sábado, 28 de fevereiro de 2009

S.O.S, uma mãe desesperada!


- Alan! Chega aqui...Sim, já sei de tudo bem podes desfazer essa tua carinha de cão abandonado porque a mim não me comoves. Alan, Alan!! Uma mãe cria um filho para isto? Olha para ti: bonito, educado, gentil, tal como o teu falecido pai. Para quê trabalhares naquele barco horroroso? Porque não segues o oficio da família? Tens jeito para a costura, poderias vir a ser um alfaiate dos melhores do mundo! Já estou mesmo a ver todas as donzelas e madames a comprar nas “Casas Alan”, ai…era um sonho! Pensa nisso! Pensa nisso, filho! Era uma coisa…e as vizinhas aqui a morrerem de inveja, essas sim ia-se roer! Os filhos delas, uns padeiros, uns coveiros, outros donos de agências de mortos, que não dão em nada, como o filho da Claude…Ai, o meu Alan! Mas agora vens me com esta de ser pianista num bord…
- Mére! Não é um bordel!
- Alan Antoine…Olha a linguagem!
- Mas…
- Chiu! Que desgosto estas a dar a esta tua pobre mãe doente!
- Estás com gripe, mãe, mais nada…
- Vou morrer!- começo a desfalecer no sofá.
- Mãe…
- Olha! Já ouço os anjos cantar!
- Vá lá, mãe...
- Como cantam bem…
- Deve ser o padre que está a ensaiar o coro dos miúdos!
- Alan! Não brinques comigo! Não vês que estou quase a partir, mon Dieu!?- recompus-me bruscamente- Bolas! Pára de te fazer de parvo! Andas-te a beber?
- Por acaso até…
- Não era para responderes! Mon amour, vá lá, olha pela tua mére, velha, a desfalecer…Sai daquele sítio horrível.
- Mas a mãe ainda não viu aquilo. É muito giro, mesmo! A Edith gosta e a Odette adora lá estar!
- A Edith, outra que cai em tentação! Anda lá enrabichada por um garçon. Malditos homens! Só o teu finado paizinho era às direitas.
- Os rapazes da banda são bem educados, alegres e bem-dispostos, eu gosto deles.
- Pois! Tu e a desavergonhada da Edith! Depois é “Padre, pequei mais ou menos”, é…eu bem oiço ela a dizer isso.
- A mãe escuta as confissões para o padre Fontaine?
- Eeeeeeeu? Ouvi de longe, e foi só daquela vez, estava a por flores no altar de nossa senhora dos filhos mal-agradecidos!
- Isso não existe mére…
- Mas devia existir! Alan, reconsidera, por favor! Vamos ficar falados!
- Quero lá saber! Não me interessa nada disso! - disse ele, levantando-se da pequena poltrona onde estava sentado, cujas capas bordei- Mére, entenda de uma vez: Não vou ser alfaiate!
- E padeiro? O teu falecido tio era e olha que aquilo dá…
- Mére! Acabou…quero ser músico. Sempre estudei piano, adoro piano foi você que me pôs nas aulas de piano!
- Maldita a hora! Conselhos do teu falecido avô Jaques!
- Não vou sair de lá e quando o barco rumar a outro sítio eu…eu…vou com eles.
- Hã???? Ai, ai…está-me a dar uma dor aguda na zona do peito…Espera por mim Antoine, mon amour, vou ter contigo daqui a 5…4…3…
- Mãe!
- 2…2…2…
- …Não vou mudar de ideias -disse aquele filho ingrato!!- Vou para o barco, não devo voltar para jantar. Adieu. -Ainda lhe consegui gritar:
- 1!!!!!!!!!!!!!!- Mas ele já ia em direcção àquele mamarracho podre flutuante. Foi ela. Foi ela! Foi ela!!! Foi a estrangeira que lhe meteu coisinhas nos miolos! Odette, Odette…Virou-lhe a cabeça de tal maneira que agora o rapaz só pensa em viajar e tocar e…Antoine! Antoine! Tu que estás aí no céu, Antoine! Olha pelo teu filho! Ai, mais isto iria ficar assim. Fui ajustar contas com aquela estrangeira e com a dona daquela barraca flutuante! Calcei os meus melhores sapatos, o chapéu que veio de Paris, oferecido pela minha prima Caroline, e fui, fui sem medo e com uma raiva que só Dieu sabe! Cheguei e bati à porta, se é que era uma porta. Veio-me “atender” uma criança!
- Digá.
- Queria falar com alguém crescidinho, alguém responsável.
- É…- a criança tirava um pequeno chapéu e coçava a cabeça- eu sou isso, acho eu- pobre menino, perdido naquele antro!
- Oh, mas que amoroso. Vá, a tua mére?
- Tá em Angóla!
- Ai…tão longe! Ela é…?
- É…? Africána!
- Ah…sim, pois, claro, agora até os povos africanos…ai, Dieu! Bem, sabes onde pára uma menina chamada Odette?
- Tá na cama.
- Oh!!! Jesus…Oh! E sabes onde está o Alan?
- Pianista?
- Sim.
- Entre e veja pelos seus próprios olhos…- A criança estava tão segura de si, supostamente já viu mais com aqueles inocentes olhos que muito homem feito nesta vida. A criança levou-me, então, a uma salinha. Dizia: “Em ensaio”.
- Não sei se quero entrar…
- Dona! Vamo lá! Não ouve a música? É só abaná as perna e as anca! Olha eu…- A criança começou a dançar. Um dançar demasiado adulto e sensual. De um relance abri a porta e vi aquilo que…oh…que estava a ser ensaiado. A Odette, irreconhecível, estava sentada numa cama, num palco, a simular um choro e o Alan tocava uma música melancólica no piano. Era arte, o que faziam ali! Juro que por momentos senti uma lágrima a querer fugir do meu olho. Fiz sinal para continuarem e continuaram. A criança ofereceu-me um lenço para enxugar as lágrimas. Agradeci. Um teatrinho…e a estrangeira representava bem…até que…
- Voilá!- e mostrou uma perna.
- Voilá!- e mostrou outra!
- Voooooooooilá!!- E muitas mulheres entraram praticamente nuas, cheias de plumas e brilhos, pintadas como palhaças a dançar e a mostrar as pernas os seios, ai, Jesus me perdooe, mas que…atrevimento! Continuavam a dançar e a cantar e o meu Alan super divertido ao piano. Entra um saxofonista, um contrabaixista, um violinista que tocava à velocidade da luz e todos estavam felizes! Bailarinas, bailarinas, plumas e vaidade! Umas sem vergonha! A Odette era uma delas! A principal, vejam bem! Ainda no outro dia me apareceu lá em casa toda sem abrigo, toda coitadinha, toda eu não faço mal a uma mosca…hã! O tanas! Olha como ela está, agora? Credo!
- Criança, abre a porta, quero sair!- ordenei, no meio de tanta confusão.
- Mas ainda não viu nada! O mágico vai tirá…
- Tirar mais alguma coisa? Aqui já se tirou praticamente tudo! Vá! Abre a porta, criança e que Deus te acompanhe nesta vida!- A criança abriu-me a porta e saí disparada, o me valeu um valente encontrão com o que me parecia uma das bailarinas.
- Ai! Quem é você? E que chapéu é esse?
- Desculpe, menina, ou seja lá o que for! - e continuei a andar. A moça, que até era bonitinha, veio ter comigo. Enquanto eu caminhava para a saída ela acompanhava-me a passos largos.
- Quem é a senhora?
- Olhe…nem queira saber!
- Não me diga que é a mãe da Edith, aquela rapariguinha sem sal que…
- Não, filha! Sou a mãe do Alan, neste momento não estou feliz por isso! Mas eu sei que foi aquela mosca morta, foi ela, toda songamonga, toda do estrangeiro. Vá, tenha paciência, uma boa tarde, adieu!- Abri uma brecha da porta da rua quando a moça a fecha rapidamente, quase me entalando. Fiquei a olhar para ela. Ela ria-se.
- Mãe do Alan, hã? …Muitíssimo prazer, madame! Sou a Jaqueline, Jaqui. Acho que temos de conversar…

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Maldita gata borralheira!

"Ai a Charlotte isto, a Charlotte aquilo" que coisinha irritante!! Chegou aqui hoje e já pensa que é rainha. É bom que a Charlotte tenha uma boa razão para a ter contratado. Se calhar não passa de uma simples criadinha das limpezas armada em diva. Só pode sei isso! Até porque a madame nunca iria tomar outras decisões sem me consultar. Ufa! E eu que já estava a remoer a minha cabeça com problemas inexistentes. A única boa noticia foi mesmo a do Alan. Finalmente vou estar mais perto dele sem ter de andar a arrancar botões dos meus lindos vestidos para visitar aquela botique de terceira categoria.
- Chéri posso entrar?
- Claro Jacqui! Passa-se alguma coisa?
- Vejo que contratas-te alguém ...
- Sim, esqueci-me de te dizer. O Alan, um sonho de homem, é o nosso novo pianista!
- Pi-pianista?
- Sim.
- M-mas eu pensei ... grande cabra ela vai ver eu ...
- Disses-te alguma coisa?
- Não é nada deixe Charlotte, coisas minhas. E a rapariga?
- Rapariga? Q-qual ... Ah! A Juliete! Ela é bem vivaça, pena o problema dos "r" mas de resto ...
- Tu sabes bem de quem estou a falar, a do cabelo preto.
- Cabelo preto ... ah a Odette!
- E ela vai ser a nova empregada certo? Finalmente, estávamos mesmo a precisar de alguém.
- Pois, é um pouco mais, quer dizer ela vai fazer mais que isso.
- Cozinhar? Óptimo o Pacheco não tem cuidado nenhum com as gorduras e uma estrela como eu tem de ter cuidado com a linha.
- Tens razão. Agora Jacqui, podes dar-me licença tenho de ...
- Só há uma coisa que não percebo! Porque é que ela estava com umas partiduras na mão?
- É que a moça escreve muito bem e então ... sabes, ela veio aqui à porta implorar para que lhe desse trabalho como letrista. É isso letrista!
- Letrista que cozinha e limpa os quartos?
- Sim!
- Hmmmm ... ainda bem. De qualquer forma não gosto de ter muita gente por aqui. Agora vou para o meu quarto estudar as músicas e os textos para amanhã, vemo-nos ao jantar.
- Ufa.
- Desculpe?
- Nada, estou um pouco constipada é só! PACHECO FAZ-ME UM CHÁ!
Voltei para o quarto muito mais aliviada e comecei a ensaiar em frente ao espelho.

- "Bem-vindos ao "Charlotte" senhores e senhores
Temos cá o Florentino, mágico atrevido,
Alan o pianista, esse grande artista,
Odette a estrela de toda a companhiaaaa"

- Agora a parte da dança. Perna para aqui perna para ali, refrão, mais dança, onde RAIO está o meu nome??? CHARLOTTE!!!
- Que foi queridinha?
- ONDE ESTÀ O MEU NOME??? NÂO ESTÁ NA INTRODUÇÃO!!
- Deixa-me ver ... realmente que vergonha, vou já chamar o Florentino para emendar. E pensar que confiei neste amador para escrever o espectáculo!
- Florentino, então mas não era a ... vocês estão todos a conspirar contra mim!
- Eu disse Florentino? Ai desculpa Jacqui são muitos a ... muitas horas a trabalhar e baralho-me toda ... a Odette claro a letrista!
- Acha que sou burra já percebi tudo!! Estam a relegar-me para segundo plano! Digo-lhe já que não faço coros! Para isso vou ...
- Calma lá tudo vai ser resolvido! Sabes bem que temos um contracto!
- Ou ela ou eu!
- Minha querida não achas que estás a exagerar?
- OU ELA OU EU!
- Vou dizer uma coisa, o pianista também só fica se a Odette ficar por isso ...
- Pronto eu fico! - disse quase sem pensar.
- Bem me parecia que ias reconsiderar. Está descansada que não quero rivalidades, amanhã tratamos de tudo. Agora vai, vai ensaiar para amanhã estares fabulosa!
Aquela sabe bem dár-me a volta. Deve estar toda contentinha por me ter convencido, mas nem sonha que eu vou fazer a vida daquela menina de campo num inferno! O facto de ela cá ficar hospedada só me vai favorecer.
Depois de ler tudo o que tinha a ler e do meu banho de beleza desci para jantar. A madame evitou falar comigo. Percebi que ela não me tinha contado a história toda, mas por agora também não me interessa. Disse-nos a todos para estarmos acordados bem cedo pois não havia tempo a perder e o espectáculo deveria estrear dentro de duas semanas. Fui uma boa menina e permaneci calado durante o serão. Ás 22 horas subi para o meu quarto. Vinte minutos depois o Marcelle bateu-me à porta mas eu mandei-o dar uma volta. Besontei-me de cremes de hortelâ e fiz uma máscara para o cabelo, não queria que ele me visse assim. Amanhã vou arrasar!
- Bonjour Marcelle!
- Mon Dieu Jacqueline estás um borrachinho!
- Merci chéri! Já estão todos lá em baixo? A gata borralheira já chegou?
- Só lá estão a madame e o Pacheco, mais ninguém ... ouve lá, ainda é cedo não queres vir aqui aos meus aposentos?
- Ahah ... pobrezinho.
- Isso quer dizer que sim?
- Estava a ser irónica.
- Bolas.
E lá fui eu. Desci a escadaria triunfante, bela e graciosa, a cada passo esperava três secundos para dar o próximo para dramatizar a minha entrada.
- Boujour meus queridos!
- Olá dona Jacqui! Permita-me o elogio você tá gost ...
- Menos Pacheco! Já não me chega a dor de cabeça! Senta-te aqui Jacqui.
- Alguma coisa se passa madame?
- Preciso que sejas simpática com a rapariga. Bem sabes que não encontrei ninguém minimamente talentoso para o canto nesta maldita vila. De talento só o Alan! (suspiro)
- (suspiro) Não se preocupe madame. Sabe que não gosto de confusões.
- Aaahaha.
- Passa-se alguma coisa Pacheco?? - pergunto indignada.
- Nada, nada lembrei-me de uma coisa que ... gira até ... coisas minhas e do Florentino.
- Vamos lá a ver! Tem de ter mão nesta gente madame senão o que vão dizer desta casa os clientes. Está a pensar encarregá-lo novamente do bar?
- Não sei talvez ele ...
- Bonjour senhoras!
- Bonjour Alan! - clamámos em coro seguido de um longo suspiro.
- Para que são essas malas todas e a gata ... a Odlettia onde está?
- A O-d-e-t-t-e vem lá atrás e as malas são suas. Ela vai cá ficar certo?
- Claro meu querido deixe aí que o Pacheco leva ... não olhes para mim assim negrinho faz o que eu te mando ... e você também pode ficar se quiser!
- Não é preciso obrigado! A minha mãe precisa de ajuda e ...
- Ai que amor! - coro, suspiro.
- Pois e por falar nisso ... a minha mãe é uma costureira muito prendada será que ela ...
- Claro meu querido! Diz-lhe que passe cá mais tarde ... quieta Jacqui.
- Podemos começar agora? - usei o meu tom cínico assim que a sonsinha chegou.
- Ah cá está ela! A estre ... uma das estrelas da companhia "Charlotte".
- Desculpem o atraso mas os meus saltos de 15 centimetros não me permitiram vir mais depressa!
- Saltos de ...? Esses não são os ... seus saltos? Aqueles com que se estreou em Paris e que você nunca me emprestou pois dizia que eram mais caros que toda a França??? Aco que vou ...
- Ché a moça hiperventilou!
- Leva-a para o quarto negrinho para ver se ela se anima, entretanto nós vamos começando.
- Cuidado para ela não se partir Pacheco!
- Odette minha querida você é deliciosa! Ahaha! Teve graça não teve Alan? (suspiro)
- Hilariante.
- Vamos lá rapaz anime-se! Vá lá para o pianinho fazer as suas coisinhas.
Só me lembro de olhar para os sapatos e depois comecei a ver tudo à roda e puff ... o meu cérebro desligou-se. Depois dos sapatos a primeira coisa que os meus olhos viram foi ...
- AHHHHHH sai de cima de mim! Que pensas que estás a fazer???
- Estava a acordá-la dona! Ché cê tá dormindo à três horas.
- TRÊS HORAS? Quer dizer que o ensaio ...
- Já acabou!

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Um novo eu

Quando desci aquelas escadas, parecia que tinha o mundo aos meus pés! Sentia-me tão bem! Estava bem vestida, perfumada, com classe! Se o padrinho me visse…ui! Não sobraria um pedaço de mim! Mas a verdade é que a Charlotte sabe fazer as coisas. Não estou excessivamente pintada, nem excessivamente atrevida. Não. Estou…melhor!
- Sinto-me livre, Alan!- Disse, ao chegar ao pé dele, após descer as escadas.
-Sim, lá menos saia tens…
- Não, sinto-me como nunca me senti antes! Achas que estou bem?...Alan?
-Ah, sim, estás bem, sim…bem, sim.- O Alan gostou. Ele e todos os outros! Digo, todos, não só os senhores. As meninas também me congratularam. Solidariedade feminina, já se sabe como é. A multidão que assistiu à minha chegada dispersou, assim como o Alan.
- Vá! Odette! Começamos a ver todas as coisas, teatrinhos, musiquinhas, danças e tudo mais amanhã bem cedo! Sim, porque estas meninas precisam de treino, não as vou atirar aos leões sem terem o mínimo de experiência…
- Aos leões?- disso o Alan, saltando do banco do piano.
- Sim, mon cheri! Aos...- e ria-se – senhores que viram assistir! - e continuou a rir-se, e saiu da sala principal, onde estávamos. O Alan olhou para mim, abanou com a cabeça negativamente e foi para o piano. Pegou numa partitura e começou a tocar. Fui até ele. Encostei-me ao piano e ouvi-o tocar. Bolas, o que é que o rapaz não sabia fazer?
- Tocas tão bem…- disse-lhe. Ele não me respondeu - podias-me ensinar, um dia destes…
- Não me parece – respondeu- vais estar demasiado ocupada a mostrar as pernas a uns bêbados quaisquer.
- Alan! - Ele misturou umas notas no piano, e bruscamente parou.
- Oh, vá lá, Odette! Achas que vais fazer o quê aqui? Dançar ballet? Representar umas peças rascas? Cantar como cantavas na missa da tua terra? Aterra de uma vez…Em Paris cada esquina tem uma coisa igual a esta! A única diferença é que não são barcos.
- Já sei o que pensas! Já me tinhas dito que achavas que isto era um bordel, não é? Mas não é! E a Charlotte é tão querida! E se achas que isto é um antro de perdição, porque te vieste aqui meter? E porque me trouxeste para aqui também?
- Vieste comigo, APENAS, não era para cá ficares! - Naquele momento o Pacheco, com a sua figurinha minúscula, entra na sala. Vinha com uma caneca na mão.
- Cachaça…?
- Não! – dissemos ao mesmo tempo. Ele foi-se e nós continuámos.
- Ainda não me respondeste, Alan. Vieste para aqui por que razão?
- Vim, porque precisva de trabalho! Não quero ser ajudante de costureira a minha vida toda! Não é isso que tenho em mente.
- Queres ser pianista de um cabaret?
- E tu? Saíste da casa dos teus padrinhos para seres bailarina de um cabaret?
- Odette, Alan, aqui está o que têm de fazer para…hum…amanhã – Charlotte entra na sala.
- P-para amanhã?
- Oui, é apenas uma música, para as meninas se guiarem. Não era para seres tu a cantar, mas enfim, a nossa estrela principal resolveu ficar de cama... Maldita febre!
- Mas, Charlotte- disse o Alan, levantando-se de vez- Não temos tempo…
- Oh, claro que têm! Ainda têm esta tarde e esta noite e a manhã de amanhã! Ah! Estavam a discutir ? perguntou ela.
- N-não…- disse eu- Estávamos a falar de umas coisinhas…
- Hum…- e saiu da sala. O Alan não me respondeu. Apenas me disse: Tu, eu, aqui, à noite para ver esta maldita música. E ia a sair da sala…
- Achas que a tua mamã te vais deixar ficar aqui toda a noite com uma menina que mostra as pernas ?- Disse eu, baixando a tampa do piano e fazendo dela um acento. Ele olhou-me de cima a baixo.
- Ela sabe lá…- e saiu. Aquilo ia ser pior do que eu imaginava, oh se ia! Mas estava no “Charlotte”! Ouvi um "Olá, Alan e um "Que fazes aqui?" e depois uma figura não totalmente desconhecida entrou no salão. Edith.
- Não sei se podes entrar aqui...- disse logo. Ela ficou a olhar para mim espantada. Estava mesmo gira, eu!
- Odette? Santíssimo sacramento do altar, que Jesus seja cego neste momento...És mesmo tu?
- Sim, sim, Edith, sou mesmo eu!
- Pai do céu...
- Que te trás aqui? A Charlotte não quer ninguém aqui...
- Ah, eu conheço já essa senhora. Eu vinha era à pricura de...de um...
- De um?
- Moço.
- Tu? Hum...e quem?
- Não sei o nome...- disse ela, sem conseguir olhar para mim. Depois, descreveu-mo e eu percebi que era um dos rapazes da banda.
- Olha, Edith, eu não sei onde eles estão, costumam estar sempre todos juntos, mas devem estar para a vila, ouvi qualquer coisa acerca de irem beber uns copos no "Poison".
- Oh, obrigada, obrigada, obrigada, a sério...- E ia virar costas, quando se arrependeu- A dona Anne Marie não gosta lá muito de ti, diz que és estrangeira...
- Sou de Toulouse, Dieu! Não sou estrangeira...
-Pois, pois, eu sei, mas é aquela coisa, já sabes, depois o Alan...
- Ela contou-te alguma coisa?
- Não, não eu só queria dizer que ela, apesar de ser minha amiga, não tem razã em não gostar de ti! Acho que vamos ser grandes amigas!- Disse a interesseira Edith. Boa rapariga, sim, mas estava na cara que era por causa do rapaz da banda que eu seria sua amiga para a eternidade- Vou então ao Poison, não que esteja desesperada, não...Vou lá beber um cafézinho! Adieu!- E lá foi. Enfim, queria lá saber das paixonetas da menina da funerária,estava tão contente! Saltei para o palco e comecei a dançar, mesmo sem haver música. O salão estava vazio, mas já imaginava todos a baterem palmas, as luzes ligadas, o Alan ao piano com um cigarro ao canto da boca a piscar-me o olho...Ok, vamos passar esta parte, a cortina, as raparigas a dançar e eu no meio delas com todo o glamour, em todo o meu esplendor! As palmas, como ansiava as palmas!
- Clap, clap, clap- Alguém estava na sala, será que não tenho um momento de silêncio? Desci dos meus sonhos e do palco muito rapidamente sem ver quem era. Que vergonha. Depois, vi que era uma rapariga, envolta numa manta. Estava a fumar- Bravo! Tens jeito até- disse ela.
- Ah, não, eu…eu tenho coisas para fazer, vou-me embora para o meu quarto.
- Quarto? - disse a rapariga - Agora moras cá?
-Sim, fui contactada pela madame Charlotte…Sou a nova cantora do barco.
-Ah sim??? Olha que…bom para ti!- disse ela. Não me parecia contente com a notícia. Seria ela?...- Porque eu sou A cantora deste barco. Jaqueline, não com prazer, mas enfim…
- Oh, não sabia que era…quer dizer, está doente, a Charlotte disse que…
- Estou doente mas não estou a morrer! Ainda consigo cantar, que é o que de melhor sei fazer. Já tu…tenho sérias dúvidas. Os músicos disseram-me que havia uma nova miúda, que a Charlotte a tinha transformado, mas nunca pensei que fosse assim como tu.
- Que quer dizer com isso? Eu vou trabalhar bastante aqui! Estou disposta a fazer tudo e…
- Ma cheri- disse ela aproximando-se demasiado de mim, atirando-me com aquele fumo branco para cima- eu, eu, e só eu é que faço tudo aqui, estás a ouvir? Eu, Jaqui. Ficou entendido?- Ai, a rapariga queria molho…Se a madrinha aqui tivesse a moça já estava com os dentes do meio metidinhos para dentro.
- Entendi, sim- disse eu- então, sendo assim…- fui ao piano, tirei de lá as partituras que a Charlotte nos tinha dado e estendi para aquela “madamesinha”- cá está.
- E isso é?
- É para amanhã. Uma música. Tem de cantar e interpretar e ajustar o tom, falar com o pianista e mudar ao seu gosto.
- Hum…- ela ficou a olhar para as folhas - Hoje sinto-me particularmente fraca, é uma pena…Vou falar com a Charlotte, isto não pode ser assim…Até porque eu acho que essa música é um tanto ou quanto difícil para o Giovanni, o nosso pianista, nem deves conhecer…
- Não, na verdade o Gio…
- Desculpa?- disse toda emproada - já se dirigindo para a porta do salão- agora também me vais ensinar quem é quem neste barco? Estou demasiado fraca para te ouvir…Provavelmente a Charlotte quer que faças tu este trabalhinho rasca...
- Rasca? Mas disse que a música era difícil…
- Continua a ser rasca, porque és tu que o fazes, estás a perceber, ma cheri? Incrível, tenho de explicar tudo. Enfim, o Giovanni nem deve conseguir tocar isto…
- Mas…- Naquele memento o Alan entra no salão e aquela horrorosa fica espantada, especada a olhar para ele. Que raiva! Odeio-a. Começou a lançar aquele charme todo típico de mulheres como ela para cima dele. Odeio-a mais ainda!
- Oh lá lá! Olá…- disse ela- mas se não é o rapaz do café!- O Alan não sabia o que fazer, olhava para mim e para ela alternadamente e esboçava um sorriso amarelo, enquanto ela lhe fazia umas festinhas no cabelo e coisinhas assim. Raiva…- Que te trás aqui? Oh! Espera…não respondas, já sei…Eu, não é? Oh…eu sabia- Ele olhava para mim sem perceber nada.
- Não, poderia ser, poderia ser - disse ele entre risinhos melosos – mas não. Na verdade sou o novo
- Porteiro! - Disse eu rapidamente -O Alan é o novo porteiro do barco. A Charlotte contratou-o esta manhã.
- Oh…-disse ela, triste, coitadinha, que horrorosa, que pirosa que…adiante – Então isso quer dizer que vais estar mais lá fora do que dentro do “Carlotte”…pena…O que não quer dizer que não possas entrar de vez em quando, se é que me…- Puxei o Alan para mim. Maldita mulher! Nem conhece o rapaz começa logo a largar aquele charme nojento para cima dele!
- O Alan, hum…tem uma reunião com a madame Charlotte , agora.
- Agora? - disse ele.
- Agora mesmo - disse eu -Por isso, vamos até ao seu escritório. – Peguei-lhe no braço e rumámos corredor a fora, deixando a patética perua no salão, a sonhar com o Alan encantado ou raio que a parta. No corredor, cortei para o meu quarto e não para o escritório da Charlotte. Entrámos no quarto.
- Já me podes largar o braço - disse ele.
- Ah, sim…
- Olha, o quarto nem é mau de todo…- disse ele ao andar pelo meu pequeno quartinho. Tens vista para o mar…percebeste? Vista para o mar. Que piada! - E começou-se a rir. Mas vendo que não esboçava nem um pequeno sorrisinho, parou - Agora sou porteiro do barco? Nem sabia que isso existia…- disse ele sentando-se na cama.
- Foi o que me ocorreu na altura.
- Porque não lhe disseste que sou o novo pianista? - Foi então que lhe contei a minha conversa com ela e como ela tinha a mania que era boa.
- Ela tem medo que ocupes o lugar dela - disse o Alan.
- Pois, eu percebi, mas eu não quero ocupar o lugar de ninguém, aliás…sei lá! Estou tão entusiasmada! - Mas como o Alan não perde uma oportunidade…
- E no meio disto tudo por que sou eu porteiro e não pianista? - Olhei para ele, olhei para o quarto, olhei para o espelho que estava no pequeno tocador, onde estava sentada, em frente do Alan. De um salto saltei para Alan e beijei-o como nunca tinha beijado um homem. Ai, aquele Alan…Envolvemo-nos, por instantes esqueci-me de tudo…Oh! Estava sozinha, num quarto com um homem. Dei conta disso, empurrei bruscamente o Alan e dei-lhe um estalo.
- Odette!- disse ele agarrado à cara.
- Então? -disse eu, compondo-me, quase sem fôlego -sou uma moça direita!

terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Moças precisam-se

Como era de esperar causámos grande sensação em Fleury. O meu "Charlotte" nunca passa despercebido, e se no começo estava com dúvidas em cá ficar, este pequeno acidente puderá ser o melhor que nos aconteceu. Afinal, as cidades mais importantes estão repletas destas casas de divertimento e prazer, por isso, ficar uns tempos em Fleury só fará bem ao negócio. Já começo a fazer planos, vou renovar o salão, comprar uma ou duas mesas de bilhar e talvez faça uma mudança de visual. Mas para isso preciso de jovens lindas e talentosas para abrilhantar os espectáculos. Decidi fazer um casting e assim seleccionar algumas das raparigas da vila. Pedi ao Pacheco que fosse ao armazém buscar uns tapetes persas para a entrada e umas estátuas de Afrodite que comprei na feira da ladra em Lisboa. O Florentino tratou dos folhetos e cartazes que ele e os rapazes da banda espalharam pela vila durante a noite. Pedi à Jaqueline para treinar uma nova canção pois foi a única coisa que me lembrei para a manter ocupada e afastada do salão principal onde vai decorrer o casting. Só espero que tudo corra bem! Não estou com pessoal suficiente para desenrascar uma peça de teatro que seja!
Mal amanheceu tinha uma mar de gente no porto. As jovens atropelavam-se umas às outras para serem as primeiras a entrar, as senhoras "respeitáveis" (as velhas e os pães sem sal) olhavam para toda a cena com desdém, abanando as cabeças e comentando umas com as outras, os homens estavam deliciados, como estátuas só os olhos se moviam. Uma ou outra rapariga foi levada pela mãe ou pela tia que escandalisadas lhes gritavam "não tens vergonha!". Ao observar tudo isto da janela do meu quarto pedi ao Pacheco e ao Florentino que as fossem entreter enquanto eu me arranjava.
Enquanto estava a vestir o meu vestido verde esmeralda comecei a pensar na minha vida. Eram pensamentos que me surgiam do nada e eram cada vez mais persistentes. Pensava na minha mãe no dia em que saí de casa, no meu gato "Rubi" e no amor da minha vida. Ai podia ficar horas a sonhar com ele! E já lá vão uns anos desde que ele ...
- Dona Charlotte tem de se dispachar! O Florentino só sabe fazer um truque de cartas e já o repetiu 5 vezes ... as moças estão a começar a dispersar e ...
- Vamos a isso Pacheco! Estou pronta, manda entrar essas grandes queridas!
Decidi deixar o salão o mais escuro possível para esconder as pequenas falhas no chão de madeira e as paredes por pintar. Ainda preciso de algum dinheiro para acabar as obras porque a avaria do barco fez com que todo o dinheiro fosse para lá. Chamei o Marcelle para me ajudar com a selecção pois ele tem um excelente olho para mulheres bonitas, afinal foi ele que descobriu a Jacqui. Por falar nela, espero que não me estrague o dia com as suas birrinhas de estrela. Bom adiante, o Pacheco orienta-as nos bastidores e o Florentino manda-as entrar ... hmm ... preciso de um pianista! Um pianista é essencial para que as raparigas tenham música para mostrar os seus dotes vocais e corporais.
- Giovanni!! Onde está aquele maldito italiano?
- Ahhh ...
- Que foi Marcelle? Diz-me onde está o Giovanni, poupa-me das tuas histórias e ...
- Ele deixou o "Charlotte" ontem de madrugada e voltou para Roma.
- Quê???? Ele ... estás a dizer que ... O QUÊ????????
- Ele disse que estava farto de receber mal e de passar o dia a fazer reparações num barco de uma ...
- De uma ...
- ... solteirona. mas se calhar não foi isso que ele disse, posso ter percebido mal!
- Ou seja tu é que achas que sou uma solteirona???
- Não, não ele pode ter dito ... "velha maluca com a mania que ainda tem idade para andar a mostrar o decote e aquelas pernas cheias de varizes, com pele de cão com sarna e um pescoço que puderia dar as doze badaladas!". Mas não tenho a certeza, ou isso ou solteirona, não posso afirmar com certeza.
- Vou ausentar-me por alguns minutos. Diz ao Pacheco que já volto.
AAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!! Vou matar aquele maldito italiano assim que o vir!!! Pensa que é o quê???? Se eu ainda liga-se às coisas que essa gentalha diz, ah! Eu a mais linda e maravilhosa de todas as artistas de Paris! Com homens a fazer fila só para me cheirar o hálito e sentir a minha pele!
- Bom podemos retomar. Peço apenas que me arranjes um substituto e depressa.
- Não está zangada dona ... menina Charlotte?
- Não, claro que não Marcelle. Mas isso pode mudar se não apareceres daqui a 20 minutos com um Mozart qualquer. Aliás as aulas de tiro ao alvo poderão finalmente ter alguma utilidade.
O desgraçado saiu a correr, por um lado deu-me algum tempo para ordenar as raparigas e atribuir-lhe as canções. Também fiz questão que se vestissem adequadamente. Disponibilizei alguns dos fatos guardados para emergências. Não estão em perfeitas condições, mas sempre consigo avaliar o físico das jovens. Tive a oportunidade de ver algumas através da cortina e só rezo para que esta aldeia tenho bons homens, porque em última hipótese terei de passar a fazer espectáculos masculinos. Não sei se é por estarem perto do mar mas, estas raparigas parecem sardinhas com pernas. A sério! Não estou a ser mázinha, mas justa. As pobres criaturas de olhos esbugalhados, com pescoços longos e corpos franzidos pouco ou nada servem para coristas ou bailarinas de cabaret.
- Finalmente Marcelle! Então espero que tenhas ... Ohhhhh!
- Este é o Alan senhora Charlotte! Espero que goste ...
- Mas claro que gosto! Q-quer dizer, vou ter de o ouvir tocar claro mas está contratadíssimo ... a s-se tocar minimamente bem, quer dizer um "parabéns a você" será suficiente.
- Mas a senhora disse Mozart?
- Oh Marcelle que tolinho que és, lá ia dizer isso rapaz! Eu disse que queria um homem que soubesse t-tocar nas minhas teclas, n-nas teclas do piano minimamente bem. Ou que soubesse disfarçar pelo menos, isto na música é tudo uma questão de aparência!
- Posso então ... tocar?
- Senhora ...?
- Quê? Ah claro vai tocar sim, toca ...
Que visão! Sinceramente não o ouvi tocar mas deve ter sido bom pois acordei do meu sonho com os aplausos de Marcelle e Florentino, assim como das moças atrás das cortinas que espreitavam para apreciar aquele pedaço de mau caminho. A verdade é que tem idade para ser ... meu irmão mais novo, muito mais novo vá, mas é ...
- LINDO! Não acha senhora?
- Claro Marcelle. Estives-te bem, tens olho para o talento.
- Isso quer dizer que ...
- Não, não te vou aumentar o salário!
Finalmente estava tudo pronto. O Marcelle foi essencial na selecção, aliás foi ele que escolheu as primeiras raparigas para passar à fase seguinte pois eu não conseguia tirar os olhos do pianista. O rapaz depois lá teve de sair dizendo que tinha uns recados para fazer, mas prometeu voltar no dia seguinte depois de eu muito insistir. Agora sim consegui dar alguma atenção. Confio plenamente no gosto do Marcelle, estou ansiosa para ver as pérolas que descobriu nesta miséria de vila.
- Marion podes entrar minha querida! - chama Marcelle no seu tom confiante e deseperado por a minha aprovação - Queremos que cantes qualquer coisa para nós para podermos avaliar a tua voz.
- Oui monsieur!
Oh meu Deus! O bom gosto de Marcelle parece ter terminado no Alan. Que rapariguinha esquisita. Mas se passou no teste de dança pode ser que alguma maquilhagem e roupa almofadada façam algum milagre. Vamos lá ouvir a voz dela.
- "Lá, lá, lá, lááá"
Acreditem só isso bastou para a riscar da lista. Um terror! Senti um arrepio ao longo da espinha, no mau sentido!! Se fosse mãe dela, o que seria impossível pois sou demasiado jovem, trancava-a no quarto e só a deixava a sair quando houvesse uma praga de ratos onde pudesse ser útil. Fiz um sinal discreto ao Marcelle e ele pediu para que a moça saísse do palco. Fê-lo no meio de lágrimas e pontapés ao pobre Florentino que a teve de arrastar.
- Próxima por favor!
Rachelle?? Se esta ficar precisa desesperadamente de um nome artístico! Depois da primeira desilusão tentei ter uma mente mais aberta e tentar começar pelos ... pelas vantagens e ignorar os defeitos. Mas com a Rachelle tive de começar pelos defeitos sendo que a única vantagem é a de ... ser mulher, acho eu! Vou ter de lhe cortar aquele cabelo, vai ter de fazer dieta, talvez um espartilho resolva o problema das banhinhas que insistem em balouçar, ainda há a questão das patilhas. Quando dei por mim estava a riscar o nome da lista, de tal forma que fiz um buraco no papel. O Marcelle, ao aperceber-se, gritou:
- Próxima! Desta você vai gostar Charlotte, tenho c-e-r-t-e-z-a!
- A ver vamos chéri.
Realmente a Juliete era bastante mais ... vivaça, por falta de melhor palavra. Os "r" é que me davam cabo do juízo!
- Senhorra Charrrrlote é um prrrazerrrr estarrr na sua prresença! Desculpe estou um pouco nerrvosa!
- Não é preciso minha querida. Cante lá o que tem a cantar.
- Orrra cá vai ...
Nunca pensei que existisse uma canção com tados "r"!! Lembrou-me do carro do meu pai quando andava numa estrada cheia de buracos. Estive quase para mandá-la embora, mas ao consultar a lista vi que não tinha ninguém e por isso dei-lhe uma oportunidade. A rapariguinha nem é feia de todo. Só quero ver como se vai sair na fase da representação teatral.
Passei o resto da manhã a ouvir vozes estridentes e por isso tomei a decisão de passar aquelas que tivessem um visual mais ou menos aceitável e procurar apenas uma cantora decente sendo que já tenho a Jacqui. Depois de dispensar 28 raparigas e passar apenas 11 chegou a altura de as ver representar. Gosto dempre de avaliar o seu comportamento em palco e principalmente as suas expressões. Se fosse possível gostava de retomar os meus musicais, sendo que nos últimos anos não tem sido possível devido à falat de gente ... competente!
A primeira foi mesmo Juliete. Vestida com o seu corpete demasiado apertado e as meias de rede cheias de buracos parecia uma pega vulgar de esquina, mas quando se colocou debaixo da luz consegui ver-lhe o rosto, os olhos grande se brilhantes, o cabelo claro e ondulado e o sorriso de criança traquina. Tenho de admitir que a miúda tem charme.
- Podes começar Juliete. - desta vez fui eu que pedi que começasse.
- "Oh ... meu ... senhorr. Tende pena ... de u-uma pobrre camponesa!" Está bom?
- A-ah clarro, q-quer dizer claro minha querida! Estás seleccionada - disse enquanto simulava um sorriso.
- Merrci madame!!! Prrometo que não a vou desiludirr!
Só espero não me arrepender. Escolhi mais três ou quatro raparigas razoavelmente bonitas, que tinham um corpo mais ou menos aceitável que passava com uma roupa adequada. De qualquer forma estava a pensar ir às aldeias vizinhas para recolher mais alguns "talentos". Com as raparigas que escolhi hoje fiquei com um total de 7 bailarinas sem contar com a Jacqui. Talvez duas destas seleccionadas possam fazer coro mas ainda assim gostava de arranjar alguém com uma boa voz para alternar com a Jacqui.
- Por hoje chega Marcelle. Diz ao Pacheco para retirar o cartaz e para mandar as rejeitadas embora. Diz às quatro que escolhi para irem ter ao meu escritório para acertar os pormenores.
Rapidamente se foram embora. Umas a chorar, outras a berrar ordinarices mas depressa tudo voltou a ficar silencioso. As escolhidas chegaram ao meu escritório curiosas e aos gritinhos, falei-lhes dos nossos espectáculos, das minhas condições, dos ordenados e do facto de só puderem ocupar os quartos durante o dia, sendo que deviam permanecer nas suas casas. Depois foi tempo de falar dos seus visuais, era necessário algumas mudanças.
- Mas tratamos disso amanhã. Estejam cá às 10 horas em ponto! Temos um longo dia pela frente e eu não suporto atrasos!
Como cãezinhos obediente acenaram com as suas cabecinhas e saíram sem fazer barulho. Aiii depois de um dia destes preciso de um banho relaxante e de um bom vinho! Vou pedir ao Pacheco que me prepare uns morangos com chocolate derretido por cima. Depois do banho tomado deitei-me imediatamente no meu colchão maravilhoso e adormeci.
No dia seguinte fui acordada por um Marcelle histérico.
- Venha ver Charlotte!! A mulher mais linda que já vi!! Venha depressa, foi o Alan que a trouxe!
- O ALAN?? Vou já!
Espero que ele não tenha percebido que saí a correr do meu quarto mal soube que estava lá em baixo. Tentei ser indiferente mas saiu-me um "parece que passou uma eternidade" num tom de adolescente descontrolada. Tentei disfarçar com um " o que está aqui a fazer?".
- Eu vim apresentar-me ao serviço tal como havia prometido!
- E essa é?
- A Odette! É uma amiga ... ela veio apenas aompanhar-me estava curiosa e ...
- Mas é realmente bonita!
Eu sei que o meu tom pareceu falso, até porque estava hipnotizada por aquele homem fascinante. Mas a rapariga era realmente qualquer coisa, parecia uma artista de cinema! Tinha um olhos lindos e o cabelo dourado dava-lhe um ar de menina. Só espero que o Mozart não esteja embeiçado por ela!! Aliás ele parece estar algo desconfortável por ela estar aqui. parece não querer que eu a visse pois tentou por várias vezes que ela se fosse embora. Isto é mau sinal.
- Não, não ela não vai a lado nenhum! Preciso de te ver noutra roupa e no meu palco a cantar e a dançar.
Ela parecia realmente querer trabalhar para mim, disse-me até que só não veio aos castings porque esteve ocupada com assuntos pessoais. Pensei novamente em Alan, que se mostrava bastante desconfortável em vê-la falar comigo.
- Estás contratada minha querida! És tudo aquilo que procurava!
- Obrigada.
Apesar de tudo parecia não estar muito entusiasmada e Alan fez questão de sublinhar que trabalharia para mim enquanto a Odette aqui estivesse. Bom estou a ver que ele mesmo de olho nela, mas será por pouco tempo, aceitei-a com a condição de que ela ficaria hospedada no "Charlotte". Ela aceitou de imediato.
Fiquei radiante com a minha descoberta! A rapariga cantava maravilhosamente e era uma excelente actriz apesar de um pouco insegura nesse campo. Quanto ao visual era quase perfeita, mas resolvi fazer-lhe algumas sugestões. Apesar de ter um cabelo bonito penso que um corte mais curto e uma cor mais escura lhe realçassem os olhos. Por isso pintei-lhe o cabelo de preto, cortada com franja e pela altura do queixo. Ficou praticamente irreconhecível, uma deusa. Lembra-me alguém, jovem, linda, talentosa ... ah já sei ... eu! Aquele corte de cabelo foi essencial para passar de menina bonita de província a deusa dos palcos! Ao descer as escadas foi recebida, naturalmente, com um "waw".

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Ciganos

- Rodriguez! Anda lá com isso!
- Anda lá com isso, anda lá com isso...Rodriguez faz tudo! Temos alguns trocados, mulher...pelo menos vamos comprar uma vaca daquelas magras, que são mais baratas para nos levar as coisas...
- Rodriguez, já te disse temos de economizar! As estrelas dizem-me que não vêm lá bons tempos.
- Essas maganas também só sabem prever porcaria...
- Cala-te e anda! Rodriguez...olha o que estás a fazer! Estás a deixar cair incenso por todo o caminho...ah! Mas que homem este!
- Tu é que quiseste sair do acampamento, Morgana! Não fui eu! Eu estava muito bem lá com a mamã e com os meus irmãos e com os teus e com os nossos tios e primos e cães! Lembras-te da gipsy a nossa cadelinha zarolha? Tenho saudades...
- Eu não me dava bem naquele acampamento. Ninguém me compreendia! E depois era aquela história de não te dar um filho homem...raça das ciganas que são chatas como tudo!
- Agora somos uns sem tecto, que andamos a vaguear pelas cidades e aldeias...Onde estamos afinal, Margona? Doi-me os pés de tanto andar...
- França, mon cheri!
- Hã?? Nós...viemos de Espanha, estou morto...
- Morre quando chegarmos aquela vila que estou a ver agora. Estás a ver? Ali ao fundo! É lá que vamos ficar, beber uma águinha e descansar. Lá podemos montar a nossa banquinha, tu tocas as tuas pandeiretas, eu danço e leio a sina e assim ficamos menos pobres!
- Que futuro risonho...- O Rodriguez, o meu marido por conveniência, não têm paciência nenhuma. Eu não gosto muito dele, esta é a verdade. Quando eu nasci ele já tinha seis anos e disseram-lhe "estás a ver aquela cigana ali? É a tua mulher". Pelo que dizem ele começou a chorar. Quando eu fiz quinze anos casámos. Uma semana de boda. Uma coisa nojenta. Ainda não lhe dei um filho, nem tenciono dar...As estrelas não o quiseram até agora e eu não fico triste, sinceramente. Um filho ia-me prender. Sou uma cigana do mundo! Ando descalça! Os meus pés estão sujos de passar por tanta lama e terra! Mas pelo menos sinto o mundo...Um filho, seja ele homem ou mulher, ia-me prender a uma terra e eu ia ter a responsabilidade de cuidar dele. Assim, decidi sair do acampamento. Já estava farta daqueles trolólós das ciganas do filho para aqui e do filho para ali. Chega! Fiz-me ao caminho e trouxe o Rodriguez. Chegámos a Fleury num lusco-fusco tardio. Que simpática vila.
- Encosta ali àquele pinheiro, Rodriguez- disse eu ao Rodriguez, que levava a nossa casa às costas.
- Estou morto...
- Óptimo! É da maneira que não incomodas! Vou dar uma volta pela vila, queres vir?
- Estou morto...
- Óptimo!- E lá fui. Mesmo sendo já tarde, as pessoas olhavam para mim com desconfiança. Um rapazito, um miúdo, veio ter comigo, quando espreitava uma montra de uma barbearia "Barbearia Fillipe".
- A senhora é cigana?
- Que tens a ver com isso?- disse.
- O meu pai diz que os ciganos trazem doenças...
- O teu pai é um ignorante- respondi. O rapazito ficou a olhar para mim. Simulei um espirro para cima dele e ele começou a correr que nem um doido a gritar. Ignorantes...
- Aposto que o infectou...- disse uma rapariga, que passava na rua nesse momento. Depois, percebi que estava na brincadeira. Riu-se e apresentou-se- sou a Odette. Já vi que temos algo em comum: ambas somos novas na cidade e ambas incompreendidas!
- Esta gente é toda assim?- perguntei, já com intenção de dizer ao Rodriguez para não desmontar as nossas traquitanas. Assim, era só pegar e pousar noutro sitio.
- Nem todos- respondeu a rapariga- alguns são bem gentis...- As estrelas começavam a aparecer no céu timidamente. A rapariga ficou pensativa mas depois voltou à terra- vão se instalar onde?- perguntou.
- Estamos ao pé de um pinheiro...o meu marido está lá a descarregar as coisas.
- Não vão ficar numa pensão?
- Ai, não! Onde fariamos fogueiras, onde assaríamos morcelas e comiamos cabrito? A questão é: Qual o melhor sitio para montar a nossa tenda?
- Bom- disse a rapariga- eu sou nova aqui, como lhe disse, ainda não sei muito bem os cantos à casa. Mas pode ficar ao pé do mar, sempre se pode...hum, lavar!- A rapariga tinha razão. Eu cheirava a podre. E o Rodriguez? Esse matava passaros ao levantar os braços...
- Boa ideia!- disse eu- vamos agora mesmo para a ribeira. Vamos ficar na praia.- A rapariga lá foi à vida dela e eu fui ter com o Rodriguez que dormia junto ao pinheiro.
- Rodriguez, acorda, vamos para outro sitio...
- Nhão...Nhão...eu estou cansado...
- RODRIGUEZ! Pega lá nas tralhas que vamos tomar banho na praia, e fazer uma figueira para nos aquecer. Ainda tens de ir pescar qualquer coisa, porque não temos o que comer.
- Morgana, por favor, estou cansado, não me aguento...- Ele não teve escolha, como devem imaginar. Fomos andando até à praia. Avistámos um barco. Já não vamos ter sossego, estou mesmo a ver. Montámos a tenda, as traquitanas todas e fomos tomar banho. Que bom...estava fria, a água, mas finalmente estava lavada! O Rodriguez não queria tomar banho. Disse que estava fria, mas como devem imaginar não teve escolha. Quando saímos da água, depois de umas brincadeiras, tínhamos uma plateia a assitir. Não diziam nada, apenas olhavam para nós.
- Temos companhia, Morgana- disse o Rodriguez.
- Chiu, espera, não lhes dês trela, não ligues- e continuámos a andar do mar até à fogueira que tínhamos acendido. As pessoas continuavam a olhar e começaram a fazer imensos comentários.
- Já não basta andarem por aí a infectarem pessoas também infectam o mar!- gritou um deles. Não dissemos nada àquela gente. O Rodriguez entrou para dentro da tenda e mudou de roupa. Eu fiquei a aquecer-me junto à figueira.
- Saiam daqui seus saltimbancos! Seus ciganos! Não vos queremos cá!- Não dei resposta, estava de costas, a aquecer-me no lume, mas virei-me quando percebi de que alguém me estava a defender. Um rapaz, falava para aquela gente. Não consegui ouvir o que estava a falar, mas percebi que estava a repreende-los. Pensei que era uma daquelas pessoas gentis de que me falou a rapariga da praça, a Odette. E depois tive a resposta, quando a multidão dispersou e a vi com aquele rapaz, o que me defendeu, os dois, a ver o mar e a falar. Olhei para eles e para as estrelas do céu. Maldita a minha sina, que me faz compreender o inexplicável, aquilo que nem todos vêem. O que vi nelas, não foi nada risonho...

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Maus ventos do Norte


Atchim, atchim! Mon Dieu, toda eu sou mucosidade, toda eu sou fluídos pegajosos! E onde se terá metido aquele rapaz? Disse que não demorava. Já está bem escuro e as estradas não são nada seguras a estas horas. Ainda por cima a chover! Oh mon dieu! Que terá acontecido? Estará caído no meio da estrada, já com corvos de volta dele???
- Maman?
- Ai graças a Deus estás bem!! Oh meu rico menino, já estava a pensar o pior! Nunca mais me fazes uma destas ... ai o meu pequenino!
- Mãe, tem calma! Só me atrasei um pouquinho e ... temos visitas por isso, podias largar-me um pouco? Só um pouquinho?
- Mas quem? Que ... não me digas que engravidas-te a moça? Bem isto começa a ser repetitivo! Alan Phillipe tu não tens juízo nenhum e ...
- Calma, calma maman! E não confundas as coisas, a Pauline estava com gases nesse dia. Não comeces já!
- Bom senão a engravidas-te o que está ela aqui a fazer? É uma das tuas amiguinhas de Paris?
- Não, vê se te acalmas e me deixas explicar!
- Estou ATCHIM calma.
- Esta é a Odette. Conhecia no caminho para cá quando te fui fazer o recado. Ela é de fora e precisa de um lugar para ficar. Trouxe-a para aqui por já sabia que mais ninguém a ia acolher na vila.
- Porque é cigana?
- Não, mas para vocês ninguém é suficientemente bom para cá ficar.
- Temos as nossas razões. Mas ATCHIMm diz lá rapariga, de onde és?
- Mamam ela deve estar cansada. Vou levá-la para o quarto da Emanuelle está bem?
- Mas ...
Calou-me com um beijo na testa. O meu querido Alan bem sabe como me dar a volta. Só espero que a rapariga não esteja aqui para ficar, quero-a fora daqui em uma semana. Não a quero para ali a dormir no quarto da minha pequenina, a minha pobre menina que nos deixou tão cedo. Foi a maldita tuberculose que a levou! E tudo por culpa dos malditos saltimbancos que só sabem espalhar o mal. Morreu tanta gente nesse ano, a vila ficou praticamente sem crianças e por isso a gente de Fleury não vê com bons olhos a chegada de pessoas estranhas à nossa terra. Já não bastava o barco e agora esta flausina. E o Alan entrou com aquele brilho nos olhos, o mesmo brilho de quando falava da Pauline.
- Alan? Chega cá ao meu quarto se faz favor.
- Diga maman.
- Tu nem penses em arrastares a asa para aquela moça ATCHIM ouviste? Tens tanto moça bonita em Fleury, não precisas de estrangeiras! Tu vê lá filho não partas o coração à tua velha mãe!
- Primeiro tu não és velha, és uma múmia mesmo!
- Seu idiota! não se fala assim com a própria mãe!
- Ahahaha ... estava a brincar! Eu não arrasto a asa para ninguém, mas achas que ela gostou de mim?
- Vai já para o quarto! E olha que eu vou lá trancar-lhe a porta se for preciso!
- Tenho sempre a janela! Ahaha!
Saiu ao pai o que se há de fazer. Não leva nada a sério, tudo é motivo para brincar. Ai a minha cabeça! Mas será que isto nunca mais passa? Tenho tanta coisa para fazer, não posso estar na cama. Preciso é de uma boa noite de sono e acabou-se. Amanhã volto ao trabalho.
Esta loja está uma bagunça. Os tecidos todos enrolados, botões e agulhas por todo o lado. os manequins tem as pernas e os braços trocados. Que criança! Preciso é de uma esposa que lhe meta juíza na cabeça e o torne responsável, pois eu estou farte de tentar!
Enquanto estava a arrumar e limpar ouvi um barulho vindo da cozinha. Imaginei que fosse o Alan. Nunca foi de dormir muito.
- Querido andas à procura de alguma coisa?
- Eu ... desculpe madame! Vim só beber alguma coisa para me fazer à estrada. Se não for incomodo ...
- Claro que não filha (alegria, obrigado mon Dieu, pequenos festejos na minha mente, salto, pulo e rio) deixa que eu mesma te sirvo uma chaveninha de café!
Derepente sinto-me como se tivesse 40 anos outra vez!
- Mas diz-me ... dormis-te mal foi?
- Não, não! A cama era óptima. Aliás já não dormia tão bem desde ... sempre.
- Que bom saber. mas então vai para onde?
- Penso ficar em Fleury mas talvez numa pensão. Não quero incomodar.
- Compreendo. talvez seja o melhor sabe? Afinal a vida está cara e uma viúva~mal consegue sustentar um filho e ela própria, mais uma boca e ...
- Eu percebo.
A rapariga lá bebeu o café e um bolinho de mel que eu para lá arrenjei e partiu. A coitada não vai arranjar quem a albergue e acaba por ir embora hoje mesmo.
- Bom dia maman!
- Então dormis-te bem meu amor?
- Maravilhosamente ... a Odette já desceu?
- Já desceu e já saiu.
- SAIU? Para onde?? Tu não ...
- Eu nada! A moça diz que queria ir embora para não incomodar e eu concordei. O que podia eu fazer?
- Olha eu vou sair e não volto até a encontrar. Falamos quando eu chegar!
- Mas que é que eu fiz?
Ele ainda me vai agradecer. Só espere que já não a encontre. Entretanto vou reabrir o negócio, tenho de compensar os tempos que tive parada.
Não tarda nada e tenho a loja cheia com as clientes do costume. A Françoise com a gata Estelle, a viúva Georgette e a Edith.
- Bonjour Edith!
- Bonjour! Vejo que se sente melhor Anne Marie!
- É verdade. A vida tem destas coisas, quando mais precisamos Deus dá-nos saúde para enfrentar os tempos dificeis.
- Está a referir-se ao barco do pecado atracado no porto de Fleury? - questiona Françoise enquanto acaricia a gata.
- E não só! Imaginem-me que o meu Alan trouxe-me uma rapariga ontem para casa! Uma estrangeira!
- Oh mon ... não me diga que ... como a Pauline? - pergunta Georgette curiosa.
- Non, cruzes credo, era uma desgraçada que estava perdida na estrada ou sei lá. Sabe Deus o que ela lhe fez para o convencer a trazê-la para casa. Só espero que não seja dessas bruxas que andam por aí. Se bem que não me pareceu cigana.
- E como é ela Marie? - Edith parece ter-se arrependido de ter feito a pergunta, pois logo a seguir baixou a cabeça e murmurou baixinho.
- Bom, não se pode dizer que seja feia. É até bastante bonita. Um tanto ou quanto pálido e de cabelos dourados aos cachinhos. Vinha com uns trapos vestidos e toda molhada.
- Hmmm ... tu tem cuidado Marie essa parece daquelas ... nem quero dizer a palavra que me arrepio.
- Há muitos anos que nenhuma ... anda por estas bandas Georgette. E o meu Alan ganhou algum juízo depois da Pauline. Não acredito que se deixe enganar tão facilmente!
- Vocês estão a falar de ... ahh ... pros ... senhoras da vida? É que ... eu acho ... quer dizer eu sei ...
- DESEMBUCHA EDITH! - gritámos em coro.
- Bom, eu acho que o barco está ... é ...
- Não pode? Um ...
- Sim Marie. Eu própria vi com os meus olhos!
- Isto é gravíssimo temos de avisar ...
- Não Françoise! Isso fica para depois. Agora tudo faz sentido ... a rapariga deve ser uma dessas pegas do barco. A querer desviar o meu Alan. Ela vai ver!
Acabei por fechar a loja mais cedo do que o previsto. Simplesmente não me conseguia concentrar. A raiva era demasiada! Fiquei na sala a tarde toda à espera e como de previsto o Alan chegou sozinho.
- Que pensas que estás a fazer? Não sou nenhuma criança para te andares a meter na minha vida!
- Estou a zelar pelos teus interesses! Não quero que te magoes!
- Magoar? Conheço-a à um dia!! Achas que me quero casar com ela??? Mal a conheço!
- Então por é que ficas-te tão chateado quando ela partiu?? E porque estás a gritar agora?
- É IMPOSSIVEL FALAR CONTIGO!
- Estás a portar-te como uma criança ... vê se te acalmas, vai ao Louis beber uns copos e volta quando estiveres mais calmo!
- Vou e não volto esta noite!
Aquilo passa-lhe. Muito provavelmente está de volta antes da uma.
Dito e feito, uma da manhã e já estava o menino de volta a casa!
- Anda cá meu palerma! A maman faz-te um cházinho quentinho e ... TU??? Mass ...
- Desculpe madame. O seu filho não estava em condições de vir para casa sozinho como pode ver ...
- "Viva, viva as raparigas de Paris
Belas e jovens raparigas de Parisssssss
Venham cá para a meu colinhooooo
Dêem-me um beijinhoooo
Lindas e ..."
- Que lindo estado sim senhora! Que vergonha Alan, levanta-te!
- Oh mamann, foi só para celebrarrr. Quando saí daqui estava tão mal e agora ... estou tão FELIZ ... deliz, feliz, feliz. Não é linda a Odette?
- É linda mas tem de se ir embora não é? Desculpe lá qualquer coisinha!
- Com certeza arranjei um quarto na pensão do Louis. Não precisa de se preocupar, já ouvi o que a senhora espalhou a meu respeito. Não volto a esta casa e se me vir na rua não precisa de me cumprimentar.
- Se não fosses estrangeira até gosta de ti.

sábado, 14 de fevereiro de 2009

Confições de uma viajante

"ick, ick, ick, ick"...- Bolas, não aguento mais o som desta bicicleta ferrugenta! Tenho de parar em algum sitio para arranjar este ferro velho...Quem me manda a mim deixar o padrinho e fazer-me ao caminho?- "ick, ick, ick"- chega!- Saltei da bicicleta e larguei-a bruscamente no meio do caminho de terra que me levaria a Ponpouse, uma vilazinha ribeirinha onde, digamos, tinha alguns afazeres a fazer. Nunca mais voltaria a Toulouse...Não quero mais nada com aquela cidade, só me trouxe desgostos...A morte da mére, o desaparecimento do pére...Não quero pensar nisso. Agora vou rumar a uma vida nova. Deixei para trás os "não, Odette, não vás..." e os "é muito perigoso!" e até os " vais te arrepender!", peguei na bicicleta do padrinho, o fiel Jacob, melhor amigo dos meus pais, e tracei o meu destino passando por Ponpouse, onde tinha e tenho umas coisinhas a fazer. Se não fosse aquela maldita bicicleta! "Ela já não me leva a mais lado nenhum...", pensei eu sentada à beira de um caminho em que não passava vivalma. Era meio da tarde e, apesar de ser Inverno, o sol estava tão quente como num dia de pleno verão. " E agora, mon Dieu? Nem uma reles carroça passa por aqui!". Ainda não avistava o mar, de onde estava, nem me ainda tinha batido na cara aquela brisa fresca vinda do oceano...Estava com tanta sede. De repente o céu encheu-se de nuvens, muito rapidamente mesmo fiquei boqueaberta! E num abrir e fechar de olhos começou a chover o que não tinha chovido desde à uns anos para cá naquela região da France. Abri a boca e engoli umas gotas de chuva. Depois começou a chover com tal violência que corri para baixo de uma arvore que me abrigou o possivel. Perfeito. Via a minha bicicleta à chuva e pensava nos mil "icks icks" que ela ia fazer, ainda mais enferrujada, ainda mais podre! Passada a chuva, tinha um caminho pegajoso e lamacento pela frente. Peguei na bicicleta e pensei que teria de descansar o mais rapido possivel. Depois arranjaria maneira de ir a Ponpouse e de me livrar de vez daquela bicicleta horrivel. Lá fui eu pela estrada. Eu e os meus "icks, icks". Para me abstrair daquele barrulho irritante comecei a cantar uma canção que o padrinho me cantava quando era pequena, uma canção de miudos! "Le papillon a volé, a volé, et elle était si belle! Le beau papillon qui a volé, a volé, a volé". Ia tão dstraída a cantar que não notei que uma carroça vinha na minha direcção! "Volé, volé, voléeeeeeeeeeeeeeeeeeeee!!! ahhhhhhhhhhhhhhh". Fui de encontra a uma árvore e uns arbustos e a carroça tombou, o cavalo fugiu e...oh, não...a minha bicicleta...Feita em cacos. Levantei-me com esforço e reparei que ninguém saíra da carroça. Corri para lá e reparei que tinha rasgado o meu vestido branco, o meu melhor vestido. A madrinha disse que eu tinha, enquanto andasse a viajar, de andar sempre apresentavel, porque nunca sabia quem ia encontrar pelo caminho, e então vesti o que já não é o meu melhor vestido. Tinha folhas na cabeça, tinha perdido um sapato e as minhas lindas meias brancas, que o padrinho trouxe de Paris, estavam castanhas e rotas! Corri ao alcance da carroça.
- Oh! Dieu! Está aí alguém? Perdeu o seu cavalo...- A carroça estava tombada. Estivesse lá quem estivesse, estava debaixo dela!- Está bem? Oh!- ninguém respondia, comecei a entrar em pânico! Peguei num pau forte e tentei levantar a carroça, mas não conseguia! Era demasiado fraca...Continuava a bater na carroça e a perguntar se a pessoa me ouvia. Depois de algum esfoço e de alguns paus partidos, levantei a carroça. Mas...Eram só tecidos, panos...Remexi os panos todos, à procura de alguém mas não estava lá ninguém. Mas...
- Bravo! Adorei o seu trabalho!- Uma voz, vinda de trás de mim. Levantei-me bruscamente, não estava lá ninguém- Não desiste, é uma rapariga pressistente! Como as folhas desta árvore!- Olhei para a árvore, que realmente estava atrás de mim, mas continuava a não ver ninguém...
-Pst! Aqui em cima- olhei para cima. Em cima de um ramo da árvore estava um rapaz, sentado, refastelado, melhor dizendo, e comia uma maçã- Bonjour!- disse ele. Fiquei a olhar para ele e enchi-me de raiva!
- Esteve aí este tempo todo? Era você que conduzia a carroça?
-Oui, madame!
- Mademoiselle!
- Oh, pardon, mademoiselle...- E desceu da árvore num só pulo. Quando desceu desequilibrou-se e torceu o pé, caindo no chão. Fui ao seu auxilio rapidamente. Este meu instinto de...ah, enfim.
- Isto não é nada, madame...
- Mademoiselle...- Ajudei-o a levantar-se e...que olhos, por Dieu! E que...
- Já vi que gosta muito de ajudar os outros!- disse ele, apanhando os tecidos do chão, que ficaram todos sujos, sacudindo-os e dobrando-os.
-E eu já vi que gosta de fazer troça das pessoas! Este na árvore o tempo todo e não me ajudou!
-Queria ver até onde ia para me salvar, neste caso foi até ao fim! Estou impressionado. Sou o Alan- disse atirando um role de tecido para dentro da carroça e estendendo-me a mão. Fiquei a olhar para a mão dele. Normalmente eram as damas que estendiam a mão, para os rapazes a beijarem. Mas ele pretendia um aperto de mão? Estendi a minha mão receosa e lentamente.
- Odette...- disse, desconfiada. O rapaz sacudiu-me a mão e o braço e acabou por me sacudir toda!
- Está toda suja, deixe-me ajuda-la- E apressou-se a me sacudir a saia, e o...decote do meu vestido. Quando acabaou olhou para mim com a maior da descontração. Eu estava estupefacta...
- O-obrigada- disse eu.
- Oh, tem a meia rota...Deixe-me ver isso, apanho-lhe essa malha num instante...
- Espere, espere lá!- Disse eu desviando-me do rapaz- Sabe coser?- Ele riu-se e subiu para o cimo da carroça. Quando se instalou lançou-me a sua mão, para eu me sentar lá.
- A carroça não tem cavalo...vai me levar para onde?- perguntei, a rir. Ele riu-se também. Tinha um sorriso mesmo bonito, o...Alan.
- Vou só lhe coser a meia, mademoisselle...- Subi e sentei-me ao lado dele. Que olhos tinha aquele garçon!
-Posso?- disse ele, apontando para a minha meia- afinal fui eu o causador da sua queda...
- Eu é que ia distraída...- Disse eu. Tirei a minha meia branca e dei-a a ele. Que estranho! Estava a tirar a minha meia a mostrar parte da minha perna a um rapaz que não conhecia de lado nenhum...Mas sentia-me tão à vontade com ele, que nem reparei no que estava a fazer. Ele tirou da carroça uma pequena maleta, de onde tirou uma agulha e uma linha. Num abrir e fechar de olhos a minha meia só não estava como nova porque estava suja. Ele fez questão de me calçar a meia. Foi um momento, digamos que esquisito. Se o padrinho me tivesse visto, naquela posição, com um rapaz a calçar-me uma meia, era corrida à chapada até casa. Mas vamos ver pelo lado positivo: Ele estava-me a vestir, pior seria se me estivesse a despir.
- Que habilidoso...-disse eu- onde aprendeu a fazer isso tudo? Eu nem coser um botão sei!
- A minha mãe é modista. Vive em Fleury, aqui perto. Aliás ia para lá quando me deparei consigo e com a sua bicicleta...Fui buscar uns tecidos. Agora que ela está doente, eu tenho de fazer um pouco de tudo. Cheguei de Paris à pouco tempo. A madame é de onde?- O rapaz falava, e bem!
- Mademoiselle e sou de Toulouse. Quer dizer, não bem de Toulouse mas...vivi sempre por aquelas bandas- respondi, ajeitando aquilo que restava do meu melhor vestido.
- Vai para onde?
- Tantas perguntas, tantas perguntas! Agradeço por me ter ajudado e por me ter enganado...- ele começou-se a rir...- mas agora vou continuar a minha viagem, adieu!- e pulei da carroça.
- Mas está a escurecer e...
- Oh non! Onde está uma das rodas da bicicleta? Deve estar por aqui por perto...talvez atrás deste arbusto...
- Mademoisselle...Venha comigo para Fleury.
- Ela deve andar por aqui...Eu concerto-a num instante, não é necessário ir para Fleury!- dizia eu, nem lhe dando muita atenção, apenas desfolhando todos os arbustos daquela área.
- Pensei beeeeem- dizia ele com aquele tom trocista, com que me abordou da primeira vez, quando estava em cima da árvore.
- Pense bem, pense bem- resmunguei eu ainda enfiada em arbustos- nem caval...- Quando me virei, o cavalo estava na carroça- como é que...?
- O Voyageur? Ah, foi só comer umas ervinhas no monte, eu sabia que ele voltava!- disse o rapaz, dando umas palmadinhas amigáveis no cavalo. A roda da minha bicicleta não aparecia. E vendo bem, não a iria conseguir concertar. Mas aquele rapaz já me devia achar demasiado fútil e estúpida, não lhe ia dar o gosto de me achar ainda mais!
- Deixe lá, vou a pé!
-Vai a pé??- Perguntou ele, dando meia volta com o cavalo e com a carroça e acompanhando o meu passo coxo, sem um sapato. Que figura...- Então se vai a pé, terei de a acompanhar...- disse parando de vez a carroça. Parou, amarrou o cavalo a uma árvore e disse:- Vamos?
- Está parvo?- disse eu- Vá à sua vida! Já o atrasei demasiado...
- Acha que a vou deixar a vaguear por estes caminhos pela noite fora, sozinha?- Oh, Dieu! Que cavalheiro! Ai, se o padrinho me visse...- Você é teimosa! Mas eu sou mais!- Olhei-o. O sol estava-se a por. As nuvens que choraram toda aquela chuva estavam agora coradas de um rosa velho, que o sol fazia questão de fazer realçar. Os olhos do rapaz brilhavam mais que o próprio sol e eu corava como as nuvens...- Odette?- disse ele, despertando-me de repente.
- Oh!- disse- Eu vou sozinha! Vá lá cuidadar da sua mãe para a sua terra!
- Está a ser maldosa, agora, Odette...
- Eu? Você é que se atravessou no meu caminho!
- Se a deixar ir, com que certezas fico de que a verei outra vez?- Estagnei. O rapaz não tinha papas na língua. O sol, as nuvens, o rosa, o amarelo, a brisa...Tudo desapareceu quando o rapaz me pegou ao colo de um trago!
- AH! Largue-me! Que pensa que está a fazer?
- Vou leva-la daqui. Se a apanham na estrada, à noite, os gatunos e os malfeitores, não imagina o fim que leva!
- Está a ser grosseiro!
-Fica em Fleury até ter transporte ou qualquer coisa do género...
- Qualquer coisa do género?? Largue-me está-me a magoar!- Mentira.Ele era um cavalheiro perfeito, não me estava a magoar, tinha um jeito para pegar em raparigas...ai se o padrinho me ouvisse agora...E...pimba! Carroça, no meio dos tecidos. Fiquei sentada, a compor-me. Os meus ricos cachinhos dourados, o meu cabelo...Estava um ninho de ratos! O Alan foi buscar o meu cestinho de pertences, à retaguarda da minha bicicleta e partimos rumo a Fleury.
- Vai gostar daquilo, Odette- disse o rapaz enquando conduzia a carroça- Agora até chegou lá um barco qualquer! As pessoas dizem que é um circo, mas eu acho que aquilo é mais um bordel...
- Tenha tendo na língua! Está na presença de uma dama!- disse eu.
- Peço desculpa, peço desculpa- disse ele. Após um silencio aterrador...
- Frequenta esse tipo de sitio?- perguntei.
- Não, não...não preciso. Tive...algumas namoradas- disse ele, sempre a rir.
- Disse que era um barco. Esse barco tem nome?
- "Charline", ou que é...- disse ele.
- Ah...
- "Charllote", assim é que é.
- Ah! Está em Fleury??- disse eu.
- Conhece?
- Eu?...Não, não, não faço ideia do que seja...Nunca ouvi falar.- E avistámos Fleury no fim do caminho. Parecia que estava a pegar fogo, com aquele por do sol. Ao chegar à vila senti a tal brisa fresca e avistei não só o mar mas também o enigmático barco..."Charlotte".

Bolinho de cenoura

Mas que ...? Mas o barco está com problemas? Porque é que parámos? Mas ... que sítio é este? A Charlotte anda a beber demais, ela pensa fazer negócio aqui?
- Charlotte?? Madame??
Onde se meteu aquela mulher? Bati à porta do quarto mas não respondeu. Fui até ao porão e olhei à minha volta ... mas que vilinha mais patética! CHARLOTTE????
- Jaqui não nos queres vir ajudar docinho?
- Agora não Marcelle ...
- Estás linda hoje, vejo que estás a usar o corpete que te comprei em Veneza!
Opss, está explicado o friozinho que me percorreu a espinha, ou seria por causa do Marcelle ...
- Bom já vi que não me vais ajudar ... já agora que estão aí a fazer?
- Foi a âncora docinho. Ficou presa em alguma coisa, mas não deve demorar. Devemos partir ainda hoje.
Ao menos isso. Mesmo assim a maldita Charlotte deve estar a fazer das suas, vai-me sempre acordar quando chegamos a um novo porto. Costuma-mos fazer o reconhecimento da zona juntas.
- Ah aqui está a minha Jaqui! Apresento-te a Edith.
- Edi ... quem? (Que mulherzinha enfezada)
- Uma rapariga que veio cá ver o nosso "Charlotte", vim mostra-lhe as instalações.
A mulherzinha enfezada olhou-me de cima abaixo e fez um gesto de desaprovação com a cabeça. A Charlotte disse que tinha de tratar de uns assuntos e eu fiquei encarregue de lhe mostrar o resto das salas. Era o que me faltava. Já nem me lembrava que haviam pessoas assim, desinteressantes, pobremente vestidas e penteadas, com as unhas pálidas e sem verniz. A única coisa que se aproveitava deste quadro triste eram os olhos, tem uns lindos olhos cor de azeitona. Mas os óculos redondos e de armação gasta quase não nos deixam vê-los.
- Venha por aqui Edith.
- Chegámos ao corredorzinho das oito portas. Oito portas para oito raparigas, as eleitas de Charlotte que iram brilhar no palco mais adiante. Só um quarto está ocupado, o meu. Mais ninguém esteve a altura de ocupar algum dos outros, talvez eu tenha alguma coisa a ver com isso. As bailarinas têm indo e vindo mas nenhuma delas ficou nos quartos do corredor. Expliquei à Edith que estes quartos eram especiais e que cada um tinha um tema próprio.
- Temas?
- Sim temas. Cada quarto tem uma função diferente ...
A rapariga ficou visivelmente perturbada, apertou as mãos dentro dos bolsos e simulou um sorriso. Tentou disfarçar perguntando ...
- E aquela porta ali?
- Bom ... (eu sei que a Charlotte não gosta que alguém mostre o cabaret sem ser ela a fazê-lo, ainda por cima com tudo por arrumar) é a nossa sala de espectáculos!
Pensei duas vezes antes de abrir a porta, mas tenho a certeza de que se a enfezada sair daqui a correr e for espalhar pela vila o que realmente se passa no barco ... nós vamos ter de partir!
- Está tão escuro! Que tipo de espectáculos fazem ...
- Jaqui!! Que estás a fazer??
- Madame, eu vim mostrar ...
- Venha Edith não há nada para ver aqui.
Está cada vez mais insuportável! Qualquer dia ... calma, tenho de ter calma. Logo, logo vamos embora talvez a convença a voltar a Paris.
Parece que o problema do barco era mais grave. Parece que o motor sofreu uma avaria e vamos ter de ficar por aqui pelo menos uma semana. Se ainda estivéssemos num sitio interessante ... agora aqui! Não há nada para ver. As pessoas da vila parecem divertir-se com pescarias, pescada frita e trazerem as suas cadeirinhas para o porto e ficarem o dia todo a especular e a apontar como se fossemos aberrações de circo.
Já não aguento mais estar aqui dentro! Preciso de ar! O Marcelle foi pescar mais o resto da banda por isso não tenho nada com que me entreter. Acho que vou à vila. Pode ser que encontre uma boutique ou uma perfumaria, e cigarros! Preciso desesperadamente de cigarros!
Ao sair deparei-me com dois homens de meia idade, encostados ao barco a fingirem-se ocupados.
- Oh coisinha linda! Psst ó bolinho de cenoura! Anda aqui para a nossa beira ... nós ... não mordemos!
Francamente, parece que nunca viram uma mulher! Certamente nunca viram uma mulher como eu ... linda e glamorosa. Ninguém resiste aos meus cabelos ruivos e aos meus olhos cor de avelã.
À medida que fui percorrendo as ruas percebi o desespero daqueles homens. As mulheres pareciam uma cópia da Edith, desinteressantes, pele queimada pelo sol, olhos pequenos e corpos malfeitos. Não admira que estejam tão desesperados, eles próprios não são propriamente deuses do Olimpo.
Entrei num cafezinho chamado "Café de Poisson", que apropriado! Era um daqueles cafés típicos, chão com mosaicos aos quadrados pretos e brancos, paredes verdes lima, bancos de pele gordurosos e frequentadores gordos e oleosos.
- Bonjour.
- Boujour madame. - respondeu-me uma senhora corpolenta com os olhos demasiado juntos e com os dentes esborratados de baton.
- Queria um café por favor.
- Com certeza mademoiselle.
Olhei em volto à procura de alguém minimamente interessante. Á primeira vista nada de especial mas foi aí que ele entrou. Senti os joelhos a tremer e fiquei com as mãos suadas e a boca seca.
- Bonjour Clarisse!
- Bonjour Alan!
- Tem aqui o jornal do dia e um bolinho que lhe fez a minha mãe.
- Merci Alan, manda um beijinhos à tua mãe e as melhoras!
Fiquei completamente boqueaberta com aquela visão. Aquele homem punha todos os outro que alguma vez conheci a um quanto debaixo de uma goteira! Era lindo! Cabelo castanho, olhos castanhos esverdeados e uma barbinha aqui e ali daquelas que me picam e arrepiam ... corpo de deus e sorriso ... ai ai!
- Menina? Menina tem aqui o seu café!
- Merci ... desculpe a indescrição mas ... aquele ...
- O Alan?
- Sim. Ele é daqui de Fleury?
- Sim, sim! É um bom rapaz sabe. Veio agora de Paris para tratar da mãe que está doente.
- Mas ele não vive cá o tempo todo?
- Suponho que agora cá fique de vez. Ele foi para Paris estudar piano. Devia ouvi-lo tocar!
- E é ...
- Não é casado não! Mas nós estamos a ver se lhe arranjamos noiva cá na aldeia, para ver se fica. Precisamos cá de juventude.
- Pois estou a ver.
- Você é daquelas do barco?
- S-sim ... porquê?
- Desculpe lá estar a perguntar mas ... vão cá ficar muito tempo?
- Algo me diz que sim.
- Já agora, desculpe estar a incomodar, você não é aquela atriz? A daquele filme?
- Sim sou eu.

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

Edith não fala com estranhos!

"Que dia bonito que vai estar!", pensei eu ao acordar às cinco em ponto, como todos os dias. Não havia nuvens no céu, o sol ainda não tinha nascido, mas de certeza que iria nascer em grande e iria aquecer a nossa vilazinha. Vesti-me, como todos as manhãs e lá fui eu para a "loja", é como lhe chama-mos. Trabalho na "loja" do senhor Leonard, uma agência funerária. Sou recepcionista. Sim, lá vem a piadinha de sempre: "Ah, lida com os mortos, recepcionista, já viu algum fantasma? ah ah, piadinha...". Não, na verdade faço mais das seis da manhã até às oito do que durante o dia. O senhor Leonard quer que eu limpe sempre tudo, todos os dias! Não vá o diabo tece-las e apareça um cliente...Na verdade não há clientes há muito, muito tempo. As pessoas teimam em não morrer. É chato. Eu ganho à mesma aquela miséria que o senhor Leonard me dá! Mas sinto pena do homem. Tão novo ainda, experiente, anseia mudar a roupa de pessoas pálidas, de lhe tratar das coisinhas, de encomendar os seus caixõezinhos e nada...Nem um defuntinho para alegrar o pessoal! Ai, credo, olha eu aqui a falar assim...Mas o que posso dizer? Estou parada naquela loja, sentada atrás do balcão, a fazer nada. Se não fosse a dona Anne Marie, de vez em quando a lá ir dar-me um beijinho e um agradinho, hoje a defunta era eu. Bom, levantei-me, então e saí para a rua. A minha humilde casa, da minha avózinha, coitadinha, que já se foi, no tempo em que finavam pessoas, fica mesmo junto ao mar, o que é mau, porque para além da humidade, de manhã o frio quadriplica! Estava eu cheia de frio, andava rapidamente, quando, ainda à média luz, sinto ficar mais escuro ainda. Pensei: " Hoje é o juizo final..." e logo depois: "Corre, Edith, que por isso hoje a loja vai estar cheia!". Mas não, talvez infelizmente não. Andei um pouco mais rapido, mas a sombra cobriu-me por inteiro. Quando me atrevi a olhar para cima, para o lado, sei lá! Para o mar. Avistei um monstro! Um barco, grande, volumoso, meio velho meio novo, não sei bem, que atracava no nosso porto. De repente ouvi um "Nãaaaaaaaaaaaaaaao!!". Dei um pulo! Assustei-me! O que seria aquele barco? Oh! Homens! Seriam homens! Marinheiros! Oh...Piratas...eram piratas...foge, edith? foge? Não...eu tenho de ver aquilo. Ai! E se eu fosse levada por piratas? Daqueles que cheiram a rum que se farta! Daqueles porcos e selvagens, mas lindos de morrer! Cabelos compridos, barbas mal arranjadas...Vou entrar! A coisa foi dificil, porque o barco não estava ainda totalmente atracado, mas lá dei uns pulitos e lá entrei. "Charlotte". Que nome mais...afemeninado para um barco pirata. Será que os piratas eram...não! Não há piratas...Enfim. Deambulei um pouco pelo convés. Não havia sinal de ninguém. Quando me atrevi a gritar "Oh, do barco!", caiu uma coisinha vinda não sei de onde! Assutei-me, novamente, e a recepção foi magnifica...
- AHHHHHHHHHHHHHHH!
-AHHHHHHHHHHHHHHH!- gritou a coisinha.
-AHHHHHHHHHHHHHHH!
-AHHHHHHHHHHHHHHH!- gritou a coisinha. Ainda não estava luz suficiente para ver o que era aquilo! Era pequena, só sabia isso! E tinha uns bons pulmões. Depois a coisinha aproximou-se e acendeu um cigarro, que iluminou um pouco as coisas, em todos os sentidos- Que está aqui a fazer, dona?- e chegou mais de perto- A dona...Xi! Também não precisa estar assim a tremer! Parece que viu um fantasma!
- Fantasma? Alguém morreu aqui? Alguém do barco? Vêm enterrar alguém a Fleury?
- Não...-respondeu a coisinha. Percebi que era meio homem. Era algo estranho. O papá contava-me histórias de animais meio homem. A pequena coisinha fazia-me lembrar algo a que o papá chmava de sátiros- meio homem, meio bode. Só lhe via a cara, por causa da luz do cigarro. Felizmente a parte de homem era a de cima. Ou será que infelizmente?
- Não me faça mal, senhor sátiro!
- Qué?
- Sou só uma curiosa!
- Pois, vamos ter muitos, já estou a ver...Está um frio aqui. Não quer entrar?
- Oh, não eu não aceito coisas de estranhos, muito menos convites para entrar na casa deles!
- Venha conhecer a minha dona.
- É domesticado...? Pobrezinho...
- Qué?
- Tem dona...Ela é a dona do barco?- Acendeu-se uma lamparina ao fundo do corredor. Vi uma figura andar na nossa direcção. Quando chegou mais perto, percebi que a coisinha era todo homem. Pequenino, mas que homem...
- Sim. Não a quer conhecer? Ela está...
- Estou mesmo aqui!- disse uma senhora toda bem vestida. Uma madame- Vocé é quem, criatura?
- Olá, madame, sou Edith, sou da vila- e comecei a rir estupidamente. Nervosismo.
- Ah...Pacheco, temos mesmo de fica aqui? Oh, por Dieu! Quer sair o mais rapido daqui!
- Tem alguma coisa contra Fleury, madame?- perguntei. Ela olhou-me de uma maneira que quase me matou.
- Non...- disse ela com uma cigarrilha ao canto da boca, que deixava um fumo não totalmente desagradavel- Mas não gosto disto, tinha outra coisa em mente! Queria atracar noutro porto, só isso.
- Isso agora é complicado, dona. Baixamos a âncora, ela encalhou numa coisa qualquer. Vou pedir para os rapazes da banda me ajudarem a ver isso. Vamos mergulhar.
- Oh...Ha mais gente, do que vocês os dois. Homens, portanto.- disse eu, arrependendo-me no minuto seguinte.
- Sim, sim- disse a madame- E agora não tem mais nada para fazer, não? Não trabalha numa coisa qualquer, tem ar de professorinha, não?
- Oh, não...Sou secretária numa agência funerária!- Que orgulho...
- Ah...- disse a senhora- Felizmente não precisamos dos seus serviços. Por isso, se não se importar...- Naquele momento uns 10, talvez 8, talvez 6 homens, lindos, piratões, entraram, vindos de sei la de onde, do céu, quem sabe, e preparavam-se para saltar para o mar.
- Um banhinho fresco, logo pela manhã, hã, mes cheri?- disse a madame àqueles todos maravilhosos seres. Seria ela..."dona" de eles todos? Que pecado.
- Sim!- respondeu um deles, um loirinho, uma joia- e aproveita-mos e vamos ver a âncora!- Finda a frase, ele arregaça a escalças, e, todos em conjunto, tiram as camisetas, as camisolas, as camisas.Ali! à minha frente! Dei um pulo, outra vez! Que visão do...paraíso! Coisas destas não me contava o papá nas histórias! Pimba, pimba, todos para a aguinha, que estava geladinha, de certezinha, àquela hora da manhãzinha! Homens fortes, aqueles. Olhava de boca aberta para eles. Debrcei-me no barco. Estavam alguns a brincar com a água e a fazer piadas tontas! Um deles até gritou: "Moça! Oh, moça! Anda cá, moça!". E eu, que não falo com estranhos, de qualquer espécie, sejam eles sátiros ou até valentes e encorpados minotauros, como aqueles, voltei para o sitio onde estava, onde a madame me olhava.
- Precisas de mais alguma coisa, ma cherie?
- Não, acho que não. Na verdade tenho de ir trabalhar...Vão ficar por muito tempo?
- Non! Partimos assim que conseguirmos! Se possivel antes do sol raiar por completo!
- É pena...
- Por causa dos garçons, hã? Gostas-te dos garçons...ah ah ah!!- Ria-se a madame, tirando e pondo a cigarrilha na boca.
- Oh! Por Dieu! Nada disso, sou moça de respeito...Mas moram todos aqui no barco?
- Nunca ouviste falar do "Charlotte", ma cherie?
- Non, madame.
- Então anda comigo. Vou-te mostrar o que é o "Charlotte"- e aproximou-se de mim, pegando-me levemente no braço. Eu recuei.
- Oh, sabe senhora madame, é que eu tenho de ir trabalhar...E além disso eu não falo com estranhos, nem aceito convites...
- Oh! E quem é que me vai ajudar a trazer as toalhas para os garçons da banda? Coitadinhos...ao sair da água vão tremer de frio.
- Bom! Sendo assim, quem sou eu para negar conforto aos pobres rapazes! Um dia sem limpar aquela espelunca, não se vai notar! Então vamos lá a isso!

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

"Charlotte"

Isto parecendo que não somos uma família! Uma família muito estranha, mas ainda assim uma família. Se há uns anos atrás me tivessem dito que eu, maior estrela de Paris, estaria aqui no meio do nada ... ai, ai como a vida muda! Só espero encontrar um porto simpático onde atracar, preciso de ver terra, já enjoei de tanta água. Mais do que ver terra ... preciso de ver homens! Homens a sério, não como aquela amostra de gente que é o Pacheco. Pacheco é o negrinho que comnheci em Milão. O pobrezinho estava sem trabalho e sem sítio em que ficar e foi então que eu disse "E o que tenho eu a ver com isso??". Ele ficou a olhar para mim com aqueles olhas grandes e suspirou. Penso que foi o meu lado maternal que não resistiu e resolvi contratá-lo como ... como ... faz tudo! É meu mordomo, mas também limpa as casas-de-banho ocasionalmente. É também bailarino e comediante às quartas. Mas mais importante de tudo, é o nosso comandante! Sim o comandante do navio Charlotte. Naturalmente o nome é o da sua proprietária.
Mas não pensem que estamos apenas os dois neste enorme navio. Pronto neste grande navio! Uma dama tão talentosa, respeitada e bela como eu viaja, naturalmente, com uma grande companhia. Para além do negrinho (convém realçar que ele é um rapaz de 23 anos, não é nenhuma criança), viajo na companhia de Jaqueline que é a minha protegida, uma bonita corista com grandes dotes vocais e não só, o Florentino " o mágico" Chamuça que é de ascendência indiana e cheira a chamuça lá está. Para além disso, no meu negócio, é sempre necessário uma grande quantidade de bailarinas e a música é fundamental. Apesar de não ter bailarinas permanentes, neste momento conto com a Anne, a Monique e a Clare. Para além disso temos músicos que fomos encontro pelos portos por que passávamos: um pianista de Roma, um saxofonista de Barcelona, um violinista sabe-se lá de onde e um guitarrista de Lisboa.
É claro que manter um barco como o "Charlotte" não é fácil. É preciso ser dura com os meus "marinheiros". Quando não há espectáculo é natural que todos tenham de dar a sua ajuda, é quase impossível manter o barco limpo. Eu sou a administradora é claro, gostava muito de os poder ajudar a limpar, esfregar o porão, limpar as casa-de-banho e essas tarefas enfadonhas. Mas uma senhora não se pode entregar a tais trabalhos. Eu preciso do meu banho de beleza, que me ocupa praticamente toda a manhã. Em seguida tratao dos meus lindos cabelos negros e aplico os meus cremes caríssimos para retardar o envelhecimento. O Pacheco perguntou-me no outro dia " Como tu mantens tua beleza intacta?", é natural que a minha beleza o fascine, mas também sou uma jovem de apenas 39 anos. Está bem 41! (Charlotte tem na verdade 45 anos)
O barco é até bastante luxuoso para o estado em que eu o ... a ... a ... herdei. Estava num estado lastimável mas eu decidi que valia apena investir nele. Mandei retirar o chão de madeira velho e esburacado e colocar carpetes cor de vinho por todo o barco (excepto no porão). As paredes estão revestidas com papel de seda que varia consoante a divisão. os candeeiros são de vidros coloridos, mas também temos candelabros e velas perfurmadas pelos corredores. O corredor principal tem espelhos por todas as paredes, com molduras douradas. As bailarinas partilham o quarto que dispões de 2 beliches e uma casinha-de-banho. Já os músicos não tem tanta sorte e dormem na mesma cama, uma King Size bastante confortável. O Florentino dorme junto à cozinha, na antiga despensa em que colocámos uma cama com colchão de penas. O Pacheco teve menos sorte e costuma dormir ao relento no porão, aconchegado entre os sacos de farinha. Para a Jaqueline reservei um quartinho especial, junto ao meu, com uma janelinha em forma de coração, cama com dossel e papel de parede cor-de-rosa com pequenas flores douradas. Claro que o meu quarto é o mais requintado. está repleto de tudo o que possam imaginar ... sedas da China, estátuas de mármore, uma cama redonda com um colchão de água delicioso, lençóis pretos e colcha vermelha sangue, e um candeeiro enorme recheado de cristais e adornado com pequenos rubis em forma de rosa. Devem estar a perguntar onde arrenjei tanto dinheiro, e porque o investi nesta lata velha ... bom não se deixem enganar pelo exterior.
No lado direito do barco, ao passar por umas escadinhas estreitas e por um corredor de 8 portas encontramos ... o meu cabaret! Sim! É esse o meu projecto, encontrar o sítio perfeito para estabelecer o meu negócio! Encontrar as melhores raparigas, cantores e bailarinos ... ser o centro artístico de França, esqueçam Paris a capital do amor agora é ...
- Terra à vista! - grita o Pacheco lá de cima.
Até que enfim o nosso destino! Ora a capital do amor é agora ... Fleury?
- Mas que raio? Negrinho!! Tens a certeza que não te enganas-te na rota??
- Não senhora. Fiz tudo o que a dona mandou.
- Bom vamos mas é continuar isto ... isto é o fim do mundo! Que vilazeca mais sem graça! Só há pescadores, barcos ... peixe! Que cheiro horrível! Vamos já embora, muda lá o rumo e essas macacadas que fazes, vamos é ...
- Sinhora ...
- Que foi?
- Nós encalhámos dona, agora não dá para voltar para trás.
- NÃÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!