Vida de fugitivo é dura. Eu já não podia viver mais em Coentros, a minha situação no país já era precária e com a Giselle noiva, não há nada mais que me prenda lá. Tenho andado pela região sem ficar muito tempo no mesmo sítio. Evito ficar em casas ou quartos alugados preferindo dormir nas ruas, debaixo de árvores e até mesmo de pontes. Não tem sido fácil, mas já estou habituado a esta vida a guerra apenas dificultou um pouco as coisas. Desde que saí da Rússia que é assim. Mas confesso que estava a gostar da vila, deixar a vida de militante e ficar por lá, casar e ter filhos como qualquer um. Mas a verdade é que tenho uma missão aqui e parece que os alemães já sabem do meu paradeiro. É tempo de partir.Nós últimos dois dias fiquei na casa de uma senhora chamada Zulmira Borba, uma mulher que vive nos arredores de Lantejoulas-de-Cima. Conheci-a quando passei por Verdurinha, ela estava a sair do mercado quando um bandido qualquer tentou arrancar a bolsa à pobre mulher. Dei-lhe uma valente sova e a Dona Zulmira e perguntou-me de que forma me podia agradecer. Eu estava doente, os dias passados ao relento reflectiram-se na minha saúde e então pedi-lhe abrigo por uns dias. talvez tenha sido estúpido mas não tive outra opção. De qualquer forma a mulher parece inofensiva, nem acredito que tenho visto qualquer cartaz. Como vive sozinha tratou-me como um rei, alimentou-me e tratou de mim. Ainda tive receio pois lembrei-me da Dona Belina e dos seus "tratamentos" quando estive doente .... uh!
Já estávamos no fim da manhã e a Dona Zulmira não chegava a casa! Passa-se alguma coisa de certeza ... o mais certo é ter me denunciado à polícia, ou pior aos alemães! Tenho de sair daqui imediatamente!
Peguei nas poucas coisas que trazia e saí pelas traseiras. Foi aí que ouvi um carro a estacionar. Espreitei para ver quem era, era ... o Silva! Mas que faz ele aqui??
- Onde está ele??
- Ele estava aqui quando eu saí! Juro!!
- Velha maluca! Só me fizes-te perder tempo ...
A Dona Zulmira denunciou-me ... mas porquê? Por dinheiro? O que é que o Silva tem a ver com isto?
- Mas Sr. Silva eu juro!!
- Não está aqui ninguém e você vai ter de ser responsabilizada por "fazer perder tempo" a um agente da autoridade!
Autoridade? O Silva anda atrás de mim.
- Não lhe faça mal por amor de Deus!!!
Parece que a velha afinal não anda atrás do dinheiro, mas também não me serve de consolo. Desta é que deixo o país, aqui não estou seguro.
Esperei que o Silva saísse. Mas uma coisa é certa, se todos estão à minha procura é seguro ir a Coentros. Lá puderei recuperar os meus livros e talvez a Regina! Isto se os Bellini não estiverem do lado dos alemães. Seria típico dos italianos. Mas de qualquer forma gostava de saber mais sobre as intenções do Silva. Talvez seja estúpido mas ... acho que o vou seguir.
Foi difícil encontrar um meio rápido para chegar a Lantejoulas e foi aí que me lembrei ... barco! Basta "arranjar" (encontrar ou roubar) um barco e lá vou eu a remar pelas águas do "Cartilagem"! Dito e feito! É espantoso como nas alturas que mais precisamos nos surgem as oportunidades. Não sei se também vos acontece, mas quando estou em dificuldades de imediato me aparecem as coisas de que preciso. E lá estava ele ... lindo, esguio, de madeira podre ... alí desprotegido e ... espera afinal o dono está por perto! É velho e está a dormir, não me parece que dê luta. Pelo cheiro, deve ter tomado banho num lago de gin. Pé ante pé fui em direcção ao barco que estava preso na margem ... devagarinho sem ... fazer ... barulho ... ah! É sempre a porcaria do pau no caminho!
- Quem está aí?
- Desculpe eu ...
- Eu estou a conhecê-lo!
-Não está não eu ...
- Tu és o primo da Mariete!
- S-sou? Pois sou como está?
- Cá vamos andando filho, uns dias melhor, outros dias pior. Como vai a tua mãe?
- Vai bem graças a Deus!
- Ela não tinha ficado sem uma perna num acidente?
- Ficou, ficou pobrezinha!
- Então não vai bem! Vai cocha! Ahahaha ... to brincando contigo moço!
- Ahahah tá giro. Mas agora desculpe eu estou com pressa ...
- Espera lá! Já sei quem tu és ... és aquele moço dos cartazes que andam por aí a anunciar as festas de Santo Balofo! És o lider do rancho não é? Tavas a tentar roubar o barco não era?
- Eu não!
- Estavas sim ... e sabes o que eu tenho a dizer quanto a isso?
- ...
- Leva-o! É o barco do Ti Zé Lampreia. Foi mijar e deixou-me de olho nesse lixo.
- Mas ele não vai implicar consigo?
- Nã ... o homem nem dá por falta dele é muito esquecido.
- Obrigada, boa tarde!
- Tarde ... depois agente vê-se nas festas hã?
- Claro que sim.
Com isto perdi 10 minutos! 10 preciosos minutos!! Tenho de me apressar!!
- Oh moço!!! Tu loirinho!!
- Eu?
- Sim tu! Dá cá uma mãozinha, talvez duas, que eu estou a afogar-me.
- Mas você não parece desesperada!
- 'To que não posso filho. Sabes, isto é uma maneira das pessoas de Lantejoulas-de-Cima se expressarem ... sem emoção.
Ajudei a senhora a a subir para o barco.
- Obrigados. Devo-lhe a vida. Tem alguma coisa que se coma? Estou esfomeada.
- Não minha senhora e estou com pressa!
- Calma homem, tudo a seu tempo. Podia deixar-me em Varegeiras por favor?
- Varegeiras? Eu não sou nenhum taxi!
- Desculpe ... você tem aí escrito na frente "taxi".
- O quê? (Maldito bêbedo!)
Escusado será dizer que tive de ir a Varegeiras, não podia deixar a mulher no meio do nada! Varegeiras era relativamente longe e comecei a desesperar ...
- Então diga lá de onde é? Não tem ar de ser de região, é demasiado entusiasta.
- Não tem nada a ver com isso!
- Malcriadão. Você é um bruto sem educação.
- É verdade! Já agora podia calar-se? Estou a tentar remar!
- Olhando bem para a sua cara ... Meu Deus. Você é o rapaz que vai actuar nas festas. Ai quando as minhas amigas souberem. Podia dar-me um autógrafo aqui no cartaz.
Será que a mulher é estúpida ou não sabe ler?
- Não tenho caneta.
- Ora bolas. Tamanha desilusão só quando cancelaram o programa radiofónico da "Floritonta".
- Cá estamos! Pode saí boa tarde seja feliz!
- Espere lá. Quanto lhe devo?
- Foi de graça ... adeus!
- Conversa parva ... tome lá para um café. Prazer.
Por acaso um dinheirinho vinha mesmo a calhar mas as notas encharcadas é que não me serviram para muito. Cheguei a Lantejolas já o Sol se punha. Deixei o barco para trás e disfarçadamente procurei o Silva.
Fui a um café beber alguma coisa quente para aquecer os ossos. Estava praticamente vazio o que me deixou algo à vontade. Sentei-me numa mesa e li o jornal. Fiquei por alí algum tempo, sendo o único café da zona seria inevitável que o Silva aparecesse por aqui.
Esperei, esperei ... nada! Já estavam quase a fechar e tive de sair. Pensei em ir ver se o barco ainda estava por ali para poder dormir num sitio mais "confortavel"!
- Mon Dieu!! Bóris!!! És mesmo tu mon amour??? Não posso acreditarr!
Fiquei estupefacto, não consegui reagir! Fiquei imóvel enquanto a Melanie me encostava contra o peito e me borrava a cara de batôn.
- Eu sabia que te ía encontrarr!!! Mon amour!! Procurei-te porr todo o lado chéri! Vamos fugir nós os dois os outrros nunca irão saberr ...
- Que outros?
- Amore mio!! - exclama a velha.
- Onde é que está a Regina meu palhaço? - questiona o frango do Gil, ou melhor o frango que é o Gil.
- Eu não tenho nada a dizer. - diz o Amadeu.
- Mas? O que é ...
- A Regina!! Onde é que ela está?
- A Regina desapareceu?? Mas vocês estavam noivos!
- Não te armes em engraçadinho! Olha que eu vou-me a ti!
- Calminha chéri! Não tocas no meu Bórris!!
- Mio Bóris desgrazada!
- Querres apanhar velha choné?
- Vienne cá francesinha!
- Acabou festa!
- Silva?? Que fazes aqui chéri!
- Vim prender o teu "amour"!









