segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Seja feita a minha vontade

Isto é que é vida! Se soubesse que ía ter estas comodidades fora de Santa Terrinha, tinha deixado o Leucárdio à muito mais tempo! Apesar de serem tendas não são menos luxuosas que qualquer corte europeia. E a principal vantagem é que posso estar com o meu espanholito e com O Leucárdio e a outra senhora longe da vista.
A verdade é que estou um pouco preocupada com a minha situação, ela pode mudar subitamente. O ataque está para breve e se for mal sucedido eu estou em maus lençóis. O Raúl tem-se se mostrado carinhoso mas distante, e Javier olha para mim como uma ferramenta para atingir os objectivos. Tenho de fazer pela vida e fazer valer o meu estatuto de condessa, sim porque não pense divorciar-me do Leucárdio e perder os meus direitos! E duvido que consiga a permissão do Papa para tal.
Passei o dia na tenda rodeada das aias que me acompanharam. Enquanto tentava organizar os pensamentos elas não se calavam, preocupadas em decidir quem era a dama que conquistaria o coração do comandante Luiz Alvarez chegado recentemente de Castela a pedido do Conde Javier.
Umas gabavam-lhe os olhos, outras o corpo musculado e o sorriso sedutor. Mas esse comandante não chega aos pés do meu Raúl. Ai que saudades que tenho daquele señor! Saiu de manhã tão cedo e ainda não voltou, nem o conde que o acompanhava.
Foi-me trazida a refeição aos meus aposentos e como não havia sinais dos dois mandei as aias retirarem-se, mas eu fiquei a pé. Coloquei um manto sobre os ombros para me proteger do frio e andei de um lado para o outro, a tentar ouvir o que se passava lá fora a rezar para que nada de mal tivesse acontecido. Nisto oiço vozes a aproximarem-se. Reconheci imediatamente a voz de Raúl e em seguida a do conde. Nisto junta-se uma terceira voz que também não me é estranha mas ... não pode ser ... Odete! Perdi a cabeça e fiz uns escândalo dos antigos sem me preocupar quem estivesse para o ouvir.
- Que significa isto? Esta traidora não fica debaixo do mesmo tecto que eu!
- Acalma-te Isabel que isto é mais complicado do que pensas.
- Acredita mesmo nisso. Bem sei que o senhor conde anda de queixo caído pela donzela. Aliás os dois condes! A rapariga tem jeito para deixar a nobreza de joelhos ...
- Veja lá como fala!
- E o senhor quem pensa que é para se dirigir a mim dessa maneira!
- Acalma-te Javier! Dona Isabel precisa de digerir a novidade.
- Deixa querido Raúl. Acredita que a notícia está bem digerida, até porque nenhum dos ditos senhores me diz já respeito. E até me faz falta uma dama de categoria para me acompanhar nas cerimónias e ...
- Desculpe Dona Isabel mas creio que há um equivoco. - interrompe o Conde Javier.
- Como?
- Deixa-me explicar-lhe Javier, ela não ... - intervém Raúl.
- Aurora é agora minha companheira e brevemente minha esposa! E visto que a senhora não está mais casada com o senhor conde, Aurora estará numa posição superior à sua e você é que se encarregará de a acompanhar para todo lado, servi-la modestamente ...
- NUNCA! Raúl faz alguma coisa! E para sua informação continuo CASADA! E tratando-me nestes modos arrisca-se a que eu não cumpra o nosso acordo e ...
- E ...
- ... e abandone o acampamento e ... conte tudo ao senhor meu marido! Os planos ... tudo!
- Penso que Leucárdio não a quer ver nem pintada minha querida. Agora acalme-se sim? Esse comportamento é mais de uma mulher do campo do que uma senhora.
E o Raúl nada disse. Aquele infeliz não me defende depois de todas as calúnios que ouvi e o desrespeito que é aquela mulher estar na minha presença. Eles que nem sonhem que eu me vou ajoelhar a seus pés! Aquela camponesa mal nascida ficou ali especada, de olhos no chão, mas pálida que de costume e não disse uma palavra. Não sei como é que a sonsa os vai ajudar na conquista. Trata-se de um capricho, mais lenha para a fogueira com o Leucárdio. Mas eu vou-lhes fazer a vida num inferno! Ela não vai ficar a ganhar, nem que eu tenha de voltar para o Leucárdio e acabar com esta fantochada. Seja feita a minha vontade ... ou a de ninguém!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Gritos

Logo de manhã, nem o sol tinha nascido, uma gritaria daquelas...
- Eu não saio daqui! Esta casa é tanto minha como tua, aliás, muito mais minha! Deixa o paizinho saber disto.
- Estou-me a lixar para ti e para o teu paizinho! Nunca mais te quero ver, Isabel! Muito simpático fui eu em te ter deixado ficar aqui esta noite! Senão tinhas ido atrás daquele rato pelado pela janela fora...Pena, pena, não lhe ter visto o rosto, aquele estupor...Enganaste-me, Isabel!
- Ah...Leucárdio, por amor de santa Teresa...Pensas que eu não sei das tuas escapadelas, andas aí a levantar as saias às meninas, às senhoras e às idosas!
- Blasfémia!
- Qual quê!? Eu sei bem o que digo! E a última foi essa aí...ingrata, fingida, falsa e oferecida!- O conde e a condessa discutiam no meio da sala, enquanto a Aurora e o Frederico assistiam a tudo, impedindo que os dois partissem para a pancada. Acabou por sobrar para a enfezadinha da Aurora, que pode ser enfezada mas tem os estudos todos de malandragem! É o que eu digo...são as piores. Eu desci as escadas de serviço e fiquei a ouvir e a ver, discretamente, toda aquela trama.
- Senhora Isabel...Eu nunca...
- Aurora, não diga nada...-disse o conde, calando a branquela- Já chega, Isabel- disse ele, com um ar mais sereno, com a cara mais fechada, sem gritar ou esbracejar- Vais ter com o teu pai, com o teu irmão com o raio que te parta, mas sai desta casa agora. Senão, todos os da Terrinha vão saber o que a mulher do conde é...
- Estás-me a chamar de p...
- Nunca o disse, as palvras saíram da tua boca, mulher. Deus seja louvado por me ter posto à frente dos olhos aquilo que me andavas a fazer. Hoje mesmo escreverei uma carta ao Santissimo Papa, e ele vai avaliar o nosso caso e vai nos dar, com toda a fé, a separação oficial e religiosa do nosso matrimónio.
- Como homem de Deus, que dizes que és, como homem de principios, religioso e tudo mais vais quebrar o que Deus uniu!- Disse ela, pegando numa pequena mala, já determinada a abandonar a casa.
- Não metas Deus nisto! É pecado até tu proferires o nome Dele.- Esta foi a deixa para a madame se por a andar. Seguida de mais umas quantas aias, menos a Aurora, claro, ia a sair porta fora- Isabel!- Disse o conde- Não estás a pensar sair pela porta da frente, pois não?...- Ela olhou para todos, um por um. Deu meia volta e, seguida pelo seu pequeno exército de aias, passou por mim, dando-me um ligeiro empurrão, e lá foi ela, pela porta dos fundos, pela calada do nascer do dia.
- Olha por onde andas!- disse-lhe eu.
- Rita, por favor, não diga essas coisas dessa maneira...-disse o conde- chegue aqui- Eu cheguei- Oiça- disse ele, colocando a mão dele sobre o meu ombro, algo demasiado intimo entre o patrão e a criada, mas que não desgostei, confesso- A menina não pode ser assim ão rude. É tão bonita, tem boa cabeça...De hoje em diante vai ter aulas com a menina Aurora.
- AULAS?- disse-mos as duas.
- Sim, isso mesmo: aulas. Aulas de comportamento, postura, delicadeza, etiqueta, tudo o que uma menina deve saber.
- Mas para quê, senhor conde? Eu sou mesmo assim bruta e olho que não desgosto, tenho conseguido muita coisa na vida com esta brutidade.
- Como o quê?- disse o Frederico, metendo-se ao barulho.
- Homens- disse eu- mas homens de bem!-Todos me olharam. Enfim, ficou combinado que a partir dali teria aulas todos os finais de tarde com a enfezada. Nesse mesmo final de tarde começámos. A Aurora estava-me a explicar o modo de me sentar. Como uma donzela se deveria sentar. Eu, que me sentava sempre de perna aberta, de modo a não ter calor, e de modo a que as saias não me atrapalhacem as pernas, agora tenho de me sentar toda direitinha, perninhas juntas, enfim, tudo isto acabou quando alguém chega à casa do conde. Mais gritos se ouviram, coisas que se partiam...definitivamente, aquele dia era o dia das gritarias. Eu e a Aurora descemos as escadas a correr. Claro que cheguei primeiro, ela parece que anda com medo de pisar o chão, é uma irritação que me dá aquela mulher...Enfim, ambas parámos no final das escadas. O espanhol, sim, ele mesmo, estava na sala do conde e o conde, esse, estava mais vermelho que um tomate.
- Saaaai!!- dizia o conde- Como entraste aqui em Santa Terrinha? Como?
- Achas que te vou dizer, meu estupor?
- Chega! Sai da minha casa.
- Eu saio, eu saio...-dizia o conde espanhol de mãos no ar- Só te queria dizer uma coisa: a tua queria mulher está do nosso lado.
- Mas que...
- Mas que nada! Agora ela é nossa.
- Isto parece um jogo idiota, sem escrúpulos. Aquela...rameira!
- É...um bocadinho, sim...Era só para te dizer isto!
- Guardas!!- O conde, ao dizer isto, instalou o caus! Os guardas entraram e...não, não apanharam o espanhol! Naquele momento parecia que algo estava a pegar fogo naquela sala, parecia...magia!Fumo, fumo, fumo por todo o lado! Só podia ser obra do diabo, pensei.
- Guardas! cof...cof...Guardas! Prendam esse espanhol!- dizia o conde. Mas...no final da fumarada, estavam os guardas a prenderem-se uns aos outros. O Frederico estava ao lado do conde, que estava a tossir como tudo. Só eu permanecia no mesmo sítio. Nunca temi tanto a morte...nunca tinha visto nada assim! Obra do demónio! Fumo e...
- Onde está a Aurora?- perguntou o Frederico- O conde, com isto, parecia que tinha fogo no rabo! Correu escada acima, abriu as portas de todos os quartos. Correu escada abaixo foi a cozinha, onde a Caetana rezava agarrada ao St. António, e voltou para a sala praticamente sem folego.
- Aquele cabrão...levou-me a Aurora...- Olha que porra! Pensei. Nem uma aula de etiqueta tive e já fiquei sem professora.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Viver em Pecado

Será pecado pensar que o pecado que cometi me soube bem? Será que por ter sabido bem, logo é uma coisa boa, deixa de ser pecado? Não posso esclarecer estas minhas dúvidas com o padre Damião, a Isabel ficaria logo a saber ... diga-me o que fazer? Por favor meu Deus! Eu sabia que aquela rapariga ainda me ía desviar do meu caminho, nunca a devíamos ter trazido! E se alguém sabe? Se alguém viu? A porta estava aberta, pode muito bem ter passado alguém naquele instante e testemunhado o meu, nosso, pecado.
Passei o resto do dia calado e pensativo. Ao jantar Isabel não se calou e percebi que ela desconfiava de alguma coisa, pois olhava para mim com olhos de quem me ia moer a cabeça o resto da noite. Desviei o olhar e concentrei-me na comida e em não olhar para a Aurora. A pobrezinha parecia estar desiludida por eu não lhe dirigir palavra, mas que quer ela? Sou um homem casado, um nobre respeitado que não se pode dar ao luxo de ter problemas com o sogro devido a infidelidades. Apesar de já ter saltado várias vezes a cerca, foram pequenos pulos, pulos sem sentimento, apenas pulos que seriam esquecidos no dia seguinte. Mas nem as mulheres eram as mais honradas nem tão próximas de Isabel. Nem pretendo arruinar a reputação de Aurora que é um anjo, uma santa intocável! É por isso que a consciência me pesa tanto.
- Leucárdio está tão calado? Não me diga que os espanhóis andam a ganhar terreno? - pergunta Isabel sarcásticamente.
- Não é nada, só não estou para conversas. E tu falas o suficiente pelos dois!
Calou-se. Ofende-se facilmente, não passa de uma menina mimada a quem o pai fez todas as vontades desde que veio ao mundo. Não conhece humildade ou cortesia. Ai se pudesse voltar a trás. Tentei evitá-la o mais possível, aquela mulher parece que tem o poder de ler as mentes dos homens! Vou esperar que ela adormeça e só depois subo para os aposentos.
Fiquei a beber uma taça de vinho com o Frederico. Falámos de batalhas e conquistas, de espanhóis e mulheres. Dei por mim a pensar que as minhas confidências ao escudeiro ainda me iam trazer problemas. Mas ele é bom rapaz e dá pouco à inteligência por isso decidi não me preocupar.
- Que achas da Aurora? - perguntei-lhe por fim.
- É boa rapariga senhor conde, daquelas das histórias! Virtuosa e bela, inocente e ... está bem senhor conde?
- Foi só um engasgo! Dizias ...
- É daquelas donzelas que todos os cavaleiros sonham casar. Se ao menos ela ...
Nisto entra a Rita pela sala dentro com as suas habituais risadas, que aquela não gosta de passar despercebida.
- Ai senhor conde, não me diga que a pobre da condessa ainda está sozinha naquela cama tão grande! Se o senhor não se despachar alguém ainda toma o seu lugar!
- Mas que insulência é esta? Que falta de respeito, pensas que falas com quem???
- Calma senhor Leucárdio que ela não sabe o que diz! - responde Frederico prontamente levando a rapariga pelo braço.
Era o que faltava, agora tenho criadas a comentar a minha vida privada pelos corredores. Tenho de ser mais severo!
Decidi que era altura de subir pois já passava da meia-noite. Ainda pensei espreitar o quarto de Aurora, ver se já dormia, mas logo afastei esses pensamentos e corri para o meu quarto. Quando me aproximei da porta ouvi um reboliço. Abri a porta de rompante e deparei-me com Isabel caída no chão, nua e enrolada nos lençóis.
- Que se passa aqui? Que barulho foi este??
- Leucárdio eu ... caí! É isso! Adormeci à tua espera e ... comecei a ... sonhar e olha tive um pesadelo!
- Que pesadelo?
- Ahhh ... estava a cair de um penhasco e ... era isso!
- Que sonho ridículo, arranja-te mulher que parecas uma rameira de esquina.
- Hijo de ...
- Que foi isto?
- Isto? Isto quê Leucárdio?
- Não ouvis-te ...
- Ouvi o quê? Estás a ouvir coisas agora? Estás a ficar maluco como o teu pai?
- Não metas o paizinho nesta história! Queres começar?
- Começar o quê? Tu não começas nada, pelo menos comigo ...
- Que estás a insinuar?
- Olha deixa-me em paz e vai dormir ao lado das tuas mulherzinhas de rua!
Fiquei cego pela fúria! Fora de mim, perdi o controlo do meu corpo ... peguei-lhe pelo braço e levantei-a como se fosse uma pena! Abanei-a e gritei-lhe tudo o que sempre quis dizer. Depois fui-me embora deixando ali caída, enrolada, chorosa e com um ...
- Quem é você? Que faz aqui?
Um homem saiu de debaixo da cama e correu para a janela. Agora sim está tudo acabado, pelo menos fisicamente, não lhe devo nada a ela e ela a mim. Agora somos finalmente um casamento de conveniência, uma fachada. Então agora estou livre para amar quem quiser sem o esconder. E quanto ao homem, pouco me importa a sua identidade, até porque Dona Isabel vai deixar Santa Terrinha amanhã mesmo ao amanhecer.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Soube bem

- Frederico!
- Menina Aurora, como está? Sente-se melhor?
- Sim, obrigada. Na verdade, depois de ter falado com o padre fiquei muito melhor...Mas- disse eu, pegando-lhe no braço e puxando-o para um canto da sala mais recatado- Mas, diga-me, já sabe mais daquele assunto?
- ...da condessa e do espanhol?
- Falai baixo. As paredes têm ouvidos.
- Não sei de mais nada, e a Aurora?
- Sei que no outro dia a minha senhora recebeu um bilhete. Eu vinha dos meus passeios pelo pomar quando um garoto me apanhou na rua e me deu um bilhete destinado à condessa.
- E o que dizia? O que dizia?
- Não li...
- Oh...
- Não tive coragem. Sou leal à senhora, muito leal! Mas não tinha o selo espanhol.
- Isso também daria muito nas vistas. Aurora, tem de conseguir apanhar esse bilhete.
- Eu? Mas como?
- Não tem maldade nenhuma nesse corpo Aurora, vê-se de longe- e olhou para mim como nunca tinha olhado. Afastei-me- Bom, digo que tem de ir bisbilhotar no quarto da senhora.
- Isso é pecado...
- E o que não é pecado? Estarmos aqui os dois já é um pecado, menina Aurora.
- Que dizeis?
- Nada, nada...esqueça as minhas palavras. Aproveite: vá lá a cima. A senhora saiu faz pouco tempo, saiu com o conde, não deve voltar tão cedo.
- Tenho medo...e se alguém aparece?- Naquele instante fomos interrompidos.
- Frederico!- Disse a Rita, espreitando, nada discreta, para nós- Interrompo alguma coisa? Precisava de ajuda de homem forte e robusto para me abrir o barril do vinho do senhor.
- Sim, claro! Vou já!- e depois disse baixinho- Aproveite agora- e lá foi ele. A Rita atracou-se logo a ele, dando-lhe o braço. Afastavam-se em dircção à cozinha, mas ainda ouvi algumas palavras dela:
- Andais enrabixado pela branquinha?
- Tonterias suas, Rita...Pois se só os seus olhos me encantam...
- Ah, bom!- E lá foram. E eu, lá fui em busca do bilhete perdido. Entrei no quarto e fui direita às gavetas da condessa. Remexi nas coisas, no armário dos vestidos. Pensei: só pode estar no guarda joias e preparava-me para lá ir quando...
- Aurora?
- Senhor conde- disse eu, fazendo uma vénia, ao ver o conde entrar pelo quarto a dentro. Mais dois segundos e apanhava-me com as joias da condessa na mão.
- Que fazes aqui?- disse ele, desconfiado.
- Eu...perdi um fio de prata que era da minha mãe, estou muito abalada...Penso que poderá estar aqui. Esta manhã, enquanto vestia a senhora, devo o ter perdido- Ele olhou para uma gaveta entreaberta e eu acrescentei- E enquanto guardava os seus pertences também.
- Que pena, Aurora.
- E o senhor conde, o que faz aqui? Não deveria ter saído com a senhora?
- Sim, sim mas esqueci-me de uma coisa muito importante, o meu anel de família! Tirei-o para o banho mensal e esqueci-me. Já viu? Malditos banhos...
- Compreendo- disse eu, esboçando um sorrizinho. Ele abriu o guarda joias dele e retirou o anel, depois, chegou mais perto de mim.
- E o seu fio?-disse ele, tão terno...
- Pois- disse, baixando os olhos- deve andar por aqui.
- Já tentou ver debaixo da cama? Dos móveis?
-Sim, já vi e nada...Ah! Deve estar no pomar- entretanto o conde aproximava-se ainda mais. Com esta do pomar, escapei-me até à porta, ou quase até lá.
- Espere!- disse ele agarrando-me no braço. Olhei para ele, sem fixar demasiado o olhar. Que homem...como é que a condessa o pode trair com um espanhol? A minha vontade era gritar "a sua mulher engana-o com o espanhol, trai-o! Será que não percebe que ela é uma víbora e que eu sim, eu, gosto verdadeiramente de si?", mas não fiz nada disto.
- Senhor conde, por favor...eu...
- Aurora...
- Senhor conde, escute: sei o que sente por mim, eu também o...bom...não podemos viver essa paixão, não pode ser! Eu ouvi o que me disse quando estava desmaiada, eu ouvi! E também lhe digo que o que sinto por si ultrapassa em muito a admiração que uma criada deve ter pelo seu senhor mas...o seu casamento...
- Sim- disse ele, espantado, sem me largar o braço- Fico feliz por saber isso tudo mas só lhe queria dizer que tem o fio de prata enrolado no seu pulso...- Não queria acreditar, o que eu fui dizer! Bom, mas como já estava dito aproveitei: beijei o conde com toda o amor! Depois arrependi-me para o resto da vida e desatei a correr até ao meu quarto, onde me tranquei o dia inteiro. Mas soube bem.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

La Tierra Santa



- Esteban?
-Uhuh.
- Oh Esteban meu querido!
- Está a falar sózinha tia?
- Claro que no! Hablo que Esteban!
- Ah com o passarito! Já agora posso fazer-lhe uma festinha?
- Sí, mas com cuidado Javier!
- Já está!
- Que? Tu arranscas-te uma pena ao Esteban?? Vai Esteban, pica-o, pica!
E meu querido Esteban lá foi bicando Javier na cabeça, nos braços, nos olhos ... ai que obediente! É a minha única companhia nesta tenda de gente doida. Hoje está tudo numa azáfama, parece que o Javier anda a planear novo ataque a Santa Terrinha. Ele procura-me sempre para dar a minha opinião e quando não o faz eu dou-lha de bom grado. Eu tenho mais experiência de vida e ainda por cima sou a única mulher que por aqui anda e um toque feminino nestas coisas faz sempre a diferença!
- Temos de atacar o mais depressa possível! - grita Javier - Eles estão numa posição cada vais mais forte, estão a reunir tropas e nós aqui plantados sem agir ... não, tem de ser ahora!
Todos pareceram concordar, mas eu como sempre resolvi intervir:
- Caros amigos, penso que a decisão mais sensata será arranjar um bom aliado em Santa Terrinha, alguém perto do conde, que nos ajude a perceber os seus planos, os meios que dispõem ...
- Querida Tia não acha que devia descansar? Tem um ar cansado e ...
- Não Javier ela tem razão. - interrompe Raúl - Estamos às cegas, não podemos atacar sem saber o que nos espera!
- Talvez tenham razão. Mas quem irá confiar em nós?
- Bem posso garantir-te que tenho contactado com alguém bem próximo de Leucárdio.
- O quê? E só agora mo dizer seu idiota? Quem é?
- D.Isabel.
- A esposa?
Parece que o desmiolado do Raúl anda de volta da condessa. Talvez tenha sido a única das suas acções que se aproveita. Imediatamente concordámos que a relação deveria ser mantida, mas de qualquer forma precisávamos de alguém mais insignificante, que não desse nas vistas ...
- Meu senhor Javier! Tem alguém que deseja falar consigo! - informou um dos guardas.
- Quem é que se anuncia? - pergunta Javier.
- Ele diz que é Zé o barbeiro.
- Zé o barbeiro? E por que estaria eu interessado em falar com esse señor?
- Diz que vem de Santa Terrinha! - responde o guarda.
- Que entre! Que entre! - pedi sem demoras.
- Mas ... tia?
- Confia em mim Javier!
- Atã boas tardes!
- Diga já o que quer!
- Calma Javier! Olha o modo como falas com este belo cavalheiro ... diga-nos Zé, posso tratá-lo assim?
- Oh minha senhora trata-me como preferir. - respondeu o barbeiro com ar superior.
- Então que deseja de nostros hermanos?
- Eu vinha fazer-vos uma proposta. Em troca dos meus talentos ao nível de estética queria pedir-vos que deixassem as nossas colheitas e ...
- E comemos o quê ó campónio? - retorquiu Raúl.
- Pode-se fazer um acordo.
- Claro Zé, não ligues ao que dizem estes imbecis. Nós estamos dispostos a cumprir a nossa parte do acordo se fizer um trabalhinho.
E pronto o homem lá se convenceu. Umas moedinhas de ouro ajudaram a engolir melhor a ideia de trair o seu país. Claro que temos de andar de olho nele, não se pode ter uma fé desmesurada nas pessoas que acabam por revelar-se gananciosas e falsas. Mas talvez os portugueses sejam diferentes, os que conheci não passavam de idiotas esfomeados e cobardes. O Zé deve ser apenas mais um. A vantagem é que se trata de um homem que passa despercebido, pelo que nos disse é quesa invisivel em Santa Terrinha e visita regularmente o castelo do conde, por isso tem acesso e a confiança do Leucárdio. Javier precisa de ser rápido na sua manobra para não estragar o efeito surpresa, mas logo Santa Terrinha será La Tierra Santa!

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Sangue de Cristo!

- Senhor padre, venho confessar-me, pode me receber?
- Menina Aurora? Sabeis que não é a hora das confissões...Porém, arranjo um tempinho, limpo isto depois.- Disse eu, enquanto pousava a estátua da santa, que haviam oferecido à igreja. Fomos até ao confessionário.
- Senhor padre, obrigada por me ouvir, se não falar consigo expludo!
- Oh Deus! O que a atormenta?
- Tudo e mais alguma coisa!
- Vamos começar então.
- Senhor prior, a minha senhora trai o meu senhor! Trai e com um espanhol!
- Santo D...
- E o meu senhor está apaixonado por mim e...
-Disse-vos directamente?
- Não, não, Jesus! Estava desmaiada e ele pensou que eu não estava a ouvir.
- Anda com muitos desmaios, menina Aurora.
- Sim, isso também é verdade. Mas...Ouviu o que lhe disse? A minha senhora trai o senhor conde com um espanhol!
- Ah, isso...pois, é...chato.
- Chato? É uma traição, senhor prior! Aos olhos de Deus! Logo ela que é tão religiosa...
- Não se meta nessas coisas, Aurora. É um concelho.
- Não me estou a meter, estou-me a confessar, senhor padre. O meu pecado foi ter escutado , pela manhã, a voz dele, do tal amante e dela, já o senhor tinha saído. Depois, eu e o Frederico encontrámos no quarto dela um anel espanhol!
- Vos e o Frederico, o escudeiro do conde?
- Precisamente.
- E o que fazieis no quarto da condessa com o escudeiro?
- Tinha desmaiado e...
- Desmaia para obter as coisas, Aurora? Isso não se faz!
- Nada disso, senhor padre! Deus seja louvado! Juro pela alma da minha santa mãe que só da primeira vez é que desmaiei para encobrir a minha senhora. Seria a desgraça se o senhor conde a encontrasse em trajes menores com o espanhol.
- E o Frederico?
- Ele estava-me a ajudar, é meu amigo.
- Não há amizade possivel entre homem e mulher, menina Aurora. Ele deve querer algo mais!
- Não me parece, ele anda enrabichado pela Rita, a criada. Enfim, o Frederico não faz parte dos meus pecados!
- Como queira...
- Continuando, senhor padre: O senhor conde gosta de mim...E eu...
- Ai, Santa virgem da Guadalupe...
- Eu sinto que gosto dele também!
- Cruz!
- E agora, o que faço para evitar que esse amor se espalhe pelo meu coração, me corra nas veias, me faça falar o ar, me faça sonhar com aquele homem, com os seus beijos, com o seu peito cabeludo!
- Nada, com essa conversa já nada podeis fazer, minha querida. Mas...olha, reza uns...deixa cá ver...ora, pode ser uns 14 "Avé Maria" e uns...18 "Pai Nosso".
- Tanto, senhor padre...
- E em cima de grãos de milho!
- Oh!
- Sim, tens de tirar toda essa luxuria dentro de ti. O sofrimento é o remédio para acabar com todo o mal dentro de nós!
- E o que é que eu faço para resolver os meus problemas?
- Sou padre, minha pequena, não sou conselheiro. Porque não pedes conselhos ao Frederico?
- Mas, senhor padre...
- Faz o que e disse e verás que te sentirás muito melhor. Lembra-e: Deus é o remédio- E lá foi a moça. Não é a primeira que me aparece com coisas como: "O meu senhor gosta de mim", é o normal. Normal noutros lados, claro, aqui em Santa Terrinha, a coisa muda de figura. Pobre Aurora...tão nova e já a lidar com tamanhos problemas. O problema é que ela sabe do caso da dona condessa...Se ela abre a boca... Bom! Enfim, vamos lá! Sangue de Cristo! Onde é que anda a vinhaça? Nunca me lembro onde guardam o vinho das missas! As beatas daqui empandeiram-me tudo!
- Senho padre!- outra rapariga, a que era das únicas daqui de Santa Terrinha, a Rita.
- Bons dias!
- Quero me confessar...- Outra? Deixei o vinho para outra altura e fui ouvir a pequena.
- Ora então dizei lá, cara devota, que pecados cometeste?
- Estou apaixonada...
- Oh, então, Rita...Isso não é pecado! É algo natural...
- Sim, mas...é por um espanhol!
- Ai...Mas como é que vocês conhecem os espanhois!?
- Vocês? Disse vocês, senhor prior? Há mais alguém?
- Não, foi...foi sobre uma coisa que me lembrei da Biblia, foi isso...Mas quem é o moço?
- Não sei, senhor, ele é...lindo! Entrou lá em casa um dia destes e...
- Oh, Deus Nosso Senhor! Ele é...loiro?
- Sim!
- Olhos claros?
- Sem tirar nem por.
- Estamos perdidos.
- Conhece, senhor padre?
- Eu? Não, só disse porque...porque...normalmente os espanhois são loiros e têm olhos claros.
- São? Pensava que normalmente os espanhois eram mais morenos e...
- Isso não interessa, minha pequena. Diga-me: Vocês têm se visto?
- Só o vi uma vez, mas bastou...Só que tenho sentido umas coisas, quero tanto estar com ele senhor paaaaadreee...
- Chega, chega, vamos lá a acalmar- esta rapariga sempre teve fogo debaixo das saias, segundo me contaram as beatas- vais rezar 14 "Avé Maria" e 18 "Pai Nossos".
- Oh, credo! Pois se o senhor mesmo disse à pouco que estar apaixonada não era pecado.
- Não, não é, mas ter fogo debaixo das saias é, e muito! Vamos, vamos que tenho de me ir refrescar, adeus e boa sorte, Rita.- E lá foi ela. Quando constactei, depois de revirar a igreja, que já não havia o "Sangue de Cristo" (juro que acho que uma beata me anda a beber às esocondidas), fui a casa do conde para, e principalmene, obter algum suminho de uva que me refrescasse a garganta. Quando lá cheguei qual não foi o meu espanto quando encontro numa pequena capelinha feita dentro da própria casa se encontravam as duas raparigas, ajoelhadas em grãos de milho, a rezar. Olharam as duas para mim, sorriram um sorriso amarelo e depois, julgo que não gostam uma da outra, olharam-se e baixaram a cabeça. Como anda esta Terrinha? Os espanhois estão a dominar as mulheres, não a terra...

Um humilde barbeiro

- Atão diga lá o que sente minha menina? É um pelinho encravado? Precisa de fazer as patilhas? O que vai ser?
- Não digas disparates homem! Não vês que a moça desmaiou, tá branca como a morte e aos tremeliques! - protestou Caetana.
- Ê sabia, isto era uma piada. Era pa descontrair! Entã conte lá o que se passou.
- Eu estava a apanhar maçãs e olhe perdi os sentidos! - respondeu a moça.
- E então o que pode fazer pela menina? - perguntou Caetana.
- Bom, nã há muito a fazer, porque veja dona Caetana, a moça desmaiou e agora tá acordada logo o mê trabalho tá feito. Não é por acaso que sou considerado o maior dos barbeiros da Península! De Portugal vá! Pronto do Norte e nã se fala mais nisso.
- Mas não é melhor ver se não tem febre? - insiste a velha cozinheira.
- Está bem, pronto deixa cá ver ... ora ... nã tá tudo nos conformes. Isto deve ter sido do calor, o sol tá muito forte e a gente tem de ter cuidado.
- Deve ter sido isso sim. - respondeu a moça.
- Vês Caetana? Eu sou um profissional altamente recomendado pelas donzelas, só tu é que não me ligas nenhuma.
- Deixa-te de coisas e tem juízo!! E sai daqui que tenho mais que fazer!
Mulheres! Com tantos anos de vida ainda nã as consegui perceber. Mas pronto o mê trabalho tá feito vou mas é para a minha casinha ver se há clientela à espera. Saí do castelo e fui andando junto às muralhas olhando as pessoas que passavam, cumprimentando os soldados, olhando o céu. Ai que saudades do mê Alentejo! Das casinhas brancas, as ovelhinhas pastando, as mulheres a estenderem a roupa ao sol, o chêrinho dos campos. Isto aqui é uma terra abafada e com tudo encafoado entre umas muralhas com receio de por o pé lá fora e deparar-se com um espanhol que lhe faça a folha. No Alentejo nós sabemos lidar com os bandalhos! As nossas foices eram mais eficazes que estas mariquices de canhões e espadas. Mas um homem tem que fazer pela vida e aqui facturo mais do que lá na terra onde os homens não aparam a barba. Aqui os soldadinhos querem tudo aparadinho. Mariconços d'um raio que me ajudão a ganhar algum! Nunca tive mulher nem filhos, tive cá meus amores, mas coisas passagêras que davam pa enganar o corpo. Sempre gostei da minha liberdade e de andar por aí sem compromissos nem aborrecimentos.
Tinha já duas pessoas à minha porta. Um senhor baixo e gordo, que é um dos donos das quintas fora da muralha, e o outro um dos tais cavaleiros altos e espadaúdos que guardavam Santa Terrinha antes da chegada do conde.
- Atã bom dia meus senhores!
- Bom dia? Já viu as horas? Estou aqui à uma eternidade à sua espera! - protesta o lavrador.
- Assuntos do reino caro senhor, tive um caso de uma donzela indesposta lá no castelo. Aqui o Zé tem de atender a todos.
- Sim, sim vamos mas é a despachar que eu tenho mais que fazer!
- Com certeza entrem lá que eu vou só pousar a mala!
A minha casinha é modesta, tem o suficiente para um homem viver, uma caminha, uma mesa e cadeiras, uma brazeira para os dias frios, alguns tachos para as refeições e pouco mais. A água vou buscá-la à fonte e armazeno-a em barris. Já a parte da barbearia está mais composta. Fica num cantinho onde tenho uma cadeira com as pernas de trás partidas de forma a inclinar e a permitir uma mais fácil "barbeação". Foi uma invenção minha, que tirando algumas quedas, tem sido um sucesso! Tenho ainda as navalhas sobre uma mesinha e os panos para limpar. Está mesmo junto à janela para dar luz e para irmos comentando o que se passa no exterior.
- Vá queixinho para cima!
- Mas ó Zé que raio de pocilga que tu arranjas-te? Tens provavelmente a casa mais pobre da terra. Precisas da Dias para vir dar aqui dar uma limpeza nesta espelunca!
- A Dias?
- Sim a mulher A. Dias esposa do Franscisco Dias! Ela anda a cobrar para dar uma limpeza nas casas, podias aproveitar!
- Eu próprio jogo as mãos a isto um dia. Não quero gastar dinheiro com essas coisas.
- Estás a guardar é? Vais deixar Santa Terrinha?
- São cá coisas minhas. Mas diga lá como vão as colheitas?
- As colheitas? Uma desgraça, o que apanho está podre o resto robam-me os espanhóis! E o pior é que nada posso fazer.
- Já falou com o senhor conde?
- Claro! Aquele homem, que só sabe é rezar, disse-me para largar os cães à noite que eles tomavam conta deles.
- E resultou?
- Claro que não! Os cães fugiram!
- Mas eles mais dia menos dia desistem, ficam sêm alimentos e voltam pá terra deles!
- Pois mas se eles se alimentam das colheitas, nós também ficamos sem comida!
- Disse isso ao conde?
- Disse e ele mostrou-se indiferente, não deve ter percebido de como era grave a situação. Mas tu é que me podias ajudar Zé!
- Eu?
- Sim tu! E se começas a ir à tenda fazer os teus serviços? Tenho ouvido dizer que muitos espanhóis ficaram feridos na última escaramuça e que estão desesperados. Se lhes oferecesses os teus serviços talvez conseguissemos fazer tréguas e eu conseguia recuperar os campos e pedir ao conde que alguns dos cavaleiros protegessem a minha propriedade.
- Parece perigoso. Mas talvez faça alguns trocos!
- Mas afinal para que queres o dinheiro?
- Coisas minhas.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

A maçã da verdade

Não entendi nada daquela noite, nem entendi nada do que se passou naquela manhã. Pelo menos, não fui o único.
- Menina Aurora!- disse eu, entrando na cozinha e evitando que Aurora saia pela porta dos fundos.
- Oh, Frederico, bons dias. Ia mesmo agora apanhar umas maçãs ao pomar, aguarde apenas um instante, volto já.
- E se a for ajudar?
- Está bem, é com muito gosto que aceito a sua ajuda- E lá fomos. Eu agarrava num grande cesto de baixo da árvore e a Aurora, teimosa, subiu a uma escada e tirava, uma por uma, as maçãs da macieira- Ai! Peço desculpa, Frederico! Daqui a nada não tem cabeça para tantos galos de macieira!
- Ora essa, menina Aurora! Mais um menos um...é mais um para a sinfonia!- e riamos os dois.
- Então, mas meu caro Frederico, diga lá o que me queria.
- Nada de mais, nada de importante...
- Homessa! Diga lá, não gosto de rodeios.
- É que...Ontem vi-a a espreitar a porta da condessa- quando disse isso a menina Aurora quase se desiquilibrou- Epá! Cuidado!
- Credo! Eu?
- Sim, a menina...Não vale a pena disfarçar! Sei que também sabe do outro, do tal homem...A pergunta que lhe queria fazer é se conhece o sujeito- Ela continuava a colher as maçãs e atira-las para mim.
- Não, não sei quem é nem quero saber! A senhora lá sabe da vida dela.
- Mas ela está a trair o senhor e é meu dever como seu...
- Você cale a boca!- Disse ela, parando com as maçãs e ameaçando-me com uma- Nem uma palavra ao senhor conde!
- Mas, menina Aurora é meu dever!
- Oiça- disse ela, descendo das escadinhas- Não vê as consequências se disser alguma coisa? Lá se vai a Santa Terrinha, lá se vai tudo!
- Tudo?
- Tudo!
- E o que pensa fazer, menina Aurora?- Num instante ela desequilibra-se e cai redondinha no chão- MENINA AURORA!- Disse eu, atirando o cesto das maçãs para o galheiro!- MENINA AURORA! ESTÁ INCONSCIENTE???- Estava mesmo. Agitei-a.- Menina Aurora, acorde, acorde! Mas agora desmaia-me assim, é o seu passatempo?- Decidi pegar nela e leva-la ao colo até casa. Pesada como tudo, a menina Aurora é bem cheirosa e a dormir, serena, ainda é mais bela.
- Ai Santo Padre S. Toeotónio! Que fizeste à rapariga?- Disse a Caetana, que começava a preparar o almoço.
- Nada! Juro! Ela estava a tirar maçãs, desiquilibrou-se e pronto, vai de cair! Vou leva-la para o quarto.
- Não! A Rita está a limpar tudo. Leva-a para o quarto de hospedes- Assim o fiz. A Caeatana foi comigo, mal chegámos à porta do quarto de hóspedes constactámos que a porta estava trancada. A Rita devia se ter enganado e deu mais voltas à chave.
- E agora, dona Caetana? Não me aguento nas minhas magras pernas! Decida lá, e rápido, para onde levamos aqui a desmaiada.
- Para o quarto da senhora! Ela não está e não se deve importar- E assim foi. Fomos para o quarto da senhora e, finalmente, deitámos a menina Aurora na cama. Não sentia os braços, as pernas. A rapariga é mesmo pesada- Vou buscar uma coisinha que tenho ali que é tiro e queda para acordar donzelas.
- Oh, oh dona Caetana! Nada dessas coisas...se o conde a apanha, da maneira como ele é, ainda a leva para a...fogueira- disse eu, baixinho- Traga um bom jarro de água fria do poço e despejamos-lhe em cima!- Assim foi e assim a bela donzela acordou.
- Santo Sancramento!- disse, quando acordou, ensopada- Au...doi-me o corpo todo e...Ui! Tenho uma dor forte no pé!
- Partiu o calcante, menina. Que azar...- disse a Caetana- Mas olhe, tenho ali uma coisinha que é tiro e queda para dores e...- Só olhei para ela com o ar reprovador- Isto é...- repôs ela- vou ali e já venho!- e desapareceu.
- Então menina Aurora? Quer se matar e matar-me a mim do coração?
- Sois tão amável, Frederico...Oh! E as maçãs?...Oh Meu Deus!
- Não se preocupe, já mandei um criado apanha-las. Estarão fresquinhas para o almoço.
- Sois o meu braço direito, o meu melhor amigo no meio desta vida...- E agarrou-me na mão. Senti-me encabulado e envergonhado.
- Ora essa, cara menina Aurora! Eu? Sou um criado ao seu serviço, sempre. Quer que lhe arranje as almofadas?
- Sim, por favor- Foi aí que encontrámos o que não esperavamos.
- Está qualquer coisa aqui debaixo da almofada, toquei-lhe, mas agora não a encontro...- disse eu- até que...
- Um anel?
- Um anel...- disse eu- E mais!
- Santo Deus...
- Tem a coroa Espanhola...-Ficámos os dois espectados a olhar para a joia." Seria o conde espanhol o amante da condessa?", esta foi, certamente, a pergunta que passou pela cabeça da menina Aurora. Pela minha passou, mas o meu pensamento foi interrompido.
- Cá estou!- disse a Caetana, da porta do quarto- E vejam o meu antidoto para as dores: O barbeiro aqui de Santa Terrinha!- E heis que aparece uma figurinha franzina com uma maleta e um chapéu- Ele trata de tudo! Vamos, senhor barbeiro, sem medos! Vamos lá a tratar da moça- disse a cozinheira. Naquele momento a menina Aurora olhou-me assustada. Num gesto rápido pegou no anel e guardou-o...bom...no decote. Eu levantei-me da cama e dei lugar ao barbeiro. Fui andando devagar até à porta e a Aurora acompanhava-me com o olhar. As nossas almas estavam confusas, muito confusas...

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Esteban, a coruja



- Mandou chamar senhor conde?
- Sim, sim mas diz-me lá onde te metes-te a manhã toda?
- Andei a "apalpar" terreno por assim dizer!
- Ah fazes bem! E descobris-te alguma coisa que valha a pena saber?
- Parece que os montes portugueses são bem firmes e a terra suave e macia ...é uma bela terra!
- Estou a ver. Só espero que não andes a arranjar-me problemas. Por falar nisso, preciso de um favorzinho teu.
- Tudo o que quiser señor.
- Preciso que me arranjes uma pena, uma pena de coruja.
- Para o vosso chapéu? Desculpe señor mas, não acha que o chapéu já está bastante ornamentado? Parece algo que o meu primo Pablo usaria, e olhe que o Pablo ...
- Não é nada disso hombre! Isto são matérias importantes, problemas relacionados com o Estado e sobretudo com o meu bem-estar e felicidade.
- Problemas de saias portanto ...
- É a doce Aurora! Roubou-me o coração e a sanidade ... e eu quero-a! Quero Raúl!
- E então vai oferecer-lhe um chapéu todo abichanado coberto de penas de coruja para lhe chegar ao coração e quiçá à roupa interior, é isso?
- Não sejas ridículo! É apenas uma forma de forjar o destino, acelerar as coisas, comprendes?
- Resumindo, disparates do Ramón! O senhor ainda acredita no que diz esse charlatão?
- Claro que sim. Não tem falhado até agora.
- Não tem falhado porque ele é perito em adivinhar as coisas enquanto estas estão a decorrer. É realmente de um talento! AHAHAH!
- Ri-te à vontade mas é a única forma de chegar a ela.
- Oh Javier, agora aqui entre nós, eu conheço-te à muitos anos e tu sempre foste demasiado nervoso, as mulheres não são assim tão fáceis de abordar, algum charme, persuasão, uma flor ou outra e zás já cá canta!
- Mas isso resulta para paixonetas infantis sem qualquer outra pretensão. Com a Aurora é diferente ... e tu fazes aquilo que eu te digo e acabou! Arranja-me a maldita pena! Ah e mais, um raminho de alecrim!
- Devo vestir a minha saia branca? Para ficar mais encantador enquanto colho flores no campo, alecrim, vou cantando e pulando como a campónia que sou ou que essa Aurora é ...
- Deixa-te de brincadeiras ou acabas a esfregar as costas da minha tia!
- Hijo mio? Estais chamando? - pergunta a velha decrépita.
- Não tia, é o Javier e não, não a chamei apenas mencionei o seu nome.
- Tengo comichão hijo, vem aqui e ...
Deixei a tenda antes que a velha se aproveitá-se e me pedisse que lhe corta-se as unhas. Lá vou à procura da coruja, sem saber por onde começar, agora só faltava ter de subir às árvores para atender aos pedidos do senhor conde como se fosse uma mulher de esperanças. Se não fosse o poder que me dá e que ainda me dará. Sim porque não passa de um trouxa que eu posso manipular a meu belo prazer. Ele nem se apercebe do poder que tenho sobre ele e a minha única concorrência nesse campo é a própria tia. E a minha Isabel? Não preciso de melhor aliada do que a esposa do D.Leucárdio. Santa Terrinha é minha e os condes que se entendam entre eles e vão brincar às conquistas para outro lado. Isto de não ter escrúpulos foi a melhor das qualidades com que Deus me abençoou. A consciência não pesa e vive-se sem preocupações, da forma como queremos e com quem queremos. Mas as minhas anbições não são assim tão provincianas, o meu objectivo é mesmo o trono de Castela, que está ali ao meu alcance. Basta que D.Javier não esteja a altura da missão, El-Rei não perdoa os fracos e eu serei conde e depois disso veremos quanto tempo demora até ter a coroa na minha real cabeça.
Mas concentração que isto de caçar corujas não é fácil! Dirigi-me aos bosques e de olhos nos ramos fui andando devagarinho à procura de sinais de alguma ave da espécie.
- Uhuh.
- Uhuh. - respondi eu ao chamamento.
Está próxima, consigo senti-la mesmo por cima de mim mas não a consigo ver e ... que é isto? É branco é? Ah ... o maldito animal fez de mim latrina! Apanhei pelas asas e pû-la dentro do saco bruscamente.
- Fica quieta ou faço de ti animal de estimação da Tia! - disse ameaçando-a.
Não sei porquê mas serviu para a acalmar, até os animais temem a maldita velha, não me admira que seja o próprio diabo disfarçado e por isso os bochos a temem. Mas ... falta alguma coisa, uma erva qualquer, não me lembro do nome! Talvez umas destas aqui façam o mesmo efeito. São verdes, têm folhinhas, mas que estou para aqui a dizer? São invensões do Ramón! Não sei porque me dou ao trabalho!
Voltei já era noite e Javier esperava-me impaciente.
- Já pensava que tinhas fugido! Trouxes-te tudo? A pena o alecrim?
- (Era isso alecrim!) Sim, sim tão aqui as ervas e a própria ave! Trouxe-a comigo não lhe fossem faltar penas.
- Óptimo! Bem pensado Raúl! Temos tudo o que é necessário, certo Ramón?
- Sim claro, que bonito alecrim que nos trouxe caro Raúl!
Claro, deve perceber tanto de flores como de mulheres! Só Deus sabe como me contive para não o desmascarar naquele momento! Mas prefiro assistir à humilhação de Javier.
- Então e a coruja está onde?
- Tenho-a qui neste saco. Vou libertá-la, mas tirem-lhe vocês as penas.
Ao abrir o saco a coruja sai desorientada e voou pela tenda à procura de uma saída. Tentámos apanhá-la em vão. Mapas caíram ao chão, taças e mantos, as velas por pouco não queimaram tudo e a ave pousou finalmente no colo da Tia que dormia profundamente apesar da agitação.
- Vá Raúl vai lá buscá-la! - sussurra Javier.
- Eu?? Eu não toco na velh ... digo, na ave!
Entretanto a velha abre os olhos.
- Que passa? Javier que é isto no meu nariz?
- É uma verr ... digo, uma ave! - responde Javier - Agora faça-nos um favor e devagarinho ... p-e-g-u-e ... n-a-s ... p-a-t-a-s ... e ...
- Mira Javier! Gosta de mim! Que amor de pássaro ... é um presente para mim?
- Claro Tia, o Raúl foi buscá-la e ... mas repare eu preciso que me a dê. Preciso de uma pena ...
- Vou chamar-lhe Esteban! Como o meu querido hijo! Tu queres o quê?? Tu não vais depenar o Esteban!!! Só por cima do meu cadáver!
- Já que propõe ...
- Cala-te Raúl ... repare Tia depenar é uma palavra muito forte, é mais retirar uma das penas do bicho ...
- Esteban!
- ... do Esteban, suavemente para o bem do seu querido sobrinho.
- NO! - protestou a Tia.
Ficou decidido que assim que a Tia adormecesse, EU teria de ir arrancar o raio da pena. O Rául claro! Mas o Raúl não está minimamente interessado em ver a señora em trajes menores e por isso decidiu ir de olhos fechados e guiar-se pelo tacto.
A velha dorme na sua cadeira, tão velha quanto ela, porque tem medo de se deitar e nunca mais levantar. Ora eu não desejo de forma alguma abrir os olhos e por isso fui de gatas pelo chão à procura de sinais dos seus pézinhos. O barulho que fiz era suficente para acordar os habitantes da vila espanhola vizinha, mas a velha permaneceu no seu sono de ... pedra. Finalmente encontrei aquilo que parecia ser um sapato. Confere é um sapato! Com tremores por todo o corpo fui subindo pela a perna, e mais desvio menos (doloroso) desvio senti as penas do Esteban. A velha adormeceu abraçada a ele!
- Esteban és tu hijo?
Apanhei um susto de morte, mas era só a velha a falar durante o sono. Resolvi aproveitar este facto para conseguir o que queria.
- Uhuh é o Esteban uhuh.
- Oh meu querido. Eu sabia que eras tu! Assim que te vi! Encarnas-te numa coruja naturalmente, um bicho sábio e leal como tu eras em vida. A falta que me fizes-te!
- Uhuh agora estou aqui uhuh!
- Nunca mais te largo!
- Mierda!
- Que dizes?
- Uhuh.
E voltou a adormecer aconchegando o pobre Esteban um pouco mais. Consegui retirar uma pena da asa e guardei-a de imediato. Mas fiquei a pensar, o Esteban (humano) morreu em circunstâncias bastante suspeitas. Eu não estava lá quando aconteceu, mas sempre achei estranho a reacção de Javier, tão despegado da Tia derepente não a larga nem por um minuto. É sabido que com a morte do seu filho, Javier passou a ser o herdeiro da fortuna da Tia, mas se assim fosse ele já teria recebido o dinheiro, porque sendo mulher, a Tia não puderá nunca ficar com a fortuna. Não faz sentido que ele continue com ela atrás. Vou obter mais informações da velha adormecida.
- Uhuh.
- Diz Esteban.
- Uhuh o Javier já herdou o que lhe era destinado uh uh.
- Claro que não Esteban! A fortuna do teu pai passa de homem para homem, tu não o herdas-te em vida porque não chegas-te a casar ...
- ... e por isso Javier só o receberá ...
- Se contrair matrimónio, naturalmente. Mas Esteban filho estás estranho, a tua voz ...
- Uhuh.
- Ah pronto!
Então é por isso que o homem se impacienta com a tal Aurora! Está desesperado pelo dinheiro da Tia. Talvez eu lhe atrapa-lhe um pouco os planos ... afinal, nem alecrim nem penas de coruja são tão fortes como os encantos aqui do Raúl.

sábado, 3 de outubro de 2009

Pura adivinhação

- Então Ramon? Que vez tu nas cartas do destino, oh adivinho?
- Está tudo muito nublado...
- Oh...isso quer dizer que as coisas não vão ser fáceis?
- Isso quer dizer que dá chuva para amanhã.
- Falo sobre a tomada da Terrinha, Ramon! Tens de ver se Júpiter está a meu favor!
- Calma, senhor conde, não tenha pressa, meu caro. Bom, vejamos o que temos para aqui: hum...ah! hum...nã...ah, ah!- Enquanto isso o tonto do conde olhava para mim, esperando que, com meia duzia de papelinhos e caras esquisitas lhe dissesse que amanhã teria a Santa Terrinha nas suas mãos.
- Então, criatura?- insistia ele.
- Está dificil, meu senhor...Talvez com mais uns 5 reis, a coisa se aclare!
- Sois um chulo!...Ora toma lá...- disse, atirando umas miseras moedas para a mesa- Miserável! Vamos! Conta-la o que te dizem essas cartas!- Bom, na verdade os astros não me diziam nada. Nunca disseram e acho muito pouco provável que algum dia digam. Sou um mago, um feiticeiro, um charlatão do diabo! Nunca andei na escola, nasci no meio do lixo e lá fiquei até encarreirar na vida junto com um bando de ciganagem. Não me apeguei a eles, assim como não me apego a ninguém. O que trouxe de lá: cartas de tarô roubadas, umas mantas, uns chinelos, e alguma sabedoria, isto, na arte da malandragem, se é que me faço intender- Então? As cartas precisam de mais reis? Olha que não dou nem mais um!
- Não é necessário, senhor. O destino dizem-me que serás feliz mas que terás de lutar muito até conseguires alcançar a felicidade- O conde ficou a olhar para mim. Bruscamente, e assustando o pequeno eu, deu um murro na mesa que fez derrubar o seu cálice de vinho tinto, tão vermelho como sangue de boi.
- Mas que azelha! Isso é muito vago!- disse, levantando-se e andando às voltas pela pequena sala onde nos encontrávamos. Depois, chegou mais perto, e mais perto...- Ouve- disse-me nariz com nariz- estás aqui por causa da minha tia, estás a ouvir, palhaço? Se não fazes o teu trabalho, sei bem como te fazer desaparecer...para o nada! Percebes?- Depois lá se afastou.
- Oh!! Mas heis que chega...hum...um aviso poderoso!
- Então?- disse ele, sentando-se novamente.
- Terás de lutar...espere- disse eu, fechando os olhos e tentando "ver" o que o destino me dizia- Há uma mulher!
- Pois há!
- Sim, há uma mulher!- Ufa...
- Como é que ela é, oh feiticeiro- disse ele, entusiasmadissimo.
- Ela é...uma rapariga, uma rapariga de cabelos loi...
- Ruivos?
- Ruivos, isso! Ruivinhos. Com os olhos ver...
- Azuis?
- Azulíssimos! Uma beleza!
- Uma beleza, sim, é ela...- dizia o conde, quase chorando de emoção.
- Ela é muito bela? É portuguesa? Vá! Diz-me se é portuguesa!
- Deixe ver, vossa senhoria...-disse eu, fechando outra vez os olhos e "sentindo o poder"- Sim, confere, é portuguesa e...calma...sim, confere, é bela, belissima!- Acertei no alvo...mesmo no centro!
- Oh, feiticeiro, sois grande!- disse ele, beijando-me a mão com todo o fervor- E agora diz-me como posso conquista-la- Bolas...
- Ora, senhor conde...Bom, é dificil, uma vez que a bela senhora está do lado deles, dos outros, dos portugueses. Não sei como...
- Não sabeis? E por...7 reis?
- Por 7 reis? Por 7 reis sei mais coisas, sim...- Aceitei o dinheiro que, gentilmente, o senhor conde fez deslizar, suavemente, sobre a mesa- Ora vamos lá ver, é que isto hoje está meio nublado sabe...
- Não levas mais nada daqui...
- Ah! Pura adivinhação! Encontrei!
- Como? Como posso tê-la?
- 7 noites terá de ir colocar na janela do quarto dela um ramo de alfazema!...Espere! Alecrim, um raminho de alecrim atado com uma corda e uma pena de coruja.
- Hã?...Não há nada mais facil como: matar todos e ficar com ela, ou...rapta-la?
- Não use a violência, meu amo, não o faceis...
- Onde arranjo uma pena de coruja?- perguntou o conde- E como tenho a garantia que depois desse esforço todo ela será minha?
- Bom, isso não lhe posso dar, só o destino sabe...Eu sou só um mero portador de mensagens do destino, de algo poderoso que me escolheu como intermediário, como mensageiro!
- Vou já chamar o Raúl...GUSTAVO!!- gritou ele pelo criado. Após uns escassos segundos Gustavo apareceu- Onde anda o Raúl?
- Não sei, meu senhor.
- Não sabes? Maldito sejas tu a gente da tua laia! Vai procura-lo e diz-lhe que quero falar com ele urgentemente!!- O criado saiu a correr- Bem, e nós,- disse-me, levantando-se da mesa- nós, trabalhámos bem hoje...- continuou, fazendo um sorriso que até a mim me meteu medo. Depois de se levantar e arrumar devidamente a cadeira atirou para cima da mesa umas 3 moedas de ouro, as quais apanhei em meio tempo- Se continuares assim e calares a boca, isto é- disse ele, chegando-se demasiado perto de mim (parece que ele gosta deste tipo de confrontação)- se não fores contar à minha querida tia os teus serviços para comigo, ganhas mais destas lindas e douradinhas, caso isso não aconteça, oh, meu caro mago...deixarás de fazer previsões para o resto da tua vida, porque passarás a prever a "vida" dos mortos, percebido?- Afirmei com a cabeça, enquanto guardava as moedas no meu pequeno saco de couro. Todo eu transpirava. A partir desse dia, desejei que aquelas 7 noites nunca passassem. Para mim, o segundo em que o conde deitou as 3 lindas moedinhas para a mesa, podia durar para sempre...

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Tanto pecado num só dia

Sinto-me tão cansada, os meus pobres pés já não aguentam os sapatos e sinto a cabeça pesada a pedir desesperadamente por uma almofada. Aqui as noites são abafadas e não se sente nem uma brisa lá fora. Dei voltas e voltas na cama mas não conseguia adormecer, nem sequer fechar os olhos. De um dia para o outro a minha vida mudou e agora sinto-me tão só e perdida. Nunca tinha saído sequer da aldeia e vejo-me agora no meio de condes, cavaleiros, batalhas e perigos tal como nas histórias que o paizinho me contava para adormecer. Mas por alguma razão não consigo estar entusiasmada. As pessoas são frias e intimidantes, tudo está planeado e ensaiado não deixando espaço para gestos livres e expontâneos. Quem me dera ir lá fora e passear pelos bosques, deitar-me na relva, nadar no rio ... mas é impossível. Não estou a ser ingrata, gosto bastante da D. Isabel apesar das mudanças de humor e dos caprichos. Trata-me bem, com respeito e não como uma escrava. Fala-me de si e dos seus problemas, coisas que não se contam às amigas próximas quanto mais a alguém que conheceu à poucos dias. É essa confiança que me tem dado forças para aguentar os meus dias, sempre iguais. Adormeci com o sol já no horizonte.
Oh meu Deus! Acho que me deixei ir pelo sono, a D.Isabel já deve ter acordado!! Tenho de me despachar ou a senhora enlouquece ...
Desatei a correr pelas escadas e abri a porta devagarinho já a antever o sermão que ía levar. Estava muito escuro, as cortinas ainda estavam corridas e pelo ressonar deduzi que a senhora ainda dormia. Entrei devagar para não fazer barulho e fui pelo lado do senhor conde, que já devia ter saído para a caçada, estendi a mão para tirar a almofada e ... mas, isto é ... cabelo!! Oh meu Deus o senhor conde ainda aqui está! Nem sei como consegui suprimir o grito de surpresa. Voltei para trás e fechei a porta. Que estranho, não costumam dormir até tão tarde. Se calhar sou eu que troquei as horas, talvez seja mais cedo do que eu pensava.
Desci até à cozinha onde estava a cozinheira em grande aflição, cheia de farinha nos braços e até na cara.
- Então menina Aurora? A senhora Isabel está bem? Já viu as horas que são, já lá foi ver se está tudo bem?
- Vim de lá agora mesmo, a senhora ainda dorme tal como o senhor conde.
- Que disparate é esse rapariga? O senhor conde saiu ainda de madrugada para a caçada!
- Mas então ... eu ...
- Mas então o quê? Se for pelo barulho esquece, bem sabes que a senhora ressona que nem um porco. Lá por ser uma dama não deixa de ser uma pessoa.
- Pois deve ter sido isso fiz confusão.
Nisto entra a Rita enxarcada em suor e com um cesto de fruta no braço.
- Então sua senhoria já se levantou?
- Vê como falas Rita!! Dona Isabel ainda está a dormir.
- Estava a falar aqui da princesa. Esta não é escrava como as outras, levanta-se às horas que quer, parece uma rainha. Deseja alguma coisa para comer vossa senhoria? Um morango talvez? - diz Rita forçando uma vénia.
- Não sejas assim Rita! Vai mas é trabalhar que é para isso que aqui estás, não para andares a comentar a vida dos outros. Mas diga lá menina, quer um pãozinho? Qualquer coisa?
- Não obrigado minha senhora. Vou ver como está a condessa, com licença.
- Vê lá o senhor conde não te morda!
- Rita!!
Eu posso parecer inocente mas sei perfeitamente que aqueles cabelos não eram da senhora, ela dorme com a cabeça enfaicada em lenços com medo dos piolhos. Deus queira que o senhor conde tenha voltado sem ninguém reparar, se bem que é difícil. Passei pela porta e, Deus me perdoe, encostei o ouvido para tentar perceber se já tinham acordado. Nada. Esse nada significa que a senhora acordou. Tentei espreitar ela fechadura, vi luz e umas sombras de um lado para o outro, depois pararam. Desencostei a porta e espreitei lá para dentro. Vi a D.Isabel na sua camisa de dormir sentada à ponta da cama. Não estava mais ninguém, eu sabia que não devia ter desconfiado dela, depois disto vou direitinha à confissão que isto não são coisas que se pensem de uma dama, os cabelos soltaram-se das faixas com certeza. Preparava-me para abrir a porta quando ... um homem! Não é o senhor conde de certeza, é mais alto e tem cabelos claros.
- Adious señorita, vou mas volto así que puder pois no consigo vivir sin tus besos. - declarou o homem.
- Adeus meu Raúl. - respondeu a senhora.
Oh meu Deus, que não sei qual pecado é maior, o meu, por estar aqui a olhar pela porta ou o da senhora, o pecado da luxúria. Deus nos abençoe!
Fiquei perturbada com a situação, devo ter ficado ali parada de olhos fechados algum tempo para me recompor. Que vou eu dizer? Que vou fazer? Devo fingir que não ouvi, que não vi ... e o senhor conde? Devo-lhe respeito e fidelidade, é meu dever informá-lo mas ...
- Aurora?
- Senhor Conde!!
- Calma rapariga! Estás mais pálida que o costume e ... quer dizer isso é bom, a não ser que esteja a sentir-te mal, aí é mau ... queres alguma coisa? Posso ajudar-te?
- Não é nada senhor! Já voltou?
- Sim, garanto-te que sou eu e não uma assombração! Quer dizer, cruz credo, que a minha alma vai direitinha para o céu se Deus quiser! E há-de querer com certeza. A senhora já está de pé?
- Sim, quer dizer, não está composta eu própria ainda não ...
- Então dá-me licença que preciso de falar com ela.
- M-mas ... ai realmente não me sinto bem, até acho que ...
E foi aí que desmaiei, quer dizer, não desmaiei fingi. Oh meu Deus tanto pecado num só dia, a minha pobre alma está mais que condenada. Mas tinha de fazer qualquer coisa, no fundo preveni uma desgraça porque se o senhor conde encontra-se a esposa com outro homen nos aposentos ... nem quero pensar. Pronto, ao menos não me sinto tão culpada. O homem levou-me nos braços até ao meu quarto. Talvez fosse o tempo de acabar com esta farsa, já preveni o encontro, agora já chega. Pousou-me devagar na cama e senti-o a sentar-se nela. Preparava-me para abrir os olhos quando ele começou a falar.
- Sois tão bela Aurora! Sei bem que devia ter chamado o padre Damião para ajudar, e não pense que não me preocupe com o seu bem-estar, mas agora que está aqui sem mais ninguém e que não puderá ouvir os meus devaneios ... eu, eu tenho de lhe falar ... tenho de lhe dizer o que sinto, a verdade é que ... é que a amo!
A porta abriu-se de repente e eu não consigo evitar o sobresalto e levantei-me. Era D.Isabel.
- Mas o que significa isto??
- Isabel tem calma que ...
- Não penses que me enganas tu! A aproveitares-te da rapariga que nem deve saber bem o que está a fazer! Seu ...
- Tenha calma senhora! Eu senti-me mal e o senhor conde teve a bondade de me ajudar.
Mas porque é que sinto a obrigação de lhe agradar? Depois do que ela fez ... devia contar de imediato, mas ... o senhor conde também se revelou e ... estou tão confusa! Vejo pecado em todo o lado, eu ...
Voltei a desmaiar, mas desta vez foi a natureza que o ditou.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Noites quentes!

- Vai receber os senhores condes, Rita!
- Ai, que maçada, que maçada, dona Caetana! Quem me dera que nunca tivessem chegado...
- Cala-te rapariga! Por acaso tu arrumaste o quarto dos senhores condes, ou não? Ai que eu não sei o que te faço!!!
- Arrumei!! Cruz, credo! Arrumei, sim senhora! Ora essa...Alguma vez fiz mal o meu trabalho?
- Queres mesmo que te responda, rapariga?- A dona Caetana, quando quer, é mázinha, chatinha e maçadora. Mas repito: quem me dera que estes dois nunca tivessem chegado aqui a Santa Terrinha. Já lá vai o tempo em que os unicos habitantes daqui eramos nós, o senhor prior S. Teotónio, que já lá está, os três padrecos que o acompanhavam e uns quantos camponeses mal trapilhos. Isso sim! Era vida...Eu vim para cá com a dona Caetana servir o prior. A minha mãe nunca quis saber de mim. Pariu-me, assim como pariu muitos, e depois "Oh! Mais uma! Quanto dão por ela?". Foi isto. Vendeu-me a uns ciganos que iam a passar. Sim, a minha mãe era uma senhora da vida. Da vidaça! Devo ter irmãos espalhados por tudo o que é lado, de várias nacionalidades, etnias, enfim! Tenho uma grande família. Depois dos ciganos me abandonarem na beira de uma estrada enlameada, fui encontrada pela pessoa a que chamei mãe toda a minha vida. Ela trabalhava na casa de uns senhores ilustres, lá para os lados de Alcobaça e, assim, levou-me com ela. A dona Caetana era colega dela, na cozinha. A mãe era criada de servir...Era, sim. Depois de metida num valente berbicacho que envolvia as joias da senhora da casa, um quadro valioso, foi apagada do mapa. Se alguém se preocupou? Não, até sei quem a matou: o dono da casa. Não vi, cruzes, mas todos diziam que assim foi. Enfim, à Caetana disseram-lhe que se não ficasse comigo, e como nem era filha verdadeira da minha mãe, que me matavam, ou me abandonavam na floresta mais proxima para que os lobos tratassem do trabalho. A Caetana nem pensou duas vezes! Ficou comigo, que também já não precisava de tantos cuidados. Já tinha 10 anos. Assim cresci, sempre atrás das saias da Caetana. Hoje tenho 18 anos e devo-lhe a vida. Andei sempre atrás dela, de casa de senhor em casa de senhor. Os últimos 5 anos tivemos com o padre S. Teotónio, que, por ser tão boa pessoa até foi tornado santo! Foi ele que fundou, a bem dizer, aqui a Santa Terrinha, e agora vêm me dizer que vem aí um conde qualquer ser uma espécie de chefe da malta, pff...grande coisa. Tenho tantas saudades do padre S. Teotónio...Eu não fazia nada da vida! O padre passava a vida na igreja! Eles e os seus padrecos, os novatos, seminaristas que de seminaristas não tinham nada. Namorisquei com todos eles: na sacristia, no confecionário, no orgão, de noite, de dia...Quando o padre morreu e eles se foram senti um vazio assustador, principalmente de noite, porque apesar de serem os tais seminaristas eles sabiam como aquecer os pés de uma mulher à noite, ou melhor, de como aquecer uma mulher! Enfim, eram bons moços e maus padres. Agora a dona Caetana já me avisou que isto vai ser uma correria! Só ter a condessa em casa noite e dia já é uma dor de cabeça!
- Rita!
- Vou já, vou já!- Fomos as duas à porta de casa, assim como alguns dos empregados que chegaram na vespera a mando do novo dono da casa. O povo estava muito alegre ao ver os condes. Flores, festa, uns pediam que o conde lhe beijasse as imagens dos santos! Enfim...
- Sejam bem vindos!- disse a dona Caetana- Eu e a Rita estaremos às suas ordens!
- Muito obrigada, Caetana. Já ouvi dizer muito bem de si. Tenho gosto que esteja aqui connosco- disse o conde, mesmo parecendo que não era aquilo que pensava. Falso. Depois de jantarem, fazerem serão, comerem a ceia e irem se deitar, finalmente, pude descansar.
- Ai credo! Tanto comem e bebem estas criaturas!
- Rita! Tu cala-me essa boca! Fala dos senhores com respeito, se fazes favor! Começas a levar uns quantos estalos! Era o que precisavas!
- Ai, dona Caetana- disse eu, sentando à bruta em cima da mesa e trincando uma maçã- eles são tão finos, não têm nada a ver com o santo padre! E porque vieram para aqui para esta terra de nenhures?
- Não te interessa nada disso. O que te interessa é servi-los, e bem! És paga para servir, não para pensar nem para falar- disse ela, limpando os pratos do jantar.
- Sim, sim...E o conde, dona Caetana? Gostou dele? Ele parece...
- Um óptimo senhor!
- Delicado de mais...
- Shiiiiiiu!! Tás parva?- disse ela, dando-me um valente safanão com o pano da loiça- Ai, ai...estás aqui estás na rua, rapariga!
- Mas não notou?
- Ele é delicado porque é fino, é um grande senhor. Hoje em dia, Rita, quem tem dinheiro é delicado.
- Delicado, hum...Sim, claro- disse eu, levantando-me e saltando para o chão.
- Shhhhhhiu! Os senhores já estão a dormir! Ai, isto vai ser bonito...Não custa nada te porem na rua!- disse ela.
- Sim, na verdade, tem razão! Já viu aquela mosca morta que anda sempre atrás da condessa?
- Rita...
- Vai me dizer que não reparou? Que irritante! "Sim, senhora", "Com certeza, senhora", " Como, senhora", "Sim, claro, senhora"...Ahhhhh! Deus me dê paciência, cruzes canhoto! Aurora, é como ela se chama. Que pãozinho sem sal, dona Caetana.
- É fina, pálida, bonita e, lá está, delicada.
- Sonsa! Aposto que às escondidas vai mexer na joias da "senhora", ou que dorme com o "senhor"- Neste momento, o pano da cozinha parecia ter vida própria e batia-me como se o dia que corria fosse o último do mundo. Depois da pacandaria continuei, claro- A dona Caetana é boa demais...Aquela sonsinha não a irrita?
- Ela é a dama de companhia da senhora!
- E sabe se lá se do senhor...Se não o tivesse visto com tamanhos gestos "delicodoces" diria que dorme com a criada.
- Rita! Vai dormir!
- Ela parece uma virgenzinha tontinha, uma santinha, uma deslavadinha.
- Virgenzinha...? Sei bem o que queres dizer com isso sua devassa! Anda, chô! Vai dormir!
- Oh, dona Caetana e aquele rapaz, o Frederico?
- Não me interessa- disse a Caetana, a apagar a última vela da cozinha.
- Ele até nem é mau de todo...Um franganito, magricelas! Mas mesmo assim...
- Ai que luxuriosa! Que horror, Rita de Fátima! Vai dormir!
- Vou sim, dona Caetana, vou sim! Mas antes vou lá fora apanhar ar que aqui está um calor que não se pode. Quando o padre S. Teotónio estava cá não havia este calor todo. Podera! Estes condes encheram a casa de porcaria! Está um ambiente insuportável! São baús e baús e o perfume daquela mulher? Ai...o perfume da condessa da-me a volta ao estômago. Não deve tomar banho e depois encharca-se em colónia ou lá o que é! Um nojo. Fui lá fora apanhar ar. Sentei-me num banquinho de madeira e deixei-me ali estar até sentir...até sentir, oh! Que estava a ser vigiada!
- Quem está aí?- perguntei, levantando-me rapidamente ao ver os arbustos a remexer- Responda! Eu...eu tenho...uma navalha! Saia ou corto-lhe a garganta! Vamos!- O arbusto parou e dele saiu um...ena! Homem!- Vamos! Diga! Quem sois?
- Um pobre e humilde...- Estranhei o sotaque. Não era português e estava a tentar fazer disso mesmo.
- Espanhol!!- Gritei, atirando-me a ele aos murros, e a gritar "Espanhol!"- Ele tapou-me a boca e, oh Deus, encostou-me firmemente contra si.
- Por qué no te callas?- Perguntou. E eu, com a boca tapada pela sua forte mão, claro que não respondi. Estava assustada, mas minimamente coonfortável, afinal, já fazia tempo que os seminaristas tinha abalado- Vou soltar-te, se continuares a gritar eu é que te corto a garganta!- Na verdade, ficava assim toda a noite, mas ele soltou-me.
- Malandro...-disse eu, compondo-me- Que fazes aqui?
- Eu sou Raúl, sou novo aqui na cidade.
- Mentiroso...Sei bem que andas a mando do conde Javier, inimigo do meu senhor- disse, juntando-me mais a ele, assim como quem não quer a coisa.
- Javier? Oh, não, não conheço ninguém com esse nome, deve estar enganada, eu sou Raúl, filho de Raúl e neto de Raúl e bisneto de...
- Raúl?
- Não, de Esteban.
- Ah...Então isso quer dizer que não é espanhol, ou seja, é espanhol mas não é pelo conde Javier?
-Claro que não sou minha doce, linda, magnifica, señorita...- Ai, "señorita" é d'homem! Ui!
- Alto!- disse alguém inesperadamente- Deixe a senhora e renda-se em nome de El-rei!- Era Frederico. Aii! Não é romantico ter dois homens a lutar por mim?- Rita, está bem?- perguntou ele.
- Sim, senhor Frederico, encontro-me em perfeito estado.
- E este senhor? Quem sois?- Disse ele, sempre de espada em punho.
- Sou...- disse o espanhol.
- É o Ra...-ia eu a dizer...
- Rafael!- disse ele. Olhou para mim com uns olhos que não sei se seriam mortais ou de desejo. E eu, como não gosto de me meter em confusões, não disse nada- Rafael, filho de Rafael, neto de Rafael e bisneto de...
- Rafael?
- Não, de Tomaz.
- Ah- disse o Frederico- e que fazes aqui?
- Vim fazer a corte à señorita...
- Blasfémia!- Gritei horrizada- Santa Fé! A corte? Pois se nem eu o conhecia!
- Vamos, señorita, não vale a pena negar...
- Não interessa!-disse o senhore Frederico zangado- fora daqui! Se quer fazer a corte à MENINA Rita, terá de pedir permissão à senhora Caetana, sua encarregada e de dia! Que inconveniente...Vamos, Rita, vamos para dentro. Não devia estar aqui fora com este malandro, nem com mais nenhum! Que perigo!
- Estava apenas com calor...-disse eu, com a cara mais angelical do mundo.
- Vamos beber água fresca do poço da herdade que eu mesmo fui buscar. As noites estão quentes- disse Frederico, escoltando-me até casa.
- Sim, muito quentes...- disse eu, ainda conseguindo piscar o olhinho ao espanholito Raúl Rafael, que se saía pelo portão.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vida nova na Santa Terrinha

Ai que frescante! Como ansiava por isto. É que a paisagem é inegávelmente bela, mas o calor é insuportável!
- Obrigado Aurora! Bebe um pouco de água também e descansa minha querida, estás com um ar cansado.
- Obrigado senhora.
- E agora Leucárdio? Quando é que entramos na bendita terra? Não fizemos este caminho todo para cansares a guarda com esses espanhóis malditos e agora ficamos aqui a olhar ...
- Mas tu queres entrar pelas muralhas sem qualquer tipo de recepção? Se tu queres entrar por ali a dentro sem qualquer tipo de pompa e circunstância vai. Eu cá quero ser recebido de acordo com o meu estatuto!
- Desculpe meu querido esposo, mas como pensa fazer tal coisa se a comitiva mal chega para encher uma mesa de banquete? Está a pensar fazer os coitados andarem numa correria só para lhe irem jogando pétalas na venta?
- Veja lá se você também não me vai fazer os mesmo! Vá mas é dar um jeito no cabelo que está um desalinho!
Ai só Deus sabe como aguento estas humilhações! Eu podia muito bem usar o meu nome de família para lhe acalmar os ânimos, os Leucárdio são simples formigas ao pé dos Castro, mas sou uma pessoa civilizada e não me dou a essas baixarias. Mas ele que não pense que isto fica assim, o povo é que sabe reconhecer aqueles com mérito para governar e logo logo Isabel de Castro estará nos seus corações e quiçá no poder.
Se a príncipio Santa Terrinha parecia abandonada logo se revelou uma total surpresa. As portas abriram-se e revelaram um grande batalhão de soldados ... gordos e a cair de bêbedos. El-Rei quis proteger o tesouro de qualquer forma e a única mandeira de convencer os soldados a permanecerem num local tão perigoso foi com ... vinho! O alcoól afasta todos os males e dá coragem aos mais medrosos. Parece que o plano resultou já que os espanhóis nunca conseguiram transpor as muralhas de Santa Terrinha.
- Aí tens a tua recepção Leucárdio! - disse em num tom sarcástico.
- Querida Isabel fica a saber que devem ser valentes estes homens! Com eles estaremos seguros!
- E então já está tudo preparado para entrar? - perguntei impaciente.
- Claro que sim, o Frederico nunca me falhou! As famílias de camponeses que vieram conosco já estão no interior, vamos ser recebidos como reis.
Apesar de duvidar, admito que fiquei entusiasmada com a ideia. Resolvi que seria a melhor altura para usar as jóias da minha mãe, aquelas mulheres vão ficar impressionadas com tamanha riqueza. Agora sim vou ter a atenção que mereço, as vénias, os bébés que as senhoras trazem nos braços para serem beijadas por tão distinta senhora ... os cavaleiros apoiadas num joelho a oferecerem rosas, o Leucárdio a segurar-me com firmeza ... ai!
- Está linda minha senhora!
- Obrigado Aurora! Sinto-me óptima, vamos então. O meu povo esperame.
Ao sair da tenda que foi montado provisoriamente, deparei-me com o meu querido Leucárdio, qual noivo no altar. Lembrei-me do nosso casamento, de como estava nervoso e de como ele me pareceu maravilhoso, ali à minha espera. Voltei à realidade quando fui acordada do meu sonho pelo padre Damião.
- Minha filha peço-lhe que não tenha muitas expectativas em relação à recepção. É que o povo está cansado e faminto e o dito batalhão não vê mulheres à mais de 8 meses! Receio que nem a guarda do seu marido seja capaz de lhes conter o entusiasmo.
- E que quer que faça?
- Aconselho-a a recatar a indumentária e pedir o mesmo à sua dama de companhia. E acima de tudo a não os olhar nos olhos, concentre-se no caminho.
- Não se preocupe padre, vai correr tudo que é uma maravilha! - restorquiu Leucárdio visivelmente entusiasmado - Vamos lá que o povo chama!
Atendi aos recados do padre e usei um lenço para cubrir os ombros. Montei a minha bonita égua branca e lá fomos nós que nem os reis a entrar pela porta grande para o delírio de todos. Senti as primeiras pétalas tocarem-me o rosto mal atravessámos a porta de seguida só ouvi gritos e aplausos. Percebi que os soldados estavam nas muralhas em cima e por isso baixei a cabeça e tentei nem olhar para a multidão. Senti um grande aperto no coração mas decidi obedecer às ordens do padre.
- Querida Isabel não cumprimenta o povo? - pergunta Leucárdio entre dentes.
- Mas o senhor padre ...
- Esquece o padre e faz o que te digo! Eles não te vão comer mulher! Só querem um pouco de atenção ...
- Sim minha senhora, as mulheres comentam já que Dona Isabel é fria e cruel. Sabe como são as más linguas, dê-lhes um sorriso!
- Tens razão Aurora, afinal não preciso de olhar para cima.
Ao levantar a mão o povo delirou e depressa começaram a gritar o meu nome, gritavam "Santa Isabel" e surgiram crianças de todos os lados a dançar em volta do meu cavalo e a oferecerem flores. O padre Damião exagerou com certeza, sempre é melhor ser chamada de santa do que ser repudidada. Decidi então acenar aos homens lá em cima ...
- Olha aquela!! Bem boa han! Anda cá docinho que te dou uma dentada ... ai ai que não! - gritava um.
- Não tem cara de santa digo-te já! - respondeu o outro.
- Cambada de bêbedos! - protestou Leucárdio entre dentes.
- Eu avisei-a Isabel, estes homens não tinham a atenção de uma mulher ...
- É verdade senhor padre e uma destas então! Ui! - exclamou um dos soldados que nos recebeu à porta da igreja.
- Vamos lá a ter respeitinho! Olhe que se não modera os comentários arrisca-se a ficar sem cabeça!
- Cortada por mim 'tá a ouvir!! - ameaça Frederico.
- Vamos a ter calma, afinal foi uma coisa sem importância. Leocárdio estes bravos homens arriscaram as suas vidas para guardar aquilo que é nosso.
- Talvez por isso é que ainda não os mandei embora Isabel. Bom mas vamos ao que interessa ... quem é o responsável por ...
- Pelo nosso estado Leocr ... Leucérd ... Leónidas, o nosso estado é culpa de El-Rei que nos regou de vinho e ... (soluço) ... coiso ... você é boa ... (soluço) ...
- O que o meu marido queria saber soldado é quem ficou encarregado de guardar as terras, o vosso líder?
- Ah a senhora é que sabe ... (soluço) ... falar com o povo, o seu marido ... (soluço) ... fala esquesitamente e ... ora líder pode ser, pode ser eu ... que querem saber?
- Temos de falar em privado! Assuntos de estado não são discutidos assim em frente a toda a gente.
- Tem toda a razão ... (soluço) ... não se pode confiar nesta gente, entre faxavor senhor conde, esteja à vontade! "Mi casa es su casa!"
- Que disse??? - perguntou Leucárdio.
- Perdão?
- Repita lá isso!!
- Eu arrotei e pedi perdão ... (soluço) ... a minha mãe educou-me bem e ...
- Pensei ter ouvido outra coisa, outro idioma. Mas continuando, preciso que me diga onde está aquilo que você sabe.
- Aquilo que eu (soluço) sei?
- Sim o c ...
- Desculpe mas (soluço) não o percebo.
- Querido não acha cedo para já estar com esses assuntos? É tempo de celebrar, assar uns javalis e receber as gentes para o beija-mão. Devem estar esfomeados os coitados!
- Esfomeados? A gente? Não senhora (soluço) não. A gente tem a senhora Custódia que cozinha para gente, é uma cozinheira e tanto!
- Mas pensei que não viam mulheres à 8 meses?
- Oh Dona (soluço) Isabel, a senhora Custódia não é digamos propriamente ... coiso.
- Bom, bom não sei se me agradam esses termos soldado! Veja como fala. Isto agora é uma terra de gente honeste e devota, acabou-se os dias de devassidão.
- Com certeza senhor (soluço) conde! Vou mandar a Custódia fazer uns petiscos para honrar vossas senhorias.
Depois de um banquete digno de reis, foi tempo de subirmos ao quarto que eu já não aguentava os sapatos. Leucárdio ainda estava a pensar tratar do "assunto" mas eu insisti que já chegava de confusões por um dia. Sim por que no estado em que os homens estavam não se iam sequer chegar a conclusões. O Leucárdio já tomou conta da situação e as pipas de vinho que restam estão fechadas a cadeado na cave. A ressaca que se avizinha não será um espectáculo bonito de se ver.
Finalmente estava deitada na minha cama, a minha linda cama ao pé do meu lindo marido. É claro que como mulher apaixonada que sou tentei tornar a nossa primeira noite em Santa Terrinha uma noite especial. Fiz-lhe festas no cabelo, beijei-lhe o pescoço, entrelacei as minha mãos nas dele e nada! O homem permaneceu imóvel de olhos no tecto, quase parecia morto. Estava quase a desistir quando de repente se lança a mim numa fúria nunca antes vista. Assustei-me de ínicio mas depois deixei-me levar. Oh meu amor! Que emoção, ele ama-me como eu sempre soube!!
Passados 5 minutinhos apenas voltou-se de costas para adormecer. Bem não me posso queixar, muita mulher desejaria estar no meu lugar. Estava eu a voltar-me quando ouvi um "amén".
- Que foi isso meu amor? Disses-te alguma coisa?
- Eu? Eu estou é a tentar dormir, não teve já o que queria? Não era por isso que estava aí com essas ... coisas.
- Falas como se tivesses a cumprir uma missão! Uma tarefa!
- E não o é? Fiz o que tinha a fazer, agora é a sua vez de fazer a sua.
- Que queres dizer com isso?
- Quero um filho se não for pedir muito. Agora boa noite.
- Olha se é só para isso que me queres, e agora que já cumpris-te o teu dever, posso muito bem arranjar um amante que me satisfaça verdadeiramente! Quem sabe um espanhol, ouvi dizer que são mais ardentes!
- Vou fingir que não ouvi isso. Boa noite Isabel.
- Queres que repita?? Talvez mais alto ... VOU ARRANJAR ...
- CALA-TE JÁ!
E assim começou a nossa vida em Santa Terrinha. Mas ele está enganado se pensa que não vou cumprir a minha promessa! Sou uma mulher que honra as suas promessas, vou honrá-las e bem!

O primeiro impacto

- Señor! Señor! Olhe a comitiva que está aí a chegar! Parecem...oh, não! As carruagens têm o simbolo da coroa portuguesa, señor! A coisa vai azedar...
- Saiam da frente! Saaaaiam!! Apre!- Disse, enquanto ia ao encontro do Raúl, que me chamava como que estivessemos a ser invadidos. O facto de ter trazido aquela gente toda de mi España foi talvez um erro...Mas, a tia, sempre com aquela de que os velhos têm mais sabedoria, teve esta ideia e eu nada posso fazer contra isso- saiam daqui! Raúl, não percebi nada do que disseste, repete, por favor- Não foi preciso repetir. Vi várias carruagens a pararem em frente àquela que iria ser a nossa cidade. Fiquei supreso, cresci três palmos, compus-me e avancei.
- Quem sois?- Perguntei a um criado, o primeiro, que seguia em frente daquela romaria.
- São os senhores condes: Leucárdio e Isabel. Por ordem de El-rei de Portugal vimos ocupar as terras santas desta zona- A surpresa foi ainda maior quando vejo um pequeno pé a descer de uma das carruagens. Um pé pequeno, é certo, mas que pertencia a uma pessoa grande, em nome, título e estatura.
- Saiam daí! Xô! Que maçada...Oh! Pst! O senhor aí!- Olhei para todos os lados, apontei para mim mesmo e constactei que se dirigia a mim- Sim, o senhor. Vá lá dizer ao seu senhor, ou lá o que é, para tirar aí a gentalha da frente que eu tenho mais que fazer! Quero passar!- Fiquei a olhar para ele, chocado, por me confundir com um reles criado!
- Senhor! Estais a falar com o conde Javier!- Disse Raúl, que desceu do seu cavalo, ao ouvir tamanha injustiça.
- Javier?- disse o conde de meia tigela- És tu? Oh, oh! Estás velho como um tronco de carvalho!- Desceu totalmente da carruagem e veio ter comigo. Dando-me uma palmadinha nas costas acrescentou:- Não te lembras de mim?...- Não respondi, achei que a minha expressão revelava o que sentia- Ora...Javier! Sou o Leucárdio, brincámos juntos quando eramos crianças! O meu pai, Guilherme Leucárdio, que Deus nosso Senhor Jesus Cristo em todo a sua glória tem, e o teu eram amigos, conhecidos vá...- Continuei a olhar para ele por uns segundos. Na verdade não me lembrava de ninguém com esse nome e...Velho? Eu? Quem é ele para dizer isso? Ele era, de longe, mais velho que eu uns 10 anos! Pronto, talvez só 5.
- Perdoai-me senhor por duas coisas: Em primeiro lugar não me lembro de si. Nunca saí de Espanha quando era pequeno, na verdade, começei só agora a fazer algumas viagens, todas elas de negócios. Em segundo lugar: Não vou sair daqui.
- Mas que arrogância! Vai sim que eu tenho ordem de El-Rei! Tenho um papel com a assinatura dele e tudo! Vá, saia lá, senão vamos ter de resolver isto de outra forma...
-Que seja de outra forma!! Raúl!!- Gritei, fiz um gesto e o Raúl impos a sua espada mesmo em frente do nariz do conde , no entanto, saltou logo um meia-leca do lado português para defender o seu senhor.
- Muito bem- disse o cobardolas- se tem de ser assim, assim será. Só espero que tenha uma boa guarda, meu caro conde Javier, porque a minha guarda pessoal é do melhor que há na Península Ibérica! Começando aqui pelo fiel Frederico- Toda a minha comitiva se começou a rir.
- Quanto é que quer por esta...terrinha?- perguntei, chegando-me mais perto dele.
- Chegue-se para lá!- gritou o tal Frederico.
- Quanto é que quero?? Quanto é que quero?? Mas você acha que eu sou o quê? Pensa que me vai comprar? Pensa que eu não sei o valor destas terras? Hã? Pensa que eu não sei que, graças a Deus, se esconde no chão, na terra, nas entranhas desta pequena terra, aquele que é o cálice sagrado? A taça de Jesus Todo Poderoso! Seu...trafulha! Eu não quero nada em troca, nada, está a ouvir? Quero aquilo que é meu por direito, que El-Rei me concedeu com toda a confiança! Ordeno que saia das minhas terras agora!...Já!- Não saí e começou uma luta, uma batalha, uma guerra! Entre os meus e os dele, entre eu e...eles, porque mal começou a luta, o tenebroso, malvado, conde Leucárdio saltou para os braços do fraco Frederico, que o levou assim mesmo, ao colo, para dentro da carruagem. Infelizmente, o final feliz foi para os portuguêses. Sim, o condezeco tinha razão: a guarda dele era muito mais forte que a minha.
- Eu volto!!- disse eu, saindo com toda aquela gente atrás- Não me veceste ainda Leucárdio, filho de Guilherme Leucárdio!- A minha armada foi, a minha gente foi, mas eu fiquei a espiar mais o Raúl. Tinhamos de saber onde ficariam eles, que tipo de gente era aquela. Mal "saímos", o conde pos a cabecinha de fora.
- Ai...Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus!! Que mal fiz?? Mas porquê??- dizia ele, enquanto saía da carruagem, compondo-se- Quase que me abalrroam a carruagem, com duas senhoras dentro, meu santissimo sacramento! Isabel, Aurora, caras senhoras, tenham a bondade de sair e ver esta bela paisagem...- Sim, a paisagem era das mais belas já vistas. Santa Terrinha era pequena mas muito verde, com campos ainda mais verdes, prontos para serem cultivados. Oh...Tanta e tão boa agricultura se pode fazer naquela terra sagrada. Por ser sagrada é abençoada, por ser abençoada é fértil e arenosa, em suma, óptima para criar alimento e dinheiro!
- Ai, senhor meu marido...Estou exausta! Amarrotada! Leva-me daqui agora, preciso de um banho...Não exageremos, pode ser apenas lavar a cara. Aurora! Vem me ajudar, estou toda descomposta!- Naquele momento saiu daquela carruagem a mais bela criatura que já alguma vez tinha visto ao cimo da terra. Aurora...Aurora, bela como a manhã, um primeiro raio de sol, uma luz clara que a rodeia. Não podia ter nome melhor...Aurora...
- Sim, minha senhora, vou já- e começou a ajeitar o vestido da sua senhora- Assim está melhor, senhora?
- Sim, obrigada querida. Agora, Leucárdio! Vamos embora, já bem basta termos de lidar com aquela espanholada toda, cruzes!
-Sim, vamos sim, temos de tomar conta da nossa Santa Terrinha! Vamos, vamos em frente!- Disse o conde.
- Señor?...Señor?- disse o Raúl, acordando-me daquele sonho da manhã...Aurora...deixou-me nas nuvens.
- Amanhã começamos o cerco?- perguntou.
- Sim, amanhã eu terei a Santa Terrinha e, quem sabe, algo mais...