domingo, 27 de fevereiro de 2011

Primeiro ponto de análise: O Mapa

- Boas noites!
- Diz-se boa noite. Penso que te referes apenas a esta noite e não a mais...
- Ora aí é que te enganas! Sabes lá tu das minhas intenções!- Paralisei, com um estúpido pacote de leite de marca branca na mão, à porta da minha casa, enquanto o Rafael entrava pelo hall a dentro deitando para fora da sua boca tais palavras. Fechei a porta e com os olhos bem abertos olhei para ele, sem dizer uma palavra - sim - continuou o cavaleiro - intenções...sabemos lá nós quanto tempo vamos ter para analisar o malvado artigo mistério do Jaques Moley? Poderá durar noites! - ai esta minha mente...sim, agora percebo.
- Ah, sim, claro.E...que é isto?- perguntei agitando no ar o pacote de leite.
- Isso é leitinho- respondeu ele.
- Jura...
- Juro! Diz ai "leite UHT, meio gordo".
- Sim, já vi, mas é para quê?
- Então, não ia ser nada cortez da minha parte aparecer em tua casa de mãos a abanar.
- Mas é um jantar, Rafael- disse, desviando-me do meu convidado e entrando na minha cozinha.
- E então? Leitinho quentinho, na ceia, com bolachinhas, não é agradável?- Disse o gosão, encostado à ombreira da porta da cozinha, enquanto eu guardava o leite no frigorífico.
- É optimo, sim, mas acredito mais na hipotese de não teres mais nada em casa para trazeres - concluí.
- Ora e o que temos para a janta- continuou, sem responder- hummm cheira mesmo bem! Adorei a ideia de fazeres o jantar da Ordem aqui em tua casa. Assim posso vir as vezes que quiser ao frigorífico- depois disto levou um safanão no braço, tão típico...
- Deves te achar o dono da casa!- disse eu, retirando um rolo de carne, recheado com ovo e legumes, do forno.
- Epá, mas que coisinha mais apetitosa!
- Eu?
- Não, Lady Guen, referia-me ao rolo...- Adoro estas situações - e vem a cavalaria toda?
- Achas? Claro que não! Nem cabiam todos aqui em casa. Vêm só alguns. O António, a Lídia, o David, o Miguel,o Gil (Gualdim), eu e tu.
- Sete. Somos sete.
- Sim, sete - A partir das sete e meia começaram a chegar os convidados. Primeiro o Miguel, depois o David, o Gualdim e o António e, finalmente, a Lídia. O meu rolo de carne fez sucesso, assim como as batatas, o bom vinho trazido pelo David e uma mousse de chocolate divinal feita pela Lídia. Depois de tudo ter ficado bem jantado fomos ao que realmente interessava: o artigo do Jaques Moley: ""Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici, la cinquiéme". Sentados em volta da minha pequena mesa de centro, uns nos sofás outros em puffs, estendemos as várias páginas sobre a mesa e no centro o desenho do, suposto, mapa astral.
- Dizes tu que isto é um mapa astral?- perguntou o António ao Miguel.
- Sim, parece-me um- respondeu.
- Parece, não. É mesmo um- disse a Lídia. Taróloga e astróloga há alguns anos, sabia de que estava a falar - e é antiquíssimo - acrescentou, chegando mais perto. Todos tinham lido o artigo. Tinha tomado a liberdade de o enviar para os seis.
- E o que dizes sobre ele? - perguntou o Rafael.
- Não é de fácil leitura, tem imensos cruzamentos. Alturas em que a conjugação dos planetas não é das melhores.
- Uma pessoa que teve na vida muitos altos e baixos - disse o David.
- Pode se dizer que sim - respondeu ela- este cruzamento, esta influência destes dois planetas neste trânsito é muito interessante...- disse, seguindo com o dedo uma linha do mapa, inclinando-se na mesa.
- Como assim? Não percebo nada disso...e compreende que é difícil para mim - perguntou o Miguel- mas se te explicares melhor...
- Eu percebo, claro. Eu explico do início. Dêem-me um minuto...- Foi então que a Lídia colocou os óculos, puxou de um papel e de uma caneta e começou a falar sozinha e a rabiscar- Sol em Libra, Lua em Virgem...Ascendência, hum...Neptuno, peixes. Neptuno na casa 11, ok. Sol na casa 7, Lua casa 7, Saturno...hum...casa 11.
- E então?- disse eu.
- Isto leva o seu tempo - respondeu a Lídia, com a caneta no canto da boca.
O que salta à vista, logo à partida é o signo. É libra de ascendente em peixes e tem Neptuno na casa 11.
- Isso trocando por miúdos...
- Tendência a medionidade, clarividência. Misticismo num nível elevado, ocultismo, psicometria...por aí- respondeu a Lídia.
- E isso é? - perguntou o António.
-Basicamente é uma faculdade extra-sensorial, uma superintuição, se assim quiseres, ou uma capacidade mediúnica em perceber o conteúdo de algo...Como posso explicar? Vejamos, houve quem aplicasse essa capacidade em achados arqueólógicos ou casos policiais em que as pistas materiais são escassas. É uma forma de medionidade, no fundo.
- E esta pessoa era isso? - perguntou o Miguel, um pouco incrédulo.
- Não te posso dizer isso, não se consegue saber isso. Mas que tinha tendência para o ser isso é certo - E continuou: - é uma pessoa sensível, ligada a coisas sensíveis, a coisas belas, às artes, ao amor, às fortes amizades, sim, os trânsitos que aparecem dizem que as amizades são algo de muito importante. O Sol na casa onde está, na casa sete, refere-se à individualidade, que mais uma vez está associada a amizades, mas principalmente a questões amorosas. A Lua...hum...casa sete também. Bom, mostra insegurança, vários papeis, várias faces...Depois, Vénus na casa 8. Tudo indica que houve harmonia nos relacionamentos amorosos e sexuais.
- Epá! Sabes ver essas coisas??- disse logo o António, já enchendo o 3 copo de vinho- isso é agradável. Quanto é que levas por consulta?
- Isso não interessa agora!- ripostou logo o Miguel - Deixa-a continuar! Força, Lídia. Estás a ser muito clara.
- Obrigada, Miguel. Sim, de facto no amor esta pessoa não esteve mal, apesar de tudo indicar que as suas energias vitais e o seu prazer interior se revela pelo prazer espiritual e não material nem carnal. Depois a posição de Saturno é intrigante...teria de procurar mais coisas acerca disto, mas posso dizer que há aqui uma certa dose de ambição e justiça, muitas vezes excessiva. Depois a Lua em oposição ao ascendente denuncia, mais uma vez, a importância do subconsciente e de alguma insegurança. Depois há imensas outras coisas, outros trânsitos que deveriam ser bem estudados.
- Consegues ver se é homem ou mulher? - perguntou o David.
- É uma pergunta difícil, ainda mais para mim que não sou especialista na matéria de mapas. Mas eu arriscaria uma mulher.
- Faz algum sentido - disse- no artigo dão a intender da existência de uma mulher na Ordem. É uma lenda mas...Se é uma mulher só poderá ser aquela de que falam. Poderá esse ser o mapa astral dela?
- É uma hipótese- disse o Gualdim, o nosso "astrónomo", se assim podermos chama-lo, entrando de vez na conversa - se bem que nessa altura, e remonte-mo-nos para cerca de 1160, só alguém com algum dinheiro ou conhecimentos na área é que poderia ter algo deste género.
- Nem sabia que nessa época havia quem soubesse fazer tais coisas - disse o António.
- Pois, ao que parece - continuou o Gualdim- e como é sabido, as estrelas, os planetas, o espaço, sempre intrigaram o Homem.
- Estamos a falar de meados do século XII...- disse o Rafael.
- Claro e que tem?
- Pensava que só no Renascimento o homem despertou para esses assuntos.
- Sim, Rafael, é verdade. Mas se formos por aí...os egipcios já usavam as estrelas...
- Não esqueçamos a idade das trevas - interrompi eu.
- Claro que não- continuou - mas os sábios sempre existiram, os astrólogos, os mediuns.
- E há provas de medionidade nesta pessoa - acrescentou a Lídia - Isso é bem visível no mapa.
- Se tiver sido uma mulher poderá ter sido uma bruxa! Pode ter sido queimada na fogueira- disse o António, já com o quarto como meio cheio (ou meio vazio?).
- Não, António, isso é impossível - disse o Miguel, puxando dos seus conhecimentos - a inquisição medieval foi fundada em 1184, na França. Faltariam mais de vinte anos!
- E não podia ter sido queimada? - disse novamente.
- A questão que queremos desvendar não é essa. Essa poderá ser pertinente noutra altura - disse o David, o nosso arquitecto.
- O que me intriga é a data do mapa...- disse eu.
- O mapa é muito antigo, muito mesmo- disse a Lídia. Reparem no aspecto.
- Teríamos de encontrar o original.
- Isso é impossível, Gil - disse o Rafael para o Gualdim- nem sabemos como se chama o gajo que enviou este artigo, quanto mais onde procurar este mapa!
- Se falamos de 1160, então seria impossivel terem conhecimentos sobre o Sol, a Terra, a Lua...- continuou a Lídia - a teoria do heliocentrismo foi descoberta quando?...1630, 40? Remonta-nos a Galileu, por amor de Deus, como poderiam fazer tal coisas mais de quinhentos anos antes?
- Falaste em medionidade há pouco, querida Lídia - disse Miguel. Todos parámos. Estaria a começar a acreditar em tudo isto?
- Sim, falei...é uma hipótese.
- Medionidade, ocultismo, previsões, visões, transcendem o material, é algo metafísico, é algo ligado à evolução do espírito, ao conhecimento, a um novo plano.
- A um plano inteligivel, como dizia Platão - disse o Gualdim.
- Sim - acrescentei- um plano não material, completamente espiritual.
- Acham que a nossa mulher era assim? - perguntou o Rafael.
- Espiritual era, não há duvidas- disse a Lídia- Agora se foi ela que fez este mapa...
- Só Deus saberá - respondeu o Miguel.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Saint-Etiénne, França, 1159

As lágrimas cobriam os meu olhos como uma ténue cortina cristalina. Não fossem as lágrimas resultantes de tamanha dor, ninguém poderia acha-las feias enquanto brilham e caem à luz da vela que, com a sua instável presença, acolhia-nos a alma, os pensamentos, a tristeza. Despertava em mim o que de mais intimo sentia.
Repousava a cabeça ao colo de Rafael, agradecida pelo seu apoio e por me dar a conhecer o seu lado mais amigo, emocional, e verdadeiro. Da maneira como me sentia, podia ser qualquer um, precisava apenas de uma presença que não me fizesse sentir abandonada. Mas estava muito feliz de ser o Rafael quem ocupava esse lugar agora.
- sei que é difícil para ti, mas mais tarde ou mais cedodevemo-nos por a caminho. E sabes que quanto mais cedo melhor. – disse Rafael em jeito de suspiro. Não respondi. Sabia que tinha razão mas a verdade é que nem falar me apetecia, quanto mais mentalizar-me para partir.
Viri-me com o ventre para cima, de maneira a que as lágrimas não me fizessem cócegas no nariz enquanto caminhavam pela a minha face.
- Rafel? – Chamei. Mas ele não respondeu, a sua alma não se encontrava naquele quarto. Os seus olhos mostravam o sentimento de culpa que ainda sentia por não ter conseguido comprir a missão. Nunca tinha visto aqueles olhos verdes tão vazios.
A luz da vela começava a incomodar-me a vista. Resolvi fechala.
Momentos depois senti-e envolver por uma luz branca que me acalmou. Estou a sonhar. Pensei. Mas como poderia pensar em algo assim, sonhando? Esta duvida não permaneceu muito tempo na minha mente, pois apesar de fazer sentido, não era algo que me fosse preocupar no momento. Esta luz tinha afastado de mim toda a tristeza e estava grata por isso. Como uma imagem repentina, o interior da abadia apareceu à minha frente, desaparecendo logo em seguida. Tinha gostado mesmo muito daquele lugar. Daquelas imagens tão familiares e ainda assim tão misteriosas.
- eu sei que vos custa muito mais a vocês, mas nós também não nos sentimos bem com o que deixamos acontecer. – disse uma voz artrás de mim. Para me virei para tentar ver de quem se tratava, não consegui perceber ou destinguir os contornos, mas a sensação que tive foi a mesma da capela.
- Não nos podemos marterizar com isto, por muito cruel que seja, o importante não é uma pessoa só. O Pedro foi muito corajoso e fez o que tinha de fazer. Não tenham duvidas de que ele será recompensado por isso. – Disse outra voz masculina à minha esquerda.
Dei por mim como uma visitante numa reunião onde não era suposto estar; e a qual não conseguia compreender. Parecia um sonho cheio de paz e tranquilidade, onde os intervenientes se apresentavam com contornos humanos mas de tal forma iluminados que eram impreceptiveis. A frustração crescia em mim pelo facto de ter a certeza que conhecia aqueles pessoas, aquelas criaturas, pelo facto de estarem a falar de Pedro como se tivessem estado lá, no momento em que tudo aconteceu. Mas eu não consegui sabem quem estava ali.
- e quanto à Isabel? Quando vai acordar? – Era Miguel, era a voz dele, tinha a certeza, mas apresentava-se como os de mais. Eu não tinha voz ali, não conseguia falar, descubri isso mesmo quanto abri a boca para tentar chamar por ele.
- Não sei, esperava que fossem vocês a dizer-nos – Ouviu-se a primeira voz que falara anteriormente.
- Ainda va demorar – ecoava agora a voz de Rafael. – Nunca vi ninguém tão adormecido ou recalcado. Pelo menos nunca a tinha visto assim.
- Rafael! – chamava agora uma nova voz. – Trouxeste alguém a mais. – apesar de repreensivo, o timbre da sua voz era calmo e querido, como se chamasse a atenção gentilmente.
- Bom dia!! Isso é que é dormir! Obrigada....a minha caminha é boa não é??!
- Han? O quê? Onde estou??
- No meu quanrto, mais propriamente enterrada nas minhas almofadas. Até me fez dormir no chão com um mísero cobertor, que ainda fui a tempo de resgatar antes de caíres como um calhau a roncar!. – Disse Rafael enquanto eu me endireitava na cama, ainda ensonada.
- Ah...estava mesmo a dormir...E OS CALHAUS NÃO RONCAM!! – resmunguei eu.
- Credo, cara feia logo de manhã! Se eu acordasse a sssim e me visse ao espelho também ficava mal disposto o resto do dia!
- Xiu! Quem te dera seres assim uma pessoa linda e fofinha como eu!
Rafael, om um sorriso de gozão, disse:
- Deixa-te de aumentar o ego e vai lá abaixo que ouvi dizer que há leite quentinho.
Com o barulho da minha barriga nem deu para disfarçar a fome. E havia leitinho!! Não tinha comido nada no dia anterior. Nem tinha, sequer, conseguido pensar em comida ou fosse o que fosse.
Desci as escadas num ápice e quando cheguei lá a baixo encontrei uma mesa divinal, com o resto do grupo à volta da mesma. Para alegrar um pouco o meu coração, David foi ter comigo e depois de um abraço de pai disse-me que passaríamos mais dois dias no estabelecimento, Escalus, cortezia dos anfitriões depois de se terem deparado com o nosso estado.
- Hoje, em vez de cavalgar, vou passear!