quinta-feira, 30 de abril de 2009

Quando a cegueira pode matar muitos

Nascemos assim: uma será sempre adulta, uma será sempre de meia idade e outra será sempre velha. Uma tece, outra desenrola o novelo e outra remata e corta. Não somos costureiras mas andamos lá perto. A nossa vida é feita de coser, cortar, desenrolar, tecer, desembaraçar nós que às vezes estão tão cegos quanto a nossa irmã mais velha, a Átropos...
- Não consigo veeerr!!
- Átropos, por favor, já chega, lá estás tu outra vez a chamar à atenção, bolas! Bem o povo diz que quando se chega a velho as pessoas voltam a ser crianças!- disse a nossa irmã do meio, a Láquesis. Na verdade elas andam sempre, sempre às turras. Toda a vida andaram...A história é longa: eu sou a mais nova, apresento-me: Cloto, a mais nova das parcas, as tecedeiras da vida dos humanos e semi-deuses, as senhoras do destino, as que podem, enquanto Hades esfrega o olho, cortar o fio da vida de alguém e mandar essa pessoa para o submundo. Sim, somos guardiãs da vida! Muitas vezes nos deparamos com o nosso tear cheio de nós enterlaçados, e uns deles tão confusos que não nos restam alternativa senão corta-los. Mas essa tarefa não me compete. Sou a mais nova e a minha missão é o começo da vida. Começo por tecer o fio da vida durante nove luas, no útero das mulheres. Quando a criança nasce, na décima lua, a tarefa passa para a Láquesis, ela vai tecer a vida dela, é a que mais trabalha, é aquela que impõem as condições para a Átropos, no fim, rematar e cortar o fio da vida. Como podem imaginar a Átropos não é propriamente a mais famosa de nós três, ela basicamente, como é que hei de dizer isto?...É odiada por todos. Numa manhã apareceu cega e isso não é de todo uma boa notiícia.
- Juro! Não vejo nada! Não consigo ver!! - disse ela. Eu e a Láquesis começámos a ficar aflitas, parecia, desta vez, que a Átropos não estava a mentir...
- Mas não vez nem a luz do tear?
- Nada! E agora?
- Agora vai morrer menos gente!- disse eu.
- Não brinques com isso, Cloto. A coisa é séria, não podemos alterar o rumo da vida, do destino, só porque uma de nós cegou!- disse a Láquesis.
- Como vou cortar os fios? Como vou mandar pessoal para o Hades? Oh...ele vai-me matar...
- Isso não pode acontecer nunca, porque tu é que...- disse eu.
- Chega, Cloto!- Temperamental, esta Láquesis, já deu para perceber, não?- Temos de chamar Zeus. Vai buscar o teledivino.
- Não podemos perder tempo, Láquesis! Tenho um falecimento hoje às dez da manhã! Se não cortar o fio aquele homem vai ficar em muitos maus lençois!
- Quem é?
- É um vendedor ambulante lá do mercado.
- O Abdero?
- Não.
- O Duríade?
- Esse não sei quem é.
- O Eleusínias?
- Esse também não...
- Pronto, não interessa! E como pensas mata-lo?
- Tenho de cortar o fio!
- Como? O problema é que só tu podes pegar na tesoura de ouro, só tu podes fazer isso, nem indicações te podemos dar...Temos de chamar Zeus...CLOTO! Esse teledivino!- Sim, sou a "acabada de sair da adolescência", como diz a Láquesis, já deu para perceber também...Tentámos então ligar para Zeus e não atendeu. Fomos forçadas a invocar o Hermes que não gostou nada da situação.
- Por Zeus!- disse ele ao ver a minha irmã mais velha ceguinha, ceguinha- Não posso crer! Só nos faltava mais esta!
- Então? Mas que se passa, afinal?- perguntei.
- Andam a desaparecer misteriosamente pertences e coisas dos deuses do Olimpo- Pena não tecermos a vida dos Deuses, senão já saberíamos- Agora uma das parcas estar cega...? Isso vai mudar a ordem natural das coisas.
- Que vamos fazer?- perguntou a Átropos- tenho um falecimento às dez e este tem mesmo de morrer...
- Mas porquê?-perguntou o Deus.
- Hermes, não revelamos nem falamos da vida dos humanos, já devias saber isso! Sabemos de tudo mas não cuscamos a vida das pessoas, somos túmulos, mais a Àtropos...
- Cloto! Pára com brincadeiras!- disse a Láquesis, sempre do lado da razão. O que sugeres fazer?
- Bom, dada a urgência do falecimento, e já que a Átropos não o pode matar, porque arriscamos muito, pode cortar o fio errado e matar outra pessoa no lugar dele, então temos de recorrer ao Hades.
- Não gosto desse homem- disse eu. E era verdade! Somos opostos, o que eu começo, ele faz questão de acabar e arruinar, tirar a alma e ainda por cima cobrar um óbulo por isso, na travessia dos rios! Puff...Ganancioso.
- Cloto!- Láquesis- Mas Hermes, que pode o Hades fazer? Só a minha irmã tem o poder de poder cortar com a tesoura de ouro, mais ninguém.
- O Hades- explicou o mensageiro- não o pode matar, mas pode leva-lo para o submundo e manter a alma no prugatório até a Átropos recuperar a visão. A alma fica nas margens dos rios, não os atravessa com o barqueiro, não lhe é permitido pagar a passagem até se desprender do corpo totalmente.
- E entretanto como é que fica o corpo?- perguntei.
- Já ouviram falar de coma?- disse o deus- Novidades de uma coisa chamada medicina, coisas dos egipcios, enfim, ele fica "bem", não morre até a vossa irmã recuperar a visão.
- E como fica o fio no tear? Vai ficar em nó?- disse a Láquesis.
- Sim, provavelmente. Mas não se preocupem. Aliás, Láquesis, assegura-te que o fio do homem não se enterlaça com mais nunhum, mas com mais nenhum mesmo! O Hades não gosta de almas no purgatório, sabem como é...Gosta de ganhar o dele em dia.
- A questão é: Como é que a Àtropos vai recuperar a visão?- perguntei.
- Sim, porque está sempre a morrer gente! Tenho de recuperar o mais rápido possível! Senão o rumo natural das vidas altera-se e o mundo entra no caos!- disse a Àtropos a falar para uma parede. Nunca foi boa de ouvido.
- Só Zeus pode voltar a dar a visão. Ele está incontactável, não percebo...Já o tentei invocar e tudo, e nada...Só espero que não se tenha metido em confusões. Bom, mas isso nem é o mais urgente, vendo bem as coisas, desculpa Àtropos não quis ofender. Vamos infocar o Hades e depois logo se vê! Não literalmente...enfim- Lá invocámos o Hades e ele lá apareceu, zangado, e chamuscou a nossa carpete tecida com tanto amor.
- Espero que seja um assunto de morte ou morte porque realmente estava a meio de um banho relaxante. Que me querem?
- Hades! Ainda bem que conseguis-te aparecer!- disse a Láquesis. Sempre achei que ela tinha um fraquinho por ele. Afinal, os opostos atraem-se. Quer dizer, hum, ha...hum, no meu caso não! Que horror! Se eu ia querer aquele arrogantezinho. Ela lá explicou o que se tinha passado e, como calculei, o Hades torceu aquele seu narizinho empinado.
- Não gosto de ter pessoal no purgatório, estragam-me sempre os jardins, andam ali à solta, sem fazer nenhum, não são rentáveis!
- Não te pagam!-disse eu.
- Tinha de ser...- disse ele- a menina espertinha. Queira saber que não é por isso, está bem?
- Sim, pois...
- Mas Hades- disse o Hermes- tem mesmo de ser desta vez!
- E porque não chama o meu rico maninho, o deus dos deuses, o senhor do Olimpo, uhhhh!! Não gostam todos tanto dele? Então! Ele pode dar a visão ali à velhota!
- Sim, mas está incontactável- disse o Hermes com o teledivino numa mão e com o papel das invocações de urgência na outra. São quase dez horas, Hades...O homem tem de morrer às dez. Não te custa nada te-lo por lá, arranja-lhe um trabalho para fazer. Ele é comerciante, deve trazer qualquer coisa das vendas dele nos bolsos, nem que lhe pessas uns trocos pela estadia.
- Ai, mas não pensei eu noutra coisa! Ele vai ter de pagar qualquer coisa por lá estar, oh se vai! Não vai la andar de graça. Para todos os efeitos dou-lhe mais tempo de vida, coisa que vai contra os meus principios...
- És mesmo cruel- deixei escapar.
- É a minha função, lindinha, as coisas são assim- Odeio quando me chama assim- Tu dás a vida aos humanos eu recebo-os quando ali a tua irmã cegueta lhes corta o pio.
- O fio...-disse eu.
- Era uma piada, lindinha. Mas está bem! Onde é que anda então o tal comerciante?- Essa era a função da Láquesis, saber da vida das pessoas. Não somos cuscas, mas a Láquesis quando se junta com as ninfas e as centauras aquilo é um lavar de roupa suja dos humanos que só visto! Enfim, concluímos que o homem andava a fugir de alguma coisa de mercado em mercado. Estava agora no mercado de uma localidade perto de Atenas.
- Pronto, ja sei onde é- disse o Hades.
- Hades, isto é sigiloso, por favor, não podes contar isto a ninguém, nenhum humano ou deus pode saber disto.
- Descansa, Láquesis. Ninguém vai saber. O que vai acontecer é o seguinte: Vou desviar o caminho do mercador, vai para um lugar sem ninguém, um beco, uma coisa do género e pimbas! Fica ali caído, meio vivo meio morto, mais morto que vivo, apanhas-te a piada agora lindinha?- disse, olhando para mim, e continuou- Vem comigo lá para o meu doce lar purgatóriozinho e lá fica até aqui a velhota recuperar a visão- Assim foi. O Hades foi cumprir o que nos prometeu, o Hermes foi fazer o seu trabalho e tentar falar com Zeus o mais rápido possível. A Átropos ficou sentada sem fazer nada, a Léquesis tinha uns novelos por desenrolar e eu tinha o desenvolvimento de quadrigémeos marcado para o meio dia. Só nos restava esperar.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

Laranjas, limões e nozes

- Que faz aqui em baixo meu pai?
- Que susto Atena! Quer dizer, não sei a que se refere!
- Pensas que me enganas com esse disfarce? Esse já está gasto meu pai, principalmente quando o objectivo é agradar às donas de casa solitárias. Imagino que seja isso que o trouxe a Atenas.
- Ahh é isso é! Mas não digas nada à Hera que ela já está farta das minhas escapadelas, e como não consigo evitá-las ...
- Deixe estar que não é o meu género andar por aí a lançar boatos.
- Ai minha querida filha, luz da minha vida! É por isso que és a minha preferida.
- Deixe-se de coisas! Já me sinto a corar ... mas espere lá! Falta-lhe alguma coisa, você está diferente.
- Eu? Ah é da barba! Aparei-a que já estava a precisar.
- Hmmm não é isso, acho que é ... oh não! Você também?
- Eu também o quê meu amor?
- Desapareceram-lhe os seus raios? O pai nunca se separa deles quando vem cá a baixo e ...
- Schiuuuuu!! Fala baixo Atena que isto não são assuntos para se lançarem assim aos quatro ventos, e já sabes que o teu tio Hades ouve tudo o que se passa na terra!
- Então não fui a única. Temos de fazer alguma coisa e rápido! Se alguém descobre ...
- ... mas ninguém vai descobrir porque não se vai falar mais disto. Vais ver que os encontro num instantinho!
- Eu ajudo-o.
Obviamente, tive de arranjar o meu próprio disfarce, escolhi apresentar-me como uma jovem e pobre rapariga que vende laranjas e limões com um cesto para o provar. Sim eu sei que não tem nada a ver comigo, talvez seja demasiado feminina para o meu género mas é da forma que passo despercebida. Nunca fui muito de flores, bonitas túnicas ou jóias vistosas, isso são coisas de Afrodite. Eu sou mais "um" entre os deuses, os meus interesses são mais guerra e ... guerra. O senhor meu pai lá me tenta arranjar candidatos mas eu dispenso-os de imediato. Tenho um dever a cumprir, sou a guardiã de Atenas e deve ser apenas isso que me ocupa a mente e o corpo.
- Oh At... rapariga porque foste trazer um cesto tão pesado? Assim não chegamos a lado nenhum, o Apollo já deve estar a preparar os cavalos e quando amanhecer já não temos tanta liberdade para andar por aí.
- Não se preocupe pa ... senhor de meia idade que eu cá me arranjo. E de qualquer forma vou começar a vender a fruta, no mercado há sempre alguém que sabe de tudo, as mulheres são ... bem você sabe.
- Oh se sei! Mulheres e deusas não sabem estar caladas um minuto, se soubessem como são belas quando estão de boca fechada ... menos tu claro! Tu és a minha querida ... menina.
- Bom ficamos aqui mesmo, no centro de tudo onde as noticias chegam de certeza.
- Mas não achas melhor procurarmos? E se alguém ...
- Confie em mim, tudo o que foi perdido ontem será vendido hoje no mercado!
Esperámos que o sol aparecesse no céu e mal isso aconteceu dezenas de comerciantes saíram de todas as ruelas da cidade e ocuparam as suas bancas. Queijo e leite, carnes e peixe, tecidos e contas, artesanato e ... vários. Sim porque naquela zona do mercado situavam-se aquele tipo de vendedores que comercializam aquele tipo de produtos que pedem alguma descrição. não convem que estejam aos olhos e mãos de todos. Senti que o pai estava nervoso e por isso não lhe falei daquele recanto, decidi deixar as pessoas começarem a circular, vender algumas laranjas e limões para não dar nas vistas.
- Isto é tudo muito bonito, mas não posso ao menos dar umas voltas por aí? Há tanto tempo que não vejo a ...
- Tenha juízo! Ou já se esqueceu do que nos trouxe aqui?
- Então dá-me alguma coisa para fazer ou eu enlouqueço!
- Ajude-me com as caixas, arrume a mercadoria, pegue nessas azeitonas ...
- Mas agora também vendes azeitonas?? Não me digas que estás a pensar ficar aqui o dia todo nisto?
- Claro que não, mas para sermos credíveis temos de vender alguma coisa, fazer negócio, falar com os clientes. Como este que vem aí por exemplo ... Bom dia!
- Sim, sim para si também. Diga-me minha boa senhora a quanto vende as suas laranjas? É que já corri o mercado todo e os preços são exorbitantes!
Não pensei em preços, não estou habituada a estas coisas e agora?
- O que oferece?
- Bom, eu ... elas têm um aspecto muito ... estragado será a melhor palavra.
- Não isso é da luz, faça-me um favor senhor de meia idade ponha a fruta à sombra para o cliente ver melhor.
Claro que desviei a atenção de um homem e fiz com que aquelas laranjas e limões fossem os melhores alguma vez vistos.
- Mas esta fruta é magnífica!!
O homem ficou claramente satisfeito e rapidamente os seus gritos de contentamento atraíram a freguesia e atrasaram a busca dos raios. Mas resolvi aproveitar pois rejeitá-los iria fazer com que desconfiassem. Parece que o meu personagem também foi capaz de atrair muita população masculina e eu comecei a mostrar algum nervosismo.
- Então mas o que faz esta flor tão bonita aqui misturada com a ralé?
- Olha mas que coisinha bonita, bonitos limões, bonitas laranjas, bonitos melões ...
- Oh meu menino vamos lá a ter calma sim!
Pronto o paizinho lá correu em meu auxilio. Ele melhor que todos sabe como são os homens, ainda bem que me ajudou pois estava a ficar incomodada principalmente quando me perguntaram o nome.
- Vamos mas é fazer que o que nos trouxe aqui.
- Então vá o paizinho vai dar umas voltas e por aí e ...
- Nem pensar, já sei o que tem em mente, e aliás eu sei o sítio onde podemos ir.
Fomos então à parte do mercado onde se realizavam os tais negócios obscuros, mais propriamente à banca do senhor X, que supostamente se dedicava ao negócio das nozes.
- Nozes! Boas nozes! Belas nozes!!
- Desculpa meu caro senhor, nós estávamos à procura de umas "nozes". - disse enquanto lhe piscava o olho disfarçadamente.
- Veio ao sítio certo, nozes é que não faltam aqui na minha humlide banca!
- Repare, eu quero n-o-z-e-s. Percebeu?
- Claro que sim, cá estão elas.
- Deixa que eu falo com o senhor fil ... mocinha. Queremos ver as suas outras mercadorias! JÁ!
- Ah já vos entendi! Querem ver as minhas amêndoas!
- Estou a perder a paciência!!!
- Vamos a acalmar vá! Senhor X diga-me por favor ...
- Senhor X? Eu não sou o senhor X, esse é o da banca ao lado!
- E onde está ele?
- Não sei, ainda ontem à noite saímos daqui ao mesmo tempo. Mas ele estava muito misterioso pensando bem, falava de qualquer coisa brilhante e ... bom de qualquer forma hoje não voltou.
Era o que nos faltava, um humano tem em sua posse as armas mais poderosas do mundo. Ao menos sei que o dito homem não foi abençoado com sabedoria e o mais provável é tentar vendê-los na feira mais próxima. Temos de o deter

terça-feira, 21 de abril de 2009

Zeus, o Senhor do Olimpo

- Hera! Onde está o meu pente para a barba?
- Está dentro do caixinha dourada que o Apolo te ofereceu no aniversário, que por acaso lhe deram a ele numa das festas, nas Délias...Aquele homem, realmente, vê se mesmo que não tem mulher!
- Hera, Hera, lá por seres a deusa do casamento, não quer dizer que tenhas constantemente de estar a arranjar casamento para o pobre do Apolo...
- Dos teus irmãos é o mais doidivanas! Lá porque anda com o Sol para trás e para a sempre, pensa que é o quê? E que belo trabalho lhe arranjas-te, digo-te já, marido: Ora o homem trabalha das seis da manhã às sete e depois das cinco às seis, no Inverno! Sim, porque no Verão tem muito mais liberdade...Aliás! Nota-se! Qual estações do ano qual quê! Eu sei bem o que ele anda a fazer para trazer sempre o Sol mais tarde, eu sei bem...Verão, calor, Afrodite...
- Mulher! Que maldizente me saíste!
- Confessa! Ele é um dos teus bastardos...Eu sei que é!
- O Apolo é um Deus como outro qualquer, não é meu filho...
- Como a Atena?
- A Atena é diferente, bolas, mulher! Ela foi a minha primeira filha, do meu primeiro casamento, era tão esperta...Como o tempo passa!
- Primeira!? Eu sabia...Nunca posso estar descansada contigo!- E partiu para o quarto a chorar. Ser Zeus é tão dificil, principalmente quando a vossa mulher é a deusa do casamento. Ela vive apenas para isso. Já estou no meu terceiro casamento e espero não me ficar por aqui...he, he, he, estou na brincadeira...Ela fica bem. Agora vai para o quarto, invoca a Deméter e ficam as duas a falar mal de mim e a comer umas uvas. Essa é a parte boa, cada vez que a Deméter cá vem a casa, por onde passa, é so frutas e flores a nascer das coisas. Gosto disso. Dá para comer, poupa-se e enfeita-se a casa ao mesmo tempo. O mesmo não acontece com o meu irmão, Hades. Cada vez que cá vem, vem de baixo, não fosse ele o deus do submundo, deixa-me sempre a carpete chamuscada. Aquilo é para o quente lá para baixo. Enfim...onde é que eu ia? Ah!
- HERAAAAAAAAAAAAAA!!
- QUE É???- disse ela lá de dentro do seu quarto. Malvada, na sua voz reparei que comia qualquer coisa. A Deméter está lá.
- Onde anda o meu pente para a barba?
- Estás a ficar com a memória fraca, não? Caixa do teu FILHO Apolo...- gritou ela. É verdade, estou mesmo a ficar velho, a idade não perdoa. Já lá vão uns bons milhões. Depois de estar todo aranjado e aprumado dirigi-me à minha sala secreta, onde guarda as papeladas dos assunto que tenho para tratar, as actas das reuniões do Olimpo, a chave da jaula dos Titãs, as minhas meias da sorte e os meus raios, que estão sempre, suspensos, num caixão de vidro. Estão...Onde está? Mas o que é...? Mas onde...?
- HERAA!!! OS MEUS RAIOS! QUANTAS VEZES JÁ TE DISSE PARA NÃO LIMPARES E GUARDARES OS RAIOS EM SITIOS QUE NÃO O CAIXÃO!!
- E QUANTAS VEZES É QUE EU JÁ TE DISSE PARA NÃO FAZERES BALÕES SONOROS E DEPOIS AS COLARES POR BAIXO DOS TRONOS??
- HÃ?
- ESQUECE, FOI UMA COISA QUE VI NA "MULHERGREGA", NÃO, NÃO, NÃO VI OS TEUS RAIOS, NÃO...EU NÃO MEXI! VOU SAIR COM A DEMÉTER, ADEUS!- Entrei em parafuso...Os meus raios, relâmpagos! A última vez que desapareceram foi a Hera que os guardou, por engano, na gaveta dos bastões dourados. Mas agora...agora...Foram roubados!! Tenho de invocar o Hermes! Tenho de falar com alguém! Espera, eu sou Zeus, supostamente tenho de tomar decisões...Tenho de convocar os Deuses! É isso! Os raios que eu tenho sempre nas mãos, quase sempre, têm muito poder, quem os tiver pode acabar com a Grécia, com o Mundo inteiro!! Será que foi uma das minhas ex-mulheres que me roubou? Não me admirava nada...Um dos meus filhos? filhas? Meio filho e animal? Meio filha e animal? Centaurinhos? Ahh!! Bolas! Se não tivesse prendido os Titãs às uns dois mil anos, ia jurar que tinham sido eles! De resto...até sou uma pessoa pacata. No entanto, tenho muita inveja em cima de mim...O Hades, por exemplo, só inveja. O pai deu-me os céus a mim, por eu ser o mais velho, depois deu o oceano ao Poseidon, filho do meio, o Hades teve de ficar com o submundo...Bolas! Mas ele é o senhor do submundo! Ele vê gente morta e tem lucro! Só cada pessoa que morre, para atravessar os quatro rios da morte, paga um óbulo! Oh, oh! E eu? Tenho oferendas dos humanos: Um cabrito, uma galinha, florinhas, vinho... É certo que o Ceronte, lá o barqueirinho do Hades, mete algum ao bolso, assim, à socapa, mas, realmente, no mundo dos vivos, dinheirinho que faz falta só os mortos o têm! Isto para dizer que desconfio do Hades...sempre ciumento. E a Afrodite? Ah...aquela maluca! Ui! Mas essa não, é demasiado meiga e, cá para nós, até morre de amores por mim. O Dioniso...nem pensar, deve estar bêbado por aí, ou em alguma festa, dionisia ou a brincar com as ninfas. Já tive queixas vindas da floresta, por acaso, tenho de me por a pau, também...Mas não, esse não. Oh! Zeus! (Sim, eu invoco-me a mim próprio). Não posso desconfiar dos Deuses! Minha família! Meus irmãos! Companheiros de vida! Não...Também não os posso chamar a todos, seria demasiado imaturo, eu sou Zeus, afinal! Não, vou chamar o meu braço direito: " Invoco-te, oh Hermes!!"..."Hermes, eu invoco-te!"..."Hermes!"..."Hermes, dá cordas às saldálias, que chatice é sempre a mesma coisa!!HERMES!!!".
- Estou aqui, Senhor!- Heis que chega Hermes, o mensageiro dos Deuses, o mais desastrado de todos, também, mas muito competente. O Deus dos viajantes, com as suas sandálias chega a todo o lado. E agora com mais as asinhas para colocar nelas que lhe dei numa das suas homenagens por esta Grécia fora, corre o mum num minuto, literalmente- Perdoai-me senhor, mas uma das minhas sandálias apaixonou-se por um cisne que voava perto do templo de Afrodite.
- Ora bolas! Ainda não deram conta do problema de radiação no templo da Afrodite?
- Parece que não, senhor. A minha sandália ficou presa só pelo dedo pequenino, tal foi o amor repentino que sentiu ao ver aquele cisne. Foi o cargo dos trabalhos...E o meu dedinho?...
- Não sei o que anda a fazer o Heféstos, já lhe disse para resolver esse problema há mil anos!
- Eu lembro-me, senhor. Mas queira saber, isto é só uma opinião, que eu acho que o Cupido tem mão nisto também.
- A terrivel concorrencia da Afrodite...
- Nem mais, senhor. Sabe como é que são aqueles dois...
- Sim, sim, enfim, mas não foi por causa disso que te chamei aqui. Isso, ao pé do meu problema é um misero grão de areia. Bom, a verdade é que me roubaram os raios...
- OH ZEUS DO CÉU!
- Sim, sou eu, eu sei...Temos de encontra-los aqueles raios têm
- Poderes inimagináveis!! Pode destruir a Grécia!! O Mundo!! Mas senhor...Porque não convocou a assembleia? Os Deuses do Olimpo?
- Bom, sabes como é que é, tenho medo que pensei que sou
- Indeciso?
- Sim, mas...
- Inseguro?
- Mais para aí...
- Um totó?
- Já chega, não te estiques. EU VOU ENCONTRAR OS RAIOS E ACABOU-SE!
- Sim, senhor!
- Mas para isso tenho de descer à Terra...
- Senhor, senhor, senhor, não acho boa ideia. Da última vez que desceu fez oito filhos semi-deuses, só Zeus sabe o que é que as mãe passam agora com eles na escola...
- Não, não sei...
- Força de expressão, senhor, peço desculpa, continuando...ah...não correu bem.
- A culpa é do templo de Afrodite! As radiações...aquilo está mal regulado!
- Estava em Esparta, senhor. Da última vez esteve em Esparta, em plena guerra. Sabe como é que os espartanos são...Danados para o combate! Zás!
- Bom,não importa. Desta vez, tenho de procurar em todo o lado!! Tens de me ajudar, Hermes...
- Ajudo, claro, senhor. Então e vai como, em que ser?
- Humano?
- Vamos deixar esse para o fim, já vimos que não deu muito resultado das últimas vezes, ou resultado até demais...- O Hermes tira do bolso uma lista interminável e começa a chutar nomes:- Cão!
- O cheiro...
- Gato!
- Não suporto bolas de pelo...
- Pássaro, desaconselho, veja as minhas sandálias...
- Outro...
- Ora bem, vamos cá ver, peixe não da jeito, lesma também não, planta também não me parece...Ah! Boi!
- Não, nem penses! Deste-me essa tanga há uns bons milhões de anos e eu caí, agora nem pensar!
- Mas veja pelo ladoo positivo, pelo menos criou a Europa! Se não fosse eu a avisa-lo que a moça, lá a princesa da Ásia, a menina Europa, estava disponível...E bonita que ela era...Se não fosse o disfarce de boi, nunca te podias aproximar dela.
- Lengalengas tuas...
- Não, senhor! É a lenda da Europa. Foi tão bonito, quando ela se sentou no seu dorso e depois começaram a voar até pousarem no continente ao lado, a agora Europa, onde está a nossa amada e divina Grécia!
- Sim, sim, conta outra, Hermes...Aliás! Nem pensar! Vou de Humano e acabou-se- E transformei-me num, bem bonito, por acaso, meia idade, vá, também não sou nenhum rapazola sem experiência.
- Senhor, senhor, ainda se vai arrepender...
- Proximo destino: Atenas
- Atenas? Não quer começar por Esparta? Ou até Creta...tão bonita...
- Atenas!! Quem é o Deus dos Deuses aqui?
- Senhor, o senhor, senhor...- Então, deixei um bilhete à Hera a dizer que tinha ido a Esparta separa lá uns grupinhos que entraram em conflito. Na verdade sou agora um homem de meia idade em Atenas que aterrou nu numa piscina pública, debaixo de água. Vi coisas que não queria...Tenho de dar uma apitadela ao Poseidon, isto das águas é com ele. Estes intercâmbios mal feitos...Enfim! Onde se terão metido os meus raios, afinal? Calma, tenho uma mensagem no teledivino: Hermes (quem mais poderia ser?)- "Roubaram o tridente ao Posaidon, o mocho da Atena desapareceu...", ora bolas...

segunda-feira, 20 de abril de 2009

A não perder:

NOVA HISTÓRIA NO CABEÇADAS NO CÉU!

Divina Grécia

Num sitio onde Zeus perdeu as botas, ou qualquer coisa mais,
desenrola-se uma trama envolvente que o vai deixar deliciado!

Não perca uma história divertida, onde os grandes deuses do Olimpo deixam cair a máscara e mostram que não são tão veneráveis quanto isso...

Brevemente no Cabeçadas no céu

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Finalmente os pés acentes na terra

Eu sabia que não podia confiar naquela criaturinha! Cá estou eu trancada na minha própria casa, no quartinho que partilhei com o meu querido Pierre. De todos os meus amantes foi o único que me fez pensar em abandonar a minha vida de pecado. Mas as coisas simplesmente não correram como se esperava. Envolvi-me com homens demasiado poderosos que não aceitam ser trocados por um simples talhante. Esses fazem-me lembrar tanto a Jacqueline, não sei como pude albergar aquela rapariga e pensar que era parecida comigo. Ao contrário dela eu tenho limites, sei quando fui longe de mais e quando é altura de me afastar. Fui eu que deixei o Pierre quando descobri que ele tinha deixado a família. Quando a mulher morreu e os pequenos ficaram sem ninguém, decidi que não precisava de nenhum homem ao meu lado. Arrependi-me de ter aceite o seu dinheiro e senti-me terrivelmente culpada por ter comprado o "Charlotte" em vez de ter enviado o dinheiro aos miúdos. Sei que estão a pensar que não passo de uma oportunista de coração mole e demasiado sensivel. Já fui assim, agora sou uma oportunista de coração de pedra que está a tentar fazer algo com a sua vida, voltar ao que era, uma rapariga simples e honesta. Claro que já vou tarde e os meus 45 anos já não dão muita margem de manobra. Por isso larguei o barco e decidi começar uma nova vida. O problema é que estou encurralada e aquela louca começa seriamente a assustar-me!
Devem ter passado horas desde que me fechou no quarto. Não sei o que fez com o cigano, mas daquele faz o que quer o pobre homem é tão ingénuo. Eu fui uma idiota! Eu sabia que a Jacqueline conhecia a minha história em Marselha e que ía cá chegar a qualquer momento, só não esperava que chegasse antes de mim.
Andei às voltas no quarto, bati na porta e gritei para que ela me liberta-se, pedi socorro mas o quarto era interior era impossível que alguém me ouvisse. A casa fica numa zona relativamente calma e sem vizinhos próximos. Tentei ouvir o que se passava no andar de baixo e foi aí que ouvi vozes. Era a voz do Alan e da Odette também! A Jacqueline devia estar á espera que viessem pois não ouvi qualquer grito ou confusão. Depois deixei de ouvir. Ou saíram ou ... espero que não tenha acontecido nada!
Tentei acalmar-me, sentei-me na cama e comecei a pensar numa forma de sair do quarto. Foi aí que me lembrei da chave que eu guardava na mesa de cabeceira por uma questão de segurança. E ali estava ela! Coberta de pó e ... com uma cartinha por baixo que dizia "pour Charlotte". A carta estava amarelada mas a tinta a letra era legível e percebi de imediato que era a do Pierre.
"Querida Charlotte
Eu sei que te devia ter contado acerca da Brigitte e dos meus filhos mas não tive coragem. Sabia que não estavas interessada em meter-te nesse tipo de confusões. a culpa é minha e não te censuro por não me queres ver mais, só queria que soubesses que me arrependo. Talvez pudesse ter feito as coisas de outra maneira, mas não passo de um talhante rude, selvagem e sensual que só percebe de tripas e moelas. De mulheres nadinha. De qualquer maneira os tempos que estivémos juntos foram os melhores da minha vida. Amo-te hoje e sempre.
Pierre
P.S.- Se passares por um dos meus talhos não te acanhes, faço-te 15% de desconto."
Oh que saudades daquelas piadas secas, aquele sentido de humor disparatado e de província. Talvez por isso fiquei com tanto medo de ficar em Fleury e encontrar outro como ele que me fosse fazer perder o juízo. Mas ainda há tempo de emendar os meus erros do passado. Com o dinheiro que guardei puderei finalmente compensar os seus filhos. Por isso voltei a Marselha onde estão todos os objectos pessoais de Pierre, cartas, fotografias, as licenças dos talhos. Oh Mon Dieu que distraída! Tenho de sair daqui rapidamente! Eu e os meus pensamentos ...
Corri para a porta e dei a volta à maçaneta devagarinho para não fazer barulho. Pé ante pé percorri o corredor longo e escuro até às escadas que dão acesso ao andar de baixo. O silêncio estava a deixar-me nervosa, o encontro entre aquela gente não deveria ser assim tão pacífico. Quando desci olhei em volta e apercebi-me que não estava ali ninguém, estava tudo arrumado e não havia sinal de vasos partidos, que é sempre um índicio de que a Jacqueline teve um ataque de histeria. Que estranho! Talvez estejam no jardim e ...
- AHHH!
- Desculpe senhora Charlotte não a queria assustar!
- M-mas q-que fazes aí homem? Que te fizeram eles Rodriguez?
- Nada senhora Charlotte! Eu é que ouvi a voz da minha Morgana e corri ao seu encontro, mas já não a encontrei.
- E ...
- Ah claro! E os chãos de madeira em França são realmente frágeis pois é a segunda vez nesta semana que fiquei com o pé preso entre as tábuas.
- Anda lá que eu te ajudo. Não sabes para onde foram?
- Eu ouvi a Dona Jacqueline dizer qualquer coisa sobre carne e tripas, umas metáforas ... iam para um sítio repleto de sangue ... um talho!
- O "Faz das tripas coração"?
- Não. Chama-se "Chichinha".
Corremos os dois o mais rápido que conseguimos. O pobre cigano veio com a tábua atrás porque não a conseguíamos tirar e o assunto era urgente. Passámos pelo "Faz das tripas coração" e eu olhei lá para dentro não tivesse o Rodriguez ouvido mal, mas esse já nem existia, era agora uma florista. Pensei reconhecê-la e quese parei para lhe ver o rosto melhor mas o Rodriguez gritou e puxou-me pelo braço.
- Tá ali o negrinho senhora Charlotte! O seu negrinho!
- Pacheco graças a Deus! O que se passa? Onde está a Jacqueline?
- Dona isto tá tudo mal! A louca levou toda a gente para o talho e começou a contar uma história esquesita acerca de si. Começou a dizer que a Odette era sua filha!
- O quê??
- Não quero parecer ignorante dona mas como pode você ter uma filha e não dar por isso?
- Oh o meu segredo revelado. Como foi ela saber? rápido temos de os encontrar!
Quando chegámos ao talho a porta estava trancada e os vidros tapados. Ela deve ter aproveitado que a loja estava vazia pois deviam ser umas 7 horas e ainda estava escuro. Devemos voltas à casa mas não havia forma de entrar. Foi aí que se aproximou um individuo que pela roupa deduzi que trabalhava no talho.
- Bonjour! Vejo que estão com pressa de comprar chichinha no "Chichinha". Vai ser o quê? Uma vaquinha? Porquinho? Franguinho? Digam lá ao homem do talhinho! Atendo-vos logo que encontre as chaves, malditas chaves!
- O senhor trabalha aqui? - pergunta o negrinho.
- Trabalho pois! Não sou um simples talhante sou o herdeiro da cadeia de talhos "Chichinha", criada pelo meu paizinho que Deus o guarde.
Senti o meu coração gelar. Ao ver um homenzarrão daqueles é que me apercebi dos anos que se tinham passado, tanto tempo. Como não pude perceber logo? Ele é a cara do Pierre! e o corpo também ...
- A senhora está bem? Está a olhar fixamente para mim. Olhe que sou comprometido! A minha Juliette tem pêlo na venta, literalmente. Tome cuidado!
Até a forma como se vangloriava era típica do Pierre, que de modesto não tinha nada. Queria saber o seu nome mas não tive coragem de perguntar.
- Ora mas vamos lá a abrir a portinha e a servir a clientela, já o meu bom pai dizia "Clientela à porta chichinha rende, clientela na cama, chichinha apodrece!". Mas porque é que a porta não abre? E as janelas? Algo se passa ... vocês têm alguma coisa a ver com isto?
- Não propriamente deixe-me explicar.
Contei-lhe o essencial, não quis entrar em pormenores como "sou a mulher que fez com que o teu pai deixa-se a tua mãe" ou "a cadeia de talhos é minha por direito pois ele deixou-ma no testamento que trago sempre comigo". Ele ficou visivelmente nervoso e começou a andar de um lado para o outro desorientado.
- Mas eu não posso ter uma louca ali fechada com tanta faca e instrumentos fatais! Ainda acontece uma tragédia.
Eu não estava assim tão apreenciva, a Jacqueline não era capaz de os magoar, ela gosta mais de tortura psicológica. Para além das ameaças só é capaz de uma simples e ridícula luta de "puxa cabelos". Foi aí que o Rodriguez interviu, tirou a tábua do pé e partiu o vidro de uma janela.
- Mon Dieu! Sabe quanto custa arranjar isso seu vândalo?
- Cale-se homem!
- Sim, sim desculpe já cá não está o homem do talhinho que falou.
- Schiuuuu! Falem baixo! Eles podem ouvir.
- Com todo o respeito dona Charlotte, mas se ainda não nos ouviram com o barulho que esse cigano fez ...
- Oh Pacheco foi uma coisinha de nada tenho a certeza que ...
- Dona ...
- ... aliás ele até foi cuidadoso ...
- Mulherzinha o homem do talhinho não a quer alarmar mas ...
- DONA ESTÁ UMA DOIDA ATRÁS DE SI E TEM UMA FACA DE CAPAZ DE CORTAR UMA VACA ÀS RODELAS!
- Por acaso é uma faca para ...
- Cale-se homem!
- Oh senhor cigano eu é que sou o homem do talhinho e eu é que percebo de ... POFF!
Ao menos o cigano calou o rapaz com a sua já famosa tábua, mas isso não adiantou grande coisa quando deparada com uma Jacqueline enraivecida com uma faca na mão coberta de sangue.
- O QUE FOSTE TU FAZER?
- Eu? Dei uma lição aos vossos amiguinhos. Os pobrezinho estão gelados ...
- Sua cabra eu vou mostrar-te como se faz aos assassinos nas África! A gente põe num espeto e faz sanduiche!
- Ei, ei calma Pacheco! Eu não fiz nada de mal. Estão na arca frigorífica a refrescar as ideias, mas vocês demoraram tanto a aparecer que não sei se ... ops! Se calhar é melhor irem ver como estão! Lembrei-me que a temperatura está no mínimo.
- E o sangue?
- Ah isso não foi nada de mais. Este lugar está um nojo e escorreguei quando estava a fechar a porta!
- AH ah aha ha ha! Aleijou?
- Pacheco penso que não é o momento para ... Jacqueline os teus problemas são comigo e não com eles! Deixa-os sair e prometo que resolvemos as coisas, a falar como duas pessoas civilizadas.
- Oh Charlotte querida! O tempo para conversas já lá vai. Ah e já agora a tua filhinha é capaz de estar com frio, é melhor ires lá agasalhá-la. Ahahahaha!
Ela levou-nos até lá. Ela aumentou a temperatura mas recusou-se a deixá-los sair até concordármos em cumprir todas as suas exigências. Foi através do vidro que pude olhar pela primeira vez para a Odette sabendo que era a minha filha. Vi nos seus olhos que estava confusa e magoada, ao menos tinha o Alan ao pé dela. Senti algo assim que a conheci, aquela sensação familiar de que já a tinha visto antes. A verdade é que tentei esquecer este assunto. A verdade é que ela não é filha do Pierre, eu já estava grávida quando o conheci. Ele nunca soube que não era o pai, nem lhe quis contar com medo que rejeitá-se a bébé. Eu também não posso dizer que queria uma criança naquela altura da minha vida. Quando ela nasceu ele sugeriu que a déssemos para adopção, pois sentiu que seria melhor do que a criança crescer a sentir que a mãe não sentia por ela o que devia sentir. Só a uma semana descobri que a levou para a casa da mulher, que a aceitou como uma filha apesar de saber que se tratava da filha do seu marido com a amante. era uma boa mulher, gostava de lhe ter agradecido o gesto. Mas era tudo mentira, só me serve de consolo o facto de o Pierre ter amado a criança. Talvez se lhe tivesse contado a verdade teria cuidado da Odette à mesma. Nunca quis saber o seu nome, nem onde estava, mas á dias recebi uma carta anónima a contar tudo sobre ela. Agora sei quem me mandou a carta.
- Agora reencontraram-se, mãe e filha. Deviam-me agradecer! Senão fosse eu continuavam na ignorância.
- E o que queres diz logo? - tentei parecer o mais calma posível, mas só me apetecia agarrar-me ao pescoço daquela víbora.
- Calma que a história ainda não acabou! Alan meu querido não me esqueci de ti. Sabes que a tua mãezinha também teve alguns dissabores. O teu paizinho também deu umas cambalhotas aqui com a senhora Charlotte. E não me digas que nunca desconfias-te o facto de seres tão diferente da tua irmã Emmanuelle?
- O quê?? - pergunta o rapaz estupefacto.
- Sim vocês são irmãos! Não acham isso repgunante? Só espero que não tenham passado à secunda fase ... aí seria realmente nojento! A tua mãe lá sabe porque não gosta de estrangeiras, más esperiências sabes como é.
- Oh minha grande ... (controla-te Charlottte ela tem uma faca) ... querida, eu só tive uma filha, uma! A Odette, que nunca deveria ter abandonado e é a única coisa que me arrependo na vida!
- E além disso minha impostorazinha! não tens o direito de andar para aí a por bébés em outro úteros, como quem diz palavras na boca de outras pessoas!
- Anne Marie?? Que faz aqui?
- Assim que soube o que se passava apanhei o primeiro combóio para Marselha! E digo mais 15 horas de trabalho de parto não são brincadeira! Garanto-vos que o Alan saiu das minhas entranhas!
- Então eles não são irmãos? Isto parece uma novela dona!
- Mas vais acabar! - e ao dizer isto o Rodriguez pega na sua santa tábua e faz a Jacqueline voar até ao armazém onde estão as carnes penduradas.
Libertámos os "prisioneiros" e a cena foi comovente. Pais e filhos, amantes reúnidos e o Pacheco tentou reanimar o homem do talhinho que era afinal irmão da minha Odette por isso: pais e filhos, amantes e irmão e irmã finalmente juntos. Quando a minha Odette se chegou ao pé de mim senti o coração acelerar.
- Então é mesmo verdade?
- É verdade. Só tenho pena de não te ter procurado antes, de não me ter interessado por ti.
- É muita coisa ao mesmo tempo, acho que vou ter de me habituar à ideia.
Podem achar que foi frio, não houve qualquer contacto entre nós, nenhum beijo ou abraço. Mas soube que ela me ía perdoar mais cedo ou mais tarde. Saímos do talho como se tivéssemos renascido, o "Chichinha" seria sempre um local especial para todos nós.
Eu resolvi ficar em Marselha. Recuperei a velha casa e abri uma boutique com roupas vindas de Paris, para ter uma desculpa para lá ir voltanto de vez em quando. O Rodriguez e a Morgana também ficaram. Tornámo-nos grandes amigos e fui madrinha da pequenina Gigi. A minha Odette casou com o Alan pouco tempo depois. Foi o Rodriguez que os casou aqui em Marselha e o copo de água foi no "Chichina" por insistência do irmão. A Anne Marie e eu tornámo-nos umas boas comadres, escrevemos uma à outra a discutir nomes de netinhos e cuscuvilhices de cá e de lá. Soube que o Pacheco fez as malas e rumou a África onde encontrou o amor e teve um rancho de filhos. Parece que ao contrário do pai deram para crescer bem e o mais velho já chega aos 1,50 cm com apenas 5 anos de idade. O Florentino foi para Paris tentar carreira, mas parece que anda a servir às mesas num hotel de quinta e continua sem sucesso com as mulheres. A Edith e o Marcelle ficaram com o "Charlotte" agora baptizado de "Madame Edith", acrescentaram o "madame" pois só "edith" não chegava para cobrir todas as letras do nome anterior. Oh e a Jacqueline é claro! Parece que o homem do talhinho engraçou com ela. Mas ele não é tão tonto como parece e dizem que fez dela uma esposa submissa que passa os dias a tratar dos 5 filhos e a receber as suas amiguinhas cuscuvilheiras com quem acompanha todos os programas da rádio. Quem diria que ela e a Odette iam acabar cunhadas.
Posso dizer que me sinto verdadeiramente feliz. Tenho o meu espaço e finalmente os pés acentes na terra.
Fim

Um busca do cigano e da madame perdidos


-Bom dia!- Disse eu, ao entrar no quarto do Marcelle e vendo que ele ainda estava deitado.
- Edithezinha...anda aqui para o pé de mim...
- Não, nem tentes! Só depois do casamento!
- Mas nós não vamos...
- Não interessa! Afinal de contas ainda nem foste pedir a minha mão à Anne Marrie.
- Tenho de fazer isso? Porquê??
- Ora! Sou moça de respeito! E a Anne Marrie é uma mãe para mim. Sentir-me-ei ofendida se não fizeres. Aliás, ela já me perguntou quando é que lá ias. Levaaaaaaaaanta-te!- disse eu, empurrando-o para fora da cama.
- Esta pressa toda é para ir a casa da Anne Marrie ou é para quê?
- O Alan está a organizar pessoal para procurar a Jaqueline e a Charlotte, pronto, mais a Charlotte que a Jaqueline.
- Estou cansado...
- Aaaaanda. Que marido molengão que eu arranjei. E, já que falaste nisso, podemos passar, no caminho, na casa da Marrie, realmente...Assim, falavas com ela e as coisas ficavam logo arrumadas.
- E se ela disser que não? Que fazes?
- Nada, fica td na mesma. Mas eu preciso da aprovação dela. Vá, upa, upa e toca a tomar banhoca!- Ele lá me fez esse favor e, após o banho, fi-lo vestir o seu melhor fato (sem eu ver, obviamente, saí do quarto nessa altura, sou rapariga de respeito). Perfumadinho, arranjadinho (como sempre) estava lindo (também como sempre). Fomos os dois para o convés e o Alan organizava, como tinha dito, o pessoal. Aquele barco não viveria sem a Charlotte. Disse ao Alan o que primeiro pretendia fazer, que era falar com a sua mãe sobre o meu "casório", e depois eu e o meu Marcelle, partiriamos, então, em busca da Charlotte perdida. Assim foi. Entrámos na casa da Anne Marie, ela abriu a porta, claro, olhou para o Marcelle e disse: "Não gosto de ti, mas está bem fica lá com a Edith, porque também se não fores tu não é mais nenhum". Eu abracei-a e depois abracei de felicidade o Marcelle, que também estava muito feliz. Isto demorou, ora...uns 3 minutos. Depois fomos então à procura da madame. O Alan tinha-nos dado indicações para perguntar nos cafés, nos bares, nas praças, em todo o lado! Mas não foi nem preciso proferir uma palavra...
- Oh! Pst!- disse uma velha que estava encostada ao pé da igreja. Pelo aspecto era...enfim- Andas à procura da velha do barco?
- Andamos- disse o Marcelle.
- Epá, é assim, ah...ah...-e tira um papelinho de sabe-se lá de onde e começa a ler- Ora...eu vi-a quando saiu do barco e ela estava a falar com um homem que...- e parou, não deveria estar a perceber a letra, ou sei lá- que...que era...esquece esta parte! Iam para Marselha.
- Oh!!- disse eu- Temos de avisar o resto das pessoas! Obrigada minha boa senhora!
- Dizem que sim!...- e lá fui eu e o Marcelle, a correr para o barco, dizer ao Alan (que estava na "base") o que acabavamos de saber!
- Marselha? Mas porquê?- perguntou.
- Não sei, agora vamos rapidamente!- disse o Marcelle.
- Vamos de barco?- Alan.
- Claro, querias levar esta gente toda como? Vá!- De facto, a Charlotte tinha deixado o barco ao Marcelle. Tinha de ser! Que espírito aventureiro! Ai! Juntou-se toda a gente e fomos rumo a Marselha, que não era nada longe. Demorámos um dia. De noite, o Marcelle e o Alan ficavam acordados à vez para conduzir o barco e eu e a Odette também, claro, para fazer companhia aos nossos heróis. Ouvi uma conversa enquanto eu dormia ao lado do Marcelle ("dormia") e a Odette e o Alan enfrentavam o mar, sempre avistando a costa, não vá o diabo tece-las.
- Não consigo acreditar que estamos aqui, sem Jaqueline, sozinhos...
- Nem eu...Estive a pensar: Gostava de voltar para Paris, mas desta vez contigo-
- Também gostava, sim. E Marselha? Desde pequena que gosto da cidade, ia lá muitas vezes com o meu pai, aliás não me admira nada a Charlotte ter ido para lá, o meu pai deu-lhe...- Nesta altura abri o olhito. Sabia que havia mais qualquer coisa sobre a ida da Odette para Fleury, mas não sabia exactamente o quê. O Alan fez questão de perguntar o que eu tanto desejava perguntar e a Odette acabou por dizer tudo- Deu-lhe tudo, Alan, tudo...A Charlotte era amante do meu pai. Ele largou uma cadeia de talhos que tinha, largou a minha mãe, a mim, aos meus irmãos, tudo por ela. Passado um ano de ele se ter ido embora, para Marselha, precisamente, a minha mãe morreu e eu e os meus irmãos fomos distribuídos pelas casas dos nossos padrinhos, não tínhamos mais ninguém. Foi uma sorte ter os meus padrinhos, sempre tão queridos, nunca me negaram nada. Assim, fui para Toulouse e os meus irmãos, mon Dieu, um foi para Paris, outro para Lion, outro ficou por lá mesmo, sei lá, já lhes perdi o rasto há muito. Não me quero vingar da Charlotte, só quero o que é meu por direito. Até porque acho que ela nem sabe que o meu pai tinha uma família, um negócio...Soube mais tarde, por ter ouvido uma conversa dos meus padrinhos, que a Charlotte tinha um barco, com o nome dela, e que andava pelas terras a fazer espetáculos. O nome ficou-me na memória e desde esse dia que decidi que a quero encontrar e quero o que é meu por direito.
- Falas do barco?
- Falo de tudo, Alan. Das casas em Marselha, por exemplo. O meu pai era um homem endinheirado. Tinha duas casas, pequenas, é certo, em Marselha, uma em Lion, onde moravam os padrinhos do meu irmão mais novo, e para onde ele foi, outra sei lá onde...Ela só conseguiu erguer aquele barco porque o meu pai a ajudou. Foi com o dinheiro do meu pai que ela andou com o negócio do cabaret. Claro que depois a isto tudo juntou-se o facto de me ter apaixonado por ti...E se nunca mais conseguir encontrar a Charlotte, mesmo depois de chegar a Marselha, também, sinceramente, não quero mais saber dela para nada. O facto de me ter apaixonado por ti já vale tudo o que vivi. Quero uma vida nova para mim e tu estás incluido nela.- Seguiu-se um beijo apaixonado. Não queria acreditar no que estava a ouvir. Enfim, uma pessoa vive trinta e poucos anitos sem ver nada nem fazer, nem ouvir nada nesta vida, nada de relevante, vá, e de um momento para o outro acontece tudo. Incrível. Mais uns dois turnos do Marcelle e chegámos, pela manhã, a Marselha. Que porto magnifico. A minha primeira viagem! Afinal, nunca tinha saído de Fleury, assim, para tão longe. O Alan reuniu o pessoal no convés, mais uma vez, e avisou que ele e a Odette iam sair. Após todos terem dispersado, ele fez-me sinal e disse para eu e o Marcelle, nos juntar-mos à busca, assim como fez com a cigana. Curiosamente, mesmo curiosamente porque para todos os efeitos não sei de nada, em abri a boca para dizer nada, o que eu menos quero é xatices, mon Dieu, a Odette sabia exactamente onde é que, supostamente, a madame estava escondida com o cigano (que fraco gosto, realmente).
- Já vieste aqui?- perguntou o Marcelle quando chegámos à porta de uma casa, um pequeno prédio de dois andares . Pois claro! Estava a roncar em vez de ouvir a conversa, como eu!
- Sim- disse a Odette- É uma longa história...Se ela não estiver aqui, deve estar numa outra casa, parecida, mas na rua abaixo.- Batemos à porta. Nada. Não era ali que ela se escondia. Descemos a rua e batemos à porta daquela casa de que a Odette falou. Eu já nem queria saber da madame, estava a adorar a cidade grande! Se o Marcelle não fosse um marinheiro de cabaret, não me importava nada de arrumar os meus trapinhos por lá. Desta vez abriram a porta.
- Pacheco???- dissemos os cinco.
- Oi! Entrem, entrem a madame está a vossa espera!- Entrámos. A madame?
- Pacheco- disse o Alan- a madame Charlotte espera-nos? Como, se ela nem sabia que vinhamos para cá...?- E entrámos numa sala, grandita até.
- Não, mon amour! Não é essa madame que vos espera, amour de ma vie. Sou eu! Jaqui, a tua Jaqui, para sempre! Ainda bem que já chegaram! Sentem-se, sentem-se! Pacheco, vai lá buscar a velha. O cigano deixa o lá estar, está a fazer um bom trabalho com a loiça suja- Fomos supreendidos pela Jaqueline, que, sentada numa chaiselong fumava a sua irritante cigarrilha e fazia questão de estar só de roupão. Tapei os olhos ao Marcelle logo a seguir! A Odette agarrou o braço do Alan e lançou-lhe um olhar fulminante e a Morgana apenas levanta a saia comprida , sem pudor algum, e tira da meia uma navalha, uma considerável navalha, faz um olhar matador à Jaqueline e senta-se no sofá, de perna aberta, à homem e fica-se por ali. Mulherzinha desfrutável,aquela "Jaqui"...

terça-feira, 7 de abril de 2009

Lavar de roupa suja também conhecido por VINGANÇA!

Cambada de lamechas, gente sem vida, sem sal! Até estou aliviada de tudo ter acabado e de estar livre desta gente. Parece que a Charlotte é que foi esperta e safou-se enquanto pode. A espertinha soube que ía sobrar para ela, é aí que reside o meu último trunfo. Eu não vou sair de cena assim sem mais nem menos, eles não se vão ficar a rir de certeza. A última palavra é minha. Se nem o Alan nem o Marcelle são meus não são de mais ninguém e a Charlotte vai se arrepender de não me ter defendido e por ter aceite aquela desgraçada no meu lugar.
Enquanto acabavam aquela aberração a que chamam espectáculo eu corri para os quartos e tirei todas as jóias que encontrei. A maioria estava no quarto da Charlotte, como seria de esperar. Devia estar mesmo desesperada para as ter deixado para trás. Ainda tentei ir à arca onde guardava todos as suas fotografias e as cartas dos seus amantes, mas disso ela não se esqueceu, aliás deve ter sido a primeira coisa que levou consigo. Não interessa, alguma coisa hei-de arranjar.
Os aplausos fizeram-se ouvir, para um público provinciano e estúpido qualquer coisinha serve para uma ovação. Escondi-me na nos bastidores enquanto o público voltava ao porão para "raspar o prato". Ouvi uma conversa sobre a Charlotte e um cigano, parece que fugiram e a mulher fez a escandaleira que era de esperar, seguida de um mar de lágrimas e a berrar pelo seu maridinho agarrada à barriga. Tenho saudades de pessoas civilizadas, que sabem estar, que lidam com as tragédias de forma fria e insensível um "tu é que perdes" ou um "paciência nem eras assim tão bom". Ai como tenho saudades de Paris! Com sorte estou lá daqui a uma semana, mas para isso preciso de uma lista de ajuste de contas.
Vidas a arruinar:
- Odette: por se ter metido no meu caminho e arruinado as minhas chances com o Alan;
- Alan: por ter caído na conversa da pindérica e me ter ignorado por completo apesar da maneira descarada como me atirei a ele;
- Anne Marie: por me ter traído, prometi que separava a Odette do querido filhinho, quando chegou a hora a velha acobardou-se;
- Edith: por me ter roubado o Marcelle, o meu homem-reserva e adorador/ lambe-botas;
- Marcelle: Edith!
- Charlotte: por me ter trocado pela desenxabida, eu que sempre fui a estrela do cabaret, eu que sei da vida dela coisas que todos desconhecem;
- Pacheco: por me ter estragado o meu vestido preferido e por me cuspir na sopa já lá vão 10 anos.
É claro que tenho tudo planeado. com a Charlotte longe daqui até será mais fácil e usarei as jóias para angariar apoiantes. A verdade é que durante a minha estadia fiz algumas "amizades", a Francesca e a Sophie Tereze são duas velhas prostitutas que não arranjam trabalho na vila, não me perguntem como as conheci. É certo que são velhas (podiam ser irmãs da Anne Marie) mas estão desesperadas por algum dinheiro e assim derepente são as únicas que me podem ajudar neste momento.
A gentalha estabeleceu-se no barco e por isso tive de voltar à vila para procurar as minhas camaradas. Como sempre estavam na esquina junto da igreja, em pose atrapalhada e a serem importunadas por uns individuos claramente ... bêbedos.
- Oh boa! Belos presuntos que tens aí Sophie, posso dar uma trinca?
- Oh jóia deixa-me ser o teu ourives!
Apesar dos comentários menos simpáticos elas pareciam gostar, deve mesmo ter sido a única atenção que recebem em meses já que os rapazes saíram entusiasmados do cabaret. Tive de ser eu a acalmar os ânimos e a resgatá-las pois o padre ameaçou atirar um balde de àgua fria para fazer desaparecer estes "animais". Dito e feito, ficaram encharcados, deitados no chão a olhar as estrelas e a cantar as músicas do espectáculo. Tristes! Fomos para a casa delas onde lhes contei o meu plano. Ao contrário do grupinho que ficou no barco eu sei perfeitamente para onde a Charlotte fugiu, só pode ser para Marselha o único sítio no mundo onde está alguém que se importa com ela.
- Oh queridinha e o que pensa fazer? Chegar lá e armar uma confusão? Que ganho eu com isso? - pergunta Francesca com o seu sotaque deliberadamente carregado que pensa, erradamente, ser sexy.
- Nós vamos fazer com que o esquedrão de tristes lá chegue. Mas claro que não vão saber que sou eu quem dou a pista, é aí que preciso de vocês. Sabe-se lá porquê mas as gentes do cabaret ouvem o que velhas pêgas têm a dizer, ops falei de mais!
- Han? - perguntam ambas em coro.
- (não sei porque tento ser subtil com este tipo de gente) Eles estão habituados a serem liderados por uma pêga ... a Charlotte! Não passa de uma reles meretriz que andava pelas ruas de Paris a fingir-se de cantora e a ganhar trocos roubando-os a ceguinhos e a velhas pernetas. Subiu na vida graças ao Senhor Genet, velho jarreta que se encantou com ela e a conseguiu por a trabalhar num cabaret. Desde aí que tem a mania que é estrela, mas só sobrevive à custa de homens ricos e de família.
- Isso é que é lavar de roupa suja Jacqueline! É inveja é?
- Cala a boca Sophie! Se a fechasses mais vezes nem tinhas herpes nem tanta gordura saturada!
- E então o que queres fazer? Chegar lá e denunciares o que ela fez? Não sei como isso vai resolver a tua questão.
- Chantagem minhas senhoras!

Revelações


- Boa! Agora nós, minha menina! Tu fizeste da Edith uma cigana e enganaste-me! Fizes-te com que ela enfeitiçou o Alan, ela enganou-me, fiquei gorda, horrivel!! Vais me pagar!!- E vinha direita a mim quando simplesmente lhe estendi a mão num gesto para a fazer parar, como se fosse um guarda.
- Calma! Primeiro: Eu era a cigana. E Edith foi uma solução que se arranjou na hora, quando descobriste que era eu...
- Eu sabia!!
- Segundo: Não enfeiticei o Alan, nunca o fiz.
- Não?- disse a Morgana.
-Não- continuei- Tinha realmente imensos feitiços, poções, mas não usei nenhuma, pronto, a não ser a primeira, que acabei por entornar a água no pé errado etc, etc, uma longa história. Mas a verdade é que das sessões que tive com o Alan, como Guadalupe, nunca lhe dei nada a beber, nunca lhe lançei nunhum feitiço. Apenas falei com ele, apenas falámos de coisas triviais, nada de mais...Só o fiz cair na real.
- E como explicas o facto de ele estar caídinho de amores por ti? Hã? Foi quase de um momento para o outro!!- disse a Jaqueline, que se fosse um dragão já tinha queimado tudo em volta.
- Esperem!- disse o Alan, até à altura calado- Isso não se explica- todos ficaram calados e eu senti que realmente o meu "trabalho" tinha finalmente dado frutos- A verdade é que nas longas conversas que tive com a Guada...Odette eu percebi que de quem eu gostava mesmo, por queme stou apaixonado é ela mesmo, a Odette. Estou desde o dia em que a minha carroça chocou contra a bicicleta velha dela. Desde que ela se irritou comigo por eu a estar a observar do cimo de uma árvore; quando lhe apanhei a malha da meia; quando a levei comigo com a esperança de que nunca mais nos separassemos. Não precisei de feitiços para saber nada disso, as coisas acontecem, simplesmente acontecem...- E olhou para mim com aquele olhar- Só tenho de te pedir desculpa, Odette, por não ter ido atrás de ti quando te foste embora do espetáculo, tenho mesmo pena, fui um idiota, mas, no fundo, a Jaqueline estava-me a prender de tal maneira, fiquei confuso, porque pensei que ao figires também não te importavas comigo...
- Mas eu nunca pensei nada disso- disse eu.
- Sim, agora sei que sim- respondeu- Desculpa...- E chegou perto de mim e abraçou-me. Finalmente consegui, depois de tanto tempo, voltar a sentir o seu perfume, o cheiro dos seus cabelos. Depois do abraço olhou para todos, inclusive a Jaqueline que tinha assumido, de vez, uma postura de derrotista- Jaqueline, basta...Já chega disto tudo.
- Mas eu quero-te tanto, Alan!! Fica comigo, eu sou uma mulher muito mais evoluida, não vez??- ele nem lhe respondeu. Todos estavam parados, a olhar, incluise o Marcelle e a Edith, que, abraçados, assistiam àquilo tudo como um filme. A Edith, inclusive, chorava. Era, de facto, uma cena comovente. Finalmente o Alan tinha descoberto que realmente eu era o amor da sua vida. Não podia estar mais feliz- Esquece- continuou a Jaqueline, tirando as plumas vermelhas da cabeça e atirando-as para o chão- já percebi tudo. Fiquem lá os dois, que porcaria de vida a minha...Sejam felizes, vá! Mas desapareçam-me da frente, vão para onde quiserem, só nunca mais me apareçam à frente...Aliás, deixem se estar. Eu mesma me encarrego de desaparecer da vossa vida, afinal fui eu que começei isto tudo...- E saiu da sala. O Marcello preparava-se para ir atrás dela, quanda a Edith o agarrou e lhe deu uma palmada no braço, como gesto de reprovação. Essa tarefa coube ao Pacheco, que, pelas suas pequenas pernitas, correu atrás da má da fita. Eu continuava abraçada ao Alan, estava-se tão bem entre os seus braços. Depois de segundos de silêncio o Florentino fez-nos descer à terra.
- É assim malta: O espetáculo tem de continuar...Tenho uma multidão lá em baixo a comer o que nos restava para mais duas semanas no mar. Como vamos fazer?...- Olhámos uns para os outros. Ninguém sabia como solucionar o problema.
- Eu não me importo de fazer a vez da Jauqueline.- disse a Edith.
- Não! Mulher minha não anda de pernas ao leu e com outras duas coisas quase ao leu...- O Marcelle não parecia gostar da ideia.
- Mulher tua?- disse ela- Oh, Marcelle, que queres dizer com isso?
- Edith, tu, Edith, oh, Edith, aceitas ser minha mulher?
- Mas...não podemos casar, tu já és...
- O casamento é uma coisa simbólica, sem importância- E saca de uma caixinha do bolso traseiro das calças. Quando a abre, faz aparecer um bonito colar de pérolas verdadeiras e ouro branco! ouviu-se um "Ohhhh" geral pela sala. A Edith começou novamente a chorar- Aceitas ficar com este músico de cabaret, viver comigo, termos sete filhos e um cão?- Ela estava paralizada. Naquele momento, em que todos esperava-mos pela resposta...
- Sim! Sim, ela aceita, songamonga, até faz o moço esperar!- disse a Morgana rapidamente, seguida da Edith que deu um guinchinho e saltou para o pescoço do Marcelle, cobrindo-o de beijos. Todos aplaudimos tal situação e eu estava prestes a recer um beijo do Alan quando, mais uma vez, o Florentino interrompeu.
- Minha gente! Isto é tudo muito bonito, sim, lindo, parabéns aos "noivos", mas tenho uns devoradores no porão que parcem que não comem à um mês, e daqui a nada , não tarda, começam a comer o próprio barco. Vamos ao espetáculo, minha gente!
- Amor, vá lá Marcelle...Deixa-me salvar a situação, só desta vez...- implorou a Edith ao seu amado Marcelle. Ele lá concentiu, agarramos nas plumas que a Jaqueline tinha deixado no chão, uns fatos mais velhos, vestimos a Edith, e fomos para os nossos lugares, de onde tinhamos parado. O pessoal voltou do porão, sentou-se nas cadeiras e, finalmente, a rapariga, eu, revelou-se perante todos, nos dois sentidos: no da peça, e no real. Todos adoraram e aplaudiram. Vi do palco a senhora Anne Marrie, que chorava, com tal cena dramática, vi todo o pessoal do café "Poison", que aplaudia de pé, vi a Morgana que assobiava estridentemente, com os dedos enfiados na boca. Que gratificante. No entanto, não vi a Charlotte...Provavelmente estava chateada comigo, iria correr comigo ao pontapé, nunca mais eu pisaria aquele palco. Após o espetáculo terminado fui para o "meu" camarim. Na verdade era o da Jaqueline, mas essa, segundo o resto do pessoal, nem no quarto estava. Tinha-se evaporado. Ela e o Pacheco. A Charlotte, supostamente, estava no quarto trancada, e não respondia nem abria a porta a ninguém. Estava a tirar a maquilhagem no camarim, quando entra o Alan, sempre com aquela calma, sempre com o seu jeito.
- Sabia que vinhas- disse eu.
- Por que nunca me disses-te que eras tu a cigana?
- E por que nunca me reconheces-te?
- E por que fizes-te tudo isto?
- E se eu te disser que é uma longa hostória?
- Não tem só a ver connosco?
- E se eu te disser que não?
- Nã0?
- E se nos deixar-mos de perguntas tolas?- Parti para ele, queria tanto beija-lo. Só Deus sabe como me custou conter tanto tempo. Todos os dias o via, todos os dias falavamos, todos os dias tinha de o ver e pensar que já não faltava muito para lhe dar todos os beijos que quisesse! Era agora!...
- NÃO ENCONTRO O RODRIGUEZ!- Ou...talvez não.
- Morgana...deve ter ido para casa...- diss eu.
- Não!! Não está em lado nenhum! Nem na praia, nem em casa, nem a pescar no lago da vila, nem em lado nenhum!!- Nunca tinha visto a Morgana tão desesperada, principalmente quando o assunto é o Rodriguez- Eu acho que ele fugiu de vez...
- Não!- disse o Alan- Por que haveria ele de fugir?
- Oh, rapaz, eu sou muito mázinha para ele- disse ela, sentado-se na "minha" cadeira, e olhando para a sua propria figura no espelho- Sou uma parva...Ele é um amor de homem, fazia tudo por mim, e logo agora que...Que estou grávida- Não queríamos acreditar!
- Mas tu não podes ter...
- Oh! Odette, minha cara...Não posso? Sempre pude, só que não queria. Chás, uns pozinhos aqui, uns ali e nunca fiquei, sentia-me livre...Mas agora queria tanto ter um bebé, um fruto meu e do Rodriguez. Ele no fundo é o homem da minha vida, ora bolas!- Nunca pensei ouvir tamanhas palavras da boca da Morgana.
- Odette! Odette!- entrou o Florentino a correr no camarim- Está tudo doido à procura da madame Charlotte! Deixou estes bilhete:
Queridos,
Fui viver a minha vida como realmente a queria viver há muito tempo. Estou velha e já não me sinto capaz para arcar com tamanha responsabilidade que é fazer um espetáculo com tamanhas dimensões. Este barco, no fundo, é vosso. São vocês que fazem dele o verdadeiro cabaret, o verdadeiro espetáculo. Sem vocês ele nunca existiria. Deixo-o a uma pessoa que sei que nunca me vai decepcionar, a uma pessoa que vive para isto, que faz da sua vida este barco. O Marcelle. Poderia deixar a qualquer um, são todos uns queridos, mas eu sei que este garçon nunca vai largar este barco, nunca me decepcionou, sempre me ajudou, é alguém estável para comandar este navio. Foi uma surpresa esta revelação? Se foi ainda bem. Parto com aquele que me vê como uma simples mulher, que me vê como apenas a Charlotte. Pode ser que mais tarde perceba que fui feita para ele.
Beijos, Charlotte.
- O mon Dieu!- disse eu- ela fugiu!
- Espera, está aqui outro bilhete!- Disse o Florentino. Era a letra da Charlotte, mas não era ditado por ela, se é que me entendem...
Morgana,
Sou eu, o Rodriguez. Como não sei escrever dei a esta senhora o papel e ela escreverá por mim, já que sou analfabeto. Talvez seja por isso que não gostes de mim, ou simplesmente porque sou um nabo, que não tem jeito para nada, nem para fazer filhos. Então, cá vai: Vou-me embora, serás mais feliz assim. Já não terás de me mandar fazer as coisas, nem ralhar comigo, sabes porquê? Porque não estarei aí, pois é. Não sei para onde vamos, mas vamos tentar ser felizes, apesar de gostar de ti, esta senhora também não é nada má e até não desgosta do meu cheiro. Diz que a faz sentir mulher e que lhe faz lembrar o passado. Então é isto.
Adeus, o teu cigano.
- Nãaaoo!!- A Morgana rompe num choro desgraçado.
- Calma, calma, eles não devem estar longe- disse o Alan.
- Culpa minha! Culpa minha! Isto tudo é culpa minha!! Que estupida que fui, Dieu! Que estúpida!
- Calma- disse eu- eles de barco não foram, por isso não vão muito longe...Só podem ter ido a pé ou...
- De carro...-disse o Florentino- A senhora deve ter chamado um carro e saiu daqui, se a conheço, foi isso que ela fez.
- Eu vou encontrar aquele homem! Eu vou até ao fim do mundo, mas eu encontro aquele homem!! O meu filho não há de ficar sem pai!!- Disse a Morgana, levantando-se da cadeira, limpando as lágrimas- Vou recrutar pessoal, tem de ser!
- Nós vamos contigo- disse o Alan.
- Sim, o barco não pode viver sem a madame Charlotte!- disse o Florentino
- E eu ainda não acabei o que vinha aqui fazer...- disse eu. Tenho coisas a resolver, sim. Parte do plano está completa. O que tenho para dizer à Charlotte não pode ficar por dizer.

segunda-feira, 6 de abril de 2009

Traidores e oportunistas

Isto de dias de estreia mexem-me com os nervos, a incerteza, os atrasos, os imprevistos ... à conta de tantos anos na profissão já ganhei uma madeixa de horrendos cabelos brancos que escondo a todo o custo. Ai se ao menos tivesse um homem do meu lado, um homem forte e determinado que me fizesse esquecer todos os problemas. Talvez no próximo porto, talvez o último que eu já não aguento esta vida. A primeira parte passou a correr, estava demasiado nervosa com a voz da Jaqueline para me preocupar com tudo o resto. Os ensaios foram um desastre e quase tive para cancelar tudo na véspera. Mas o estranho foi que no dia da estreia cantou como nunca a ouvi cantar, mais, como nunca ouvi ninguém cantar. Fiquei francamente aliviada e deixei-me levar pelos aplausos que ecoavam da plateia lá em baixo. Ohh que saudades que tenho de actuar! Todos os olhos postos em mim ... e o meu amor a aplaudir de pé. Tempos que já lá vão e nunca mais voltam.
Com a peça na recta final, resolvi deixar o camarote e assistir lá em baixo junto do restante público. Todos os actores estavam alinhados atrás e apenas a Jacqueline, no centro, estava iluminada. Ela prepara-se para tirar a máscara quando ... a ira se atira a ela!! Completamente em pânico fiz um gesto para que o Pacheco baixa-se as cortinas e lancei-me para o palco.
- Meus senhores espero que tenham gostado deste bonito espectáculo preparado com muita dedicação e ...
- Mas ó mulhéri a peça não acabou! - grita um balofo.
- Sim nós não sabemos o que aconteceu à bo ... à senhorita! Paguei um balúrdio para aqui estar, exijo saber o que aconteceu! - grita um enfezado.
- Claro, claro e vão saber depois deste curto intervalo. Podem dirigir-se ao porão onde se encontram bebidas e aperitivos para ...
- Tem leitão? - novamente o balofo manifesta-se.
- Não mas tem ...
- ... peixinho frito com espinafres e um fiozinho de azeite?
- Claro porque não.
Os homens são todos iguais, a sua vida é uma sucessão de comida, bebida e mulheres, caso uma destas necessidades esteja satisfeita não se recusa a nada nem protesta. Claro que não tinha nada disto previsto, o Pacheco e o Florentino foram recambiados para a cozinha onde desenrascaram uns petiscos regados com grandes quantidades de alcóol. Ai a despesa! espero bem que compense!
Fui ter com as duas desgraçadas que continuavam pegadas que nem duas cadelas com cio a lurtar pela "atenção" do macho. Se a Jacqueline fez alguma coisa eu juro que a mato! Já não posso com as fitas dela ...
- Ora bem o que se passa aqui? Tu "ira" larga a Jacqueline.
- Mas você não vê que sou eu sua velha jarreta? Eu sou a "ira"!
- Mas se tu ... quem ... tira a máscara imediatamente!
Era a Odette, quem mais poderia ser. Esta história entre as duas passou dos limites e a minha teoria das cadelas foi comprovada. O pobre do Alan está no meio de duas loucas que só o vêem como um prémio. Insultaram-se e esbofetearam-se mais umas vezes até que a Odette pôs um fim no assunto.
- Isto é ridiculo! Eu não nasci para isto, não sou uma selvagem como esta ... eu, eu só quero resolver as coisas. Não vim aqui para estragar o espectáculo de ninguém. Está bem só para a Jacqueline.
- Mas como é que tu ...? - perguntei incrédula.
- É simples, a Jacqueline é a pessoa mais fácil de manipular, basta dizer que é bom para emagrecer que ela toma tudo o que lhe dermos sem hesitar. Quando adormeceu troquei as nossas roupas e ocupei o lugar que sempre foi meu. O público concorda.
- Eu só quero que se comportem, acabem a merda do espectáculo e em seguida vão todos para a rua, para a RUA!
Saí furiosa e quase que caí do palco, se tivesse ficado lá mais um minuto que fosse explodia. Fui para o quarto bati com a porta e fiquei à espera que aquela palhaçada acabásse. Nem quero saber como acaba, só desejo que termine de vez. Depois de ter tomado um ou dois calmantes ouvi baterem à porta.
- PACHECO VAI EMBORA! NÃO QUERO SABER DE NADA!
- Senhora desculpe eu ...
Não reconheci a voz e por isso revolvi abrir.
- Quem é você? O que tem no pé?
- Ah sou o Rodriguez senhora!
- Você é ...
- ... um homem sim! Nunca viu nenhum é? Por acaso a minha mãe sempre me disse " Rodriguez as mulheres nunca saberão o que é um verdadeiro homem até experimentarem ..."
- Não homem esqueça, não quero cá gente da sua laia. Dou-lhe a oportunidade de sair daqui sem problemas, por isso xô!
- Eu estava alí sossegado com o pé na tábua, é verdade fez buraco é melhor ir tratar daquilo, quando vi a senhora a correr e a bater com a porta. Nunca gostei de ver mulher triste, eu posso ajudar?
- Talvez. Não deves ter visto nada do que se passou, o teu lugar não era o melhor, mas ... revoltaram-se contra mim!
- Quem?
- Os actores! Dizem que não lhes pago e que vão roubar-me tudo o que tenho. Eu sou uma pobre mulher que anda a juntar dinheiro para puder comprar uma casinha à beira mar ... não faço mal a ninguém!
- E como posso ajudá-la madame?
- Mademoiselle para si. Você é um homem bonito e charmoso, tem uns belos ... ah belos cotovelos e ... gosto de si acho que devíamos ser sócios. Fugíamos deste antro de traidores e oportunistas.
- Um problema. Sou casado.
- Mas ... oh mas eu estou tão frágil ... e carente!
- É melhor ver com a esposa, ela pode pensar que a estou a trair e , ela não percebe toda esta história de mulheres e ...
- Pago-lhe o que for preciso se me ajudar a ver-me livre desta gente e fugir para Marselha. Que me diz?

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Eu, apenas uma espectadora!


-Apressa-te, Rodriguez, já não te vejo bem!- Estava sentada junto à porta da nossa tenda. O Rodriguez impiriquitava-se lá dentro- és pior que as noivas!
- Xaram!- disse ele, saindo triunfalmente da tenda- que tal?
- Cheiras mal!
- Morgana...bolas, uma pessoa tenta te agradar e depois és assim...
- Cheiras a gato morto, que queres que te faça? E esse casaco, onde é que o roubas-te?
- Era do paizinho...
- Logo vi...- Com esta lengalenga toda nem dei pela chegada da minha querida "Guadalupe"- Vais ao espectáculo? Mas...assim vestida? Não deverias ir fazer a vez da Jaqueline? Mau...não tinhamos concordado que o Rodriguez a ia raptar?
- Eu ia raptar a moça do cabaret?
- Cala-te, Rodriguez...Então, Odette? Explica-te lá...
- Bom, na verdade os meus planos são outros. Estive a falar com a Edith e temos um plano em mente.
- Contaste-lhe que...
- Sim, que a Charlote é mais do que a dona do bar. Ela é, ou foi, a pessoa que fez com que os meus pais se separassem...
- Ela era a outra??
- Cala-te, Rodriguez!- dissemos as duas em coro.
- Então e agora?- perguntei.
- Está tudo sob controlo. Já conheço a Jaqueline, ela vai impedir que a Edith vá ao espectáculo...so que a Edith vai...eu vou como eu e não como cigana mas não deixo de ser a Guadalupe mas no fundo não sou!
- Doi-me a cabeça...que confuso...
- Rodriguez...cala-te- disse eu. Na verdade não estava a perceber grande coisa também, mas não havia de ser nada. Decidi esperar, para ver o que ia sair dali. Fomos para o barco em separado, não dar nas vistas. No entanto, a coisa, no caminho, não correu lá muito bem...
- Então? Estás bem?
- Ai...estou com uma indigestão...Que peixe comemos ao almoço?
- Hum, ah, hum...um do lago da vila.
- O quê?? Queres me matar, Rodriguez? É isso que queres?
- Não, amor! Estava com preguiça em ir à praia...Os peixinhos eram tão gordinhos...Mas não estava bom?
- Estava, estava tão bom que agora...- Senti algo subir por mim e preparar-se para sair para fora de mim. Felizmente o peixe não me saiu pela boa. Parámos um bom bocado para eu me acalmar e depois gritei para o Rodriguez me levar ao colo. Assim foi. Quando chegámos ao barco depara-mo-nos com muita, muita gente. Temi não cabermos todos dentro do barco mas um anão tranquilizou-me logo em seguida.
- Há ispáço pá todi genti! Vamos lá acalmar! Nem que uns vejam sentados nos candeeiro di tecto!- e começou-se a rir. Era medonho. Pus-me na fila para comprar o bilhete, mas o anão não deixou. Puxou-me pela saia e disse:
- Oh dona, tu podes entrar já, furá a fila, tás a ver?
- Porquê?
- Tu és especial, ordens que me deram! Anda!- E levou-me a mim e ao Rodriguez. Nunca tinha entrado naquele barco e era realmente espantoso. Como é que se consegue transformar um barco numa casa de espetaculos...O anão levava-nos para sitios escondidos daquele barco. Desciamos escadas, agora. Fomos para o porão. Só pensava "ao menos tenho o Rodriguez!", mas depois as minhas esperanças de que ele me protegesse cairam por terra quando o mesmo, o azelha do meu marido, meteu o pé numa tábua e ficou por lá a tentar tira-lo. Não tinha Rodriguez e estava no porão do barco com o anão e com...
- Tantas pessoas...Odette!
- Oh! Olá, Morgana, ainda bem que vieste!- disse ela, correndo para mim e agarrando-me nas mãos- Heis o meu plano. Vou entrar no espetáculo e tenho a ajuda de todo o elenco!
- E a horrorosa gorda e verde?
- Está tudo controlado, a Edith cuida dela.
- Aquela songamonga?
- Sim, está descansada...- De facto, estava todo o elenco lá menos a Jaqueline e- O Alan?
- O Alan não sabe de nada- disse-me ela- Nem eu queria, quero-o surpreender. Afinal, ele já se sente atraído pela velha cigana Guadalupe! Coitado, deve se estar a sentir estranho...Tantos feitiços que levou.- Realmente, um moço daquela idade, vivo, bem feito, com um futuro promissor na música, estar caído de amores por uma velha cigana é no minimo bizarro. A cabeça do moço deveria estar mesmo mal. Mas, felizmente, hoje o pano ia cair precisamente quando caísse o pano do final da peça. Tive lugar na primeira fila. Perguntei ao anão pelo Rodriguez e ele disse-me que lhe tinha emprestado um martelo e umas chaves para ele se desenvenselhar da tábua rachada que lhe prendia o pé. Não me preocupei. O Rodriguez nunca foi de espetáculos, sempre foi mais ligado ao bricolage. Estava eu sentada na primeira plateia, com os nervos em franja, a pensar o que estaria naquele momento a Jaqueline a fazer, quando se houve as pancadinhas de inicio de acto. A sala estava à pinha, nunca tinha visto tanta gente na vida! Nem no casamento da minha prima Cecilia! Havia pessoas sentadas no chão, entre duas cadeiras, em pé, eu sei lá! Só sei que toda a vila estava lá, exceptuando a songamonga e a horrivel, desculpem, a Edith e a Jaqueline. Começei-me a preocupar. A sala estava cheia, as pessoas estavam todas umas por cima das outras, mas eu tinha uma cadeira vaga ao meu lado. De repente começou o espetáculo e deixei-me de coisas. Rendi-me totalmente àqueles fatos, àquelas cores, à música. O Alan estava magnifico ao piano, ainda mais bonito, ainda mais sedutor, a tocar ainda melhor. Um teatrito engraçado, seguido de uma dança. Os bailarinos poem-se em posição, a múscia cresce, as luzes focam um sitio, a música continua a crescer, é o sinal! É o sinal e...Odette!! Sim, era a Odette, claramente, mas de mascara...Esperta. E a Jaqueline, que era feito dela? O Alan, tão nervoso, não deu por nada, continuou muito compenetrado a tocar e a tocar. A voz da Odette ecoava pela sala, e que bem cantava a rapariga, e o Alan nem dava conta.Olhei para o camarote principal e lá estava a dona do barco, a ver, muito séria, sem interromper. Teria alguma na manga? Se eu fosse ela parava ali aquela baixaria e acabava com aquilo! Mas ela é, sem dúvida, uma mulher de classe. Eu sou uma cigana que casou com um homem que está a tentar tirar uma tábua de um pé. A Odette saiu de cena, entrou de cena, saiu, entrou e nem sinais da Jaqueline. A meio do espetáculo sou surpreendida pela songamonga, que se senta ao meu lado toda transpirada, desgadelhada e cansada.
- Já começou há muito tempo?- perguntou, exausta.
- Há um bocadinho, sim...Onde anda a horrivel?
- Depois falamos, depois falamos, deixe-me ver o meu Marcelli! UUUUhh!! Vai Marcelle!- gritou ela, simplesmente desprezando-me. A ver vamos. O espataculo continuou. Chegou uma parte, a qual gostei muito, em que se cantava uma música mais calma. Era a Odette que cantava. Estava sentada num passeio, simulava-se um ambiente de cidade, o piano deu as primeiras notas, uma música linda começou a tocar, e a Odette, simplesmente, começou a cantar. Senti uma coisa na pele, na espinha, na alma! Aquela rapariga é feita para aquilo! Foi aqui que o gelo se quebrou...O Alan descomprimiu, todos nós o fizemos, mas ele principalmente, tal eram os nervos. Apercebeu-se da voz de Odette, que, ainda de máscara, cantava. A peça era uma sátira, meio cómica meio atrevida, que falava de uma rapariga que não era compreendida pela sociedade, que não era ela própria, que se sentia outra pessoa, ou, melhor, que tinha de ser outra pessoa para agradar a todos. A máscara calhava muito bem. Ao se aperceber da voz dela, o pianista parou simplesmente de tocar. Olhou para o palco e olharam-se os dois. Fiquei sem pinga de sangue, mas ele teve o bom senso de continuar o espetaculo. Não consigo imaginar o que lhe passava pela cabeça naquele momento. Estava a ser mesmo muito bom, aquele espetaculo então o final...caiu que nem ginjas! No final a rapariga finalmente ia-se revelar à sociedade. Havia outros actores que representavam os sentimentos, algo simbólico e...atrevido. As raparigas não sabiam o que eram saias e os rapazes, bom...enfim! Mas havia, então, a bondade, "vestida de branco"a traíção "vestida de amarelo", a alegria "vestida de rosa", a esperança "vestida de verde" a tristeza "vestida de cinzento"e...a ira HORRIVELMENTE "vestida" de vermelho...

A outra




Uff! Já me sinto bem melhor! O cházinho da minha querida mãe sempre fez milagres. Mon Dieu são seis horas da tarde! O espectáculo aproxima-se e eu queria tanto ouvir o meu Alan tocar outra vez. Deus me perdoe, mas eu preciso de ir assistir àquele espectáculo devasso para proteger o meu filhinho, seria o que o meu querido maridinho desejaria. Ao menos vou com a Edith, sempre me faz companhia. A mulher está uma nervoseira desde que o Marcelle aqui esteve e lhe entregou o bilhete. Ai aquela rapariga ainda vai ter outra desilusão, sempre ouvi dizer que ele faz as vontades todas à dita Jacqueline e essa não vai gostar de saber que foi trocada por outra. É daquelas mulherzinhas detestáveis que querem tudo para elas e não admitem ser vencidas. E o meu Alan que ganhe juízo porque não a quero cá em casa, prefiro que vá para padre e morrer sem ter netinhos do que o meu bébé se case com uma daquelas pêgas, Deus me ajude. Sim porque não me esqueci da Odette! Comenta-se na vila que ela deve estar a preparar alguma para se vingar da Charlotte e da Jacqueline. E sendo hoje o dia de estreia não me admira nada que apareça e faça um escândalo.
- Edith não achas que já chega de pó de arroz mulher? Vamos embora que já estamos atrasadas!
- Mas falta uma hora e meia Marie. Eu tenho de me por linda para o meu Marcelle. Tenho a certeza que vai pedir para fugirmos hoje mesmo ... ah que romântico!
- Não te ponhas com ilusões, vê lá se ainda a coisa dá para o torto! Já tens idade para ter juízo, se ainda não te casas-te até agora se calhar é melhor ires para um ...
- Não diga essa palavra! É desta, eu sei que é!
- Se ainda vais demorar com os teus embelezamentos eu vou lá para baixo ouvir um pouco de rádio. Despacha-te!
Desci as escadas devagarinho, ainda estava um pouco zonza e não quis arriscar dar outra queda que seria o meu fim. Liguei o rádiozinho e fiquei a ouvir a minha novela preferida. Senti-me a adormecer, os olhos pesavam e não resisti. Tentei lutar contra o sono mas um sonho agradável deixou-me fez-me render. Estava de novo em Paris, naquele Verão inesquecível em que conheci o meu marido. Eu era jovem e bonita, tinha os homens todos babados por mim mas eu não conseguia tirar os olhos dele. Oh como era lindo, alto moreno, de olhos cor de avelã, o meu Alan é tão parecido com ele. E o bigodinho! Aquele bigodinho que me arranhava e que eu ...
- Dona Marie acorde rápido!
- Quê? Han ... mas que foi? Jacqueline que fazes aqui?
- Fale baixo que eu sei que aquela sua amiguinha insuportável está aí! Preciso de falar consigo.
- Mas ... tu não penses que brincas comigo! Tinhamos um acordo e tu andas-te a brincar com a vida do meu filho ... não penses que vou na tua conversa outra vez ...
- Sim, sim blá, blá ... quer me ouvir ou não? Acho que vai querer saber.
- Rápido.
Contou-me tudo sobre a Edith. A falsa estava a fazer-se passar por cigana e a fazer misturas contra o meu Alan! Eu sei que devia desconfiar do que a Jacqueline me diz, tem de certeza alguma na manga, mas ainda ontem reparei que ela trazia uma maquilhagem estranha na cara e uma peruca num saco. Está explicado.
- Diz-me uma coisa Jacqui, porque é que me vieste contar isto?
- Não lhe vou mentir, desconfio que a Odette deve aparecer esta noite e tente fazer alguma coisa ao Alan. Ele está muito sensível devido às porcarias que a Edith lhe andou a receitar.
- E que ganhas tu com isso? Não esperas que te apoie em conquistar o meu filho!
- Claro que não! Mas eu podia dar-lhe uma informação acerca ... da outra.
- Qual outra?
- A outra mulher do seu marido. Aquela que fez com que ele se ...
- Como é que sabes dessa história?
- Sei e pronto ... ela está cá. Posso dizer-lhe que é se ...
- Se ...
- Fizer com que a Edith não sai daqui a noite toda.
- Vou ver o que posso fazer.
- Merci. Ah só mais uma coisinha! Preciso que me alargue este vestido, estou um pouco inchada.
- Trato disso amanhã.
- HOJE! A peça é daqui a uma hora.