Se o visse na rua não o teria reconhecido. Já tinha 26 anos, um homem feito com barba e tudo. Mas olhando mais de perto tem a mesma cara de rapaz traquina e o mesmo cabelo longo e castanho. Devo ter ficado uns bons segundos a olhar para ele sem me dar conta que me tinha dirigido a palavra. Fiquei meio atrapalhada, baixei a cabeça, devo ter ficado vermelha que nem um tomate e disse-lhe qualquer coisa completamente inapropriada como “deixas-te crescer a barba” seguido de um “olá” trémulo. O João desatou aos risinhos assim como o tio Manuel. A tia lá fez sinal que o jantar já estava na mesa, que devia estar praticamente frio.
Após seis anos de separação ninguém sabia sobre o que falar primeiro. O tio Manuel fez as perguntas triviais “Então a viagem correu bem?”, “Já conheces a região?”, “Quanto tempo ficas por cá?”. Rafael foi respondendo educadamente a todas as perguntas mas reparei que de vez em quando olhava para mim. Tive a certeza que era sobre os meus pais, não conseguia era perceber se as noticias eram boas ou más. Mas logo a tia se lançou num rio de perguntas para satisfazer a sua curiosidade e das vizinhas no dia seguinte. Perguntou-lhe sobre as viagens às grandes capitais europeias, as modas estrangeiras e rapidamente se concentrou na sua vida amorosa.
- Ai mas não acredito que um homem assim não tenha para aí arranjinho! Com a tua idade já estava eu casada à uma eternidade. – dizia a tia.
- Eu não tenho tido vida para isso. Quase não paro 15 dias no mesmo sítio, as moças nem me vêem mais do uma vez. – respondeu Rafael visivelmente envergonhado.
- Tão e aqui a nossa Maria já está uma mulher! E aqui em casa ficas o tempo que quiseres! Não faças cerimónias homem! – afirmou o tio Manuel de imediato.
Agora estávamos os dois visivelmente vermelhos assim como o João que ria incontrolavelmente como todas as crianças ao ouvirem falar de beijinhos, carinhos, namoradinhos. Finalmente se mudou de assunto e finalmente o meu tio se lembrou que devia haver duas pessoas sentadas à mesa desejosas de saber de seus pais.
- Então e o meu irmão como está? – perguntou.
- Para além dos problemas da idade vai bem e lúcido. A senhora também se encontra bem de saúde e cheia de saudades da sua terra e dos filhos.
Estava claramente a limitar as informações aos meus tios, mas eu tinha esperança que mais tarde me conta-se a mim mais detalhadamente o que se passou durante estes oito anos. Ao menos senti um alivio enorme por estarem bem, há anos que vivia apenas com o conforto de não ter más noticias.
Após a refeição o tio levou o Rafael até à sua salinha privada e oferece-lhe um charuto e um lugar no seu cadeirão preferido. Pelo tossir que vinha da sala percebi que o Rafael não é um fumador regular e só aceitou o charuto por gentileza. Mas preferia estar dentro dessa sala cheia de fumo a ouvir os devaneios da minha tia.
- Não podes dizer que não é um bom homem! Até nem tem má figura rapariga! – exclamou no seu sentido de casamenteira frustrada.
- Oh tia ele mal chegou e já começa com essas conversas! Não ponha essa pressão no rapaz que ele foge daqui a sete pés e …
- Conversas? Tu é que tens de abrir os olhos! Rapaz? Ele já não é o menino que conheces-te e tens de te habituar à ideia!
- Qual ideia? – perguntei surpreendida.
- Que o homem chega nesta altura, avisando em cima da hora. Esteve fora sabe Deus quanto tempo, agora regressa assim do nada depois de uma visita a teus pais.
- Que quer dizer com isso?
- Sabes bem! O teu pai aparentemente fazia todo o gosto em que vocês se casassem, disse-o ao teu tio na carta que o Rafael nos trouxe quando para cá vieram morar.
- Mas que carta? Mas como é que me escondeu uma coisa dessas? – pergunto indignada.
- Oh filha tinham lá vocês idade para ler tal coisa! Veio destinada a nós e não tinha nenhuma referência para que vos mostrássemos a carta.
- Mas agora já sou uma mulher não é? Se eu lhe pedisse para vê-la não me ia dizer que não como a uma criança, pois não? – insisti.
Nisto o João entra pela porta dentro a gritar que não quer ir para a cama, que quer ir para a sala com os homens. A birra do costume. Mas desta vez a tia foi implacável e o João percebeu que não tinha forma de escapar com choros. Foi a arrastar os pés até à cama e a tia até lhe trancou a porta para garantir que não lhe viesse outra vez a fúria.
Fomos até ao quarto dos meus tios. Não tinha lá estado muitas vezes, não que estivesse proibida de o fazer mas a porta estava sempre encostada o que funciona como mensagem para “não há aqui nada para os teus olhos verem”. A tia abriu as portas do roupeiro e pegou numa caixinha de madeira que estava atrás dos vestidos. Tirou a chave, que estava no fio que trazia sempre ao pescoço, e abriu a caixa. Estava cheia de bugigangas que nem consegui identificar devido à escuridão e no fundo um papel meio corroído e amarelado.
- Aqui tens.
Acendeu a vela que estava em cima da cómoda e saiu deixando a porta encostada. Abri a carta devagarinho com muito cuidado para não a rasgar. A letra era pequenina e as palavras arrastavam-se dando a entender que tinha sido escrita apressadamente. Reconheci a letra do meu pai e comecei a ler, dizia:
“Querido Manuel,
Aquilo que te vou pedir não é fácil, saberás certamente que não o faria se não fosse absolutamente necessário. Sintra deixou de ser segura para a nossa família.
Parece que há muito que sabiam que estávamos naquela casa. Só rezo para que não saibam da existência das crianças e é por isso que elas não nos podem acompanhar. Peço-te que lhes dês abrigo e que os acolhas como filhos. Sabe Deus o tempo que será preciso para que possamos estar juntos de novo.
Com eles vai o Rafael, um rapaz da minha confiança. Ele acompanha-os na viagem mas também terá de deixar Portugal por tempo indefinido. O contacto connosco será feito através dele e caso aconteça alguma coisa é a ele que deves recorrer.
Eu não sei como vão ser os próximos anos e temo pelo futuro dos meus filhos. Caso por alguma razão não possa mantê-los perto de ti peço que consideres esta minha proposta. Sei que a minha filha estará segura com o Rafael e um casamento entre os dois iria deixar-me feliz e em paz. Rafael sabe deste meu desejo e quanto à Maria Luísa penso que compreenderá. A única condição é de que não devem deixar o irmão para trás.
Não tenho tempo para mais palavras.
Agradeço-te por todo o apoio e nunca esquecerei o que fizeste por mim.
David."
quinta-feira, 25 de novembro de 2010
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Estranhos delírios
Olhámos para trás e nem sinal do David.
- Epá, eu avisei, eu avisei que não era boa ideia! – disse a Lídia.
- Que menino… Bom, vamos andar para trás e vasculhar tudo! – disse o António. E fomos, como uns autênticos tótos, seguindo a iluminação do iPod do Rafael, todos em fila, como meninos da infantil.
- Assim não é fácil encontrar ninguém! – continuava a Lídia a queixar-se.
- É o que temos! – disse rapidamente o António, com toda a brutidade e secura do mundo. O Rafael era o único que não falava. Amigo do David há uns bons anos, estava visivelmente preocupado. Atrás dele, o primeiro da absurda fila, ia eu, com o meu mísero telemóvel, com a sua mísera iluminação.
- Nunca devia ter concordado com isto…que irresponsabilidade da minha parte - naquele momento, os copos de vinho pareciam nunca ter existido. O Rafael, outrora divertido, até demais, era agora o mais lúcido de todos, o mais preocupado.
- Calma, Rafael. Ele há de aparecer - falasse eu mais cedo. Lá estava o David estendido no chão. O Rafael passou-me o telefone para a mão e correu logo ao seu encontro.
- David! David! Acorda, pá! - dizia ele, dando-lhe pequenas chapadinhas. Eu estava completamente apática. Nunca na minha vida me tinha deparado com tamanha situação. O resto do pessoal estava de pé, a observar a cena, sem saber o que dizer ou fazer. O Miguel, ajoelhou-se ao lado do Rafael.
- Chamamos o 112? -disse.
- É melhor - respondi.
- Ele está a acordar, ele está a acordar! – Disse o António, apontando como uma criança para o pobre David. O David acordou, sim. Tentou levantar a cabeça dos braços do Rafael, mas logo de seguida se arrependeu.
- Fogo…a minha cabeça pesa quilos…- disse, agarrando-se a ela.
- Meu, deves ter batido com a cabeça – disse o Rafael, ajudando a sentar-se no chão, e sentando-se ao seu lado, sem qualquer tipo de problema por o chão estar enlameado- Vamos chamar uma ambulância.
- Não! – disse logo o David - eu aguento-me… epá, que coisa mais estranha. Ia atrás de vocês, de repente…só me lembro de ver uma luz muito forte, de alguém me dar com uma coisa na nuca e…não me lembro de mais nada – Após esta revelação todos ficámos calados. O Rafael olhou para o Miguel com a maior cara de caso.
- São delírios – disse logo o Rafael.
- Delírios? – perguntei . Se alguém lhe bateu e ele sentiu não é delírio nenhum!
- Oh, a vinhaça também ajudou à coisa…- disse o Gualdim.
- Epá, mas se foi algum gajo apanhamo-lo já aqui e damos-lhe já cabo do pêlo! – Predispôs-se logo o bravo António – Para onde foi o gajo? Viste?
- Não, já disse que não me lembro – disse o coitado do cavaleiro David, equilibrando-se no Miguel - mas que vi aquela luz brilhante, isso vi - Claro que eu fiquei logo com a pulga atrás da orelha. Uma luz brilhante que o encadeou em plena Quinta da Regaleira, às quatro e tal da manhã, seguida de uma pancada que o pôs inconsciente, não era um delírio, por mais bêbado que ele estivesse. E não estava. O David nem estava assim tão bêbado. O António e o Gualdim eram, na verdade, os mais afectados pelo belo néctar dos Deuses. A conversa pode ter caído em saco roto na altura, mas eu não me esqueci dela. Fomos todos para casa e no dia seguinte lá estávamos todos no fórum, à noite. Todos, menos o David.
“Guen – Então e o David? Tens notícias dele?”
“Rafael – Ah, ele está bem…”
“Guen- Mas ele foi ao hospital? Tem algum traumatismo?”
“Rafael- Não, aquela cabeça dura aguenta qualquer pancada! =P “
“Guen- Ah, então admites que sempre foi uma pancada…”
“Rafael – Não disse nada disso.”
“Guen- Disseste, sim. E sabes de alguma coisa não que não me queres contar. Tu e o Miguel, sabem, aliás.”
“Rafael – Estás doida? Sei do quê?”
“Guen – Sabes que não foi uma simples pancada. Não é de hoje que se fala em fenómenos estranhos na Quinta.”
“Rafael – E estás a pensar em quê? Que eu sei de tudo o que se passa lá.”
“Guen- Trabalhas lá…E conheces aquilo tudo. Vais me dizer que nunca sentiste nada ou viste nada?”
“Rafael- Nunca senti nem vi nada.”
“Guen- Mentiroso”.
“Rafael- Ai a menina…”
“Guen – Oh, Rafael, eu sei que sabes, eu percebi logo que sabias quando olhaste para o Miguel. Eu estudo vivo e bebo tudo o que tenha a ver com a Quinta da Regaleira, os Templários, a Maçonaria. Acaba por ser o meu trabalho, o meu objectivo de vida. E eu sei, porque também senti, que a Quinta é um espaço místico e cheio de várias energias.”
“Rafael- Agora os fantasmas dão pancada nos visitantes?”
“Guen- E eles existem?”
“Rafael - Quem sabe…a Quinta é cheia de mistérios. Mas se existirem, são mauzinhos…”
“Guen- Não necessariamente, e tu sabes que não…”
“Rafael- Sabes muita coisa sobre aquilo que sei, já vi…”
- Epá, eu avisei, eu avisei que não era boa ideia! – disse a Lídia.
- Que menino… Bom, vamos andar para trás e vasculhar tudo! – disse o António. E fomos, como uns autênticos tótos, seguindo a iluminação do iPod do Rafael, todos em fila, como meninos da infantil.
- Assim não é fácil encontrar ninguém! – continuava a Lídia a queixar-se.
- É o que temos! – disse rapidamente o António, com toda a brutidade e secura do mundo. O Rafael era o único que não falava. Amigo do David há uns bons anos, estava visivelmente preocupado. Atrás dele, o primeiro da absurda fila, ia eu, com o meu mísero telemóvel, com a sua mísera iluminação.
- Nunca devia ter concordado com isto…que irresponsabilidade da minha parte - naquele momento, os copos de vinho pareciam nunca ter existido. O Rafael, outrora divertido, até demais, era agora o mais lúcido de todos, o mais preocupado.
- Calma, Rafael. Ele há de aparecer - falasse eu mais cedo. Lá estava o David estendido no chão. O Rafael passou-me o telefone para a mão e correu logo ao seu encontro.
- David! David! Acorda, pá! - dizia ele, dando-lhe pequenas chapadinhas. Eu estava completamente apática. Nunca na minha vida me tinha deparado com tamanha situação. O resto do pessoal estava de pé, a observar a cena, sem saber o que dizer ou fazer. O Miguel, ajoelhou-se ao lado do Rafael.
- Chamamos o 112? -disse.
- É melhor - respondi.
- Ele está a acordar, ele está a acordar! – Disse o António, apontando como uma criança para o pobre David. O David acordou, sim. Tentou levantar a cabeça dos braços do Rafael, mas logo de seguida se arrependeu.
- Fogo…a minha cabeça pesa quilos…- disse, agarrando-se a ela.
- Meu, deves ter batido com a cabeça – disse o Rafael, ajudando a sentar-se no chão, e sentando-se ao seu lado, sem qualquer tipo de problema por o chão estar enlameado- Vamos chamar uma ambulância.
- Não! – disse logo o David - eu aguento-me… epá, que coisa mais estranha. Ia atrás de vocês, de repente…só me lembro de ver uma luz muito forte, de alguém me dar com uma coisa na nuca e…não me lembro de mais nada – Após esta revelação todos ficámos calados. O Rafael olhou para o Miguel com a maior cara de caso.
- São delírios – disse logo o Rafael.
- Delírios? – perguntei . Se alguém lhe bateu e ele sentiu não é delírio nenhum!
- Oh, a vinhaça também ajudou à coisa…- disse o Gualdim.
- Epá, mas se foi algum gajo apanhamo-lo já aqui e damos-lhe já cabo do pêlo! – Predispôs-se logo o bravo António – Para onde foi o gajo? Viste?
- Não, já disse que não me lembro – disse o coitado do cavaleiro David, equilibrando-se no Miguel - mas que vi aquela luz brilhante, isso vi - Claro que eu fiquei logo com a pulga atrás da orelha. Uma luz brilhante que o encadeou em plena Quinta da Regaleira, às quatro e tal da manhã, seguida de uma pancada que o pôs inconsciente, não era um delírio, por mais bêbado que ele estivesse. E não estava. O David nem estava assim tão bêbado. O António e o Gualdim eram, na verdade, os mais afectados pelo belo néctar dos Deuses. A conversa pode ter caído em saco roto na altura, mas eu não me esqueci dela. Fomos todos para casa e no dia seguinte lá estávamos todos no fórum, à noite. Todos, menos o David.
“Guen – Então e o David? Tens notícias dele?”
“Rafael – Ah, ele está bem…”
“Guen- Mas ele foi ao hospital? Tem algum traumatismo?”
“Rafael- Não, aquela cabeça dura aguenta qualquer pancada! =P “
“Guen- Ah, então admites que sempre foi uma pancada…”
“Rafael – Não disse nada disso.”
“Guen- Disseste, sim. E sabes de alguma coisa não que não me queres contar. Tu e o Miguel, sabem, aliás.”
“Rafael – Estás doida? Sei do quê?”
“Guen – Sabes que não foi uma simples pancada. Não é de hoje que se fala em fenómenos estranhos na Quinta.”
“Rafael – E estás a pensar em quê? Que eu sei de tudo o que se passa lá.”
“Guen- Trabalhas lá…E conheces aquilo tudo. Vais me dizer que nunca sentiste nada ou viste nada?”
“Rafael- Nunca senti nem vi nada.”
“Guen- Mentiroso”.
“Rafael- Ai a menina…”
“Guen – Oh, Rafael, eu sei que sabes, eu percebi logo que sabias quando olhaste para o Miguel. Eu estudo vivo e bebo tudo o que tenha a ver com a Quinta da Regaleira, os Templários, a Maçonaria. Acaba por ser o meu trabalho, o meu objectivo de vida. E eu sei, porque também senti, que a Quinta é um espaço místico e cheio de várias energias.”
“Rafael- Agora os fantasmas dão pancada nos visitantes?”
“Guen- E eles existem?”
“Rafael - Quem sabe…a Quinta é cheia de mistérios. Mas se existirem, são mauzinhos…”
“Guen- Não necessariamente, e tu sabes que não…”
“Rafael- Sabes muita coisa sobre aquilo que sei, já vi…”
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Opera, Fronteira Italiana 1159
O horizonte rompeu com um tom violeta misturando-se com o azul escuro do manto celestial.
Acordei às 8 horas da manhã, ou algo parecido, para me preparar e ter a certeza de que não me esquecia de nada. Ainda tudo dormia quando fui para a casa de banho em biquinhos de pés. Esta não era mais do que um grande alguidar de latão onde despojava a água aquecida na grande lareira. Despi-me e deixei-me mergulhar na agua quentinha, bem quente. Tão bom, calmo e relaxaste, nua envolta naquela água transparente e ondulante, enquanto o sol entrava pela janela já no seu tom alaranjado e tocava-me na cara e braços descobertos. Há já algum tempo que não me sentia assim tão limpinha e aconchegada.
Um relinchar rompeu com a minha paz de alma, lá fora. Levantei-me a pingar e coloquei a toalha castanha à minha frente enquanto me encaminhei para a janela fechada. Através do meu reflexo vi o Miguel já a preparar o cavalo com as malas abastecidas de comida, água e algumas roupas emprestadas permanentemente. A ele juntou-se o Gualdim e o David com as respectivas montadas e mantimentos. - Bom dia David! Ontem deves ter enchido bem a goela han? - disse Antonio seguindo David e Gualdim.
- Por acaso não me posso queixar, mas porque dizes isso?
- Porque roncaste de uma maneira que ias deitando o telhado da tabela abaixo! - riu António.
- De facto, a minha sorte foi estar igualmente refastelado e dormir que nem uma pedra! - gozou Miguel.
- Desculpa? Eu acordei às tantas da manhã e não te vi na cama..por isso não deves ter sido uma pedra durante muito tempo.. - Respondeu David.
- Verdade sim senhor… Bem vou ver do Rafael…que ainda deve estar enrolado nos lençóis! - disse Miguel encaminhando-se para a capela.
Assim que entrou na capela deparou-se com Rafael com o seu casaco preto comprido de cruz vermelha ao peito.
- Então rapaz andas perdido?
- Bon journo para ti também Miguel…estou cansado..deitei-me tarde..
- Que eu saiba deitaste-te à mesma hora do que eu.
- Ah pois foi…passei foi a noite em branco..achas que ela se lembra de alguma coisa?
- Duvido muito, deve ter pensado ser um sonho ou então não se lembrar de todo. - Calculou Miguel ajeitando as vestes de Rafael, que se encontravam mais enroladas do que os seus caracóis. - Epá estás cá com um aspecto hoje, vai tratar desse cabelo que esta num perfeito desalinho e aproveita e corta a barba, tens navalha?
- Sempre - Disse Rafael desembainhando a navalha pormenorizada num ápice, vendo o seu olhar reflectido na lamina.
- Óptimo, então vai tratar disso, eu vou ver do Angelus e prepara-lo para a Liena.
- Ah pois porque a excelência não pode acordar mais cedo para tratar do próprio cavalo como todos nós.
- Faz de durão à vontade, estás a esquecer-te de uma coisa apenas, ela não está aqui, logo podes poupar-me dessa personagem que eu sei muito bem como és.
- Trata da tua vida enquanto aqui estamos e eu olho pela minha, Miguel Ângelo.
Posto isto, subiu as escadas saltando dois degraus de cada vez. Ao passar pelo quarto de Liena viu que a porta estava entre-aberta e que a única coisa que o ângulo de visão dava para ver era um embrulho azul. De olhos postos no objecto ia abrir a porta do quarto quando se apercebeu que Liena poderia estar imprópria e seria um grande constrangimento para os dois. Recuou e voltou ao caminho pensando no que poderia ter acontecido, fazendo o filme todo na sua cabeça e sentindo subitamente as bochechas a fervilhar. O David matava-me com as próprias mãos, pensou. Finalmente no ultimo piso abriu repentinamente a porta da casa de banho.
- AH!! - Gritei horrorizada ao vê-lo entrar daquela maneira pela casa de banho a dentro estando eu apenas com uma toalha à frente.
- Desculpa!!! Desculpa por favor…eu devia ter batido primeiro…mas…eu pensei que estivesses…no quarto - Explicou-se voltado para a porta. Tinha a sua piada, acabara por acontecer tudo o que pensara que tinha evitado.
- Pois…calculo que sim. Eu também já estou aqui há algum tempo já deveria estar despachada - Falei com um dicção surpreendentemente calma para a situação. Possivelmente era de ainda nem estar em mim. Enrolei-me o melhor que pude na toalha para ir para o meu quarto rapidamente.
- Rafael…
- Sim?
- NÃO OLHES!
- Desculpa!
- É que estás à frente da porta e assim não consigo sair.
- Ah está bem - Recuou nos passos sem olhar para trás.
- CUIDADO!
Rafael na banheira. Desmanchei-me num completo riso a observar a situação, foi lindo maravilhoso, que maneira diferente de começar o dia.
- Realmente Deus escreve direito por linhas tortas, assim estás mais limpinho e cheiroso. Além disso assim arrefeceste-te um pouco, parecias-me meio vermelho. - Em risos falei e em risos fui embora para o meu quarto. Era como se os papeis se tivessem invertido e agora era eu a deixar o mulherengo pendurado. A euforia percorria-me o estômago só de pensar no sucedido.
O pobre Rafael, todo vestido enfiado de rabo na banheira estava agora a amaldiçoar (ou a bendizer) a sua sorte.
- Deus…que irónico… - disse para si mesmo.
Despachei-me o mais depressa que pude, o que foi algum tempo visto a quantidade de coisas que tinha de manter em segurança, o dinheiro, mantimentos, os pergaminhos, o embrulho. Em Tomar, pensei, em Tomar saberei o teu significado.
Finalmente cheguei junto do grupo que estava já pronto a partir.
- Desculpem o atraso
- Ah mulheres, já sabemos com lidar com esse mal - brincou António.
Montei o meu lindo Angelus com Pedro do meu lado e Gualdim do outro. Rafael ia à frente com Miguel, logo atrás de meu pai. Já tinha voltado tudo ao normal, a excelência olhou-me de nariz empinado e riso torto e eu percebi que já tinha voltado ao galã de sempre. Fim do meu império.
- Bem meus meninos! E menina. Depois de passarmos o rio estaremos em terras Gaulesas. Lá encontraremos tantos aleados como inimigos e tanto quando sei, Sua Alteza o Sumo Pontifice encontra-se actualmente no país e ele não encara com muito bons olhos a nossa Razão. - Introduziu David.
- É o que faz os valores monetário e de puder falarem mais alto do que a salvação do Espírito… - retorquiu Miguel.
- Infelizmente é verdade. Mas em breve estaremos em Portugal e assim que isso acontecer a nossa causa será conhecida e a Verdade espalhada. E muitos segredos farão sentido para muita gente. Alcançaremos grande glória!! E inevitavelmente perdas de grande sofrimento..
Esta última frase foi dita de tal forma que mal se percebeu, mas a expressão do meu pai falou por si.
- Itália fica para tras!
- Dal nostro spirito va con voi! - Interrompeu o Padre Romeu, acenando da porta.
Sorrimos-lhe em troca.
Cavalos em duas patas e cavalga-mos uma vez mais, agora, pela água.
- Andium Angelus, tottu vitta staret bon...
Acordei às 8 horas da manhã, ou algo parecido, para me preparar e ter a certeza de que não me esquecia de nada. Ainda tudo dormia quando fui para a casa de banho em biquinhos de pés. Esta não era mais do que um grande alguidar de latão onde despojava a água aquecida na grande lareira. Despi-me e deixei-me mergulhar na agua quentinha, bem quente. Tão bom, calmo e relaxaste, nua envolta naquela água transparente e ondulante, enquanto o sol entrava pela janela já no seu tom alaranjado e tocava-me na cara e braços descobertos. Há já algum tempo que não me sentia assim tão limpinha e aconchegada.
Um relinchar rompeu com a minha paz de alma, lá fora. Levantei-me a pingar e coloquei a toalha castanha à minha frente enquanto me encaminhei para a janela fechada. Através do meu reflexo vi o Miguel já a preparar o cavalo com as malas abastecidas de comida, água e algumas roupas emprestadas permanentemente. A ele juntou-se o Gualdim e o David com as respectivas montadas e mantimentos. - Bom dia David! Ontem deves ter enchido bem a goela han? - disse Antonio seguindo David e Gualdim.
- Por acaso não me posso queixar, mas porque dizes isso?
- Porque roncaste de uma maneira que ias deitando o telhado da tabela abaixo! - riu António.
- De facto, a minha sorte foi estar igualmente refastelado e dormir que nem uma pedra! - gozou Miguel.
- Desculpa? Eu acordei às tantas da manhã e não te vi na cama..por isso não deves ter sido uma pedra durante muito tempo.. - Respondeu David.
- Verdade sim senhor… Bem vou ver do Rafael…que ainda deve estar enrolado nos lençóis! - disse Miguel encaminhando-se para a capela.
Assim que entrou na capela deparou-se com Rafael com o seu casaco preto comprido de cruz vermelha ao peito.
- Então rapaz andas perdido?
- Bon journo para ti também Miguel…estou cansado..deitei-me tarde..
- Que eu saiba deitaste-te à mesma hora do que eu.
- Ah pois foi…passei foi a noite em branco..achas que ela se lembra de alguma coisa?
- Duvido muito, deve ter pensado ser um sonho ou então não se lembrar de todo. - Calculou Miguel ajeitando as vestes de Rafael, que se encontravam mais enroladas do que os seus caracóis. - Epá estás cá com um aspecto hoje, vai tratar desse cabelo que esta num perfeito desalinho e aproveita e corta a barba, tens navalha?
- Sempre - Disse Rafael desembainhando a navalha pormenorizada num ápice, vendo o seu olhar reflectido na lamina.
- Óptimo, então vai tratar disso, eu vou ver do Angelus e prepara-lo para a Liena.
- Ah pois porque a excelência não pode acordar mais cedo para tratar do próprio cavalo como todos nós.
- Faz de durão à vontade, estás a esquecer-te de uma coisa apenas, ela não está aqui, logo podes poupar-me dessa personagem que eu sei muito bem como és.
- Trata da tua vida enquanto aqui estamos e eu olho pela minha, Miguel Ângelo.
Posto isto, subiu as escadas saltando dois degraus de cada vez. Ao passar pelo quarto de Liena viu que a porta estava entre-aberta e que a única coisa que o ângulo de visão dava para ver era um embrulho azul. De olhos postos no objecto ia abrir a porta do quarto quando se apercebeu que Liena poderia estar imprópria e seria um grande constrangimento para os dois. Recuou e voltou ao caminho pensando no que poderia ter acontecido, fazendo o filme todo na sua cabeça e sentindo subitamente as bochechas a fervilhar. O David matava-me com as próprias mãos, pensou. Finalmente no ultimo piso abriu repentinamente a porta da casa de banho.
- AH!! - Gritei horrorizada ao vê-lo entrar daquela maneira pela casa de banho a dentro estando eu apenas com uma toalha à frente.
- Desculpa!!! Desculpa por favor…eu devia ter batido primeiro…mas…eu pensei que estivesses…no quarto - Explicou-se voltado para a porta. Tinha a sua piada, acabara por acontecer tudo o que pensara que tinha evitado.
- Pois…calculo que sim. Eu também já estou aqui há algum tempo já deveria estar despachada - Falei com um dicção surpreendentemente calma para a situação. Possivelmente era de ainda nem estar em mim. Enrolei-me o melhor que pude na toalha para ir para o meu quarto rapidamente.
- Rafael…
- Sim?
- NÃO OLHES!
- Desculpa!
- É que estás à frente da porta e assim não consigo sair.
- Ah está bem - Recuou nos passos sem olhar para trás.
- CUIDADO!
Rafael na banheira. Desmanchei-me num completo riso a observar a situação, foi lindo maravilhoso, que maneira diferente de começar o dia.
- Realmente Deus escreve direito por linhas tortas, assim estás mais limpinho e cheiroso. Além disso assim arrefeceste-te um pouco, parecias-me meio vermelho. - Em risos falei e em risos fui embora para o meu quarto. Era como se os papeis se tivessem invertido e agora era eu a deixar o mulherengo pendurado. A euforia percorria-me o estômago só de pensar no sucedido.
O pobre Rafael, todo vestido enfiado de rabo na banheira estava agora a amaldiçoar (ou a bendizer) a sua sorte.
- Deus…que irónico… - disse para si mesmo.
Despachei-me o mais depressa que pude, o que foi algum tempo visto a quantidade de coisas que tinha de manter em segurança, o dinheiro, mantimentos, os pergaminhos, o embrulho. Em Tomar, pensei, em Tomar saberei o teu significado.
Finalmente cheguei junto do grupo que estava já pronto a partir.
- Desculpem o atraso
- Ah mulheres, já sabemos com lidar com esse mal - brincou António.
Montei o meu lindo Angelus com Pedro do meu lado e Gualdim do outro. Rafael ia à frente com Miguel, logo atrás de meu pai. Já tinha voltado tudo ao normal, a excelência olhou-me de nariz empinado e riso torto e eu percebi que já tinha voltado ao galã de sempre. Fim do meu império.
- Bem meus meninos! E menina. Depois de passarmos o rio estaremos em terras Gaulesas. Lá encontraremos tantos aleados como inimigos e tanto quando sei, Sua Alteza o Sumo Pontifice encontra-se actualmente no país e ele não encara com muito bons olhos a nossa Razão. - Introduziu David.
- É o que faz os valores monetário e de puder falarem mais alto do que a salvação do Espírito… - retorquiu Miguel.
- Infelizmente é verdade. Mas em breve estaremos em Portugal e assim que isso acontecer a nossa causa será conhecida e a Verdade espalhada. E muitos segredos farão sentido para muita gente. Alcançaremos grande glória!! E inevitavelmente perdas de grande sofrimento..
Esta última frase foi dita de tal forma que mal se percebeu, mas a expressão do meu pai falou por si.
- Itália fica para tras!
- Dal nostro spirito va con voi! - Interrompeu o Padre Romeu, acenando da porta.
Sorrimos-lhe em troca.
Cavalos em duas patas e cavalga-mos uma vez mais, agora, pela água.
- Andium Angelus, tottu vitta staret bon...
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
1895, Tomar
Estava um dia quente, tão quente que para além do chapéu tive de levar uma sombrinha para sair à rua. Mal abri a porta senti o ar abafado e tive de voltar para trás e passar um pouco de água no pescoço. O João correu logo atrás de mim quando saí pela porta e implorou para ir comigo, estava farto de aturar o tio Manuel e as suas alterações repentinas de humor. Concordei que ele ficasse a brincar com os outros miúdos ao pé do rio, mas não o queria sempre agarrado às minhas saias a pedir-me para lhe comprar tudo o que estava no mercado e fazer as maiores birras quando não lhe fazia as vontades. De qualquer forma ele já é crescidinho, mas mesmo com os seus 8 anos continua um bebé mimado. A minha tia tem grande parte da culpa, fez de tudo para que a ausência de mãe lhe passa-se despercebida enchendo-o de inutilidades e educando-o de uma forma que tenho a certeza desagradaria a meu pai.
Desde aquele dia, à oito anos atrás, que não temos qualquer notícia do pai, da mãe, da Antónia. O tio Manuel diz sempre que é bom sinal, que as noticias más sabem-se logo e que o mais provável é que tenham saído do país para acalmar os ânimos. Já sou crescidinha e compreendo que por mais que os queira ver prefiro que estejam seguros mesmo que longe de nós. Apesar da separação e da forma como tudo aconteceu, tenho de admitir que a nossa vida melhorou. O simples facto de puder hoje sair à rua sem qualquer impedimento e a sensação de liberdade que me trouxe conforta-me. E nesta casa sentimo-nos seguros, o tio Manuel e a tia Alice sempre nos ajudaram e nunca nos sentimos estranhos numa casa que não é a nossa. A casa é mais pequena e estamos numa rua, rodeados por outros vizinhos e onde não parece haver silêncio o dia todo. Para alguém que não conheceu mais de seis ou sete pessoas até aos 12 anos, tanta gente só provoca uma confusão de rostos e nomes, mas vou-me habituando. O meu próprio nome foi uma dor de cabeça no inicio. Os meus tios acharam que utilizar Guinevere numa comunidade tão pequena só iria levantar suspeitas e nada como o nome Maria, tão comum entre a população, para passar despercebida. De Maria Francisca para Guinevere, de Maria Francisca para só Maria.
O tio tem uma loja de flores em baixo da casa. É pequenina e nem temos muitos clientes mas é uma forma de o tio ocupar o seu tempo. As flores vamos buscá-las ao pátio interior da casa e outras vezes ao campo. Eu vou muitas vezes com a Lídia logo de manhãzinha colher as flores e andar descalça ao pé do rio. A Lídia é a minha melhor amiga, mora na casa ao lado dos tios e é um pouco mais nova que eu. Foi a primeira pessoa que realmente me acolheu quando chegámos a Tomar, numa altura em que os meus tios ainda não sabiam muito bem como lidar com duas crianças em casa.
-
Já devem ser quase 9 horas e o mercado está a fervilhar de gente. Mal consigo andar entre as bancas e com muito dificuldade me consigo fazer ouvir aos comerciantes. Comprei laranjas, limões e um raminho de hortelã que levava ao nariz de vez em quando. Fazia-me lembrar os dias em Sintra com a Antónia na cozinha e eu sentada à porta a ler.
Fui buscar o João perto do rio e para meu espanto estava coberto de lama, da cabeça aos pés! Nunca pensei que um menino tão medroso, que não dá dois passos sem estar agarrado à saia da tia Alice, fosse fazer tamanho disparate. Peguei-lhe na mão com força, fiz questão de o magoar, para perceber que eu não vivo para lhe andar a emendar as asneiras e que tem idade para perceber o que deve ou não deve fazer. Entrámos pelas traseiras, eu não queria que o meu tio o visse naquele estado, e conduzi-o de imediato ao quarto-de-banho onde lhe dei uma esfrega capaz de lhe arrancar a pele.
- Agora vais te vestir rapidamente e sem reclamar! Desces em 5 minutos e não quero ouvir um pio nem uma queixa à tia ou ao tio! – ameacei.
Estava à beira das lágrimas, eu própria estava demasiado nervosa e tive de me sentar. Exagerei, agora consigo perceber isso. E isto tudo simplesmente porque o Rafael vai voltar. Muito me custa admitir mas a ideia de o rever faz-me tremer de cima a baixo. Depois de termos deixado Sintra e até chegarmos a Tomar o Rafael mostrou-se muito atencioso. Finalmente percebi porque é que o meu pai confiava nele ao ponto de o encarregar de levar os seus filhos para tão longe dele. Assim que cumpriu o seu dever partiu e já lá vão oito anos que não o vejo. Não sei o que sentir, estou confusa com este nervosismo mas acho que se resume a reencontrar alguém que fazia parte do meu passado que já vai tão distante.
Desci até à loja onde encontrei o tio adormecido, pendendo da cadeira quase a tocar no chão. A loja estava vazia, nos dias de mercado não tínhamos quase clientes e fechámos assim que chegava o meio dia. Depois de uma tentativa frustrada de acordar o tio Manuel fechei a porta da loja e recolhi os vasos que sobravam. Espalhei-os por todos os cantos da casa, rosas brancas, cravos vermelhos e margaridas amarelas a que juntei fitas de seda e folhinhas de alfazema. Depois voltei ao meu quarto e sentei-me em frente ao espelho para me preparar, já não faltava muito tempo e eu ainda tinha o cabelo num desalinho. Fiz uma trança que terminei com um laço azul e desci pouco depois de ter ouvido bater à porta.
Desde aquele dia, à oito anos atrás, que não temos qualquer notícia do pai, da mãe, da Antónia. O tio Manuel diz sempre que é bom sinal, que as noticias más sabem-se logo e que o mais provável é que tenham saído do país para acalmar os ânimos. Já sou crescidinha e compreendo que por mais que os queira ver prefiro que estejam seguros mesmo que longe de nós. Apesar da separação e da forma como tudo aconteceu, tenho de admitir que a nossa vida melhorou. O simples facto de puder hoje sair à rua sem qualquer impedimento e a sensação de liberdade que me trouxe conforta-me. E nesta casa sentimo-nos seguros, o tio Manuel e a tia Alice sempre nos ajudaram e nunca nos sentimos estranhos numa casa que não é a nossa. A casa é mais pequena e estamos numa rua, rodeados por outros vizinhos e onde não parece haver silêncio o dia todo. Para alguém que não conheceu mais de seis ou sete pessoas até aos 12 anos, tanta gente só provoca uma confusão de rostos e nomes, mas vou-me habituando. O meu próprio nome foi uma dor de cabeça no inicio. Os meus tios acharam que utilizar Guinevere numa comunidade tão pequena só iria levantar suspeitas e nada como o nome Maria, tão comum entre a população, para passar despercebida. De Maria Francisca para Guinevere, de Maria Francisca para só Maria.
O tio tem uma loja de flores em baixo da casa. É pequenina e nem temos muitos clientes mas é uma forma de o tio ocupar o seu tempo. As flores vamos buscá-las ao pátio interior da casa e outras vezes ao campo. Eu vou muitas vezes com a Lídia logo de manhãzinha colher as flores e andar descalça ao pé do rio. A Lídia é a minha melhor amiga, mora na casa ao lado dos tios e é um pouco mais nova que eu. Foi a primeira pessoa que realmente me acolheu quando chegámos a Tomar, numa altura em que os meus tios ainda não sabiam muito bem como lidar com duas crianças em casa.
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Já devem ser quase 9 horas e o mercado está a fervilhar de gente. Mal consigo andar entre as bancas e com muito dificuldade me consigo fazer ouvir aos comerciantes. Comprei laranjas, limões e um raminho de hortelã que levava ao nariz de vez em quando. Fazia-me lembrar os dias em Sintra com a Antónia na cozinha e eu sentada à porta a ler.
Fui buscar o João perto do rio e para meu espanto estava coberto de lama, da cabeça aos pés! Nunca pensei que um menino tão medroso, que não dá dois passos sem estar agarrado à saia da tia Alice, fosse fazer tamanho disparate. Peguei-lhe na mão com força, fiz questão de o magoar, para perceber que eu não vivo para lhe andar a emendar as asneiras e que tem idade para perceber o que deve ou não deve fazer. Entrámos pelas traseiras, eu não queria que o meu tio o visse naquele estado, e conduzi-o de imediato ao quarto-de-banho onde lhe dei uma esfrega capaz de lhe arrancar a pele.
- Agora vais te vestir rapidamente e sem reclamar! Desces em 5 minutos e não quero ouvir um pio nem uma queixa à tia ou ao tio! – ameacei.
Estava à beira das lágrimas, eu própria estava demasiado nervosa e tive de me sentar. Exagerei, agora consigo perceber isso. E isto tudo simplesmente porque o Rafael vai voltar. Muito me custa admitir mas a ideia de o rever faz-me tremer de cima a baixo. Depois de termos deixado Sintra e até chegarmos a Tomar o Rafael mostrou-se muito atencioso. Finalmente percebi porque é que o meu pai confiava nele ao ponto de o encarregar de levar os seus filhos para tão longe dele. Assim que cumpriu o seu dever partiu e já lá vão oito anos que não o vejo. Não sei o que sentir, estou confusa com este nervosismo mas acho que se resume a reencontrar alguém que fazia parte do meu passado que já vai tão distante.
Desci até à loja onde encontrei o tio adormecido, pendendo da cadeira quase a tocar no chão. A loja estava vazia, nos dias de mercado não tínhamos quase clientes e fechámos assim que chegava o meio dia. Depois de uma tentativa frustrada de acordar o tio Manuel fechei a porta da loja e recolhi os vasos que sobravam. Espalhei-os por todos os cantos da casa, rosas brancas, cravos vermelhos e margaridas amarelas a que juntei fitas de seda e folhinhas de alfazema. Depois voltei ao meu quarto e sentei-me em frente ao espelho para me preparar, já não faltava muito tempo e eu ainda tinha o cabelo num desalinho. Fiz uma trança que terminei com um laço azul e desci pouco depois de ter ouvido bater à porta.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
Conversas à mesa
A conversa estava muito animada. Nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Aquelas pessoas gostavam das mesmas coisas que eu, liam os mesmos livros, falavam sobre as mesmas coisas. Numa mesa enorme não se fizeram grupos. Todos falámos, todos completos desconhecidos que de um momento para o outro se tornaram os melhores amigos. A Lidia, apaixonada pela lenda da Arca da Aliança, contava sonhos que tiveram onde a arca, que é descrita na Bíblia como o objecto em que as tábuas dos Dez Mandamentos teriam sido guardadas, e que os templários guardavam, estava escondida perto da sua rua. David, um outro “cavaleiro” da nossa ordem, confessava a ligação dos seus antepassados à Maçonaria, não conseguindo ocultar o seu interesse e, quem sabe, também o seu envolvimento. O Rafael, o mais presente em todas as conversas, falava do seu fascínio pela busca incessante do Santo Graal. Um cálice? Um pano? Uma mulher? O filho de Jesus? Uma terna dúvida…Todos eles diferentes pessoas, historiadores e dentistas, sapateiros e costureiras, professores e tatuadores. Todos gente tão diferente mas com uma paixão comum. A conversa, regada com um bom vinho tinto fazia as delicias partilhadas por um peru com castanhas bem servido numa travessa de prata, rodeada de batatas assadas. Quem diz o peru diz o pernil de javali, a bela terrina de sopa e os mais variados pratos espalhados pela mesa. “Meus ricos euros, que lindos!”-pensei. Conversa puxa conversa, brinde a brinde a noite foi-se passando. Eram quase três da manhã e nós todos ainda à mesa, como amigos de longa data. Descobri tanta coisa para além de um “nickname”. A Lídia era psicóloga e taróloga, nas horas vagas. O Rafael, claro está, actor. O “Gualdim”, cujo nome verdadeiro é Gil, trabalha num observatório estrelar, algo que nem imaginava que existia. O Miguel, amigo mais chegado ao Rafael, para além de também ser actor, surpreendam-se, estava a estudar para padre! Um padre entre nós, um padre que se meteu naquilo que eu pensei que seria maluquice minha, o site-fórum, e que agora se revelou um sucesso! O David, outro tão querido amigo do Rafael, é arquitecto e apaixonado pela Quinta da Regaleira e as suas passagens secretas, o António, gestor industrial, quem diria, viciado em armas brancas, coleccionador nato! Depois de várias pessoas se terem ido embora, acabámos por ficar com este rol de fascinados, que, uns já mais “alegres” que outro, continuavam a falar. A noite foi fechada com o tema “Templários e Portugal”. Todos acreditamos que Portugal pode ser a “Porta do Graal” e todos sabemos que é bem possível que debaixo do nosso nariz esteja aquele que é o tesouro mais procurado de todos os tempos. Os templários entraram em Portugal por volta de 1126 e fixaram-se em Penafiel. Dona Teresa, a querida mãe do nosso primeiro rei, doou gentilmente à Ordem a povoação anteriormente chamada de Fonte Arcada, em Penafiel. Um ano depois, instalaram-se no Castelo de Soure, sob a promessa de ajudarem na conquista das terras aos mouros, que avançavam sem piedade. Após a conquista de Santarém, D. Afonso Henriques, em gesto de agradecimento, ofereceu o território entre o Mondego e o Tejo, a montante da localidade. Só mais tarde, por volta de 1160, é que a Ordem dos Templários ficou sediada na minha querida cidade de Tomar. No entanto, nem sempre a igreja foi pacífica em relação a esta organização. O Papa Clemente V abre um processo contra os Templários, através da bula Regnans in coelis e os monarcas da Península Ibérica partem para a batalha contra a Ordem, sendo decretada prisão de todos os envolvidos em 1310. Como cavaleiros bravos que sempre foram continuaram a servir o seu propósito. Passados cerca de 9 anos após ter sido iniciada a perseguição aos Templários, o Papa João XXII instituiu a Ordo Militiae Jesu Christi, uma Ordem dos Templários, mascarada, se assim quisermos, que, após uma breve passagem pelo Algarve, se sediou também em Tomar. A Ordem de Cristo, estava agora oficialmente em Tomar. A entrada dos Templários em Portugal deve-se particularmente ao rei poeta, D.Dinis, que, segundo se diz, permitiu que Portugal servisse de abrigo à Ordem, vinda de, antigamente, terras longínquas. Hoje a passagem dos cavaleiros é visível. Em vários pontos do país há monumentos a eles associados, as cruzes que adejavam nas velas das caravelas portuguesas, do tão famoso navio - escola “Sagres”. Hoje os aviões e helicópteros da Força Aérea Portuguesa têm a cruz templária; e as camisolas da Selecção Nacional?
-A presença deles está por todo o lado! – Concluiu o Rafael, após ter falado tudo o que sabia a respeito da presença dos cavaleiros em Portugal.
- Portugal não pode ser apenas aquele “cantinho a beira mar plantado”, não com tanta história que tem entre as suas entranhas - disse o Gualdim.
- Só este sítio tem uma vibração diferente, as energias são diferentes, são poderosas- disse a Lídia, revelando a sua sensibilidade.
- Para não falar das excelentes infra-estruturas, passagens secretas, recantos escondidos, lagos submersos, que esta quinta tem! – Revelou o David, dando o último gole de vinho. Estava espantada com tudo isto. Maravilhada com as pessoas. Deslumbrada com o brilho que cada palavra tinha ao sair das suas bocas. Eram as pessoas certas, os companheiros ideais para iniciar não só uma bela amizade com uma pesquisa muito mais aprofundada do mundo dos Templários. E falando em iniciar…
- Acho que devíamos proceder a um ritual iniciático - disse o António, com já uns copos a mais.
- Ai, ai…- respondeu a Lídia – vamos para casa…Não te ponhas com avarias.
- Eh! Qual quê? Avarias? Íamos para o poço, tal qual maçónicos! – Eu e a Lídia, ao que parece as únicas cabeças pensantes da altura, não estávamos a concordar…
- Oh, mas agora? Porque não amanhã? – acrescentei.
- Agora, na verdade, está escuro…mas eu posso ir lá com vocês! Eu e o Miguel conhecemos os cantos à casa! – E o Miguel, que deveria ser o mais atinado, foi o primeiro a levantar-se e a dizer: - Vamos lá a isto! Somos uma Ordem ou não somos? – bêbados e desajeitados lá foram. O Rafael, em vez de ir à frente ia atrás, comigo e com a Lídia, enquanto os outros, o Gualdim, o Miguel, o António e o David, iam à frente, a rir.
- Está cá um briol…- disse a Lídia.
- Toma- disse o Rafael, tirando o casaco- já estou habituado a este clima, a este frio…- Ela ficou toda sensibilizada…
- Oh…Rafael…Muito obrigada ! – E desfizeram-se em sorrisos. “Então??”, pensei eu. Uma reacção estranha da minha parte. Disse estranha? Sim…talvez seja essa a ideia.
- Epaaaa!- dizia o Gualdim- estou meio tonto.
- Acho melhor voltarmos para o restaurante, Rafael – sugeri.
-Está com medo dos fantasmas da quinta é, lady Guinevere?
- Engraçadinho…não acredito nessas coisas. Teria todo o gosto em fazer um ritual de iniciação desse género, era giro e tal! Mas às 4h da manhã, sem luz, na Quinta da Regaleira, com frio desgraçado….
-As luzes providenciamos nós!
- Rafael, a sério, não estou a gostar nada disto…
- Ei!?- disse o Gualdim – falta aqui o David! David? David??
-A presença deles está por todo o lado! – Concluiu o Rafael, após ter falado tudo o que sabia a respeito da presença dos cavaleiros em Portugal.
- Portugal não pode ser apenas aquele “cantinho a beira mar plantado”, não com tanta história que tem entre as suas entranhas - disse o Gualdim.
- Só este sítio tem uma vibração diferente, as energias são diferentes, são poderosas- disse a Lídia, revelando a sua sensibilidade.
- Para não falar das excelentes infra-estruturas, passagens secretas, recantos escondidos, lagos submersos, que esta quinta tem! – Revelou o David, dando o último gole de vinho. Estava espantada com tudo isto. Maravilhada com as pessoas. Deslumbrada com o brilho que cada palavra tinha ao sair das suas bocas. Eram as pessoas certas, os companheiros ideais para iniciar não só uma bela amizade com uma pesquisa muito mais aprofundada do mundo dos Templários. E falando em iniciar…
- Acho que devíamos proceder a um ritual iniciático - disse o António, com já uns copos a mais.
- Ai, ai…- respondeu a Lídia – vamos para casa…Não te ponhas com avarias.
- Eh! Qual quê? Avarias? Íamos para o poço, tal qual maçónicos! – Eu e a Lídia, ao que parece as únicas cabeças pensantes da altura, não estávamos a concordar…
- Oh, mas agora? Porque não amanhã? – acrescentei.
- Agora, na verdade, está escuro…mas eu posso ir lá com vocês! Eu e o Miguel conhecemos os cantos à casa! – E o Miguel, que deveria ser o mais atinado, foi o primeiro a levantar-se e a dizer: - Vamos lá a isto! Somos uma Ordem ou não somos? – bêbados e desajeitados lá foram. O Rafael, em vez de ir à frente ia atrás, comigo e com a Lídia, enquanto os outros, o Gualdim, o Miguel, o António e o David, iam à frente, a rir.
- Está cá um briol…- disse a Lídia.
- Toma- disse o Rafael, tirando o casaco- já estou habituado a este clima, a este frio…- Ela ficou toda sensibilizada…
- Oh…Rafael…Muito obrigada ! – E desfizeram-se em sorrisos. “Então??”, pensei eu. Uma reacção estranha da minha parte. Disse estranha? Sim…talvez seja essa a ideia.
- Epaaaa!- dizia o Gualdim- estou meio tonto.
- Acho melhor voltarmos para o restaurante, Rafael – sugeri.
-Está com medo dos fantasmas da quinta é, lady Guinevere?
- Engraçadinho…não acredito nessas coisas. Teria todo o gosto em fazer um ritual de iniciação desse género, era giro e tal! Mas às 4h da manhã, sem luz, na Quinta da Regaleira, com frio desgraçado….
-As luzes providenciamos nós!
- Rafael, a sério, não estou a gostar nada disto…
- Ei!?- disse o Gualdim – falta aqui o David! David? David??
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