Logo de manhã, nem o sol tinha nascido, uma gritaria daquelas...- Eu não saio daqui! Esta casa é tanto minha como tua, aliás, muito mais minha! Deixa o paizinho saber disto.
- Estou-me a lixar para ti e para o teu paizinho! Nunca mais te quero ver, Isabel! Muito simpático fui eu em te ter deixado ficar aqui esta noite! Senão tinhas ido atrás daquele rato pelado pela janela fora...Pena, pena, não lhe ter visto o rosto, aquele estupor...Enganaste-me, Isabel!
- Ah...Leucárdio, por amor de santa Teresa...Pensas que eu não sei das tuas escapadelas, andas aí a levantar as saias às meninas, às senhoras e às idosas!
- Blasfémia!
- Qual quê!? Eu sei bem o que digo! E a última foi essa aí...ingrata, fingida, falsa e oferecida!- O conde e a condessa discutiam no meio da sala, enquanto a Aurora e o Frederico assistiam a tudo, impedindo que os dois partissem para a pancada. Acabou por sobrar para a enfezadinha da Aurora, que pode ser enfezada mas tem os estudos todos de malandragem! É o que eu digo...são as piores. Eu desci as escadas de serviço e fiquei a ouvir e a ver, discretamente, toda aquela trama.
- Senhora Isabel...Eu nunca...
- Aurora, não diga nada...-disse o conde, calando a branquela- Já chega, Isabel- disse ele, com um ar mais sereno, com a cara mais fechada, sem gritar ou esbracejar- Vais ter com o teu pai, com o teu irmão com o raio que te parta, mas sai desta casa agora. Senão, todos os da Terrinha vão saber o que a mulher do conde é...
- Estás-me a chamar de p...
- Nunca o disse, as palvras saíram da tua boca, mulher. Deus seja louvado por me ter posto à frente dos olhos aquilo que me andavas a fazer. Hoje mesmo escreverei uma carta ao Santissimo Papa, e ele vai avaliar o nosso caso e vai nos dar, com toda a fé, a separação oficial e religiosa do nosso matrimónio.
- Como homem de Deus, que dizes que és, como homem de principios, religioso e tudo mais vais quebrar o que Deus uniu!- Disse ela, pegando numa pequena mala, já determinada a abandonar a casa.
- Não metas Deus nisto! É pecado até tu proferires o nome Dele.- Esta foi a deixa para a madame se por a andar. Seguida de mais umas quantas aias, menos a Aurora, claro, ia a sair porta fora- Isabel!- Disse o conde- Não estás a pensar sair pela porta da frente, pois não?...- Ela olhou para todos, um por um. Deu meia volta e, seguida pelo seu pequeno exército de aias, passou por mim, dando-me um ligeiro empurrão, e lá foi ela, pela porta dos fundos, pela calada do nascer do dia.
- Olha por onde andas!- disse-lhe eu.
- Rita, por favor, não diga essas coisas dessa maneira...-disse o conde- chegue aqui- Eu cheguei- Oiça- disse ele, colocando a mão dele sobre o meu ombro, algo demasiado intimo entre o patrão e a criada, mas que não desgostei, confesso- A menina não pode ser assim ão rude. É tão bonita, tem boa cabeça...De hoje em diante vai ter aulas com a menina Aurora.
- AULAS?- disse-mos as duas.
- Sim, isso mesmo: aulas. Aulas de comportamento, postura, delicadeza, etiqueta, tudo o que uma menina deve saber.
- Mas para quê, senhor conde? Eu sou mesmo assim bruta e olho que não desgosto, tenho conseguido muita coisa na vida com esta brutidade.
- Como o quê?- disse o Frederico, metendo-se ao barulho.
- Homens- disse eu- mas homens de bem!-Todos me olharam. Enfim, ficou combinado que a partir dali teria aulas todos os finais de tarde com a enfezada. Nesse mesmo final de tarde começámos. A Aurora estava-me a explicar o modo de me sentar. Como uma donzela se deveria sentar. Eu, que me sentava sempre de perna aberta, de modo a não ter calor, e de modo a que as saias não me atrapalhacem as pernas, agora tenho de me sentar toda direitinha, perninhas juntas, enfim, tudo isto acabou quando alguém chega à casa do conde. Mais gritos se ouviram, coisas que se partiam...definitivamente, aquele dia era o dia das gritarias. Eu e a Aurora descemos as escadas a correr. Claro que cheguei primeiro, ela parece que anda com medo de pisar o chão, é uma irritação que me dá aquela mulher...Enfim, ambas parámos no final das escadas. O espanhol, sim, ele mesmo, estava na sala do conde e o conde, esse, estava mais vermelho que um tomate.
- Saaaai!!- dizia o conde- Como entraste aqui em Santa Terrinha? Como?
- Achas que te vou dizer, meu estupor?
- Chega! Sai da minha casa.
- Eu saio, eu saio...-dizia o conde espanhol de mãos no ar- Só te queria dizer uma coisa: a tua queria mulher está do nosso lado.
- Mas que...
- Mas que nada! Agora ela é nossa.
- Isto parece um jogo idiota, sem escrúpulos. Aquela...rameira!
- É...um bocadinho, sim...Era só para te dizer isto!
- Guardas!!- O conde, ao dizer isto, instalou o caus! Os guardas entraram e...não, não apanharam o espanhol! Naquele momento parecia que algo estava a pegar fogo naquela sala, parecia...magia!Fumo, fumo, fumo por todo o lado! Só podia ser obra do diabo, pensei.
- Guardas! cof...cof...Guardas! Prendam esse espanhol!- dizia o conde. Mas...no final da fumarada, estavam os guardas a prenderem-se uns aos outros. O Frederico estava ao lado do conde, que estava a tossir como tudo. Só eu permanecia no mesmo sítio. Nunca temi tanto a morte...nunca tinha visto nada assim! Obra do demónio! Fumo e...
- Onde está a Aurora?- perguntou o Frederico- O conde, com isto, parecia que tinha fogo no rabo! Correu escada acima, abriu as portas de todos os quartos. Correu escada abaixo foi a cozinha, onde a Caetana rezava agarrada ao St. António, e voltou para a sala praticamente sem folego.
- Aquele cabrão...levou-me a Aurora...- Olha que porra! Pensei. Nem uma aula de etiqueta tive e já fiquei sem professora.









