quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Vida nova na Santa Terrinha

Ai que frescante! Como ansiava por isto. É que a paisagem é inegávelmente bela, mas o calor é insuportável!
- Obrigado Aurora! Bebe um pouco de água também e descansa minha querida, estás com um ar cansado.
- Obrigado senhora.
- E agora Leucárdio? Quando é que entramos na bendita terra? Não fizemos este caminho todo para cansares a guarda com esses espanhóis malditos e agora ficamos aqui a olhar ...
- Mas tu queres entrar pelas muralhas sem qualquer tipo de recepção? Se tu queres entrar por ali a dentro sem qualquer tipo de pompa e circunstância vai. Eu cá quero ser recebido de acordo com o meu estatuto!
- Desculpe meu querido esposo, mas como pensa fazer tal coisa se a comitiva mal chega para encher uma mesa de banquete? Está a pensar fazer os coitados andarem numa correria só para lhe irem jogando pétalas na venta?
- Veja lá se você também não me vai fazer os mesmo! Vá mas é dar um jeito no cabelo que está um desalinho!
Ai só Deus sabe como aguento estas humilhações! Eu podia muito bem usar o meu nome de família para lhe acalmar os ânimos, os Leucárdio são simples formigas ao pé dos Castro, mas sou uma pessoa civilizada e não me dou a essas baixarias. Mas ele que não pense que isto fica assim, o povo é que sabe reconhecer aqueles com mérito para governar e logo logo Isabel de Castro estará nos seus corações e quiçá no poder.
Se a príncipio Santa Terrinha parecia abandonada logo se revelou uma total surpresa. As portas abriram-se e revelaram um grande batalhão de soldados ... gordos e a cair de bêbedos. El-Rei quis proteger o tesouro de qualquer forma e a única mandeira de convencer os soldados a permanecerem num local tão perigoso foi com ... vinho! O alcoól afasta todos os males e dá coragem aos mais medrosos. Parece que o plano resultou já que os espanhóis nunca conseguiram transpor as muralhas de Santa Terrinha.
- Aí tens a tua recepção Leucárdio! - disse em num tom sarcástico.
- Querida Isabel fica a saber que devem ser valentes estes homens! Com eles estaremos seguros!
- E então já está tudo preparado para entrar? - perguntei impaciente.
- Claro que sim, o Frederico nunca me falhou! As famílias de camponeses que vieram conosco já estão no interior, vamos ser recebidos como reis.
Apesar de duvidar, admito que fiquei entusiasmada com a ideia. Resolvi que seria a melhor altura para usar as jóias da minha mãe, aquelas mulheres vão ficar impressionadas com tamanha riqueza. Agora sim vou ter a atenção que mereço, as vénias, os bébés que as senhoras trazem nos braços para serem beijadas por tão distinta senhora ... os cavaleiros apoiadas num joelho a oferecerem rosas, o Leucárdio a segurar-me com firmeza ... ai!
- Está linda minha senhora!
- Obrigado Aurora! Sinto-me óptima, vamos então. O meu povo esperame.
Ao sair da tenda que foi montado provisoriamente, deparei-me com o meu querido Leucárdio, qual noivo no altar. Lembrei-me do nosso casamento, de como estava nervoso e de como ele me pareceu maravilhoso, ali à minha espera. Voltei à realidade quando fui acordada do meu sonho pelo padre Damião.
- Minha filha peço-lhe que não tenha muitas expectativas em relação à recepção. É que o povo está cansado e faminto e o dito batalhão não vê mulheres à mais de 8 meses! Receio que nem a guarda do seu marido seja capaz de lhes conter o entusiasmo.
- E que quer que faça?
- Aconselho-a a recatar a indumentária e pedir o mesmo à sua dama de companhia. E acima de tudo a não os olhar nos olhos, concentre-se no caminho.
- Não se preocupe padre, vai correr tudo que é uma maravilha! - restorquiu Leucárdio visivelmente entusiasmado - Vamos lá que o povo chama!
Atendi aos recados do padre e usei um lenço para cubrir os ombros. Montei a minha bonita égua branca e lá fomos nós que nem os reis a entrar pela porta grande para o delírio de todos. Senti as primeiras pétalas tocarem-me o rosto mal atravessámos a porta de seguida só ouvi gritos e aplausos. Percebi que os soldados estavam nas muralhas em cima e por isso baixei a cabeça e tentei nem olhar para a multidão. Senti um grande aperto no coração mas decidi obedecer às ordens do padre.
- Querida Isabel não cumprimenta o povo? - pergunta Leucárdio entre dentes.
- Mas o senhor padre ...
- Esquece o padre e faz o que te digo! Eles não te vão comer mulher! Só querem um pouco de atenção ...
- Sim minha senhora, as mulheres comentam já que Dona Isabel é fria e cruel. Sabe como são as más linguas, dê-lhes um sorriso!
- Tens razão Aurora, afinal não preciso de olhar para cima.
Ao levantar a mão o povo delirou e depressa começaram a gritar o meu nome, gritavam "Santa Isabel" e surgiram crianças de todos os lados a dançar em volta do meu cavalo e a oferecerem flores. O padre Damião exagerou com certeza, sempre é melhor ser chamada de santa do que ser repudidada. Decidi então acenar aos homens lá em cima ...
- Olha aquela!! Bem boa han! Anda cá docinho que te dou uma dentada ... ai ai que não! - gritava um.
- Não tem cara de santa digo-te já! - respondeu o outro.
- Cambada de bêbedos! - protestou Leucárdio entre dentes.
- Eu avisei-a Isabel, estes homens não tinham a atenção de uma mulher ...
- É verdade senhor padre e uma destas então! Ui! - exclamou um dos soldados que nos recebeu à porta da igreja.
- Vamos lá a ter respeitinho! Olhe que se não modera os comentários arrisca-se a ficar sem cabeça!
- Cortada por mim 'tá a ouvir!! - ameaça Frederico.
- Vamos a ter calma, afinal foi uma coisa sem importância. Leocárdio estes bravos homens arriscaram as suas vidas para guardar aquilo que é nosso.
- Talvez por isso é que ainda não os mandei embora Isabel. Bom mas vamos ao que interessa ... quem é o responsável por ...
- Pelo nosso estado Leocr ... Leucérd ... Leónidas, o nosso estado é culpa de El-Rei que nos regou de vinho e ... (soluço) ... coiso ... você é boa ... (soluço) ...
- O que o meu marido queria saber soldado é quem ficou encarregado de guardar as terras, o vosso líder?
- Ah a senhora é que sabe ... (soluço) ... falar com o povo, o seu marido ... (soluço) ... fala esquesitamente e ... ora líder pode ser, pode ser eu ... que querem saber?
- Temos de falar em privado! Assuntos de estado não são discutidos assim em frente a toda a gente.
- Tem toda a razão ... (soluço) ... não se pode confiar nesta gente, entre faxavor senhor conde, esteja à vontade! "Mi casa es su casa!"
- Que disse??? - perguntou Leucárdio.
- Perdão?
- Repita lá isso!!
- Eu arrotei e pedi perdão ... (soluço) ... a minha mãe educou-me bem e ...
- Pensei ter ouvido outra coisa, outro idioma. Mas continuando, preciso que me diga onde está aquilo que você sabe.
- Aquilo que eu (soluço) sei?
- Sim o c ...
- Desculpe mas (soluço) não o percebo.
- Querido não acha cedo para já estar com esses assuntos? É tempo de celebrar, assar uns javalis e receber as gentes para o beija-mão. Devem estar esfomeados os coitados!
- Esfomeados? A gente? Não senhora (soluço) não. A gente tem a senhora Custódia que cozinha para gente, é uma cozinheira e tanto!
- Mas pensei que não viam mulheres à 8 meses?
- Oh Dona (soluço) Isabel, a senhora Custódia não é digamos propriamente ... coiso.
- Bom, bom não sei se me agradam esses termos soldado! Veja como fala. Isto agora é uma terra de gente honeste e devota, acabou-se os dias de devassidão.
- Com certeza senhor (soluço) conde! Vou mandar a Custódia fazer uns petiscos para honrar vossas senhorias.
Depois de um banquete digno de reis, foi tempo de subirmos ao quarto que eu já não aguentava os sapatos. Leucárdio ainda estava a pensar tratar do "assunto" mas eu insisti que já chegava de confusões por um dia. Sim por que no estado em que os homens estavam não se iam sequer chegar a conclusões. O Leucárdio já tomou conta da situação e as pipas de vinho que restam estão fechadas a cadeado na cave. A ressaca que se avizinha não será um espectáculo bonito de se ver.
Finalmente estava deitada na minha cama, a minha linda cama ao pé do meu lindo marido. É claro que como mulher apaixonada que sou tentei tornar a nossa primeira noite em Santa Terrinha uma noite especial. Fiz-lhe festas no cabelo, beijei-lhe o pescoço, entrelacei as minha mãos nas dele e nada! O homem permaneceu imóvel de olhos no tecto, quase parecia morto. Estava quase a desistir quando de repente se lança a mim numa fúria nunca antes vista. Assustei-me de ínicio mas depois deixei-me levar. Oh meu amor! Que emoção, ele ama-me como eu sempre soube!!
Passados 5 minutinhos apenas voltou-se de costas para adormecer. Bem não me posso queixar, muita mulher desejaria estar no meu lugar. Estava eu a voltar-me quando ouvi um "amén".
- Que foi isso meu amor? Disses-te alguma coisa?
- Eu? Eu estou é a tentar dormir, não teve já o que queria? Não era por isso que estava aí com essas ... coisas.
- Falas como se tivesses a cumprir uma missão! Uma tarefa!
- E não o é? Fiz o que tinha a fazer, agora é a sua vez de fazer a sua.
- Que queres dizer com isso?
- Quero um filho se não for pedir muito. Agora boa noite.
- Olha se é só para isso que me queres, e agora que já cumpris-te o teu dever, posso muito bem arranjar um amante que me satisfaça verdadeiramente! Quem sabe um espanhol, ouvi dizer que são mais ardentes!
- Vou fingir que não ouvi isso. Boa noite Isabel.
- Queres que repita?? Talvez mais alto ... VOU ARRANJAR ...
- CALA-TE JÁ!
E assim começou a nossa vida em Santa Terrinha. Mas ele está enganado se pensa que não vou cumprir a minha promessa! Sou uma mulher que honra as suas promessas, vou honrá-las e bem!

O primeiro impacto

- Señor! Señor! Olhe a comitiva que está aí a chegar! Parecem...oh, não! As carruagens têm o simbolo da coroa portuguesa, señor! A coisa vai azedar...
- Saiam da frente! Saaaaiam!! Apre!- Disse, enquanto ia ao encontro do Raúl, que me chamava como que estivessemos a ser invadidos. O facto de ter trazido aquela gente toda de mi España foi talvez um erro...Mas, a tia, sempre com aquela de que os velhos têm mais sabedoria, teve esta ideia e eu nada posso fazer contra isso- saiam daqui! Raúl, não percebi nada do que disseste, repete, por favor- Não foi preciso repetir. Vi várias carruagens a pararem em frente àquela que iria ser a nossa cidade. Fiquei supreso, cresci três palmos, compus-me e avancei.
- Quem sois?- Perguntei a um criado, o primeiro, que seguia em frente daquela romaria.
- São os senhores condes: Leucárdio e Isabel. Por ordem de El-rei de Portugal vimos ocupar as terras santas desta zona- A surpresa foi ainda maior quando vejo um pequeno pé a descer de uma das carruagens. Um pé pequeno, é certo, mas que pertencia a uma pessoa grande, em nome, título e estatura.
- Saiam daí! Xô! Que maçada...Oh! Pst! O senhor aí!- Olhei para todos os lados, apontei para mim mesmo e constactei que se dirigia a mim- Sim, o senhor. Vá lá dizer ao seu senhor, ou lá o que é, para tirar aí a gentalha da frente que eu tenho mais que fazer! Quero passar!- Fiquei a olhar para ele, chocado, por me confundir com um reles criado!
- Senhor! Estais a falar com o conde Javier!- Disse Raúl, que desceu do seu cavalo, ao ouvir tamanha injustiça.
- Javier?- disse o conde de meia tigela- És tu? Oh, oh! Estás velho como um tronco de carvalho!- Desceu totalmente da carruagem e veio ter comigo. Dando-me uma palmadinha nas costas acrescentou:- Não te lembras de mim?...- Não respondi, achei que a minha expressão revelava o que sentia- Ora...Javier! Sou o Leucárdio, brincámos juntos quando eramos crianças! O meu pai, Guilherme Leucárdio, que Deus nosso Senhor Jesus Cristo em todo a sua glória tem, e o teu eram amigos, conhecidos vá...- Continuei a olhar para ele por uns segundos. Na verdade não me lembrava de ninguém com esse nome e...Velho? Eu? Quem é ele para dizer isso? Ele era, de longe, mais velho que eu uns 10 anos! Pronto, talvez só 5.
- Perdoai-me senhor por duas coisas: Em primeiro lugar não me lembro de si. Nunca saí de Espanha quando era pequeno, na verdade, começei só agora a fazer algumas viagens, todas elas de negócios. Em segundo lugar: Não vou sair daqui.
- Mas que arrogância! Vai sim que eu tenho ordem de El-Rei! Tenho um papel com a assinatura dele e tudo! Vá, saia lá, senão vamos ter de resolver isto de outra forma...
-Que seja de outra forma!! Raúl!!- Gritei, fiz um gesto e o Raúl impos a sua espada mesmo em frente do nariz do conde , no entanto, saltou logo um meia-leca do lado português para defender o seu senhor.
- Muito bem- disse o cobardolas- se tem de ser assim, assim será. Só espero que tenha uma boa guarda, meu caro conde Javier, porque a minha guarda pessoal é do melhor que há na Península Ibérica! Começando aqui pelo fiel Frederico- Toda a minha comitiva se começou a rir.
- Quanto é que quer por esta...terrinha?- perguntei, chegando-me mais perto dele.
- Chegue-se para lá!- gritou o tal Frederico.
- Quanto é que quero?? Quanto é que quero?? Mas você acha que eu sou o quê? Pensa que me vai comprar? Pensa que eu não sei o valor destas terras? Hã? Pensa que eu não sei que, graças a Deus, se esconde no chão, na terra, nas entranhas desta pequena terra, aquele que é o cálice sagrado? A taça de Jesus Todo Poderoso! Seu...trafulha! Eu não quero nada em troca, nada, está a ouvir? Quero aquilo que é meu por direito, que El-Rei me concedeu com toda a confiança! Ordeno que saia das minhas terras agora!...Já!- Não saí e começou uma luta, uma batalha, uma guerra! Entre os meus e os dele, entre eu e...eles, porque mal começou a luta, o tenebroso, malvado, conde Leucárdio saltou para os braços do fraco Frederico, que o levou assim mesmo, ao colo, para dentro da carruagem. Infelizmente, o final feliz foi para os portuguêses. Sim, o condezeco tinha razão: a guarda dele era muito mais forte que a minha.
- Eu volto!!- disse eu, saindo com toda aquela gente atrás- Não me veceste ainda Leucárdio, filho de Guilherme Leucárdio!- A minha armada foi, a minha gente foi, mas eu fiquei a espiar mais o Raúl. Tinhamos de saber onde ficariam eles, que tipo de gente era aquela. Mal "saímos", o conde pos a cabecinha de fora.
- Ai...Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus!! Que mal fiz?? Mas porquê??- dizia ele, enquanto saía da carruagem, compondo-se- Quase que me abalrroam a carruagem, com duas senhoras dentro, meu santissimo sacramento! Isabel, Aurora, caras senhoras, tenham a bondade de sair e ver esta bela paisagem...- Sim, a paisagem era das mais belas já vistas. Santa Terrinha era pequena mas muito verde, com campos ainda mais verdes, prontos para serem cultivados. Oh...Tanta e tão boa agricultura se pode fazer naquela terra sagrada. Por ser sagrada é abençoada, por ser abençoada é fértil e arenosa, em suma, óptima para criar alimento e dinheiro!
- Ai, senhor meu marido...Estou exausta! Amarrotada! Leva-me daqui agora, preciso de um banho...Não exageremos, pode ser apenas lavar a cara. Aurora! Vem me ajudar, estou toda descomposta!- Naquele momento saiu daquela carruagem a mais bela criatura que já alguma vez tinha visto ao cimo da terra. Aurora...Aurora, bela como a manhã, um primeiro raio de sol, uma luz clara que a rodeia. Não podia ter nome melhor...Aurora...
- Sim, minha senhora, vou já- e começou a ajeitar o vestido da sua senhora- Assim está melhor, senhora?
- Sim, obrigada querida. Agora, Leucárdio! Vamos embora, já bem basta termos de lidar com aquela espanholada toda, cruzes!
-Sim, vamos sim, temos de tomar conta da nossa Santa Terrinha! Vamos, vamos em frente!- Disse o conde.
- Señor?...Señor?- disse o Raúl, acordando-me daquele sonho da manhã...Aurora...deixou-me nas nuvens.
- Amanhã começamos o cerco?- perguntou.
- Sim, amanhã eu terei a Santa Terrinha e, quem sabe, algo mais...

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Senhor dai-me forças!

- Por amor de Deus Isabel! Será que precisas de tanta coisa para sobreviver?
- E tu achas bem que uma mulher tão importante como eu, com uma responsabilidade para com sua Majestade e para com o povo, deva vestir-me dia após dia com a mesma indumentária?
- Podias alternar ao menos! Com isto tudo não chegamos à Santa Terrinha nem daqui a um ano!
- Mas agora a sério Leocárdio, qual é o nome da terra que te coube gerir e povoar?
- Santa Terrinha! Acabei de te dizer, mas agora para além de estéril és surda? Se sua Majestade está à espera que povoemos sózinhos a região bem pode esperar sentado.
- Não basta dizeres essas barbaridades ainda fazes questão que os criados as oiçam? Ao menos tem a decência de guardar tais pensamentos. E ainda para mais não sabemos se o problema será meu. O padre Damião referiu que muitas vezes as mulheres são acusadas de infertilidade quando o problema reside em maridos incapazes.
- A ti te garanto que o problema é teu!
- Que conversa é essa?? Por acaso já andas-te a testar as tuas sementes por aí?
- Mas como ousas falar assim com o teu marido? Deves-me respeito!! Nunca vi mulher mais irresponsável, malcriada, desavergonhada ... o meu pai bem me avisou que eu não devia olhar à aparência. Tinha ficado mais bem servido com a gorda da Maria Glória!! Essa só faz é ter filhos!
- Então aindas estás a tempo! Pede a anulação e vai atrás dela, que eu também não irei ficar sozinha por muito tempo ...
- Insolente ... queres desfazer aquilo que Deus abençoou??
- Desculpe senhor ... mas o padre Damião está impaciente e ... pergunta se está demorada a partida? - pergunta o escudeiro Frederico amedrontado.
- Ele que espere! - respondi.
- Ele que suba! - lançou Isabel.
Esta mulher dá me cabo dos nervos! Antes que perca a cabeça vou mas é beber alguma coisa que me adormeça a mente. E agora ainda vou ter de aturar aquele maldito padre que só me sabe criticar, eu um homem que serve a Deus com tanto temor. Aquela mulher sim é obra do diabo e foi por isso que conseguiu virá-lo contra mim. Se não fosse a honra que El-Rei me concedeu estaria a um passo da loucura! Mas tenho esperança que os ares do campo me façam bem.
- Querida Isabel!
- Padre Damião! Fico tão feliz de aqui estar!
- Senhor conde.
- Padre Damião. Bom vou deixar-vos a sós, não se demore minha querida. - despide-me com um beijo na mão.
- Então diga-me minha querida, como tem estado?
- Ansiosa senhor padre, sempre vivi na capital, no centro de tudo ... e agora vou para nenhures, ao que dizem lado a lado com os espanhóis, desejosos de se apoderarem daquelas terras.
- Acredite minha querida que El-Rei confia que o seu marido tem capacidade para se ocupar da situação e considera a tarefa demasiado importanten para a entregar a qualquer um. E mais, segundo algumas informações, parece que a recompensa não será modesta. Quem sabe se a sua família não será em breve uma das mais importantes de Portugal, os seus filhos poderão mesmo ser ligados ao futuro dos infantes.
- Acha mesmo?
- Claro minha filha.
- Mas aí reside o problema como sabe.
- Vai ver que o campo fará bem ao feitio do seu esposo. Lá terá menos distrações, de saias pelo menos.
- Se Deus quiser! Não sei quanto mais tempo aguentarei esta situação sem dizer uma palavra.
- Mas é esse o teu dever minha filha. Verás que logo logo terás um filho nos teus braços!
- Querido padre, tem sido o melhor dos amigos!
Andei de um lado para o outro impaciente. Fiz questão de mostrar o meu descontentamento a quem me viesse maçar com questões sobre a viagem. Isto vai mudar assim que chegarmos a Santa Terrinha! Onde já se viu uma mulher responder ao marido naqueles termos? O meu pai é que sabia do que falava! Assim que a viu avisou-me, mas eu estava cego demais para ouvir os seus conselhos ... "tem cuidado com as mulheres bonitas", "olha que fazem de ti o que querem e tu perdes controlo dos teus próprios pensamentos" e o mais flagrante foi "não cases com a Isabel que ela vai fazer-te a vida um inferno!". Meu santo pai tinha toda a razão. E sendo eu um homem que acredita profundamente em Deus e na religião seria o último homem que deveria deixar-se enganar pelos encantos daquela mulher. Mas agora aqui estou preso a ela e sem hipótese de fuga.
- Cá estamos meu querido, prontos para a viagem das nossas vidas!
- Como assim estamos?
- O padre Damião vai nos acomponhar e guiar nesta difícil tarefa.
- Sem querer ofender o senhor padre, mas o rei nomeou um sacerdote especialmente para nos acompanhar. Não queres ir contra a vontade de ...
- Desculpa interrompê-lo caro conde, mas houve uma alteração de última hora e sou eu que vos vou acompanhar. Fiz valer a minha vontade junto de El-Rei e este aceitou de imediato.
- Estou a ver. Nesse caso penso que podemos fazer-nos à viagem.
Maldito padre. A desautorizar-me em frente aos meus servos, à gentalha! Vou ser a chacote da terra, um conde manipulado pela mulher e pelo padre. Agora sim a minha desgraça está completa!
A carruagem cedida por sua Majestade reunia todas as condições, tornando a viagem bem mais agradável do que o esperado. O mesmo não podem dizer os criados que se tiveram de contentar com uma carroça que os espunha ao calor e aos insectos. Mas nada posso fazer, para além disso já estamos umas horas atrasados não nos podemos dar ao luxo de andar a fazer paragens por tudo e por nada. O Frederico ficou encarregue de anotar todos os precalsos que surgiam no caminho, todas as avarias, desentendimentos e desmaios das senhoras mais sensiveis. El-Rei quer saber de tudo e eu não o quero contrariar de forma alguma.
Depressa se fez noite e devido ao cansaço dos animais decidi que o melhor seria pernoitar na aldeia mais próxima, não fossem os bandidos aproveitar a escuridão para se lançarem às caruagens. Encontrámos uma pequena povoação com cerca de 20 casas e resolvi que seria ali que iríamos ficar.
- Frederico chega aqui!
- Sim senhor! Que deseja?
- Tu vais à frente, fala com as gentes daquela casa, a maior de todas, faz saber aos seus habitantes que o Conde Leocárdio de Santa Terrinha a mando de El-Rei deseja lá pernoitar e que a sua escolha não deve ser posta em causa! Se alguma questão for levantada, será detido e levado a julgamento!
- Mas devo apresentar-me antes? Ou prefere que repita as suas palavras?
- As minhas palavras!! Sem qualquer acrescento!!
- Duvido que seja bem recebido mas enfim ...
- Disse alguma coisa escudeiro Frederico?
- Nada meu senhor, irei de imediato.
- Acho bem. Sem demoras que D. Isabel está com aflição e deseja com toda a emergência os serviços de um penico.
- Precisa de c... com certeza!
Partiu sem olhar para trás e eu dirigi-me para ao lado de Isabel que gritava o meu nome.
- Isabel podes fazer menos barulho? Estás a assustar o gado!
- Eu? Se tu ouvisses e atendesses os meus desejos nada disso acontecia, estou aqui a gritar por ti à horas!! E tu a dormir que nem um porco na tua carruagem!
- Respeito Isabel!
- E vamos ficar nesta espelunca? Se tiveres o azar que eu apanhe piolhos e tenha de rapaz os meus lindos cabelos negros, aí sim sentirás a minha ira!!
- Está descansada que os piolhos não vão querer coisa tão ruim como o teu ninho de ratos!
- Então meus filhos vamos a acalmar. Não é esse o exemplo que querem dar ao vosso povo!
- Vê padre Damião? É isto que lhe estava a falar, falta-me ao respeito em frente a esta gente! E depois admira-se que eu me revolte, eu que não sou mulher de me calar!
- Lá isso concordo contigo! Não te calas por nada, oiço-te o dia inteiro sem descanso. Nos meus sonhos todas as pessoas têm a tua voz!
- Vês minha filha? É um sinal que o teu marido te ama e só a ti te ouve.
- Antes fosse senhor padre. Mas eu já não me deixo enganar!
Nisto aparece o escudeiro Frederico, de certo com boas novas.
- Então fizes-te o que te pedi? Já podemos instalar-nos?
- Sim e não.
- Desculpa? Ousam questionar a minha autoridade??
- Bom é que ... eu atrapalhei-me senhor. Bem sabe que nunca tive boa memória nem para me lembrar das suas ordens, quanto mais ... recitar as suas próprias palavras.
- Mas que disseram?
- Bom disseram que a minha senhora que se fosse aliviar aos bosques, que aquela casa não recolhia dejectos alheios.
- O QUÊ???????? Como se atrevem a falar da minha esposa nesses termos??
- O meu querido Leocárdion a defender a minha honra! Padre Damião sempre há esperança afinal!
- CALA-TE Isabel ou eu perco a cabeça!! Que foste dizer Frederico?
- Bom, no fundo foi uma adaptação das suas palavras ... disse que ... que ...
- QUE ...
- ... que o meu senhor, o conde Leocárdio precisava de assentar arreais na seua casa por esta noite que a sua senhora Dona Isabel estava aflita para ...
- PARA ...
- ... cagar.
Isabel desmaiou nos meus braços. Nunca fora exposta a tamanha palavra, tão vulgar, impura e imprópria para uns ouvidos de uma dama. Apeteceu-me arrancar a cabeça do desgraçado com as minhas próprias mãos, mas depressa afastei esses pensamentos imundos, de certeza que não valeria apena arriscar a minha entrada no paraíso por culpa daquele imbecil. Fiz dele um exemplo. Ficou sem comer nem beber o resto da noite e dormiu junto dos animais.
Tive de eu mesmo me dirigir à casa e tratar do assunto. O homem a principio mostrou-se céptico, mas toda a comitiva o convenceu de que não era mais um louco que o vinha perturbar e até fez questão de ceder o seu quarto para os tão distintos condes. Ainda há gente simpática! Parece que o Federico foi recebido por um simples criado que o confundiu com um mendigo que costuma andar pelas redondezas.
De qualquer forma o bom vinho e a carne assada de javali fizeram-nos esquecer o incidente e no fim da noite tudo estava resolvido. Dirigi-me ao quarto para uma boa noite de descanso quando me deparei com a mais bela das jovens. Fiquei completamente atordoado com a sua beleza, tanto que não conseguia se quer falar. A sua pele clara, olhos transparentes e cabelo cor de fogo foram suficientes para me enfeitiçar. Perguntei-lhe o nome, ao que ela respondeu quase sussurando "Aurora".
- Ah senhor conde já conheceu a minha menina!
- É sua filha esta encantadora jovem?
- É a minha Aurora, a luz dos meus olhos. Faz-me companhia agora que a mãe morreu.
- Mas não está sozinho, vejo que tem alguns criados que lhe devem dar algum conforto.
- Claro que sim, mas preferia viver na pobreza só para a ter sempre perto de mim. Não que seja rico, não estou ao nível de vossa senhoria é claro.
- Mas tem de concordar que é uma pena uma jovem tão encantadora estar confinada a este local tão pequeno.
- Nunca mostrou desejo de sair daqui.
A rapariga permaneceu silenciosa, como se estivesse noutro lugar. Desejei-lhes boas noites e subi para o quarto sempre com o seu rosto no pensamento. Tentei dormir mas Isabel não parava de se mexer na cama, dava voltas e voltas e falava como se estivesse possuída. Meu Deus que esta ulher ainda vai ser a minha desgraça. Só quando me lembrei da doce Aurora consegui algum sossego e consegui finalmente adormecer.
Ao acordar deparei-me com Isabel pálida e encharcada em suor. Chamei pelo padre que depressa acorreu. Parece que comer algo que não lhes fez bem pois depois de "sair de si mesma" voltou à normalidade. Sempre foi uma mulher fraca e sensível e por isso não liguei mas o padre Damião aconselhou-me a vigiar estas indisposições não fosse revelar-se algo mais grave.
Estava na altura de partir e não pude deixar de agradecer a hospitalidade do nosso anfitrião.
- Muito obrigado pela sua gentileza! Não me esquecerei do que fez por nós.
- Foi um prazer senhor conde.
- Não posso deixar de lhe fazer uma proposta. A sua filha, quer dizer, seria uma honra que a sua filha fizesse parte ... digamos servisse a D. Isabel, como dama de companhia.
- Estava à espera desse convite. Mas deve fazer o convite a Aurora, a decisão deve ser ela a tomá-la.
- Claro tem toda a razão.
A rapariga aceitou de imediato para minha surpresa. Pareceu-me estranho mas não quis que mudasse de ideias. O pai pareceu aceitar apesar de ter ficado visivelmente abatido. Quem não gostou da ideia foi Isabel.
- Ai é assim que pretendes respeitar-me? Aproveitar a minha fragilidade para arranjares alguma beldade para as noites frias de Santa Terrinha!
- Mas pensa que estás a falar com quem? Sou muito respeitador e temente a ...
- Temente a Deus já se sabe! Mas para mim isso é só conversa, não me enganas ...
- Seja como for a rapariga já está de malas feitas e quem toma as decisões sou eu! E ela vai ser tua dama de companhia e tu vais tratá-la com respeito e fim da conversa!
Isabel não respondeu, e que bem que soube finalmente ter a palavra final numa discussão. Fiquei mais animado e segui a cavalo com Frederico do meu lado.
- Que é isso Frederico? Tens alguma coisa dentro desse saco? Tu não me digas que roubas-te algo ao homem?
- Desculpe senhor conde, mas ontem à noite ao dormir nos estábulos não resisti e trouxe este bezerrinho. Estava tão indefeso e é amoroso não é?
- Ahahahah! Só tu para me fazeres rir! E já lhe deste nome?
- Não, ainda estou a pensar. Afinal um nome não é coisa para se decidir assim apressadamente. A minha mãe disse que o meu nome só lhe surgiu 12 anos depois de eu ter nascido.
- E até essa idade? Não tinhas nome?
- A minha mãe sempre me tratou por "meu querido filho" o meu pai chamava-me "burro desgraçado"! Mas eu quero um nome decente para o bezerro, senhor conde, posso ter a honra de o baptizar com o seu nome?
- Claro que não homem!! Que falta de respeito!
- E o de Dona Isabel?
- Mas não é um macho?
- Tem razão. Já sei! Talvez Damião como o padre, que é um homem íntegro e ligado a Deus.
- Chama-lhe Leocárdio pronto!
- Muito obrigado senhor conde.
- Mas não andes por aí a gritar o nome do bicho, posso ficar mal visto.
- Senhor conde veja! Ali está Santa Terrinha!!
- Que Deus me abençoe e à minha terra!
- Senhor conde, parece que há fila para entrar.
- Quê? Mas ... espanhóis!
- Como sabe senhor conde? O Leocárdio mémé acha que são turistas. Está ali um que deve ser o chefe, está todo bem vestido! Está a ver senhor conde?
- Oh não! É o Javier! Senhor dai-me forças ...

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Nova história no Cabeçadas no Céu

Santa Terrinha
Mais uma criação de MariJoana
no Cabeçadas no Céu


El-Rei manda povoar as terras. Uma população vai povoar aquela que dizem ser a Santa Terrinha! Um terra pacata, arejada, perto da fronteira e que esconde um grande segredo...algures, enterrado naquelas humildes terra, está escondido o Santo Graal! A populaça sabe do segredo e protege-o com unhas e dentes (literalmente)! O que não sabem é que vão ter de enfrentar os malditos espanhóis, que, invejosos, estão de olho na Santa Terrinha, abrigo do sagrado cálice. De armas e bagagens, os castelhanos vão lutar pelo tão desejado, e minimo, pedaço de terra santa, e só Deus sabe o que pode acontecer! O destino das populações, da terra, e, porque não, da Humanidade, está nas mãos de dois condes gananciosos que, dos dois lados, irão lutar até ao fim.

Uma história medieval, com homens porcos e selvagens e donzelas assustadoramente puras. Com amores e desamores, cavaleiros andantes e magos poderosos.

Decididamente a não perder, no CABEÇADAS NO CÉU!