domingo, 31 de outubro de 2010
Opera, Fronteira Italiana, 1159
Quando o padre acabou a sua oratória arquitectónica e artística, cada um de nós encaminhou-se para as suas funções. Eu e Miguel encaminhamo-nos para a cozinha para preparar a refeição; Gualdim e Rafael foram ter com o meu pai que se encontrava debruçado sobre o velho mapa amachucado enquanto António e Pedro tratavam das nossas montadas - Pobre Ébano…António era tão cuidadoso com ele como um ferreiro a martelar numa arma ainda em brasa….
- O padre Romeo é espectacular não é?
- Ena Miguel! Deve ser a primeira vez desde a infância que te oiço falar de clérico assim. - Era de facto surpreendente, Miguel era a bondade em pessoa, mas quando se tratava de injustiças praticadas pela própria Igreja, ele transformava-se literalmente num guerreiro impiedoso.
- É verdade sim senhora…infelizmente…quase que já tinha a perdido esperança de encontrar entre os homens alguém com o verdadeiro dom… Os homens agora apenas se interessam por guerra, poder, riqueza, aparências…tudo aquilo que devia simplesmente não existir.
- Só mesmo tu para veres o mundo com pena enquanto os outros todos o vêem com gula e avareza - disse enquanto descascava umas batatas da horta. - Perdoa-me a frontalidade… mas apesar de gostar imenso de ti e de te ter por perto…não consigo perceber o que é que uma pessoa com os teus valores faz aqui, no meio desta batalha. Todos os outros estão constantemente a pensar em guerra..o Rafael por exemplo parece um estratega nat…
- O Rafael é tudo menos um bronco moldado pela guerra Liena. - Interrompeu-me Miguel. - O facto de nos e do Gualdim, estarmos aqui em nada se deve ao gosto pela violência nem às birras do Homem. Assim como tu. Que eu saiba o teu pai nunca quis que viesses e tu vieste mesmo assim. E porquê?
- Não sei…talvez porque nao queria ficar sozinha em Portugal rodeava da serventia. Talvez porque tinha medo de perder também o meu pai. - posto isto a minha faca resolveu cortar um pouco mais do que a batata e desenhou um risco vermelho no meu dedo. Olhei de esguelha para Miguel, os seus olhos verdes a contrastar com o cabelo negro avaliavam-me como se entendesse os meus pensamentos melhor do que eu própria. E pelos vistos entendia.
- Eu vim - continuei - porque senti que era o meu dever, a minha missão, eu tinha de vir.
Era esta a resposta que Miguel queria ouvir. Sorria enquanto olhava para mim depois de ter posto os legumes ao lume para a sopa.
- Eu sei Liena, eu sei - consolou-me tocando-me na cabeça como um irmão mais velho. - Deixa aí as batatas que eu cuido delas antes que para além de alimentos vá também um dedo extra na sopa. - brincou - Alem disso eu sei muito bem que há aí uma estátua que chama por ti.
Era verdade, queria muito ter oportunidade para contemplar aquele anjo decentemente antes de ir embora.
Subi as escadas que davam para a sala onde o meu pai e os outros estavam reunidos e caminhei em direcção à nave central. Lá estava ele, no meio dos outros seis imponentes e graciosos. Aquele Arcanjo era lindo em toda a sua forma: corpo musculoso, mas não em excesso como o António, embrulhado em panos deixando as pernas e o tronco desprotegidos. A asas apontadas para o tecto da Igreja, onde muito pequenina repousava a nossa cruz vermelha. Tinha uma espada em punho e toda uma pose de guerreiro. O cabelo era encaracolado e a face terna e misteriosa. Aproximei-me.
- Que estranho - falei em voz alta para mim mesma - Não me lembro de conhecer ninguém assim. O único com caracóis que sei é o Gualdim mas esta cara não tem nada a ver com ele e no entanto parece que conheço alguém semelhante.
- Se calhar na tua vida anterior foste um calhau e como tal reconheces não a cara mas a pedra!
Eis que ele surge, para perturbar a minha paz de alma.
- Sois extremamente agradável, sabeis disso?
- Nada que não tenha ouvido já das demais donzelas, pequeno palito.
PALITO??? Ai que ódio profundo…
- Olha eu nem sequer me vou dar ao trabalho de te responder.
- Será isso por não teres resposta?
(já referí que esta personagem desperta em mim uma raiva imensa?!)
- Mas diz-me lá - continuou - Gostas muito desse Arcanjo é?
- Sim, ele desperta em mim muita calma e segurança, o que tem sido uma coisa rara nestes tempos correntes.
O sol poente trespassava as janelas da igreja atingindo a estátua, pintando-a de dourado com sobras que o tornavam ainda mais real.
- É, eu sabia que ia ter esse efeito em ti quando visses algo deste género. Seja quer for que o esculpiu fez um trabalho brilhante.
- Achas que o Arcanjo se parece com isto?
- Em matéria? Sim, bastante.
Estava-mos os dois lado a lado agora, a admirar o Arcanjo no meio de nós, a falar com ele mentalmente, ou seria pelo coração?
- Rafael..há uma coisa que me está a fazer espécie desde que o vi pela primeira vez..
- Ora essa, não precisas de me tratar por você. - Aí está ele no seu melhor.
- Não estou a falar de ti seu idiota!!! Do Anjo!
- Um Anjo? daqui a pouco tratas-me por Deus, ahahah, muito bom, gosto.
- Enfim - suspirei, eu não sei como é que ele consegue mas enfim - Fazendo de conta que estou imune à tua parvoíce e passando à frente. Ía dizer-te que há algo de estranho com a cara do Anjo.
- Estranho? Como assim?
- Uma sensação. Eu acho que já vi aquela cara, talvez, com outro cabelo ou assim.
Não sei o que disse mas a reacção do Rafael mudou naquele momento. Olhos trémulos e aterrorizados como se o fossem atacar.
- Rafael? Disse alguma coisa que não devia?
- Não..nada…só tive um arrepio pelo corpo, deve ter sido da corrente de ar.
- Tens a certeza?
- Sim, então, conhece-lo é? Mas não sabes mesmo de onde possa ser? Sabes que os artistas têm modelos na cabeça um pouco comuns, se calhar já viste uma obra de arte assim parecida.
- É…se calhar é isso. - Anuí.
- Quem quer enterrar os dentes num pernil assado e aquecer as entranhas com uma sozinha, han?? - Entrou o António por ali a dentro.
- Aí está o homem das boas noticias. Muito bem dito companheiro, vamos lá a isso - disse Rafael enquanto se pôs a caminho.
- Não vens Liena? - perguntou António ao ver-me para trás.
- Sim, vou já…
- Que foi? Estás com uma cara de sanguessuga.
- Não foi nada, António. Só estranhei agora uma reacção do Rafael.
- E o Rafael que não mexesse com o mulherio.
- Não ele não disse nada de mais mas ficou um pouco pálido e incomodado quando lhe falei da estátua. Quando disse que me fazia lembrar alguém.
- Esta pedra aqui? É bonita sim. E engraçado.
- Engraçado? - estranhei, onde poderia ser uma coisa daquelas engraçada?
- Engraçada a situação, O Rafael não ter gostado que conhecesses a cara d'O Arcanjo Rafael. Tem a sua piada. - E pôs a caminho ainda a rir da coincidência que encontrou.
Só mesmo o António para tornar tudo simples e ainda se rir.
Jantar servido. Um belo de um peru em tom caramelo, vinho tinto a sobressair de umas garrafas cujo gargalo tinha forma de pássaro com as asas eram agora as asas da garrafa, uma travessa de salva de prata - latão mas finjamos ser mais valiosa porque era assim que nos parecia - recheada de batatinhas assadas, descascadas pela minha pessoa (não tenho muito jeito, metade da batata foi na casca mas conta a intenção), iguarias espalhadas por toda a mesa, especiarias embotidas em frascos juntos da pasta, afinal de contas estávamos em Itália, no centro da mesa esperava apenas uma roda de madeira que seria ocupada pelo caldeirão de sopa. Que cheirinho…ainda com os ingredientes a boiar já prontos a casear os tambores que rufavam dentro das nossas barrigas.
Começamos, todos silenciosos a comer enquanto o meu pai contava as suas aventuras de jovem irreverente, dando simultaneamente dentadas no pão com chouriço deixando migalhas no bigode e na barba. Que engraçado! Nisto entrou o nosso ilustre pe. Romeu provido de mais dois jarros de vinho.
- Mais um copo excelência! - pedi num tom um bocadinho mais elevado do que o normal.
- É melhor deixares isso para outro dia, minha senhora, essas bochechinhas rosadas indicam que já estás bem animada! - brincou Rafael.
- Ah não, isto sou eu que estou corada por estar ao teu lado! - Tinha acabado de dar a prova de que já não estava no meu juízo perfeito.
- Hoje finalmente vamos poder dormir uma noite descansada, sem perseguições, tudo organizado. Depois deste farnel vai saber que nem ginjas! - Alegrou Gualdim com um ar de puro contentamento.
Todos concordaram e brindaram à nossa situação, incluindo o Pe. Romeo que nesta altura também já se apresentava bastante aconchegado com um ar de bebé e a barriguinha de boa vida.
Depois de ter reconfortado o embrulho no bolso de dentro do meu casaco, bem junto ao meu corpo, senti-me realmente aliviada e pronta para descansar o corpo e o espírito. Ao espreitar pela janela vi que a lua brilhava bem redonda e luminosa na companhia das estrelas que nos guiavam noite após noite nas nossas caminhadas. Depois de comermos até nem podermos sentir o cheiro a comida, alguns de nós adormeceram nos cadeirões junto da lareira enorme da cozinha que era utilizada para preparar as refeições. Eu era amante da noite, e nenhuma noite era tão bonita com a de Inverno, céu limpo e iluminado, a geada nos campos deixando apenas o cimo das árvores à espreita, o voo silencioso de uma coruja a rasgar a neblina adormecida, e principalmente as gotas de orvalho cristalizadas sobre a pedra fria da Igreja dando a ilusão de ter sido construída através de magia.
Embrulhei-me com o meu casaco e um cachecol vermelho e vim cá para fora observar este ambiente maravilhoso.
Estava frio, muito frio, mas eu não me importei. Estava noutro mundo. Via as estrelas a emanarem aquele brilho irregular. Aquele brilho a crescer. Aquele brilho a desfocar. Aquele brilho a aproximar-se de mim. Aquele brilho que se transfigurava agora numa forma humana mas imaterial. Apenas uma luz. Acho que já estou a sonhar…
- Quem és tu…o…que…és tu?
Foi então que uma voz entrou por mim a cantar.
EGO sum hic super ut te servo.
Unus of septem.
Ut vos orbis terrarum in posterus , fides perdo
UNUS vestri perfectus unus eripio per Operor vos vere vilis is.
QUOD vos admited nobis they ero iens tepirdo.
Operor? Verdade? Mas que Verdade?
Nisto, abri os olhos de repente, e tudo se encontrava exactamente como quando ali cheguei.
Já deveriam ser umas tantas da madrugada, era hora de voltar para dentro e aconchegar-me nos cobertores de pêlo.
Entrei e fechei a porta atrás de mim, sem saber que na janela alguém me observava desde o início.
- Ela está cada vez mais perto de saber a sua missão. Esta visita dela só pode querer dizer isso.
- Eu sei, nós já passamos por isso e em breve será ela.
O céu começara já a clarear.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
1887, Maria Francisca outra vez
- Estás acordada? – sussurra Rafael.
- Que achas? Com este barulho até me admira ser a única de pé! Tens a certeza que mais ninguém acordou? – pergunto em pânico.
- Absoluta! Temos o caminho livre! Veste qualquer coisa quente que está frio lá fora.
E com isto desapareceu. Tentei vestir-me sem fazer muito barulho. Tive de esvaziar o baú para chegar ao casaco mais quente que tinha. Desci as escadas de meias calçadas e com as botas nas mãos para não fazer barulho. No meio da escuridão lá consegui encontrar a porta da rua, hesitei, olhei as escadas mas estava tudo silencioso. Fechei a porta lentamente. Imediatamente as minhas mãos gelaram e os meus pés doíam. Que inteligente! Nem me tinha calçado! Mas onde está ele?
- Aqui! Vem antes que a Chiquinha acorde e comece a ladrar!
Quando começámos a afastar-nos da casa é que me apercebi da situação. Saí de casa sem os meus pais saberem com alguém que nem conheço. Mas como é que me deixei levar? Nem disse não, não concordei, não me desfiz em risinhos parvos de miúda apaixonada. Depois percebi que isto nada tem a ver com o Rafael, mas com a minha vontade de descobrir, de explorar para além do que conheci a minha vida toda.
- Vamos para aqui por um pouco! Temos de esperar que amanheça ou não vamos conseguir entrar na floresta. – explicou.
Novo silêncio. Sentei-me e comecei a fazer uma trança no cabelo, precisava de ocupar as minhas mãos que tremiam descontroladamente. Sentia que não devia fazer aquilo que estava a arriscar a confiança que os meus pais tinham em mim. Pensei em levantar-me e voltar para trás mas as minhas pernas não obedeciam. Ele deve-se ter apercebido porque nesse momento perguntou “Passa-se alguma coisa?”. Mas a preocupação desvaneceu-se logo que os primeiros raios de sol surgiram e logo nos pusemos a caminho. Á medida que avançámos comecei a reconhecer o cenário, passámos pelo sítio em que a Antónia me tinha deixado no outro dia e continuámos a subir. De repente parámos!
- Era aqui que te queria trazer. Á Quinta da Torre da Regaleira!
Olhei para cima e conseguia distinguir uma torre no meio do arvoredo com os vidros das janelas a reflectir a luz do sol. Era muito cedo por isso o palácio estava silencioso, só ouvíamos os pássaros e som dos ramos agitados pelo vento frio. O muro cercava toda a propriedade mas o Rafael conhecia uma entrada secreta que dava para o jardim e para a capela. Perguntei-lhe se podíamos andar ali mas ele pegou-me na mão e continuou até ao palácio. Fiquei paralisada com aquela visão! Nunca os meus olhos tinham admirado algo mais belo. Quando olhei para o Rafael estava ele com um olhar triunfante e um sorriso de rapazinho. Quando lhe tentei agradecer ouvimos passos e desatámos a correr, num ápice já estávamos fora da Quinta.
- -
Chegámos a casa a tempo de não sermos apanhados. Meti-me debaixo dos lençóis e adormeci de imediato, estava feliz e em paz.
- Acorde menina! Já são horas para se estar de pé, não a preguiçar na almofada!
- Oh Antónia só mais um bocadinho! – supliquei.
- Nem mais um bocadinho que os seus pais já estão lá em baixo à mesa. E a menina aqui deitada! Não pode ser! Não é nenhuma criança!
Senti-me bem com esta nova forma de tratamento. Nem sei a que se deve mas ao menos a Antónia apercebeu-se que já não sou um bebé que precisa de atenção a toda a hora. Talvez me ajude a sair deste sufoco. Doía-me a cabeça e estava com cara da cor da parede branca, mas vesti-me e desci as escadas com a pouca energia que tinha.
Cheirava a pão quente e vinha um calor tão bom da cozinha. O pai e a mãe já estavam de saída assim como Rafael que os seguia, mudo e com aquele ar submisso que se apodera dele sempre que está perto do meu pai. Quando a porta se fechou senti-me feliz por ficar em casa, tão quentinha e acolhedora. A Antónia trouxe-me o pão e sentou-se ao pé de mim com o Joãozinho ao colo. Ele pegava nos bocadinhos de pão e fazia pequenas bolinhas que depois deixava cair para a Chiquinha comer. Antónia ria e dava-lhe beijinhos, abraçava-o e falava-lhe baixinho.
Como estava cansada inventei uma desculpa e subi para o meu quarto para me deitar. Não fechei os olhos, fiquei antes a olhar a janela embaciada, o papel de parede amarelo, o tecto de madeira. Sentia-me bem naquele espaço só meu onde eu mandava. Era desarrumado e nos armários acumulava-se o pó, proibi que mexessem nas minhas coisas. A mãe a principio não gostou da ideia, chamou-me de “menina mimada”, mas o pai achou que era justo já que estava proibida de me afastar de casa.
O cansaço venceu-me finalmente e eu adormeci profundamente.
Acordei finalmente quando ouvi barulhos vindos da rua. Olhei pela janela e vi o Joaquim e o meu pai a correr e a gritar pela Antónia. Abri as janelas mas logo o meu pai exclamou “Maria Francisca fecha imediatamente essa janela!”. O meu nome, aquele de que às vezes me esqueço. O Rafael trazia a minha mãe pelo braço e eu corri a ter com eles. O meu pai estava pálido e ofegante, não consegui acabar as frases por mais que eu implorasse por uma explicação para tanta agitação.
- Eles encontram-nos! Temos de sair daqui! – gritou a mãe.
- Nem pensar nisso! Isso só lhes dá mais uma razão para confirmarem as suspeitas e seguirem-nos para onde formos. Não podemos fugir para sempre. Deixa-os vir aqui e confrontar-nos, garanto-te que não encontram nada! Aliás vou já tratar disso! Antónia acende a lareira! – ordenou.
Correu até à cava e com a ajuda de Rafael despejou dezenas de pergaminhos no fogo. Nunca tive tão perto de descobrir a verdade e agora ela estava a arder à minha frente. A minha mãe chorava, provavelmente porque adivinhava o que vinha a seguir.
- A Maria Francisca e o João vão ter de sair daqui! Se alguma coisa correr mal o melhor é eles estarem bem longe daqui. Não correm o risco de ser perseguidos já que ninguém sabe da sua existência.
Eu vi as lágrimas da minha mãe e sei o quanto lhe custava a separação mas não disse nada. Foi tudo tão rápido que nem tive tempo para me aperceber de que hoje ia deixar aquela casa, a casa que tantas vezes me pareceu uma prisão. Não havia tempo a perder e por isso rapidamente as malas foram levadas para a carroça onde o Joaquim esperava nervoso e o Rafael sentado a seu lado. Ficou decidido que iríamos ficar com o meu tio Manuel, irmão do meu pai que mora em Tomar. Depois logo se vê.
Não houve tempo para grandes despedidas, a minha mãe só reteve o Joãozinho alguns minutos no colo. E assim partimos como se nos fossemos ver amanhã, mas sem certezas. O cheiro a queimado só agravou o meu desespero.
sábado, 23 de outubro de 2010
Damas e Nobres Cavaleiros
- Não quero rir, tio Pedro. Só me apetece chorar...
-Então Lena? O teu tio mais querido chega do Luxemburgo e tu és assim?- O meu tio Pedro: Um solteirão de meia idade, cabelo escasso, barriga avantajada. Suspensórios, bigode farfalhudo, fala pelos cotovelos e adora...ME!- Gosto tanto de ti, Leninha...
- Sim tio...- dizia, enquanto ele me abraçava como se não me visse há anos. Na verdade não me via há meses. Imigrou para o Luxemburgo muito novo...É um quase irmão do meu pai, David, e digo quase porque não é. São amigos de infância, "companheiros de luta", como diz o meu pai.
- Nem vais acreditar no que me aconteceu!- "aí vamos nós", pensei- No outro dia, estava eu muito bem a passar na rua e o que vejo eu? Um incêndio! A sério! Um incêndio! Mas não era um incêndio normal, oh não! Era num daqueles campos de plantação que há aí à beira da estrada.
- Em Lisboa? Não sei de nada...
- Perto. Nos arredores. Para os lados dos subúrbios.Mas isso não interessa! O que interessa é que eram já quase oito horas, andava, pois, a fazer o meu jogging, e vejo aquelas labaredas a lavrarem o campo como se não houvesse amanhã! As pessoas, ena pá, as pessoas todas passadas, a gritar, a dizer que estavam lá no meio os homenzinhos do campo de cultivo! Um horror...A sério! Heis então que uma das mulheres que assistia se vira e diz " Ai, credo! Que vem lá um homem!", e vinha. De um momento para o outro aparece um homem vindo do nada, aliás, vindo do fogo!- o tio Pedro parou, bebeu um gole de água e lançou-se à história novamente- Passou por nós numa gaspia que ó visto! Todos dizem que foi ele que ateou o fogo.
- E foi?
- Sei lá eu! Perguntas bem mas não sabes a quem...Ele apareceu, fugiu e logo depois chegaram mais bombeiros. Salvaram uma data de gajos que estavam do outro lado.
- Não eram homens das culturas?
- Não, isso viemos a descobrir depois! Eram uns manfios quais quer- disse, dando uma valente dentada numa baguete seca.
- Mas que emocionante...- disse eu.
- Tu cala-te! Aquilo foi uma daquelas rixas dos mafiosos, dos gangues. Aquela malta é marada- dizia enquanto comia- a sério!- insistia- aquela malta...não se metam com eles- Podem agora pensar o porquê desta converseta toda. Por nada. Simplesmente o meu tio é assim. Fala, conta, embeleza, reconta e conta novamente- o manfio- continuava- deve andar agora para aí fugido da polícia. Tu toma cuidado, Helena! Ui! Mesmo em Lisboa, estas coisas, ai, ai...
-Oh, tio. Eu tenho cuidado, deixe lá- Dito isto liguei o meu computador. Olha,lá estava ele, o guerreiro das trevas, ou da luz, o Rafael. O meu portal tem tido algum sucesso e o jantar está marcado para breve. A quantidade de cavaleiros e damas adicionadas no fórum são cada vez mais e cada vez mais se fala de templários, do Santo-Graal, cada vez são mais os artigos publicados no site, cada vez leio mais sobre isso e cada vez mais sugestões para o tema da minha tese. Enquanto lia um artigo sobre a relação entre as estrelas e a ordem dos templários, heis que surge:
"Rafael- Quem é vivo sempre aparece..."
"Guen- Rafael...olá, tudo bem?"
"Rafael- Sim. E tu? Ainda de volta da tese?
"Guen- De volta? Ainda nem a comecei!"
"Rafael- Já vi no fórum que o jantar da Ordem já está marcado! =D"
"Guen- Sim! É já este fim de semana e já está tudo marcado"
"Rafael- Sempre é na Quinta da Regaleira?"
"Guen- Sim, já está marcado para sábado à noite na Sala da Caça"
"Rafael- Ena...a coisa é mesmo em grande!"
"Guen- Sim, considero um investimento...E tive ajuda também de alguns amigos".
Foi realmente com a ajuda de amigos e com algumas poupanças que consegui fazer o jantar na Quinta da Regaleira, alugar a sala, tratar de tudo. Mas valeu a pena. Quanto à vestimenta...Protocolo templário! Já aluguei o meu vestido e está pronto a ser usado. O dia do jantar chegou e eu, em pulgas, comecei-me a preparar às quatro da tarde. Quando me olhei ao espelho nem queria acreditar...não era eu, de todo, que estava ali, na frente do armário, reflectida naquele espelho, dentro daquele vestido. Por momentos até pareceu que a cor do meu cabelo tivesse mudado...O meu alourado estaria mais acastanhado? O meu cabelo é castanho mas fruto de um belo trabalho de um cabeleireiro tenho uma cor a fugir mais para o loiro. Gosto de lhe chamar castanho dourado.Quando acrescentei a grinalda de flores ao cabelo meio encaracolado, foi o toque final. O meu vestido, de veludo, vermelho escuro, de mangas pendentes, caía pesadamente para o chão. O decote realçava-me o colo e deixava aparecer um colar de prata, com um medalhão antigo. O cabelo, comprido, ligeiramente atado atrás estava realçado pela grinalda de margaridas e flores de era, feita por mim. Um achado em pleno inverno! Decidi levar uma capa preta, com um capuz, que tenho, e uma bolsa de veludo preta, que uso somente em casamentos e baptizados. Antes de sair de casa olhei-me, pelo menos, umas mil vezes ao espelho. Sim! Por Deus! Ia ser a anfitriã, ia conhecer pessoas e ia conhecer o Rafael, que, claro, não deixa de ser uma pessoa. Bom, pessoas à parte. Saí de casa. A senhora do terceiro esquerdo apanhou-me na escada e ao invés de me dizer “mas que menina tão linda” disse:
- Olá, menina! Está boa? E o seu tio…está por aí? É tão simpático…”- e pronto, o tio Pedro encontrou uma namorada. A dona Jezebel, ou Bela, como lhe chamamos, é uma amor de pessoa e, vejam só, está interessada no meu tio Pedro! Não que ele não seja um óptima pessoa. Mas! Enfim…
- Olá, Dona Bela, como está? O tio está bom…arranjou trabalho num hotel e agora trabalha lá.
- Muito bem, ainda bem que ele se está a arranjar por cá! Olhe, um bejinho! Adeus, minha querida- e lá foi ela, a dona Bela, cinquenta e poucos anos, sempre arranjada, saltos altos e mala de mão. Quando peguei no carro pensei: Devia ser proibido andar de carro com esta roupa, mas Sintra ainda é longe de Lisboa, deixei-me ficar e para entrar no espírito fui a ouvir até lá música medieval. Fui a primeira a chegar, ainda pus o carro longe, mas fui a primeiríssima. O meu queixo caiu quando vi a Sala de Caça totalmente espectacular e decorada a rigor. “Ai…meus ricos euros. Foram tão bem gastos”, foi o que pensei. Na verdade, aquela sala estava digna de um filme! De um “O primeiro cavaleiro”…Se me entrasse o Richard Gere pela porta, linda porta, aliás, eu não me iria surpreender e cairia em seus braços! Olhei, olhei, toquei, cheirei e só conseguia esboçar o sorriso mais parvo de sempre! Estava tudo lindo, estava feliz e ia conhecer os meus companheiros da Ordem!
Passado pouco tempo começaram a chegar as pessoas. Um, dois, cinco, dez, éramos 25. Conheci a Lídia, o David, o Gualdim, que se tornou um grande amigo, entre outros. Os homens, uns vestidos com armaduras, outros com vestes mais simples, o Gualdim um autêntico templário! As mulheres seguiam a mesma linha que eu, umas mais avantajadas outras mais contidas. Só o Rafael não tinha dado as caras. Antes do jantar, enquanto conversávamos, um dos empregados, igualmente vestido a preceito, veio falar comigo, dizendo que a organização tinha preparado uma pequena surpresa e se essa surpresa poderia ser agora. Sem saber o que era, consenti. Naquele minuto entram pela porta três homens a lutar, com espadas, esgrimistas, com certeza. Lutava a sério, vestidos exactamente como os templários. Tinham uns capacetes, não lhes conseguia ver a cara. Encenaram um pequeno teatro e no final, um deles, aquele que considerei como mais forte, acabou com a vida de um (ficcionalmente, claro) e fez com que o outro fugisse. As pessoas bateram palmas (eu mais que todas juntas!) e no final ele tirou o capacete.
- Lady Guinevere…
- Sim…- disse eu, em resposta.
- Rafael – disse ele. Morri e ressuscitei naquele segundo - Não te lembras de mim?
- Oh, nobre cavaleiro – nobre cavaleiro? Eu não disse aquilo…- Claro que me lembro...Pelo que vi aqui sois bravo! – fiquei parva comigo mesma. Ele sorriu e pegou-me na mão.
- E vós sois tal e qual como eu imaginei. Com essas flores no cabelo e tudo – corei, corei, corei, oh, meu Deus eu sentia-me a ferver! Mas que homem…Devia andar pela mesma idade que eu, alto, o cabelo nem curto nem comprido, acastanhado, dourado, sei lá, giro! Uns olhos cor de mel mais doces que o próprio mel, um sorriso, essa era a melhor parte, ai, um sorriso maravilhoso. Atenção! Não, não estava apaixonada.
- Como é que…bom, tu fazes parte da equipa de animação?
- Sim, sou actor. Faço parte do grupo de teatro da Quinta.
- Nunca me tinhas dito…
- Perdoai-me nobre dama…- disse ele, ai, com aquele sorriso. Corei pela milionésima vez – mas não me queria meter. Assim fizeste tudo sozinha e eu providenciei a animação. Normalmente não fazem, foi um extra…
- Ena! Obrigada.
- E o teu nome verdadeiro é…-perguntou.
- Quereis mesmo saber? – Ele olhou-me bem, bem dentro dos meus olhos, tocou-me na alma e voltou a sair.
- Não. Não quero.
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Genova, Itália, 1159
Como se por alguma razão me tivessem nascido asas, voei até junto dos outros para perceber o que se passava. Passei pelos quartos, cozinha, sala, recepção, porta…..fogo! Os campos de trigo que tinha admirado na noite anterior encontravam-se agora obrigados a dançar com as labaredas douradas que cresciam com as correntes de ar e serpenteavam cada vez mais para perto da estalagem. Ao longe vi a razão dos gritos dos meus companheiros e tive a pior visão da minha vida.
Ver o fogo a consumir a paisagem, outrora pacifica, era suficientemente horrendo de se assistir; mas ver o Rafael no meio desse mesmo inferno despertou em mim uma reacção de paralesía e impotência perante toda a situação.
- LIENA! - Os braços do meu pai tentaram aconchegar-me e proteger-me, mas naquele momento confesso que o agradecimento deu lugar a uma raiva inconsolável, libertando-me dele.
- Porque raio estão todos aqui especados!! porque não o acudem?! Que se passa convosco??!
- Liena, anda, temos de nos por a caminho o mais rápido possível antes que cheguem até nós.
- Pedro..por favor..diz-me o que está a passar..imploro-te.. - supliquei-lhe, ele era meu amigo desde que me lembro, quando ambos fingia-mos ser cavaleiros defendendo um tesouro.
- Vês o monte atrás das labaredas?
- Sim…mas..são!
-Mouros…eles vêm muito mais rápido do que qualquer um de nós imaginou..até Gualdim está incrédulo..Está neste momento a elaborar outro roteiro mais seguro e mais rápido…basta sairmos de Italia sem eles saberem que fronteira utilizamos e despistamo-los! Foi o Rafael que começou o fogo, para os atrasar! Mas como é obvio aquele idiota quase que se matou na própria ideia. Lá vem ele!
Não sei explicar se achei aquela imagem linda ou simplesmente aterrorizante. Se me sentia mais aliviada ou com vontade de lhe ofertar uma valente bofetada. Ele corria, vestido de negro, com o cabelo louro a reflectir as chamas que o rodeavam. Era rápido, suficientemente rápido para minha felicidade. Mal nos alcançou nem tive tempo para dizer fosse para o que fosse. O olhar dele era tão impetuoso como as palavras que disparou.
- Que raio estão vocês a fazer aqui, ainda?? Estão com vontade de comer o churrasco um do outro?
- Estávamos preocupados contigo seu pobre e mal agradecido! Já para não falar nesta señora aqui. - disse Pedro enquanto se afastava para preparar os cavalos e olhava para mim de esguelha.
- Prefiro ser mal agradecido do que agradecer-te e estares ferida por minha causa. - disse sem olhar para mim.
- Mas afinal porque nos perseguem eles?
- Porquê? O teu pai não te deu nada?
- O embrulho!
Entrei novamente na estalagem, já enegrecida pelas cinzas, passei novamente pela recepção, sala, cozinha, quartos, subi o vão de escadas, entrei no meu quarto com o coração a saltar como se quisesse chegar lá antes de mim. Lá estava ele…junto dos pergaminhos..e por um momento vi um brilho dourado a surgir do embrulho azul..que será ist..
- Liena? Vamos?
- Sim pai.
Peguei em tudo, vesti-me (afinal de contas tinha literalmente voado da cama), enfiei os embrulhos no casaco vermelho e fui para junto do grupo.
O meu lindo e fiel lusitano já me esperava, um verdadeiro amigo este meu cavalo, Angelus, uma prenda da minha querida mãe, era ainda um potrinho nesse tempo.
Aprontei-me e olhei para o grupo, estavam todos nervoso e ainda assim confiantes. O meu pai tomou a liderança.
- Cruz vermelha ao peito! Hora de partir!
- E… rumo a onde? - Perguntei
*
O dia ía a meio quando chegamos a Abadia de Mirasole em Opera, se tudo corre-se bem seria lá que iríamos despistar a pista dos mouros. Famintos e cheios de dores, devido aos dias passados a cavalgar a galope por terreno incerto e acidentado, ansiava-mos apenas por um local para descansar, desfrutar dos mantimentos que nos tinham providenciado e, mais importante, elaborar uma rota segura longe dos olhares protestantes e curiosos.
Aliviamos os cavalos e entramos dentro da abadia onde um padre revia o sermão e anotava qual o capitulo da génesis a referir na próxima missa. Ao ver-nos, 7 seres humanos, sujos, imundos, porcos e cansados, o padre, já de meia idade, recuou nos passos, mas ao invés de se retirar a correr como eu esperava, deixou-se ficar. Fintando-nos como se fossemos obras de arte a contemplar. Talvez tenha reconhecido a nossa cruz. Afinal de contas eu não conhecia o seu significado mas havia sido ofertada pelo Padre José da pobre capela de Tomar.
Aproximou-se do meu pai e confirmou o que suspeitara.
- Que far tu qui? Qui te pavé dato questo incrocio?- questionou apontando para a cruz rosada.
- Il mio nome è David e sono un guerriero dal Portogallo. Il mio servizio sebbene sia per il Dio. - Respondeu o meu pai dizendo que vinha de Portugal e cuja missão visava o próprio Deus. A mim estas palavras deixaram-me ainda mais confusa sobre o que estava-mos a fazer tão longe de casa, mas para minha surpresa, ao padre pareceu fazer sentido.
- Sì effettivamente, siete 7, ciascuno protettivo da un angelo unic. Quello significa che avete de tesoro? - perguntou o padre…o tesouro..referia-se ao embrulho disso não tinha duvida.
- Ma perché siete qui? qualcosa è accaduto? - continuo.
-Sono impaurito in modo da…. - anuiu o meu pai - i mouros di the hanno trovato la nostra traccia, come tale che avessimo è venuto qui fa li ha allontanati (infelizmente sim…os mouros encontraram-nos e por isso mudamos a nossa rota para tentar despista-los)
- Capisco che. il mio nome sia Romeo e sono un sacerdote dall'ordine del tempio. .so sono informato della vostra causa. siete ben venuto qui ed andrete domani dal fiume, essi non potete seguirvi più. (entendo…o meu nome é Romeo e sou um sacerdote da órdem do Templo, como tal estou a par da vossa causa. Sejam benvindos aqui, poderão partir amanhã pelo rio, assim eles perderão o trilho).
Posto isto só me ocorreu, amén…
quarta-feira, 20 de outubro de 2010
1887, Sintra
- Ai mas o que é andas-te tu a fazer? – perguntou de olhos esbugalhados.
Inventei uma desculpa qualquer sobre ter tropeçado nuns ramos ao esconder-me de umas lavadeiras que passavam. A Antónia correu a buscar um outro vestido, de mangas mais compridas e cor de vinho “não fossem as feridas voltar a sangrar”. Quando desci o pai tinha chegado, estava sentado ao pé da lareira com um rapaz perto dele. A mãe tinha o Joãozinho adormecido ao colo e a Chiquinha aos pés. Ficaram em silêncio quando eu entrei na sala, nada de novo para mim que estou mais que habituada a permanecer na ignorância. Foi aí que o meu pai se levantou e anunciou.
- Quero apresentar-te o Rafael, Guinevere. A partir de hoje ele vai viver aqui em nossa casa. – disse num tom seco.
Bem sei que não esperava que aprovasse tal decisão e por isso acenei com a cabeça sem nada dizer. Seguiu-se o jantar que, apesar das visitas ou do novo residente, era bastante simples porque a Antónia não teve tempo de preparar nada mais elaborado. Ninguém se importou, ficou um grande silêncio só interrompido pelo ladrar da Chiquinha. O pai levantou-se num pulo e foi à janela. Pouco depois voltou, passou a mão pela cabeça da Chiquinha e sentou-se. Nem soube o que tinha sido, nada de especial aparentemente, mas o pai nada comentou. Foi então que a mãe começou a falar com o rapaz, o Rafael.
- Espero que esteja a gostar do jantar. O meu marido não nos avisou que viria hoje, não estávamos à espera. Mas não se preocupe que facilmente se arranja um sítio para dormir.
- Só vos tenho a agradecer pela bondade minha senhora. – respondeu o rapaz.
Fiquei o resto do jantar a observá-lo. Não gosto da ideia de ter um estranho em casa, que nem da minha família é. Apesar de o meu pai não ter adiantado nada tentei perceber de onde era. Não devia ter mais de 18 anos, nem barba tinha, o cabelo era castanho e dava-lhe quase pelos ombros. Se passasse por mim diria que era um lavrador pois tem a pele queimada do sol. Deveria ser um acontecimento para uma rapariga da minha idade conhecer um rapaz jovem. Qualquer uma começaria com mil fantasias daquelas dos contos de fadas com príncipes corajosos. Eu só vejo um rapaz que perdeu todo interesse na segunda vez que olhei para ele. De qualquer forma quando o jantar terminou meu pai fez sinal à Antónia para me levar para o quarto, claramente iam conversar sobre coisas que “não são para a tua idade”. Já nem quis saber, num dia descobri exactamente onde estava. Sintra! Já é mais do que soube numa vida inteira pela boca da Antónia.
Quando fechei os olhos veio-me o Rafael ao pensamento. Comecei a pensar nas razões que levariam o meu pai a oferecer a sua casa a um completo estranho. De onde se conheciam? Estará a escondê-lo também? Deve-lhe alguma coisa? Com tantas perguntas na minha cabeça dormi pouco e mal, quando a Antónia me chamou senti-me como se tivesse acabado de fechar os olhos. Desci as escadas a cambalear e quase tropecei no penúltimo degrau. Fiquei espantada ao não ver ninguém.
- Saíram todos menina! Só cá estamos nós, o Joãozinho e a Chiquinha. – preveniu Antónia.
- Mas sabes onde foram? – escapou-me.
- Oh menina como se os seus pais me dissessem tal coisa!
- E o … Rafael? Também saiu?
- Anda por aí perto. Diz que precisa de apanhar ai mas que não se afastava.
Ainda bem que não me apetecia olhar para ele logo de manhã, ele a causa da minha sonolência. Peguei num livro e sentei-me lá fora a apanhar um pouco de sol. A Antónia pediu-me para ler alto para que me ouvisse da cozinha, ela que infelizmente nunca aprendeu a ler. Eu sempre me senti grata por ter um pai que fizesse questão que a filha aprendesse a ler e a escrever. Sei que nem todas as raparigas têm essa oportunidade.
- Mais alto menina! Não a ouço bem! – gritou Antónia.
- “O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
…”
- Mais alto!
- “A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só espera.”
- Ai que lindo! Soa tão bonito, mesmo não entendo metade do que disse.
- O livro chama-se “Folhas Caídas” de Almeida Garrett. É uns dos preferidos do meu pai.
Rafael chegou pouco antes do almoço, deve-lhe ter cheirado à comida da Antónia e encurtou o passeio. Como os pais não estavam sentámo-nos os dois à mesa enquanto a Antónia dava de comer ao Joãozinho sentada ao pé da janela. Já estava à espera de uma refeição silenciosa quando o Rafael resolve falar.
- Não fiquei a saber o teu nome. – perguntou inesperadamente.
Não estava à espera e por isso demorei demasiado a responder. Nunca me passaria pela cabeça contar-lhe toda a história de como o meu nome verdadeiro não é aquele pelo qual me tratam em casa. Ao mesmo tempo fiquei espantada pelo súbito interesse.
- Ah … Guinevere.
- Não tens a certeza? Demoras-te tanto tempo!
- Não, é mesmo Guinevere.
Novo silêncio. Fiquei envergonhada, sentia-o a olhar para mim enquanto comia por isso baixei a cabeça e concentrei-me na minha sopa. Percebi que ele queria dizer mais alguma coisa mas eu não o olhava para não o encorajar. Por fim ele disse:
- Conheço um sítio aqui perto que acho que ias gostar de ver!
- Mas eu …
- Podemos ir logo que acabemos de comer.
A Antónia não ouviu esta proposta de certeza não ouvi nenhum movimento, nem grito. Mas porque me trata ele assim com tanta confiança? Tenho idade para ser sua irmã mais nova, nem me considero particularmente bonita para esta atenção. De qualquer forma os meus pais chegaram pouco depois e ele voltou ao seu estado mudo. No entanto ao fim do dia atreveu-se de novo e perguntou “Amanhã?”.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
O cavaleiro das trevas
“Guen - Olá, pessoa que desconheço por completo!"
"Rafael- Sim, de facto não me apresentei...Rafael, gentil cavaleiro ao seu dispor. =P"
"Guen - Oh! Não me digas. Ninguém diria...-.-"
"Rafael- És sempre assim?"
"Guen- Hum...sim...ouve lá! Tu nem me conheces e começas já a mandar bocas, é?"
"Rafael- Ena, ena! Alguém teve um dia mau hoje"
"Guen- -.-...tipo...what? Enfim, vou ver o que deixaste na área das publicações"
"Rafael- Espera! Não vás! Ainda não...Aliás, nem devia ter publicado aquilo."
"Guen - Então?...Agora não consigo abrir o ficheiro. Deves ter posto aquilo num formato qualquer que não o normal."
"Rafael- Não, simplesmente apaguei".
Naquele momento quase que caí da cadeira a baixo. Um homem vindo não sei de onde publica uma coisa qualquer no meu site, fala comigo como se me conhecesse há anos e arma-se em parvo. Normal, hoje em dia. Ai...Sempre pensei que não pertencia a este tempo. Sempre! Desde miúda que me lembro de sonhar com cavaleiros e princesas, cavalos e armaduras, história épicas, castelos magníficos, lagos espectaculares, a natureza no seu estado...natural! Antigamente os relacionamentos entre homens e mulheres não eram assim, meu Deus. Era tudo tão civilizado, tudo tão mais misterioso, tudo tão mais estudado, tão mais romântico-trágico. Gostava de viver no tempo em que os homens lutavam pelas mulheres, que se matavam pelo seu amor, faziam duelos! Lutavam com espadas! Enfrentavam chuva, frio, terríveis tempestades, mostravam a sua valentia!! Agora? Aparece um gajo qualquer que começa a falar na net, as pessoas conhecem-se, saem, blá blá blá, sim, sim, és muito querido, e pronto. Ficam juntos. E quando a minha mãe me diz: "Então, Lena? Quando é que nos apresentas um namorado?" eu tenho sempre de responder: "Quando ele me salvar de um dragão cuspidor de fogo ou atravessar o Atlântico a nado só para me ver, lutando contra piratas. Ou então quando vier de uma longa jornada, a cavalo, claro, e me vier buscar ao meu T2, e me levar para um castelo". "Lena...", diz a mãe com um ar enfadonho, "...já conheces o Bernardo? É filho do Zé Teotónio, que mora duas casa acima da do teu padrinho". A maior parte das vezes não me interessa. O último rapazinho da aldeia da minha mãe, perto de Tomar, com quem namorei era muito querido, sim senhora, mas não dava uma para a caixa. Ainda para mais, no fim da nossa relação, que durou um mês e picos, tive de ouvir os pais dele, porque virei de tal maneira a cabeça ao rapaz que em vez de seguir Advocacia, para ser Sr. Doutor, como os pais queriam, foi para Arqueologia. "Você enfeitiçou o meu rapaz!!", disse a mãe do moço. "Eu? Oh, minha senhora, tenha paciência! O rapaz já tem o dom natural para a coisa". Mentira. O rapaz não tinha dom nenhum. O que aconteceu foi que eu passava o tempo em que estava com ele a contar histórias e mais histórias e, como ainda éramos adolescentes e tínhamos tempo para essas coisas, fazia-o procurar peças arqueológicas, coisas velhas, pedras e pedregulhos, que encontrávamos no chão, perdidas na mata. Ainda hoje tenho um pedaço de ferro, martelado, uma argola, que ele encontrou perdida perto do Convento de Cristo, e um bilhetinho:" Para a doce Lena do cavaleiro Hermínio."Um nome e pêras para um cavaleiro, hã? Coisa magnifica os tempos da juventude. Mas mais magníficos os tempos antigos...Hoje é tudo "descartável", rápido, fácil e simples. Trocando por miúdos: sem gracinha nenhuma.
"Guen- Apagaste? Nem cheguei a ver o que era."
"Rafael- Melhor assim. Precipitei-me. Nem te conheço"
"Guen- Nem me podes dizer o que era?"- Dão o chupa-chupa à criança e depois tiram-no no momento seguinte. Odeio isso. Não estávamos a começar bem.
"Rafael- Ah, nada de importante...Deixa lá isso."
"Guen- Diz lá! Alguma coisa que tenha a ver com os templários?...Só pode...Vá lá! Diz-me! =D"
"Rafael- Não, foi um erro. Esquece. Um dia conto-te =P"
Hum. Aquele cavaleiro estava realmente a armar-se em chico-esperto. Eram quase três da manhã e eu na treta com um desconhecido.
"Guen- Um dia...Está bem. E já agora! És a favor do jantar medieval na Quinta da Regaleira?
"Rafael- Totalmente!"
"Guen- Boa =)"
"Rafael- Mas nada de Macdonalds XD"
A partir daqui foi até às cinco da manhã a falar de comida. Fiquei a saber que gosta de mais de carne do que de peixe. Que é a favor dos assados e que não é apreciador dos cozidos. Que gosta mais de doce do que fruta. Que a mousse de chocolate e as barrigas de freira são as suas predições e que a lojinha típica das queijadas de Sintra era perto da casa dele. Morava, então, em Sintra. Quem me dera! Cinco da manhã a coisa ainda rendia:
"Guen- Olha, sabes, são cinco da manhã..."
"Rafael- Quatro e cinquenta e oito, para ser mais exacto, lady Guinevere".
"Guen- Seja. Tenho de ir dormir. Amanhã posso acordar tarde, sim, mas não exageremos."
"Rafael- Não tenho pressa nenhuma..."
"Guen- Boas noites, cavaleiro das trevas"
"Rafael- Das trevas? Sou um guerreiro da luz!"
"Guen- Só disse isso por causa da imagem"
"Rafael- Lol a imagem não tem nada a ver. É só de um jogo de computador"
"Guen- Muito bem. Então até...?"
"Rafael- Amanhã. =)"
"Guen- Adeus =)"
Log-off.
domingo, 17 de outubro de 2010
Jerusalém, 1159
sábado, 16 de outubro de 2010
1887
Mas o pior é o isolamento, os dias intermináveis passados sem ver pessoas diferentes do pai, da mãe, da Antónia, do irmão Joãozinho e de Joaquim, o cocheiro. É a única casa que conheci e, segundo Antónia, a única em que meus pais viveram enquanto casal. Nem sei ao certo onde estamos, meu pai só diz “Filha estamos em Portugal e em região bem longe de Espanha”. Apesar do o país ser pequeno isso quer dizer quase nada e sem contacto com pessoas do exterior nem através das pronúncias me posso orientar.
Até pode parecer que sou muito infeliz, só o que fiz foi queixar-me, mas tenho noção que somos muito afortunados. A nossa casa era antigamente ocupada por um casal nobre que a abandonou depois de um incêndio. Devia ser gente muito importante, com muitos terrenos e trabalhadores porque eu do telhado consigo avistar umas 20 casas ao longo da pradaria. O incêndio quase destruiu a casa, mas o meu pai recuperou-a. A casa é branca e as madeiras das janelas pintadas de azul. Só a do meu quarto é amarela, a minha cor preferida. Está sempre limpa e cheira a pão de manhã e a alfazema ao fim de tarde. Temos uma horta com morangos, cenouras, alfaces e um jardim com rosas brancas e margaridas. Também temos uma cadelinha que eu resolvi chamar de Francisca ou Chiquinha como a costumo tratar. O meu pai sempre me falou nas condições em que vive o povo, que muitas vezes passa fome e morre de frio no Inverno. Sei que não somos ricos, mas também nunca passei fome nem frio e apesar do isolamento sei que tenho a sorte de viver numa casa onde todos se amam e com uma vida tranquila.
A questão é que sempre soube que eles me estavam a esconder alguma coisa, mas eles também sempre fizerem questão de dar a entender que nem valia perguntar. Eu sempre me conformei com as meias respostas da Antónia mas ultimamente sinto que o pai anda inquieto. Enfia-se na cava durante horas e horas e quando sai tem um ar carregado e é capaz de passar por mim sem sequer dizer nada. A mãe também tem andado nervosa e até os ouvi discutir, coisa que nunca tinha ouvido. Eu sempre soube que aquela cave tinha alguma coisa escondida e que todos os mistérios tinham ali a sua resposta. Mas que posso eu fazer? Nunca me deixam sozinha e se me vêm perto da porta sequer correm a tirar-me de lá. Como se eu fosse uma criança.
Um dia, quando o pai estava fora, lá convenci a mãe a deixar-me ir com a Antónia à vila mais próxima. Com a condição, claro, de ficar à espera dela uns quilómetros atrás. Eu sabia que já era uma grande vitória ter ido tão longe e então acompanhei a Antónia em silêncio.
- Então a menina não diz nada? Tão caladinha que nem parece coisa sua. Ora diga lá se a paisagem não é bonita para estes lados?
- É. – respondi baixinho.
- Sempre pensei que quisesse vir para estes lados. Era razão para ficar mais animada!
- E estou.
- Já vi que não está para conversas hoje. Olhe que a sua mãezinha arrisca-se a que o seu pai descubra esta escapadela e depois não vem comigo tão cedo.
- Já estou habituada a estar fechada naquele sítio.
- Garanto-lhe que é tudo para seu bem. Não que eu saiba muito do assunto.
Apeteceu-me logo perguntar-lhe, estava mesmo na ponta da língua. Mas resolvi desempenhar o papel de criança inocente que não percebe das coisas dos adultos para passar despercebida. Como nem do telhado conseguia avistar estes sítios comecei a admirar o que me rodeava. A Antónia começou a falar de qualquer coisa como “a menina tem tanta sorte com os pais que lhe foram destinados” e eu continuava a olhar os campos até que avistei um rebanho de ovelhas. Corri até elas e elas naturalmente fugiam de mim, senti-me realmente criança e até agarrei um borreguinho pretinho, tão lindo e desajeitado. Foi então que senti um puxão. Era a Antónia com as suas preocupações. “A menina não pode sujar-se! A menina ainda adoece e depois que digo eu ao seu pai!”. Eu achei tudo aquilo muito estranho, mas foi então que eu percebi que o pastor tinha surgido lá ao fundo. Apercebi-me nesse momento que o medo da Antónia e o medo dos meus pais era de que alguém me visse.
Entrámos na mata e Antónia pegou-me na mão com força e disse que não demorava tempo nenhum. Para eu ali ficar e que dali não saísse por razão alguma, para me esconder se alguém por ali passasse. Foi então que algo despertou em mim, quase sem pensar desatei a correr assim que a ama desapareceu. A floresta ia ficando cada vez mais densa e eu comecei a sentir a dor dos arranhões nos meus braços e reparei que o meu vestido estava coberto de sangue. Foi aí que avistei um lago. Limpei as minhas feridas e passei água pelo rosto. Não estava a fugir queríamos apenas saber onde estava, vivi tanto tempo no meio do nada que agora só quero explorar o que está em minha volta. Apercebi-me que haviam pessoas ali perto, pareciam trabalhadores. Era um homem e uma mulher, estavam parados num caminho de terra. Tentei aproximar-me sem ser vista e escutar o que diziam, mas da conversa só ouvi duas palavras “quinta” e “Sintra”.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
Capitulo I : Eu
- Já?
- Sara, são duas e meia da manhã…E eu não tenho a tua vida! Amanhã tenho de ir passear os cães das madames logo pela fresquinha! E põe fresquinho nisso.
- Ainda estás metida nisso?
- Metida…até parece que ando na droga! - disse eu, enquanto apertava o casaco até bem pertinho do pescoço e me preparava para enfrentar o temporal que estava lá fora – são só cães.
- Esse emprego é uma bela bosta - disse ela, fechando o caderno bruscamente - passeias os cães, as cadelinhas, pegas nos saquinhos, apanhas as poias, pões as poias no caixote, passeias mais os cães, pegas nos saquinhos, apanhas….
- Poupa-me, Sara. Faço isso tudo, sim, e depois ganho dinheiro, pilim, cacau, para pagar este mestrado que nunca mais acaba…Bom, adeus! – Sim, esta sou eu. Uma mulher desesperada, com 26 anos, já com o relógio biológico a tocar há dois e relógio matrimonial a tocar há três, apesar de o meu querido…digamos companheiro, fazer questão de não lhe dar corda. Enfim, não serei a única mulher do mundo assim, ou pelo menos que pense assim. Acho eu. Naquela noite saí da faculdade muito tarde. Tinha prometido à Sara que ficava na biblioteca a fazer-lhe companhia e adiantar um pouco a minha tese, que se enrola demasiado para o meu gosto. Meti-me no carro, depois de ter percorrido o Oceano Atlântico em lama e de ter arruinado os meus sapatos novos, e fui para casa, a minha pequena casinha, o meu pequeno estúdio, com as minhas pequenas coisas. Sabe tão bem. Abri a porta, fui à casa de banho, tudo normal até que acendo a luz da sala. Normal? Sim, normal. Anormal quando o nosso namorado está sentado no sofá com um ramo de rosas gigantesco, uma garrafa de champanhe e um sorriso de orelha a orelha, que, confesso, não foi a melhor opção.
- Ai que susto, Gustavo!!
- Olá, amor!
- Olá? Que é que estás a fazer aqui? E como é que entraste? - disse eu, enquanto o empurrava e me tentava livrar dele, por ele me querer dar um daqueles beijinhos à esquimó que faz sempre questão de dar e que eu acho a maior piroseira do mundo.
- Então? Não te lembras? - Merda. Voltei-me a esquecer do dia em que começámos a namorar, ou do aniversário do aparelho da avó.
- Hum…Parabéns!- disse eu.
- Parabéns? Ok, pode ser. Então?...Não te lembras, pois não?
- Desculpa, não…
- Hoje faz um ano que abri a minha firma de advogados! Gustavo & Leitão Associados! – Se houvesse grilos na cidade eles tinham cantado naquele momento. Aniversário da firma? E ele vinha comemorar comigo?
- Oh, Gustavo! Por amor de Deus! – disse eu, ficando parada em frente dele - Vá, pira-te daqui!
- Amor…mas, mas, então eu vim aqui todo apetrechado com flores e champanhe para uma noite de amor.
- Gustavo, volta para a tua mulher. Já chega.
-Não te vou largar nunca!
- Bom, eu tentei! Agora chispa daqui- disse eu, pegando nas flores, no champanhe e atirando o Gustavo para fora da minha casa. Pena que não o consiga atirar para fora da minha vida.
- Sabes que te amo? - gritava ele na escada, já com a porta fechada. Santo Deus- Amor! Eu adoro-te! – Já referi que eram duas da manhã? - Nunca te vou deixar! - Só quando ouvi a dona Fátima do terceiro esquerdo dizer uns quantos palavrões e manda-lo calar é que relaxei. O Gustavo é casado. Muito bem casado. Advogado de sucesso, tem a mania que pode tudo nesta vida. É chato como tudo, terrivelmente romântico e assustadoramente sentimental. Porque é que eu estou com ele? Porque gosto daquele estafermo. E mais não digo. Acabo por me sentir muito sozinha, acho que é isso. Não sou de cá, sou de Tomar. As saudades apertam quando falo da minha terra, das ruas, vielas, do Convento de Cristo, dos meus Templários… Sim! Meus. Eu nasci mesmo no Convento de Cristo. A minha mãe, armada em valentona, decidiu ir a uma visita guiada ao convento, quando se mudou para Tomar, e no meio da explicação do guia deram-lhe as dores. Como sempre fui uma moça muito apressada, não esperei duas vezes e comecei logo a querer sair. A minha mãe só teve tempo de se encostar a uma coluna abrir as pernas e…voilá! Eu! Quem me amparou foi aquela que depois foi minha madrinha, uma senhora do grupo de visita, espanhola, a Iolanda, pessoa que ainda hoje me telefona de Andorra todas as semanas só para perguntar se já arranjei um namorado. Claro que ela, nem ninguém, sabe que eu estou com o Gustavo. Mas também, se fosse a eles, nem queria saber! Eu própria me pergunto como é que o aguento, a ele e à situação dele, durante dois anos. Assim, nasci no coração dos Templários, amparada por uma espanhola e embrulhada num mapa do convento. Tenho a honra de dizer que o meu primeiro berço foi a escadaria do convento e que a primeira água que me lavou foi água benta! Devia ser abençoada. Mas não sou, nem de longe. Ou seja, resumindo e concluindo, o meu amor por Tomar e especialmente pela Ordem dos Templários transcende todas as fronteiras e, por isso, todas as noites, me imagino lá. Quando era pequena ia a animações, espectáculos de fogo, ia ouvir os contadores de histórias…Saía da escola ia para o convento. Os senhores de lá já me conheciam. Era a minha segunda casa. Quando chagava perto da hora de fechar tentava-me esconder sempre num sítio qualquer só para poder passar a noite lá dentro. Sozinha. A minha avó dizia-me o convento à noite tinha um cheiro diferente; que as pedras falavam e que a água do laguinho do átrio interior descia, desaparecia, e que se abria uma porta para uma passagem secreta, que os maçónicos usavam. Queria tanto poder ter comprovado tudo isso, mas o senhor Alberto, segurança, encontrava-me sempre. Nunca fui muito boa a esconder-me ou a esconder coisas, sou melhor a encontra-las. E, por isso, estou a preparar a minha tese de mestrado sobre os segredos ocultos da Ordem dos Templários. Tenho a escrito quase toda nos bancos de jardim da Quinta da Regaleira. Sinto-me mais perto de Tomar e mais perto dos Templários. Formei-me em História e agora estou a tirar um mestrado em História e Cultura das Religiões. A minha tese…uma coisa complicada. A minha cabeça…uma coisa ainda mais complicada. Eu? Estou entusiasmada e empenhada. Exige muito de mim, exige muita pesquisa e muito empenho. Como ainda tenho tempo para a fazer, faço as coisas com calma. Entretanto, para enriquecer a minha pesquisa (e a minha loucura!) criei uma espécie de “Ordem dos Templários online”, onde as pessoas se podem inscrever como “cavaleiros”, discutir assuntos no fórum, publicar trabalhos, enfim, criei uma plataforma na Net que possibilita às pessoas entrar no mundo dos templários e na busca pelo Santo Graal. Ok, eu sei…Vá, lá! Não é tão idiota como parece! Tenho bastantes utilizadores e cada um tem o nome de um cavaleiro! Não é mágico? Acho genial, modéstia a parte. Neste momento estamos a planear um jantar temático na Quinta da Regaleira, mas, ninguém se mexe. Querem, querem, mas eu é que tenho de andar para a frente. O que não é totalmente injusto, porque sou eu a dona daquele cantinho cibernautico. Naquela noite, quando liguei o fórum, mesmo já sendo umas três da manhã, a discussão estava acesa:
“Lady Lídia”- Eu acho que o jantar devia ser de época! Medieval! *jokas*
“Sir. Arthur”- Eu cá concordo com a lady Lídia. Um pernil de javali com pão e vinho vinha mesmo a calhar! Heheheh.
“Sir. David”- Mcdonaaaaaaaaaaaaaalds! =D
“Lady Lídia”- Epá, não sejas assim…tipo…Macdonalds? Cai na real! *jokas*
“Sir. David”- Mas assim todos gostamos do jantar! Não gosto de javali.
“Lady Lídia”- Xiu!
Ena…que empolgante. Uma pessoa tem um site destes, publica coisas geniais lá e os gajos só falam em pernas de javali. Quando fiz o login e entrei no fórum, reparei que, no total, tinha conseguido mais 4 visitantes no site durante o dia todo. Uma vitória! E que um deles tinha publicado algo na secção de publicações livres. Antes de conseguir aceder à página alguém me mandou um “Olá”, em privado, no fórum. Um tal de…
O novo projecto Cabeçadas no Céu
Nova temporada Cabeçadas no Céu!

Olá, leitores!
Como estão?
Após um longo período de pausa, em que Marijoana estiveram ausentes, o Cabeçadas no Céu volta em força, com novos projectos e novos nomes e uma nova imagem! Temos para oferecer ao nossos inúmeros leitores maravilhosos logos do Cabeçadas no Céu! Cada um alusivo a uma época festiva. Uau!
Nesta nova fase da vida do nosso/vosso querido e louco cantinho na net,vai surgir um novo projecto, desta vez a seis mãos! A Marijoana junta-se uma querida amiga, que partilhará o espírito do cabeçadas convosco. Não divulgarei o nome, mas prometo que será uma boa surpresa. Quanto ao projecto: Seguirá a mesma linha dos projectos anteriores do cabeçadas, ou seja, será uma história, quem sabe desta vez com cabeça tronco e muitos membros, e cada capitulo será escrito por cada uma das três; promete ser aliciante, delicioso e misterioso! Se a loucura do cabeçadas poderá ficar de lado? Dependendo do rumo que a história tomar. Habituados à divina loucura do Cabeçadas no Cèu, também vos faz bem ter algo mais realista e culto! E, pronto, mais não digo! Sugiro, com toda a segurança, que leiam a história. Aceitamos comentários e críticas, como sempre o fizemos.
Com umas valentes cabeçadas,
Marijoana
