terça-feira, 30 de setembro de 2008

Estrela regional

Vida de fugitivo é dura. Eu já não podia viver mais em Coentros, a minha situação no país já era precária e com a Giselle noiva, não há nada mais que me prenda lá. Tenho andado pela região sem ficar muito tempo no mesmo sítio. Evito ficar em casas ou quartos alugados preferindo dormir nas ruas, debaixo de árvores e até mesmo de pontes. Não tem sido fácil, mas já estou habituado a esta vida a guerra apenas dificultou um pouco as coisas. Desde que saí da Rússia que é assim. Mas confesso que estava a gostar da vila, deixar a vida de militante e ficar por lá, casar e ter filhos como qualquer um. Mas a verdade é que tenho uma missão aqui e parece que os alemães já sabem do meu paradeiro. É tempo de partir.
Nós últimos dois dias fiquei na casa de uma senhora chamada Zulmira Borba, uma mulher que vive nos arredores de Lantejoulas-de-Cima. Conheci-a quando passei por Verdurinha, ela estava a sair do mercado quando um bandido qualquer tentou arrancar a bolsa à pobre mulher. Dei-lhe uma valente sova e a Dona Zulmira e perguntou-me de que forma me podia agradecer. Eu estava doente, os dias passados ao relento reflectiram-se na minha saúde e então pedi-lhe abrigo por uns dias. talvez tenha sido estúpido mas não tive outra opção. De qualquer forma a mulher parece inofensiva, nem acredito que tenho visto qualquer cartaz. Como vive sozinha tratou-me como um rei, alimentou-me e tratou de mim. Ainda tive receio pois lembrei-me da Dona Belina e dos seus "tratamentos" quando estive doente .... uh!
Já estávamos no fim da manhã e a Dona Zulmira não chegava a casa! Passa-se alguma coisa de certeza ... o mais certo é ter me denunciado à polícia, ou pior aos alemães! Tenho de sair daqui imediatamente!
Peguei nas poucas coisas que trazia e saí pelas traseiras. Foi aí que ouvi um carro a estacionar. Espreitei para ver quem era, era ... o Silva! Mas que faz ele aqui??
- Onde está ele??
- Ele estava aqui quando eu saí! Juro!!
- Velha maluca! Só me fizes-te perder tempo ...
A Dona Zulmira denunciou-me ... mas porquê? Por dinheiro? O que é que o Silva tem a ver com isto?
- Mas Sr. Silva eu juro!!
- Não está aqui ninguém e você vai ter de ser responsabilizada por "fazer perder tempo" a um agente da autoridade!
Autoridade? O Silva anda atrás de mim.
- Não lhe faça mal por amor de Deus!!!
Parece que a velha afinal não anda atrás do dinheiro, mas também não me serve de consolo. Desta é que deixo o país, aqui não estou seguro.
Esperei que o Silva saísse. Mas uma coisa é certa, se todos estão à minha procura é seguro ir a Coentros. Lá puderei recuperar os meus livros e talvez a Regina! Isto se os Bellini não estiverem do lado dos alemães. Seria típico dos italianos. Mas de qualquer forma gostava de saber mais sobre as intenções do Silva. Talvez seja estúpido mas ... acho que o vou seguir.
Foi difícil encontrar um meio rápido para chegar a Lantejoulas e foi aí que me lembrei ... barco! Basta "arranjar" (encontrar ou roubar) um barco e lá vou eu a remar pelas águas do "Cartilagem"! Dito e feito! É espantoso como nas alturas que mais precisamos nos surgem as oportunidades. Não sei se também vos acontece, mas quando estou em dificuldades de imediato me aparecem as coisas de que preciso. E lá estava ele ... lindo, esguio, de madeira podre ... alí desprotegido e ... espera afinal o dono está por perto! É velho e está a dormir, não me parece que dê luta. Pelo cheiro, deve ter tomado banho num lago de gin. Pé ante pé fui em direcção ao barco que estava preso na margem ... devagarinho sem ... fazer ... barulho ... ah! É sempre a porcaria do pau no caminho!
- Quem está aí?
- Desculpe eu ...
- Eu estou a conhecê-lo!
-Não está não eu ...
- Tu és o primo da Mariete!
- S-sou? Pois sou como está?
- Cá vamos andando filho, uns dias melhor, outros dias pior. Como vai a tua mãe?
- Vai bem graças a Deus!
- Ela não tinha ficado sem uma perna num acidente?
- Ficou, ficou pobrezinha!
- Então não vai bem! Vai cocha! Ahahaha ... to brincando contigo moço!
- Ahahah tá giro. Mas agora desculpe eu estou com pressa ...
- Espera lá! Já sei quem tu és ... és aquele moço dos cartazes que andam por aí a anunciar as festas de Santo Balofo! És o lider do rancho não é? Tavas a tentar roubar o barco não era?
- Eu não!
- Estavas sim ... e sabes o que eu tenho a dizer quanto a isso?
- ...
- Leva-o! É o barco do Ti Zé Lampreia. Foi mijar e deixou-me de olho nesse lixo.
- Mas ele não vai implicar consigo?
- Nã ... o homem nem dá por falta dele é muito esquecido.
- Obrigada, boa tarde!
- Tarde ... depois agente vê-se nas festas hã?
- Claro que sim.
Com isto perdi 10 minutos! 10 preciosos minutos!! Tenho de me apressar!!
- Oh moço!!! Tu loirinho!!
- Eu?
- Sim tu! Dá cá uma mãozinha, talvez duas, que eu estou a afogar-me.
- Mas você não parece desesperada!
- 'To que não posso filho. Sabes, isto é uma maneira das pessoas de Lantejoulas-de-Cima se expressarem ... sem emoção.
Ajudei a senhora a a subir para o barco.
- Obrigados. Devo-lhe a vida. Tem alguma coisa que se coma? Estou esfomeada.
- Não minha senhora e estou com pressa!
- Calma homem, tudo a seu tempo. Podia deixar-me em Varegeiras por favor?
- Varegeiras? Eu não sou nenhum taxi!
- Desculpe ... você tem aí escrito na frente "taxi".
- O quê? (Maldito bêbedo!)
Escusado será dizer que tive de ir a Varegeiras, não podia deixar a mulher no meio do nada! Varegeiras era relativamente longe e comecei a desesperar ...
- Então diga lá de onde é? Não tem ar de ser de região, é demasiado entusiasta.
- Não tem nada a ver com isso!
- Malcriadão. Você é um bruto sem educação.
- É verdade! Já agora podia calar-se? Estou a tentar remar!
- Olhando bem para a sua cara ... Meu Deus. Você é o rapaz que vai actuar nas festas. Ai quando as minhas amigas souberem. Podia dar-me um autógrafo aqui no cartaz.
Será que a mulher é estúpida ou não sabe ler?
- Não tenho caneta.
- Ora bolas. Tamanha desilusão só quando cancelaram o programa radiofónico da "Floritonta".
- Cá estamos! Pode saí boa tarde seja feliz!
- Espere lá. Quanto lhe devo?
- Foi de graça ... adeus!
- Conversa parva ... tome lá para um café. Prazer.
Por acaso um dinheirinho vinha mesmo a calhar mas as notas encharcadas é que não me serviram para muito. Cheguei a Lantejolas já o Sol se punha. Deixei o barco para trás e disfarçadamente procurei o Silva.
Fui a um café beber alguma coisa quente para aquecer os ossos. Estava praticamente vazio o que me deixou algo à vontade. Sentei-me numa mesa e li o jornal. Fiquei por alí algum tempo, sendo o único café da zona seria inevitável que o Silva aparecesse por aqui.
Esperei, esperei ... nada! Já estavam quase a fechar e tive de sair. Pensei em ir ver se o barco ainda estava por ali para poder dormir num sitio mais "confortavel"!
- Mon Dieu!! Bóris!!! És mesmo tu mon amour??? Não posso acreditarr!
Fiquei estupefacto, não consegui reagir! Fiquei imóvel enquanto a Melanie me encostava contra o peito e me borrava a cara de batôn.
- Eu sabia que te ía encontrarr!!! Mon amour!! Procurei-te porr todo o lado chéri! Vamos fugir nós os dois os outrros nunca irão saberr ...
- Que outros?
- Amore mio!! - exclama a velha.
- Onde é que está a Regina meu palhaço? - questiona o frango do Gil, ou melhor o frango que é o Gil.
- Eu não tenho nada a dizer. - diz o Amadeu.
- Mas? O que é ...
- A Regina!! Onde é que ela está?
- A Regina desapareceu?? Mas vocês estavam noivos!
- Não te armes em engraçadinho! Olha que eu vou-me a ti!
- Calminha chéri! Não tocas no meu Bórris!!
- Mio Bóris desgrazada!
- Querres apanhar velha choné?
- Vienne cá francesinha!
- Acabou festa!
- Silva?? Que fazes aqui chéri!
- Vim prender o teu "amour"!

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Troca de esposas!

(POFFF!! IIIShhhhhhhhhhhhh "Ahhhhhhhhh")
- Dio mio! Que foi isto! Mio Dio, vamos morrere!
- Cale-se, velha! O que se passou Zé Carlos?
- Epá...temos um furo no peneu...E saímos para fora da berma da estrada, isto agora vai ser complicadote!- Óptimo! Já estavamos no meio do nada para ir para Lantejoulas de cima, já tinha o ombro babado da baba da velha que dormia de boca aberta encostada a mim, e agora um furo...que bom!
- Nós damos um jeito nisto, vá lá buscar o macaco e trocamos esse peneu num ápice!- disse eu. As madames ficaram no carro e eu, o meu irmão e o Zé Carlos fomos trocar o peneu. Depois do peneu trocado tivemos de levar o carro novamente para a estrada...
- Era melhor as senhoras saírem...Assim é mais peso!- disse o Zé Carlos.
- Estás me a chamarr de gorrda?- disse a Melanie.
- Não, a menina está muito bem como está, mas é que o carro já é pessado e a velha no banco de trás...
- Non vou sairr de dentrro de la voiture et prêt!
- Também non vou saire!- As senhora ficaram dentro do carro, mas lá conseguimos empurrar-lo outra vez para a estrada.
- Vamos muito longe?- pergunta o Gil, já quando estavamos novamente em viagem.
- Um bocadinho...- respondeu o Zé- isto agora é mais uma horita e tal e pimbas, já lá estemos! Epá...cheira-me a esturro...
- BELINA!- Gritamos todos.
- Non fui io!! Juro per mio russo!- E não tinha sido. Passado dois segundos...BOOM!
- Vamos morrere! Te amo Bóris! Arrivederci!
- Cale-se! Não vê que foi o motor que se afogou?- Velha burra.
- Oh! E agorrra? E agorra?? Nunca vamos chegarrr a Lantejoulas?
- Calminha minha senhora- disse o Zé- vou ver o que se passa aqui com esta menina...- E saiu do carro e levantou a capota. Ficámos todos dentro do carro à espera dele. Minutos mais tarde...
- Nada feito, bebés. Temos de pedir boleia, o que não me parece, ou vamos a penantes.
-NON! Pourquai?? Prrrimeirro o peneu, depois o motorrr! Isto non anda sem motorr?- a cena é a que todos esperam...Sim, os homens foram a empurrar a carrinha e as senhoras ia lá dentro, sentadas.
- Estou cansado! Já devemos ter andado uns 100 quilómetros!
- Nem uma andámos, Gil...- disse eu.
- Vá! Temos de conseguir pelo menos até Lantejoulas de Baixo, é a próxima povoação. Depois lá apanhamos um taxi até às de cima, ou um autocarro ou assim...
- Tão? Isso não anda?- Gritou a Bellini de dentro do carro. Olhámos uns para os outros e continuámos a empurrar. Passado meia hora: POFF!
- Gil! O Gil caiu, Zé! Ajuda aqui a levanta-lo.- O meu irmão é fraco como uma galinha. Não aguentou mais e caiu. Quando o levantei deu-me raiva e pensei em desistir. Parámos um pouco numa fontezinha de beira de estrada.
- Gil, Melanie, velha e Zé Carlos: Eu desisto. Nem sei por que razão estou aqui! Mal cheguemos a Lantejoulas de baixou retorno a Coentros.
- Mas já estamos tão perto...- disse o Gil.
- Não me interessa se estou perto ou longe! Não quero o russo nem quero a Regina. E tu Melanie...Que decepção!
- Oh...Cheri, pourquai? Eu...eu...non sei o que dizerrr.
- Pois! Tu julgas-te a senhora pode tudo. " Ah, sou a Melanie tenho os homens que quizerrr" Balelas! Não passas de uma...uma...tu sabes o que és! E eu caí na tua armadilha quando o teu "vero amore", como diz aqui a velha babosa, é o russo que curiosamente é o da velha e mais curiosamente o da Regina, que é a amada do Gil que é fraco e parvo!! Vocês dão comigo em doido! Eu desisto!
- Cheri...
- Não há chéris! E tu...nem és assim nada de especial. Digo-te mais: A Pilar é tão ou mais jeitosa do que tu! E ela não me vira as costas nem gosta de russos. Só não me vou embora daqui agora, já, porque até tenho consideração pelo...Zé Carlos. Porque se me for embora ele vai ter de empurrar esta velharia sozinho!
- Olha as ofensas ragazzo!
- Estava a falar do carro, dona Belina...- conclui. O ambiente ficou pesado. Depois de bebermos algumas goladas de água empurramos mais um bocadinho o carro , depois, finalmente, chegámos a Lantejoulas de baixo. Era uma povoação típica, igual a tantas outras.
-Tens a certeza de que ela está nas Lantejoulas de Cima? Pode estar nas de baixo...
- Eh!- disse o Zé Carlos ao Gil- Acha que tenho a certeza? Eu agora não tenho mais nada a ver com a vossa viagem em busca do russo perdido! Eu agora vou ali ao Vítor das motas e ele vê-me aqui a minha menina e eu vou para casa! Vocês que se amanhem!
- Mas onde vamos dorrrmirr?- Disse a Melanie assustada- Oh! Amdeu! Tenho tanto medô!- E agarrou-se a mim. Não sou de ferro...nada mesmo.
- Oh...não tenhas medo...Pronto, eu fico com vocês esta noite. Amanhã parto para Coentros. Olha, ali ao fundo! Está ali uma pensão!
- E pagamos com que dinheiro?- disse o Gil- Somos quatro pessoas!- Isso deu-me uma ideia. Quando chegámos à pensão atendeu-nos uma senhora muito parecida com a...
- Celestine???
- Não, amori, sou a prima dela a Candinha. Conheces a minha prima?
- Oui! É uma óptima pessoa!- disse a francesa- ela cuida do meu enfant...que saudades, Amadeu...abrrraça-me!
- Pois- disse a prima da senhora Celestina- Isto é um negócio de família, sabe? Há muitos anos que andamos por este país fora a alojar pessoas. Por exemplo: Em Piscadela Fina tenho a minha irmã Frederica, com " A pensão Frederica", em Vou às Uvas tenho a minha outra irmã, a Claudete Maria com " A pensão da Claudete Maria" entre outras! Como a da Celestina, também...
- Pois, nós só queriamos mesmo uma noite, porque amanhã vamos para Lantejoulas de cima...- disse eu.
- Ah! Lá está a minha prima Elizete, na "Pensão da Elizete"
- Pois...Então e como é o preço dos quartos? Nós somos...dois casais!
- O quê???- Gritou o Gil- Eu não vou...não,não, não, não!!!
- Que mal tem, rapaz?- disse a dona Candinha- Tu gostas de mais velhas, eu gosto de mais novos...- E fez olhinhos ao meu irmão que se agarrou à dona Belina com "amor". A dona Belina gostou, por incrivel que pareça, e colaborou. Enquanto a senhora assentava os nossos nomes ia tagarelando.
- Então e estão em lua de mel?
- Não.
- Sim!- disse eu, logo depois do Gil- Decidimos casar no mesmo dia...Sabe como são estas coisas de família...
- Se sei! E a lua de mel é aqui em Lantejoulas?
- Não, é mais na Lantejoulas de Cima, sabe? Mas tivemos uma avaria na carrinha.
- Oh, que pena. Epá! Então isso quer dizer que a lua de mel foi adiantada para aqui para as Lantejoulas de Baixo!- A dona Candinha era assustadora. Não que me assusta-se de estar deitado na mesma cama que a Melanie, coisa que já fiz...muitas vezes, mas ainda gosto um bocadinho do meu irmão e a minha imaginação é muito fértil.
- Pois- disse eu- Talvez...
- Vou lhes dar os quartos reservados para tal efeito. Ora cá está, são o 20 e o 21. Não é preciso pagarem, são amigos da minha prima e estão todos tão apaixonados...Boa noiteeeee!!- Assustadora, mesmo. Subimos para os quartos. Eu e a Melanie ficámos no primeiro.
- Amour...
- Amour? Sai para lá Melanie, não quero nada contigo! Guarda-te para o russo, vá, já que não me queres!
- Oh, Amadeu! Tu também! Preferrrias estarrr com a Belina?- Olhei para a Melanie, fizemos cara de caso e em vez de nos envolvermos numa tórrida noite de paixão (ou não), corremos para a parede que ligava o nosso quarto aos dos "pombinhos" e pusemo-nos à escuta. Não se ouvia lá muito bem mas de repente ouviu-se um grito! Do meu irmão, nada surpreendente. Depois segui-se uma série de "Não! Saia daqui! Regina! Não te estou a trair! Oh! Eu sabia que isto ia acontecer!"- coisa para...dez segundos. Depois ficou tudo silencioso.
- Achas que a velha morrrreu?- disse a Melanie esperançosa- Ela morreu! Ela morreu! Ela...Pardon, Amadeu.
- Shhh, deixa ouvir- Não se ouvia nada de nada.
- Eles non fazem barrrulho?
- Não sejas parva, Melanie...Estou a começar a ficar preocupado. Vou lá ver o que se passa.- E fomos. Batemos à porta e ninguém abriu. Comecei a chamar, baixinho.
- Gil! Dona Belina!
- Gil! Velha!
- Abram a porta!
- A porta está aberta- disse o meu irmão. Rapidamente entrei e...
- Mon Diou!- A velha dormia, com os seus possiveis 100 quilos em cima do franzino do meu irmão, que parecia uma tartaruga com uma imensa carapaça, só com a cabecinha de fora.
- Ela tentou...- disse eu.
- Mais ou menos- disse o Gil- Ela está me a babar no ouvido...Amadeu, tira-me daqui- A custo, eu e a Melanie empurra-mos a velha para o outro lado da cama e ela nem deu por nada.
- Que belo pijama, hã, Gil?- disse a Melanie, com aqueles olhos de...ah!
- Até ao ranhoso do meu irmão te fazes? És uma...vai te embora! Vai te embora!
-Mas cheri, nos estamos no mesmo quarto!
- Vai! E tu também seu fracote! Sai daqui!
-Só te quero avizar- disse ele- que vais ficar aqui com a velh...
- SAI!- E sairam os dois. Sentei-me numa cadeirinha a ver a velha dormir. Caramba! Que baba! Comecei a pensar na vida: Que palerma que fui! Pensar que um dia...ah! Que estúpido...Que anormal, que...nunca pensei que gostasse tanto da francesa. Não poderia ser ela apenas mais uma aventura? Parecia que não. Eu amo aquela mulher? UUUh, que arrepiu. Será? Ela está com o meu irmão,agora. Vou lá acabar com aquilo! Não! Amadeu, pensa! Ela não te quer! o que não falta no mundo são Melanies! Mulheres, quero dizer. Quando acordei ao outro dia, sentado na cadeirinha, sim, não sou parvo nenhum, naquela cama nunca me deitaria, a minha bexiga pedia esvaziamento e parti em busca da casa e banho mais próxima. Estava tudo a dormir, excepto a dona Candinha, que passava no corredor com lençois engomados.
- Oh! Bom dia senhor...quarto 21? Oh! Mas que pouca vergonha...- Não liguei. Mijei e fui-me embora.

quarta-feira, 24 de setembro de 2008

Estou feito ao bife!

Não estou a gostar desta brincadeira ... andam para aí espiões a mais! Já não sou o homem mais secreto de Coentros e confesso que tenho ciúmes de toda a atenção. Agora os olhares medrosos e comentários à passagem estão reservados para esses porcos alemães. No outro dia até me perguntaram as horas vejam bem! Mas eu sei porque de repente a vila se tornou o centro das atenções. Anda tudo à caça do russo, aquele que eu deixei escapar! Tive-o aqui tão perto. Os meus superiores não suspeitaram de nada até agora, mas brevemente vão estranhar tanto militar na vila. Ou seja, estou feito ao bife! Tudo o que o governo está a tentar fazer para evitar que a guerra alastre ao país foi por água a baixo ... e porquê, por causa do Silvinha aqui! Até é coisa para dar prestígio não fosse o facto de estar aqui estar na cadeia. Tenho de fazer alguma coisa.
- Bom dia Celestina, ainda tem pequeno-almoço?
- São 11 horas Sr. Silva! Já está frio.
- Não faz mal, estou esganado de fome tenho de por cá qualquer coisa.
- Olhe afinal já não tenho nada. Os alemães comeram-me tudo.
- Filhos da ...
- Mère!
- JEAN PAUL! Pronto "mãe" nem é muito mau. Parece que andas a melhorar as maneiras desde que a tua mãe se foi embora.
- É verdade Celestina, quando é que mademoiselle Melanie volta da capital?
- Capital? A maman foi à prrocurra do Bórris!
- Cala-te Jean Paul!
- Do russo? Ela foi ...
- Não, não Sr. Silva o Jean Paul está a fazer confusão ele é muito novo ...
- Eu sabia que havia aqui coisa! Celestina tome cuidado com os seus hóspedes. Eu vou sair por uns dias mas não quero ser seguido percebeu?
- Claro vai buscar a Melanie?
- S-sim isso mesmo! Onde já se viu uma mãe de família andar por aí atrás de criminosos.
- Mas ela non está sozinha. O Amadeu, o Gil e uma velha também forram!
- Vais levar tantas nesse rabo!
- Celestina, sabe dizer-me onde ela está?
- Ela tem-me escrito. A última carta que recebi vinha de Verdurinha.
- Óptimo não há tempo a perder! Guarde bem essas cartas, não as mostre a ninguém!
Tenho de sair durante a noite para não ser visto. Não levo muitas coisas para não me atrasar, apenas o essencial.
Saí por volta das 2 da manhã. As ruas estão vazias. Pego no carro e acelero para não ter tempo de ser seguido. Não demoro muito a chegar a Verdurinha.
Verdurinha parece uma cidade fantasma. São quatro da manhã e não existe iluminação a do luar.
Consegui ler numa janelinha "Aluga-se quarto", resolvi bater à porta.
- Filhos da mãe! Já vão ver como é!!
- Descul ... (splash)!
Levei com um balde de água, ou mijo? Não, não era de água! Parece que a senhora já à duas noites que andava a ser incomodada por um bando de garotos e então ... ao menos tenho onde dormir.
- Olhe cá está ele! Não é nenhum luxo, mas tem aí uma caminha fofinha e lençóis levadinhos. Se bem que ontem esteve aí um casal. Estavam em lua de mel sabe, nunca fiando. Tente dormir numa das pontas e não deve haver problema. Então boa noite!
- Espere! Queria perguntar-lhe ua coisa ... eu sou a ... chamo-me Miguel Aviado e ... ando à procura da minha esposa, ela esteve aqui à dias e, é muito bonita, loura, magra e tem sotaque francês. Por acaso não a viu?
- A Melanie? Claro, lembro-me bem dela. Uma moça muito simpática! Fizémos logo confiança. Eu e o meu marido gostámos muito dela!
- E não sabe para onde ela foi?
- Olhe não faço ideia. Mas sei que esteve no "Café Central", vá lá amanhã pode ser que o ajudem.
- Obrigado e boa noite.
Não dormi nada. Levantei-me três horas depois e fui para a porta do café. Enquanto esperava que abrisse dei umas voltas pela praça. Reparei que havia uns papeizinhos colados nas paredes, janelas, portas ... estavam por todo o lado! Pensei que fossem alguns cartazes a anunciar alguma festa regional, essas coisas dos pobres, mas depois olhei mais de perto e ...
- Merda! Estão por todo o lado! Qualquer polícia vê isto, faz queixa e ... lá se vai o Silva! Até consigo ouvir a voz do Tenente Antunes: "SILVAAAAAAA ... chegou a tua hora!! Vais ser atirado aos leões!". É um pesadelo recorrente, eu estou vestido de escravo e o tenente de general romano. A Melanie também costuma aparecer, normalmente tem uma daquelas togas reveladores vestidas e é meretriz.
Tenho de arrancar todos os cartazes antes que alguém os veja! Demorei 1 hora e meia a arrancá-los todos. Enfiei tudo na mala do carro! Aquele russo só me dá problemas!
Nove horas abre o café.
- Bom dia desculpe mas é urgente!! Podia-me dizer ...
- Calma aí compadre! Estou agora a abrir o estabelecimento! Sente-se aí que eu já o atendo.
Mas será que esta gente não percebe que eu não tenho tempo para isto??? Sou um homem à beira do desastre!
- Olhe ...
- Oh amigo tenha calma! Deixe-me cá vestir o avental homem!
- Eu não tenho tempo para ...
- Deixe-me só ir ali dentro ver se tenho alguma coisa na armadilha.
- Na armadilha? Uma ratoeira? Tem problemas com ratos?
- Nada disso, é por causa do russo. Oferecem uma pipa de massa a quem o apanhar e então pus uma armadilha nas traseiras para ...
- Você sabe do russo? Como?
- Os cartazes filho! Estão aí desde a semana passada. Anda tudo numa loucura à procura do magano!
- (Estou frito!) POR ACASO NÃO VIU UMA FRANCESA POR AQUI?
- Calma homem!! Eu não vi ninguém!
- Você disse francesa?
- Sim você viu-a????
- Deixe-me apresentar a minha pessoa ... sou o Zé Carlos 'tás bom?
- Estives-te com ela?
- Estive sim ... bem boa a moça!
- Quando??
- Á dois dias atrás! Deixei-os em Lantejoulas de Cima, mas não sei se ainda ...
Saí dalí a correr. Tenho de apanhar aquele russo antes da Melanie senão o meu disfarce é descoberto. Para isso tenho de os seguir. Ó caminho é longo, pelo menos umas duas horas. Apercebi-me que algo de errado se passava na bagageira. Parei o carro e fui ver.
- Não acredito!!
Tenho a mala do carro estragada e os cartazes espalharam-se pelo caminho!
- Xii homem! A papelada foi-se toda!
- Quem é a senhora??
- Zulmira Borba. Acho que sei indicar-lhe aquilo que procura. O fugitivo.
- Sabe onde ele está?
- Anda tudo à procura dele. Mas eu não lhes disse porque eram todos estrangeiros, mas você eu sei que é de confiança!
- Você conhece-me?
- Sou a mãe do tenente Antunes.
- M-mas ...
- Eu sei onde anda o russo. Mas não disse nada ao Toninho porque ... porque acho que ele só vai estragar tudo!
- Como assim?
- O russo não fez nada de mal, é esta mania dos comunistas ... ele anda obcecado!
- Alguma coisa fez e eu preciso que me diga onde está!!
- Só se prometeres que não contas nada ao Antunes, e não o entregas à polícia! Prometes?
- Eu não posso fazer isso ...
- Ninguém precisa de saber que ele está cá! Os próprios alemães já passaram aqui milhares de vezes e não o encontraram.
- Preciso de saber o que ele fez, falar com ele. Depois dou-lhe quinze dias para ele fugir e a seguir dou o alerta!
- Obrigado João! O rapaz ajudou-me quando eu mais precisava, não merece que o andem aí a perseguir como se fosse um criminoso. Ele não fez nada!

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Sou judeu...

Entretanto em Vila Nova de Coentros...
- Já lavei o tapete, já lavei o chão, já limpei as suas chinelas, já esfreguei o balcão e já parti o bacalhau às postas para a dona Pureza.
- Muito be m.
- Posso sai r daqui um bocadinho?
- Podes! Mas com cuidado! Não te quero enrabixado com a espanhola dos Castro!
- Mas dona Adelaide...Eu sou jovem! Eu tenho de me divertir! Nunca saio daqui parece que estou num daqueles campos de concentração!- A campainha da loja toca e entra alguém.
- Campos de congcentgação? Quem fauou em campos de congcentgação? Têm auguma coisa contga campos de congcentgação? É que se têm...- Era o marido da dona Panelona, digo menina Rosália, digo melhor, senhora Rosália. A dona Adelaide apressou-se logo a dizer que não, não entendi bem porquê.
- Não! Nós aqui adoramos aquilo! Ui! Até estava a dizer aqui ao jud...Ao Ismael que haviamos de la ir passar umas férias. Aquilo come-se lá bem?- Fiquei a olhar. Porque haveria a dona Adelaide de querer ir para um campo de concentração? A unica coisa que sei, e foi porque ouvi o Amadeu falar, é que põe para lá os velhos e os escurinhos...
- Comida? Sim há muita comida lá...- O homem estava desconfiado- Vim aqui compgag paga a minha Gosália um peixinho bom pode seg...uma bgbgótia!
- Abrótia? Já não temos a ultima ficou podre no...
- Não!! Temos sim senhor! Oh, Ismael...- disse apressadamente a minha patroa- Temos abrótia sim senhora! Eu vou buscar e tu vens comigo para me ajudag...ajudar! Ai, desculpe já voltamos- E pegou-me no braço e arrastou-me para dentro de casa, enquanto o alemão da Panelona ficou a olhar para o nosso marisco.
- Meu estúpido!- Disse a minha patroa, fechando a porta atrás dela- Tu não vez que se eles te apanham estás frito? Estamos os dois!
- Eu? Mas eu não fiz mal nenhum!
- Fizes-te. És judeu.
- Hã? Não estou a perceber...- Foi então que a dona Adelaide me explicou o ódio que os alemães e o seu chefe, Hitler, têm pelos judeus. Não percebi porquê, mas a dona Adelaide fez me prometer que não falava nada de nada a ninguém e que teria de ir pedir aos meus amigos para nenhum abrir a boca sobre a minha religião ou nacionalidade, porque senão eu e a dona Adelaide iamos mesmo passar umas férias perpétuas no campo de concentração daqueles senhores. Lá fome não passávamos, mas a dona Adelaide quer assim e assim será. Tenho de ter cuidado. Assim, a dona Adelaide levou a abrótia ao senhor e eu, para disfarçar, fui limpar o tapete da entrada.
- Que abgótia tão aggadáveu! Pagece mesmo de boa quauidade! Quanto uhe devo?
- Ora essa, nada! Não deve nada! Esta foi a sua primeira compra aqui e por isso não é preciso pagar um tostão!- risso parvo- Vá, vá lá para o seu ninho do amor- risso parvo- adeus, vá com Deus!- Disse a minha patroa.
- Deus? Gefege-se a que Deus?- Disse o alemão. Ele está a provocar a dona Adelaide.
- Deus! Como assim? A-ah...Deus! Nosso senhor que amo venero e tudo tudo tudo! Cristo!
- Sim- meti-me eu na conversa- Nós aqui somos muito religiosos e adoramos tudo o que mete igreja, incluindo o nosso querido padre- o alemão ficou a olhar para nós com a abrótia nun saquinho.
- Pois bem...- disse ele- Passag bem, então- E saiu da peixaria. Levei uma palmada no braço dada pela minha patroa logo a seguir.
- Ismael, ouve com atenção! Não falas, não dizes nada se vires ou ouvires ou se vier aqui um alemão! Eles parece que estão a nascer em Coentros! Ouviste? Se aparecer aqui um para comprar qualquer tipo de peixe tu vais me chamar!
- Até pescada? A dona Adelaide disse que me ia deixar vender pescada...
- Não! Agora já não vendes que é muito perigoso. Por agora temos de ter muito cuidado. Olha, vai fazer o que eu te disse, vai pedir às pessoas para não contarem nada e se alguma se recusar diz que tem peixe gratis durante uma semana- Achei estranho e perguntei.
- Dona Adelaide, proque é que está a fazer isto por mim?- Ela ficou encavacada, calçou as luvas de borracha e começou a cortar postas de um peixe qualquer.
- Oh...porque gosto muito de ti, Ismael. E também se te apanham eu também sou apanhada por te ter escondido e lá se vai o nosso negócio!
- Nosso?
- Sim...Não! Não vou deixar que o nosso negócio passe a ser deles! Não vou permitir que me tirem daqui! Isto é a minha vida! E não vou permitir que te levem, senão quem me limpava o tapete de entrada?- As lágrimas vieram-me aos olhos.
- Oh, dona Adelaide, se não cheira-se a marisco retardado e se não tivesse as mãos cheias de entranhas de peixe eu abraçava-a.
- Já me considero abraçada, não me faças chorar que tenho as mãos com guelras! Vai fazer o que te disse, vai falar com as pessoas, mas cuidado máximo com os alemães.Evita-os! Agora, quanto á Panelona casada é que tenho de ter os olhos bem abertos. Se ela disser alguma coisa...eu faço-a desaparecer de vez...- E lá fui eu. Pelo caminho até ao restaurante dos Bellini fui a repetir o que tinha que fazer: "Falar com as pessoas, evitar os alemães, falar com as pessoas evitar os alemães". No restaurante é tudo boa gente, todos perceberam e claro que não me vão denunciar. Depois fui até à pensão da dona Celestina e falei com ela e também ela concordou em não dizer nada. Foi dificil lá entrar, aquilo está cheio de lobos maus, quer dizer, alemães. Mas eu sou um judeu forte! Próxima paragem: Talho do senhor Custódio.
- Bom dia!
- Tu? Por aqui? Bifinhos? Costeletinhas? Franguinho? Peruzinho?... Que é que queres, afinal?
- Olhe, vinha lhe pedir que não disse-se nada aos senhores alemães- disse baixinho, claro- sobre eu ser...pronto.
- Seres o quê? Oh! O que é que o Dário te fez???
- Nada! Nada! Eu só lhe queria pedir, pelo meu e pelo seu messias, que não contasse a ninguém, aos alemães, pronto, que eu sou...- e cheguei mais perto do ser cor de rosa-
judeuzinho.
- Ah! O.K! Mas...Nada, filho, deixa estar.
- Muito obrigado, senhor Custódio. Agora vou trabalhar.
-Está bem, eu não conto nada a ninguém...Vai com Deus! Quer dizer com...seja lá com quem queiras ir- Eu sabia, até o senhor Custódio era compreensivo, mesmo sendo o inimigo número um da minha patroa. Voltei para o trabalho.
- Vai lavar as escadas das traseiras, deixei lá cair o resto do empadão de peixe de ontem- Disse a dona Adelaide, ao me ver entrar na loja. Eu fui logo, claro. Mas enquanto limpava a escadas ouvi vozes e gritos na entrada. Fui ver o que se passava e espiei atrás da porta que dá acesso da casa à loja. A minha patroa estava a discutir fortemente com o senhor Custódio. Nada de surpreendente.
- Já lhe disse! Se não fizer o que eu quero, o seu querido empregado vai com os alemães para a terra deles e sabe-se lá o que lhe farão!- dizia o senhor Custódio. Ele ia-me denunciar!!??
- Nunca pensei que você fosse assim, senhor Custódio. Pensava que mesmo por detrás dessa barba gordurenta que havia um homem digno! E mesmo depois do que aconteceu entre nós...Como é capaz de me pedir uma coisa dessas? Como?
- Já lhe disse- disse o Custódio para a dona Adelaide, que chorava- Ou faz o que lhe digo ou eu entrego o judeu...
- Fale baixo!- implorava a minha patroa.
- Não lhe dou muito tempo, mas também não lhe dou um prazo, está a ouvir? Só lhe digo que se não o fizer o seu empregado lava tapetes vai "acampar"- E deixou a peixaria, fazendo bater a porta da entrada e fazendo cair, com tal brutidão, a nossa querida campaínha dourada anunciadora de clientes. Mal vi a campainha cair, abri a porta que me escondia e fui a correr apanha-la.
- Estavas aí, Ismael?- Disse a patroa limpando as lágrimas com entranhas e guelrras e tudo.
- Eu ouvi, algumas coisas, não muitas, mas percebi que o senhor Custódio não é flôr que se cheire e não nos vai ajudar...Mas ele disse que sim quando fui ao talho!!
- Ismael, Ismael!! És tão inocente e tão parvo! Aprende a não confiar em todas as pessoas!- Disse ela ainda a chorar. Sentou-se no banquinho atrás do balcão e levou as mãos à cabeça- Se é guerra que ele quer, guerra terá!- Disse, por fim. Naquele momento abrem a porta da peixaria. É um alemão! Instintivamente corro para trás do balcão. A dona Adelaide levanta-se. O alemão pergunta-me:
- Tem polvo fresco?- Fiquei sem pinga de sangue.
- Não...- respondi.
- Auf Wiedersehen- disse ele, mas não ficou por ali- Ah! E já agora, você é judeu?- Fiquei sem saber o que fazer. A dona Adelaide sentou-se novamente no banquinho, levou as mãos à cara e começou a chorar. Mas eu fui forte!
- Você é alemão?- perguntei ao homem do sobertudo.
- Ya.
- Então, não sou- O homem saiu da loja sem dizer nada. A dona Adelaide levanta-se olha para mim e com as lágrimas nos olhos abraça-me. Cheirava mal. Disse:
- Isto não vai ser nada facil...- Tentei-lhe perguntar o que tinhamos de fazer para que o senhor Custódio não dissesse que sou judeu, mas não consegui. A dona Adelaide estava incosolável.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Wanted


Que bem que dormi! Tive um sonho fantástico, nem me apetecia acorrdarr! Sonhei com mon Bórris ... mon amour! Estávamos em Paris, no meu appartement. O pobrrezinho estava ferrido, os alemães tinham-no apanhado e torrturraram-no! Mas eu salvei-o! Levei-o parra casa e trratei dele, mon bébé. Estava a dorrmir na minha cama, parrecia um anjo avec son cabelo de ourro, seu corpo tonificado e ... mon Dieu! Dei-lhe a comida à boca, tapei-o quando tinha frrio, acarriciei-o parra adormecerr e de repente ... AHHHHHHHHH! " Mamã! Mamã! Changement-moi la couche! Estou todo borrado, merde!". E fui assim que acorrdei ... com os grritos do Jean Paul. Que crriança chata e malcrriada! Tal e qual o seu papa!
Ainda tentei adorrmecer e voltarr aquele sonho marravilhoso, mas a Dona Belina começou a berrarr: "Acordem preguiçosos! Abbiamo molto que andare!".
Ainda estava escurro. O Gil e o Amadeu estavam com um arr de quem não dorrmiu nada. Eu cá dorrmi lindamente na minha cama fofinha.
- Bonjour Zézé!
- Bonjour madame! Como passou a noite?
- Lindamente chéri.
- Óptimo. Temos um longo caminho pela frente. Verdurinha fica a uma hora de distância.
- Vamos lá companheirros!
Parece que mais ninguém parrtilhava o meu entusiasmo. Vierram a dormiscar lá atrás. A Dona Belina vinha pendida e acabou porr aterrar a cabeça no ombro do Amadeu. O Gil vinha de olhos fechados agarrado à fotogrrafia da Reginá. Comecei a falarr com o Zézé, meterr converrsa parra descobrirr a identidade do tal homem com quem a Regina estava a falar.
- Tá frresquinho, han chéri?
- Tá fresco sim. Quer por o meu casaco aos ombros?
- Non é prreciso merci!
- Disponha madame!
- Bien ... o Zézé já se lembrra do homem com quem viu a Regina a falarr?
- Olhe desculpe mas não me quero meter em sarilhos.
- Sarrilhos? Non, non eu não conto a ninguém! Je le jure!
- Mesmo assim. Eu sou sozinho e não faço confiança com facilidade! Já tive muitos desgostos nesta vida!
- Pode fazerr confiança comigo!
- Madame ...
- Toda a gente faz confiança comigo! Pode-se dizerr que é a minha vida!
Ele encostou a carrinha e fizémos confiança. Os outrros nem derram porr isso, estavam no sétimo sono. Enquanto fazíamos confiança ele foi ficando à vontade e disse-me o que eu querria saberr. Ou seja, o senhorr Pinto está metido nisto até ao pescoço!
Chegámos finalmente a Verdurinha! Erram 8 horas da manhã e não havia muita gente na rrua. Monsier Zézé foi à sua vida e nós fomos ao "Café Centrral" comerr qualquerr coisa. Foi aí que confessei. A verrdade é que não se pode fazerr confiança comigo. Je suis un menteur!
- Fiz confiança com o Zézé e ele abriu-se parra mim ...
- O quê? Quando foi isso? - perrgunta o Amadeu indignado.
- Durrante a viajem e ...
- Que vergonha! Pareces uma ... espera lá ... tu és uma!
- O que tem de mal? Fiz confiança prronto!
- Amadeu eu acho que ela quer dizer que ela e o Zézé tiveram uma conversa mais profunda e estabeleceram um laço de confiança!
- Vês! Fois o que eu disse! o Gil perrcebeu.
- E então? O que é que ele disse?
- Bien, parrece que foi o senhorr Pinto que trouxe a Regina a Verrdurras.
- Mas porquê? O que é que ele tem a ver com a minha Gigi?
- Non sei chéri. Só se tiverr a verr com ... a despedida de solteirra!
- O que tem a despedida de solteirra ... quer dizer solteira?
- Ele beijou-a non sabias chéri? Foi à forrça mas ...
- Esquece Gil! Agora temos de concentrar-nos no paradeiro da moça para irmos para casa rapidamente!
- Eu podia irr perrguntar ao moço do café ... querrem que faça confiança com ele?
- Io devo fare la fiducia vi!
Quinze minutos depois ...
- Vai la Melanie, ha cattivo gusto. Deve gostar do teu tipo.
Cinco minutos depois ...
- Diz que não viu raparriga nenhuma, mas que o gordo vem cá muitas vezes!
- O que quererá isso dizer? Temos de nos separar e perguntar às pessoas da terra! ela pode ter pernoitado em alguma casa ou pensão. Amadeu, tu vais pela rua da direita! Melanie, tu vais pela esquerda! Eu vou descer a rua.
- E eu?
- A ... v-você ... venha comigo pronto!
- Para isso prefiro o Amadeu! È più piacevole per il fronte.
E ficámos assim. Fiz confiança com mais umas pessoas, mas non descubrri grrande coisa. Parrecem todos assustados quando lhes falo na Regina. Ao fim do dia reúnimo-nos novamente no café.
- Então alguma coisa de novo? Melanie?
- Non chéri! Mas sinto que há algo estrranho aqui.
- Nós ouvimos umas coisas ... parece que a tua Regina passou cá a noite mas fugiu no dia seguinte sem pagar a conta. Resumindo ... o teu irmãozinho está 20 escudos mais pobre e ...
- Não ligues a este desgrazado! A senhora disse que a ragazza passou a noite na sua caza. Disse que ela comeu e foi logo para o quarto, nem lhe ouviram a voz. No dia seguinte fudgiu sem agradedcer!
- E o Pinto? O que ele tem a ver com isto?
- Posso dar a minha opinião? Por mim voltávamos para trás e íamos para Coentros. A rapariga está claramente a fugir de ti e não a recrimino! Tu levas 100 a zero daquele russo!
- Non pregare o nome de miu amore em vão!
- Non prétendant le nom de mon amour em vão!
- O quê também tu Melanie? Pensei que me amávas! Tinhamos algo especial!
- Nós? Pour l'amour de Dieu! Nunca fizémos confiança nem fomos parra a cama!
- É só nisso que pensas? Então e as longas conversas ...
- Êtes-vous fou?
- Por muito que vos queira ver felizes ... ESTAMOS AQUI PARA FALAR DA REGINA!
- Ele tem razone.
- Desculpa chéri.
- Disseram-me que a aldeia mais proxima é Lantejoulas de Cima e é para lá que vamos esta noite!
- Estás doido? Essa mulher põe-te doido ... a esta hora da noite onde queres arranjar boleia?
- Aqui o Zé Carlos dá-nos boleia, oui chéri?
- É isso minha senhora!
- Ele é de Lantejoulas e ofereceu-se parra nos darr boleia!
- Também fizes-te confiança com ele?? Que bela pega que me saís-te e ... ah!
E lá fomos nós mais uma vez. Agorra fomos numa carrinha. Mais uma vez eu fui ao lado do Zé Carlos e os outrros forram lá atrás onde anterriormente estiverram as galinhas. Parra descobrrir umas coisas fui metendo converrsa ...
- Está abafado, han chéri?
- Realmente tá quentinho han, tá uma brasa ... como você!
- Ohhhhh ... Zé Carlos você é um romântico! Diz coisas très bonitas!
- Você é que é bem bo ... digo bonita! É estrangeirra?
- Sou frrancesa!
- Ui ... o que eu gosto de frrancesas!
- Então ... Zizu ... porr acaso não ouviu falarr de uma moça ...
- A Regina? Andam à procura da Regina?
- Oui chéri ... sabes onde ela está?
- Não. Mas ela é minha prima sabe?
- Sua ... mon Dieu! M-mas tem cerrteza ... ela não lhe disse ...
- Ela passou por Verdurinha à dois meses, três meses atrás ... falámos pouco.
- Ela disse ...
- Disse que andava a fazer pela vida. Que queria ser feliz e tal.
- Só isso??
- Digo-te mais se me mostrares as tetinhas!
- Cochon! Ordinaire!
Dei-lhe uma chapada, naturalmant! Quem é que pensa que sou? Uma ... ah!
- Desculpe menina ofendi-a? Se calhar percebeu-me mal é que ... "tetinhas" em lantejoulas é como chamamos à identificação! É que anda para aí gente perigosa, gente estrangeira da guerra e não se sabe em quem confiar hoje em dia!
Mostrei-lhe as "tetinhas" e ele prosseguiu ...
- Bom. Ela falou-me num russo! Parece que se queria enrabichar com ele e não sei quê ... e eu bom está bem! Só que veio a descubrir-se que ... (baixinho) o tal russo é um criminoso que anda fugido! É por isso que andam para aí os estrangeiros, andam à procura dele!
- Quoi? Mas de onde são os estrrangeirros?
- Eu não sei ... só tenho o segundo ano, nan sou nenhum ... alemães, diz que é alemães!
- Mas ... como é que você sabe que o russo é o mesmo chéri? Podem serr pessoas diferrentes!
- Tenho a certeza gost ... lindinha! Ela reconheceu-o pelo cartaz. Espera ... tenho um aqui no bolso! Ora cá está ele ...


Procura-se Dimitri Belov

"Uma recompensa de "muitos" escudos para quem fornecer informações acerca deste criminoso, se trouxer o criminoso às autoridades com vida terá uma recompensa de "muitos, muitos" escudos, morto dá direito a uma viajem a Vila Nova de Tulipas e uma recompensa do caraças.
Quem quiser ser um amor pode também trazer uma garrafinha de Porto que vai sempre bem."

Seguindo il rasto russo

- Olhem lá, onde é que dorme a velha? A velha não anda? Epá que estafermo...
- Eh! Calma! Deixa ver...Oh senhora Belina! A sua cadeira de rodas só atravanca- disseram ils ragazzos- bom, você vai ter de dormir aqui no sofá, porque não consegue subir para o quarto, não acha senhor Zezé?
- Ah...sou vecchia ma mesmo assim aturo-vos, non é? Ah, ragazzos mal agradecidos! E que mal tem la mia sedia a rotelle?
- Quai? Que está a senhorra a dizerrr?- Melanie, burra que nem una portita!
- Deixe lá, dona Belina, eu acho a sua cadeira de rodas muito sexy...
- Senhorrr Zezé!- Corei...Sou una vecchia ma sei que ainda sou muito..."sexy"!
- Grazie!- disse io- Hum...ma non ha problema, io posso dormire aqui. Il divano parece mole...Vá! Vão dormire!
- Não quer ajuda para sair da cadeira de rodas, dona Belina- disse il Gil.
- Non! Non te posso ver já! Vai dormire e sonha con tu amore che io vou sonhare con il mio russo. Andore! Melanie! Tu ficas.
- Pourquai? Je suis trés fatigué...J'ai...
- Ficas e cala-te! Senhor Zezé, vá dormire e grazie per tutti! Adio...- il vecchio ficou a olhar para nós e tive medo...- Chio!! Adio! Sai daqui!- Tive de o enxotar...
- Melanie, é o seguinte: Eu sei que esta conversa vai ser molto complicata ma...Non vais ficar com il russo, lamento- La ragazza ficou a olhar para mim. Será que percebeu alguma coisa? Repeti:- Russo, mio! M-I-O R-U-SS-O! Va benne? MIO! Tu Amadeo! Io Bóris! Gil...non sei, Regina talvez!
- Dona Belina, mon Diou! Você non tem hipóteses, ok? Je suis joli, blonde, maigre. E a senhorra é...feiá, tem os cabelôs brrancôs e é gorrda!
- Non sou "gorrda"! Sou..sentada! Faz de mim mais gorda, menos esguia!
- Oh! Porr favorr! Le russe et parra mim, você...Oh! Mas que bela ideiá! Pourquai non fica aqui com monsiour Zezé? Parrece ser um home trés interresant!
- Oui, oui, si, si ma fille...Cala-te! Já disse o que tinha a dizer! Agora vai chamar o senhor Zezé ao quarto.
- Hã?
- Vai, non faças perguntas, francesa.- E lá foi ela. Nunca vai aprender que o russo é meu e quando o encontrarmos, com as saudades que ele tem minhas, ele vai cair nos meus braços e pedir para eu lhe fazer una pasta al'uovo! Pobrezinha. Lá vinha ela, com o ridiculo senhore Zezé.
- Que quer de mim velha italiana?- disse ele ensonado.
- Mais rispetto! Bom, sei que sabe de alguma coisa sobre os furagidos.
- Eu?
- Si, non se faça de parvoni! A minha cadeira chiou quando entrei na sua casa.
- E isso querr dizerr o quê cheri?- Perguntou a francesa.
- Quer dizer, amore mio, que há qualquer coisa mal aqui...Que alguém esconde alguma coisa. E dopo io vi a cara de tagliatele do senhore Zezé quando lhe falamos da Regina e do Bóris...A minha cadeira está enganada? Hã? HÃ?
- Bom...
- No acredito, monsiour Zezé...Eu perguntei-lhe quando estávamos a descerrr da carrroçá e...
- Eu sei!- Disse o homem.
- Eu sabia a ferrugem da minha cadeira non mente!
- A rapariga disse-me para não contar mas...espera lá! O que é que eu ganho se disser para onde foi a moçoila?- O Zezé cercou-nos. Caspita!
- Bom...Non sei, noi non temos molto para dar...
- Rien- disse a farancesa.
- Niente- concluí eu.
- Então não digo...
- Olhe, senhore Zezé...Nós temos de ajudar os mais novos! Esta bela jovem anda à procura do russo que é...o pappa do figlio dela! Ele fugiu e deixou-a com il ragazzo e com outro na barriga!- A Melanie estava especada, mas depois aderiu.
- Veja, monsiour!- Disse ela pegando na mão do senhore e pondo na barriga dela- Sente? Mon bebé tem saudades do pére!
- Está vendo, senhore? E o russo fugiu e, como se ainda não bastasse, levou a Regina! A moça que ia casar com o Gil.
- Gil?- perguntou o homem-
- Sim, o feioso. Ele levou a mulher dele...
- A mulherrr do seu prróprio irmão!!!- A Melanie estava a levar isto muito a sério.
- Irmão? O Gil é russo? Não parece nada!- Disse o senhore Zezé engrupido.
- Oh, non parece porque são de pappas diferentes!- disse eu, estava a descambar- Mas isso agora non interessa! O que interessa é que temos de encontrar o russo, ele tem famiglia...Veja esta pobre mamma, destorçada...poverela!- A Melanie fingia chorar com a mão sobre o ventre mais liso que um spagheti! O homem parece que ficou com pena.
- E-eu, não sei o que dizer...- disse ele.
- Então diga-nos parra onde forram eles! Oh! O bebé mexeu...são saudades.
- Eu não sei de muita coisa- disse il senhore- Só vi a miúda, ela ficou aqui uma noite antes de partir...Foi comigo para Verdurinha, ali para os lados de Berbicacho, fui lá levar um carregamento de alfaces, a uma mercearia e ela foi comigo. Não sei mais nada.
- Oh! Acho que me rrebentarram as águááás!!
- Pronto...- continuou o homem- Ela foi comigo à mercearia pedinchou lá umas coisas à mulher de lá, ela deu-lhe pão e água e ela veio se embora. E é isto.
- Dona Belináá estou a sentir um pézinhô!
- A ultima vez que a vi- disse o senhore- ela estava a beber àgua numa fonte lá perto e a falar com um rapaz.
- Era alto, loiro, magro, lindo?- disse logo a francesa deixando o bebé imaginário em paz.
- Hum...
- Faça um esforço senhore! Per favore!- disse io.
- Ora- disse ele- Não, era baixo, moreno, gordo e feio.
- Bolas!
- E agora não sei mesmo mais nada deixem-me ir dormir. Adeus!- E foi se embora.
- Acha que ele estava a dizerrr a verrrdade, dona Belina? Sobre o homem baixo, feio, gordo...
- Não sei, mas isso é o que vamos ver quando chgarmos a Verdurinha...Amanhã é para levantar cedo, hã, ragazza francesa?
- Oui, grand-mère!
- Nonna? Estás me a chamar de avó?- Que internacional que estamos- Pois fica sabendo que esta tua grand-mére nonna te declara guerra ao russo neste momento, capiche?
- Oui! E que ganhe a melhorr!

Regina meu amor aqui vou eu!

Ai a minha vida!! O que faço sem a minha Regininha?? Passaram-se meses e eu não consigo esquecê-la. Está sempre no meu pensamento. Tudo me lembra os belos momentos que pássamos juntos. Onde estará ela? Estará com aquele maldito russo? Devem estar os dois todos enrolados a rirem da minha cara! Ou talvez esteja sozinha, com medo, doente, debaixo da ponte ... BUAÁÁÁÁ!
- Sai da cama Gil! Temos de ir trabalhar! O Bellini já andou a ameaçar despedir-nos e ...
- Eu quero morrer Amadeu!! Tranca-me aqui sem comida nem água, deixa-me apodrecer!!
- Deixa-te de merdas Gil e levanta-me esse cu! E toma um banho que o cheiro começa a ...
- É o cheiro do meu coração despedaçado!
- Isso ainda é por causa da rapariga? Por amor de Deus há milhares de raparigas por aí ... já sei o que vamos fazer! Hoje à noite vamos ao "Escondidinho"!
- Aquele lugar nojento??? Mas não tinha fechado?
- Reabriu esta semana. Eu e o Fernando fizemos uma sociedade. Tinha um dinheirinho de parte e resolvi investir no meu futuro!
- Taberneiro?
- Sim.
- Diz-me quantas pessoas é que fizeram fortuna com um ... café!
- Não é café, é uma boate. Um sítio onde se bebe e se pode também dançar! Não é fantástico? Acabaram-se os bailaricos de velhos!
- Porque é que eu acho que isso não vai resultar ... e de qualquer maneira a mulher do Fernando não me parece que vá gostar da ideia.
- Nós mudamos a localização ... agora o "Escondidinho" fica no moinho velho.
- E está a pensar ir lá trabalhar? E os Bellini? E se não resultar?
- E se e se ... pareces uma mulher! Vai resultar porque eu tenho tudo pensado. trabalho nos Bellini até a meia-noite como sempre, depois a partir daí vou para o "escondidinho". O Fernando fica lá das 9 horas até ao meu turno. Assim pode ir para casa ter com a mulher e ela não desconfia!
- És um génio. Mas diz-me, quando dormes? É que tens de ir logo cedo para o restaurante e ...
- Não te preocupes que eu cá me arranjo. Também não estou a pensar ficar lá muito tempo, talvez um mês ou dois, arranjo uns dinheirinhos e caso com a Melanie!
- AHAHAHAHA com a Melanie!
- Porquê? Achas que ela não aceitava? A francesa está caídinha por mim!
- Ela é uma prostituta Amadeu! Vai lá casar contigo!
- Vai sim, posso-lhe dar uma vida melhor, tratá-la como uma rainha. Sabes como é, eu sei tratar de uma mulher. Elas não fogem de mim!
- O que estás insinuar??
- Nada, nada acalma-te maninho! Vá, vamos mas é trabalhar.
Ele tem uma certa razão. Eu talvez não tenha sido muito atencioso com a Regina. Apetece-me largar tudo e ir à procura dela. Pode estar perdida, ferida, a morrer ...
- Está tudo bene Gil?
- Sim senhora Francesca, porquê?
- Estavas a parlare solo. É por causa da Regina? ainda não esqueces-te a ragazza?
- Não consigo. Ela, ela ... BUÁÁÁÁÁ!
- Pronto, pronto figlio! Tens de ultrapassar isso.
- Não! Eu ... eu tenho de a encontrar!
- Mas tu não sabes dove ela está! vais andar por aí de terra em terra?
- Se for preciso!
- Não acho buona idea.
- Io vado contigo!
- Mamma?
- O Pinto no me liga nenhuma. Deixe fuggire o amor della mia vita, tenho de o ir buscar!
- Está louca? As últimas notizie que tivemos dele estava ele em França!
- E vou lá se for precizzo! A Melanie conhece aquilo, levamo-la com noi. Se bem que tenho de ter attenzione con essa.
- Eu vou parlare com Giuseppe. No estou a gostar disso. Mamma mia!
E a viajem ficou marcada. De hoje a uma semana! eu não queria levar a velha Bellini mas ... ao menos tenho companhia. Não me estava a apetecer andar por aí sozinho. Falei com o Amadeu mas ele disse que não queria servir de "vela" entre mim e a velha. Foi aí que lhe falei na Melanie e ele mudou de ideias. Vamos os quatro1 eu não tenciono procurar o estupor do russo, disse à Bellini que davamos um pulinho a França depois de encontrarmos a Regina. A velha pensa que França fica ao virar da esquina. Só espero não os encontrar juntos!
O Bellini dispensou-nos durantes 15 dias. Tivémos sorte pois esta é a éspoca baixa do restaurante e por isso não demorámos a convencê-lo. Eu acho que a ideia de ficar 15 dias sem a sogra lhe agradou. O "Escondidinho" vai encerrar à meia-noite, mas não custou nada ao Amadeu tomar esta decisão pois a Melanie está envolvido. O tolo do meu irmão pensa mesmo que ela está apaixonada por ele. Resolvi não lhe contar do desejo dela de encontrar o russo ou ele acabava por não vir e não a deixar ir também.
- Amadeu acorda! É hoje ...
- Deixa-me dormir!!
- A Melanie está lá em baixo e ...
- Bom dia irmãozinho! Vamos a isso!
A Melanie esperava lá em baixo pacientemente. A velha estava ao seu lado, enroscada na sua cadeira de rodas ainda meio a dormir.
- Bonjour Gil! Bonjour Amadeu!
- Bonjour amorre da minha vida!
- Oui chéri ... quando parrtimos Gil?
- Agora!
Caminhámos, caminhámos por ruas e ruas, montanhas e bosques e ... as pernas começaram a pesar.
- Gil levanta-te! Ainda não saímos da vila e já te estás a queixar!
- A queixar eu? Eu estou aqui forte que nem um ... não podemos ir de boleia?
- Deixa comigo chéri eu arranjo!
- Nem pensar florzinha! Deixa o Amadeu resolver o problema, as senhoras não podem fazer estes servicinhos.
- Serrvicinhos? É isso que faço todas as noites e ...
- Vê só isto.
Estivémos meia hora à beira da estrada a ver os carros passar. Como não há muita gente que tenha carro na vila todas as oportunidades tinham de ser aproveitadas, mas o Amadeu tem um dom para desperdiçar oportunidades!
- Amadeu desiste.
- O Amadeu nunca desiste ... olha lá vem um! Uhuhuh podia dar-nos uma boleia??
- Acho que ele não vai parar ... não vale a pena ... Amadeu ...
- Cala-te Gil! Uhuh podia parar o carro se faz favor?? Seu filho da ...
- AMADEU! Olha a Melanie!
- Vês? Resultou o homem parou o carro!! Não te disse??
- E-Ele está a sair do carro e ... FUJAM!
O que vale é que era a descer, apoiámo-nos na cadeira de rodas da velha e conseguimos escapar.
- Oh não e agora? Nunca vou conseguir encontrar a minha Regina!
- Calma Gil! Eu posso ajudarr chéri ... aposto que arranjo uma boleia em 5 segundos!
E assim foi. Afinal a Melanie puderia ser bem útil, pelo menos a nível de transportes e quiçá alujamento. está bem que era uma carroça, mas é melhor que nada. A Melanie sentou-se à frente com o condutor e nós ficámos lá atrás onde suspeito que tenham sido anteriormente os lugares de porcos.
- Então vocês vão para onde? - pergunta o homem da carroça, um homem rude do campo.
- Vamos parra, parra onde o senhor quiser!
- Olá ... falas-me a cantar! E como é que o docinho se chama?
- Ohhhhh ... Melanie! Je suis Melanie!
- Sempre gostei de francesinhas!
- Calminha aí ó ...
- ... Zézé!
- Zézé! Veja como fala com a senhora!
- Cala-te Amadeu! não te metas na minha vie.
- Se estão a pensar explorar as redondezas sugiro que fiquem alojados em minha casa. Tenho lá um quartinho e vocês os três podem dormir na sala.
- Parfait!

domingo, 21 de setembro de 2008

Vende-se congelados

- Agora é que vai ser, dona Adelaide!- disse e Ismael ao colocar a placa que diz "vende-se congelados", na montra da minha peixaria- Vão ser só clientes!
- Deus te ouça judeu! Deus te ouça! Vamos gastar mais dinheiro mas vai ser melhor. Espero que ganhemos com isso...Senão, olha, não sei. Mas vai correr tudo bem!
- Vai pois! Olhe, lá vem um cliente!- Era o...Senhor Cristóvão? A campainhazinha da porta tocou e eu fiquei a olhar para ele atrás do balcão. Levantei a cabeça e empinei o nariz.
- Que é que quer daqui? Já se fartou de comer carne?- Ele andava pela peixaria e inclinou-se para a arca dos congelados.
- Lulinhas?- disse ele- Polvinho? Carapauzinho? Salmãozinho? Muito bem...Era de esperar.
- De esperar? Como assim?- disse eu já de mão na anca na anca e no avental.
- Ora, ora, senhora Adelaide...Já sabia que ia começar a congelar o seu pescado, pois não tem qualquer higiene aqui! Assim congelado, sempre fica mais resguardado e não se estraga tanto!
- Mal criado! Atiço o judeu contra si e vai ver!
- Tenho cá um medo- disse ele entrando dentro do meu balcão e vendo-me de chinelas ortopédicas brancas, coisa que não gosto que as pessoas vejam.
- Olhe, digo-lhe uma coisa senhor Cristóvão: Não há peixaria mais asseada que a minha seu...
- Seu...?- Ele avançava sobre mim, aquele homem corpulento e suado e cor-de-rosa! Gritei.
- ISMAEL!- Mas o Ismael não veio, deve andar a galantear a espanhola dos Paiva e Castro. Sirigaita!- ISMAEL! Não se aproxime!- e saquei do facalhão do bacalhau- Eu espeto-lhe a faca nessa barriga e você rebenta como um balão de ar!- Mas o homem continuava a avançar!!- ISMAEL! AI, CREDO!- O senhor Cristóvão estava possesso, mas que mal fiz eu? De repente ele vem direito a mim, escorrega numa escama de qualquer coisa que estava no chão e no próprio gelo que caiu da bancada e escorrega! Eu largo a faca, vou auxiliar o homem e ainda o apanho antes de se estatelar no chão. Ficámos tão próximos como nunca antes! Foi a primeira vez que olhei para ele nos olhos. Tinha uns olhos claros e era tão, tão...cor de rosa. Ele olhou também para mim. O tempo parou. Parecia que estava a ver aqueles filmes das Américas. Ficámos os dois a olhar, impressionados pela beleza dos...da minha beleza, claro e...não aguentei mais com ele...Caímos no meio do chão. Olhámos ainda mais um para o outro, agora caídos no chão da peixaria. Ele cheirava a carne e eu cheirava a peixe, juntos formamos um novo aroma...um aroma tão agradável, tão...mágico. Naquele instante toda eu tremia e...
- Dona Adelaide...
- Sim?
- Você...
- Sim?
- Você...cheira a mexilhão.
- Oh! Recebi agora, é fresquinho.
- Dona Adelaide...
- Sim?
- Você...
- Sim?
- Você...- E enrola-mos-nos os dois. Sim, sim! Enrola-mo-nos! O senhor Cristóvão olhou para mim, eu fiz beicinho, como nos filmes, e deu-me o beijo da minha vida...Em moça namorisquei muito, mas nada como aquele beijo. Mesmo à cinema, como nunca pensei ter: Um beijo de rodar! O cenário era lindo, o chão cheirava a peixe e tinha pequenas escamas e viscosidades que se impregnavam no meu cabelo. O beijo sabia a borrego frito, mas era tão gostoso. Já não tenho idade para isto, ou tenho?
- Dona Adelaide?- Opss...O Ismael encontra-nos. OH! O ISMAEL! TINHA ME ESQUECIDO! E AGORA? Levanta-mo-nos rapidamente.
- P-p-pois, senhora Adelaide...ISTO NÃO FICA ASSIM ESTÁ A OUVIR? HAVEMOS DE TERMINAR ESTA...ESTA LUTA! OU TIRA DALI OS CONGELADOS OU EU...EU...EU NÃO SEI O QUE LHE FAÇO!- E saiu da peixaria a correr.
- Estavam à luta?- Disse o Ismael com um carregamento de gelo nos braços.
- Oh! Estávamos pois!- disse eu recompondo-me e ajeitando o avental. Meu Deus, onde andam os meu óculos?- Ele partiu para cima de mim como um porco bravo!
- E não gritou por mim??
- Gritei, Ismael! Gritei, mas tu não ouviste...E eu sei me defender!
- Podiam-se ter matado!
- Não, era só para o assustar! Isto agora não acontece mais, ele já aprendeu a lição!- espero que não.
- Foi muito arriscado! Se quiser eu vou lá e acabo com ele! E é já!
- NÃO!- Gritei rapidamente- Não, porque não quero mais violência. E tu, vá, vai limpar o tapete da entrada.
- Hã? M-mas dona Adlai...
- Ismael? Não questiona! VAI!- Ai...que aventura. O que se passou, afinal? Foi um sonho? Ai...olha-me ali o Ismael a limpar o tapete. Que homenzarrão! Mas o senhor Custódio...Nunca ninguém me tratou assim! Que talhante! Saí de trás do balcão e fui até à porta da peixaria. Estaria a sonhar? Fui atacada por um talhante e agora vejo a menina Rosália?? Pestanejei vezes sem conta mas era ela.
- Ismael? Aquela é a "Panelona"?
- E não é que é ela dona Adelaide?- Era mesmo!
- Oh, menina Rosália!- Chamei.
- Senhora Rosália, se faz favor. Agora sou senhora Rosália- disse ela. Isso quer dizer que ela já...
- Desapareceu assim sem dar explicação? Porquê? Todos ficamos muito preocupados.
- Foi de repente! Recebi um telegrama do meu "namoradinho de guerra", hi hi hi- riu-se terrificamente- e fui ter com ele à Alemanha, onde estava a combater.
- Foi para a guerra?- Disse o Ismael.
- Não, propriamente, judeu. Foi assim, ai que maçada estar a contar isto a toda a gente: Saí daqui naquela madrugada, fui ter com ele e oficializamos a nossa relação?
- Casaram-se?- perguntei.
- Casar, casar já estávamos casados, por procuração.
- Mas ele é de cá?? Foi para a Alemanha e casaram por...que confusão! Mas já se conheciam?
- Judeu...posso acabar?
- Faça favor...
- Ah, bom, obrigada. Sim, os pais do Wolfgang são de Coentros. Imigraram para a Alemanha cedo. Nós conhece-mo-nos cá, numas férias...Depois ele foi para a guerra, eu para a drogaria, uma lástima. Casámos por procuração e eu achei que agora era a hora de oficializarmos a nossa relação, já que ele tinha um tempinho lá no negócio dele: A guerra.- Eu e o Ismael estavamos especados a olhar para a..."Panelona".
- Mas desculpe, menina Rosália, todos pensávamos que a senhora era...- disse o Ismael.
- Senhora Rosália!- disse ela.
- Era...- continuou ele- era...bom, não gostava de...
- De casar!- disse eu rapidamente, pisando fortemente o judeu lava tapetes- Pensávamos que era solteira...Enganou-nos bem...-disse na brincadeira. Depois apareceu o marido dela. Que belo homem.
- Bom- concluiu ela- agora vamos para o nosso ninho de amor...chauzinho!- E lá foram os dois de braço dado, deixando todos de queixo caído. Inacreditável. A menina Rosália? Casada? Com um alemão rico?? Sim, porque ele parecia rico! Lá foram eles rua a baixo, aos beijinhos...que...inveja! Naquele momento olhei para o talho. O senhor Custódio estava também à porta do seu estabelecimento comercial. Olhei para ele, desviei o olhar, como se não fosse nada comigo, voltei a olhar e...oh! Piscou-me o olho com cara de maroto? Ai, meu Deus! O que foi aquilo atrás do balcão? Aquele beijo arrebatador...Será que chegou a minha vez? Eu, que estou tão congelada como os mexilhões e as lentilhas e como os pequenos chocos que olham para mim com um ar sofredor? Ai, Adelaide, estás muito saída da concha!

Pensão internacional

Ai, ai tanta coisa para limpar! Peúga para lavar! Sanita para desinfectar! Comida para fazer! Cama para arrumar! Assim não dá ...
- Melanie!!! Que andas a fazer filha? Preciso que me venhas ajudar aqui na cozinha.
- Celestine não posso deixarr o Jean-Paul! Está a arrder em febre! Mon muguet!
O menino está sempre doentinho. eu digo que é castigo de Deus pela língua afiada. Mas pronto mais um dia em que tenho de fazer tudo sozinha! Ainda por cima tenho a pensão lotada. Isto são estrangeiros a entrar como senão houvesse amanhã!
- Bom dia! O que deseja?
- Guten Morgen! Ich wollte vierten.
- Desculpe? Podia f-a-l-a-r em p-o-r-t-u-g-u-ê-s!
- Não prrecisa de gritar Celestine eu ajudo-a! Was wir wollen?
- Ein vierter wenden Sie sich bitte.
- Este senhor quer um quarrto Celestine.
- Pois era de esperar. Mas que lingua esquesita é essa Melanie?
- Alemão chéri.
- E pode-se saber onde aprendes-te a falar alemão?
- Na escola querrida.
- E deseja mais alguma coisa?
- Und wie alles andere?
- Ihr Name!
- Ohhhh ... Mein Name ist Melanie!
- Quê filha? Que estão para aí falar?
- Oh Celestine, o senhorr perrguntou-me o meu nome!
- Que romântico toma a chave e leva-o ao quarto!
- Clarro chéri! Wir werden?
- Dás-lhe a chave e não entras estás a ouvir? Nada de brincadeiras!!
Ai a Melanie dá cabo de mim! Agora vêm para aqui alemães, o mundo está louco! Sinceramente não sei qual é o interesse deles nisto. Bom ao fim da tarde aparecem mais dois.
- Melanie anda cá a baixo!
O Jean-Paul melhorou entretanto. Ás vezes exagera um bocadinho o rapaz. Deve sentir-se sozinho o pobrezinho. Passo os dias na pensão, não tem amigos da sua idade com quem brincar.
Mais um dia que passou, hoje nem tive tempo de ir ouvir a Fátinha. foi um dia muito cansativo, só quero ir para o meu quartinho, estender as pernas e adiantar um dos meus bordados. já não lhes ligo à muito tempo. Ora cá vamos nós ...
- Celestine nem vais acrreditarr!!
- Melanie, estou estafada não me dás um minuto de descanso! Não devias estar a trabalhar?
- Quinta-feirra sua tonta! Tenho muita coisa parra te contarr Celestine!!
- Diz lá filha.
- Aqueles senhorres que vierram hoje ... os alemães!
- Sim o que têm esses senhores Melanie?
- São espiões!!
- Pois são Melanie eu já sabia e ... O QUÊ??
- Espiões! Non é emocionante chéri??
- Emocionante?? Essa gente já viste o que fez ... a guerra ... oh meu deus! Temos de os mandar embora é perigoso!
- Non Celestine! Eles dizem que não estão aqui para causarr prroblemas ...
- Então estão aqui para quê? São os fornecedores dos Bellini?
- Non ... eles são agentres secrretos! Têm uma missão qualquerr, mas não podem contarr. Dizem que é parra o bem da vila!
- Deve ser deve. Oh Melanie deixa de ser ingénua filha! se fossem espiões achas que te iam contar?
- Clarro todos os agentes secrretos têm uma cúmplice! Un femme que os ajuda!
- Que bonito. Achas que o Silva desconfia?
- Clarro que non! Do Silva cuido eu. Agorra temos de ter cuidado com o resto.
- Eu só sei que não estou a gostar nada desta história!
A noite foi tranquila depois disso. O Jean voltou a tossir a noite toda o que fez com que a Melanie não deixa-se o quarto. Ao menos não anda de volta dos espiões. Lá fui eu para a recepção como todas as manhãs. Mas nessa manhã aperceu alguém, a sua cara era-me familiar. E muito bem acompanhada por um homem alto e espadaúdo.
- Guten Morgen!
- Menina Rosália? O que ...
- Longa história! Apresento-lhe o meu marido. Este é o Wolfgang!

Nova temporada

Dolce Piacere
Nova temporada
Passaram-se meses desde que acompanhámos as aventuras dos nossos personagens favoritos. Coentros começa a sofrer os efeitos da guerra. Espiões alemães atravessam a fronteira e encontram em Coentros o sítio perfeito para as suas patifarias. Em plena Segunda Guerra Mundial, a vila é agora o centro do conflito. Para os lados do restaurante também não se vai melhor, os Bellini ficaram sem parmesão e o papel higiénico escasseia. Será que a nossa adorada vila consegue sobreviver a tal tragédia? A nível social? Higiénico?

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Je suis Jean, le menteur...

- Mérd!
- Jean-Paul! Ou te porrtas bem ou non sei que te façô! Jean...sai debaixo da lit...SAI DE BAIXÔ DA CAMÁÁÁ!
- Mére...Je ne veux pas cette chemise...
- Ai, querres, querres... cette chemise est très belle! Vá, e tens de irr bonitô parra o casamento da Regina.
- Mérd!
- Jean-Paul! Não respondo por mim se não vestirres esta chemise agorrrra! O casamento é daqui a uma horrra!!
- J'ai faim...
- Faim? Agorra? Não comes-te o crroquette que a Celestine te deu?
- Non...
- Ai...Veste la chemise...VESTE! DEPOIS COMES O CRROQUETE!- Tive de vestir...Mérd! Mérd!Mérd! Ma mére c'est trés ennuyeux! Que maçada...Odeio mariages! Casamentos não têm piada nenhuma!
- Jean, agorra os sapatinhos...
- Non! Non! Mééérd!!!
- Empurra o pé parra dentrro...Isssoooo...Jean, estás a fazer de prroposito! Vou chamarr a dona Celestine parra te baterr com o chinélô! Celestineeeee!- A minha mére non tem coragem par me bater. Acabo por ser mais filho da Celestina do que dela...Tudo o que sei da minha mére é que trabalha num armazém a empilhar caixas de cartão, à noite. Foi a avózinha Celestina que me contou. Os meninos da rua dizem que não é esse o emprego da minha mére mas eu eu mando-os à mérd. Chegou a minha oportunidade de fugir...Ma mére non está no quarto! Salto pela janela. Olha, rompi a chemise, mérd! Non blessés! Non está ninguém na rua a non ser o...Quim? Mas ele non estava no hôpital?
- Jean...
- Mérd! Mére...Bonjour!- Levou-me pelas orelhas e lá me vesti para o mariage- Mére, J'ai vu Quim.
- Mentirroso, Jean! Quim está no hôpital!- disse enquanto forçava o meu pé a entrar no sapato.
- Non! Ele está em Coentros! J'ai vu, j'ai vu Quim!
- Sim, está bem, agora vamos parrra a igreja...Já! À minha frrrennte!- Mére quando quer ser cruel...Mérd! A igreja estava bonita e as pessoas também. Celestina estava vestida de beje com um vestido muito bonito e um chapeau de rede. Ma mére era la plus belle! Et les outras pessoas estavam também muito bem. Je parecia um principe ranhoso e betinho...Mérd...
- Gil...(abraço) Parrabéns, mon amie! Estás nerrvosô?- Perguntou ma mére. Nesse momento avistei a pia baptismal.
- Oh! Nem estou em mim senhora Melanie!- Tento escapar devagar até à pia baptismal- Já viu por aí a minha noiva? E se ela não vem? O que vou fazer? E se ela não vem!??
- Vai correr tudo bem! Ela já deve estarrr a chegarr...JEAN!- Mérd! Fui apanhado- Estás a molhar o chão todô!!! JEAN PAUL VAISS APANHARR COM O CHINELÔ!!!- Fez um eco tal na igreja que um dos vitrais se partiu. Ma mére ficou encabulada e fez aquele risinho amarelo enquanto a Celestina me batia com toda a força com a pochette que levava ao casamento. O Gil estava a suar. A igreja estava cheia e a dona Celestina mantinha-me sentado ao lado dela. Do lado do Gil estava a dona Francesca e do lado da noiva estava o Dário, com uma gravata rose e a mãe da Regina que tinha vindo da terra especialmente para o casamento da fille.
Passaram 30 minutos. O Gil fervia e a mére foi ter com ele. Consegui escapar da Celestina e fugi para o altar, onde o padre preparava a cerimónia. Sentei-me na cadeira do sacristão.
- Queres me ajudar hoje aqui no casamento, Jean? Afinal, segues a catequese...Podes te candidatar ao lugar de sacristão!
- Oui! Pode serr!
-Hoje é à experiencia! Mas tenho a certeza que és um bom menino...- Mal sabe quanto.
- Mio Dio! Gil! Ma porque estás assim, ragazzo?- Disse a dona Francesca.
- Ela não vem, dona Francesca...Tudo por causa do russo. Eu ouço dizer por aí que ela só vai casar comigo por...
- PENA!- Gritei eu do lugarzinho de sacristão.
- Está a ver, dona Francesca? Até o miúdo sabe...
- Ela vem, amor!- Disse o Dário-
se estiver inconsciente...- Adorro a sinceridade das personnes...De repente as senhoras que estavam destinadas a cantar começaram a cantar:

Ohhhhh, senhooooooor abençoai este casório!
Ohhhhh, senhooooooor retira-lhes todo o ódio!
(sobe de tom e elas começam a esganiçar um bocadinho. A noiva entra de braço dado com o senhor Guiseppe, muito devagar...muito devagar...mérd!)
Ohhhhh, senhooooooor faz propagar o amoooor!
Ohhhhh, senhooooooor retira-lhes o rancooooor!
(esganiçanso total! A noiva vai perto do altar já. Cara de enterro. Mérde de vie!)
Ohhhhh, senhooooooor chegou a hora dos laços!
Ohhhhh, senhooooooor...( pararam. Esqueceram-se da letra...Chi! Que barraque! Mérd! Repetiram)
Ohhhhh, senhooooooor chegou a hora dos laços!
Ohhhhh, senhooooooor...( as pessoas começaram a olhar umas para as outras, a noiva se estava infeliz ainda ficou mais. Eu ria tanto, tanto, preparava-me beber o vinho da taça do padre mas subitamente parei quando, completaram a música, rimando com laços... ouvi:)
- E SAEM DOIS BAGAÇOS!- As pessoas ficaram escadalizadas e eu também! E por isso mesmo disse:
- MÉRD!- ouviu-se por toda a igreja. Ninguém gostou, mas o Nico riu-se. Eu avisei...era o Quim!
- Quim?- disse o padre- Que fazes aqui? E-eu...p-porque saíste do hospital?
- Eu? Hospital?
- PODE SE SENTAR SE FAZ FAVOR? GOSTAVA DE CASAR SE NÃO FOSSE MUITO INCÓMODO!- O Gil estava furieux!
- ESPEREM!- disse o Quim- REGINA!- A noiva olhou para ele- EU...EU...EU SOU O TEU PAI!- La fille passou-se!Começou a chorar. Olhou para a mãe dela, que desmaiou no altar- padre correu a ajudar, olhou para o Gil que baixinho disse um "não...", olhou para o senhor Guiseppe, para os convidados, para o seu "pai", largou o braço do patrão, agarrou no vestido e desatou a correr desalmadamente pela igreja fora!
- Apanhem a noiva!- Gritou o senhor do talho.
- Mérd!- Gritei, obviamente, eu. O Gil sentou-se no banquinho dos noivos, levou as mãos à cara e chorou como o Nico com cólicas. Os convidados levantaram-se todos a correr. Ma mére e o Dário partiram atrás da noiva, uns foram acudir a mére da noiva et moi, bebi a correr o calice de vinho do padre, tirei os sapatos, que me apertavam os pés e desatei a correr atrás da noiva. Soltei uns quantos "mérdes" pelo caminho, para ser mais holiwoodesco...Esta gente não sabe de nada destas coisas...une misére! O resto dos convidados convidados chegamos à porta do restaurante não havia sinais da noiva fugitiva. Depois, apareceu a ma mére.
- Virrram a noiva?? Eu não a encontrrro em lado nenhum! Et moi Jean? Jean? Onde está o Jean Celestine? Meu filhô?
-Não sei Melanie...Olha, lá vem ele com o Dário.- Eu vinha de mão dado com o Dário, saímos do restaurante e ficámos a olhar para aquela gente toda.
- Então?? Onde é que ela está? Como é que ela está??- perguntaram as pessoas.
- Er...Ela não está no restaurante- disse o Dário.
- Non! Non está no restourant!- disse eu.
- Jean! Anda cá! Vais apanhaarrr com o chinelô! Mas...Têm a certeza de que ela non está aí?
- N-n-não, Melanie! Já disse que não! Ela d-deve ter ido...Por ali! Vão por ali que ela deve ter ido rumo aos caminhos de ferros para fugir!- Nisto, aparece o Gil, todo esgravatado- Olha, Gil- continuou o Dário- e tu não voltes a pressionar daquela maneira a minha menina, ouviste?
- Mas ela ia casar! O Quim é que estragou tudo! Ele é mesmo pai dela?
- Não sei nem quero saber!- Disse o Dário exaltado- Acabou-se! E se ela fugiu foi para encontrar o verdadeiro amor, 'tás a ouvir? Vai mas é pôr as mesas para o jantar que o pôr do sol já lá vai e daqui a nada a clientela chega.- Naquela noite não ouve fogo de artificio. Fui o único a bater as panelas em Coentros e a desejar a todos "MUITA MÉRD!", como desejo de boa sorte, claro, gritado à janela do meu quarto. A minha primeira chinelada foi à meia noite e um. Pela primeira vez a mére bateu-me e eu, comovido, chorei. Ela pensou que me tinha magoado e pegou-me ao colo e deu-me beijinhos. Menos mal...
- Mon amour, Jean, tu viste a Regina quando foste atrás dela com o Dário, non viste?- Fiquei sem palavras...Moi...
- N-non mére...Non...j-je ne veux pa Regina...
- Jean...Eu conheço-te...Estás a mentirrr! Onde a viste! Conta!
- Non a vi mére! Que Mérd!- E recebi outra chinelada...como a mére está a crescer a olhos vistos! Comecei a chorar de manha e ela, novamente, abraçou-me. Depois pensei no Quim...Também não tenho pai, como a Regina. Tu queres ver que mom pére pode ser o Quim também?

O primeiro beijo do ano

30 de Dezembro de 1942

Isto hoje anda para aí festa! Parece que a Regina se casa amanhã, então há para aí despedidas de tudo, solteira, solteiro, do ano velho ... eu sei lá! O certo é que esta noite Coentros vais estar animado! Eu não sei a qual delas vou, se é que vou, pois tenho de trabalhar que a vida está complicada. Talvez dê um pulinho à do Gil, se bem que a festa das moças deve estar melhor frequentada. Eu sei que está proibída a homens mas ... acho que vou arriscar!
Até tive um dia lucrativo. No final do ano sempre se ganha alguns trocos com pessoas que vêm ter com a família, outros que vão passar o ano fora e outros que vão apenas fazer as últimas compras. Foi o caso da senhora Celestina.
- Então para onde vamos minha rosa?
- Vamos para "Jaquinzinhos" senão se importa senhor Pinto!
- Ora essa! É o meu trabalho!
A dita terra nem fica muito longe, mas deve ter muitas compras a fazer e então prefere vir de taxi. É o mulher simpática a Dona Celestina, trato-a como se fosse minha mãe.
Não demorou muito, uma hora e estava despachada.
- Deixe tar que eu cuido disso! Os sacos estão muito pesados.
- Ai que cavalheiro! É uma jóia senhor Pinto, não sei como continua solteiro!
Pronto. Só faltava a conversa do "solteiro"! Mas para esta gente todos têm de se casar? Eu nunca fui do tipo que consegue acentar com uma só mulher, gosto de acentar com várias! Claro que não sou cego, sei que não sou nenhum deus mas, tenho os meus encantos. Ao longo dos anos aprendi a contornar esse facto com ... alcoól! Não a sério, o que as mulheres realmente querem é um homem carinhoso, que as trate como umas rainhas, que não reclame dos seus pedidos e que baixa a tampa da sanita. Não é assim tão complicado. E para as conquistar bastam um ou dois versos que nunca falham. Posso dizer com toda a certeza que não há uma senhora em Coentros que não me deseje e ... espera, afinal há ... aliás existem ... a Melanie e a noiva, a Regina! É uma questão que se tem de resolver antes do ano acabar. Sim é que eu andei a fazer umas apostas para ver se ganhava uns dinheiros e ... bolas vou ter de entrar naquela festa a todo o custo!
Deixei a Dona Celestina e os seus sacos. Parece que também vai à festa da Regina logo à noite. Um "até logo" bastou para a despachar. Ai Pinto, Pinto tens de caprichar hoje à noite. Segundo as regras da aposta tem de ser pelos menos um apalpão sem chapada como resposta ou melhor ainda ... um beijo.
Já são 22H00, tenho de me despachar, a festa está marcada para as 22h30. E eu sem plano nenhum, vou ter de arranjar qualquer coisa assim que lá chegar. Ao menos não tenho homens que me espanquem.
- Boa noite queridas! Eu sou ... q-quem é você?
- Dário fofo ... mas você é um homem!
- Você também!
- Bom ... se fosse a si não tinha tanta certeza. O que é que faz aqui?
- Eu vim ... a ...
- Não acredito! Como me fui esquecer ... você é ... você é o bailarino (sussurando)?
- A bail ... sim! Sou eu! Vim aqui para bailar! Bailar e bem ...
- Bom as meninas não sabem! Fui eu que o contactei para vir cá ... uma surpresa, 'tá a ver?
- Claro, claro!
- Elas estão todas lá em cima de volta da Regina. Você agora vem comigo para a cozinha!
- Fazer o quê?
- Vestir-se seu tonto! Eu disse-lhe que tinha o fato de sevilhana cá em casa!
- Sevilhana???
- Claro! É um baile de máscaras! E como você é homem tem de se vestir de mulher a príncipio e depois ... revela-se! Só pensava era que fosse mais magro. Fica com o feicho aberto não faz mal.
- E visto-me à sua frente?
- Ai que timída! Pronto, pronto já estou a ir ... também não tenho grande interesse!
Ora onde eu fui-me meter. Deixei um bilhete ao Amadeu, foi com ele que apostei, ele deve aparecer por volta das 23 h30 para assistir "sedução". Ai se o dinheiro não me desse tanto geito. Mas mais do que o dinheiro é uma questão de honra. Quem é que o fedelho pensa que é? Vou mostrar-lhe que sou o maior galã de Coentros, não há croentrinha que não queira fazer coentrada comigo!
Não quero fazer grandes comentários acerca do vestido. Não vale apena.
- Ai que lindo! Você está um máximo!! Pena o bigode, mas as espanholas também não dominam a arte da depilação. As meninas estão à nossa espera, vai ver que ninguém diz que você é um homem!
Espreitei pela porta ... o restaurante estava cheio de mulheres! Altas, magras, gordas, velhas, novas, duas geméas demasiado novas para mim. Se não estivesse tão aterrorizado isto seria o paraíso!
- Ai mulher vamos lá!
Antes de partir para o meu destino tive de localizar os alvos ... a Melanie (ai Melanie!) estava ao pé do balcão, linda e maravilhosa com um copo na mão. A Regina estava no centro. estava rodeada de gente, como era de esperar, igualmente bela. Bom cá vai disto.
- Senhoras, meninas, Pureza ... para vosso deleite a grande, maravilhosa, talentosa Pitta Suarez!
- Boa noite!
- Não te conseguimos ouvirrr querida!
- Boa noite a todas!
- A nossa querida Pitta é o meu presente para a minha querida Regina! Vai cantar uma música muito especial ... Pitta Suarez!
- M-mas ...
Tarde de mais. A Dona Francesca estava a tocar viola, todas batiam palmas e eu ...

Aiii amor, que te foste emboraaa
Aiii amor, por que fugis-te de mim
Aiii amor, não me feches a portaaa
Aiii amor ... voltaaa para mimm!

Foi o que me surgiu na altura. Acho que é do Tony Descarrila, é a música que mais passa na rádio e, eu como taxista, passo a vida ao ouvi-la. Sei que a Regina se desfez em lágrimas e subiu para o quarto. O Dário, num acto extremamente teatral levantou os braços e gritou "Porquê?" todas correram atrás da noiva. Restaram as gémeas e a Melanie. Decidi tentar a minha sorte.
- Olá coisinha linda!
- Monsier Pinto? AHAHAHAHAHAHAHA mon dieu!!!
Esqueci-me que ainda estava com o vestido. Aprecei-me para a cozinha para me trocar! Olha onde eu fui-me meter. A música era tão linda nem sei o que deu à rapariga ... aii a porcaria do vestido ... ai ... custa a sair ... ufa!
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!
Oh não! Não me digas que as gémeas me viram o piu-piu? Bolas esqueci-me de fechar a porta!
- Espere lá seu cafageste! Você tem explicações ... AHHHHH vista-se por amor de Deus!
- Desculpe ... é uma música tão linda não sei o que se passou!
- Ai estes amadores! Então não sabe que a minha amiga está num momento sensível?
- Nem me ocorreu é por causa do ...
- Homem mais lindo à face da Terra? É!
- Eu vou lá pessoalmente pedir-lhe desculpa!
E lá fui eu. Os ânimos estavam a acalmar. Pelo caminho cruzei-me com uma série de mulheres que me olhavam de lado e com ar ameaçador. Bati à porta devagarinho.
- Entre.
- Olhe desculpe incomodar é que ...
- Vá embora!!
- Deixe-me só ...
-VÁ EMBORA!
- Só queria ... (olha o Amadeu à janela) ... a pedir ...
Beijei-a! Beijei-a e fugi imediatamente sem que desse tempo para que me agredisse. O Amadeu apressou-se a descer da árvore. Corri a toda a velocidade e lançei a mão ao traseiro da Melanie.
- AHAHAHAHAHAH monsier Pinto!
- Ei espera lá aí Pinto!
- Tu viste! Passa para cá o dinheiro, a ... a (cansaço) Melanie até se riu!
- Pois mas ainda te falta uma Bellini!
- A Francesca? Essa já me fez olhinhos no taxi!
- A outra ...
- As gémeas são demasiado novas!
- Não, não A outra.
- Não Amadeu!
- Oh sim!
- Não!
- E despacha-te que faltam 5 minutos para a meia-noite!
Entrei novamente. Eu nem acredito no que estou prestes a fazer ... Deus me perdoe mas preferia atirar-me de uma ponte! Ora cá vai ... a mão em direcção ao ...
- Che mi è in bocca!
Podem perguntar ... o que ganhou com isso? Para além do título de "Pinga Amor Pinto" e do respeito e admiração da juventude ora ... nada! Mas já é suficiente! Quer dizer, também ganhei uma "namorada". Mas isso é coisa para terminar logo no primeiro dia do ano.