quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Perdida entre mundos, achada em Coentros

-Viu-me lá na fronteira, dona Rosália?
- E-eu?
- Sim...foi a senhora que me ajudou. Se não fosse a senhora a esta hora ainda estava lá, ou presa, quem sabe?- Eu arrumava as coisas da minha sacola suja, só me apetecia dormir na noite em que cheguei e por isso as arrumações ficaram para depois. A minha vida não foi nada fácil...Tanta coisa, tanta coisa para agora estar novamente sem o Bóris. Fugiu da prisão? Mas ele não viu que isso só ia complicar as coisas? Enfim, já não sei de nada! Eu fugi porque estava farta de tudo, desta vida, e porque queria ir atrás daquele que ainda hoje é o meu grande amor. Se fui até Paris? Fui, sim. Mas lá só tive chatices. Fiquei numa casa de "colegas da Melanie". Fui bem tratada...atenção! Bem tratada em termos de hospitalidade e simpatia! Não tive cá contactos com outros indivíduos que não o meu grande amor...Como sonhei, deitada naquele pequeno divan perto da marquise. Lembrava-me dos seus beijos, dos seus carinhos, das seus monólogos revolucionários que me faziam calar-lhe a boca com mais um delicioso e libertino beijo. Lembrei-me também dos senhores Bellini, da velhota, do meu amigo Matteo, de quem quero matar as saudades. Saudades das nossas conversas pela noite fora...Tive saudades das meninas Bellini, das suas zangas e diabruras e ainda mais do Nico, o miúdo mais querido de Coentros e mais porco. Ai...Até do senhor Custódio e da senhora Adelaide tive saudades. E do Ismael também, aliás, foi graças a ele que parti nesta aventura! Ainda nem lhe falei direito...Nem com ele nem com toda a gente! Mas agora no baile de máscaras vai ser mais fácil matar as saudades. Fiquei na casa da menina Rosália, que, curiosamente, já não é menina, é senhora. Grandes mudanças. Fiquei lá porque a casa é maior e para descançar. Se ficasse na dos Castro teria de falar de tanta coisa que agora ainda não me apetece contar. Se ficasse nos Bellini, a senhora Belina torturava-me noite a fora não só por causa do Bóris, mas para saber o que tinha feito. Grande jornalista dava a senhora Belina. É o jornal de Coentros. Um jornal internacional. Prossegui então com a minha pergunta:
- Então menina Rosália? Não me vai dizer o que estava a fazer na fronteira às tantas da manhã?- Ela abria cuidadosamente um fato que a senhora Paiva e Castro me comprou para o baile de mascaras.
- E o que é que isso interessa agora, rapariga? Despe-te mas é e veste lá aqui o vestido de noiva!- Vestido de noiva...Meu Deus! Eu deixei o Gil no altar! Como é que o vou encarar agora? A dona Rosália contou-me toda a aventura dele e da Melanie e da dona Bellina, entre outros, para me encontrar e encontrar o Bóris. Deus meu...Como vou olhar agora para a cara dele, depois de ter partido em mil bocadinhos o seu coração? Que horror, fui tão cruel para o Gil. Mas que poderia eu fazer? Ao menos por esta noite de aniversário do Dolce, no baile, estarei mascarada. Não tenho de dar a cara, se é que me entendem. Como irão reagir as pessoas?
- Hum...Primeiro- continuei eu- não respondeu à minha pergunta, menina Rosália e...
- Senhora!
- Seja...e segundo: Eu não me vou vestir com a senhor aqui...
- Não seja por isso eu saio!
- Não antes de me dizer o que fazia na fronteira àquela hora!- Ela já ia a sair quando se virou e disse:
- Eu e o meu marido fomos lá buscar uma encomenda da minha prima Janete.
- De onde?
- França.
- E os correios?
- Hã?
- Normalmente as encomendas vêm por correios...pessoas que trazem coisas...
- Ah! Mas isso...era importante, sabes? Foi entregue em mãos.
- E o que era?
- Ora! Tenho de te contar? Uma pessoa é simpática, ficas aqui para ficares sossegadita e és assim? Veste lá o vestido que é bem jeitoso, vá...- e deteve-se ao pé da porta.
- Hum...dona Rosália?
- Que é agora?
- Saia do quarto.
- Ah, ok- E saiu. Não me cheira nada bem esta história. E não estou ao pé do Nico! Quando me apercebi do vestido que me tinham comprado fiquei espantada...era mesmo de sonho! E deve ter sido tão caro. Uso esta noite e amanha faço questão de o devolver. E...uma máscara dourada. Os senhores Castro são tão queridos...uns verdadeiros pais. Pais? O Quim é o meu pai!! E deixei-o na igreja também a ele! Parece que quando andei fugida as memórias se apagaram...O meu único pensamento, para além do Bóris, constantemente, era " como é que eu vou sobreviver hoje". Não pensei em mais nada. Salvo quando pensava na marquise, à noite. Mas apenas tinha saudades, não pensava, se é que me faço entender...As coisas más, confusas e inquietantes ficaram todas em Coentros. As boas levei-as comigo. Vesti o vestido e olhei-me ao espelho do armário da dona Rosália. Era muito pequeno, só via o meu busto. Foi então que decidi partir à procura de um espelho de corpo inteiro e entrei num quarto. Era o quarto dela, da senhora menina Rosália. Só havia fotos dela espalhadas por todo o lado. Fotos com paisagens atrás que se viam que eram falsas, fotos na praia com um fato de banho às riscas, fotos dela num piquenique, fotos dela com a família e...espera...há duas meninas Rosálias? Iguais. Como duas gotas de água, na foto com menos 10 anos, é certo, mas...a menina senhora Rosália tinha uma irmã gémea!! Nunca contou a ninguém...porque será? E se...não. Adiante. Procurei um espelho grande e encontrei: Estava ao lado da janela do quarto mesmo ao lado da mesa de cabeceira que estava mesmo ao lado da cama cheia de folhos e flores e mil almofas de renda. Olhei-me ao espelho e fiquei sem reacção. Nunca na vida me tinha visto com um vestido assim e percebi que não era tão feia como me sentia. Cheguei a pensar como foi possível o Bóris gostar de mim...Não tenho nenhum atractivo! Mas com aquele vestido eu estava uma diva. E os sapatos? Ficava mais alta uns centímetros. Ainda bem que brinquei com os sapatos da minha mãe em pequena, porque agora ajuda a andar com aqueles sapatos que, apesar de não serem nem de perto iguais aos da minha mãe, têm salto. E a máscara? Ficava misteriosa, exactamente o que eu queria. Saí do quarto e fui me arranjar. Chegando à hora fui ter à sala, levando uma bolsinha que também a senhora Paiva e Castro me emprestara. O marido da dona Rosália: A sua máscara: Ele mesmo: Oficial do exercito alemão.
- Bem, gapagiga, estás muito bem aganjada! Olha lá! Não há gusso que te escape assim!- "gusso", soa tão mal...
- Obrigada, senhor "gusso", digo, senhor...
- XARAM!- A dona Rosália entra na sala. Tinha um vestido do século dezoito, pelo que estudei na escola.
- Gostam? Tenho conhecidos no teatro...emprestaram-me.
- Amog! Estás uma pguincesa! Mas agoga como é que sais do hall de entgada?- Esse foi o problema. Para sair, para andar na rua e até para entrar no restaurante. Eu, que queria ser o mais discreta possível, tive de levar com os olhares de gente admirada e assustada por a menina Rosália estar presa na porta do restaurante. Aquelas ancas do vestido eram demasiado largas. Cá para mim, é vingança de alguém. Por favor! Até na rua os cães ladravam e as crianças choravam quando a menina Rosália passava. Não fui discreta, portanto. A sua chegada foi anunciada pelo choro do Nico, uma pequena abelhinha com ferrão que fiz questão de abraçar mais tarde. Depois, segui-se o episódio das "ancas presas" era o alemão a empurrar de fora para dentro e os convidados dos Bellini a puxar para dentro. Um escândalo. No meio daquilo tudo, tocava a um canto um quarteto de cordas, que alegrava a malta tocando uma tarantela italiana, rápida, inspirada no puxa empurra da dona Rosália. Durante este episódio, matava saudades do restaurante a olhar para as mesas, para a decoração e para o...Gil? O Gil não estava vestido de noivo, como da última vez que o vi, mas de padre. Estava a um canto, a preparar qualquer coisa, nem me viu. Óptimo, estarei assim tão diferente? Olha...o Dário. Estava tão engraçado. Imaginem só! Vestido de mulher...quem diria?Uma mascara de penas e plumas rosas tapava-lhe o rosto. Estava ao balcão. Estranho.Cheguei-me ao pé do balcão e vi que preparava molhos.
- Se esse molho é para mim, prefiro sem nós moscada- Ele olhou para cima e estagnou.
- Sim senhora...a única pessoa que não gosta de nós moscada é...Regina és tu, amor!!! Amiga!! Estava a ver que nunca mais vinhas!
- Shhhhhhh! Não quero que meio mundo fique a saber que cheguei- Naquele momento a dona Rosália é solta da porta.
- Obrigadinha!- grita ela de braços no ar- Está tudo nos conformes!- Os músicos seguem para o fim da tarantela e as pessoas ou dançam ou comem da imensidão de comida italiana que havia. O Dário, entretanto enchia-me de beijos viscosos na cozinha. Tirou-me a máscara para me ver bem a cara, abriu-me bem os olhos, mediu-me o pulso e apalpou-me o rado.
- Tudo no lugar!- disse ele- Agora, vamos voltar para a festa, amor. Aquilo está um máximo- eu ia-me a virar para voltar para a festa...- Regina, amor, espera- disse o Dário. Há uma coisa que te quero contar...
-Hoje não, Dário, por favor! Hoje só me quero divertir...
- Como queiras, fofa!- disse ele pondo a mascara na cara e levando-me para a festança italiana. Bois, abelhas, fadas, mulheres do século XVIII com ancas do tamanho do globo terrestre, ciganas, minhotas, divas, capuchinhos esquisitos, padres a fingir, padre a sério, mosqueteiros e duendes, mulheres homens e homens mulheres e...príncipes? Tudo se viu naquela festa. Estava sentada numa mesa, com a senhora Castro, que apenas se limitou a levar uma máscara de cara que valia por todas as outras da sala quando alguém me estendeu a mão. Um príncipe. A tarantela já não era tocada e no salão dançava um boi e uma cigana, o senhor Belini e a senhora Francesca, ao som de uma música também italiana, mas uma música mais lenta. Aceitei o convite do estranho que apenas me estendeu a mão. Surgiram mais pares na pista e nós éramos agora mais um deles. A minha mão pousava no ombro dele e a sua tocava na minha cintura num envolvimento estranho e não totalmente desconhecido. Tinha uma mascara que lhe cobria o rosto todo. Se ao menos tivesse apenas os olhos tapados...Mas não. Comecei a falar durante a musica e alguns encontrões da menina Rosália, encontrões esses que ela não sentia. As suas ancas haviam ganhado vida própria e dançavam uma para cada lado.
- Esta música é bonita.
- Hum, hum- respondeu ele. Cheirava tão bem.
- Este quarteto é mesmo bom.
- Hum, hum- respondeu ele. Cheirava tão bem.
- O senhor é daqui de Coentros? Nunca o vi por cá...Bom, também andei um pouco por fora estes tempos porque...Bom, não interessa o porquê...-Naquele momento começámos a dançar mais para o lado da porta do quintal, começa-mo-nos a desviar, por assim dizer. Eu não disse nada, poderia até ofender o cavalheiro. Mas ele abre a porta do quintal e seguimos a nossa dança, sem ninguém notar, pelo jardim a fora. E paramos ao pé da fontezinha que o senhor Guiseppe fez para embelezar o pequeno jardim. Naquele momento, sem tantas luzes e cores e música alta, com apenas o som miúdo do quarteto, que tinha ficado na sala de festas, consegui ver o luar reflectido nos seus olhos. Pensei: Isto é demasiado romântico, o que estou aqui a fazer eu amo o Bóris. Mas naquele instante:
- Talvez a mim me interesse o porquê de teres fugido...- Semiserrei os olhos e olhei bem nos dele e, lentamente, aproximei-me do príncipe. Levantei a minha máscara. Suavemente fui levantando a dele. Surgiu um beijo demorado. Era ele, o meu amor. Não houve gritos, nem abraços exagerados nem muitas palavras.
- Estou com os Bellini, mas ninguém pode saber.
- Está bem...mas porque fugiste?
- Isso não interessa, Regina...O que interessa agora é que finalmente estamos juntos. Onde andas-te? O que fizeste? Deixas-te o Gil, viste o meu diário, o Dário contou-me e...
- HEI! MES AMIES! VAMOS CORTARRR O BOLO DO DOLCE PRAZERR!! Não querrem virr? AH! E a velha Belina vai fazerrr striipp tizeeeeeeeee! Borra?- Quem mais poderia ser? Melanie. Melanie bêbeda. Sem capuz, já. No momento em que entrou de rompante pela porta do quintal o Bóris virou-se para a lua, de costas para ela. E se querem que vos diga, mesmo que ela o tivesse visto ela nunca se ia lembrar. Naquela noite tive de falar com muita gente mas só um não me falou: O Gil. Tive de dançar com alguma gente mas só um me fez feliz: O Bóris. Tive de ver muita coisa mas só uma me chocou: A dona Bellina, vestida de "Minhoca de croché", pelo menos era o que dizia de que estava vestida, argumentando que era uma maneira de se manter quente e estar linda...Ainda me chocou mais quando lutava contra as malhas da sua "máscara" para dazer um "strrriiiipe teeezêêê!!!", como dizia a Melanie bebendo de um em um, humm...deixa ver...segundo, um copo com qualquer coisa. Até podia ser álcool puro.Ainda bem, e não sei como, que o Nico dormia ao meu colo quando tal acontecimento se deu. Pobre menino e pobre de mim. Olhei para ele, era tão fofinho e gordinho, e lembrei-me de que ficou mesmo muita coisa por dizer ao meu grande amor.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O olhar de uma criança ... perdão ... um homem!

Parece que a festa vai ser já esta sexta-feira. A mãe tem andado muito atarefada a preparar tudo e nos intervalos aproveita para fazer o meu fato. É uma coisinha ridícula, cor-de-rosa, com botões e cheio de remendos em tons semelhantes, já que o tecido não chegou. A verdade é que estou um pouco para o cheinho, quiçá obeso, mas a minha mãe acha que eu estou perfeito. Chama-me "porquinho". Sim e o meu disfarce vai ser esse. Eu perdoo-lhe pois é mulher e elas tendem a olhar para o mundo de uma forma pirosa, sonhadora e ... estúpida! Mas pronto o que se pode fazer, apesar de tudo faz um pudim de banana divinal e por isso está perdoada.
- Mio bébé está tão lindo! Coza fofa da mamã!
Eu dou um risinho irritante para ela se derreter e me deixar em paz depois de um último "aperto" de bochechas. Queria ver se ela gostava se lhe fizessem o mesmo! Ás vezes ouço o meu pai a tentar as "bochechas" mas a resposta dela não é um risinho irritante mas antes uma chapada ruidosa seguida de um "abuzado".
Como está na hora do jantar a minha mãe desceu para ajudar no restaurante. Aproveitei para gatinhar até ao quarto do russo para continuar a minha leitura. A mamã ainda não mexeu no quarto desde que ele saiu, em parte porque a avó não a deixa, diz que ele vai voltar e por isso não se vai mover uma cadeira que seja. Ela vai para lá todos os dias, abre os armários, tira as roupas das gavetas e deita-se na cama abraçada a elas. Cheira-as, beija-as eu tenho impressão que a velha tem andado com as cuecas dele vestidas.
Bom, mas eu tenho é de procurar o livro ... ora eu deixei-o em cima da mesa-de-cabeceira. Onde está o livro??? Mas ... eu tinha-o deixado aqui tenho a certeza! Desatei a chorar.
- Qui foi mio amore? Tens cocó?
A consideração que esta mulher tem por mim! Ou está com fome, ou borrou-se ... francamente, este é claramente um choro de "mãe auxilia-me na procura do livro Crónicas da Batata Ferida de Dimitri Tuberculov"!
- Oh pobrezito! Devem ser cólicas ... mama chega aqui por favore!
- Le amore di mi vita voltou?
- Non mama, o Nico está com cólicas!
- Qué puto maricas.
Já te digo quem é o maricas velha trabiteira. Levanto-lhe a saia e ...
- Ah!! Maledito ... vais levar umas palma...
- MAMA? Essa cuecas são de ... MAMA!
- E depois? E-eu fiquei sem cuecas e ... tu não lavas as minha cuecas tenho de me arrandjar!
- Por amore de Dio tiro isso mama.
- Pronto, pronto!
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! Ponha de novo! Ponha de novo!
Nunca na minha vida pensei ver a ... intimidade de uma senhora de idade e prefiro não ter de assistir novamente ao ...
- Oh vomitou! O mio porquinho ... o almozo fez-lhe male. Pronto já passou!
E pronto, mais um dia que fiquei na agonia de não saber o que aconteceu à batata soviética ... se foi cozida ou assada. A mamã deitou-me na minha cama e apagou a luz. não tinha sono e fiquei a olhar para o tecto e a ouvir o barulho vindo do restaurante. A noite foi concorrida, ouvia-se muita gente a falar mas não conseguia perceber o que diziam. Depois comecei a pensar no meu fato, aquela coisa horrenda e cor-de-rosa, posso ser apenas um bébé mas tenho uma reputação a manter. O Jean-Paul também vai cá estar e vai me torturar a noite toda se me vir naquele estado. Tenho de fazer alguma coisa.
Os meus pensamentos foram interrompidos por um grito. Pareceu-me ouvir a Panelona a falar e depois a minha mãe gritou qualquer coisa que não percebi. Depois ouvi alguém a subir as escadas a correr, passos no corredor que param junto à minha porta. Fechei os olhos fingindo estara dormir.
- Nico? Estás acordado filho?
Mesmo que estivesse a dormir ela fez-me o favor de me levantar da cama. Levou-me para à rua. Estava muito frio e a chuviscar. Tapou-me com o seu casaco e entrámos num carro. Para onde será que vamos?
A viagem foi curta, menos de 10 minutos. A mamã e o papá deixaram-me a mim, às gémeas e ao meu irmão na casa dos Paiva. Despediu-se dizendo que iam fazer uma curta viagem e que estavam de volta na manhã seguinte. Deve ser grave para terem fechado o restaurante tão cedo. O senhor Paiva e Castro segurou-me ao colo. Gosto do homem. Inteligente e de poucas palavras, a primeira a pessoa que me trata como um adulto. Levou-me à janela para os ver partir. O carro era do marido da Panelona. Ele ía a conduzir com a esposa ao lado, a mamã e o papá vão no banco de trás. Coisa estranha!
- Não te preocupes os teus pais foram tratar de uns assuntos.
Olhei para ele com ar de quem quer mais informação ... ele percebeu-me.
- Parece que a minha Regina está na fronteira mas não consegue entrar no país porque não tem identificação. Eu bem queria ir ter com ela mas a Malú não me deixa, diz que estou velho para estas coisas.
Tentei transmitir-lhe, novamente através de um olhar, que as mulheres não percebem nada de ... coisas. Ele percebeu-me.
- Tens razão Nico eu devia ter ido. Não confio naquela mulher.
(Na minha mãe?)
- Não. Na Rosália, ela quer alguma coisa não ajuda as pessoas sem outra razão ou algo que lhe convenha. Ainda estou para perceber como é que ela soube onde a Regina estava.
(Deve ter sido através do marido.)
- Não ela sempre teve problemas de reumático!
Ele não me percebeu.
Dormi confortávelmente numa caminha de menino crescido, desculpem, numa cama de homem. Fui o primeiro a acordar e por isso resolvi dar uma volta pela casa, estava curioso para conhecer a biblioteca. A casa é grande, tem dois andares. Como todos os bébés odeio escadas e por isso rezei para que tudo o que me interessa-se estivesse naquele piso. As escadas são complicadas e não percebo como se utilizam. O meu percurso foi subitamente interrompido.
- Oh qui coisita mais fuofa!
Uma empregada espanhola, era só o que me faltava.
- Tão gordito.
Tentei ignorá-la mas ela pegou em mim e não pude fazer nada. Beijou-me, beliscou-me, abraço-me ... bolas que rapariga carente! No último abraço fiquei sem ar. Quase que desfaleci!
- Que está você a fazer? Deixe o Nico em paz não vê que a criança está roxa?
- Perdon senhore Paiva.
- Vá trabalhar "senhorita".
- Desculpa Nico não te falei da Pilar a nossa empregada. Ainda bem que estás acordado quero-te mostrar uma coisa.
Parece que leu os meus pensamentos. Levou-me à biblioteca e percorremos as estantes, as prateleiras ... foi mágico! Tentei dizer-lhe "adopte-me" com os olhos mas ele mais uma vez não percebeu. Acho que perdemos a nossa ligação.
- Eduardo! A Gigi chegou!
- Gigi!
E pronto. Quase que me deixou cair ao chão. Beijou-a, abraçou-a enquanto chorava desalmadamente. A rapariga estava diferente. Continuava bonita, mas estava magra e com um ar cansado. Deve ter tido uma viagem dificil.
A Panelona estava à porta com um ar misterioso, como se estivesse a planear alguma coisa. Depois veio juntou-se aos outros e anunciou que a Regina ía ficar na casa dela e não voltaria a trabalhar no restaurante. O Eduardo protestou mas a Regina nada disse. Saiu com a Panelona e o marido e nem se despediu.
Evitou-se falar na Regina, principalmente por causa do russo. Todos sabiam que estava fugido e não queriam que ele fizesse uma loucura e fosse apanhado novamente. A policia começou a desconfiar do padre e o papá ofereceu-se para abrigar o russo novamente. Volta hoje à tarde. A avó ainda não saiu da banheira, tem estado de molho a manhã toda. O Gil tem andado pela casa a protestar por causa do russo e a exigir que lhe contem sobre o paradeiro da Regina.
Para acalmar as coisas a mamã pediu para que ele e o Amadeu fossem ao mercado a "Trombas" para não haver confusão. Eu aproveitei e vomitei o meu fato de porco e a minha mãe começou a fazer um de abelha. Sempre é uma cor mais masculina.
O russo chegou descretamente pelas traseiras. E descretamente a minha avó atirou-se a ele.
- Amore mio!!! Nunca mais vais fugir de mim!
- Senhora Belina tenha calma. Não quer que me apanhem pois não?
- Claro que no. Vo parlare mais baixo amore!
- Deixe o homem mama! Vamos venha para cima o seu quarto está na mesma à espera que regressa-se.
- Obrigada. - disse o russo dando-lhe um beijo na face.
A minha mãe corou. Eu não sei o que é que aquele homem tem mas é o meu herói. Quando for grande quero ser como ele!
- Eu sei que pode paredzer cedo mas ... vamos ter a festa amanhã e ... eu arranjei-lhe um fato! Era do Giuseppe, mas agora não lhe serve. O desgrazado engordou!
O russo riu-se. Era o fato de principe do meu pai. "Princeppe Encantado" como ele sempre dizia. Não sei porquê mas acho que ele não gostar nada disto.
- Não posso aceitar! E o seu marido?
- Não se preocupe, o Giuseppe já tem fato! Fiz-lhe um que lhe serve que nem uma luva ... Boi! Com cornos e tuto!
- Está bem, então aceito.
No dia seguinte as coisas não foram tão pacíficas ...
- O Quê??? O meu fato???
- Sim Giuseppe acho que é bom mudar ... e tens de admitir qué engordas-te muito desde o ano pazado.
- Engordar ??? Io?
Ela lá o convenceu com um segredinho seguido de um sorriso malandro e é claro que eu sei o que isso significa. Ela vai devolver-lhe as botas de cowboy que lhe tirou na última vez que o apanhou com outra, envergando as ditas botas.
O fato de abelha não ficou nada mal. Tinha um ferrão e tudo ... o Jean-Paul ficou cheio de inveja. Aquele menino da mamã estava vestido de mosqueteiro ... espera lá! Ele tinha uma espada! Também quero buááá!!!
A Melanie estava muito produzida. Eu nem percebi qual era o disfarce dela, mas todos os homems ficaram a olhar para ela especados mal ela entrou. Tinha um vestidinho curtinho, apertadinho e com uma cor esquesita, era ... quase cor de pele e ...
- Transparente? Melanie vai por alguma coisa ... tapa-te com a capa ao menos!
Quando a mamã disse aquilo os homens começaram a olhá-la de forma maldosa. Depois é que reparei que a Melanie tinha um cestinho. Era o Capuchinho Pelado (na verdade ela tinha lingerie por baixo, mas o papá achou o nome engraçado).
Foi então que ela entrou. De vestido branco e longo, com o cabelo negro apanhado e uma máscara dourada. Estavam todos embasbacados com tamanha beleza. Percebi que ninguém a tinha reconhecido, mas eu vi logo que era a Regina. O russo também a reconheceu quando o vi estender a mão e a convidou para dançar.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Salsa? Ou...Una mascherata!

- Amadeo portare la tavola! Gil lava il balcone! Dário prepara le salse! Mio amore, Francesca, non mettere più pepe nel cibo! Senhora Belina ... Fare qualcosa! Ma perché quella ragazza, Regina, tinha de partire? Perché, mio Dio??- Estava com ils nervos em franja, é vero, ma por una bonna razão! Il mio ristorante está cheio! Ma non é bello? Eco! Gente! Gente! Gente! Milhões de pessoas vêm de todo o lado de Moscardo! E tudo reclama, perché non temos muitos empregados...
- Senhor José, não temos mais salsa para o molho, e agora, amor? Que vamos fazer??
- Calma, Dário! Calma!
- Amore, dov'é lá cenoura para picar?
- Senhor Guiseppe, precisamos de mais guardanapos...
-Oh Maledeto, trás-me las pantofoles!
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH- gritei- Não lhe vou buscar as pantufas,
Sua vecchia noiosa e brutta! E...vou sair!
- Amore? Mas perché! Alora non!
- Non Francesca, agora si! Ma dov'è il Matteo? Dona Belina! Ma dov'é il tuo neto?
- Las pantofoles! Sem as mias pantufas non falo!- AHHHHHHHHHHHHHHH! Fui me embora e atrás de mi bloccato la porta del ristorante. Finito! Que inferno! Mamma mia! Ma que vida la mia! E que raio de vila esta Coentros! Allora il russo fugiu da prisão! Foi uma fuga planeada, segundo il povo conta. Parece que foram dois homens fortes e uma rapariga franzina, mas também ela esperta que tiraram il russo de la prisão e deixaram inconscientes dois guardas! Guardas esses que estão hospitalizados e...Immaginate: Os dois non se lembram de nada! Uma confusão! Mas Coentros está louco! Anda tudo cheio de guardas loiros e até la "panelona" está casada! Que confusão! A rua estava deserta, parecia que tuto o que era gente estava no ristorante, ma que cosa! Gritei: MATTEO! E um bando de pardalito assustou-se e volò. Porca miséria! Dov'é quello bandino? Ah...anda atrás da francesa ou da espanhola...
- Dário?- Vejo Dário, mio molhista, sair do ristorante e ir a casa do sacerdote! Ma que maledeto! Il ristorante está cheio de boca para comere! Fui atrás dele. Devia ir buscar salsa...No caminho encontrei Quim, il bebado que costumava estar no mio ristorante.
- Olá, senhor italiano mais velho!
- Quim, como stai?
- Não, não comi nada hoje, só bebi...alias, tenho aqui ainda uma gotinha...ahhh...ja está. Agora mesmo que lhe quisesse oferecer já não tinha nada, é a vida.
-Non...Só estou aqui a respirare um piccolo, perché hoje il mio Dolce Piacere está cheio de faminto!
- Ah, mas isso é bonzinho, não é?
- Eco. Ma non tenho gente para trabalhare...
- Ai! Não tem o camandro!
- Come?
- Come nada! Bebe! Vai um golito?
- Non! Que bafo de licore! Eu cheio de problema e tu so sabes beber!
- Epá, vamo lá com calma, oh senhor italiano! Aqui o Quim sabe de uma pessoa, Iph! Desculpai-me, que quer trabuquir.
- Sapete?
- Mau...já não é para o restaurante? Agora é sapateiro?
- Non, non, diz-me grande bêbado, quem é! Perché assim non consigo manter o negócio, et quello ristorante é la mia vita!- Então, o bêbado, levou-me até à casa do padre, ou será que fui eu que o levei? Ao entrarmos na casa, depois de muitas tentativas de abrir a porta com a chave...
- JARAAAAAM! Tás a ver o loiro sentado na cadeira? O russo...Ele tava a dizer ontem que queria arranjar trabalho!- Ele levantou-se rapidamente e ficou espantado. E io???
- Senhor Guiseppe, sente-se- o russo foi me buscar, fechou a porta da rua e sentou-me no sofá.
- POLICIA!
- Não!- disse il russo- não, por favor! Eu não fiz nada...
- Comunista!
- Não! Espere, sim! Não! Espere, senhor Guiseppe, por favor, não me denuncie, por favor...
- Ma tu raptas-te la nostra Regina...
-Não! Não, por favor! Acha? Ela fugiu, aliás eu estou só mesmo a tentar arranjar dinheiro para ir ter com ela...Quim, porque foste contar?- Ma Quim já estava dormindo no sofá.
- Ele estava bêbado...- disse eu- Ma figlio...non podes ser um fora da lei!
- Eu sei, senhor Guiseppe...mas...- Entra alguém de rompante pela casa.
- Dário? Tu aqui ragazzo? Ma tu...
- Oh!- disse la bicha- russo? Oh! Não! Hum...err....um russo!!!
- Calma Dário!- disse io levantando-me do sofá- Ele non fez mal a ninguém, não vas denuncia-lo!
- Não, não, não vou...oh...Mas russo, amor, tu por aqui?- Algo não me estava a fazer acreditar que o Dário non sabia...Io tinha o visto ir lá da prima vez!
- Ma tu non tinhas vindo cá buscar salsa?
- Eu?...Ah...mas não vi nenhum russo, senhor Guiseppe...Aliás, vou deixa-los! Adeus!- E saiu porta fora.
- Bóris, o padre sabe que tu stas aqui?
- Sabe...Ele, o Quim e o Dário...e agora o senhor.
- Attendere! Espera! Il Quim e il sacerdote sono li due uomini forti? E Dario e il ... Oh! era la bambina que o povo anda falando!- O Bóris non sabia de nada do que se passava fora da casa do padre.
- Agora só preciso de dinheiro para ir em busca da Regina. Sem dinheiro não consigo...
- Hum...aspetta um piccolo, ragazzo...- pensei eu- Já sei! Daqui a quatro dias é o secundo aniversário do Dolce Piacere e noi estávamos a pensar fazer una festa!
- Mas como é que isso me pode ajudar?
- Buonno, para agradar aos bambini nós concordámos em fazer o que eles queria: una mascherata!!!- Ele ficou com cara de parvo.
- Hã?
- Un baile de máscaras, mio Dio!
- Mas como é que isso me vai ajudar?
- Prima: Algum dinheiro da festa vai ser para ti e dopo tu podes aparecere sem te esconder...Tens una mascara! Ma,spiacente, ma tenho de dizer à mia Francesca...
-Não...
- Então, non há dinheiro!
- Combinado!
- Eco! Allora: Vamos ver o que Francesca diz! Ma ela é una bella donna, um dolce, ela vai compreender.
- Obrigada, senhor Guiseppe, por tudo. Por me ter ajudado tanto e por me estar a ajudar tanto agora!
- Oh, ragazzo! Tu és un uomo in amorato, come io...L'amore é la cosa più bella in questa vita! Ah! E mais una cosa!
- Diga, diga!
- Tens salsa?

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Cães de louça

- Wolfgang está acordado?
- Sim chuchuzinho, deseja alguma coisa?
- Deixa-te disso não está ninguém a ver-nos, toca a levantar! temos muito que fazer hoje.
- Pgonto já vou. Vou tomage um banho e já desco liebling.
- Mau, mau deixa-te de lamechices!
Este homem tira-me do sério. Eu que nunca gostei de homens ando agora com este calmeirão cá por casa, a deixar as cuecas por aí espalhadas, arrotar à mesa e a beber o leite directamente da garrafa. Santa paciência!
- Estou pepgagado quegida.
- Tens a aliança?
- Opss, obgigado docinho!
O pior é fingir estar apaixonada pelo dito ... homem. Faço um esforcinho e agarro-me ao braço dele. Quando as pessoas passam junta-mos os lábios rapidamente. Ele tem andado a abusar ultimamente e por isso acabaram-se os beijos. Eu faço os possiveis para não arranjar suspeitas e por isso ando sempre alerta. Claro que sei os boatos que se circulam sobre mim. Aquele nome "panelona" que as crianças gritam por aí, os olhares vindos da Celestina, os comentários no restaurante e na própria drogaria. Mas eu não tenho tempo para perder com essa gente e não dou satisfações a ninguém.
A verdade é que esta gente é fácil de iludir. Ora eu desapareço do nada e volto casada, e alguém se lembra de me perguntar porque desapareci? Claro que não. Estão mais interessados no meu casamento devido às suspeitas que por aí havia. E é melhor assim, afinal não seria nada bom que descubrissem a verdadeira razão que me levou à Alemanha. Este país está cheio de estrangeiros malfeitores, bandidos e assassinos que vieram arruinar a paz do meu lar. Italianos, russos eu sei lá e agora os furagidos da guerra. Os judeus entram aqui e tomam conta de tudo. É só privilégios para os coitadinhos, e para nós as pessoas trabalhadoras que sempre deram a vida pela pátria ... nada! Ficam com os restos. Isto tem de acabar!
Decidi partir no momento em que estes inúteis estavam demasiado ocupados com os acontecimentos das suas vidinhas insignificantes. Ninguém me impediu ou questionou e suspeito que só deram por minha falta dias depois. Tenho família na Alemanha, gente importante. A minha prima Lucrécia é casada com um general alemão que é irmão de padeiro em Berlim. Padaria essa que é a preferida de Hitler e foi assim que o marido da Lucrécia conheceu o chefão. Ora eu fiquei hospedada na casa deles. Uma mansão enorme, com todos os luxos que se possam imaginar. A guerra não afecta os ricos e poderosos. O marido da Lucrécia apenas participa nos desfiles, levanta o bracinho e ouve os discursos, o resto do tempo está estendido no sofá a fumar charutos, na caça com os amigos ou metido num cabaret de volta das meninas da má vida.
Até que houve um dia que a Lucrécia recebeu convidados especiais. Sim, Hitler e os seus compadres foram jantar lá a casa a convite do Albert. Eu estava chiquissima nessa noite. Tinha um vestido de veludo azul e uma gargantilha de diamantes, o cabelo ao alto e uns sapatinhos pretos de verniz. Fiz sensação. passei-me pelo salão com um ar distante e desinteressado e logo chamei a atenção Führer.
- Gute Nacht dame!
- Ai senhor Hitler ... eu ... sou uma grande fã sua! Desculpe estou um bocadinho nervosa. O que é que disse?
- Oh priminha mais respeito. Sua excelência cumprimentou-te, agora levanta o bracinho e repete comigo ... Heil Hitler!
- Ai Hitler?? Mas isso é estúpido e ...
- Heil Hitler! - respondem todos em coro.
- Agora já podem falar.
- Mas Lucrécia, eu não percebo uma palavra de alemão! E não me parece que sua excelência perceba português.
- Aí é que se engana minha quegida! Vivi uns anos em Pézinhos-de-Lã e sei falag em pogtuguês pegfeito, modéstia à pagte.
- É o destino! A minha mãe era de Pézinhos-de-Lã! Passávamos lá os Natais.
- Que facto tão bonito meine liebe. Quegue dag-me o pgazeg de me acompanhague ao jantag na minha mesa?
- Será um prazer!
Falámos de tudo e mais alguma coisa. Das ruas de "Pézinhos", dos nossos pratos favoritos, dos filmes que gostamos, música, política internacional eu sei lá ... ah e no fim acabei por descobrir algo extraordinário ... partilhamos o ódio por judeus!
- Eu digo-lhe Hi, posso tratá-lo assim? Bom o que eu mais odeio nos judeus é o facto de serem individuos extremamente bem sucedidos e inteligentes que fazem parecer o comum dos mortais um completo asno. Eu sou uma defensora convicta de que o sucesso da pessoa deve ser baseada na ... batota! E você? Qual é o seu motivo?
- Cheigam mal dos pés.
- Ah ... pois, realmente é uma boa razão. Está bem visto sim senhor.
- Sabe minha quegida você é a pessoa mais integessante que conheci esta semana. Eu sei que isto da guegga paguece divegtido mas é uma chatisse. Dá pgezuíso e as manchas de sangue custam a saig. Não que eu me meta no meio da gentalha que está a lutag pelas minhas convicções, é que não tenho jeito nenhum paga fazeg a bagba e estou sempge a cogtag-me. Dito isto, peça-me qualqueg coisa e eu fagei pog si.
- Qualquer coisa?
- Qualqueg coisa.
- Bom ando com problemas na minha aldeia ...
Contei-lhe o meu plano, contei-lhe acerca do comunista e do judeu que por lá anda. Convocou os seus homens de confiança e disponibilizou alguns deles para me acompanharem. Foi aí que conheci o meu "marido", achei que era uma boa maneira de disfarçar perante os vizinhos e para acabar com a "panelona". Quero voltar a viver feliz na minha casa, feliz na minha vila. E também envolve outros assuntos que não vou revelar para já.
- Obgigada senhoga ... com a sua ajuda Pogtugal segá meu!
- E já agora ... sempre sonhei em ter um par de cães de louça na entrada da minha loja e ...
- Feito! Vou mandage fazeg um pag de canitos em ougo!
- Eu preferia em louça mesmo.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Foi chiquérrimo!

- Percebes-te tudo, meu filho?
- Percebi, senhor padre...O Dário finge desmaiar, o senhor depois passa-me as chaves, corro, troco de roupa com o Quim.
- Então? Já não chega de falatório e pecadinhos?- disse o guarda, o Zé, um fofo.
- Ah! Sim- disse eu- falta só um pecadinho pequenino...Mas como está tão sozinho eu vou lhe fazer companhia e deixar este senhor se confessar em paz.
-Não, não se incomode...
- Faço questão! Até porque não é de bom tom estar aqui a ouvir o que este belo macho fez de mal na vidinha...Vá, vamos lá os dois conversar! Por acaso viu por aqui o Silva?- perguntei.
- Não, ele foi visitar a mãe.
- Óptimo!
- Óptimo?
- Claro, assim estamos mais...à vontadinha!- Nunca trocaria o russo pelo Zé Carlos! Oh, Cristo! Nunca na vida, isso seria um grande pecado, um pecadão! Mas pronto...Lá teve de ser. Ah! Já me esquecia:
- Bóris!- sussurei para o russinho, antes de seguir atrás do Zé- se o plano A não der certo, parte para o plano B!
- Hã? E como é que eu sei qual é o plano B??
- Vais saber!! Beijos.- E lá fui eu atrás do Zé Carlos. O Zé Carlos sentou-se numa cadeirinha de madeira, logo à saída das celas e eu fiquei em pé, a olhar para ele e para o guarda que organizava uns papeis numa secretaria ranhosa mais à esquerda. O silêncio era um horror.
- Está húmido...Ainda apanha aqui uma daquelas doenças dos ossos que agora se ouve tanto falar!- disse eu- Não o aflige?
- Nã! Sou forte!
- Lá isso é...E agora é guarda? Que giro...O que mais ambiciona?
- Hã? Não percebi.
- Nada, deixe estar...Está mesmo fresquinho aqui, possas! Estou a ficar com friozinho...Não tem uma mantinha?
- Não tenho cá nada dessas coisas...só uns cobertores nas celas.
- E não me quer ir buscar um? Estou a morrer de frio...Este Inverno tem sido gelado...Não acha?
- Sim, mas não tenho autorização para abrir as celas, peço perdão- Foi então que decidi que tinha de agir! Comecei então a encenar. Sempre tive jeito para o teatro, sou tão gira!
- Ai...Atchim!!
- Santinha! NHO! Desculpe...
- Ai...estou a sentir uns calores...Uns calafrios, uma dor de cabeça uma...acho que vou desmaiar!!!- encostava-me a uma parede fria daquela espelunca, a minha mão pousava suavemente sobre a minha testa e revirava os olhos de uma maneira tão doce que até me fez chorar de emoção...O que foi bom.
- Não vai nada desmaiar!- disse o Zé Carlos, levantando-se rapidamente da sua cadeira, assustando o seu coleguinha fofinho da secretária. Ai, que corpo! E a farda de guarda? Um xuxuzinho! Deixei o Zézinho se aproximar de mim e caí-lhe nos braços docement! Que musculos!
- Epá!! Oh Pascoal! Ajuda aqui que a bicha caiu!- Disse o Zé comigo nos braços. Naquele momento...
- Dário, meu filho!
- Senhor padre! Ele ou ela desmaiaram!
- Espere- disse o padre- tente deita-lo na secretária!- Esperto, o senhor padre, sabe a toda! Será que é gay? Bom, naquela coisa de me pegarem pelos ombros, de me pegarem pelos pés de me...oh! Que homens! O senhor padre zuca! Tira as chaves do bolso do Zé...Oh, Deus misericordioso! Ele mexeu no bolso dele! Porque é que tenho de ficar com os papeis mais frágeis? Não esperavamos que ele tivesse guardado as chaves no bolso, na verdade pensavamos que estavam penduradas na parede, por cima da cadeira dele, mas não...só nos dificultou a vida e o plano!
- Então, senhor prior? Onde é que está a pôr a mão?
- Ah, meu filho, Zé Carlos, isto é uma nova lei da igreja!
- Hã? E porque é que tem as chaves na mão?
- Hã? E-eu? Ah, isto...Pois, simboliza as chaves do céu! De S. Pedro, o guardião do paraíso!- Mas o Zé Carlos não é tão burro como isso. Ia se lançar ao padre (quem me dera) para lhe tirar as chaves da mão, quando de súbito eu acordei.
- CORRRAAAAAAA! PLANO B! PLANO B!- Gritei eu agarrado ao Pascoal, aquele que quiçá, um dia, será o meu amante quando me casar com o Bóris, isto se a Regina o regeitar...O que não vai acontecer, ou seja, Pascoal, meu amor, és meu. Ao ouvir o meu grito, o padre transformou-se num verdadeiro...hum...homem! Beijou o seu terço de madeira, que trás sempre ao pescoço, arregaçou as saias e, com as chaves na mão, correu como o vento até à cela do russo, que o esperava ansiosamente belo. Para dificultar a tarefa aos guardas, agarrava com unhas e dentes o Pascoal e tentava beija-lo, ali, selaríamos a nossa paixão repentina. No entanto, sou só um e não consegui impedir que o Zé Carlos corre-se atrás do padre, que só dizia "perdoai-me senhor". Não consegui por muito mais tempo segurar o Pascoal, ele era forte e másculo e atirou-me para o chão num acto sedutor de violência. Caí no soalho como uma menina desamparada e fiz beicinho, transportando o meu lábio inferior para a frente e fazendo-o tremer como se estivessem sete graus negativos. Mesmo assim, sem saber porquê, o Pascoal não se rendeu, e sendo assim, tive de pegar numa cadeira e dar-lhe com ela na cabeça, quando se preparava para seguir atrás do Zé e do senhor padre. Fez um estrondo enorme e pensei: "É por uma boa causa, amor, um dia vais me perdoar...". Depois lixei-me par ao Pascoal! Corri atrás dos outros e ainda consegui ver o Zé Carlos tropeçar no Quim, que tinha alargado o seu leito de descanço pelo chão todo do corredor das celas! O Zé caiu no chão, o padre abriu as grades da cela e...oh, não! O Zé vai se levantar! Tens de entrar em acção, Dário, amoooor! Saltei para cima do Zé...No ar, antes de cair em cima daquele corpo extremamente transpirado, senti-me leve, como uma pena, aquele salto pareceu durar minutos, e, finalmente, passou-me tudo pela cabeça: A Regina, o casamento, as situações por que passei, como estava a fazer uma boa acção e o mais importante de tudo: O facto de perceber que naquele preciso momento tinha conseguido resolver o meu grande problema, que atormenta à anos: A barriga inchada. POFFF! Caí!
- Sai de cima de mim bicha maluca!- Disse o Zé Carlos. Que excitação! Não aguentei, tive, sim, tive mesmo, foi um esforço, de beijar, sim, beijar, aquele bigode farfalhudo!! Entretanto, entre o beijinho, gritava: Plano B!(mais beijinho, o Zé esperneava) Plano B! (continuação do beijinho, o Zé grunhia)Plano B! (continua, o Zé esperneava e grunhia e tudo mais! Mas eu não o largava, não sei onde fui buscar tanta força! O Quim acordou estremunhado e eu fiz-lhe sinal para ir atrás dos outros. E lá foi ele. Depois, o que vou contar agora, foi o padre que me contou. Não sabiam o que era o plano B, mas logo ficaram a saber. Ao ouvir os outros guardas a chegarem esconderam-se numa portinha nas traseiras. Ah, ah! A portinha onde tinha guardado o plano B! Fiz questão de pôr lá dois sacos de plástico que diziam "Aqui está o plano B".
- Padre! O plano B!- disse o russo. Abriram o saco.
- Roupas?
- De senhora?
- De pêga, quer o senhor padre dizer!
- Jesus!- O papel dizia. "Vistam-nas". E vestiram-nas! (passado alguns minutos)
-Epááá!- o Quim avistou-as- Mas que beldades! Da onde saíram as meninas?- Eu também as vi, e logo larguei o bigode do Zé Carlos, para olhar para tais...aberrações. O Bóris, mesmo em gaja, fica um pão! De cabeleira loira e vestidinho rosa, era a melhor menina do plano B! E aquele leque lindo, que lhe cobria o rostinho...coisa mais linda! O senhora padre estava de freira. Uma fantasia, parva, que arranjei num bar de strip em A-dos-Cagados, perto de Moscardo. O Zé Carlos ao se ver solto por mim, começou a correr e desapareceu, ao abrir a porta das traseiras, deixando-nos sozinhos, com o Pascoal caído no chão.
- Rápido vamos embora daqui!- disse o Bóris arrastando as saias e lançado cabelinhos loiros da bela peruca que tinha.- Ai! Dário! Que foi isso?- Sim, eu apalpei-o! Que rabiosque!
- Vá, não podemos perder tempo!- disse o padre/freira arrastando do Quim.
- Esperem!- disse eu- E o Pascoal?
- O Pascoal? Vai ser minha testemunha!- disse o...Zé Carlos!!! Bolas! Percebeu que as miudas eram eles! Começámos a correr, mas ele vinha atrás de nós. Agarrou-se às saias do Bóris, ele caiu e eu não tolerei a presença de mais uma mão no meu território. PIMBAS! Levou com a mesma cadeira com que levou o Pascoal. Ficaram os dois estendidos no chão e nós lá fomos, pelas traseiras para a casa paroquial. Era hora de almoço, estava tudo a almoçar, não estava ninguém na rua e os guardas que nos viram, apenas atiraram para o ar uns piropos traquinas e malandrecos. Foi chiquérrimo!
- Finalmente em casa, senhor! Graças a Maria!- Disse o senhor padre, ao sentar-se no seu sofá, assim como todos nós, menos o Quim, que foi direito à garrafeira.
- Graças à Maria das Pernas Altas! Quer o senhor dizer! Que se não fosse ela a dispensar os trajes das suas meninas ainda agora aqui o russo mais lindo estava a ver o sol quadrado!

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

"Resgate do Macho"

- Tu queres o quê?????
- Que me ajudes a libertar o ruxo! Qual é o problema Ilídio? O homem tá inoxente.
- Não foi isso que tu disses-te. Disse-teajudar o russo a fugir da prisão!
- Xão só palavras homem, bai dar tudo ao mesmo.
- E posso saber que interesse é que tu tens nisso? Em ver o russo fora da cadeia. Se ele lá está é por algum motivo.
- Ora motivo ... a berdade é que a minha Regina está em Franxa no meio da guerra, sozinha e indefesa! O russo vai atrás dela para a trajer de bolta para ao pé do xeu paizinho!!
- Que bonito Quim! Agora estás numa de paternal? Não vês que se o russo vai atrás da rapariga eles já não voltam! Vê se acordas!
- Então eu bou com ele pronto.
- Tu? Mal te aguentas em pé e para além disso ele está preso porque alguma coisa fez ... ninguém sabe bem de onde vem nem o que faz. Médico, russo pouco mais se sabe!
- Então hoxe à noite às 23h30 ao pé do restaurante adeus.
- Mas tu não ouviste nada do que te disse???
Este Quim dá-me cabo do juízo. Sou padre mas não sou santo e a minha paciência tem limites, não fosse ele meu irmão ... nem sei! Só sei que esta história ainda vai dar problemas. Por alguma razão ninguém comenta a prisão do russo na aldeia, parece que a coisa é grava e o rapaz nem vai a julgamento. Consegui perceber, pelos búrburinhos na missa, que o estavam a pensar tranferir durante a noite para não haver revolta dos populares. Ora a notícia já correu a vila, tenho de avisar o Quim ou eles ainda são apanhados e presos. Sim porque ao que parece o Dário também vai ajudar, sou padre e não faço julgamentos mas aquele rapaz tem algo de estranho. Falando no diabo.
- Senhor padre vim confessar-me.
- Já reparei rapaz. Faz favor de entrar no confissionário.
- Peço perdão padre ... eu ... é a minha primeira vez, não sei como fazer isto, só vi nos filmes!
- Isso explica a renda na cabeça ... diga "Perdoe-me padre pois pequei".
- Está bem.
- Então diz rapaz!
- Então mas o senhor padre acabou de dizer! É desnecessário eu repetir o que o senhor disse, e olhe que tenho muito para dizer não tenho tempo para estar aqui com estas parvoíces, desculpe senhor padre, e além disse tenho hora no cabeleireiro ...
- Já percebi, vamos passar à frente ... queres contar-me o que se passa?
- Mas quê? Todos os pecados desde o ínicio?
- Infelizmente lá terá de ser!
- Bom ... por onde começar ... já sei! No dia em que vi a minha mãe nua pela primeira vez!
- Oh meu Deus!
- É que eu sentia-me diferente sabe, desde gaiato, não me identificava com a minha salsicha e então um dia percebi que queria ser como a mamã ... queria ter uma ...
- Eu percebi meu filho, vamos passar à frente, temo que não tenhamos tempo para tantos promenores.
- O senhor padre é que sabe, tenho histórias bem pecaminosas por altura dos meus 4 até aos 7 anos, considero das épocas mais bonitas da minha vida e ...
- Prossiga!
Falou-me de tudo o que é possivel imaginar. Foram três horas repletas de lantejoulas, homens musculados, maquilhagem, plumas, cor-de-rosa, alcool ... e coisas que eu nem se quer me dei ao trabalho de tentar perceber, aliás até as vou apagar da mente.
- ... e foi assim que depilei as pernas pela primeira vez ... fim! Senhor padre está-me a ouvir?
- Claro filho, o teu sonho de infância era ser enfermeira.
- Molhista! Ejá o sou, se bem que enfermeira também era bom, podia mostrar as minhas ricas pernas e ...
- Mais alguma coisa?
- Hmmm ... acho que é tudo ... só uma coisa, não está bem relacionado com a área dos pecados acho eu, se bem que ...
- Diga mulher! Desculpe hom ... rapaz ... filho!
- É sobre "aquilo" de hoje à noite, o Quim disse para o lembrar que ... o russo sabe.
- Acho que isso já não vai acontecer, vão transferi-lo durante a noite e toda a gente vai lá estar para o achincalhar, insultar e atirar os legumes que apodreceram no Inverno.
-M-mas já está tudo combinado, temos de o salvar!! Ele é um bom homem, um homem bom e ... aii!
- Não sei se será bem assim.
- Acredite em mim eu conheço-o bem ... temos de o ajudar senhor padre!
- O que tens em mente?
- Bem, se o senhor padre diz que o vão levar à noite ... nós fugimos de dia, é uma óptima ideia não é?
- É uma péssima ideia! Em pleno dia?? Á gente nas ruas, não temos por onde esconder o rapaz ... sim porque têm de o esconder em algum lado antes de ele partir. Tem de se tratar dos bilhetes e ...
- Ele não precisa de bilhetes! Isso só serviria para chamar as atenções, e além disso a fuga é perfeita de dia, ninguém está à espera que tal aconteça. E para além disso ninguém nunca desconfiaria do senhor padre.
- Ai o que é que fiz para merecer isto! E diga lá onde pensa alojar o tal russo?
- O Quim sugeriu ... a sua casa.
- O quê??
- Pense bem, nunca ninguém vai desconfiar. Vamos lá como visitas fazemos o que temos a fazer, o russo foge e nós distraímos os guardas, eles nem sequer vão associar ...
- Tenho as minhas dúvidas. Mas tens a certeza que o rapaz é inocente?
- Absoluta! Juro pelo meu verniz "cherry red"! Estes alemães é que andam metidos nisto até ao pescocinho.
- Bom então vamos lá. Temos de ir buscar o Quim primeiro só espero que não esteja bêbedo!
Eu fechei a Igreja e deixei um bilhetinho a dizer que tinha de ir confessar o prisioneiro russo. Fomos direitinhos à pensão da Celestina à procura do "cabecilha" da missão "Resgate do Macho", ideia do Dário claro.
- Boa tarde Dona Celestina que Deus esteja consigo! Diga-me minha querida o Quim está por aqui?
- Está pois ... eu vou chamá-lo, só um momento senhor padre.
- Oh garanhão, a fazer olhinhos à Celestina!
- Por amor de Deus Dário! Respeitinho eu sou padre!
- Estava só a dizer. E olhe que ela também ficou toda nervosa.
- Pára com os disparates! Temos trabalho a fazer.
- Cá está ele senhor padre.
- Obrigado Celestina. Então Quim vamos lá tratar dos nossos assuntos (piscadela de olho).
- Hãn? Qué que ... quem?
- Quanto é que ele bebeu Celestina?
- Dois garrafões de vinha e água destilada.
- Eu? Eu 'to com sede, não há nada que se beba?
- Não Quim, agora temos o que fazer (piscadela de olho)!
A Dona Celestina também pisca o olho.
- Senhor padre a Celestina piscou-lhe o olho! - sussurra-me o Dário ao ouvido.
- Pára com isso! Será? De qualquer forma temos de ir embora ...
- ... temos muitas coisas para fazer darling! Dê beijinhos à pega!
Parámos na florista para o Dário comprar umas flores para o prisioneiro. Treze rosas vermelhas, começo a pensar que ele anda a sonhar demais, não me parece que queira cumprir o nosso plano. Mas a verdade é que não temos plano, o Quim está com a bebedeira do século e por isso vai se resumir ao improviso.
- Alto! Quem são vocês? - questiona o guarda da cadeia.
- Não se preocupe. Eu sou o padre da aldeia este ...
- Eu conheço-o!
- Cala-te Dário. Deixa-me resolver isto!
- Você é o ...
- Zé Carlos! De Lantejoulas!
- Pois é.
- E a Melanie vai boa ... quer dizer vai bem?
- Acho que sim não estou no mesmo meio dela mas ...
- Continuando ... podemos entrar? Vinhamos visitar o russo.
- Ora têm marcação?
- Marcaçã0? Não, não sabia que era ...
- Mas é. No ínicio não era necessário mas desde que uma velha começou a visitá-lo que não o largava e então tivémos de tomar medidas.
- Compreendo. Mas se não estiver lá ninguém podemos entrar? É urgente que este pecador se confesse!
- A velha deve estar a sair ... ora cá está ela. Então senhora Belina? Como está ele?
- Bello.
- Então resto de um bom dia! Cuidado com os degraus. Pronto já podem entrar.
Para ums esquadra o sítio está bastante arejado e limpo, com cores alegres e bons acabamentos. O Dário adorou o espaço e disse que gostava de se dedicar à vida do crime para poder estar num espaço tão chique.
- Boa tarde meu filho.
- E então? Vão-me ajudar a sair daqui? Para que é que são as flores?
- São para ti querido! Gostas?
- Ah já percebi! Têm alguma ferramenta aqui escondida para que eu ...
- Não são apenas um presente por seres ... lindo!
- Onde ... extou eu? Minha senhora podia dizer-me ...
- Não é uma senhora Quim! É o Dário e tu vê se te calas. É o seguinte, o melhor é falarmos sobre o que vamos fazer. O Dário está encarregado de distrair o Silva, eu fico aqui a conversar contigo como se te estivesses a confessar, o Quim fica aqui sossegado e sem piar!
- Sim e depois?
- Depois o Dário finge desmaiar, eu tiro a chave, atiro-te a ti e tu foges pelas traseiras. Trocas de roupa com o Quim para não seres reconhecido. Meu Deus que pecado, vou arder no Inferno!
- Não vai nada senhor padre, está a ajudar um homem inocente, Deus terá isso em conta!

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Onde está Regina?

As coijas xão para xe fajer bem feitas. E eu fiz! Estive perturbado todo este tempo por cauja da minha filha, Regina Maria. Nunca lhe dixe que era pai dela porque não me foi, a bem dijer, permitido. A Aida e eu preferimos manter segredo e fingir que o Vasco da Pipa era o pai dela...Oh! Como era jovem quando procriei a Regina...Eu e a Aida eramos dois gaiatos. Moravamos em Canequinhas, uma terra, não muito longe de Moscardo. Eu morava na barraca da esquerda e ela na da direita. Dei por ela quando me pisou um calo que tinha feito no pé, ao deixar cair a enchada no dedo grande. Lavrava a terra, eu. Era mais uma mão para a terra do meu paizinho, Quim Perneta. Era perneta. Mesmo axim colocou ele próprio, com a ajuda do do meu tio Jojé do Deperdício, que tinha um ferro velho, um ancinho na perna. Ficava-lhe bem. A minha mãejinha é que não gostava muito, por cauja do chão da casa, ficava xempre todo riscado. Minha rica mãezinha, quanta cera comprava. Quando vinhamos da lavoura, comíamos, e íamos nos logo deitar. Quando antes do pôr do sol não estava um filho em casa, e chegava o paizinho...ui! Era tudo corrido ao ancinho. "LEVAS UM PONTAPÉ!", dijia o pai, e nós já saibamos que íamos acordar todos riscadinhos. Bons tempos. Mas estava a falar da Aida, era uma bela moça, agora em velha é feia, mas quando era nova tinha um bonito sorriso, que foi morrendo ao longo dos tempos...Não porque o Vasco da Pipa a trataxe mal, era bêbado e tal, e exa era a xua única virtude, mas porque os dentes foram caindo e caindo a ponto de lhe restar um pequeno molarzinho, com que comia velozmente os casqueiros. Ela gostava de mim, eu gostava dela, e um dia, estavamos nós a acabar o trabalho vai ela e diz se me quero banhar no rio. Ora eu, gaiato, cheio de calor, era Verão, claro que disse que sim. E fomos. Banha-mo-nos e coijo e depois paxado uns dias: "Olha Quim estou prenha". E eu " Epá, oh Aida, vira para lá exa boca" e ela " Cala-te que é verdade. " e eu "Oh diabo!". O problema é que ela estava de noivado com o Vasco, tinha mais terras que eu e tal, e então, como ia casar dali a uns dias combinamos axim, porque era uma vergonha para as noxas famílias e para o ancinho do paizinho. A Aida agora está lá para a nossa terra, o Vasco já não está entre nós e eu decidi contar à Regina que é feita da mesma substânxia que eu. Com muita sorte ou muito azar, olha, ela foi-se, mesmo no dia do cajamento, ficando isto tudo em àguas de bacalhau, não é? Depois do casamento da Aida, acabei por casar, sim, é verdade...Tenho filhos e tudo. Mas o meu irmão, o padre aqui da vila, decidiu que era melhor vir viver com ele, já que os meus filhos já são casados e a minha mulher é uma...
-Melanie!
- Bonjour senhorr Quim!
- Oh, Matteo, trás aí mais um bagaço, filho, aqui para o tio Quim...Tão e tás aqui a fajer o quê? Não andavam atrás do...russo?- Digo indignadiximo ao ver, da janela do restaurante dos italianitos, o russo, de algemas, com o Xilva e mais uma cambada de pessoas, uma comitivajinha atrás dele. Fui logo para a porta. Levei comigo o copo. As pessoas vinham às janelas para ver aquilo tudo...Apanharam o russo, o Bóris. E...a minha filha Regina? Deixei passar a multidão que apedrejava o russo e chamavam-lhe coijas feias. Depois, fui falar com o Xilva.
- XIIIILVA!- Gritei ao vê-lo sair da esquadra- Espera aí um minutinho que prexijo de ter dois dedos de proja contigo.
- Você está bêbado?- Disse logo ele.
- Não! Eu nunca estou bêbado...
- Mas cheira a alcool...Chegue-se para lá, este fato é novo.
- Ah e é muito jeitojo, mas olhe, e...a Regina?
- Não sei de nada, não falo de nada, agora é tudo com os advogados.
- Não, não está a perceber, a minha filha Regina, não sabe dela?
- Não sei de nada! E agora deixe-me ir...Melanie! Espere aí!- E lá foi ele atrás da francesa. Será que ela trabalha às manhãs? E por onde andava a minha filha? Decidi ir à esquadra. Quando lá cheguei pedi para falar com o russo e lá fui eu. Na xela estava lá a dona Franxesca, levava uns bolinhos e um refresco ao recém chegado.
- Bons dias!- disse eu.
- Quim? Ma que esta a fazere aqui?
- Vim falar com o moxo. Prexijo de projear com ele umn minutitos...
- Eu já estava de saída. Arivederci, Bóris. Chio Quim.- E lá foi a madama. Eu cheguei mais perto das grades.
- Então, bons dias.
- Só se for para si...
- Então, meu rapaz? Que se paxa?
- Estou preso...
- Ah...É chato. Olha, e onde é que deixas-te a Regina?
- A Regina? Para que quer você saber da Regina? Espere lá...você é aquele bêbado do restaurante dos Bellini, não é?
- Não sou bêbado sou aprexiador vinicula.
- Isso não existe...Mas enfim, para que quer saber dela? Sabe o porquê dela ter fugido? Sabe? Eu pensava que ela tinha casado com o Gil, mas depois disseram-me que não, que ela tinha fugido...- O rapajola estava agora agarrado ás grades, inquieto.
- Olha, moxo, eu xó xei que ela fugiu, e é o qua andam a dizer por aí, para ir ter contigo.
- Comigo? Oh...meu amor!
- Eu? Epáááá!
- Não! A Regina. E que mais sabe?- Foi então que lhe contei o que tinha acontexido. O eu lhe ter dito que era o xeu paizinho e ela ter saído a correr; quando a Melanie e mais uns foram à procura deles, enfim, tudo mais ou menos.
- É incrível...Pensam que ela fugiu por minha causa?
- Pensam, não- dixe alguém atrás de mim- eu tenho a certeza- Era o Dário. O larilas.
- Dário!- dixe o ruxo- Que saudades!
- A sério, amor?- dixe o enrrabixado de homens.
- Não interessa...Onde está a Regina? Morro de saudades dela, quero estar com ela! Quando me disseram que ela não tinha casado com o Gil fiquei feliz mas depois disseram-me que ela tinha fugido e...o mundo caiu-me aos pés.
- Ixo é mau...
- Onde está ela? Tu sabes?- continuou o ruxo.
- Não sei ao certo...- dixe o rapaz. E começou a contar uma história que dizia que depois do casamento ele e o Jean, o puto da franxeja, a tinam visto arrumar as coisas rapidamente e partir para o porto, onde dizia que ia apanhar um barco para Deolindinhos e seguir para...Paris!
- Paris?? Como? Porquê?- dixe o ruxo. E então o Dário contou uma outra história xobre um livro que o Ismael da peixaria tinha dado, pelo Natal, à minha filha, e que era o diário dele, do ruxo Bóris, e que lá a Regina tinha visto que o Bóris ia para Paris.
- O Ismael? Eu nem o conheço!
- Pois, Bóris, mas quanto a isso foi um engano...Ele não tinha nada para lhe dar e então deu-lhe o que encontrou, eu mesmo já fui falar com ele, amor. Agora quando à Gigi, não sei como vamos fazer...
- Podemos ir à procura dela- xugeri eu.
- Já anda muita gente à procura de muita gente e gente metida onde não é chamada e gente onde não deve!- dixe o moxo do restaurante.
- E eu estou preso...Dário, achas mesmo que ela está em Paris?
- Ela é de ideias fixas, amor, ela se disse que ia para lá, é lá que ela está...
- Pois, mas eu estou preso...
- E eu estou bêbado! E também ando nesta vida!
- Senhor Quim!- dixe o Dário- o senhor está bêbado porque quer! O Bóris não pode sair daqui!
- Não pode?- dixe eu- Ixo é o que vamos ver!