quinta-feira, 15 de março de 2012

Histórias da Capoeira - Tia Alice

Tia Alice sempre gostou de se levantar cedo. No ínicio acreditava no ditado e pensava que assim iria crescer mais uns centímetros, mas depressa percebeu que estava destinada a ficar com os seu metro e meio. Mas levantar cedo é necessário quando se tem uma quinta e o dia começa sem excepção às 6h da manhã. Sem filhos nem marido com que se preocupar a sua vida eram os seus animais, a vaca Hortênsia, o porco Jacobino, a gata Josefa e claro as suas adoradas galinhas!
A tia Alice sempre preferiu os animais às pessoas, principalmente porque os animais não falam e nisso poupam-se muitos desgostos. Não podem responder nem ser malcriados, não são opinativos ou inconvenientes e o melhor de tudo não é que não te podem julgar. Para Tia Alice são a companhia perfeita! Apesar destas qualidades, Tia Alice sempre teve a sensação estranha de que os animais ganhavam uma personalidade humana assim que ela virava as costas. É como se fossem pessoas em miniatura, mas viviam em capoeiras, pastavam e punham ovos. Não pensem que se trata de loucuras de uma velha que vive sozinha há muitos anos, ela tem motivos para acreditar nisto. As suspeitas começaram no mês passado, enquanto estava a limpar o galinheiro, encontrou uma tableta que dizia "El Galinhola D'Ouro". Por mais estranho que pareça tentou arranjar uma explicação, talvez fosse a marca dos caixotes que estão dentro do galinheiro "talvez seja isso" pensou ela. Mais estranho foi quando estava a dar de comer ás galinhas no pátio e, dando por falta de uma, foi ao galinheiro procurá-la e "posso jurar pelos meus santinhos" que viu a galinha sentada a remendar um par de meias enquanto cantarolava. Soltou um "ai meu deus" bem sonoro e a galinha ao aperceber-se voltou à sua vida animal e soltou um "bocóó".
Depois disto Tia Alice nunca mais foi a mesma, a sensação de que havia algo na sua casa que ela desconhecia assustou-a. Foram noites sem dormir, cházinhos para os nervos, longas horas ao telefone com a Chica (sua vizinha e amiga de infância). As noites eram passadas na cama de olhos bem abertos a pensar no que estaria a passar ali a dois passos no seu pátio. Determinada como sempre resolveu acabar com as suas dúvidas, calçou as suas pantufas cor-de-rosa, vestiu o roupão pôs os óculos com lentes fundo de garrafa e desceu as escadas tentando não fazer barulho. Ao abrir a porta sentiu o frio da madrugada e pensou se não seria melhor voltar para trás ou arriscava-se a chocar uma valente gripe. "Não passa d'hoje!" pensou para si, saiu para o pátio e quando ia abrir a porta da capoeeira ...
- Ai que susto! - gritou desesperada.
Era a gata Josefa que se meteu no caminho. Estragou-lhe o plano pois ao olhar para a capoeira as galinhas estavam perfeitamente alinhadas de olhos fechados. "Terá de ficar para amanhã!" exclamou a Tia Alice.

sábado, 3 de março de 2012

Histórias da Capoeira - O estranho

Quando a tia Alice encerrou a quinta naquele final de tarde todos se preparavam para mais um fim de semana vibrante no bar "El Galinhola D'Ouro", mais conhecido como o bar da Lola, a galinha espanhola que havia chegado à quinta fazia naquele dia um ano. Para comemorar haveria sumo de milho mais barato para todos os animais da quinta e as fêmeas não pagavam a primeira bebida, como anunciava o letreiro "Lady's Noche". Para além disso havia uma surpresa preparada pela Lola.

- Lola! Conta lá...conta lá qual é a surpresa! Estamos em pulgas - disse a Galinha Linha, barwoman do estabelecimento.
- Ay hija, dijo que no le digas a nadie y no voy a decirlo!
- Mas porquê?
- És sorpresa! Vai tabajar! Vai! - E lá foi a Linha chocalhar umas quantas massarocas. Na verdade, todos estavam ansiosos para saber qual a surpresa da Lola. Daquela galinha podia-se esperar tudo e mais alguma coisa. No dia em que a tia Alice a comprou na feira agrícola chovia a potes! E logo após a tia te-la deixado na Capoeira e se ausentar, a Lola sacou de uma mala e retirou de lá de dentro um lenço, que colocou sobre a cabeça e um leque com imagens de tourada e disse: Holla. Dondé está el bañeiro? - Todos ficaram a olhar para ela com pasmo e o Pinto-pintinho, pinto orfão desta quinta, levou-a à palha mais próxima.
- Eu costumo fazer as minhas necessidades aqui...a dona Garnisé diz ser o local mais higiénico - Lola olhou para aquela coisa fofa, pequena e amarela que era, e ainda é, o Pinto-pintinho e decidiu então que deixaria o assunto dos lavabos para mais tarde. Aos poucos e poucos foi se ambientando. Começou por ficar grande amiga da galinha Linha, que dorme na palha por cima da sua, é a sua vizinha de cima, a bem dizer. Quando Lola pensou em abrir o bar a Linha foi logo a primeira a prontificar-se para tudo e mais alguma coisa. E desde então são amigas.

Algum tempo depois conheceu a Canginha. Ninguém gosta muito de lhe dar conversa, isto porque a Canginha é meio doida da cabeça. Anda sempre adoentada, estranha, muito magra...Diz que um dia pôs 3 ovos de ouro, mas ninguém se acredita. O Sr. Granizo, marido da Sr. Garnizé, que formam o casal amoroso e idoso de galinhas anãs, diz que ela viu mal, que naquele dia o sol estava forte e que a fez ver mal. Mas a Canginha jura a patas juntas que não! Que viu muito bem!
- Mas se os tiveste, onde é que eles estão, sua galinha maluca? - dizia o Sr. Granizo.
- Tirara-mos! O sobrinho da tia Alice tirou-mos!- Dizia a Canginha. O que é certo é que há a história de quem enriqueça com a galinha dos ovos de ouro, neste caso só com os ovos, e o sobrinho da tia Alice estava podre de rico, sem razão provada - tiraram os meus bebés dourados...- dizia a Canginha. Uns dizem que foi assim que ela enlouqueceu, outros dizem que ela simplesmente nasceu assim. Enfim, numa capoeira tão grande havia lugar para todos! Para a Linha, para a Lola, para a Canginha e os seus dilemas do passado, para o Sr. Granizo e para a Sra. Garnizé, para o Pinto-pintinho e para aquele que diziam que seria o grande amor da vida de Lola...O Frango Tango. O Frango Tango era um frango que, segundo a Franganita, franguinha que vendia as melhores palhas para o poleiro de cada galinha, "já devia ter ido para o tacho há muito tempo!". Era um Frango...chato, velho, que aparecia do nada, nos momentos menos oportunos, com uma rosa vermelha na boca a dançar tango, fingindo dançar com uma companheira, quando na verdade dançava sozinho. Sempre. Sempre, sozinho. Quando viu Lola pela primeira vez apaixonou-se perdidamente e começou a falar o espagalinhol estranho enquanto lhe lançava beijos pelo ar.
- Pero...quien es ese loco? - disse Lola.
- Hum...é o Frango Tango. Um...
- Um servo para si señorita bonitita Lilitita... - interrompeu Tango as palavras da Sra. Garnisé, que correu logo para o seu poleiro conjugal.
- Pero...A dónde vas Garnisé?
- Eu vou para o meu sitio, Lola, não quero cá problemas com o meu macho! Nem tenho já idade para essas coisas.
- Pero...
- Pero, uva, maçã...tudo o que quiseres, mi Lolita - dizia Tango, e continuava - sabias, mi amora silvestre, que soy argentino?
- Oh Si?
- Si...Argentino de gema! Ahahahah - e ria-se. Mas Lola não percebia e mantinha a sua cara de nojo com o bico fechado. Caiu no bom senso de dizer as palavras mágicas:
- Pois...hum, gracias por tudo Tango, no és tu nombre?
- Tango...Frango Tango...um servo para t...
- Gracias! Tengo algunas cosas para hacer e...adios! - Desde esse dia que Tango dedica a sua vida a Lola. Escreve-lhe poemas, canta-lhe músicas, dedica-lhe tangos do Astor Piazzola e Lola nada, não lhe dá uma hipótese. Enfim, amores e desamores de uma capoeira!

Voltando àquela noite...Tudo estava preparado e os pintos e pintaínhas já dançavam no salão um slow, ao som do grande êxito "Gala-me, Gala-me mucho como se fosse esta noche la ultima vez". Várias massarocas abertas, rodando, com luz, davam ao bar da Lola um ambiente divertido e todos se estavam a divertir, mesmo o casal de galinhas Garnizés. Porém, Granizo não se sentia muito bem.
- Estou farto de estar aqui.
- Oh que resmungão! - dizia a Sra. Garnisé - diverte-te. Quando éramos novos não havia nada disto!
- Mas não me sinto bem por não terem convidado o Pena-Longa...- Dizia Granizo. Pois é, Pena Longa: o caso bicudo daquele galinheiro. Pena Longa havia sido comprado pela tia Alice pouco depois de aparecerem por aquelas bandas o casal das Garnisés. Era veterano, tinha o seu espaço, o seu local de culto. Era respeitado por todas as galinhas e galos da capoeira, mas nada mais do que apenas e só respeito. O Pena-Longa metia medo, era misterioso demais e não falava a ninguém. Dizia-se que tinha vindo de uma tribo índia e que falava pouco pois não compreendia a língua daquela capoeira. No entanto, esta não é, de todo, uma boa razão para não o convidarem para o baile da Lola. A razão remonta para uns atrás quando se suspeitou de algo horrível.
- Estas galinhas não me estão a por ovos! - disse a tia Alice, ao recolher o único ovo colocado, por acaso, por Lola - que será que se passa? - disse, fechando o galinheiro e saindo da quinta. Que se passaria? Foi então convocada uma reunião de capoeira.
- Está aberta a sessão - disse Franganita.
- Afinal, o que se passa connosco? - dizia Linha - eu não ponho ovos há semanas e semanas!
- E yo? Esto fue un descuido! - disse Lola colocando todos a olharem para ela. De súbito no meio da multidão galinácea surge a voz de alguém que nem sempre era ouvida por todos. A voz de Maria Macumba, a galinha preta:
- Eu sei! Eu sei! É uma maldição! Vi nas minhas penas eu vi! Eu vi nas minhas penas...
- De que falas tu, galinha maluca? - disse logo Granizo.
- Já pensaram que o índio, o Pena-Longa, pode ter feito algo? Alguma maldição?
- Ele ás vezes fuma cachimbo! - disse o Pinto-pintinho escondendo-se aterrorizado nas penas da Galinha Linha.
- E eu já o ouvi a murmurar umas coisas! - Disse Maria Macumba. Todos sabiam que quem era dessas coisas, maldições e etc, era Maria Macumba. Para que servem as galinhas pretas? Enfim, e foi assim que as suspeitas começaram. Lola, sempre contra essas coisas, não convidou o Pena-Longa, que ficou sozinho no seu poleiro, longe da festa, mas também não tinha remorsos por isso. Dançava e cantava toda animada, abanando as penas para lá e para cá. Só mesmo Granizo, que ainda se dava com ele, pois não acreditava nessas coisas de bruxedos, é que tinha pena do seu amigo solitário.
- Amigos, amigas, conhecidos e conhecidas e galináceos que nunca vi en mi vida! - disse Lola, em jeito de anunciação - Yo: Lola La Galinhola Espanhola, Olé! Vou vos apresentar a atracção desta noche! Mi gran amigo, del mesmo creador que yo, el Gallo de la medianoche! - E dito isto surgiu de rompante entre as cortinas vermelhas o Galo Meia-Noite. Charmoso, elegante, penas brilhantes, crista arranjada era...
- Um sonho de galo...- disse Franganita, caindo nos braços de Canginha que, mais uma vez doente e sem forças, caiu redonda no chão.
(Continua...)


terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Voar - A história de um zangão zangado (2ªparte)

Só havia uma coisa a fazer, e tinha apenas uma oportunidade por isso tudo tinha de correr como Vasco tinha planeado. Se tudo corresse bem ele não só puderia ser livre para voar, como também nunca mais precisaria de ser um zangão zangado. Mas para isso precisava de um cumplice. E teria de ser Quim Belha o seu melhor amigo.

Vasco acordou de manhã cedinho, zangado como de costume mas ao mesmo tempo entusiasmado com este dia tão importante. A Mamã ainda não abriu a pestana por isso está na hora de sair de mansinho para não a alertar. Um pequeno bilhete a dizer "Mamã, tive de sair mais cedo para entregar o projecto de ciências. Beijinhos do teu zangado" será suficiente para que não desconfie de nada.

Voei porta fora o mais depressa possivel para apanhar o Quim antes que ele entre no autocarro. Por pouco quase não me cruzava com ele. Rapidamente lhe expliquei o meu plano:

- Quim só tens de mentir um bocadinho hoje. Sempre que alguém te perguntar por mim dizes que fui a casa-de-banho, que estou no bar da escola, que estou no ginásio ... o que for preciso para ninguém ir avisar a minha mamã até às 17 horas que eu não fui à escola.

- M-mas V-V-Vasco e-eu não sei m-mentir! Fico n-nervoso, começo a suar e os meus óculos escorregam-me da cara.

- Quim por favor! Só preciso deste dia para ser livre e nunca mais ter de voltar ao Paraíso do Mel. - insistiu Vasco

- E o que ganho eu com isso?

- Eu pago-te em mel! Tudo o que arranjar é para ti...

- Convencido! Conta comigo Vasco!

E o Quim Belha cumpriu a sua palavra e apesar de ninguém ter visto Vasco o dia todo, ninguém deu pela sua falta. É o problema das abelhas, existem demasiadas para que se dê por falta de uma. Tirando a rainha claro! A coitada um dia teve de ir à casa-de-banho, e nesses 5 minutos em que ela não esteve no trono já os guardas zangões andavam loucos à sua procura. Mas Vasco era apenas um zangãozinho pequenino que queria ser borboleta.

E assim enquanto a Mamã pensava que o seu pequeno estava a aprender tudo sobre mel e abelhas e abelhas e mel ... Vasco já estava a voar para bem longe.

Assim que chegou ao exterior, Vasco sentiu um grande alivío. Sentiu o vento e o calor do sol, voou por entre os ramos das árvores, tocou a água do mar, sentiu o perfume das flores ... Vasco nunca tinha sido tão feliz! Sentindo-se cansado, resolveu parar um pouco num jardim próximo. Escondeu-se numa flor, longe dos olhares humanos, que ouvira dizer que não gostavam nada de zangões e seus parentes próximos. Qual foi o seu espanto quando reparou que uma borboleta estava a voar de flor em flor. Nunca tinha visto uma borboleta ao vivo, só as ilustrações dos livros de ciências na escola de abelhas. Era ainda mais bonita do que imaginava, as suas asas coloridas, as antenas perfeitamente enroladas ... que inveja!

A borboleta aproximou-se da flor onde estava o Vasco e cumprimentou-o:

- Bom dia zangão!

- Bom dia! - sussurrou o Vasco envergonhado e vermelho até ás antenas.

- Nunca tinha visto um zangão tão pequenino por aqui.

- É que eu ... eu ... vim a uma visita de estudo s-sobre borboletas!

- Sobre borboletas?

- Sim! Quer dizer para ver as borboletas no seu dia-a-dia.

- Então acho que te posso ajudar!

A borboleta Rita levou o Vasco a conhecer melhor o parque, conheceu outras borboletas, conversou com elas e não se sentia tão zangado. Começou a pensar que talvez devesse deixar de vez a colmeia e viver a vida de uma borboleta. Quando contou o seu plano à Rita, e ela não conseguiu segurar o riso:

- Ahahah! Nunca tinho ouvido essa!

- Mas porquê?

- A vida de borboleta é a mais aborrecida de todas! Não fazemos grande coisa, pairamos de um lado para o outro, dia após dias, sempre a mesma coisa. Não reparas-te que andamos sempre com ar aborrecido?

- Pareceu-me tudo tão bonito, as vossas asas ...

- Asas? Tu nem sabes as dores de costas que eu tenho por causa delas! Quem me dera ser como tu, ter asas pequeninas, estar sempre a provar aquele mel maravilhoso ...

Vasco sentiu-se tão desiludido que se despediu da borboleta Rita e regressou de imediato a casa. Pelo caminho chegou à conclusão que só podia ser aquilo que era e não podia fingir ser outra coisa. Decidiu parar de queixar-se e ser um zangão mais feliz e menos zangado.

Chegou a casa à hora certa e a mãe nem percebeu a diferença, só o sorriso o denunciou no dia seguinte.


FIM

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Voar - A história de um zangão zangado

Uma manhã o Vasco acordou muito bem disposto. Saiu da cama, calçou os seus sapatos felpudos e fofos, ajeitou a antena esquerda, que lhe andava a dar problemas, e voou pelas escadas abaixo.
- Bom dia, Mamã...
- Bom dia, Vasco. Outra vez tristonho e zangado?
- Hum...
- Vá lá, come rapidamente os cereais e vai a voar apanhar o autocarro, que já estás atrasado.
O Vasco, apesar de ser ainda um zângão bebé, já andava na escola. Ao inicio tudo era engraçado, aprender a ler, a escrever, a contar, mas agora a escola das abelhas do Paraíso do Mel, estava-se a tornar cada vez mais e mais enfadonha. A professora Margarida estava sempre a chatear-se com ele. Dizia que ele era distraído, preguiçoso e que nunca fazia nada bem! O Vasco estava farto da escola, farto da professora. Já nem brincava no recreio como dantes! Andava sempre zangado, com tudo e com todos. Andava triste e havia apenas uma única razão para isso.
- Vasco! Pára de olhar pela janela e presta atenção! Quantos favos de mel são precisos para alimentar três quartos da colmeia? - perguntava a professora.
- Hum...são duas!- disse o Vasco.
- Duas? Querias dizer dois?...
- Não, professora Margarida. São duas borboletas lindas que estão ali no céu, a voar, a voar, a voar...
Esta resposta valeu um valente responso ao Vasco, um castigo da professora e uma visita da mãe à escola das abelhas do Paraíso do Mel. Depois da mãe falar com a professora, falou com o Vasco, que continuava encantado a olhar pela pequena janela da sala de aula.
- Vasco...Vasco? Estas-me a ouvir?
- Sim, mamã...- disse o Vasco muito triste.
- Estás cada vez mais distraído, cada vez mais preguiçoso. A professora está muito chateada contigo! E eu também...que se passa?
O Vasco explicou à mãe que não gostava da vida na colmeia. Para ele era muito mais divertido andar a voar, pelo campo, como faziam as borboletas. Elas, sim, eram livres e não tinham preocupações. As abelhas nasciam para o trabalho, para fazerem mel, passavam a vida na colmeia e ele não era e nem queria ser assim!
- Ainda és tão pequenino para perceber a vida na colmeia, meu filho.
-Não, mamã! Nunca temos permissão para sair daqui! Eu não quero estar na colmeia, eu não quero ir à escola eu não quero ser um zangão! Quero ser uma borboleta!
A mãe do Vasco ficou espantada com ele, que voou rapidamente dali para fora.
O Vasco sentia-se o zangão mais triste do Paraíso do Mel, do campo, do universo! Porque razão havia nascido assim em vez de ter umas bonitas asas de cores vibrantes uma igualzinha à outra?As borboletas eram fantásticas, perfeitas, coloridas, leves. Ele era pesado e quando fosse crescido ainda haveria de ser mais! Era amarelo e preto e peludo...até as antenas das borboletas era mais bonitas que as dele. Ninguém o intendia. Ninguém!
Sentado numa pedrinha, num dos lugares mais escondidos da colmeia, o Vasco pensava numa forma de conseguir escapar ao seu destino tão cruel. Pensou, pensou, pensou...e...
- Já sei! E não vou perder mais tempo!

Contos Infantis no Cabeçadas


O Cabeçadas no Céus tem a honra de apresentar uma série de contos infantis escritos pelas duas autoras do blog. Cada conto tem um tema, extraído de uma palavra escolhida ao acaso. São aceites sugestões dos leitores e, claro, todos os comentários e críticas são bem vindos!

Estejam atentos!
Muitas cabeçadas,
As autoras

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

NOVA TEMPORADA!

Esqueçam tudo o que viram até hoje!



NOVA TEMPORADA NO CABEÇADAS NO CÉU

BREVEMENTE

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Primeiro ponto de análise: O Mapa

- Boas noites!
- Diz-se boa noite. Penso que te referes apenas a esta noite e não a mais...
- Ora aí é que te enganas! Sabes lá tu das minhas intenções!- Paralisei, com um estúpido pacote de leite de marca branca na mão, à porta da minha casa, enquanto o Rafael entrava pelo hall a dentro deitando para fora da sua boca tais palavras. Fechei a porta e com os olhos bem abertos olhei para ele, sem dizer uma palavra - sim - continuou o cavaleiro - intenções...sabemos lá nós quanto tempo vamos ter para analisar o malvado artigo mistério do Jaques Moley? Poderá durar noites! - ai esta minha mente...sim, agora percebo.
- Ah, sim, claro.E...que é isto?- perguntei agitando no ar o pacote de leite.
- Isso é leitinho- respondeu ele.
- Jura...
- Juro! Diz ai "leite UHT, meio gordo".
- Sim, já vi, mas é para quê?
- Então, não ia ser nada cortez da minha parte aparecer em tua casa de mãos a abanar.
- Mas é um jantar, Rafael- disse, desviando-me do meu convidado e entrando na minha cozinha.
- E então? Leitinho quentinho, na ceia, com bolachinhas, não é agradável?- Disse o gosão, encostado à ombreira da porta da cozinha, enquanto eu guardava o leite no frigorífico.
- É optimo, sim, mas acredito mais na hipotese de não teres mais nada em casa para trazeres - concluí.
- Ora e o que temos para a janta- continuou, sem responder- hummm cheira mesmo bem! Adorei a ideia de fazeres o jantar da Ordem aqui em tua casa. Assim posso vir as vezes que quiser ao frigorífico- depois disto levou um safanão no braço, tão típico...
- Deves te achar o dono da casa!- disse eu, retirando um rolo de carne, recheado com ovo e legumes, do forno.
- Epá, mas que coisinha mais apetitosa!
- Eu?
- Não, Lady Guen, referia-me ao rolo...- Adoro estas situações - e vem a cavalaria toda?
- Achas? Claro que não! Nem cabiam todos aqui em casa. Vêm só alguns. O António, a Lídia, o David, o Miguel,o Gil (Gualdim), eu e tu.
- Sete. Somos sete.
- Sim, sete - A partir das sete e meia começaram a chegar os convidados. Primeiro o Miguel, depois o David, o Gualdim e o António e, finalmente, a Lídia. O meu rolo de carne fez sucesso, assim como as batatas, o bom vinho trazido pelo David e uma mousse de chocolate divinal feita pela Lídia. Depois de tudo ter ficado bem jantado fomos ao que realmente interessava: o artigo do Jaques Moley: ""Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici, la cinquiéme". Sentados em volta da minha pequena mesa de centro, uns nos sofás outros em puffs, estendemos as várias páginas sobre a mesa e no centro o desenho do, suposto, mapa astral.
- Dizes tu que isto é um mapa astral?- perguntou o António ao Miguel.
- Sim, parece-me um- respondeu.
- Parece, não. É mesmo um- disse a Lídia. Taróloga e astróloga há alguns anos, sabia de que estava a falar - e é antiquíssimo - acrescentou, chegando mais perto. Todos tinham lido o artigo. Tinha tomado a liberdade de o enviar para os seis.
- E o que dizes sobre ele? - perguntou o Rafael.
- Não é de fácil leitura, tem imensos cruzamentos. Alturas em que a conjugação dos planetas não é das melhores.
- Uma pessoa que teve na vida muitos altos e baixos - disse o David.
- Pode se dizer que sim - respondeu ela- este cruzamento, esta influência destes dois planetas neste trânsito é muito interessante...- disse, seguindo com o dedo uma linha do mapa, inclinando-se na mesa.
- Como assim? Não percebo nada disso...e compreende que é difícil para mim - perguntou o Miguel- mas se te explicares melhor...
- Eu percebo, claro. Eu explico do início. Dêem-me um minuto...- Foi então que a Lídia colocou os óculos, puxou de um papel e de uma caneta e começou a falar sozinha e a rabiscar- Sol em Libra, Lua em Virgem...Ascendência, hum...Neptuno, peixes. Neptuno na casa 11, ok. Sol na casa 7, Lua casa 7, Saturno...hum...casa 11.
- E então?- disse eu.
- Isto leva o seu tempo - respondeu a Lídia, com a caneta no canto da boca.
O que salta à vista, logo à partida é o signo. É libra de ascendente em peixes e tem Neptuno na casa 11.
- Isso trocando por miúdos...
- Tendência a medionidade, clarividência. Misticismo num nível elevado, ocultismo, psicometria...por aí- respondeu a Lídia.
- E isso é? - perguntou o António.
-Basicamente é uma faculdade extra-sensorial, uma superintuição, se assim quiseres, ou uma capacidade mediúnica em perceber o conteúdo de algo...Como posso explicar? Vejamos, houve quem aplicasse essa capacidade em achados arqueólógicos ou casos policiais em que as pistas materiais são escassas. É uma forma de medionidade, no fundo.
- E esta pessoa era isso? - perguntou o Miguel, um pouco incrédulo.
- Não te posso dizer isso, não se consegue saber isso. Mas que tinha tendência para o ser isso é certo - E continuou: - é uma pessoa sensível, ligada a coisas sensíveis, a coisas belas, às artes, ao amor, às fortes amizades, sim, os trânsitos que aparecem dizem que as amizades são algo de muito importante. O Sol na casa onde está, na casa sete, refere-se à individualidade, que mais uma vez está associada a amizades, mas principalmente a questões amorosas. A Lua...hum...casa sete também. Bom, mostra insegurança, vários papeis, várias faces...Depois, Vénus na casa 8. Tudo indica que houve harmonia nos relacionamentos amorosos e sexuais.
- Epá! Sabes ver essas coisas??- disse logo o António, já enchendo o 3 copo de vinho- isso é agradável. Quanto é que levas por consulta?
- Isso não interessa agora!- ripostou logo o Miguel - Deixa-a continuar! Força, Lídia. Estás a ser muito clara.
- Obrigada, Miguel. Sim, de facto no amor esta pessoa não esteve mal, apesar de tudo indicar que as suas energias vitais e o seu prazer interior se revela pelo prazer espiritual e não material nem carnal. Depois a posição de Saturno é intrigante...teria de procurar mais coisas acerca disto, mas posso dizer que há aqui uma certa dose de ambição e justiça, muitas vezes excessiva. Depois a Lua em oposição ao ascendente denuncia, mais uma vez, a importância do subconsciente e de alguma insegurança. Depois há imensas outras coisas, outros trânsitos que deveriam ser bem estudados.
- Consegues ver se é homem ou mulher? - perguntou o David.
- É uma pergunta difícil, ainda mais para mim que não sou especialista na matéria de mapas. Mas eu arriscaria uma mulher.
- Faz algum sentido - disse- no artigo dão a intender da existência de uma mulher na Ordem. É uma lenda mas...Se é uma mulher só poderá ser aquela de que falam. Poderá esse ser o mapa astral dela?
- É uma hipótese- disse o Gualdim, o nosso "astrónomo", se assim podermos chama-lo, entrando de vez na conversa - se bem que nessa altura, e remonte-mo-nos para cerca de 1160, só alguém com algum dinheiro ou conhecimentos na área é que poderia ter algo deste género.
- Nem sabia que nessa época havia quem soubesse fazer tais coisas - disse o António.
- Pois, ao que parece - continuou o Gualdim- e como é sabido, as estrelas, os planetas, o espaço, sempre intrigaram o Homem.
- Estamos a falar de meados do século XII...- disse o Rafael.
- Claro e que tem?
- Pensava que só no Renascimento o homem despertou para esses assuntos.
- Sim, Rafael, é verdade. Mas se formos por aí...os egipcios já usavam as estrelas...
- Não esqueçamos a idade das trevas - interrompi eu.
- Claro que não- continuou - mas os sábios sempre existiram, os astrólogos, os mediuns.
- E há provas de medionidade nesta pessoa - acrescentou a Lídia - Isso é bem visível no mapa.
- Se tiver sido uma mulher poderá ter sido uma bruxa! Pode ter sido queimada na fogueira- disse o António, já com o quarto como meio cheio (ou meio vazio?).
- Não, António, isso é impossível - disse o Miguel, puxando dos seus conhecimentos - a inquisição medieval foi fundada em 1184, na França. Faltariam mais de vinte anos!
- E não podia ter sido queimada? - disse novamente.
- A questão que queremos desvendar não é essa. Essa poderá ser pertinente noutra altura - disse o David, o nosso arquitecto.
- O que me intriga é a data do mapa...- disse eu.
- O mapa é muito antigo, muito mesmo- disse a Lídia. Reparem no aspecto.
- Teríamos de encontrar o original.
- Isso é impossível, Gil - disse o Rafael para o Gualdim- nem sabemos como se chama o gajo que enviou este artigo, quanto mais onde procurar este mapa!
- Se falamos de 1160, então seria impossivel terem conhecimentos sobre o Sol, a Terra, a Lua...- continuou a Lídia - a teoria do heliocentrismo foi descoberta quando?...1630, 40? Remonta-nos a Galileu, por amor de Deus, como poderiam fazer tal coisas mais de quinhentos anos antes?
- Falaste em medionidade há pouco, querida Lídia - disse Miguel. Todos parámos. Estaria a começar a acreditar em tudo isto?
- Sim, falei...é uma hipótese.
- Medionidade, ocultismo, previsões, visões, transcendem o material, é algo metafísico, é algo ligado à evolução do espírito, ao conhecimento, a um novo plano.
- A um plano inteligivel, como dizia Platão - disse o Gualdim.
- Sim - acrescentei- um plano não material, completamente espiritual.
- Acham que a nossa mulher era assim? - perguntou o Rafael.
- Espiritual era, não há duvidas- disse a Lídia- Agora se foi ela que fez este mapa...
- Só Deus saberá - respondeu o Miguel.