos, isso é o menos, minha cara amiga Edith. Tens sido uma querida comigo, uma amiga como ninguém tem! Só tenho de te agradecer...Se não fosses tu eu estava morta! Morta! O Alan não faz nada por mim! Só pensa no espetáculo e...oh...Edith, estás a chorar rapariga?
- Não é nada, Marrie, não é nada. Tento esquecer aquele barco, sabe? Lembra-me o Marcelle.
- Aquele aproveitador!
- Sim, esse mesmo. Ainda lhe sinto o perfume, sabe? Ainda sinto os seus braços a envolver-me, ainda sinto o sabos dos seus beijos, ainda sinto...
- Ai! Que pecado! Cala-te, rapariga!
- Peço desculpa. Quer água?- disse eu, apontando para o jarro na mesa de cabeceira.
- Não, não, obrigadinha. Sabes, ando aqui a pensar...- disse ela- aquela cigana e o marido queriam-me impedir de ir ter com o meu Alan!
- Não...
- Sim! Queriam pois! Aquele monstro, aquele cigano horrivel! Partiu-me os ossos todos! Mas por que é que queria eles me impedir de ir ter com o Alan?
- Mas que ideia, Anne Marrie- dizia eu enquanto lhe punha uns paninhos frescos na cabeça- eles só queriam umas moedas.
- E o homem correu atrás de mim por causa disso?
- Queriam muito umas moedas...
- Oh poupa-me, Edith! Aliás, tu vais tirar isto a limpo!
- Euzinha? Oh...mas hoje há muita confusão, é o espetáculo lá do barco (onde o Marcelle vai actuar, sim, ele deixou a música de lado desta vez e foi para o palco actuar com aquela aproveitadora, aquela oportunista, aquela ronhosa...) e para além disto, ah...está muito vento. Lamento, não posso fazer nada.
- Tu não me digas que estás a pensar ir ao espetáculo?
- Euzinha? Não senhora! E eu sou cá dessas coisas, Anne Marrie? Até parece que não me conhece, por Dieu!
- Então vais lá ter com a cigana e esclareces isto de uma vez por todas.
- Mas...
- Não me sinto capaz de ir, senão ia e levava o rolo da massa para dar umas boas pancadas naquele homem horrivel! Aquele cigano que toca ocarina horrivelmente mal!
- E que quer que faça? Chego lá e digo " Então mas por que razão atacaram a dona Anne Marrie?", assim? Sem mais nem menos?
- Achas? Tens de sondar as coisas, ir com calma, tentar sacar nabos da pucara.- Juro que não percebo nada disto. Nem tão pouco percebo porque quer a Anne Marrie explicações sobre o que aconteceu! Cada vez mais me convenso de que foi um mero acidente, mas enfim...Lá fui eu, como boa amiga que sou. Logo que saí de casa, arrependi-me.
- Edith! Didi! Oh, Edith!- Atrás de mim, ao longe, corria, imaginem, o Marcelle. Fingi que não ouvi, claro, mas ele continuava e, por fim, apanhou-me.
- Conheço-o de algum lado?
- Edith...Vá lá...Nunca mais lá foste ao barco, eu senti a tua falta.
- Juro que não me lembro quem é...-dizia eu, num passo apressado.
- Edith!- Ele agarrou-me (ai Dieu) e fez-me parar- Vais dizer que me esqueces-te?
- Quem?
- Edith!- dizia ele, abanando-me (Dieu).
- Se não me largar agora mesmo, eu grito até me faltar a voz!
- Está bem- disse ele, largando-me- mas deixa-me explicar. Naquele dia foste-te embora, não tive qualquer chance de te explicar nada!
- Não há nada para...
- Eu sou casado, sim, mas nem eu nem a minha mulher nos damos. Ela tem outro homem e eu tenho...bom...
- Muitas mulheres!
- Sim, sim, sim tive muitas, e depois? Agora quero ter só uma! Tu, Edith...
- Como se eu acreditasse!
- Eu juro!
- Hum!- olhava-o de lado. Estaria a dizer a verdade?
- Vem ver o espetáculo hoje à noite. Tenho uma surpresa para ti. Ah! E aqui está um bilhete, não precisas pagar, toma...- continuava a olha-lo de lado, desconfiada, mas aqueles olhinhos tão lindos...ai, dieu, dieu!! E não está com a mulher? Que desfrutáveis! Mas...
- Está bem, eu aceito, eu vou...
- Optimo!
- Mas não é por ti! Que fique isto aqui bem claro, hã? É pelo o Alan, meu amigo de sempre.- Ele aceitou esta "desculpa" e saiu a correr para o barco, lançando-me um beijo no ar, o qual apanhei com todo o carinho. Não tenho emenda...Fui a sonhar todo o caminho até à casa dos ciganos. Quando lá cheguei e uma cigana mais velha me perguntou o que queria,nem sube o que responder.
- Queria falar com um homem, com uma ocarina, com...uma mulher que dançava...- Estava apatica, euzinha, e a cigana olhava-me estupidamente.
- Quer falar com o Rodriguez??- perguntou-me ela.
- Não, não eu...- Eu, Edith, estava enfaitiçada pelo Marcelle, por aquele beijo lançado no ar...Parecia que nunca tinha visto um homem na vida! Bom, na verdade...
- GUADALUPE! RAPIDO ENTRA PARA DENTRO DA TENDA!- A cigana mais nova veio ter connosco sobressaltada- E VOCÊ?...Oh! É aquela tontinha da praia...VENHA CONNOSCO! AINDA BEM QUE AQUI ESTÁ!- Optimo! Não me lembrava por que razão estava ali, naquele acampamento, mas a cigana sabia! É a vantagem de ser vidente, que sorte. Entrámos para dentro da tenda e a cigana nova fez-me sentar numa cadeira.
- Guadalupe! Tive uma premonição!- Fantástico, queria tanto ser vidente...- A Jaqueline vem aí! Ela sabe que tu és...
- CALA-TE, FILHA!- disse a cigana velha- Temos, hum...convidada!
- TU! TU TONTINHA DA PRAIA, VAIS NOS AJUDAR!- disse a cigana nova. Assustei-me, afinal ela era uma bruxa- É o seguinte...- E começou-me a explicar o que tinha de fazer. Nem se perguntou se eu realmente a queria ajudar, mas, enfim, quando percebi que era contra aquela horrivel, a Jaqueline, aquela que se atira ao meu Marcelle com unhas e dentes (pensa que eu não sei??) e o come com os olhos, eu aceitei logo! E a tarefa não era nada dificil.
- Percebeu tudo?- disse a cigana velha- Só tem de trocar de roupa comigo.
- Percebi tudo, sim senhora, vamos lá a isso!- A rapariga começou por tirar os lenços da cabeça e depois, depois...a maquilhagem toda e...
- Odette!
- Por favor, Edith, não digas nada a ninguém! Não fugi, eu quero ter o Alan, ele ama-me, ele não gosta daquela Jaqueline! Tenho de o ter...
- Como te percebo...Estamos a lutar as duas contra o mesmo, por isso vou te ajudar. Abaixo aquela lambisgoia!- E trocámos de roupa. Modestia a parte, fiquei uma cigana toda engraçada, apesar de velha. E fazer de vidente agradava-me, sempre gostei destas coisas. Depois de combinar tudo bem combinado, foi só esperar pela hora em que a Jaqueline, de acordo com a Morgana (ela é mesmo boa a prever coisas) iria entrar na tenda de rompante e...
- QUERO SABER ONDE ANDA AQUELA SONSA E FALSA DA ODETTE!- ...iria exigir que lhe dissessemos onde andava a Odette.
- És tu!!!- disse ela, avançando para mim- Andas a enganar-me com os teus chás, por isso é que o Alan anda agora tão distante! Enfeitiças-te-o contra mim e a teu favor! QUE ÓDIO!- Ela correu para mim e tirou-me os lenços com toda a força!
- Mas...Edith??
- Olá!
- A Odette?
- Nunca mais a vi desde que saiu do barco, toda chateada, naquela tarde...Estás tão exaltada, relaxa. Que insenso queres? Rosas? Talvez canela...
- Não!!
- Hum...-disse eu, espalhando as cartas de tarôt na pequena mesa redonda da sala- A tua carta hoje é o dependurado, um dia nada ospicioso, mas enfim, tens a estrela como conselho, pode sempre melhorar! Não é engraço esta coisa das cartas? Dizem-nos tantas coisas...
- Como é que tu estas aqui? Foi contigo que eu falei? Na praia, eras tu?
- Euzinha! Anda a aprender umas coisas com a Morgana, uma joia de mulher, e tem tanta paciência...Mas diz-me, o chá para o Alan, não deu certo? E porque é que estás a usar essas roupas tão largas e um lenço na cabeça? Nunca te vi assim.- Choquei quando ela tirou o lenço e tinha o cabelo verde, a cara todo borbulhenta e estava mais inchada que uma porca gorda. Deixei escapar o riso.
- Não tem piada! Que raio de poção da não sei quantas Afrodite me deste? Olha para mim!! E hoje, a estreia, como vai ser??? Eu não posso ir assim!
- Pois...deivia estar estragada.
- Não levas mais um tostão meu, digo-te já! E agora??? Estava tão linda...
- Agora tens de tomar...ora deixa cá ver...- Fui remexer num baú velho, como as ciganas, bom, a cigana e a Odette, me tinham dito para fazer, e tirei de lá um frasquinho purpura e dei àquela petulante- Isto aqui vai te ajudar a desinchar e a voltar ao normal.
- Espero que tenha um efeito rapido!
- Umas...- elas não me tinham dito nada acerca do tempo de reacção...- 3 horas.
- Ah, va lá, pelo menos isso...Vou-me embora, NÃO PAGO NADA, ODEIO ISTO TUDO, ODEIO-TE A TI E VÊ LÁ SE FAZES MAIS PELO ALAN!! Ele tem de cair aos meus pés o quanto antes...OUVIS-TE? Que raiva, ciganos de uma figa...- e saiu, toda desengonçada, gorda que nem um texugo, da tenda. Mal ela saiu as outras duas entraram todas alegres.
- Bravo, Edith! Muito bem!
- Tens jeito para a coisa, já pensas-te em ser actriz?- dizia a cigana.
- Falas lá com o teu Marcelle, que fala com a Charlotte e tu, pronto, entras no próximo espetáculo...
- Não façam filmes...- disse eu- Quem vai entrar num espetáculo é a Odette!
- O quê?- disse ela.
- Então? Isto tudo não foi também para participares no espetáculo de hoje? Afinal aquele frasquinho purpura vai fazer com que a Jaqueline rebente pelas costuras, é assim ou não é?- Elas ficaram a olhar para mim e a cigana correu para mesa, onde eu tinha deitado as cartas. Deitou-as novamente, e muito rapidamente.
- Tens tudo a teu favor, Odette- disse ela.
- E hoje, ainda por cima, está vento!- Disse eu. A cigana ficou a olhar para mim espantada.
- Muito bem, Edith, gosto de si, o vento é um óptimo elemento, leva as coisas ao seu caminho, muito bem...Quanto a ti, Odette, só não participas naquele espetáculo se não quiseres...

Pózinhos de Afrodite

Ai Alan, Alan já cá cantas! É certo que tem estado mais distante nestes últimos dias, vai à praia todas as tardes e não regressa ao barco depois disso. Eu sei porque o avistei da janela, decidi não o seguir porque não quero estragar tudo agora que ele está caídinho por mim. Ok, não é muito romântico, mas também nunca gostei dessas lamiches, sempre foi isso que me afastou do Marcelle. E quase me esquecia, a estreia do espectáculo é já amanhã. O Pacheco e o Florentino até já foram espalhar os cartazes por toda a Fleury. Sinto-me preparada para o que der e vier. Sim porque sinto que a mosquinha morta deve aparecer para me estragar o momento! Seria típico dela e de todas as outras sonsas que se atravessaram no meu caminho. Mas eu ganho sempre. Sempre.
- Oh Jacqueline a dona Charlotte 'tá chamando por ti à mais de 20 minutos. A dona 'tá perdendo a paciência!
- Já vou, já vou! Velha impaciente ...
Já estavam todos prontos para o ensaio geral, o último e mais importante de todos. Tudo estava a rigor, bailarinas com os seus fatos, a orquestra bem composta, a Charlotte remexendo os papeis com aquele ar de pânico e o Alan lindo sentado ao piano, com os seus olhos brilhantes.
- Cá estou Charlotte querida. Vamos a isso!
- Tens de apreender algo muito importante no mundo do espectaculo, querida, chegar a horas. Não vais longe com essa atitude.
- Oh querida você também não vai longe com a sua, ou preciso lembrar-lhe de certos e determinados ...
- Penso que não é necessário ... querida.
- Oh "queridas" vamos parar com esta conversa que não leva a lado nenhum e começar a trabalhar! - diz Marcelle num tom irónico.
Tudo estava a correr bem. Trata-se de um musical, a história passa-se no século XIX em França, logo a depois da revolução francesa. O vestuário é de época, mas claro com um toque atrevido, de saias curtas e decotes generosos, para além das perucas altas com cachos de caracóis. Grande parte do vestuário foi feito pela minha querida sogrinha, mas desistiu a meio quando viu que apenas 20% do corpo das meninas estaria coberto. Mas passando à frente, eu represento o papel de Rosette uma pobre camponesa que se apaixona por um nobre cavalheiro, Louis interpretado pelo Marcelle. Eu insisti para que ela desse o papel ao Alan mas nem um nem outro concordou. Mas não pensem que é uma lamechice de rapaz conhece rapariga amam-se à distância e acaba tudo morte mas puro e casto, nada disso, há muita e boa marotice ou não fosse isto um cabaret, a cair de podre por fora, mas ainda assim um cabaret. A música da introdução foi completamente reescrita depois da confusão com a, como é o nome dela mesmo? Olívia? O ...
- Odette.
- Odette? Onde?
- Tava a ajudá-la dona. A dona estava a falar alto e ... tá tão linda Jacqui.
- É Jacqueline para ti! E pára de olhar para o meu decote seu negrinho atrevido!
- Mas que grande ca ...
- Já chega Pacheco. - interviu Charlotte - Vai mas é vestir-te Jacqueline, ainda temos muito que fazer.
Depois de 4 horas de ensaios sentia-me confiante. Acabámos relativamente cedo e enquanto todos se atarefavam com os últimos retoques no cenário fui ter com o meu pianista.
- Então o que achas-te?
- Estás linda.
- Oh por favor! Também não estás nada mal sabes? Não queres subir comigo, podíamos rever as minhas músicas e ...
- Oh não estou atrasadíssimo! Prometi à minha mãe que ía chegar a horas de jantar com ela. Desculpe Jacqui ...
Beijei-o com toda a força, ali mesmo à frente de todos. Podem dizer o que quiserem, que fui eu que o beijei e por isso ele não teve escolha, mas o certo é que ele não me afastou. Depois de um boa noite saiu pela porta da frente. Mas eu sei onde é que ele ía e resolvi segui-lo de longe.
Estava tão escuro que quase o perdi de vista por duas vezes. Mas eu sei onde ele vai, só pode ir ter com a velha cigana, só espero que ela não se desmanche e me estrague os planos. Dou cabo da velha! Apressei o passo e ali estava ele à entrada da tenda. A velha fez um gesto para ele entrar e eu esgueirei-me para trás de uma árvore que lá estava e tentei ouvir a conversa.
- Ei!
- AHHHHH!
- Você é aquele senhora do outro dia! A do ...
- Schhhhh ... Seu animal! Ía tendo um ataque de coração.
- Desculpe mademoiselle. Não se lembra de mim? Sou o marido da Morgana, o Rodriguez.
- Mas ela não se chama Guadalupe? E você não é demasiado novo para ...
- Não, não a minha esposa é a Morgana, acho que não a conheceu ainda, ela não está de momento foi à vila, a Guadalupette é a minha ... hmm sogra é isso!
- Guadalupette? Mas não era Guadalupe?
- Oh sim é sim, desculpe a minha cabeça de asno. É e sempre foi Guadalupe desde que nasceu. Mas quer falar com ela? Eu chamo-a, se bem que ela está com aquele rapaz.
- Vamos fazer assim, você vai dar uma voltinha pela praia, e eu fico aqui à espera dele está bem?
- Fique à vontade.
Estúpido, nem precisei de muito para o convencer a sair dali. Agora tenho de me concentrar, preciso de saber o que ele quer da velha. Ouvi qualquer coisa sobre ... Odette!
- Mas o que se passa aqui? Alan que estás tu a fazer com a velha?
- Nada Jacqui! Eu estava apenas a pedir-lhe conselhos. Foste tu que me trouxeste aqui pela primeira vez não te lembras?
- Está bem mas uma vez bastava! Porque é que estão assim tão juntinhos?
- A Guadaluppe disse que precisava de ver os meus olhos e escutar ...
- ... sentir a tua respiração e depois escutar o bater do coração da pessoa amada. Amada por você claro! - de interrompeu a velha prontamente.
- E esse pózinho que tem na mão é o quê?
- Nada, é só caspa! Coisas da velhice, na minha juventude tinha orgulho dos meus longos cabelos ruivos, como os seus, mas agora só resta ... caspa. Quer ver?
- Ah despenso. - afirmei com despreso.
Não posso dizer que fiquei descansada, estas feiticeiras ciganas são poderosas. Tenho quase a certeza que aquele pó iria servir para desfazer o feitiço. Se bem que o Alan estava cada vez mais indiferente aos meus encantos.
- Alan querido temos de ir. Amanhã temos um grande dia, tens de descansar. Vá amor vamos embora.
Depois disso beijei-o ternamente e podia jurar que vi a velha ficar roxa de fúria. Lembrava-me alguém mas quem? Fiz um gesto para que o Alan saísse e fiquei a sós com a Guadaluppe.
- Olhe preciso de um favor seu. Queria pedir-lhe mais daquele chá que me deu no outro dia, o efeito já está a passar.
- Ui mas o efeito poderia ser fatal! Não aconselho a que ...
- Então dê-me algo para mim!
Nesse momento chega uma rapariga, devia ser a tal Morgana. Aproximou-se da velha e deu-lhe um beijo na testa e chamou-a de mãezinha ao que a velha respondeu com um risinho de rapariguinha. Algo de estranho se passa.
- A mademoiselle diz que precisa de agarrar o seu amor. Mas já lhe dei o chá não podemos arriscar abusar na dose.
- Tens razão mamã. Talvez seja melhor receitar-lhe os pózinhos de Afrodite.
- Pózinhos? E o que fazem esses pózinhos?
- Bom basta misturar em água e depois tomá-los antes de dormir. Estará irresistível no dia seguinte.
- Quero tudo o que tiver!
Agradeci e juntei-me ao Alan que tinha estado na conversa com o cigano. Á medida que nos íamos afastando da tenda tive quase a certeza que ouvi as duas mulheres a rir às gargalhadas. Deve ser só a minha imaginação.
O Alan resolveu que já era tarde para voltar para casa e concordou em ficar no barco naquela noite. Até subiu para o meu quarto depois de muita persuasão, supostamente íamos ler os textos mas não foi isso que aconteceu. Pois não é isso que estão a pensar, ele caiu na cama e adormeceu eu própria estava a morrer de sono e por isso deitei-me a seu lado. Ele é tão forte, uma pele tão suave ... oh será que me apaixonei?
- Bonjour Jacqui!
- Boujour mon amour! Eu ... AHHHHH! Que fazes aqui Marcelle? Onde está o Alan??
- Acalma-te, ele veio chamar-me assim que acordou e te viu ... nesse estado.
- Estado? Qual estado? Sinto-me perfeitamente bem.
- Faz um favor a ti própria e vai te ver ao espelho.
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! Mas o que é que ... AHHHHHHHHHHHHHH! Marcelle faz alguma coisa!!!
- O que queres que faça? O teu cabelo está bem ... verde.
- Sim já reparei! Não podes dizer ou fazer nada de útil? Aceito sugestões! Rápidas de preferência!
- Ahh ... já sei! Tu vais usar uma peruca durante todo o espectáculo ... amanhã vamos à cigana e tratamos do resto!
- E o que me dizes das manchas que tenho as mãos? E engordei!
- Quanto às manchas difarçamos com base, o peso acho que é da tua cabeça. mas como eu disse vamos à cigana e ...
- É isso!
- O quê a base? Sim eu sei ajuda a ...
- Não a cigana! É ela ...
- Ela quem?
- A cigana é a Odette!

sexta-feira, 20 de março de 2009

Feitiços e pés molhados


- Não, não e não! Eu não posso ir ao barco, vou me meter na boca do lobo! Não, nem pensar! E se me descobrem?
- Queres ou não queres que o chá tenha efeito? Se não fores lá hoje à tardinha, que é quando completa vinte e quatro horas ,o Alan cai de amores por aquela horrorosa e tu ficas a ver navios...literalmente.
- Mas eles lá são espertos...Não me admirava nada que o Pacheco tirasse o xaile e me revela-se em frente àquela gente toda.
- Miúda, ouve-me: Neste momento tens meia hora para decidir se queres que o Alan fique encantado por ti ou por aquela lambisgóia.
- Tu também...Podias ter preparado um chá com efeito instantâneo! Assim ele olha para mim e pronto!
- Tem calma. Isto agora é aos poucos. Só tens de estar à direita dele, às horas certas, com um ramo de rosmaninho na mão esquerda. Ah! E não te esqueças de que ele tem de ter o sapato esquerdo molhado.
- Esse é o feitiço mais esquisito que eu já vi...Como vou molhar-lhe o sapato?
- Inventas qualquer coisa.
- Sim, pois...
- É agora ou nunca. Pegar ou largar. Quem não arrisca...
- Já percebi, percebi à primeira não precisas de dizer mais provérbios...- Não estava muito segura. Aceitei o plano da Morgana, estar sozinha com ele para lhe lançar o primeiro "feitiço", depois o chá, agora tinha de fazer com que o feitiço e o chá façam efeito. Nunca acreditei nestas coisas. Lá na minha terra havia uma curandeira mas não era como a Morgana. A Morgana é cigana e tem todos os truque e "feitiços". Poderia estar a fazer aquilo tudo e na volta nem ter nunca mais o Alan, que nem se preocupou em seguir os meus passos, mas enfim...
- Eu vou!
- Assim é que é falar!- disse a Morgana- Agora, vá, cobre-te lá com os teus mantos e...Espera, ouviste alguma coisa? Parece que estão a bater palmas lá fora...
- Amori, está ali o moço da praia, diz que quer falar com a Guadalupette.
- Com quem?- dissemos as duas.
- Foi uma mistura que fiz de Guadalupe e Odette para ninguém perceber!
- Que bonito, Rodriguez, que bonito...Diz a ele que ela já vai.
- MORGANA!- disse eu.
- Que é? Ele está aqui! Vai ser mais fácil do que imaginamos! Nem corres riscos ao ir ao barco. És uma sortuda, é o que és!- dizia ela encaminhando-se para a outra tenda, onde o Alan a esperava.
- E o que faço eu??
- Tu vens depois- disse, parando e cobrindo a cabeça com o lenço- levas o rosmaninho na mão, não te esqueças! Levas um copo de água, com a desculpa do calor, eu peço ao Rodriguez para te chamar. Acidentalmente entornas no pé esquerdo do moço e corres para a sua direita assim que eu tossir.
- Não sei se consigo fazer isso...- Ela olhou para mim, piscou-me o olho, ajeitou o lenço e lá foi ela. Até lá pus-me a pensar: " Rosmaninho mão esquerda, ou direita? Sim...esquerda. Tenho de estar à direita dele, sim: Rosmaninho na esquerda e direita dele. Molhar o pé! Molhar o pé esquerdo! Passado pouco tempo o Rodriguez veio me chamar e deu-me uma bandeja com o copo de água. Ao entrar na tenda toda eu tremia. A Morgana olhava fixamente para um pequeno relógio que o Rodriguez tinha encontrado ao chegar a Fleury, já com meio vidro quebrado.
- Era consigo que queria falar, Guadalupe!- Disse Alan, levantando-se da cadeira onde estava sentado, ao me ver. Acenei com a cabeça e cobri-a mais um bocado.
- Sente-se, sente-se Alan, por favor esteja à sua vontade- dizia a Morgana sem despregar os os olhos do relógio podre de velho.
- Sim, mas, de facto, queria pedir ajuda à Guadalupe, eu percebi que ela entende bastante destas coisas...Assim, so futuro e prever coisas e...Eu estou muito preocupado com...
- BEBA ÁGUA!!- Aquilo não estava previsto. Naquele momento a Morgana grita eu entorno a água, aperto com força o rosmaninho na minha mão esquerda- COF, COF, COF AH! MALDITA TOSS...COF COF!!- e corro para a direita do rapaz, como uma velha que era, nunca conseguiria correr. Fechei os olhos e...fez-se silêncio. Eu e o Alan olhavamos para a Morgana que recuperava do seu "forte ataque" de tosse. Foi ela que quebrou o gelo:
- Tosse...Tenho destes ataques...Ops! Oh não...- ela olhava para o chão...- Está molhado!
- Ah, não há problema!- disse o Alan.
- Ha sim! E não imagina quanto! Preciso de conferenciar com a minha amiga, ah...mãe! Guadalupe! Vamos só ali e...bom, nós já vimos, ponha-se à vontade, como se estivesse na sua casa.
- Bom, na verdade tenho um pouco de pressa...
- A Guadalupe já vem, deixe-se estar aí, sabe como é, ataques de tosse, só ela sabe fazer aquele chazinho, coisinhas das mães, coisinhas da Guadalupe, coisinhas...Enfim, ela é muito poderosa,como pode ver, já voltamos!- E agarrou-me no braço e puxou-me para fora da tenda, deixando o Alan embasbacado lá dentro.
- Ai! Que foi??? Deu certo!!- disse eu.
- Deu? Deu? Entornas-te-lhe a água no pé direito, mulher!!!
- Oh...e agora?
- Agora vamos ter de recorrer a mais feitiços...Mesmo assim nada está perdido, ele vai começar aos poucos e poucos e pouquinhos a sentir qualquer coisa por ti.
- Mas espera...eu sou só uma velha, feia, horrivel, cigana!
- Bem! Olha como falas da mãezinha...Mas isso não interessa para o feitiço, tolinha! Ele vai procurar o que tu és por dentro...
- Isso é muito romântico, a sério Morgana, mas não me parece...
- A ver vamos. Agora vai lá para dentro e vê o que ele quer. Vá!- E lá fui. Por pouco não era apanhada, tinha me esquecido de tapar a cara com o lenço antes de entrar. Sorte ele estar de costas.
- Peço desculpa- disse eu com a voz de velha que tinha adoptado- Sabe como são as filhas...Mas diga- disse, sentando-me à frente dele- o que o trouxe até mim?
- Bom, eu sei que me disse daquela vez na praia que muito mais cedo do que eu imaginava ia encontrar aquilo que procuro...Mas eu não percebi se o que procuro, porque no fundo eu procuro imensa coisa e...
- Pense bem- disse eu, não conseguindo evitar de o olhar nos olhos- O que procura ,mesmo?
- Aí é que está! Eu procuro sucesso, felicidade, boa vida, procuro a mulher dos meus sonhos...
- Em que sentido?
- Em que sentido?...Esse é o problema. Quando me disse que mais tarde ou mais cedo eu ia encontrar aquilo que procuro...pode ser nesse sentido ou no sentido de eu encontrar a pessoa que eu realmento ando à procura, percebe?
- Hum...Procurar a mulher dos seus sonhos que pode estar perto corresponde a...
- Jaqueline.
- E de quem você realmente anda à procura?...
- Da Odette...Ela desapareceu, sem deixar rasto, estou preocupado mas não posso deixar os ensaios no barco porque agora estou a ganhar realmente bom dinheiro porque a Charlotte nos adiantou os pagamentos mas...Se eu pudesse, Guadalupe, corria o mundo à procura da Odette. Nem que ela estivesse na China, eu ia ter com ela! Só que ela também não se interessou em me dizer nada e...
- Claro que se interessa!
- Como disse?...- Ops, meti a pata na poça...Tive de desenrascar.
- Que ela se interessa por si, aliás, ela interessa-se muito por si.
- Chegou a conhece-la? Porque na verdade a senhora só apareceu quando ela...
- Não, não então não conheci a Odette? Conheci pois, eu já cá estou desde que a minha filha e o Rodriguez chegaram tenho é estado sempre nas tendas, estive doente...Mas acredite, ela interessa-se...
- Mas ela disse-lhe alguma coisa- o rapaz estava exaltado.
- Ela...sim, qualquer coisa...Mas sabe, eu sou vidente, vejo coisas e adivinho coisas também...E ela interessa-se...eu, hum...sinto-o!
- E pode me dizer onde ela está?
- Isso também não, não sou nenhum mestre Bambu!
- Quem é...
- Não interessa. O que tens de saber dentro de ti é realmente por quem, neste caso, procuras...Se bem que eu estou mais inclinada para a segunda hipótese, sem querer influenciar, claro.
- A Odette.
- Hum, hum (para todos os efeitos eu não disse isto)...Sabes como é, não posso influênciar os meus clientes nesse tipo de decisões- E olha-mo-nos nos olhos, mas tão profundamente que por momentos pensei que tinha estragado tudo. A minha sorte é que a Mograna é uma excelente maquilhadora e com todas estas rugas ele nunca...
- Odette...- disse ele.
- HÃ?
- É a Odette que eu penso que procuro, Guadalupe.
- Ah...Sim...- Ufa...
- Nao ficou calor de repente?- Perguntou o Alan, abanando um pouco a camisa.
- O Rodriguez deve estar a assar peixe lá fora, se calhar...
- Deixe-me vir visita-la mais vezes, Guadalupe- disse ele, pegando-me na mão- Sinto-me tão bem ao falar consigo, transmite-me uma calma...E os seus olhos, são tão...tão...Tranquilizantes. Parece que já nos conheciamos!- Eu retirei a minha mão debaixo da dele. Que chá potente!
- Bom, cá estarei, com certeza, Alan...E não precisa de pagar consultas. Agora somos amigos.
- Sim- disse ele sorrindo - Então até breve!- E saiu da tenda. Mal ele saiu a Morgana entrou. Chegou-se ao pé de mim e deu-me um beijo sonoro numa das minhas boxexas rugosas.
- Grande mulher! Sim senhora! Só não gostei da parte das consultas grátis...
- Estavas a ouvir??
- Sou cigana, lembras-te? Adivinho coisas, coisinhas...- E rimos juntas.
- Jantaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar! Então? Não vêm comer aqui os peixinhos do Rodriguez?- disse o Rodriguez espreitando para dentro da tenda. Fomos comer, estavam divinais, os peixes do Rodriguez. Pena que a Morgana os tenha vomitado no minuto seguinte...Ai, Alan...

Chá chinês

Ai a minha cabeça! Isto só pode ser dos ares desta terra maldita. O cheiro a peixe está em tudo, peixe podre para agravar a situação. Eu sempre fui sensivel a cheiros e tenho andado completamente desorientada. Mal tenho saído do quarto neste últimos dias, o Pacheco providencia-me o almoço e o jantar e o Marcelle está a vigiar os ensaios. Com o contratempo da Odette ficámos bastante atrasados, com a Jacqui leva-se o dobro do tempo porque ela é péssima a decorar as falas. Mas é a solução que tenho e apesar de tudo sei que é de confiança e também tenho de admitir que me tem nas mãos dela, é a única pessoa neste barco que sabe do meu passado. Mas adiante, preciso de descansar e de ganhar forças, a estreia é já para a semana que vem. Ai que esta vida começa a cansar! Não é uma questão de idade ... estou ainda na Primavera, vá Verão da vida! Mas estas confusões causam-me rugas e eu não estou para andar por aí feita velha cheia de pregas mais vale ... ai o diabo seja cego, surdo e mudo! Deus me livre!
- Dona Charlotte? Está acordada?
- Não estou a dormir a e a falar contigo queres ver! Diz lá o que foi?
- É a cab ... a menina Jacqueline, diz que quer falar consigo imediatamente.
- Diz-lhe que morri e estou a apodrecer e que ela vai apanhar sarampo e joanetes se cá vier confirmar.
- Já lhe disse isso. Ela perguntou como é que a senhora morreu e eu respondi " Ah caiu da cadeira e bateu com a cabeça" e ela perguntou "Então de onde vem o sarampo?" e eu "Ah a cabra apanhou-me!". Ela até é esperta para uma moça burra.
- Manda a entrar quero lá saber.
- Se a dona quiser eu digo-lhe que foi ver se está a chover, ela acreditou daquela vez em ...
- MANDA-A entrar Pacheco! JÁ!
Entrou de rompante com um daqueles sorrisos de menina caprichosa que conquistou o seu mais recente desejo.
- Nem sabe o que me aconteceu!!
- Imagino.
- Acredite em mim que nunca iria adivinhar. Fui lá ter com a cigana velha e ela não só me disse o que eu queria ouvir como ... fez com que o Alan caísse a meus pés. Literalmente! Deu-lhe um chá ou o que foi. Eu a principio suspeitei que ela fosse sabotar o nosso acordo mas fez ainda melhor! Não é fantástico?
- Fabuloso (ironia). Mas diz-me uma coisa? Que pensas fazer quando te cansares dele, o que vai acontecer muito brevemente, e ele estiver completamente vidrado em ti?
- Qual quê? Isto é para a vida!
- É por causa da Odette não é? Tu sabes que estava apaixonado por ela e não suportas-te o facto de ela te ter substituído no espectáculo tinhas de te vingar de alguma forma.
- Alguma vez? Quero que a sonsa vá morrer longe! Nós fomos feitos um para o outro, ele só precisava de um empurrãozinho.
- E a cigana? Não me digas que acreditas nessas coisas?
- Acredito pois, principalmente depois de ver o efeito do chá. Já lhe encomendei mais! E consultas regulares, vai ver que você gosta lá. Até podia ajudá-la com ... aquilo, você sabe.
- Não querias ir por aí que hoje estou no limite, não abuses. Era só isso que querias?
- Não, queria pedir-lhe, aliás dizer-lhe que nos vamos embora depois das 100 exibições do espectáculo. Pretendo ir para Nova Iorque retomar a minha carreira no cinema.
- E então? Arranjo outra rapariga, não és insubstituivel.
- Repare, você vem comigo assim como o "Charlotte".
Nisto entra o Pacheco e a conversa ficou por aí. Ela já está a abusar, sempre quero saber como é que ela me pode obrigar a fazer aquilo que quer.
Saí do quarto depois da conversa e resolvi ir dar uma volta até à praia. Já estava escuro, mas ouvir o som do mar ajudou a acalmar-me e por momentos não pensei em nada. Fleury lembra-me muito a minha aldeia natal, as pessoas, os cheiros e é por isso que não gosto de Fleury. Pronto lá estou eu a pensar! Quem me dera ser vazia como a Jacqui e não pensar. Aquela tem um talento natural para esquemas, nem precisa de pensar neles, surgem.
Quando estava a voltar para o barco avistei uma fogueira e uma tenda. Deviam ser os ciganos que estavam na vila, e deve lá estar a cigana de que me falou a Jacqui. Não tenho nada a perder, resolvi entrar. Só estava lá uma velha, sentada numa cadeira com uma manta nas pernas.
- Boa noite! Estou a incomodar?
- Claro que não madame. Entre por favor.
- Você é ...
- A Guadalupe! Sim fui eu que falei com A Jacqueline.
- Mas como? Você conhece-me?
- Ahh ... não quer dizer ... eu adivinho, é isso!
- Meu Deus então é verdade! Você consegue ...
- ... ver o futuro. Sim! Não é por acaso que me chamam de Mestre Bambu de saias, mas o Bambu usa saias ... Mestre Bambu feminino vá! Se bem que ...
- Quem é esse?
- Não conhece o Mestre Bambu? Foi o meu mentor, ensinou-me tudo o que sei e o que não sei mas que vou descobrir, e ainda aquilo que desconheço mas que sei secretamente. Conheci-o em Londres onde ele esteve estabelecido até à sua morte.
- Mas ... eu estive em Londres durante vários anos e nunca ouvi falar de ...
- Mestre Bambu é muito reservado. Fugiu de África na mocidade, por motivos desconhecidos, e gosta de manter a sua privacidade.
- Tem certeza que não me está a tentar enga ...
- Eu?? Nunca faria tal coisa! Até tenho um certificado de vidente, quer ver?
- Eu qu ...
- Está tudo desarrumado! Não conseguiria encontrar.
- Mas se você é vidente deve adivinhar onde ele es ...
- Adiante! Eu sei porque é que a senhora veio cá.
- Sabe? Como?
- Sou vidente lembra-se??
- É verdade desculpe. Então diga-me, se é que consegue, como me pode ajudar?
- Eu só a posso ajudar se me der algo em troca.
- Dinheiro? Olhe desculpe mas não tenho dinheiro para gastar com estas coisas, nem sei porque estou aqui o melhor é ...
- Eu sei do seu caso com o Jean Poisson!
- Eu ...
- ... não sabe o que dizer. Pois eu sei que não sabe!
- Mas co ...
- Aconselho-a a ter cuidado com a estrela do seu espectáculo.
- Pois eu sei que não ... mas como é que sabe que o Jean...?
Era o que me faltava. A história começava a espalhar-se. Fiquei estupefacta a olhar para a velha, não sabia se havia de desmentir ou não. Ela sabia de tudo o que fiz e eu não podia arriscar arranjar problemas com ela. Se estivesse em Paris facilmente arranjava forma de a calar, mas não aqui na terra onde Jean nasceu.
- Você pode ...
- Ajudá-la claro. Estou aqui para isso! Tome este chá, dê-o à sua Jacqui a beber no dia antes do espectáculo, vai ver que ela fica de bico calado. É um chá chinês, faz com que as pessoas realizem todos os desejos da pessoa de quem o oferece.
- Eu realizo os meus desejos se ela o tomar?
- Não, você terá controla a pessoa, logo puderá realizar os seus desejos em que ela ... percebeu?
- Não.
- Deixe-me ver a embalagem. Ora ... ah! Você tem "o total controlo sobre a vida da pessoa subjugada, ao nível de tarefas domésticas, eventos sociais, situações de escravidão emocional e outros".
- Então e como é que isso faz com que ela não abra a boca?
- Isso encontra-se nos outros madame.
- E a senhora? Como sei que não vai falar?
- Digamos que não vou permanecer aqui por muito mais tempo. E quem iria acreditar numa velha cigana? Ainda mais em Fleury.

sexta-feira, 13 de março de 2009

Um mau pressentimento


-Rodriguez, trouxeste os binóculos que eram do papá?
- Não.
- QUE ASNO! Quer dizer, que asno!!!!! Vais já busca-los.
- Porque é que estamos a falar baixinho?
- Estamos a ver se o plano corre bem, lembras-te? A Odette...
- É agora??
-shhhhhhhhh!!!!
- Desculpa! É agora?
- Claro! Se não passasses o tempo todo a dormir sabias que era agora! Vá, vai lá num instante buscar os binóculos.
- Olha, amori, lá vem ao longe a Odette barra Guadalupe...
- Rodriguez, vaaaaaaaaaai!- E lá foi ele de uma vez por todas. Odio, odio, odio a todos os Rodriguez deste mundo! Na verdade não deveríamos estar a espiar a moça, mas tenho um pressentimento ruín e quando Morgana tem um pensamento ruín, alguma coisa vai acontecer. Não disse nada à rapariga porque ela estava tão entusiasmada, parece mesmo que ela gosta do Alan, aquele moço todo bem feitinho. Estava eu muito bem escondida no meio da praça que dá para a praia quando eu avistei algo!
- Amori! Olha ali a velha costureira!
-Cala-te Rodriguez! Olha! Está ali a velha costureira!
- Foi o que eu...
- Shhhhhh! Os binóculos, rápido! Lesma!- Foi então que vi a mãe do famosos Alan. Estava a espiar a situação, mas que mulher mais cusca, santo Deus. Se ela faz alguma coisa...Oh, não...Ela vai a descer as escadas, ela vai ter com eles, ela vai arruinar tudo!
-Bem tu dizias, amori, que alguma coisa não ia dar certo.
- Cala-te. Epa...trouxes-te a tua ocarina?
- Anda sempre comigo metida nas ceroulas! Tu sabes...
- Boa! Anda comigo, vamos dar espetáculo ali para aquela cusca.
- Amori, podemos parar de falar baixo?
- Pode ser, anda!- E lá fomos nós. Descemos as escadas mais rápido que a velha e num intervalo de um lance de escadas o Rodriguez lançou o seu chapéu para o chão, começou a tocar a sua ocarina e a bater o pé, e eu agarrei nas minhas saias e começei a dançar. A mulher não tinha escapatória, nós estavamos a tapar o caminho.
- Saia da frente!- dizia ela, enquanto eu dançava à sua volta, impedindo-a de avançar- Ciganos! Só podia! Não trouxe dinheiro! Mas isto agora é uma praga de ciganos? Deixe-me passar!- Dizia ela lutando entre os meus passos magnificos, diga-se de passagem, e as minhas mãos e os meus cabelos que voavam ao vento e lhe faziam confusão. Mas a velha estava mesmo decidia a passar e atirou-me literalmente para o chão!
- Rodrguez! Corre!- Ordenei que o Rodriguez corresse- Vai! Tens de a deter!- Ele não largou a ocarina, gerou-se uma situação de tensão...- Vai, Rodriguez, vai! Eu fico bem!...Vai, tens de a deter! Vai!...Vai! Vai...Vai!!! VAI RODRIGUEZ QUE ASNO QUE HORROR, CORRE HOMEM!- E lá foi ele. Enquanto corria, e tinha a ocarina na boca, ao respirar fazia pequenos sons com a mesma, era lindo. Só que como o Rodriguez nunca pensa nas coisas lançou-se à mulher, agarrou-a pelas pernas, e,degrau a degrau, cairam da escadaria e estatelaram-se os dois lá em baixo todos enrrolados no meio de gritos de desespero da madame velha e dos ginchos da ocarina do Rodriguez, que a agarrou com os dentes, sem a deixar cair da boca. "Mataram-se", pensei eu. Mas não, a velha estava inanimada e o Rodriguez estava em cima dela, sem um arranhão. Curiosamente esta cena toda não despertou a atenção dos três jovens da praia, a Jaqueline, o Alan, e a Guadalupe. Eles continuaram a falar, sem ouvir nada. O vento, o vento ajudou-nos muito! Oh! Grande elemento! Estava a soprar para o lado contrario ao da desgraça da escadaria e, por isso, todos os gritos da velha foram abafados e levados para o lado posto, assim como os sons da ocarina do Rodriguez. Desci as escadas e fui ter com os desgraçados.
- Bom trabalho, Rodriguez!
- A sério? A sério?? Achas que fiz bem?
- Matas-te a velha! Achas que fizes-te bem??
- Ah...
- Vai chamar alguém...Vai!- E lá foi ele- Oh, madame acorde lá se faz favor para nos poupar chatices...Madame- e dava-lhe suaves pancadinhas na cara. Entretanto ia olhando para os três moços. Deus queira que a Odette não se esqueça do que tem para dizer. Naquele momento ainda estavam os três, ou seja, nada tinha acontecido- Oh, pxtó! Madameeee!!- Comecei a abana-la- Queres ver que se finou?
- Finou?? Nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaao- Era a rapariga, a Edith.
- Rodriguez...trazes-me esta outra asna??- Ele encolheu os ombros e disse que não tinha visto mais ninguém.
- Oh! O Alan! Vou chama-lo!- disse a Edith.
- Eh, eh, eh!! Vamos lá a estar quietinha! Não vai chamar nada o Alan, então não vê que o rapaz está ali a...namoriscar?
- Mas ele é filho dela, por Dieu!
- Sim, está bem mas...- e bastou-me olhar para a cara da moça para...- Vá antes ali ao barco, andava ali um moço no convés, forte, robusto, é capaz de ajudar.- A moça concentiu, até porque lhe cheirava ir lá, e subiu as escadas.
- E agora, amori?
- Agora, Rodriguez? Agora remendas o que fizeste! Vá, pega na velha.
- Mas não era melhor chamar o filho dela? Ele está mesmo ali...
- Pega na velha, já disse!- Ele pegou e subimos as escadas. Mal chegamos ao topo um homem da vila disponibilizou-se a leva-la ao posto médico e lá foram. Olhei para a praia, tinha conseguido impedir que a velha estragasse tudo. A Odette/ Guadalupe falava agora com o Alan, já sozinhos.
- Vamos para casa, amori?
- Vamos, agora podemos ir, Rodriguez...- No caminho para casa deu-me um enjoo horrivel. O Rodriguez levou-me ao colo meio caminho porque não me continha nas pernas. Foi aquele chá de prepétuas roxas, só pode ter sido isso...

quinta-feira, 12 de março de 2009

Moça bonita e moça velha

- Pronto, pronto Edith chega de chorar mulher! Já me deste cabo do sofá com a tua maquilhagem. Tens de seguir em frente, isto os homens só servem para nos darem os filhos, de resto não fazem mais nada no resto do casamento senão beber, comer, dormir e andar atrás de mulheres duvidosas. Deixa lá que não perdes-te nada!
- Mas era desta Marie! Era desta que eu desencalhava e ... e até deixei o trabalho na funerária! O que vai ser agora de mim? Ai Marcelle ...
- Chega mulher! Vamos lá a limpar essa cara. Já choras-te tudo o que tinhas para chorar! Agora vamos lá a resolver a tua vida. Eu posso oferecer-te um trabalhito. Preciso sempre de alguém que esteja na loja enquanto eu vou ao armazém buscar tecidos ou quando estou na despensa de volta dos remendos.
- Obrigado senhora Marie mas não sei se ...
- Aceitas sim. Precisas é de trabalhar para esqueceres esse homem. Começas amanhã bem cedinho, vais ver que o desgosto passa rápido.
A moça lá se foi embora. Esteve a tarde toda naquela lamúria, falta-lhe a experiência do casamento. Temos mais é que engolir, ainda ela tem sorte de não ter estas desilusões depois da subida ao altar. Mas eu até precisava de uma ajudinha por isso a situação até me deu algum jeito.
- Boa noite Alan! Então já não se comprimenta a mãe?
- Ah desculpa não te tinha visto. Tudo bem?
- Que entusiasmo. Desde que começas-te a trabalhar naquele "local" andas sempre com este humor. É a estrangeira de certeza ...
- A estrangeira já era. A Charlotte mandou-a embora e ela já deve ir longe a esta hora.
- Ah coitadinha (alegria, festa, pulo, salto, danço na minha cabeça) era uma moça tão ... a ... simpática.
- Não precisas de estar com ironias que eu estou exausto e sem paciência!
- Claro que não meu filho. A mamã fez uma sopinha de legumes como tu gostas é só aquecer e ...
- Obrigada mas não tenho fome.
Ai este rapaz. Isto lembra mesmo a altura em que a Pauline estava em cena. De rapaz alegre passou a um farrapo que se arrasta pelos cantos com os olhos inchados. Nunca mais se soube nada dela, simplesmente desapareceu. Nunca cheguei bem a saber de onde é que vinha aquela rapariga, apareceu do nada. A Faustine dizia-me que ela era filha de alemães que emigraram para o norte de França. O nome francês devia então ser falso porque o Alan perdeu-lhe o rasto. Foram meses terriveis, mas desta vez parece-me que ele está menos afectado, talvez a Jacqueline o tenho conseguido seduzir. Rezo a Deus para que assim seja pois tudo o que não quero é gente estrangeira na família.
- A Jacqui também não é de cá.
- Quê filho? Estavas aí, não te ouvi entrar!
- A mãe sempre teve o hábito de vir para o quarto da Ema falar alto os seus pensamentos.
- É verdade. Quando ela partiu fiquei sem a minha confidente, é a maneira que encontrei de poder continuar a falar com ela.
- Mas diga lá, já me anda a fazer casamentos? Ainda agora a ... foi embora.
- Não são casamentos filho! Apenas gostei de conhecer a rapariga, é simpática, bonita ...
- ... e não é de Fleury.
- Está bem mas as qualidades ajudam a compensar essa falha.
- Pois sim vou fingir que acredito que gosta mesmo dela.
- E porque não haveria de gostar?
- Porque ninguém gosta.
- Nem tu?
- Já desgostei mais.
Há esperança. Estivémos mais um pouco a conversar, ele estava claramente mais animado. Disse-me que mal entrou no quarto se lembrou dos tempos em que desesperou pela Pauline e não quis voltar ao mesmo. E parece que as coisas com a Jacqui vão avançando, amanhã vão-se encontrar fora do trabalho. Essa é outra insisti para que deixa-se aquele maldito trabalho, eu própria deixei de colaborar com a madame, ele disse que ia pensar nisso.
De manhã tomámos o pequeno almoço juntos. Fez-me panquecas e um cházinho de camomila, estavam intragáveis mas eu fiz um esforço em ser agradável. Saiu para o trabalho e eu para a minha lojinha. Já lá tinha a Edith à porta com umas olheiras até aos pés que denunciavam uma noite mal dormida.
- Bonjour Edtih! Pronta para trabalhar? Temos muito que fazer hoje, encomendas e mais encomendas e o fornecedor que vem de Toulouse. Não temos tempo a perder!
- Está de bom humor madame. Aconteceu alguma coisa?
- Não nada, acordei bem disposta é só.
Tivémos uma manhã atarefada, um zum zum constante para cá e para lá. Por volta do meio-dia os meus joelhos já não podiam mais, tive de me sentar! Ouvi um pouco de rádio para me distrair e folheei algumas revistas. Foi aí que ouvi a campaínha.
- Quem é?- perguntei sem me levantar da cadeira - Quem é? - repeti sem obter resposta.
Se for a estrangeira a dizer que voltou quer casar e fazer bébés com o meu filho acho que a ...
- Bonjour madame!
- Boujour ... quem é a senhora?
- Sou Guadalupe, mãe de Morgana e filha de Esther.
- Interessante. E então diga lá o que quer? Se é por causa da boutique enganou-se na porta, é a do lado. - tentei falar o mais alto possível a mulher aparentava ter uns 80 anos.
- Eu queria era falar com a senhora.
- Desculpe lá ... conheço-a de algum lado?
- Duvido madame, em toda a minha vida viajei pelos quatro cantos do mundo, mas esta é a minha primeira vez em Fleury.
- Sim mas adiante diga lá o que quer que eu tenho mais que fazer. É esmola não é? Não tenho muito para lhe dar ...
- Nada disso senhora, vim aqui avisá-la de que algo está para acontecer na ssua vida. Algo importante.
- Ai então é bruxa? Devia ter percebido pelas roupinhas, já lhe disse que não tenho dinheiro para lhe dar. Agora xô.
- Cuidado madame, cuidado. Quem semeia ventos colhe tempestades.
Velhas doidas é o que mais há por aí. Ainda por cima cigana, ui aquela para andar de porta em porta deve estar mesmo no desespero, já devia saber que aqui os ciganos não fazem negócio. Mas algo naquele rosto me fez lembrar alguém.
O Alan voltou, almoçou e voltou a sair. Parecia entusiasmado, ao sair lançou-me um beijo e voltou a chamar-me de "Fanfan" tal como quando era pequeno. Não resisti e segui-o, tinha de saber a razão de tamanha felicidade.
Subiu a rua, passou pela praça, cumprimentou o senhor Ângelo e a esposa, seguiu para o cais e finalmente pos os pés na areia. O meu filho sempre gostou da praia, desde pequenino quando ía com o pai à pesca e passava os dias inteiros dentro de água. Sentou-se na areia com os pés na água e eu para passar despercebida meti conversa com o Genet.
- Então já pescou muito hoje?
- Pouco madame Marie! Este barco aqui atracado afasta os peixes.
- É verdade isso é desagradável. E a sua senhora como vai? Nunca mais foi à boutique.
- Tá doentinha madame. Apanhou uma constipação e não sai da cama. Já lá foi o doutor August mas nada feito, o médico diz que é coisa da idade, não se cura tão depressa. E o meu filho que agora não pode cá vir, uma tristeza, mas se Deus quiser a Louise chega amanhã, lembra-se dela? Bela moça, devia casar-se com um moço daqui para ficar mais perto de nós, o seu filho é um moço bom. Tá comprometido? Ai gostava tanto de os ...
O homem não se calava. Não ouvi metade do que ele disse, todos sabem que é impossivel conseguir dar atenção e registar todas as palavras e histórias que o homem consegue relatar em 4 minutos.
- ... e daquela vez que o cão teve prisão de ventre ...
Ai a minha vida! Se não fosse por uma boa causa mandava-o dar uma volta, mas tenho de descobrir o que torna o meu Alan de novo ... no Alan! Ai que não acontece nada! Ninguém aparece!
- ... e há trinta anos que não ía a casa da minha cunhada! Foi daquela confusão de quando ela andou enrabixada com o padeiro, uma vergonha ... aquele ... aquele não é o seu Alan? ALAN!
- Esteja calado homem! Não vê que eu não quero que ele me veja?
- Ele não quer ver a senhora que você não quero que ele ...
- Esqueça, esteja calado e pronto!
- Ah já entendi! Estamos a espiá-lo!
- Eu sou mãe dele! Estou apenas a protegê-lo, espiar por amor de ...
- Olhe lá vem uma moça, bonita, boa, boa e outra olhe lá bo ... velha!

quarta-feira, 11 de março de 2009

Guadalupe


- Rodriguez! Ajuda aqui! Mas que asno que me saíste...
- Não o trate assim, Morgana. Ele é um bom homem.
- Para dormir! Para ajudar quando é preciso não!
- Amori, gostava tanto de estar na praia...Não podemos ficar lá porquê?- disse o Rodriguez, enquanto vinha com a casa às costas.
- Já te disse mil vezes, homem de Deus! Caraças! Vou montar a banca e não dá jeito estar na areia, bolas! E ainda por cima está frio. Pensas que é Verão, não? Agora mexe-te!
- E vamos para onde?- perguntei eu- Digo vamos mas...nem sei se posso ficar definitivamente com vocês...Se calhar o melhor que eu fazia era voltar para a minha terra.
- Cala-te, miúda! Já conversámos sobre isso (despacha-te Rodriguez!) ficas connosco! Anda, vais aprender umas coisinhas e vais me ajudar.
- Vamos para onde, amori?
- Cala-te, Rodriguez! Mexe-te! Segue-me e logo vez!
- Hum, mas sabe que não quero dar trabalho...- disse eu.
- Não dás trabalho nenhum! E vais me ajudar e isso é bom, tendo em conta que o Rodriguez só dorme.
- Ás vezes apetece-me desaparecer...Ao ficar com vocês as pessoas vão continuar a ver-me e a falar de mim e...o Alan...
- Nós damos um jeito nisso, querida. RODRIGUEZ! Pousa as coisas. Ficamos aqui!- Pousamos, ou, o Rodriguez pousou as coisas num pequeno descampado mais para o fim da vila. Olhei à volta. Parecia-me bem.
- Monta a tenda, Rodriguez.
- O Rodriguez faz tudo, porquê?
- Porque és homem!- A Morgana era um bocado dura com o pobre homem, mas ele também era um bocado tontinho. O Rodriguez começou a montar a tenda.
- Vou ver o terreno e as coisas aqui à volta. Transmitir uma boa energia para o negócio. Vens Odette?
- Não, eu fico por aqui a ajudar o Rodriguez- disse eu. Ajudei-o a montar a tenda e conversámos um pouco enquanto o fazíamos até porque vi que ele não estava bem.
- Então, Rodriguez...Está bem? Está...Rodriguez! Está a chorar?
- Qual quê! Entrou-me uma ervinha para o olho...
- Vá lá Rordriguez, sei que ela é demasiado dura consigo.
- Ela é assim...ás vezes sinto que ela pode desaparecer a qualquer momento. Sou um anormal, um burro, um desastrado, um idiota, uma analfabeto, um...- E começou a bater-se a ele próprio. Fui forçada a faze-lo parar.
- Hei! Hei! Calma! Oh, não fique assim...Cada um é como é. A Morgana gosta de si...é o jeito dela ser como é.
- Um filho, menina, um filho ia tornar a nossa relação melhor, sabe? Bem a minha mãe me dizia que ela era "seca" em todos os aspectos. Eu não quis acreditar...
- Não pense nisso agora, vá- disse eu, enquanto arranjava as ultimas coisas- daqui a nada ela volta e se o vê assim ainda fica mais revoltada.
- Ela quer um homem de barba rija. Mas eu sou só um cigano molengão...
- Não diga isso! Vai ver que as coisas vão mudar para os dois- Naquele momento a Morgana chega e repara realmente que algo não stá bem.
- Que tens Rodriguez?- perguntou ela.
- Fui eu, Morgana. Levantei uns tecidos aqui, fizeram poeira mesmo para cima do seu marido. O coitado ficou tão afelito dos olhos...peço mais uma vez desculpa, Rodriguez.
- Não, não tem de pedir, menina, isto já passa- A Morgana acreditou. Passado pouco tempo estava tudo pronto: uma mesa, umas mantas, umas almofadas, umas coisas meio esquisitas dentro da tenda. Saímos os 3 para fora da tenda e contemplámos o nosso feito. Estava finalmente tudo arrumado.
- Agora, Odette, vem comigo. Rodriguez, vai arranjar o que comer!- O Rodriguez saiu em direcção a parte inserta e eu entrei dentro da tenda com a Morgana- Vou te fazer desaparecer, miúda- fiquei parva. E disse logo que não.
- Morgana, calma, quando disse desaparecer queria dizer sair da vila, sair daqui, quem sabe da França! Não queria dizer propriamente desaparecer.
- Calma! Vou apenas te mascarar. Assim, ninguém te vai reconhecer, vais me ajudar, ficas na vila e tens o Alan debaixo de olho. Que achas?
- Hum...Não sei, as pessoas vão acabar por descobrir, Morgana.
- Agora parecias o Rodriguez! Que horror! Onde é que está aquela rapariga forte e destemida que veio de bicicleta sei lá de onde, se esbarrou contra uma carroça, veio para a vila, fez-se à vida!
- E acabou por perder tudo...
- AI! Acabou a convivencia com o Rodriguez! Estás a ficar igualzinha a ele! Vá, a partir de agora- e abria um baú gigantesco com mil tecidos e chapéus- vais te tornar na Guadalupe!
- Hã?
- Era o nome da minha mãe...Basicamente vais ficar velha. Serás a minha mãe de agora em diante.
- Morgana, Morgana...No que é que me vais meter?
- Vais dar consultas de cartas- dizia ela com toda a simplicidade e descontracção deste mundo enquanto me vestia uma saia comprida. E continuou- vais ler a sina, vais fazer chás...
- Eu não sei faz nada disso- dizia eu ao vestir um corpete e mais uma camisa e mais não sei o quê.
- Não sabes mas vais saber- depois de me vestir, maquilhar, por um lenço na cabeça, uns óculos. Levou-me até um espelho velho- que tal esta Guadalupe?- Fiquei sem palavras. Aquela que estava no espelho não era, definitivamente, eu...
- Só que não posso ficar assim para sempre, Morgana.
-Lá estás tu a pensar como o Rodriguez! Sabes lá tu o rumo que as coisas vão tomar!
- E tu sabes?
- Isso agora...Vá, mas agora vou te ensinar e dizer o que tens de fazer. - Estava a começar a gostar daquela ideia, mas, mesmo assim, não podia ficar assim para todo o sempre. No entanto, ao estar disfarçada, podia ver o Alan as vezes que quisesse, mesmo que ele nem sequer se interessasse por isso...ou comigo. Maldito!
- Percebes-te tudo?- perguntou a Morgana. Na verdade não tinha percebido grande coisa, mas disse que sim. Com o tempo, as coisas vão ao lugar. Passado algum tempo, depois de termos comido uma carne um pouco duvidosa que trouxe o Rodriguez, bateram palmas lá fora, para nos chamar. A Morgana saiu da tenda e foi lá fora. Passado uns segundos voltou.
- Odet...quer dizer, Guadalupe, chegou a tua primeira cliente!
- Não estou preparada, Morgana...Eu fico apenas a ver o que fazes. Já dizia o meu padrinho que é a melhor maneira de se aprender.
- Não, não! Quem é a patroa afinal?
- É ela...-disse o Rodriguez, enquanto limpava uns pratos sujos.
- Sim! Sou eu. E eu estou-te mandar atender a cliente, Odet...Guadalupe. Vá...- E lá fui. Escondi bem a cara com o pano e abri a cortina da tenda. Voltei para dentro rapidamente.
- Nã,nã, nã, nã, não!! Morgana!! É a Jaqueline!!- Disse eu a "gritar" baixinho.
- Ai, ai, ai, ai, ai!! E que te isso?
- Ah...Jaqueline, barco, barco, zanga, zanga, Alan...- A Morgana ficou a olhar para mim e apenas estendeu o dedo indicador em direcção à porta. Agora percebo o Rodriguez. Bom, adoptei um andar meio coxo, um olho aberto e um fechado, meio curvada meio direita, com um lenço na cabeça que me tapava a cara e uma bengala na mão fui ter com a víbora da minha cliente que me esperava numa tendinha, que o Rodriguez tinha montado só para as consultas.
- Estava a ver que não era hoje! Onde é que anda a cigana para me consultar?- Antipática! como é que alguém pode ser assim?
- Hoje sou eu que a vou atender, menina- disse eu a ferver, mas a ferver muito, por dentro.
- Ah, esta bem. Então mas olhe lá, vocês nõ estavam na praia? Era muito mais perto para mim...Agora estão aqui mais para o fim da vila porquê?
- Mudanças da minha filha, mudanças...Mas diga, o que quer saber?- perguntei.
- Quero saber quanto é que leva para dizer ao homem que quero que eu sou feita para ele- Que "quer" atenção, aquela cobra "quer" o Alan, ela não o ama...que víbora! Não estava a acreditar.
- Aqui só lemos sinas, fazemos previsões, lemos as cartas e...
- Oiça- disse ela tocando-me na mão- não quero saber o que têm ou deixam de ter, está me a compreender? Quero só que diga ao homem que quero que sou a mulher da vida dele, está bem?
- Eu...não posso fazer isso- disse eu.
- Eu pago o que for preciso!
- Vai contra os meus princípios...
- Não seja parva, tudo tem um preço!
- Não vou enganar o rapaz...
- Isto chega?- E pousou um maço de notas em cima da mesinha onde estávamos. Fiquei sem reacção. Pensava que a Jaqueline era residente do barco. O seu trabalho era pago, mas não assim...- Chega ou não?- Dito isto pousou mais dois maços de notas junto do mesmo e ficou a olhar para mim com aqueles olhos de carneiro mal morto. Que grande cobra venenosa! Ela quer enganar o Alan! Naquele momento, enquanto fingia que pensava se aceitava a proposta dela, pensava em que é que poderia tomar proveito com aquilo. E concluí que podia tirar muito, mas mesmo muito proveito!
- Oh, sim, acabo de me lembrar que afinal posso!- disse eu, fazendo-me de interessada no dinheiro.
- Ainda bem. De onde veio este há muito mais, sim? Basta fazer o que lhe disser e vai se dar bem. Vamos fazer assim: Hoje, às seis da tarde, você vai estar na praia. Eu vou dar uma volta com o Alan na praia por essa hora. Ele costuma estar sempre por volta dessa hora na praia, é uma coisas que ele tem...
- Eu sei.
- Como disse?- Bolas! Tenho de ter mais cuidado com a minha grande boca.
- Disse: Lá estarei- corrigi.
-Ah, sim, continuando: vou passear com ele a essa hora. Esteja mais ou menos perto do barco, ouviu? Senão farta-mo-nos de andar à sua procura. Depois vai nos perguntar se queremos que nos leia a sina. Eu digo que sim, o Alan vai dizer que não, mas você pega na mão dele e pronto...
- Mas espere- disse eu, já pensando num esquema- Já desde miúda que leio sinas e nunca o faço com outra pessoa ao pé, é uma coisa de família, teria de ficar sozinha com o rapaz para a coisa dar certo. Se estiver consigo ou com mais gente não vou conseguir, fico desconcentrada, as coisas saem todas ao contrario...
- Ai! Não, então não. Deixe cá ver...Então, também não há problema! Eu faço qualquer coisa, finjo que me esqueci de qualquer coisa no barco, vou dar um mergulho ao mar, sei lá! Mas você diz-lhe lá com as suas ciganisses que ele conheceu a mulher da vida dele, que sou eu, que sou feita para ele, que vamos ser felizes, ouviu bem? Diga-lhe também que o suposto amor que ele teve no passado foi uma brincadeira do destino, que não passou de uma porcariazinha, que eu sou o verdadeiro amor da vida dele. Depois com o desenrolar da coisa, hei de a contractar outra vez, combinado?
- Combinadissimo!
- Então estamos conversadas, adeus!
- Espere!- disse eu- Ainda não pagou a sessão!
- O quê? Ainda tenho de pagar a sessão? Já não lhe chega o que dei?
- Ordens da patroa...- Ela lá largou uns trocados em cima da mesa e saiu, deixando para trás aquele perfume meloso e açucarado e enjoativo dela. Corri para dentro da outra tenda e contei tudo à Morgana.
- Estás a ver? Ai, rapariga...e não querias tu atender a cliente...- E começámos as duas a rir. Mal podia esperar para ver o Alan naquela tarde. Mas que lhe ia eu dizer? Tinha de preparar um bom plano. Foi isso que eu e a Morgana ficámos a fazer enquanto o Rodriguez tirava uma sesta.

terça-feira, 10 de março de 2009

Coisas do destino

Nem custou muito convencer a madame Charlotte para dispensar a rapariga. Ela pensa que me conhece muito bem, que sabe de todas as minhas manhas mas está enganada. Basta tocar no assunto do seu queridinho para ela ficar alterada. Depois inventei uma história relacionada com ele, que a Odette era uma oportunista que sabia da história e estava ali para fazer chantagem. Ela nunca vai confrontar a rapariga com isto, não gosta de tocar no assunto, e por isso vai fazer com que ela se afaste o mais possível do "Charlotte". É por isso que ela nunca me contraria, sei demais da vida dela.

E tudo voltou a ser como era, e como nunca deveria ter deixado de ser, Jacqueline protagonista o resto para enfeitar. Depois do escândalo que a lunática fez a Charlotte retirou-se e os ajudantezecos, bailarinos e músicos ficaram especados sem saber o que fazer ou dizer. Coube-me a mim esclarece-los.
- Mexam esses cus! Pacheco tens coisas para empacotar e guardar, vocês tirem daí os instrumentos e as meninas vão tirar as roupinhas antes que as vossas gordurinhas rebentem com elas!
-Cabra ...
- Disses-te alguma coisa Pacheco?
- Não dona 'tava aqui a falar com o Florentino.
- Bom respeitinho o pr ... Pacheco!
Esta gente, a Charlotte tem-se desleixado com a escolha do pessoal ultimamente, contrata qualquer um. Ao menos o ar está mais respirável, não temos aquela sonsa a espalhar o seu perfume barato. Bastou lembrar-me da cara que ela fez quando a Charlotte a mandou embora para ficar mais feliz. Já deviam saber que não se devem meter comigo.
O Alan andava distante, não falava muito, mas também não deixou de vir aos ensaios assim que a outra saiu o que é bom sinal.
- Então chéri, estás a gostar da peça?
- Da peça? Ah sim maravilhosa estou a adorar, amar ui o que eu amo esta peça!
- Estou a ver ... nunca darias um bom actor. Diz lá o que se passa é por causa da enjoada ... quer dizer da Odette?
- Não, quer dizer em parte, não te preocupes comigo.
- Claro que me preocupo! gosto de conhecer bem as pessoas com quem trabalho, aliás conheço a tua mãe, tenho falado com ela ...
- Tens?
- Sim. É uma boa mulher sabes, corajosa e lutadora só quer o teu bem!
- ... e manipuladora, e coscuvilheira e ... insuportável! De um dia para o outro ficou assim, já nem sei porque deixei Paris.
- Foi o destino que te chamou para aqui.
- Não me vens agora dizer que acreditas nessas coisas?
- Claro que acredito! E tu tambem devias, ajuda a ultrapassar os problemas. Falar com alguém, uma vidente, alguém de confiança.
- Se me aconselhares alguém ... vou contigo.
Hmmm ... esta história ainda podia dar frutos! É claro é só tornar o rapaz supersticioso, fará tudo o que eu quiser. Tenho a certeza que a mãezinha também vai adorar.
- Realmente parece-me bem mas ... onde vai arranjar alguém que faça aquilo que você diz, dizer-lhe o que quer que lhe diga?
- Bom Anne Marie eu já andei a fazer as minhas pesquisas no terreno. Na praia estão instalados um casal de ciganos, estão em dificuldades, na vila são olhados de lado e ninguém lhes oferece trabalho ... podia fazer um acordo.
- Não gosto muito de ficar a dever favores a esse tipo de gente.
- Marie!
A mulher enfezada entra pela porta a chorar baba e ranho e a pedir o colo da Anne Marie como se fosse uma criança. Nem deu pela minha presença.
- Ele não me ama!
- Ele quem Edith? Acalma-te mulher!
- O Marcelle ele ...
- O MARCELLE?
Mas toda a gente me apunhá-la pelas costas? Ainda à uma semana era só atenção, não me largava por um minuto ... e agora enrabicha-se com esta ...
- Adeus Marie!
Saí de imediato e tentei disfarçar o ódio que tive ao Marcelle naquele momento. Não é que goste dele, não é isso, mas não gosto de ser trocada! Muito menos pela aquela amostra de mulher! Agora é bom que a cigana não me arranje problemas e faça o que eu mandar!

domingo, 8 de março de 2009

Coisas ditas e por dizer...


- Edith!!!
- Sim, senhor Leonard! Estou aqui!
- Agora está aqui! Por onde andou? Já viu o estado da loja?
- Adormeci e...
- Adormeceu? Adormeceu?? Estou farto! Não tem um despertador?
- Por acaso o despertador que tinha, que era da minha mãe, que Deus tem, avariou à cerca de duas semanas, ou terá sido três...? Olhe não sei! Só sei que...
- Sabe nada! Não limpa a loja,não faz nada, não arquiva as coisas... Tivemos um! Um cliente no outro dia! Um, menina Edith! Veio de Le Blanc, a poucos quilómetros daqui, à procura dos nossos serviços e o que é que ele encontrou?
- O barco...ai, Jesus, toda a gente fala daquele barco, aquilo é uma animação, senhor Leonard, juro-lhe!
- Não, menina Edith! Não! Encontrou a loja fechada!! Porque você estava, e agora percebo melhor, naquele maldito barco! Mas o que tem aquele barco? Se continuar assim, menina, tenho de a despedir...
- Ai não! Não, senhor Leonardo! Misericordia, desta pobre alma! E depois vivo do quê?
- Olhe, que vá para aquele cabaret! Lá espirito boémio você tem!
- Não, não, tudo menos ir-me embora daqui! Já tenho amor às estatuetas dos santinhos, senhor Leonard...Já venero a maca vazia que temos lá em baixo à meses...
- Porque não aparece ninguém! E quando aparece, você não está cá! Como é que ficamos?
- Eu prometo, senhor Leonard, prometo que me vou portar melhor! Vou lavar a loja todos os dias e arrumar os santinhos na montra por cores dos mantos!
- Bom...tenho mais que fazer, agora. Mas ao próximo deslize já sabe! Rua!- Credo, o monsieur Leonard estava mesmo chateado. Mas é um tédio ficar naquela loja sem fazer nada! Não aparece um morto! Estou farta de trabalhar lá, não aguento...e depois, como é que eu hei de dizer isto, há o Marcelle, o músico do barco...Ai, estou apaixonada! Ele é tão querido e romântico. Até já me cantou uma música! Estou certa de que mais tarde ou mais cedo vai pedir a minha mão em casamento a...a alguém, provavelmente à Anne Marie, já que sou sozinha neste mundo! Mal posso esperar! Afinal das contas já demos uns beijinhos e ele viu, uma única vez, juro, descaradamente, os meus joelhos! Dou-lhe uma semana para dizer: "Edith, minha musa inspiradora (é assim que ele me chama) casa comigo, vamos embora daqui, larga a funerária, larga tudo, vem comigo, vamos morar numa casa à beira de um lago...Lá teremos os nossos 7 filhos (gosto do número sete desde miúda) e um casal de cães! Seremos felizes: eu, tu e a nossa família (mais os cães)". Uma semana! Uma semana! Depois do senhor Leonard sair da loja fiz o que sempre faço: sento-me atrás do balcão, tiro o meu saco dos bordados e toca de bordar. Estou a fazer um napron bordado com dois pássaros e em baixo tem as letras E e M de Edith e Marcelle...Uma semana! Bordei uns...5 minutos e percebi que tinha saudades do meu mais que tudo. "Vou ao barco", pensei. "E se o senhora Leonard me apanha?", pensei. "Ah...vou casar daqui a uma semana, que interessa se fico desempregada?"pensei. "É isso! Não vou dar o prazer àquele barrigudo careca do senhor Leonard de me despedir! Eu vou pedir demissão e é agora!", pensei. Foi então que fui ao café "Poison" onde o monsiour Leonard passa os dias.
- Monsiour Leonard!
- Edith! Vai já para a loja! Imagina que morre alguém, mulher!
- Não! Não vou nunca mais esperar pelos mortos! Nunca mais! Demito-me!- E saí do café. Que sensação boa! Agora, vou a correr para os braços do meu amor. Corri mesmo para o barco, mas quando lá cheguei o ambiente estava de cortar à faca. Entrei, as bailarinas estavam todas sentadas no palco, a Odette estava de pé ao pé do piano, onde o Alan estava sentado. O resto do pessoal estava sentado desordenadamente pelas cadeiras da assistência, incluindo o meu Marcelle, que me foi buscar à porta e me puxou uma cadeira, onde me sentei.
- Que se passa, mon amour?- perguntei.
- A Charlotte convocou uma reunião geral.
- Por que razão?
- Não sei, ninguém sabe. Só mandou dizer pelo Pacheco para parar imediatamente o espectáculo e aguardarmos aqui- disse-me ele baixinho.
- Tenho uma coisa para te dizer- disse-lhe eu ao ouvido- Mas digo-te depois! Agora estou a morrer de curiosidade para saber o que é que a madame tem para dizer!- Foi então que aguardámos na sala de espectáculo até chegar a madame Charlotte. Não vinha lá com muito boa cara e vinha acompanhada da Jaqueline, aquela insuportavelzinha...Nunca gostei daquela mulher!
- Olá a todos- disse a madame- precisava de falar com vocês, não é nada de mais...
- Ora dona! Fala logo!
- Cala-te Pacheco!- disse logo a senhora em seguida. E continuou- Vou ser breve. Odette, resolvi...- e deteve-se um pouco. Estava-lhe a custar...mas porquê?- resolvi que...tens de fazer a vez da Ronda, que terá de abandonar o barco, e, sendo assim, a Jaqueline fica no teu lugar.- Naquele momento, a Ronda, uma das raparigas bailarinas, que fazia um pequeno papel secundário na peça, saiu a correr, de lágrimas nos olhos. O silêncio era muito constrangedor. Todos estavam surpresos.
- Mas, Charlotte, eu já sei o texto todo, as danças, quando entro, quando saio...-disse a Odette. Boa moça, gosto dela, apesar da Anne Marie a odiar.
- Pois mas...Pensei melhor e realmente a Jaqueline tem mais perfil para esta personagem.
- Mas tu disses-te logo desde o inicio que eu era perfeita para o papel! Não estou a perceber isto...Só podes ter sido endrominada por essa...por essa...Vibora!!!- O caus instalou-se. Se o Alan não tivesse agarrado a Odette a Jaqueline tinha passado à história, porque tinha levado com uma valente cadeirada na cabeça! Eu encostei-me ao meu Marcelle, que me abraçou e aconchegou. Uma semana! Uma semana! Enfim, caus, caus, caus! Gritos e insultos! Já não era a primeira vez que elas se pegavam...
- Cobra venenosa! Envenenas-te a Charlotte contra mim! O que te fiz de mal? Já não é o papel que queres pois não, não é só isso que queres, pois não???
- Odette, calma...- dizia o pobre pianista.
- Deixa, mon amour...-dizia a quela insuportavelzinha- ela não sabe o que diz! A Charlotte sempre soube que EU era melhor, EU era ideal para o papel.
- ELE NÃO É O TEU AMOUR, SUA COBRA!- Uma cadeira voou e caiu aos pés do pobre Pacheco, que ficou apavorado. Valente aquela Odette.
- PAROU TUDO!- Gritou a Charlotte. E o silêncio voltou- EU DECIDI ESTÁ DECIDIDO!
- Mas porquê????- dizia a Odette- Eu fiz alguma coisa de mal? Eu enganei-me em alguma coisa? É aquele passe das pernas e das voltas não é? Eu posso melhorar, Charlotte...A CULPA É DAQUELA COBRA!
- SONSA!- ripostava a Jaqueline.
- PAROU!- Nunca tinha visto a mulher assim...- Odette, por favor, sai...
- Saio?
- Sai, estás fora da peça.
- O quê?...Alan! Ajuda-me! Isto não pode ficar assim...Foi a Jaqueline que...
- Odette, sai do meu barco AGORA!- Fez-se novamente silêncio.
- Muito bem...-disse a pobre moça a choramingar- Se é assim que queres...- começou a andar e parou a meio do salão. Olhou para o Alan, que não a segiu, ficando sentadinho no banquinho do piano. Depois, saiu definitivamente do salão.
- Vá! Continuem! Não quero gente parada!- disse a Charlotte, batendo palmas e saindo da sala em seguida. A Jaqueline foi logo para ao pé do piano, porque será...O que mais me espanta é que o Alan continuou a tocar como se nada tivesse acontecido...Aquela Jaqui, ou lá como lhe chamam sabe a toda...Ai, se ela arrasta asa para o Marcelle a funerária vai ter mais uma cliente!!! Pensei depois na Odette...Para onde ela iria agora?
- Marcelle, falamos depois, vou ver como está a pobre rapariga...
- Vai, vai, depois diz-me qualquer coisa, coitada...Se bem conheço a peça, foi um endrominanço da Jaqueline...Mas vai, espero-te ao final da tarde, combinado?
- Oui! Adieu!- E lá fui eu. Quando saí do barco não a vi. Olhei por todos os lados e nada...Até estou disposta a oferecer a minha casa. Só tem um quarto, mas ela pode dormir no sofá. Pelo menos até decidir o que vai fazer da vida dela. Meu Deus...o que vai ser daquela miúda? Provavelmente vai para casa dela, lá em Toulouse, ou que é. Enfim...Fui até casa, tomei um banho cheiroso e ao final da tarde fui ter com o Marcelle. No caminho para o barco vi a Odette, mas estava acompanhada. Aquela cigana que agora mora na praia estava a falar com ela à beira mar. Ainda pensei em ir bisbilhotar um bocadinho, mas depois lembrei-me do Marcelle e daquilo que eu lhe tinha para dizer! Começei a preparar o discurso: "Marcelle, amour, despedi-me do meu trabalho para ser toda tua para sempre! Espero que me peças em casamento, casamos e vamos viver para onde quiseres!". Cheguei ao barco e lá estava ele no convés.
- Olá.
- Olá...
- Então, encontras-te a Odette?
- Não, não, tenho uma coisa para te dizer!
- Ah, sim diz...
- Eu...Depedi-me da funerária, estou completamente livre para ficar contigo para toda a minha vida!! Até me lembrei agora que posso também por a minha casa para vender e fazer bordados e vende-los também para ganhar mais dinheiro e depois...depois, mon amour, ia contigo para onde quer que fosses! Mas primeiro, claro, tinhamos de...tu sabes, vá lá Marcelle diz qualquer coisa!- Ele olhava para mim parado...Provavelmente pensava como eu era corajosa!
- Tu tens muita coragem, Edith...- disse ele, eu não disse? Já lhe leio os pensamentos!
- Sim...
- Mas eu não me posso casar contigo...
- Pára com brincadeiras, mon amour! Vá, estou pronta, podes dizer..."Edith..." vá! "Edith, queres casar..."- depois percebi que...
- Eu não estou a brincar, Edith. Eu...Já sou casado e tenho 7 filhos...- O meu mundo caiu, assim como eu.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Drama

Os ensaios estão ainda a decorrer e já sinto que o sucesso vem aí! Ninguém pode ficar indiferente a este espectáculo. Escrito e dirigido por mim, com a Odette como protagonista e a Jacqui a fazer de vilã, o resto das raparigas fazem as personagens secundários, principalmente coros. A banda está bem composta com o Marcelle e os rapazes da banda e o Alan (suspiro) no piano. É certo que não acabei o guião, vou improvisando ao longo dos ensaios, mas está a ficar perfeito. Depois de muita pressão, a mãezinha do pãozinho lá concordou em fazer os fatos, que obviamente têm de passar pelas mãos do meu quarido Pacheco para uns cortes e adicionar lantejoulas e algumas penas e fitas de seda. A pobre mulher vai ter um ataque quando vir as alterações mas não espera que apareça na estreia. Para seu grande desgosto o seu querido Alan não parece querer deixar o seu piano por um segundo e passa cá grande parte dos dias regressando a casa pela madrugada. Reparei que não tira os olhos de Odette enquanto ó resto do mulherio não os tira dele. Acho que vou ter de o deixar às escuras durante os espectáculos ou as raparigas não tomam atenção ao que estão a fazer. Só a Odette parece estar mais preocupada com o seu papel, as músicas e os textos. Têm trabalhado muito e tirando os ensaios não sai do quarto.
- Por hoje é tudo meus amores! Toca a arrumar tudinho. Vou retirar-me para os meus aposentos, se precisarem de alguma coisa falem com o Pacheco.
- Sobra sempre pó Pacheco!
Subi para o meu quarto e fechei a porta. Apesar de ter passado o dia a aturar as birras da Jacqui não tinha uma ponta de sono. Estava demasiado entusiasmada com o espectáculo, com o "Charlotte" ... resolvi revirar umas tralhas da minha velha arca e matar saudades. O meu vestido azul, as perucas que comprei em Milão, as máscaras de Veneza e os perfumes de Paris e as jóias ... as últimas foram presentes, do meu ...
- Dona Charlotte tá acordada?
- Que foi negrinho? Alguém morreu? Não me parece que ... alguém morreu?
Desci as escadas a correr. Basta desparecer 10 minutos para este barco ficar um caos, mas que será que se passou? O raio do Pacheco também não me esclareceu grande coisa, mas é preciso ser rápida ou ... acontece alguma desgraça!
- O que é que se passou aqui?
- F-Foi a Jacqui sinhora ela e a Odette pegaram-se e ... a Jacqui caiu redonda no chão! - diz Florentino mal conseguindo falar.
- Odette? Mas ... vá levem a rapariga ao quarto. Marcelle vai chamar o médico! Alan ajuda o Florentino e ... Odette vem ao meu escritório.
A rapariga parecia algo confusa, eu própria não percebi nem consigo entender o que puderá ter acontecido.
- Podes começar a falar.
- Nós estávamos nos camarins a tirar a maquilhagem e a mudar de roupa, eu e as raparigas quando a Jacqueline aparece com os nervos em franja a gritar e a insultar-me. Ora uma rapariga não se fica e por isso ...
- Desculpa mas aquilo ...
-... uns tabefes naquela cara de vagabunda! Ela sabe muito bem o que diz e as coisas que disse!
- Eu sei que ela não é fácil mas tu não tens o direito de fazer o que fizes-te!
- É como quiser. Não sou nenhuma lambe-botas como ela, se quiser pode despedir-me que eu não me importo minimamente.
Eu sabia que aquilo era só conversa, trabalhou demasiado nestas últimas semanas para uma pessoa desinteressada.
- Vou dar-te uma oportunidade. Tenho de falar com ela e averiguar o que se passou.
- Pode lá ir agora. Já deve estar boa de certeza, aliás ela nunca teve nada! Quando viu o Alan do lado dela de repente desmaiou! Que sentido de oportunidade!
Isto já me parecia coisa da Jacqueline. Só não sei o que ela espera ganhar com isto, sabe que é preciso mais que isto para ...
- Então a donzela já acordou? - dei um certo tom de ironia à pergunta que o Alan percebeu.
- Não me parece que esteja tão bem como vocês pensam, você e a outra!
- Calma rapaz, tu não conheces a peça mas eu sim! Vá já chega Jacqui, é tarde e amanhã temos mais que fazer!
- O médico chegou dona!
Esteve com ela duas horas. Comecei a ficar incomodada, seria mesmo verdade? Mas o que poderia a Odette ter feito para a deixar neste estado?
- É grave meus senhores. Esta menina tem ... um traumatismo! Bateu com a cabeça com muita força e está algo desorientada. Pode estar um pouco confusa e de memória fraca, aconselho a não a deixarem sozinha ou pode perder-se. E façam-lhe as vontades, não queiram contrariá-la pois pode agravar a sua condição.
Isto tudo tresanda a esquema da Jacqui. É certo e sabido que deixá-la sozinha com um homem é meio caminho para ela levar a dela avante. Não à nenhum a quem ela não consiga dar a volta. Até ao Alan que ficou do lado dela mesmo sabendo que a Odette seria prejudicada.
- Chega por hoje. Vão todos para os vossos quartos, casas seja o que for. Eu fico com ela esta noite.
Entrei no quarto e lá estava ela, em todo o seu esplendor. Deitadinha com as mãos sobre a barriga de olhos fechados e com uma mantinha a tapar-lhe os pés.
- Que excelente actriz!
- Quem é você?
- Pára com isso Jacqui! Sabes que a mim não me enganas. Tu queres que a Odette sai daqui e queres o Alan para ti ... agora diz-me, porque é que te hei-de ajudar?
- Porque sei coisas daquela rapariga que você gostava de saber.
- Bates-te mesmo com a cabeça.
- Não estou a inventar! Acredita ela é uma oportunista.
- E posso saber como descobris-te?
- Só o posso dizer depois de me tornares protagonista do espectáculo, lugar que deveria ter sido sempre meu.