Só havia uma coisa a fazer, e tinha apenas uma oportunidade por isso tudo tinha de correr como Vasco tinha planeado. Se tudo corresse bem ele não só puderia ser livre para voar, como também nunca mais precisaria de ser um zangão zangado. Mas para isso precisava de um cumplice. E teria de ser Quim Belha o seu melhor amigo.
Vasco acordou de manhã cedinho, zangado como de costume mas ao mesmo tempo entusiasmado com este dia tão importante. A Mamã ainda não abriu a pestana por isso está na hora de sair de mansinho para não a alertar. Um pequeno bilhete a dizer "Mamã, tive de sair mais cedo para entregar o projecto de ciências. Beijinhos do teu zangado" será suficiente para que não desconfie de nada.
Voei porta fora o mais depressa possivel para apanhar o Quim antes que ele entre no autocarro. Por pouco quase não me cruzava com ele. Rapidamente lhe expliquei o meu plano:
- Quim só tens de mentir um bocadinho hoje. Sempre que alguém te perguntar por mim dizes que fui a casa-de-banho, que estou no bar da escola, que estou no ginásio ... o que for preciso para ninguém ir avisar a minha mamã até às 17 horas que eu não fui à escola.
- M-mas V-V-Vasco e-eu não sei m-mentir! Fico n-nervoso, começo a suar e os meus óculos escorregam-me da cara.
- Quim por favor! Só preciso deste dia para ser livre e nunca mais ter de voltar ao Paraíso do Mel. - insistiu Vasco
- E o que ganho eu com isso?
- Eu pago-te em mel! Tudo o que arranjar é para ti...
- Convencido! Conta comigo Vasco!
E o Quim Belha cumpriu a sua palavra e apesar de ninguém ter visto Vasco o dia todo, ninguém deu pela sua falta. É o problema das abelhas, existem demasiadas para que se dê por falta de uma. Tirando a rainha claro! A coitada um dia teve de ir à casa-de-banho, e nesses 5 minutos em que ela não esteve no trono já os guardas zangões andavam loucos à sua procura. Mas Vasco era apenas um zangãozinho pequenino que queria ser borboleta.
E assim enquanto a Mamã pensava que o seu pequeno estava a aprender tudo sobre mel e abelhas e abelhas e mel ... Vasco já estava a voar para bem longe.
Assim que chegou ao exterior, Vasco sentiu um grande alivío. Sentiu o vento e o calor do sol, voou por entre os ramos das árvores, tocou a água do mar, sentiu o perfume das flores ... Vasco nunca tinha sido tão feliz! Sentindo-se cansado, resolveu parar um pouco num jardim próximo. Escondeu-se numa flor, longe dos olhares humanos, que ouvira dizer que não gostavam nada de zangões e seus parentes próximos. Qual foi o seu espanto quando reparou que uma borboleta estava a voar de flor em flor. Nunca tinha visto uma borboleta ao vivo, só as ilustrações dos livros de ciências na escola de abelhas. Era ainda mais bonita do que imaginava, as suas asas coloridas, as antenas perfeitamente enroladas ... que inveja!
A borboleta aproximou-se da flor onde estava o Vasco e cumprimentou-o:
- Bom dia zangão!
- Bom dia! - sussurrou o Vasco envergonhado e vermelho até ás antenas.
- Nunca tinha visto um zangão tão pequenino por aqui.
- É que eu ... eu ... vim a uma visita de estudo s-sobre borboletas!
- Sobre borboletas?
- Sim! Quer dizer para ver as borboletas no seu dia-a-dia.
- Então acho que te posso ajudar!
A borboleta Rita levou o Vasco a conhecer melhor o parque, conheceu outras borboletas, conversou com elas e não se sentia tão zangado. Começou a pensar que talvez devesse deixar de vez a colmeia e viver a vida de uma borboleta. Quando contou o seu plano à Rita, e ela não conseguiu segurar o riso:
- Ahahah! Nunca tinho ouvido essa!
- Mas porquê?
- A vida de borboleta é a mais aborrecida de todas! Não fazemos grande coisa, pairamos de um lado para o outro, dia após dias, sempre a mesma coisa. Não reparas-te que andamos sempre com ar aborrecido?
- Pareceu-me tudo tão bonito, as vossas asas ...
- Asas? Tu nem sabes as dores de costas que eu tenho por causa delas! Quem me dera ser como tu, ter asas pequeninas, estar sempre a provar aquele mel maravilhoso ...
Vasco sentiu-se tão desiludido que se despediu da borboleta Rita e regressou de imediato a casa. Pelo caminho chegou à conclusão que só podia ser aquilo que era e não podia fingir ser outra coisa. Decidiu parar de queixar-se e ser um zangão mais feliz e menos zangado.
Chegou a casa à hora certa e a mãe nem percebeu a diferença, só o sorriso o denunciou no dia seguinte.
FIM

