terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Saint-Etiénne, França, 6 de Dezembro de 1159

Não sei o que me passou pela cabeça naquele momento. Muito menos o que passou pelo coração. Um enorme vazio preenchia o meu peito com uma vontade de gritar, de fugir, de procurar o pedaço de alma que desaparecera sem dar aviso. Acabara de perder um irmão, o irmão. E todas as memórias que guardava do tempo de criança pareciam-me agora escassas e envoltas por um véu feito de névoa.
- Porque tinha isto de acontecer? Parecia...parecia que ele já sabia o que o futuro lhe reservava quando ficou doente...
- Não sejas tonta Liena... ninguém pode adivinhar estas coisas. Nem o próprio Miguel pode. –disse David.
- Han?
- Nada filha, deixa.
- Será que ele morreu mesmo? – insisti eu, tentado afastar um pouco mais a realidade de mim.
- A menos que ele tenha um escudo invisível enviado por Deus, ele não estará mais aqui querida. O destino dele é uma hipótese de futuro para cada um de nós, ninguém se pode esquecer disso...
- David – Interrompeu Rafael. – Está na hora de continuar, se ficarmos neste buraco seremos descobertos mais tarde ou mais cedo e o sacrifício de Pedro terá sido em vão.
Subitamente o meu peito voltou a badalar com uma lembrança súbita.
- E Miguel?? Miguel foi na direcção oposta! Que será dele agora sozinho com todos aqueles mouros atrás?
- É verdad... – começou António.
- Miguel está bem e ficará bem até nos encontrar – interrompeu Rafael com uma estranha certeza nas palavras. – Talvez tenha chegado a altura de perceberem que aqui cada um se deve preocupar consigo mesmo. Caso contrario serão mortos enquanto estiverem à procura de um amigo!
- Calma Rafael – Também David percebera que algo tinha mexido com Rafael. Talvez porém era esta a forma que ele tinha de lidar com sentimentos de perda e tristeza. Se eu conseguisse dominar os meus sentimentos assim...
Pusemo-nos a caminho, desta vez rumo a Bordeaux, era Gualdim quem nos guiava, decidia destinos, caminhos, estudava as informações que recolhíamos da viagem para traçar o melhor caminho até Portugal. Era de facto muito inteligente e apesar de ser o decisor do grupo, passava facilmente por despercebido. Eu sempre achei esta atitude dele algo muito nobre e honrável, principalmente quando estamos rodeados por pessoas que fazem de tudo para se destacar e afirmar o seu puder sobre os demais.
Lá ia ele, no seu cavalo malhado, Escópio, caladinho, com o seu mapa desenhado e o olhar a tentar captar o mundo. O seu cabelo preto-asa-de-corvo, caia para trás trapando-lhe o pescoço mas tocando somente ao de leve nos ombros. A franja desalinhada desenhava uma sombra nos olhos onde o verde água se destacava cheio de vida. Ao contrario de David, Gualdim ainda tinha paciência para pegar numa faca e fazer a barba do seu reflexo na água.
- Agora andas de olho no Gualdim? – surpreendeu-me Rafael.
- Não sejas parvo... não ando de olho em ninguém. Mas estou contente que tenhamos no grupo alguém como ele, que consegue manter a cabeça naquilo que é mais importante e com grande subtileza.
- Sim, tens razão, nem se dá por ele mas se não tivesse vindo ainda estaríamos a chegar a Itália por estas horas. Isto se ainda estivéssemos vivos claro.
- Vivos... eu também reparei que ficaste perturbado com a morte de Pedro. – toquei no assunto nem sei porquê. Eu na queria relembrar o que acontecera mas dei por mim a falar directamente do coração.
- Eu não conhecia bem o Pedro – respondeu – pelo menos não tão bem como tu. Pelo que vejo e a avaliar pela tua calma o teu consciente ainda não deve ter assimilado o que aconteceu... daqui a uns dias quero que saibas que podes contar comigo seja a que momento for.
- ...Obrigada...
- Quanto à tua afirmação. O meu dever, depois de te deixar em segurança em Portugal com esse embrulhinho, é manter-vos em segurança até terras protegidas. Tomar conta de voz. Proteger-vos de todo o tipo de inimigos. A morte de Pedro, para além de ter perdido um companheiro de viajem maravilhoso e que poderia ser um grande amigo como Miguel, veio derrubar aquilo a que me propus... e agora tenho de me dedicar de corpo e alma àquilo que me resta.
- Mas porque te propuseste a tamanha coisa?? E ainda há pouco disseste que cada um tinha de olhar por si!
- Para começar não tive propriamente escolha, mas não poderia estar mais feliz e honrado por o fazer. Segundo, faz o que eu digo, não o que eu faço.
Com isto galopou até David e Gualdim na frente do grupo, deixando-me cheia de enigmas e sem respostas. (Para variar...como é que é possível!) Quem terá mandado Rafael com tamanha missão?
Dois dias passaram em silêncio e em tormenta. Dormindo encima dos cavalos, parando apenas para que estes pudessem beber água e descansar um pouco.
- Ahhh mais um palácio! – disse António rompendo com a monotonia.
Estávamos em frente ao nosso local de descanso. Até que enfim. Os donos da estalagem, que vim a descobrir serem das margens do Zêzere, já nos esperavam à porta do abrigo com sorrisos que se espalhavam até aos olhos. Por cima deles, o nome da estalagem brilhava. Escalus Angelorum.
- Escalus Angelorum?? Mas..Gualdim! – chamei.
- Pois não?
- Escalus Angelorum não era o nome da ultima estalagem em que estivemos em Génova?
- É sim, que atenta menina Liena! É o nome pelo qual sabemos que estamos entre os nossos e em segurança.
- Mas em Opera, na abadia... nada dizia Es...
- Haveis ido ao campanário?
Agora que ele falava nisso, lembrava-me de umas letras lindamente desenhadas no campanário mas a beleza da estátua do Arcanjo roubou-me toda a atenção desde o momento em que pisei a abadia.
- Sejam muito benvindos!! – cumprimentaram os donos da estalagem em uníssono.
Que cumprimento mais caloroso! Que maravilha. O dono da estalagem tinha um bigode farfalhudo, mostrando as influências francesas, juntando-se a este, uma pequena mosca em baixo do lábio inferior. Contudo a sua barriguinha grávida de comida e tintol mostravam claramente a sua origem portuguesa. Já a senhora de bochechas rosadas podia dizer-se que era muito bem fornecida pela natureza anatómica na parte dos seios. Por outras palavras a senhora tinha umas grandes mamas. Quanto à sua parte lusitana estava, sem duvida, presente a recepção calorosa e hospitaleira.
A estalagem era pequena e comprida. Feita de madeira tinha uma decoração aconchegante e acolhedora. Fomos cada um para seu aposento, sendo que o meu era o ultimo quarto do lado direito.
Como a lua já ia alta no céu e nenhum de nos tinha mais fome do que sono, tomamos apenas uma pequena ceia, onde conversamos com os nossos anfitriões e recebemos noticias de Portugal e Espanha em troca das nossas aventuras.
Quando finalmente cheguei ao meu quarto, escuro com apenas uma vela como ponto de iluminação, deitei-me de lado na cama sem me trocar e abracei o embrulho azul encostando-o ao peito. Porquê? Porque tinha Pedro de morrer em troca disto? Porque está agora a nascer em mim esta tristeza juntamente com esta solidão, como se fosse uma fonte que jorra para todas as minhas veias? Porque tive de ficar sem o meu irmão??!
Pelas estrelas devia ser umas 3 das manhã. Fechei os olhos por uns momentos e a imagem do Arcanjo Rafael da abadia, com a sua iluminação surreal. Rafael. Fui chama-lo como ele mo tinha pedido, e na sua companhia chorei a noite inteira.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Tudo está prestes a mudar

A carta do meu pai teve um grande efeito em mim. No dia seguinte podia ver-se na minha cara que não tinha pregado olho a noite inteira. A minha tia olhou para mim e passou-me a mão na testa sem no entanto acrescentar nenhuma palavra. Eu própria nem sei definir o meu estado de espírito, tenho assim tantas razões para estar preocupada? Acho que o que mais me perturbou foi o facto de se confirmar que nunca tive ou terei controlo da minha própria vida. Pouco sei sobre as pessoas que me rodeiam, que se escondem e fogem de mim e que decidem o meu futuro. Estes anos todos desde que saí de Sintra já o meu pai tinha planeado um casamento com alguém que deve ter feito parte de uma semana da minha existência.
Pelo ar do meu tio e do Rafael percebi que a tia não lhes tinha dito nada. Estavam sentados à mesa a comer o pequeno-almoço sem sequer falarem um com o outro. Sentei-me ao lado do João e tentei não olhar para o Rafael. Começaram a surgir os pensamentos que me assolaram a noite inteira “será que é por isso que ele voltou?”, “terei de me ir embora agora que finalmente estava tão feliz?”. Tentei concentrar-me no meu pão e naquilo que está a fazer ou ainda ficava sem um dedo ao barrar a manteiga.
A tia odeia silêncio e a sua natureza faladora fez com que iniciasse uma qualquer conversa banal sobre o tempo, os problemas com as colheitas, a falta de clientes e terminou com o discurso acerca da vizinha da frente que tem o desplante de trair o marido à luz do dia. Com estes anos de convivência consigo perceber quando a tia anda à volta de um assunto e sei perfeitamente quando ela está prestes a chegar a ele. Olhou para mim de relance, baixou os olhos e depois olhou para o tio Manuel pegando-lhe a mão. Soube imediatamente que algo se ia passar, principalmente porque o meu tio ficou sério como nunca tinha visto.
- Meus queridos sobrinhos, chegou finalmente a hora de saberem tudo o que estes anos vos foi ocultado.
Deu-me um aperto no coração, só consegui pensar que alguma coisa tinha acontecido aos meus pais e o mais provável era neste momento ser órfã. Devo ter ficado branca, senti o sangue gelar e perdi as forças e o meu corpo escorregou da cadeira.
Quando acordei estava no meu quarto. Vinha um ar fresco da janela e os raios de sol entravam pelo quarto dentro reflectindo a luz nos espelhos. Olhei em volta e vi o João adormecido aos pés da cama com olhos inchados de tanto chorar. Ainda soluçava mesmo a dormir. Ia levantar-me para o acordar mas nesse mesmo instante a porta abriu-se, era o Rafael.
- Pregaste-nos cá um susto! – exclamou.
Os olhos vermelhos denunciaram-no. Nem sabia o que responder, as ideias ainda estavam misturadas e senti-me a desfalecer outra vez mas ele prontamente me segurou a mão. Perguntou-me se eu estava bem, se queria que fosse buscar água, mantas o que fosse preciso. Eu só lhe respondia “não, não” umas vezes só acenava com a cabeça. Foi aí que os tios entraram no quarto e fecharam a porta. Agora não havia como escapar às noticias, nem mesmo o meu corpo me podia poupar a elas desligando-se outra vez.
- Espero que te sintas melhor minha querida. Sabes que eu me preocupo contigo e não viria aqui perturbar-te com grandes conversas se elas pudessem ser adiadas. – disse o tio Manuel enquanto se chegava mais perto de mim. Nem ousei dizer nada, percebi que o melhor era ouvir, afinal não era isso que eu sempre quis? Saber a verdade sobre os meus pais e sobre a razão de tanto secretismo. O meu tio lá começou a falar depois de um longo suspiro.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O artigo

"Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici, la cinquiéme", Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, a quinta, era o título do mais recente trabalho publicado na Ordem online.
- Quero queijo!
- Está no frigorífico!
- Não está!...Ah, está aqui.
Enquanto eu tentava abrir o ficheiro que o cavaleiro “Jacques”, havia publicado. O Rafael remexia o frigorífico para fazer uma sandes de queijo. Tinha ido à minha casa uma semana depois do incidente com o David para me ajudar num trabalho para Teologia. Bom, supostamente quem me ia ajudar era o Miguel, já que é seminarista, mas o Rafael ofereceu-se para ajudar. Do meu tio Pedro nem sinal de vida. Desde que tinha vindo do jantar da quinta que não o via. Antes que o Rafael chegasse à sala e o ficheiro descarregasse lembrei-me de ir a casa da minha vizinha, a tal, muito disposta para o meu tio, e perguntar se, por acaso, o tinha visto ou se, por acaso, ele não se encontrava no meio dos seus lençóis. Não me surpreendia nada esta situação, do meu tio andar desaparecido, ou de o apanhar na cama da vizinha, mas, de facto, ele, sempre um espírito livre, passava dias sem aparecer na casa da minha pobre avó, que rezava a todos os santos para que nada mal lhe acontecesse. À conta disso viajou à boleia pelo mundo. “Onde estiveste, Pedro Manuel?”, “Fui dar uma voltinha a Paris”, “Ai, credo, que este rapaz é sempre a mesma coisa”. Era assim. Mas, não conseguia deixar de me preocupar com ele. Era meu hóspede, no fim das contas.
- Olá, minha querida Helena!!
- Boa tarde, o meu tio Pedro está por aí?
- Não queres entrar?
- Oh, não se incomode! Ele está aí? – dizia eu, espreitando para dentro de casa da minha simpática vizinha.
- Não…Infelizmente não…Mas porquê? Acabei de fazer um bolo, não queres?
- Não, não, obrigada! – e desapareci. Mas onde se teria metido o homem? Cheguei a casa e encontrei o Rafael sentado na minha cadeira, em frente ao meu computador.
- Guen- disse ele, com a boca cheia de pão, virando-se para trás e insistindo em me chamar pelo mesmo nome do site, mesmo já sabendo o verdadeiro – já leste isto? – Aproximei-me.
- Ah! Andas a abrir as minhas coisas…Isso é o artigo do tal Jacques Moley, o novo utilizador do site. Que tem?
- Lê…- O artigo ainda era grande, mas a entrada denunciava o tema. O homem, louco, defendia, numa linguagem quase indecifrável e confusa, que não havia existido uma, mas cinco ordens templárias. Para além disso, quase que jurava a pés juntos que Portugal é a Porta-do-Graal, e que…
- Então? Acaba aí?- perguntei- Anda com o rato mais para baixo.
- Acaba aqui! – disse o Rafael- Até o artigo em si, aqui mais a baixo, chega a esta parte da explicação e termina - O homem esqueceu-se de fazer ou de acrescentar ou de mandar o ficheiro certo.
- Não pode…
- O texto está muito confuso, o homem não sabe português! – disse o Rafael – Olha-me para isto. Virgulas não é com o gajo…
- É uma misturada de francês e latim e português…Uma misturada com coisas importantes. Cinco Ordens?
- Epá, ele é maluco. Deixa lá isso – disse o Rafael, levantando-se da cadeira e indo até à janela – Olha, já lá vem o Miguel. Vou lá abaixo abrir-lhe a porta, anda meio perdido aqui na rua – Seja lá o que fosse aquele artigo, fosse ou não o Papa que o tivesse escrito, e mesmo que estivesse o mais confuso possível, não me deixava desprender os olhos do ecrã do computador. Compreendia-se que seriam cinco ordens. Cinco ordens dos cavaleiros templários. A quinta, a última, era a descrita pelo autor. Era o que parecia. No entanto, era quase impossível ler uma frase seguida. O cavaleiro, Jacques de seu nome, e não tivesse eu estudado tudo sobre o tema não saberia que Jacques Moley foi o último grão-mestre da Ordem, havia de ser um homem louco. A existência de cinco ordens era impensável. Uma ordem e vários seguidores era mais compreensível e imaginável. Quanto à importância de Portugal na história dos templários, bom, isso já era mais aceitável. São vários os autores que defendem essa possibilidade apontando, até, sítios estratégicos do nosso País como possíveis guardadores do santo cálice ou do santo manto de Cristo. Depois, há aqueles que defendem que o Graal poderia ser tudo menos estas duas opções, mas isso são outras histórias, nenhuma delas que tivesse a ver com o artigo. Nessa parte o texto terminava, sem mais nem menos. Fui ao registo do “Jacques” e não encontrei qualquer contacto. Isso deixou-me ainda mais intrigada. Todos os “cavaleiros/as” ao efectuarem o registo online têm de por, pelo menos, um email, e este não tinha nenhum. Era impossível. Se não preenche-se todos os campos obrigatórios, como o contacto online, nunca poderia fazer o registo e fazer “login”. Recorri à lista de nomes registados umas quantas vezes, não me tivesse escapado nas primeiras, e nada. “Jacques Moley”, era o único nome, a única coisa a respeito do autor do artigo. Pensei em publicar o artigo no site, podia uma ou outra pessoa se manifestar, mas decidi guarda-lo, por agora.
- Olá, Lena!
- Miguel! Como estás? – disse, fechando rapidamente o portátil - pronto para me explicares tudo sobre os ensinamentos teológicos no século XI?
- No que eu puder ajudar…
- Ah! Pode ajudar sim! - disse o Rafael, dando uma pancadinha nas costas do amigo. Vou arranjar um lanche.
- Deixas-me o frigorífico a zeros! - gritei da sala – Sentamo-nos à mesa. Não conseguia deixar de pensar no artigo – Miguel, isto não tem nada a ver com a matéria, ou talvez tenha, sei lá… há a possibilidade de ter existido mais do que uma Ordem dos Templários? – o Miguel, que tirava calmamente os cadernos da mochila, parou, ficou estático, olhou para mim e, depois de uma pausa, pousou o caderno em cima da mesa.
- Donde é que tiraste essa ideia? – Perguntou. Foi então que lhe expliquei o artigo – Parece-me um bocado impossível respondeu, finalmente – Se houve, não eram “oficiais”. Há ainda várias lendas sobre…
- A existência de mulheres na ordem? – disse rapidamente – o artigo fala numa lenda sobre isso, o que também me intrigou, é algo em que nunca tinha pensado! – estava mesmo entusiasmada.
- Também – respondeu – também, também, sim, já ouvi falar mas nunca me dediquei muito a estudar isso… mas há variadíssimas lendas sobre os cavaleiros, a sua saga, as suas paixões…
- O artigo fala da existência de pelo menos uma mulher na Ordem.
- E que houve cinco ordens?
- Foi o que percebi – Foi então que me deixei de coisas e fui imprimir o artigo – Não está terminado…- disse, entregando-o em mãos ao Miguel.
- Falta-lhe a parte do Graal – disse o Rafael, entrando na sala com um tabuleiro todo composto, com café, bolachas e sandes.
- Mas que simpático da tua parte! - disse eu – Tenho te a dizer que amanhã vamos os dois ao supermercado, Sir Rafael.
- Está doente! – disse o Miguel – ou então…
- Ou então estou cheio de fome! – disse logo o cavaleiro das trevas. A tarde foi passada a comer o lanche do Rafael e a falar sobre o artigo. Concluímos que era impossível aquilo ter sido escrito por alguém de nacionalidade portuguesa ou que vivesse em Portugal. A mistura de línguas era complicada e nenhum de nós era barra em Francês - Gosto mais de italiano – disse o Rafael. Concluímos ainda que o artigo trazia um desenho, um mapa, mas não um mapa qualquer. Não um mapa de tesouro, nem um que indicava um caminho. Era um mapa
- Astral, é um mapa astral, muito antigo, é certo, mas é um…- disse aos dois rapazes. O Miguel, futuro padre, pouco ou nada acredita em astrologia e desconhece voluntariamente os caminhos das estrelas bem como as
- Salganhadas de riscos e bonecadas! - dos mapas astrais, tal como disse naquela tarde.
- Mas ela tem razão, é uma cena dessas…- disse o Rafael. Naquela tarde decidimos que íamos recorrer aos outros cavaleiros da ordem online para nos ajudar, mas que o texto não seria publicado. Eu própria me iria encarregar de falar com eles, marcar um encontro, e tirar a teima do raio do texto que cada vez mais me deixava os nervos em franja. Havia de descobrir tudo sobre aquele artigo e tudo sobre aquele autor. No final do dia, os ensinamentos teológicos do séc. XI, tinham ido por água abaixo.
- Acabámos por não estudar nada, Lena…
- Ah, Miguel, não te preocupes. O que nós fizemos foi muito mais divertido – disse eu, abrindo a porta da rua e permitindo que os dois rapazes saíssem. O Miguel foi chamar o velho elevador do meu prédio e o Rafael encostou-se à porta da rua.
- Ficas bem aqui sozinha? – perguntou.
- Fico, já estou habituada…
- E o teu tio? Não aparece…
- Não faço ideia onde possa estar, começo mesmo a ficar preocupada - naquele momento o telefone tocou e tive de despachar mesmo os meus amigos.
- Espera!- disse o Rafael forçando a porta- Lembrei-me que deixei o meu mp3 no teu quarto! – enquanto ele foi ao quarto eu atendi o telefone. A mensagem não foi a melhor – Guen? Estás bem? Estás pálida…- imóvel, com o telefone na mão, virei-me lentamente para o Rafael.
- O meu tio…
- …
- Está no hospital, em coma – O abraço que se seguiu deu-me coragem para pegar no casaco e sair por Lisboa fora.
- Não precisas de vir comigo, Rafael…
- Mas quero.

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Saint-Etienne, França, 1 de Dezembro de 1159

Vários dias passaram desde deixamos a Capela e o bravo Padre Romeo, que mesmo correndo o risco de ser descoberto, ajudou-nos sem pensar duas vezes.
Perdi a conta ao numero do dias que passamos em viagem desde que despistamos os mouros pelo rio. Tinha a sensação de ter sido uma eternidade, mas a contar pelo número de vezes que o Sol e a Lua se erguiam alternadamente, não devíamos estar neste passo há mais de uma semana. As provisões com que nos abastecemos estavam agora a acabar e tínhamos apenas duas opções: confiar em alguém de uma terra pequena e alienada da informação do mundo (não era muito difícil, pior era convencer a alojarem-nos), ou então, roubar.
Ao avistar uma pequena povoação com chaminés a desenharem o ar coloquei-me a postos para avisar o meu pai, mas ao olhar de lance para o Pedro, as palavras não chegaram a sair da minha boca. Estava tão concentrada no meu cansaço que nem tinha reparado no estado em que o Pedro se encontrava, e pelos vistos, nem eu, nem ninguém.
- Pedro? – sussurrei.
Ele levantou o olhar na minha direcção mas este estava tão vazio que nem a alma lhe vi. Os olhos eram cercados por umas olheiras medonhas da cor de cinza, os lábios secos e sem cor, a tez pálida como a neve amontoada, o cabelo empastado dava-lhe ainda mais a sensação de definho.
- Pai!! O Pedro não está bem!
- O quê? – retorquiu olhando para trás pela primeira vez desde que voltamos a montar.
- Eu estou bem...não se preocupem comigo..
Ao aproximar-me mais dele para lhe medir a febre ouvi algo que parecia trespaçar o ar.
Uma flecha moura acabara de aterrar mesmo em frente ao cavalo de Pedro, fazendo com que este relinchasse colocando todo o seu peso nas duas patas traseiras e mandando Pedro ao chão.
- Mouros!! – gritou António.
- O despiste não nos ajudou muito...desembainhem as espadas!
Feixes de luz rodearam-nos enquanto revelávamos as armas, ou seria algo mais...
- Formação circular! – Ordenava David – Escudos a postos, protejam os cavalos, armas ao peito! Gualdim, estratégia!
- A sudoeste as fileiras são mais pequenas, não adianta oferecer resistência, temos de arranjar maneira de fugir. – Improvisou Gualdim olhando suspreendido pela situação.
- Ouviram o homem, Rafael vem comigo À frente, temos de abrir caminho a todo o custo, António! Cobre o meu lado esquerdo! Miguel, no fim do grupo, usa os dois escudos para proteger a rectaguarda! Liena..no meio de nós, mantei o Pedro e o embrulho a salvo!
Quando as ordens acabaram ja nós estávamos a caminho ocupando as posições comandadas, Pedro ia cambaleando à minha frente em cima de Angelus enquanto o cavalo dele acompanhava-nos em paralelo.
Os mouros desciam os montes na nossa direcção, enviando flechas velozes contra os escudos de Miguel que cavalgava de costas mostrando uma confiança sobre-humana no seu animal. O confronto directo aproximava-se e os olhares dos três guerreiros da dianteira mantinham-se estáveis tal qual três falcões de olhos postos nas presas. Invejava naquele momento toda aquela confiança e coragem.
O inimigo dirigia-se igualmente na nossa direcção, a pé, encurtando a distância entre nós.
Toda uma algazarra se apoderara dos nosso ouvidos, gritos de emboscada ecoavam pelo vale no sul de terras gaulesas. Subitamente, tudo se silenciou, e eu ouvia apenas os passos dos nossos bravos lusitanos como batimentos cardíacos...um, dois....um,dois....um,dois e uma luz irrompeu pelo ar quando as espadas se cruzaram e as nossas criaturas flutuavam por cima dos mouros. A primeira fileira estava para trás, a segunda também, e Luz e égua assustada de Pedro é atingida na perna traseira e é derrubada.
- Miguel!! Cuidado!! – gritei a plenos pulmões.
Olhando para trás, Miguel só teve tempo de saltar do cavalo, abandonar os escudos e resgatar da bainhas duas espadas singulares para combater os inimigos no chão, enquanto o seu cavalo saltava por cima de Luz.
- Liena, vem!
- O quê?? Não pai! O Miguel!!
- O Miguel não fica assim, e se ficar é porque Deus assim o quis. Angelus andium!!
Angelus começou a correr na direcção do grupo para fora do perigo. Pedro saltou da minha frente.
- Pedro, volta aqui!! Estás doente!! Não podes...
- Minha Liena, a minha pequena irmãzinha...Miguel está ali por minha culpa...eu já perdi a Luz, não deixarem que percam o nosso Miguel Ângelo...foi um prazer partilhar esta missão, até à próxima.
E com um sorriso doente e fraco virou as costas e lutou com as forças que lhe restavam. Uma nuvem de pó envolveu-os enquanto nós fora do ângulo de visão nos misturava-mos rapidamente com a paisagem. Uma sombra veloz sobressaiu da nuvem de morte sã e salva, era Miguel no seu cavalo que fora em seu socorro e sozinho seguiu em direcção oposta, levando o inimigo a segui-lo para noroeste. Sozinho.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

1895, A Carta

Se o visse na rua não o teria reconhecido. Já tinha 26 anos, um homem feito com barba e tudo. Mas olhando mais de perto tem a mesma cara de rapaz traquina e o mesmo cabelo longo e castanho. Devo ter ficado uns bons segundos a olhar para ele sem me dar conta que me tinha dirigido a palavra. Fiquei meio atrapalhada, baixei a cabeça, devo ter ficado vermelha que nem um tomate e disse-lhe qualquer coisa completamente inapropriada como “deixas-te crescer a barba” seguido de um “olá” trémulo. O João desatou aos risinhos assim como o tio Manuel. A tia lá fez sinal que o jantar já estava na mesa, que devia estar praticamente frio.
Após seis anos de separação ninguém sabia sobre o que falar primeiro. O tio Manuel fez as perguntas triviais “Então a viagem correu bem?”, “Já conheces a região?”, “Quanto tempo ficas por cá?”. Rafael foi respondendo educadamente a todas as perguntas mas reparei que de vez em quando olhava para mim. Tive a certeza que era sobre os meus pais, não conseguia era perceber se as noticias eram boas ou más. Mas logo a tia se lançou num rio de perguntas para satisfazer a sua curiosidade e das vizinhas no dia seguinte. Perguntou-lhe sobre as viagens às grandes capitais europeias, as modas estrangeiras e rapidamente se concentrou na sua vida amorosa.
- Ai mas não acredito que um homem assim não tenha para aí arranjinho! Com a tua idade já estava eu casada à uma eternidade. – dizia a tia.
- Eu não tenho tido vida para isso. Quase não paro 15 dias no mesmo sítio, as moças nem me vêem mais do uma vez. – respondeu Rafael visivelmente envergonhado.
- Tão e aqui a nossa Maria já está uma mulher! E aqui em casa ficas o tempo que quiseres! Não faças cerimónias homem! – afirmou o tio Manuel de imediato.
Agora estávamos os dois visivelmente vermelhos assim como o João que ria incontrolavelmente como todas as crianças ao ouvirem falar de beijinhos, carinhos, namoradinhos. Finalmente se mudou de assunto e finalmente o meu tio se lembrou que devia haver duas pessoas sentadas à mesa desejosas de saber de seus pais.
- Então e o meu irmão como está? – perguntou.
- Para além dos problemas da idade vai bem e lúcido. A senhora também se encontra bem de saúde e cheia de saudades da sua terra e dos filhos.
Estava claramente a limitar as informações aos meus tios, mas eu tinha esperança que mais tarde me conta-se a mim mais detalhadamente o que se passou durante estes oito anos. Ao menos senti um alivio enorme por estarem bem, há anos que vivia apenas com o conforto de não ter más noticias.
Após a refeição o tio levou o Rafael até à sua salinha privada e oferece-lhe um charuto e um lugar no seu cadeirão preferido. Pelo tossir que vinha da sala percebi que o Rafael não é um fumador regular e só aceitou o charuto por gentileza. Mas preferia estar dentro dessa sala cheia de fumo a ouvir os devaneios da minha tia.
- Não podes dizer que não é um bom homem! Até nem tem má figura rapariga! – exclamou no seu sentido de casamenteira frustrada.
- Oh tia ele mal chegou e já começa com essas conversas! Não ponha essa pressão no rapaz que ele foge daqui a sete pés e …
- Conversas? Tu é que tens de abrir os olhos! Rapaz? Ele já não é o menino que conheces-te e tens de te habituar à ideia!
- Qual ideia? – perguntei surpreendida.
- Que o homem chega nesta altura, avisando em cima da hora. Esteve fora sabe Deus quanto tempo, agora regressa assim do nada depois de uma visita a teus pais.
- Que quer dizer com isso?
- Sabes bem! O teu pai aparentemente fazia todo o gosto em que vocês se casassem, disse-o ao teu tio na carta que o Rafael nos trouxe quando para cá vieram morar.
- Mas que carta? Mas como é que me escondeu uma coisa dessas? – pergunto indignada.
- Oh filha tinham lá vocês idade para ler tal coisa! Veio destinada a nós e não tinha nenhuma referência para que vos mostrássemos a carta.
- Mas agora já sou uma mulher não é? Se eu lhe pedisse para vê-la não me ia dizer que não como a uma criança, pois não? – insisti.
Nisto o João entra pela porta dentro a gritar que não quer ir para a cama, que quer ir para a sala com os homens. A birra do costume. Mas desta vez a tia foi implacável e o João percebeu que não tinha forma de escapar com choros. Foi a arrastar os pés até à cama e a tia até lhe trancou a porta para garantir que não lhe viesse outra vez a fúria.
Fomos até ao quarto dos meus tios. Não tinha lá estado muitas vezes, não que estivesse proibida de o fazer mas a porta estava sempre encostada o que funciona como mensagem para “não há aqui nada para os teus olhos verem”. A tia abriu as portas do roupeiro e pegou numa caixinha de madeira que estava atrás dos vestidos. Tirou a chave, que estava no fio que trazia sempre ao pescoço, e abriu a caixa. Estava cheia de bugigangas que nem consegui identificar devido à escuridão e no fundo um papel meio corroído e amarelado.
- Aqui tens.
Acendeu a vela que estava em cima da cómoda e saiu deixando a porta encostada. Abri a carta devagarinho com muito cuidado para não a rasgar. A letra era pequenina e as palavras arrastavam-se dando a entender que tinha sido escrita apressadamente. Reconheci a letra do meu pai e comecei a ler, dizia:

Querido Manuel,
Aquilo que te vou pedir não é fácil, saberás certamente que não o faria se não fosse absolutamente necessário. Sintra deixou de ser segura para a nossa família.
Parece que há muito que sabiam que estávamos naquela casa. Só rezo para que não saibam da existência das crianças e é por isso que elas não nos podem acompanhar. Peço-te que lhes dês abrigo e que os acolhas como filhos. Sabe Deus o tempo que será preciso para que possamos estar juntos de novo.
Com eles vai o Rafael, um rapaz da minha confiança. Ele acompanha-os na viagem mas também terá de deixar Portugal por tempo indefinido. O contacto connosco será feito através dele e caso aconteça alguma coisa é a ele que deves recorrer.
Eu não sei como vão ser os próximos anos e temo pelo futuro dos meus filhos. Caso por alguma razão não possa mantê-los perto de ti peço que consideres esta minha proposta. Sei que a minha filha estará segura com o Rafael e um casamento entre os dois iria deixar-me feliz e em paz. Rafael sabe deste meu desejo e quanto à Maria Luísa penso que compreenderá. A única condição é de que não devem deixar o irmão para trás.
Não tenho tempo para mais palavras.
Agradeço-te por todo o apoio e nunca esquecerei o que fizeste por mim.

David."

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Estranhos delírios

Olhámos para trás e nem sinal do David.
- Epá, eu avisei, eu avisei que não era boa ideia! – disse a Lídia.
- Que menino… Bom, vamos andar para trás e vasculhar tudo! – disse o António. E fomos, como uns autênticos tótos, seguindo a iluminação do iPod do Rafael, todos em fila, como meninos da infantil.
- Assim não é fácil encontrar ninguém! – continuava a Lídia a queixar-se.
- É o que temos! – disse rapidamente o António, com toda a brutidade e secura do mundo. O Rafael era o único que não falava. Amigo do David há uns bons anos, estava visivelmente preocupado. Atrás dele, o primeiro da absurda fila, ia eu, com o meu mísero telemóvel, com a sua mísera iluminação.
- Nunca devia ter concordado com isto…que irresponsabilidade da minha parte - naquele momento, os copos de vinho pareciam nunca ter existido. O Rafael, outrora divertido, até demais, era agora o mais lúcido de todos, o mais preocupado.
- Calma, Rafael. Ele há de aparecer - falasse eu mais cedo. Lá estava o David estendido no chão. O Rafael passou-me o telefone para a mão e correu logo ao seu encontro.
- David! David! Acorda, pá! - dizia ele, dando-lhe pequenas chapadinhas. Eu estava completamente apática. Nunca na minha vida me tinha deparado com tamanha situação. O resto do pessoal estava de pé, a observar a cena, sem saber o que dizer ou fazer. O Miguel, ajoelhou-se ao lado do Rafael.
- Chamamos o 112? -disse.
- É melhor - respondi.
- Ele está a acordar, ele está a acordar! – Disse o António, apontando como uma criança para o pobre David. O David acordou, sim. Tentou levantar a cabeça dos braços do Rafael, mas logo de seguida se arrependeu.
- Fogo…a minha cabeça pesa quilos…- disse, agarrando-se a ela.
- Meu, deves ter batido com a cabeça – disse o Rafael, ajudando a sentar-se no chão, e sentando-se ao seu lado, sem qualquer tipo de problema por o chão estar enlameado- Vamos chamar uma ambulância.
- Não! – disse logo o David - eu aguento-me… epá, que coisa mais estranha. Ia atrás de vocês, de repente…só me lembro de ver uma luz muito forte, de alguém me dar com uma coisa na nuca e…não me lembro de mais nada – Após esta revelação todos ficámos calados. O Rafael olhou para o Miguel com a maior cara de caso.
- São delírios – disse logo o Rafael.
- Delírios? – perguntei . Se alguém lhe bateu e ele sentiu não é delírio nenhum!
- Oh, a vinhaça também ajudou à coisa…- disse o Gualdim.
- Epá, mas se foi algum gajo apanhamo-lo já aqui e damos-lhe já cabo do pêlo! – Predispôs-se logo o bravo António – Para onde foi o gajo? Viste?
- Não, já disse que não me lembro – disse o coitado do cavaleiro David, equilibrando-se no Miguel - mas que vi aquela luz brilhante, isso vi - Claro que eu fiquei logo com a pulga atrás da orelha. Uma luz brilhante que o encadeou em plena Quinta da Regaleira, às quatro e tal da manhã, seguida de uma pancada que o pôs inconsciente, não era um delírio, por mais bêbado que ele estivesse. E não estava. O David nem estava assim tão bêbado. O António e o Gualdim eram, na verdade, os mais afectados pelo belo néctar dos Deuses. A conversa pode ter caído em saco roto na altura, mas eu não me esqueci dela. Fomos todos para casa e no dia seguinte lá estávamos todos no fórum, à noite. Todos, menos o David.
“Guen – Então e o David? Tens notícias dele?”
“Rafael – Ah, ele está bem…”
“Guen- Mas ele foi ao hospital? Tem algum traumatismo?”
“Rafael- Não, aquela cabeça dura aguenta qualquer pancada! =P “
“Guen- Ah, então admites que sempre foi uma pancada…”
“Rafael – Não disse nada disso.”
“Guen- Disseste, sim. E sabes de alguma coisa não que não me queres contar. Tu e o Miguel, sabem, aliás.”
“Rafael – Estás doida? Sei do quê?”
“Guen – Sabes que não foi uma simples pancada. Não é de hoje que se fala em fenómenos estranhos na Quinta.”
“Rafael – E estás a pensar em quê? Que eu sei de tudo o que se passa lá.”
“Guen- Trabalhas lá…E conheces aquilo tudo. Vais me dizer que nunca sentiste nada ou viste nada?”
“Rafael- Nunca senti nem vi nada.”
“Guen- Mentiroso”.
“Rafael- Ai a menina…”
“Guen – Oh, Rafael, eu sei que sabes, eu percebi logo que sabias quando olhaste para o Miguel. Eu estudo vivo e bebo tudo o que tenha a ver com a Quinta da Regaleira, os Templários, a Maçonaria. Acaba por ser o meu trabalho, o meu objectivo de vida. E eu sei, porque também senti, que a Quinta é um espaço místico e cheio de várias energias.”
“Rafael- Agora os fantasmas dão pancada nos visitantes?”
“Guen- E eles existem?”
“Rafael - Quem sabe…a Quinta é cheia de mistérios. Mas se existirem, são mauzinhos…”
“Guen- Não necessariamente, e tu sabes que não…”
“Rafael- Sabes muita coisa sobre aquilo que sei, já vi…”

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Opera, Fronteira Italiana 1159

O horizonte rompeu com um tom violeta misturando-se com o azul escuro do manto celestial.
Acordei às 8 horas da manhã, ou algo parecido, para me preparar e ter a certeza de que não me esquecia de nada. Ainda tudo dormia quando fui para a casa de banho em biquinhos de pés. Esta não era mais do que um grande alguidar de latão onde despojava a água aquecida na grande lareira. Despi-me e deixei-me mergulhar na agua quentinha, bem quente. Tão bom, calmo e relaxaste, nua envolta naquela água transparente e ondulante, enquanto o sol entrava pela janela já no seu tom alaranjado e tocava-me na cara e braços descobertos. Há já algum tempo que não me sentia assim tão limpinha e aconchegada.
Um relinchar rompeu com a minha paz de alma, lá fora. Levantei-me a pingar e coloquei a toalha castanha à minha frente enquanto me encaminhei para a janela fechada. Através do meu reflexo vi o Miguel já a preparar o cavalo com as malas abastecidas de comida, água e algumas roupas emprestadas permanentemente. A ele juntou-se o Gualdim e o David com as respectivas montadas e mantimentos. - Bom dia David! Ontem deves ter enchido bem a goela han? - disse Antonio seguindo David e Gualdim.
- Por acaso não me posso queixar, mas porque dizes isso?
- Porque roncaste de uma maneira que ias deitando o telhado da tabela abaixo! - riu António.
- De facto, a minha sorte foi estar igualmente refastelado e dormir que nem uma pedra! - gozou Miguel.
- Desculpa? Eu acordei às tantas da manhã e não te vi na cama..por isso não deves ter sido uma pedra durante muito tempo.. - Respondeu David.
- Verdade sim senhor… Bem vou ver do Rafael…que ainda deve estar enrolado nos lençóis! - disse Miguel encaminhando-se para a capela.
Assim que entrou na capela deparou-se com Rafael com o seu casaco preto comprido de cruz vermelha ao peito.
- Então rapaz andas perdido?
- Bon journo para ti também Miguel…estou cansado..deitei-me tarde..
- Que eu saiba deitaste-te à mesma hora do que eu.
- Ah pois foi…passei foi a noite em branco..achas que ela se lembra de alguma coisa?
- Duvido muito, deve ter pensado ser um sonho ou então não se lembrar de todo. - Calculou Miguel ajeitando as vestes de Rafael, que se encontravam mais enroladas do que os seus caracóis. - Epá estás cá com um aspecto hoje, vai tratar desse cabelo que esta num perfeito desalinho e aproveita e corta a barba, tens navalha?
- Sempre - Disse Rafael desembainhando a navalha pormenorizada num ápice, vendo o seu olhar reflectido na lamina.
- Óptimo, então vai tratar disso, eu vou ver do Angelus e prepara-lo para a Liena.
- Ah pois porque a excelência não pode acordar mais cedo para tratar do próprio cavalo como todos nós.
- Faz de durão à vontade, estás a esquecer-te de uma coisa apenas, ela não está aqui, logo podes poupar-me dessa personagem que eu sei muito bem como és.
- Trata da tua vida enquanto aqui estamos e eu olho pela minha, Miguel Ângelo.
Posto isto, subiu as escadas saltando dois degraus de cada vez. Ao passar pelo quarto de Liena viu que a porta estava entre-aberta e que a única coisa que o ângulo de visão dava para ver era um embrulho azul. De olhos postos no objecto ia abrir a porta do quarto quando se apercebeu que Liena poderia estar imprópria e seria um grande constrangimento para os dois. Recuou e voltou ao caminho pensando no que poderia ter acontecido, fazendo o filme todo na sua cabeça e sentindo subitamente as bochechas a fervilhar. O David matava-me com as próprias mãos, pensou. Finalmente no ultimo piso abriu repentinamente a porta da casa de banho.
- AH!! - Gritei horrorizada ao vê-lo entrar daquela maneira pela casa de banho a dentro estando eu apenas com uma toalha à frente.
- Desculpa!!! Desculpa por favor…eu devia ter batido primeiro…mas…eu pensei que estivesses…no quarto - Explicou-se voltado para a porta. Tinha a sua piada, acabara por acontecer tudo o que pensara que tinha evitado.
- Pois…calculo que sim. Eu também já estou aqui há algum tempo já deveria estar despachada - Falei com um dicção surpreendentemente calma para a situação. Possivelmente era de ainda nem estar em mim. Enrolei-me o melhor que pude na toalha para ir para o meu quarto rapidamente.
- Rafael…
- Sim?
- NÃO OLHES!
- Desculpa!
- É que estás à frente da porta e assim não consigo sair.
- Ah está bem - Recuou nos passos sem olhar para trás.
- CUIDADO!
Rafael na banheira. Desmanchei-me num completo riso a observar a situação, foi lindo maravilhoso, que maneira diferente de começar o dia.
- Realmente Deus escreve direito por linhas tortas, assim estás mais limpinho e cheiroso. Além disso assim arrefeceste-te um pouco, parecias-me meio vermelho. - Em risos falei e em risos fui embora para o meu quarto. Era como se os papeis se tivessem invertido e agora era eu a deixar o mulherengo pendurado. A euforia percorria-me o estômago só de pensar no sucedido.
O pobre Rafael, todo vestido enfiado de rabo na banheira estava agora a amaldiçoar (ou a bendizer) a sua sorte.
- Deus…que irónico… - disse para si mesmo.
Despachei-me o mais depressa que pude, o que foi algum tempo visto a quantidade de coisas que tinha de manter em segurança, o dinheiro, mantimentos, os pergaminhos, o embrulho. Em Tomar, pensei, em Tomar saberei o teu significado.
Finalmente cheguei junto do grupo que estava já pronto a partir.
- Desculpem o atraso
- Ah mulheres, já sabemos com lidar com esse mal - brincou António.
Montei o meu lindo Angelus com Pedro do meu lado e Gualdim do outro. Rafael ia à frente com Miguel, logo atrás de meu pai. Já tinha voltado tudo ao normal, a excelência olhou-me de nariz empinado e riso torto e eu percebi que já tinha voltado ao galã de sempre. Fim do meu império.
- Bem meus meninos! E menina. Depois de passarmos o rio estaremos em terras Gaulesas. Lá encontraremos tantos aleados como inimigos e tanto quando sei, Sua Alteza o Sumo Pontifice encontra-se actualmente no país e ele não encara com muito bons olhos a nossa Razão. - Introduziu David.
- É o que faz os valores monetário e de puder falarem mais alto do que a salvação do Espírito… - retorquiu Miguel.
- Infelizmente é verdade. Mas em breve estaremos em Portugal e assim que isso acontecer a nossa causa será conhecida e a Verdade espalhada. E muitos segredos farão sentido para muita gente. Alcançaremos grande glória!! E inevitavelmente perdas de grande sofrimento..
Esta última frase foi dita de tal forma que mal se percebeu, mas a expressão do meu pai falou por si.
- Itália fica para tras!
- Dal nostro spirito va con voi! - Interrompeu o Padre Romeu, acenando da porta.
Sorrimos-lhe em troca.
Cavalos em duas patas e cavalga-mos uma vez mais, agora, pela água.
- Andium Angelus, tottu vitta staret bon...

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

1895, Tomar

Estava um dia quente, tão quente que para além do chapéu tive de levar uma sombrinha para sair à rua. Mal abri a porta senti o ar abafado e tive de voltar para trás e passar um pouco de água no pescoço. O João correu logo atrás de mim quando saí pela porta e implorou para ir comigo, estava farto de aturar o tio Manuel e as suas alterações repentinas de humor. Concordei que ele ficasse a brincar com os outros miúdos ao pé do rio, mas não o queria sempre agarrado às minhas saias a pedir-me para lhe comprar tudo o que estava no mercado e fazer as maiores birras quando não lhe fazia as vontades. De qualquer forma ele já é crescidinho, mas mesmo com os seus 8 anos continua um bebé mimado. A minha tia tem grande parte da culpa, fez de tudo para que a ausência de mãe lhe passa-se despercebida enchendo-o de inutilidades e educando-o de uma forma que tenho a certeza desagradaria a meu pai.
Desde aquele dia, à oito anos atrás, que não temos qualquer notícia do pai, da mãe, da Antónia. O tio Manuel diz sempre que é bom sinal, que as noticias más sabem-se logo e que o mais provável é que tenham saído do país para acalmar os ânimos. Já sou crescidinha e compreendo que por mais que os queira ver prefiro que estejam seguros mesmo que longe de nós. Apesar da separação e da forma como tudo aconteceu, tenho de admitir que a nossa vida melhorou. O simples facto de puder hoje sair à rua sem qualquer impedimento e a sensação de liberdade que me trouxe conforta-me. E nesta casa sentimo-nos seguros, o tio Manuel e a tia Alice sempre nos ajudaram e nunca nos sentimos estranhos numa casa que não é a nossa. A casa é mais pequena e estamos numa rua, rodeados por outros vizinhos e onde não parece haver silêncio o dia todo. Para alguém que não conheceu mais de seis ou sete pessoas até aos 12 anos, tanta gente só provoca uma confusão de rostos e nomes, mas vou-me habituando. O meu próprio nome foi uma dor de cabeça no inicio. Os meus tios acharam que utilizar Guinevere numa comunidade tão pequena só iria levantar suspeitas e nada como o nome Maria, tão comum entre a população, para passar despercebida. De Maria Francisca para Guinevere, de Maria Francisca para só Maria.
O tio tem uma loja de flores em baixo da casa. É pequenina e nem temos muitos clientes mas é uma forma de o tio ocupar o seu tempo. As flores vamos buscá-las ao pátio interior da casa e outras vezes ao campo. Eu vou muitas vezes com a Lídia logo de manhãzinha colher as flores e andar descalça ao pé do rio. A Lídia é a minha melhor amiga, mora na casa ao lado dos tios e é um pouco mais nova que eu. Foi a primeira pessoa que realmente me acolheu quando chegámos a Tomar, numa altura em que os meus tios ainda não sabiam muito bem como lidar com duas crianças em casa.
-
Já devem ser quase 9 horas e o mercado está a fervilhar de gente. Mal consigo andar entre as bancas e com muito dificuldade me consigo fazer ouvir aos comerciantes. Comprei laranjas, limões e um raminho de hortelã que levava ao nariz de vez em quando. Fazia-me lembrar os dias em Sintra com a Antónia na cozinha e eu sentada à porta a ler.
Fui buscar o João perto do rio e para meu espanto estava coberto de lama, da cabeça aos pés! Nunca pensei que um menino tão medroso, que não dá dois passos sem estar agarrado à saia da tia Alice, fosse fazer tamanho disparate. Peguei-lhe na mão com força, fiz questão de o magoar, para perceber que eu não vivo para lhe andar a emendar as asneiras e que tem idade para perceber o que deve ou não deve fazer. Entrámos pelas traseiras, eu não queria que o meu tio o visse naquele estado, e conduzi-o de imediato ao quarto-de-banho onde lhe dei uma esfrega capaz de lhe arrancar a pele.
- Agora vais te vestir rapidamente e sem reclamar! Desces em 5 minutos e não quero ouvir um pio nem uma queixa à tia ou ao tio! – ameacei.
Estava à beira das lágrimas, eu própria estava demasiado nervosa e tive de me sentar. Exagerei, agora consigo perceber isso. E isto tudo simplesmente porque o Rafael vai voltar. Muito me custa admitir mas a ideia de o rever faz-me tremer de cima a baixo. Depois de termos deixado Sintra e até chegarmos a Tomar o Rafael mostrou-se muito atencioso. Finalmente percebi porque é que o meu pai confiava nele ao ponto de o encarregar de levar os seus filhos para tão longe dele. Assim que cumpriu o seu dever partiu e já lá vão oito anos que não o vejo. Não sei o que sentir, estou confusa com este nervosismo mas acho que se resume a reencontrar alguém que fazia parte do meu passado que já vai tão distante.
Desci até à loja onde encontrei o tio adormecido, pendendo da cadeira quase a tocar no chão. A loja estava vazia, nos dias de mercado não tínhamos quase clientes e fechámos assim que chegava o meio dia. Depois de uma tentativa frustrada de acordar o tio Manuel fechei a porta da loja e recolhi os vasos que sobravam. Espalhei-os por todos os cantos da casa, rosas brancas, cravos vermelhos e margaridas amarelas a que juntei fitas de seda e folhinhas de alfazema. Depois voltei ao meu quarto e sentei-me em frente ao espelho para me preparar, já não faltava muito tempo e eu ainda tinha o cabelo num desalinho. Fiz uma trança que terminei com um laço azul e desci pouco depois de ter ouvido bater à porta.

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Conversas à mesa

A conversa estava muito animada. Nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Aquelas pessoas gostavam das mesmas coisas que eu, liam os mesmos livros, falavam sobre as mesmas coisas. Numa mesa enorme não se fizeram grupos. Todos falámos, todos completos desconhecidos que de um momento para o outro se tornaram os melhores amigos. A Lidia, apaixonada pela lenda da Arca da Aliança, contava sonhos que tiveram onde a arca, que é descrita na Bíblia como o objecto em que as tábuas dos Dez Mandamentos teriam sido guardadas, e que os templários guardavam, estava escondida perto da sua rua. David, um outro “cavaleiro” da nossa ordem, confessava a ligação dos seus antepassados à Maçonaria, não conseguindo ocultar o seu interesse e, quem sabe, também o seu envolvimento. O Rafael, o mais presente em todas as conversas, falava do seu fascínio pela busca incessante do Santo Graal. Um cálice? Um pano? Uma mulher? O filho de Jesus? Uma terna dúvida…Todos eles diferentes pessoas, historiadores e dentistas, sapateiros e costureiras, professores e tatuadores. Todos gente tão diferente mas com uma paixão comum. A conversa, regada com um bom vinho tinto fazia as delicias partilhadas por um peru com castanhas bem servido numa travessa de prata, rodeada de batatas assadas. Quem diz o peru diz o pernil de javali, a bela terrina de sopa e os mais variados pratos espalhados pela mesa. “Meus ricos euros, que lindos!”-pensei. Conversa puxa conversa, brinde a brinde a noite foi-se passando. Eram quase três da manhã e nós todos ainda à mesa, como amigos de longa data. Descobri tanta coisa para além de um “nickname”. A Lídia era psicóloga e taróloga, nas horas vagas. O Rafael, claro está, actor. O “Gualdim”, cujo nome verdadeiro é Gil, trabalha num observatório estrelar, algo que nem imaginava que existia. O Miguel, amigo mais chegado ao Rafael, para além de também ser actor, surpreendam-se, estava a estudar para padre! Um padre entre nós, um padre que se meteu naquilo que eu pensei que seria maluquice minha, o site-fórum, e que agora se revelou um sucesso! O David, outro tão querido amigo do Rafael, é arquitecto e apaixonado pela Quinta da Regaleira e as suas passagens secretas, o António, gestor industrial, quem diria, viciado em armas brancas, coleccionador nato! Depois de várias pessoas se terem ido embora, acabámos por ficar com este rol de fascinados, que, uns já mais “alegres” que outro, continuavam a falar. A noite foi fechada com o tema “Templários e Portugal”. Todos acreditamos que Portugal pode ser a “Porta do Graal” e todos sabemos que é bem possível que debaixo do nosso nariz esteja aquele que é o tesouro mais procurado de todos os tempos. Os templários entraram em Portugal por volta de 1126 e fixaram-se em Penafiel. Dona Teresa, a querida mãe do nosso primeiro rei, doou gentilmente à Ordem a povoação anteriormente chamada de Fonte Arcada, em Penafiel. Um ano depois, instalaram-se no Castelo de Soure, sob a promessa de ajudarem na conquista das terras aos mouros, que avançavam sem piedade. Após a conquista de Santarém, D. Afonso Henriques, em gesto de agradecimento, ofereceu o território entre o Mondego e o Tejo, a montante da localidade. Só mais tarde, por volta de 1160, é que a Ordem dos Templários ficou sediada na minha querida cidade de Tomar. No entanto, nem sempre a igreja foi pacífica em relação a esta organização. O Papa Clemente V abre um processo contra os Templários, através da bula Regnans in coelis e os monarcas da Península Ibérica partem para a batalha contra a Ordem, sendo decretada prisão de todos os envolvidos em 1310. Como cavaleiros bravos que sempre foram continuaram a servir o seu propósito. Passados cerca de 9 anos após ter sido iniciada a perseguição aos Templários, o Papa João XXII instituiu a Ordo Militiae Jesu Christi, uma Ordem dos Templários, mascarada, se assim quisermos, que, após uma breve passagem pelo Algarve, se sediou também em Tomar. A Ordem de Cristo, estava agora oficialmente em Tomar. A entrada dos Templários em Portugal deve-se particularmente ao rei poeta, D.Dinis, que, segundo se diz, permitiu que Portugal servisse de abrigo à Ordem, vinda de, antigamente, terras longínquas. Hoje a passagem dos cavaleiros é visível. Em vários pontos do país há monumentos a eles associados, as cruzes que adejavam nas velas das caravelas portuguesas, do tão famoso navio - escola “Sagres”. Hoje os aviões e helicópteros da Força Aérea Portuguesa têm a cruz templária; e as camisolas da Selecção Nacional?
-A presença deles está por todo o lado! – Concluiu o Rafael, após ter falado tudo o que sabia a respeito da presença dos cavaleiros em Portugal.
- Portugal não pode ser apenas aquele “cantinho a beira mar plantado”, não com tanta história que tem entre as suas entranhas - disse o Gualdim.
- Só este sítio tem uma vibração diferente, as energias são diferentes, são poderosas- disse a Lídia, revelando a sua sensibilidade.
- Para não falar das excelentes infra-estruturas, passagens secretas, recantos escondidos, lagos submersos, que esta quinta tem! – Revelou o David, dando o último gole de vinho. Estava espantada com tudo isto. Maravilhada com as pessoas. Deslumbrada com o brilho que cada palavra tinha ao sair das suas bocas. Eram as pessoas certas, os companheiros ideais para iniciar não só uma bela amizade com uma pesquisa muito mais aprofundada do mundo dos Templários. E falando em iniciar…
- Acho que devíamos proceder a um ritual iniciático - disse o António, com já uns copos a mais.
- Ai, ai…- respondeu a Lídia – vamos para casa…Não te ponhas com avarias.
- Eh! Qual quê? Avarias? Íamos para o poço, tal qual maçónicos! – Eu e a Lídia, ao que parece as únicas cabeças pensantes da altura, não estávamos a concordar…
- Oh, mas agora? Porque não amanhã? – acrescentei.
- Agora, na verdade, está escuro…mas eu posso ir lá com vocês! Eu e o Miguel conhecemos os cantos à casa! – E o Miguel, que deveria ser o mais atinado, foi o primeiro a levantar-se e a dizer: - Vamos lá a isto! Somos uma Ordem ou não somos? – bêbados e desajeitados lá foram. O Rafael, em vez de ir à frente ia atrás, comigo e com a Lídia, enquanto os outros, o Gualdim, o Miguel, o António e o David, iam à frente, a rir.
- Está cá um briol…- disse a Lídia.
- Toma- disse o Rafael, tirando o casaco- já estou habituado a este clima, a este frio…- Ela ficou toda sensibilizada…
- Oh…Rafael…Muito obrigada ! – E desfizeram-se em sorrisos. “Então??”, pensei eu. Uma reacção estranha da minha parte. Disse estranha? Sim…talvez seja essa a ideia.
- Epaaaa!- dizia o Gualdim- estou meio tonto.
- Acho melhor voltarmos para o restaurante, Rafael – sugeri.
-Está com medo dos fantasmas da quinta é, lady Guinevere?
- Engraçadinho…não acredito nessas coisas. Teria todo o gosto em fazer um ritual de iniciação desse género, era giro e tal! Mas às 4h da manhã, sem luz, na Quinta da Regaleira, com frio desgraçado….
-As luzes providenciamos nós!
- Rafael, a sério, não estou a gostar nada disto…
- Ei!?- disse o Gualdim – falta aqui o David! David? David??

domingo, 31 de outubro de 2010

Opera, Fronteira Italiana, 1159

Jantamos com o padre Romeo enquanto ele nos pôs a par - a mim, ao Rafael, Pedro, Miguel e Gualdim - da história daquela abadia. Tinha sido acabada de construir em homenagem a Santa Maria da Assunção mas o seu verdadeiro propósito foi como ponto estratégico para protecção dos seguidores da Ordem do Templo que queriam entrar ou sair de Itália. A Abadia era rústica, mas austera. Não muito bonita mas com espírito. Era como se o seu propósito vibrasse através das paredes e a tornassem mais bela do que era na realidade. Com uma grande porta de madeira, e com um vitral redondo, a abadia destacava-se dos restantes prédios pela sua torre sineira alta mas simples. Afinal de contas, chamar as atenções era tudo o que não era preciso. No entanto, toda esta simplicidade se desvanecia assim que se entrava na nave da igreja. Paredes brancas enfeitadas com 7 anjos, sendo que no meio estava o Arcanjo mais corajoso de todos, Aquele que expulsou Lucifer para onde este permanece até hoje. Tinha as feições lindas mas inquietantemente familiares…
Quando o padre acabou a sua oratória arquitectónica e artística, cada um de nós encaminhou-se para as suas funções. Eu e Miguel encaminhamo-nos para a cozinha para preparar a refeição; Gualdim e Rafael foram ter com o meu pai que se encontrava debruçado sobre o velho mapa amachucado enquanto António e Pedro tratavam das nossas montadas - Pobre Ébano…António era tão cuidadoso com ele como um ferreiro a martelar numa arma ainda em brasa….
- O padre Romeo é espectacular não é?
- Ena Miguel! Deve ser a primeira vez desde a infância que te oiço falar de clérico assim. - Era de facto surpreendente, Miguel era a bondade em pessoa, mas quando se tratava de injustiças praticadas pela própria Igreja, ele transformava-se literalmente num guerreiro impiedoso.
- É verdade sim senhora…infelizmente…quase que já tinha a perdido esperança de encontrar entre os homens alguém com o verdadeiro dom… Os homens agora apenas se interessam por guerra, poder, riqueza, aparências…tudo aquilo que devia simplesmente não existir.
- Só mesmo tu para veres o mundo com pena enquanto os outros todos o vêem com gula e avareza - disse enquanto descascava umas batatas da horta. - Perdoa-me a frontalidade… mas apesar de gostar imenso de ti e de te ter por perto…não consigo perceber o que é que uma pessoa com os teus valores faz aqui, no meio desta batalha. Todos os outros estão constantemente a pensar em guerra..o Rafael por exemplo parece um estratega nat…
- O Rafael é tudo menos um bronco moldado pela guerra Liena. - Interrompeu-me Miguel. - O facto de nos e do Gualdim, estarmos aqui em nada se deve ao gosto pela violência nem às birras do Homem. Assim como tu. Que eu saiba o teu pai nunca quis que viesses e tu vieste mesmo assim. E porquê?
- Não sei…talvez porque nao queria ficar sozinha em Portugal rodeava da serventia. Talvez porque tinha medo de perder também o meu pai. - posto isto a minha faca resolveu cortar um pouco mais do que a batata e desenhou um risco vermelho no meu dedo. Olhei de esguelha para Miguel, os seus olhos verdes a contrastar com o cabelo negro avaliavam-me como se entendesse os meus pensamentos melhor do que eu própria. E pelos vistos entendia.
- Eu vim - continuei - porque senti que era o meu dever, a minha missão, eu tinha de vir.
Era esta a resposta que Miguel queria ouvir. Sorria enquanto olhava para mim depois de ter posto os legumes ao lume para a sopa.
- Eu sei Liena, eu sei - consolou-me tocando-me na cabeça como um irmão mais velho. - Deixa aí as batatas que eu cuido delas antes que para além de alimentos vá também um dedo extra na sopa. - brincou - Alem disso eu sei muito bem que há aí uma estátua que chama por ti.
Era verdade, queria muito ter oportunidade para contemplar aquele anjo decentemente antes de ir embora.
Subi as escadas que davam para a sala onde o meu pai e os outros estavam reunidos e caminhei em direcção à nave central. Lá estava ele, no meio dos outros seis imponentes e graciosos. Aquele Arcanjo era lindo em toda a sua forma: corpo musculoso, mas não em excesso como o António, embrulhado em panos deixando as pernas e o tronco desprotegidos. A asas apontadas para o tecto da Igreja, onde muito pequenina repousava a nossa cruz vermelha. Tinha uma espada em punho e toda uma pose de guerreiro. O cabelo era encaracolado e a face terna e misteriosa. Aproximei-me.
- Que estranho - falei em voz alta para mim mesma - Não me lembro de conhecer ninguém assim. O único com caracóis que sei é o Gualdim mas esta cara não tem nada a ver com ele e no entanto parece que conheço alguém semelhante.
- Se calhar na tua vida anterior foste um calhau e como tal reconheces não a cara mas a pedra!
Eis que ele surge, para perturbar a minha paz de alma.
- Sois extremamente agradável, sabeis disso?
- Nada que não tenha ouvido já das demais donzelas, pequeno palito.
PALITO??? Ai que ódio profundo…
- Olha eu nem sequer me vou dar ao trabalho de te responder.
- Será isso por não teres resposta?
(já referí que esta personagem desperta em mim uma raiva imensa?!)
- Mas diz-me lá - continuou - Gostas muito desse Arcanjo é?
- Sim, ele desperta em mim muita calma e segurança, o que tem sido uma coisa rara nestes tempos correntes.
O sol poente trespassava as janelas da igreja atingindo a estátua, pintando-a de dourado com sobras que o tornavam ainda mais real.
- É, eu sabia que ia ter esse efeito em ti quando visses algo deste género. Seja quer for que o esculpiu fez um trabalho brilhante.
- Achas que o Arcanjo se parece com isto?
- Em matéria? Sim, bastante.
Estava-mos os dois lado a lado agora, a admirar o Arcanjo no meio de nós, a falar com ele mentalmente, ou seria pelo coração?
- Rafael..há uma coisa que me está a fazer espécie desde que o vi pela primeira vez..
- Ora essa, não precisas de me tratar por você. - Aí está ele no seu melhor.
- Não estou a falar de ti seu idiota!!! Do Anjo!
- Um Anjo? daqui a pouco tratas-me por Deus, ahahah, muito bom, gosto.
- Enfim - suspirei, eu não sei como é que ele consegue mas enfim - Fazendo de conta que estou imune à tua parvoíce e passando à frente. Ía dizer-te que há algo de estranho com a cara do Anjo.
- Estranho? Como assim?
- Uma sensação. Eu acho que já vi aquela cara, talvez, com outro cabelo ou assim.
Não sei o que disse mas a reacção do Rafael mudou naquele momento. Olhos trémulos e aterrorizados como se o fossem atacar.
- Rafael? Disse alguma coisa que não devia?
- Não..nada…só tive um arrepio pelo corpo, deve ter sido da corrente de ar.
- Tens a certeza?
- Sim, então, conhece-lo é? Mas não sabes mesmo de onde possa ser? Sabes que os artistas têm modelos na cabeça um pouco comuns, se calhar já viste uma obra de arte assim parecida.
- É…se calhar é isso. - Anuí.
- Quem quer enterrar os dentes num pernil assado e aquecer as entranhas com uma sozinha, han?? - Entrou o António por ali a dentro.
- Aí está o homem das boas noticias. Muito bem dito companheiro, vamos lá a isso - disse Rafael enquanto se pôs a caminho.
- Não vens Liena? - perguntou António ao ver-me para trás.
- Sim, vou já…
- Que foi? Estás com uma cara de sanguessuga.
- Não foi nada, António. Só estranhei agora uma reacção do Rafael.
- E o Rafael que não mexesse com o mulherio.
- Não ele não disse nada de mais mas ficou um pouco pálido e incomodado quando lhe falei da estátua. Quando disse que me fazia lembrar alguém.
- Esta pedra aqui? É bonita sim. E engraçado.
- Engraçado? - estranhei, onde poderia ser uma coisa daquelas engraçada?
- Engraçada a situação, O Rafael não ter gostado que conhecesses a cara d'O Arcanjo Rafael. Tem a sua piada. - E pôs a caminho ainda a rir da coincidência que encontrou.
Só mesmo o António para tornar tudo simples e ainda se rir.
Jantar servido. Um belo de um peru em tom caramelo, vinho tinto a sobressair de umas garrafas cujo gargalo tinha forma de pássaro com as asas eram agora as asas da garrafa, uma travessa de salva de prata - latão mas finjamos ser mais valiosa porque era assim que nos parecia - recheada de batatinhas assadas, descascadas pela minha pessoa (não tenho muito jeito, metade da batata foi na casca mas conta a intenção), iguarias espalhadas por toda a mesa, especiarias embotidas em frascos juntos da pasta, afinal de contas estávamos em Itália, no centro da mesa esperava apenas uma roda de madeira que seria ocupada pelo caldeirão de sopa. Que cheirinho…ainda com os ingredientes a boiar já prontos a casear os tambores que rufavam dentro das nossas barrigas.
Começamos, todos silenciosos a comer enquanto o meu pai contava as suas aventuras de jovem irreverente, dando simultaneamente dentadas no pão com chouriço deixando migalhas no bigode e na barba. Que engraçado! Nisto entrou o nosso ilustre pe. Romeu provido de mais dois jarros de vinho.
- Mais um copo excelência! - pedi num tom um bocadinho mais elevado do que o normal.
- É melhor deixares isso para outro dia, minha senhora, essas bochechinhas rosadas indicam que já estás bem animada! - brincou Rafael.
- Ah não, isto sou eu que estou corada por estar ao teu lado! - Tinha acabado de dar a prova de que já não estava no meu juízo perfeito.
- Hoje finalmente vamos poder dormir uma noite descansada, sem perseguições, tudo organizado. Depois deste farnel vai saber que nem ginjas! - Alegrou Gualdim com um ar de puro contentamento.
Todos concordaram e brindaram à nossa situação, incluindo o Pe. Romeo que nesta altura também já se apresentava bastante aconchegado com um ar de bebé e a barriguinha de boa vida.
Depois de ter reconfortado o embrulho no bolso de dentro do meu casaco, bem junto ao meu corpo, senti-me realmente aliviada e pronta para descansar o corpo e o espírito. Ao espreitar pela janela vi que a lua brilhava bem redonda e luminosa na companhia das estrelas que nos guiavam noite após noite nas nossas caminhadas. Depois de comermos até nem podermos sentir o cheiro a comida, alguns de nós adormeceram nos cadeirões junto da lareira enorme da cozinha que era utilizada para preparar as refeições. Eu era amante da noite, e nenhuma noite era tão bonita com a de Inverno, céu limpo e iluminado, a geada nos campos deixando apenas o cimo das árvores à espreita, o voo silencioso de uma coruja a rasgar a neblina adormecida, e principalmente as gotas de orvalho cristalizadas sobre a pedra fria da Igreja dando a ilusão de ter sido construída através de magia.
Embrulhei-me com o meu casaco e um cachecol vermelho e vim cá para fora observar este ambiente maravilhoso.
Estava frio, muito frio, mas eu não me importei. Estava noutro mundo. Via as estrelas a emanarem aquele brilho irregular. Aquele brilho a crescer. Aquele brilho a desfocar. Aquele brilho a aproximar-se de mim. Aquele brilho que se transfigurava agora numa forma humana mas imaterial. Apenas uma luz. Acho que já estou a sonhar…
- Quem és tu…o…que…és tu?
Foi então que uma voz entrou por mim a cantar.

EGO sum hic super ut te servo.
Unus of septem.
Ut vos orbis terrarum in posterus , fides perdo
UNUS vestri perfectus unus eripio per Operor vos vere vilis is.
QUOD vos admited nobis they ero iens tepirdo.

Operor? Verdade? Mas que Verdade?
Nisto, abri os olhos de repente, e tudo se encontrava exactamente como quando ali cheguei.
Já deveriam ser umas tantas da madrugada, era hora de voltar para dentro e aconchegar-me nos cobertores de pêlo.
Entrei e fechei a porta atrás de mim, sem saber que na janela alguém me observava desde o início.
- Ela está cada vez mais perto de saber a sua missão. Esta visita dela só pode querer dizer isso.
- Eu sei, nós já passamos por isso e em breve será ela.
O céu começara já a clarear.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

1887, Maria Francisca outra vez

Mais uma noite mal dormida. Não estou habituada a lidar com pessoas novas, parece que qualquer coisa que escape à rotina me põe num estado de inquietação. Lá adormeci depois de muitas voltas na cama, pés de fora e lençóis no chão. Nisto ouço alguém bater à porta do meu quarto, primeiro baixinho e cautelosamente e depois mais ruidoso que me fez levantar num salto. Pensei que fosse a Antónia ou a mãe sei lá! Nunca me passou pela cabeça que o Rafael se atrevesse a procurar-me, logo assim a meio da noite.
- Estás acordada? – sussurra Rafael.
- Que achas? Com este barulho até me admira ser a única de pé! Tens a certeza que mais ninguém acordou? – pergunto em pânico.
- Absoluta! Temos o caminho livre! Veste qualquer coisa quente que está frio lá fora.
E com isto desapareceu. Tentei vestir-me sem fazer muito barulho. Tive de esvaziar o baú para chegar ao casaco mais quente que tinha. Desci as escadas de meias calçadas e com as botas nas mãos para não fazer barulho. No meio da escuridão lá consegui encontrar a porta da rua, hesitei, olhei as escadas mas estava tudo silencioso. Fechei a porta lentamente. Imediatamente as minhas mãos gelaram e os meus pés doíam. Que inteligente! Nem me tinha calçado! Mas onde está ele?
- Aqui! Vem antes que a Chiquinha acorde e comece a ladrar!
Quando começámos a afastar-nos da casa é que me apercebi da situação. Saí de casa sem os meus pais saberem com alguém que nem conheço. Mas como é que me deixei levar? Nem disse não, não concordei, não me desfiz em risinhos parvos de miúda apaixonada. Depois percebi que isto nada tem a ver com o Rafael, mas com a minha vontade de descobrir, de explorar para além do que conheci a minha vida toda.
- Vamos para aqui por um pouco! Temos de esperar que amanheça ou não vamos conseguir entrar na floresta. – explicou.
Novo silêncio. Sentei-me e comecei a fazer uma trança no cabelo, precisava de ocupar as minhas mãos que tremiam descontroladamente. Sentia que não devia fazer aquilo que estava a arriscar a confiança que os meus pais tinham em mim. Pensei em levantar-me e voltar para trás mas as minhas pernas não obedeciam. Ele deve-se ter apercebido porque nesse momento perguntou “Passa-se alguma coisa?”. Mas a preocupação desvaneceu-se logo que os primeiros raios de sol surgiram e logo nos pusemos a caminho. Á medida que avançámos comecei a reconhecer o cenário, passámos pelo sítio em que a Antónia me tinha deixado no outro dia e continuámos a subir. De repente parámos!
- Era aqui que te queria trazer. Á Quinta da Torre da Regaleira!
Olhei para cima e conseguia distinguir uma torre no meio do arvoredo com os vidros das janelas a reflectir a luz do sol. Era muito cedo por isso o palácio estava silencioso, só ouvíamos os pássaros e som dos ramos agitados pelo vento frio. O muro cercava toda a propriedade mas o Rafael conhecia uma entrada secreta que dava para o jardim e para a capela. Perguntei-lhe se podíamos andar ali mas ele pegou-me na mão e continuou até ao palácio. Fiquei paralisada com aquela visão! Nunca os meus olhos tinham admirado algo mais belo. Quando olhei para o Rafael estava ele com um olhar triunfante e um sorriso de rapazinho. Quando lhe tentei agradecer ouvimos passos e desatámos a correr, num ápice já estávamos fora da Quinta.
- -
Chegámos a casa a tempo de não sermos apanhados. Meti-me debaixo dos lençóis e adormeci de imediato, estava feliz e em paz.
- Acorde menina! Já são horas para se estar de pé, não a preguiçar na almofada!
- Oh Antónia só mais um bocadinho! – supliquei.
- Nem mais um bocadinho que os seus pais já estão lá em baixo à mesa. E a menina aqui deitada! Não pode ser! Não é nenhuma criança!
Senti-me bem com esta nova forma de tratamento. Nem sei a que se deve mas ao menos a Antónia apercebeu-se que já não sou um bebé que precisa de atenção a toda a hora. Talvez me ajude a sair deste sufoco. Doía-me a cabeça e estava com cara da cor da parede branca, mas vesti-me e desci as escadas com a pouca energia que tinha.
Cheirava a pão quente e vinha um calor tão bom da cozinha. O pai e a mãe já estavam de saída assim como Rafael que os seguia, mudo e com aquele ar submisso que se apodera dele sempre que está perto do meu pai. Quando a porta se fechou senti-me feliz por ficar em casa, tão quentinha e acolhedora. A Antónia trouxe-me o pão e sentou-se ao pé de mim com o Joãozinho ao colo. Ele pegava nos bocadinhos de pão e fazia pequenas bolinhas que depois deixava cair para a Chiquinha comer. Antónia ria e dava-lhe beijinhos, abraçava-o e falava-lhe baixinho.
Como estava cansada inventei uma desculpa e subi para o meu quarto para me deitar. Não fechei os olhos, fiquei antes a olhar a janela embaciada, o papel de parede amarelo, o tecto de madeira. Sentia-me bem naquele espaço só meu onde eu mandava. Era desarrumado e nos armários acumulava-se o pó, proibi que mexessem nas minhas coisas. A mãe a principio não gostou da ideia, chamou-me de “menina mimada”, mas o pai achou que era justo já que estava proibida de me afastar de casa.
O cansaço venceu-me finalmente e eu adormeci profundamente.
Acordei finalmente quando ouvi barulhos vindos da rua. Olhei pela janela e vi o Joaquim e o meu pai a correr e a gritar pela Antónia. Abri as janelas mas logo o meu pai exclamou “Maria Francisca fecha imediatamente essa janela!”. O meu nome, aquele de que às vezes me esqueço. O Rafael trazia a minha mãe pelo braço e eu corri a ter com eles. O meu pai estava pálido e ofegante, não consegui acabar as frases por mais que eu implorasse por uma explicação para tanta agitação.
- Eles encontram-nos! Temos de sair daqui! – gritou a mãe.
- Nem pensar nisso! Isso só lhes dá mais uma razão para confirmarem as suspeitas e seguirem-nos para onde formos. Não podemos fugir para sempre. Deixa-os vir aqui e confrontar-nos, garanto-te que não encontram nada! Aliás vou já tratar disso! Antónia acende a lareira! – ordenou.
Correu até à cava e com a ajuda de Rafael despejou dezenas de pergaminhos no fogo. Nunca tive tão perto de descobrir a verdade e agora ela estava a arder à minha frente. A minha mãe chorava, provavelmente porque adivinhava o que vinha a seguir.
- A Maria Francisca e o João vão ter de sair daqui! Se alguma coisa correr mal o melhor é eles estarem bem longe daqui. Não correm o risco de ser perseguidos já que ninguém sabe da sua existência.
Eu vi as lágrimas da minha mãe e sei o quanto lhe custava a separação mas não disse nada. Foi tudo tão rápido que nem tive tempo para me aperceber de que hoje ia deixar aquela casa, a casa que tantas vezes me pareceu uma prisão. Não havia tempo a perder e por isso rapidamente as malas foram levadas para a carroça onde o Joaquim esperava nervoso e o Rafael sentado a seu lado. Ficou decidido que iríamos ficar com o meu tio Manuel, irmão do meu pai que mora em Tomar. Depois logo se vê.
Não houve tempo para grandes despedidas, a minha mãe só reteve o Joãozinho alguns minutos no colo. E assim partimos como se nos fossemos ver amanhã, mas sem certezas. O cheiro a queimado só agravou o meu desespero.

sábado, 23 de outubro de 2010

Damas e Nobres Cavaleiros

- Vá, agora tens de rir! Smile!!
- Não quero rir, tio Pedro. Só me apetece chorar...
-Então Lena? O teu tio mais querido chega do Luxemburgo e tu és assim?- O meu tio Pedro: Um solteirão de meia idade, cabelo escasso, barriga avantajada. Suspensórios, bigode farfalhudo, fala pelos cotovelos e adora...ME!- Gosto tanto de ti, Leninha...
- Sim tio...- dizia, enquanto ele me abraçava como se não me visse há anos. Na verdade não me via há meses. Imigrou para o Luxemburgo muito novo...É um quase irmão do meu pai, David, e digo quase porque não é. São amigos de infância, "companheiros de luta", como diz o meu pai.
- Nem vais acreditar no que me aconteceu!- "aí vamos nós", pensei- No outro dia, estava eu muito bem a passar na rua e o que vejo eu? Um incêndio! A sério! Um incêndio! Mas não era um incêndio normal, oh não! Era num daqueles campos de plantação que há aí à beira da estrada.
- Em Lisboa? Não sei de nada...
- Perto. Nos arredores. Para os lados dos subúrbios.Mas isso não interessa! O que interessa é que eram já quase oito horas, andava, pois, a fazer o meu jogging, e vejo aquelas labaredas a lavrarem o campo como se não houvesse amanhã! As pessoas, ena pá, as pessoas todas passadas, a gritar, a dizer que estavam lá no meio os homenzinhos do campo de cultivo! Um horror...A sério! Heis então que uma das mulheres que assistia se vira e diz " Ai, credo! Que vem lá um homem!", e vinha. De um momento para o outro aparece um homem vindo do nada, aliás, vindo do fogo!- o tio Pedro parou, bebeu um gole de água e lançou-se à história novamente- Passou por nós numa gaspia que ó visto! Todos dizem que foi ele que ateou o fogo.
- E foi?
- Sei lá eu! Perguntas bem mas não sabes a quem...Ele apareceu, fugiu e logo depois chegaram mais bombeiros. Salvaram uma data de gajos que estavam do outro lado.
- Não eram homens das culturas?
- Não, isso viemos a descobrir depois! Eram uns manfios quais quer- disse, dando uma valente dentada numa baguete seca.
- Mas que emocionante...- disse eu.
- Tu cala-te! Aquilo foi uma daquelas rixas dos mafiosos, dos gangues. Aquela malta é marada- dizia enquanto comia- a sério!- insistia- aquela malta...não se metam com eles- Podem agora pensar o porquê desta converseta toda. Por nada. Simplesmente o meu tio é assim. Fala, conta, embeleza, reconta e conta novamente- o manfio- continuava- deve andar agora para aí fugido da polícia. Tu toma cuidado, Helena! Ui! Mesmo em Lisboa, estas coisas, ai, ai...
-Oh, tio. Eu tenho cuidado, deixe lá- Dito isto liguei o meu computador. Olha,lá estava ele, o guerreiro das trevas, ou da luz, o Rafael. O meu portal tem tido algum sucesso e o jantar está marcado para breve. A quantidade de cavaleiros e damas adicionadas no fórum são cada vez mais e cada vez mais se fala de templários, do Santo-Graal, cada vez são mais os artigos publicados no site, cada vez leio mais sobre isso e cada vez mais sugestões para o tema da minha tese. Enquanto lia um artigo sobre a relação entre as estrelas e a ordem dos templários, heis que surge:

"Rafael- Quem é vivo sempre aparece..."

"Guen- Rafael...olá, tudo bem?"

"Rafael- Sim. E tu? Ainda de volta da tese?

"Guen- De volta? Ainda nem a comecei!"

"Rafael- Já vi no fórum que o jantar da Ordem já está marcado! =D"

"Guen- Sim! É já este fim de semana e já está tudo marcado"

"Rafael- Sempre é na Quinta da Regaleira?"

"Guen- Sim, já está marcado para sábado à noite na Sala da Caça"

"Rafael- Ena...a coisa é mesmo em grande!"

"Guen- Sim, considero um investimento...E tive ajuda também de alguns amigos".

Foi realmente com a ajuda de amigos e com algumas poupanças que consegui fazer o jantar na Quinta da Regaleira, alugar a sala, tratar de tudo. Mas valeu a pena. Quanto à vestimenta...Protocolo templário! Já aluguei o meu vestido e está pronto a ser usado. O dia do jantar chegou e eu, em pulgas, comecei-me a preparar às quatro da tarde. Quando me olhei ao espelho nem queria acreditar...não era eu, de todo, que estava ali, na frente do armário, reflectida naquele espelho, dentro daquele vestido. Por momentos até pareceu que a cor do meu cabelo tivesse mudado...O meu alourado estaria mais acastanhado? O meu cabelo é castanho mas fruto de um belo trabalho de um cabeleireiro tenho uma cor a fugir mais para o loiro. Gosto de lhe chamar castanho dourado.Quando acrescentei a grinalda de flores ao cabelo meio encaracolado, foi o toque final. O meu vestido, de veludo, vermelho escuro, de mangas pendentes, caía pesadamente para o chão. O decote realçava-me o colo e deixava aparecer um colar de prata, com um medalhão antigo. O cabelo, comprido, ligeiramente atado atrás estava realçado pela grinalda de margaridas e flores de era, feita por mim. Um achado em pleno inverno! Decidi levar uma capa preta, com um capuz, que tenho, e uma bolsa de veludo preta, que uso somente em casamentos e baptizados. Antes de sair de casa olhei-me, pelo menos, umas mil vezes ao espelho. Sim! Por Deus! Ia ser a anfitriã, ia conhecer pessoas e ia conhecer o Rafael, que, claro, não deixa de ser uma pessoa. Bom, pessoas à parte. Saí de casa. A senhora do terceiro esquerdo apanhou-me na escada e ao invés de me dizer “mas que menina tão linda” disse:
- Olá, menina! Está boa? E o seu tio…está por aí? É tão simpático…”- e pronto, o tio Pedro encontrou uma namorada. A dona Jezebel, ou Bela, como lhe chamamos, é uma amor de pessoa e, vejam só, está interessada no meu tio Pedro! Não que ele não seja um óptima pessoa. Mas! Enfim…
- Olá, Dona Bela, como está? O tio está bom…arranjou trabalho num hotel e agora trabalha lá.
- Muito bem, ainda bem que ele se está a arranjar por cá! Olhe, um bejinho! Adeus, minha querida- e lá foi ela, a dona Bela, cinquenta e poucos anos, sempre arranjada, saltos altos e mala de mão. Quando peguei no carro pensei: Devia ser proibido andar de carro com esta roupa, mas Sintra ainda é longe de Lisboa, deixei-me ficar e para entrar no espírito fui a ouvir até lá música medieval. Fui a primeira a chegar, ainda pus o carro longe, mas fui a primeiríssima. O meu queixo caiu quando vi a Sala de Caça totalmente espectacular e decorada a rigor. “Ai…meus ricos euros. Foram tão bem gastos”, foi o que pensei. Na verdade, aquela sala estava digna de um filme! De um “O primeiro cavaleiro”…Se me entrasse o Richard Gere pela porta, linda porta, aliás, eu não me iria surpreender e cairia em seus braços! Olhei, olhei, toquei, cheirei e só conseguia esboçar o sorriso mais parvo de sempre! Estava tudo lindo, estava feliz e ia conhecer os meus companheiros da Ordem!
Passado pouco tempo começaram a chegar as pessoas. Um, dois, cinco, dez, éramos 25. Conheci a Lídia, o David, o Gualdim, que se tornou um grande amigo, entre outros. Os homens, uns vestidos com armaduras, outros com vestes mais simples, o Gualdim um autêntico templário! As mulheres seguiam a mesma linha que eu, umas mais avantajadas outras mais contidas. Só o Rafael não tinha dado as caras. Antes do jantar, enquanto conversávamos, um dos empregados, igualmente vestido a preceito, veio falar comigo, dizendo que a organização tinha preparado uma pequena surpresa e se essa surpresa poderia ser agora. Sem saber o que era, consenti. Naquele minuto entram pela porta três homens a lutar, com espadas, esgrimistas, com certeza. Lutava a sério, vestidos exactamente como os templários. Tinham uns capacetes, não lhes conseguia ver a cara. Encenaram um pequeno teatro e no final, um deles, aquele que considerei como mais forte, acabou com a vida de um (ficcionalmente, claro) e fez com que o outro fugisse. As pessoas bateram palmas (eu mais que todas juntas!) e no final ele tirou o capacete.
- Lady Guinevere…
- Sim…- disse eu, em resposta.
- Rafael – disse ele. Morri e ressuscitei naquele segundo - Não te lembras de mim?
- Oh, nobre cavaleiro – nobre cavaleiro? Eu não disse aquilo…- Claro que me lembro...Pelo que vi aqui sois bravo! – fiquei parva comigo mesma. Ele sorriu e pegou-me na mão.
- E vós sois tal e qual como eu imaginei. Com essas flores no cabelo e tudo – corei, corei, corei, oh, meu Deus eu sentia-me a ferver! Mas que homem…Devia andar pela mesma idade que eu, alto, o cabelo nem curto nem comprido, acastanhado, dourado, sei lá, giro! Uns olhos cor de mel mais doces que o próprio mel, um sorriso, essa era a melhor parte, ai, um sorriso maravilhoso. Atenção! Não, não estava apaixonada.
- Como é que…bom, tu fazes parte da equipa de animação?
- Sim, sou actor. Faço parte do grupo de teatro da Quinta.
- Nunca me tinhas dito…
- Perdoai-me nobre dama…- disse ele, ai, com aquele sorriso. Corei pela milionésima vez – mas não me queria meter. Assim fizeste tudo sozinha e eu providenciei a animação. Normalmente não fazem, foi um extra…
- Ena! Obrigada.
- E o teu nome verdadeiro é…-perguntou.
- Quereis mesmo saber? – Ele olhou-me bem, bem dentro dos meus olhos, tocou-me na alma e voltou a sair.
- Não. Não quero.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Genova, Itália, 1159

Despertei abruptamente como se durante o sono alguém me tivesse deliberadamente empurrado para um abismo. Do piso inferior vinham sons de angústia, medo e espanto que enchiam o piso de cima como foguetes coloridos que se expandiam por toda a habitação. Apenas um nome se conseguia distinguir, Rafael.
Como se por alguma razão me tivessem nascido asas, voei até junto dos outros para perceber o que se passava. Passei pelos quartos, cozinha, sala, recepção, porta…..fogo! Os campos de trigo que tinha admirado na noite anterior encontravam-se agora obrigados a dançar com as labaredas douradas que cresciam com as correntes de ar e serpenteavam cada vez mais para perto da estalagem. Ao longe vi a razão dos gritos dos meus companheiros e tive a pior visão da minha vida.
Ver o fogo a consumir a paisagem, outrora pacifica, era suficientemente horrendo de se assistir; mas ver o Rafael no meio desse mesmo inferno despertou em mim uma reacção de paralesía e impotência perante toda a situação.
- LIENA! - Os braços do meu pai tentaram aconchegar-me e proteger-me, mas naquele momento confesso que o agradecimento deu lugar a uma raiva inconsolável, libertando-me dele.
- Porque raio estão todos aqui especados!! porque não o acudem?! Que se passa convosco??!
- Liena, anda, temos de nos por a caminho o mais rápido possível antes que cheguem até nós.
- Pedro..por favor..diz-me o que está a passar..imploro-te.. - supliquei-lhe, ele era meu amigo desde que me lembro, quando ambos fingia-mos ser cavaleiros defendendo um tesouro.
- Vês o monte atrás das labaredas?
- Sim…mas..são!
-Mouros…eles vêm muito mais rápido do que qualquer um de nós imaginou..até Gualdim está incrédulo..Está neste momento a elaborar outro roteiro mais seguro e mais rápido…basta sairmos de Italia sem eles saberem que fronteira utilizamos e despistamo-los! Foi o Rafael que começou o fogo, para os atrasar! Mas como é obvio aquele idiota quase que se matou na própria ideia. Lá vem ele!
Não sei explicar se achei aquela imagem linda ou simplesmente aterrorizante. Se me sentia mais aliviada ou com vontade de lhe ofertar uma valente bofetada. Ele corria, vestido de negro, com o cabelo louro a reflectir as chamas que o rodeavam. Era rápido, suficientemente rápido para minha felicidade. Mal nos alcançou nem tive tempo para dizer fosse para o que fosse. O olhar dele era tão impetuoso como as palavras que disparou.
- Que raio estão vocês a fazer aqui, ainda?? Estão com vontade de comer o churrasco um do outro?
- Estávamos preocupados contigo seu pobre e mal agradecido! Já para não falar nesta señora aqui. - disse Pedro enquanto se afastava para preparar os cavalos e olhava para mim de esguelha.
- Prefiro ser mal agradecido do que agradecer-te e estares ferida por minha causa. - disse sem olhar para mim.
- Mas afinal porque nos perseguem eles?
- Porquê? O teu pai não te deu nada?
- O embrulho!
Entrei novamente na estalagem, já enegrecida pelas cinzas, passei novamente pela recepção, sala, cozinha, quartos, subi o vão de escadas, entrei no meu quarto com o coração a saltar como se quisesse chegar lá antes de mim. Lá estava ele…junto dos pergaminhos..e por um momento vi um brilho dourado a surgir do embrulho azul..que será ist..
- Liena? Vamos?
- Sim pai.
Peguei em tudo, vesti-me (afinal de contas tinha literalmente voado da cama), enfiei os embrulhos no casaco vermelho e fui para junto do grupo.
O meu lindo e fiel lusitano já me esperava, um verdadeiro amigo este meu cavalo, Angelus, uma prenda da minha querida mãe, era ainda um potrinho nesse tempo.
Aprontei-me e olhei para o grupo, estavam todos nervoso e ainda assim confiantes. O meu pai tomou a liderança.
- Cruz vermelha ao peito! Hora de partir!
- E… rumo a onde? - Perguntei

*

O dia ía a meio quando chegamos a Abadia de Mirasole em Opera, se tudo corre-se bem seria lá que iríamos despistar a pista dos mouros. Famintos e cheios de dores, devido aos dias passados a cavalgar a galope por terreno incerto e acidentado, ansiava-mos apenas por um local para descansar, desfrutar dos mantimentos que nos tinham providenciado e, mais importante, elaborar uma rota segura longe dos olhares protestantes e curiosos.
Aliviamos os cavalos e entramos dentro da abadia onde um padre revia o sermão e anotava qual o capitulo da génesis a referir na próxima missa. Ao ver-nos, 7 seres humanos, sujos, imundos, porcos e cansados, o padre, já de meia idade, recuou nos passos, mas ao invés de se retirar a correr como eu esperava, deixou-se ficar. Fintando-nos como se fossemos obras de arte a contemplar. Talvez tenha reconhecido a nossa cruz. Afinal de contas eu não conhecia o seu significado mas havia sido ofertada pelo Padre José da pobre capela de Tomar.
Aproximou-se do meu pai e confirmou o que suspeitara.
- Que far tu qui? Qui te pavé dato questo incrocio?- questionou apontando para a cruz rosada.
- Il mio nome è David e sono un guerriero dal Portogallo. Il mio servizio sebbene sia per il Dio. - Respondeu o meu pai dizendo que vinha de Portugal e cuja missão visava o próprio Deus. A mim estas palavras deixaram-me ainda mais confusa sobre o que estava-mos a fazer tão longe de casa, mas para minha surpresa, ao padre pareceu fazer sentido.
- Sì effettivamente, siete 7, ciascuno protettivo da un angelo unic. Quello significa che avete de tesoro? - perguntou o padre…o tesouro..referia-se ao embrulho disso não tinha duvida.
- Ma perché siete qui? qualcosa è accaduto? - continuo.
-Sono impaurito in modo da…. - anuiu o meu pai - i mouros di the hanno trovato la nostra traccia, come tale che avessimo è venuto qui fa li ha allontanati (infelizmente sim…os mouros encontraram-nos e por isso mudamos a nossa rota para tentar despista-los)
- Capisco che. il mio nome sia Romeo e sono un sacerdote dall'ordine del tempio. .so sono informato della vostra causa. siete ben venuto qui ed andrete domani dal fiume, essi non potete seguirvi più. (entendo…o meu nome é Romeo e sou um sacerdote da órdem do Templo, como tal estou a par da vossa causa. Sejam benvindos aqui, poderão partir amanhã pelo rio, assim eles perderão o trilho).
Posto isto só me ocorreu, amén…

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

1887, Sintra

Quando cheguei a casa não conseguia disfarçar o sorriso. Mas também ninguém reparou nisso, a minha mãe estava mais preocupada em que eu fosse trocar de roupa porque o pai não tardava a chegar e eu parecia que tinha ido para a guerra. A Antónia só reparou nos arranhões nos meus braços quando me ajudava a vestir um vestido de algodão.
- Ai mas o que é andas-te tu a fazer? – perguntou de olhos esbugalhados.
Inventei uma desculpa qualquer sobre ter tropeçado nuns ramos ao esconder-me de umas lavadeiras que passavam. A Antónia correu a buscar um outro vestido, de mangas mais compridas e cor de vinho “não fossem as feridas voltar a sangrar”. Quando desci o pai tinha chegado, estava sentado ao pé da lareira com um rapaz perto dele. A mãe tinha o Joãozinho adormecido ao colo e a Chiquinha aos pés. Ficaram em silêncio quando eu entrei na sala, nada de novo para mim que estou mais que habituada a permanecer na ignorância. Foi aí que o meu pai se levantou e anunciou.
- Quero apresentar-te o Rafael, Guinevere. A partir de hoje ele vai viver aqui em nossa casa. – disse num tom seco.
Bem sei que não esperava que aprovasse tal decisão e por isso acenei com a cabeça sem nada dizer. Seguiu-se o jantar que, apesar das visitas ou do novo residente, era bastante simples porque a Antónia não teve tempo de preparar nada mais elaborado. Ninguém se importou, ficou um grande silêncio só interrompido pelo ladrar da Chiquinha. O pai levantou-se num pulo e foi à janela. Pouco depois voltou, passou a mão pela cabeça da Chiquinha e sentou-se. Nem soube o que tinha sido, nada de especial aparentemente, mas o pai nada comentou. Foi então que a mãe começou a falar com o rapaz, o Rafael.
- Espero que esteja a gostar do jantar. O meu marido não nos avisou que viria hoje, não estávamos à espera. Mas não se preocupe que facilmente se arranja um sítio para dormir.
- Só vos tenho a agradecer pela bondade minha senhora. – respondeu o rapaz.
Fiquei o resto do jantar a observá-lo. Não gosto da ideia de ter um estranho em casa, que nem da minha família é. Apesar de o meu pai não ter adiantado nada tentei perceber de onde era. Não devia ter mais de 18 anos, nem barba tinha, o cabelo era castanho e dava-lhe quase pelos ombros. Se passasse por mim diria que era um lavrador pois tem a pele queimada do sol. Deveria ser um acontecimento para uma rapariga da minha idade conhecer um rapaz jovem. Qualquer uma começaria com mil fantasias daquelas dos contos de fadas com príncipes corajosos. Eu só vejo um rapaz que perdeu todo interesse na segunda vez que olhei para ele. De qualquer forma quando o jantar terminou meu pai fez sinal à Antónia para me levar para o quarto, claramente iam conversar sobre coisas que “não são para a tua idade”. Já nem quis saber, num dia descobri exactamente onde estava. Sintra! Já é mais do que soube numa vida inteira pela boca da Antónia.
Quando fechei os olhos veio-me o Rafael ao pensamento. Comecei a pensar nas razões que levariam o meu pai a oferecer a sua casa a um completo estranho. De onde se conheciam? Estará a escondê-lo também? Deve-lhe alguma coisa? Com tantas perguntas na minha cabeça dormi pouco e mal, quando a Antónia me chamou senti-me como se tivesse acabado de fechar os olhos. Desci as escadas a cambalear e quase tropecei no penúltimo degrau. Fiquei espantada ao não ver ninguém.
- Saíram todos menina! Só cá estamos nós, o Joãozinho e a Chiquinha. – preveniu Antónia.
- Mas sabes onde foram? – escapou-me.
- Oh menina como se os seus pais me dissessem tal coisa!
- E o … Rafael? Também saiu?
- Anda por aí perto. Diz que precisa de apanhar ai mas que não se afastava.
Ainda bem que não me apetecia olhar para ele logo de manhã, ele a causa da minha sonolência. Peguei num livro e sentei-me lá fora a apanhar um pouco de sol. A Antónia pediu-me para ler alto para que me ouvisse da cozinha, ela que infelizmente nunca aprendeu a ler. Eu sempre me senti grata por ter um pai que fizesse questão que a filha aprendesse a ler e a escrever. Sei que nem todas as raparigas têm essa oportunidade.
- Mais alto menina! Não a ouço bem! – gritou Antónia.
- “O puro amor - o prazer
Que não fatiga e não gasta...
Só por ti os pode ver
O que, inspirado, se afasta,
…”
- Mais alto!
- “A ti se dão, em ti vida,
E por ti vida têm. Eu, consagrado
A teu altar, me prostro e a combatida
Existência aqui ponho, aqui votado
Fica este livro - confissão sincera
Da alma que a ti voou e em ti só espera.”
- Ai que lindo! Soa tão bonito, mesmo não entendo metade do que disse.
- O livro chama-se “Folhas Caídas” de Almeida Garrett. É uns dos preferidos do meu pai.
Rafael chegou pouco antes do almoço, deve-lhe ter cheirado à comida da Antónia e encurtou o passeio. Como os pais não estavam sentámo-nos os dois à mesa enquanto a Antónia dava de comer ao Joãozinho sentada ao pé da janela. Já estava à espera de uma refeição silenciosa quando o Rafael resolve falar.
- Não fiquei a saber o teu nome. – perguntou inesperadamente.
Não estava à espera e por isso demorei demasiado a responder. Nunca me passaria pela cabeça contar-lhe toda a história de como o meu nome verdadeiro não é aquele pelo qual me tratam em casa. Ao mesmo tempo fiquei espantada pelo súbito interesse.
- Ah … Guinevere.
- Não tens a certeza? Demoras-te tanto tempo!
- Não, é mesmo Guinevere.
Novo silêncio. Fiquei envergonhada, sentia-o a olhar para mim enquanto comia por isso baixei a cabeça e concentrei-me na minha sopa. Percebi que ele queria dizer mais alguma coisa mas eu não o olhava para não o encorajar. Por fim ele disse:
- Conheço um sítio aqui perto que acho que ias gostar de ver!
- Mas eu …
- Podemos ir logo que acabemos de comer.
A Antónia não ouviu esta proposta de certeza não ouvi nenhum movimento, nem grito. Mas porque me trata ele assim com tanta confiança? Tenho idade para ser sua irmã mais nova, nem me considero particularmente bonita para esta atenção. De qualquer forma os meus pais chegaram pouco depois e ele voltou ao seu estado mudo. No entanto ao fim do dia atreveu-se de novo e perguntou “Amanhã?”.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

O cavaleiro das trevas

Rafael. Era o nome da pessoa que me mandava um "olá" privado, no fórum. Poderei eu suspeitar de alguém que tem como imagem de apresentação um cavaleiro das trevas? Bom, quem sabe…Só saberia se respondesse e respondi:

“Guen - Olá, pessoa que desconheço por completo!"

"Rafael- Sim, de facto não me apresentei...Rafael, gentil cavaleiro ao seu dispor. =P"

"Guen - Oh! Não me digas. Ninguém diria...-.-"

"Rafael- És sempre assim?"

"Guen- Hum...sim...ouve lá! Tu nem me conheces e começas já a mandar bocas, é?"

"Rafael- Ena, ena! Alguém teve um dia mau hoje"

"Guen- -.-...tipo...what? Enfim, vou ver o que deixaste na área das publicações"

"Rafael- Espera! Não vás! Ainda não...Aliás, nem devia ter publicado aquilo."

"Guen - Então?...Agora não consigo abrir o ficheiro. Deves ter posto aquilo num formato qualquer que não o normal."

"Rafael- Não, simplesmente apaguei".

Naquele momento quase que caí da cadeira a baixo. Um homem vindo não sei de onde publica uma coisa qualquer no meu site, fala comigo como se me conhecesse há anos e arma-se em parvo. Normal, hoje em dia. Ai...Sempre pensei que não pertencia a este tempo. Sempre! Desde miúda que me lembro de sonhar com cavaleiros e princesas, cavalos e armaduras, história épicas, castelos magníficos, lagos espectaculares, a natureza no seu estado...natural! Antigamente os relacionamentos entre homens e mulheres não eram assim, meu Deus. Era tudo tão civilizado, tudo tão mais misterioso, tudo tão mais estudado, tão mais romântico-trágico. Gostava de viver no tempo em que os homens lutavam pelas mulheres, que se matavam pelo seu amor, faziam duelos! Lutavam com espadas! Enfrentavam chuva, frio, terríveis tempestades, mostravam a sua valentia!! Agora? Aparece um gajo qualquer que começa a falar na net, as pessoas conhecem-se, saem, blá blá blá, sim, sim, és muito querido, e pronto. Ficam juntos. E quando a minha mãe me diz: "Então, Lena? Quando é que nos apresentas um namorado?" eu tenho sempre de responder: "Quando ele me salvar de um dragão cuspidor de fogo ou atravessar o Atlântico a nado só para me ver, lutando contra piratas. Ou então quando vier de uma longa jornada, a cavalo, claro, e me vier buscar ao meu T2, e me levar para um castelo". "Lena...", diz a mãe com um ar enfadonho, "...já conheces o Bernardo? É filho do Zé Teotónio, que mora duas casa acima da do teu padrinho". A maior parte das vezes não me interessa. O último rapazinho da aldeia da minha mãe, perto de Tomar, com quem namorei era muito querido, sim senhora, mas não dava uma para a caixa. Ainda para mais, no fim da nossa relação, que durou um mês e picos, tive de ouvir os pais dele, porque virei de tal maneira a cabeça ao rapaz que em vez de seguir Advocacia, para ser Sr. Doutor, como os pais queriam, foi para Arqueologia. "Você enfeitiçou o meu rapaz!!", disse a mãe do moço. "Eu? Oh, minha senhora, tenha paciência! O rapaz já tem o dom natural para a coisa". Mentira. O rapaz não tinha dom nenhum. O que aconteceu foi que eu passava o tempo em que estava com ele a contar histórias e mais histórias e, como ainda éramos adolescentes e tínhamos tempo para essas coisas, fazia-o procurar peças arqueológicas, coisas velhas, pedras e pedregulhos, que encontrávamos no chão, perdidas na mata. Ainda hoje tenho um pedaço de ferro, martelado, uma argola, que ele encontrou perdida perto do Convento de Cristo, e um bilhetinho:" Para a doce Lena do cavaleiro Hermínio."Um nome e pêras para um cavaleiro, hã? Coisa magnifica os tempos da juventude. Mas mais magníficos os tempos antigos...Hoje é tudo "descartável", rápido, fácil e simples. Trocando por miúdos: sem gracinha nenhuma.

"Guen- Apagaste? Nem cheguei a ver o que era."

"Rafael- Melhor assim. Precipitei-me. Nem te conheço"

"Guen- Nem me podes dizer o que era?"- Dão o chupa-chupa à criança e depois tiram-no no momento seguinte. Odeio isso. Não estávamos a começar bem.

"Rafael- Ah, nada de importante...Deixa lá isso."

"Guen- Diz lá! Alguma coisa que tenha a ver com os templários?...Só pode...Vá lá! Diz-me! =D"

"Rafael- Não, foi um erro. Esquece. Um dia conto-te =P"

Hum. Aquele cavaleiro estava realmente a armar-se em chico-esperto. Eram quase três da manhã e eu na treta com um desconhecido.

"Guen- Um dia...Está bem. E já agora! És a favor do jantar medieval na Quinta da Regaleira?

"Rafael- Totalmente!"

"Guen- Boa =)"

"Rafael- Mas nada de Macdonalds XD"

A partir daqui foi até às cinco da manhã a falar de comida. Fiquei a saber que gosta de mais de carne do que de peixe. Que é a favor dos assados e que não é apreciador dos cozidos. Que gosta mais de doce do que fruta. Que a mousse de chocolate e as barrigas de freira são as suas predições e que a lojinha típica das queijadas de Sintra era perto da casa dele. Morava, então, em Sintra. Quem me dera! Cinco da manhã a coisa ainda rendia:

"Guen- Olha, sabes, são cinco da manhã..."

"Rafael- Quatro e cinquenta e oito, para ser mais exacto, lady Guinevere".

"Guen- Seja. Tenho de ir dormir. Amanhã posso acordar tarde, sim, mas não exageremos."

"Rafael- Não tenho pressa nenhuma..."

"Guen- Boas noites, cavaleiro das trevas"

"Rafael- Das trevas? Sou um guerreiro da luz!"

"Guen- Só disse isso por causa da imagem"

"Rafael- Lol a imagem não tem nada a ver. É só de um jogo de computador"

"Guen- Muito bem. Então até...?"

"Rafael- Amanhã. =)"

"Guen- Adeus =)"

Log-off.