domingo, 29 de junho de 2008

Uma história de amor

-Não...
- Digo-lhe, senhora Marcolina. O Jerónimo está preso. Ainda não sabia? Então...Até é o Manel que agora está no café. Não acredito que não sabia...
- Não...Mas porquê? Andou a fazer contrabando de tremoços? Eu não acredito que ando outra vez no contra...
- Não, dona Marcolina, nãaaao...Ele matou foi a velha da facalhada nas costas.
- Ai...Ai Jesus que se me apaga a luz! Ai acode-me Eunice!
- Mas não lhe quer que acabe de fazer a banana para levar ao casamento da sua prima Leopolda?
- Quero lá saber mulher...Ai que me estou a ir!
- Acudam! Acudam!- Gritava a Eunice enquanto eu desmaiava no cabeleireiro. A sorte é que estava sentada na cadeira...Já tenho grandes problemas de reumatismo, se caísse partia-me toda. Menos mal assim.- Ai, acudam! Cruz credo! Dona Marcolina, aguente-se!- Foi então que a Eunice agarrou no chuveiro, abriu-me a golela e abriu a torneira. Toda eu estremeci com o choque da água fria. O meu cabelo arranjado em banana olha...foi por àgua a baixo. O sétimo casamento da minha prima Leopolda, em A-da-Pipoca, terra de minha falecida mãe que Deus tem em suas graças, não contaria com a minha presença.
- Aiiiii!- gritei- Estou-me a afogar! Acudam! Acudam! Ai! AU! EUNICE!- A Eunice dera-me uma chapada. Também não era para tanto...
- Oh dona Marcolina, por S. Palito! Então mulher?- dizia ela enquanto todas as outras velhas que lá estavam a arranjar a crina olhavam embasbacadas para mim.
- Ai! Que coisa! Que coisa! A dispersar! A dispersar!- disse eu, fazendo um movimento para enxotar a velharia.
- Quer um copinho de água com açúcar?- perguntou a Eunice.
- Água? Não...Mas...O Jerónimo? Ele não matou ninguém, por nosso Jesus O salvador! Aquele inspector não tem provas! Mas quem pensa ele que é? Hum? Ai...isto não fica assim, não fica não!
- Pois...Mas sabe o que andam aí a dizer? É que ele andava metido com a Prudência...Sim! A costeleta podre! Ai...ri-me tanto quando...
- O QUÊ?- Não...o Jerónimo não podia ter-me trai...- Cala-te moça! Ai, meu S. Palito, ela não sabe o que diz!
-É totalmente verdade, dona Marcolina- dizia-me ela enquanto me recomponha a banana agora já sem vida e toda desfeita- As pessoas começaram a comentar porque umas parece que ouviram do café e depois outras também viram umas cuecas de homem penduradas no estendal da casa da dona primeira dama...Parece que a empregada, aquela rapariguinha que de vez em quando vem aqui fazer as unhas comigo, a Vanda, pegou em tudo, na roupa toda de cama, está a ver? E lavou aquilo tudo. Quando foi a estender olha...Apareceram as cuequinhas!
- De cama?...- Que horror! Que horror! Como é que o Jerónimo me pode fazer isto? Ai, credo! Não pensem que amo aquele homem mas...tivemos uma história...uma bonita história que nunca contei a ninguém! De repente lembrei-me: Se o Jerónimo estava preso quem estaria a tomar conta do Crispim? Levantei-me da cadeira, a banana desfez-se e fiquei com o cabelo todo esticado e comprido, como tinha, quando era nova. Corri para o café. O Manel estava lá a liderar um concurso de escarretas do balcão para o lavatório. Enrei, enojada e passei a porta que liga o café à casa do Bica. Encontrei o rapaz na cama a ler um livro.
- Senhora Prudência? Que gadelha!!
- Olá, meu querido...
- Meu querido? Senhora Prudência, sente-se bem?- Foi então que me cheguei ao pé dele e lhe dei um abraço. Aquele abraço que estava escondido à tanto tempo, aquele abraço que não podia ser dado porque podia fazer falatórios e cusquices...
- Oh...meu filho- deixei eu escapar da minha sagrada boca- Por Deus...Vem comigo. Quem toma conta de ti agora?
- O Marcolino- disse o rapaz. Era o papagaio que agora tomava conta dele.
- Hum...E que me dizes de ires agora morar comigo e com o Maroclino lá para minha casa, enquanto o teu pai não sai da prisão?- O rapaz saltou de contentamento. Num minuto fez as malas pegou no pássaro e fomos para minha casa. Levei-o a um dos quartos que tenho vagos, o mais bonito e espaçosos deles e ele adorou.
- Olha- disse-lhe- agora, eu tenho de ir às compras. Ficas aqui em casa, podes fazer o que quizeres, mas não mexas no lume, por nosso senhor Jesus Cristo. - O miudo concentiu em não tocar no fogo e foi brincar para o quintal. Eu fui ver o Jerónimo de seguida, sem me arranjar nem nada...Mas o que interessava não era isso. Era ir dar todo o meu apoio àquele que foi o grande amor da minha vida. Ele estava em Torres e por isso tive de ir de carro até lá. O policia levou-me à cela dele. Estava tão triste e quando me viu nem me reconheceu!
- Dona Marcolina?- disse ele.
- Sim, sou eu, a Lininha...- Disse eu, chegando-me o mais que podia às grades. Ele veio ter comigo e ficamos cara a cara.
- Finalmente, depois de tanto tempo decidiste soltar o cabelo...
- Ai! Credo não! Isto foi a Eunice que não conseguiu fazer a banana!
- Ah...
- O teu filho está comigo, não te preocupes.
- Obrigada, sinto tanta falta dele, Lininha.
- Eu sei Jójó...Eu sei...Mas tens de ter calma. Tenho a certeza que não cometeste nenhum crime e muito menos te meteste na cama com a ex. Costeleta, não é?- Ele não respondeu. Fiquei nervosa, por S. Palito!- Não é??- repeti.
- Matar não matei, Lininha, mas...Foi ela! Foi! Eu juro! Ela é que me levou e me agarrou e me...- Não queria acreditar! Depois de tantos anos, agora que queria uma reconciliação e viver feliz com ele, para sempre, com o nosso filho Crispim,o meu Jójó arranja outra! E é a velha e mal passada Costeleta.
- Jerónimo...Ela é uma mulher casada! Como foste capaz!
- Marcolina! Não te podes queixar! O único que se pode queixar sou eu! E quando tu eras casada e eu me apaixonei por ti, eu, um simples taberneiro, na altura jovem, muito bem parecido por sinal...Tu estavas casada com o paspalho do teu marido, o não sei das quantas Pimpolhete e nós vivemos um amor às escondidas! Um amor cego de paixão!
- Cala-te homem...olha os guardas!
- Ainda queres esconder? No dia em que te vi...quando estava a tirar um carregamento novo de tremoços para o café que acabava de abrir...linda! Cabelos ao vento! Linda, mas acorrentada ao Pimpolhete! Mas não descansei enquanto não foste minha, pois não? E eras casada, não eras? Ah...como era lindo quando nos amávamos em cima dos sacos de batatas podres, que obviamente não eram servidas no café. Faziamos puré!- O Jerónimo estava-me a envergonhar. Mas no meio de tudo, relembrar os velhos tempos estava-me a fazer bem...- E eu era tão jovem e cheio de sonhos! Sonhava abrir várias tabernas e cafés por este país fora. Lembras-te? Cada café teria o nome de um dos nossos filhos!
- Se me lembro...
- E tu Marcolina...Eras casada. Andámos quase 15 anos a namorar ás escondidas...Depois o teu marido morreu, nunca o deixas-te porque ele era podre de rico...Depois logo quando ele morreu tu subitamente foste para A-da-Pipoca porque estavas grávida e não querias que ninguém soubesse e eu fiquei ali...no café, a rezar por ti e pelo nosso catraio que haverias de parir! E não é lindo o nosso filho? Um tremoçinho!
- É...
- Pois...Depois entregaste-mo e até então nunca lhe disses-te que és a mãe dele...
- Eu sei! Eu sei! Perdoa-a mas eu cometi um grande pecado...tenho tanta vergonha, sou uma pessoa tão virtuosa e respeitadora e temente a Deus...Não podiam pensar que fui infiel!- O Jerónimo sentou-se no colchão de pedra que tinha na cela. E disse:
-Lininha, meu amor, meu único amor da minha vida da minha morte do meu café! Perdoo-te se me perdoares por ter ido para a marmelada com a dona Prudência...- Por Graça do Senhor! O que haveria eu de fazer?
- Anda cá, Jerónimo-disse eu fazendo-lhe sinal para ele se chegar ao pé das grades. E então, quando ele se chegou, desviei o meu cabelo para trás e agarrei-o e beijei-o! Um beijo lindo! (depois disto tenho de me ir confessar, ai que luxuriosa que estou, credo!)
- Lininha...
- Jójó...
- Lininha...
- Jójó...
- Lininha...Deves ter engolido o meu dente de ouro, está em falta!- desatei a tussir, com tanta coisa, não é que tinha o dente do Jerónimo entalado na garganta? Ai, cruzes!

sexta-feira, 27 de junho de 2008

O Bica vai pagar

Esta gente gosta é de algazarra de maneira que a futura presidente teve de ir dar a sua benção. Lá estavam todos a beber que nem uns desgraçados que não tem mais nada que fazer (calma lá ... eles são uns desgraçados que não têm mais nada para fazer!).
- Queridos eleitores, vim aqui para desejar felicidades aos noivos e ...
- Acho que quer dizer noivo senhor Prudência! A noiva está a chorar e a berrar em casa. - grita o Bica lá do fundo.
- Então ao noivo! O Manel que irá ser um excelente esposo e um pai dedicado ...
- Tão não eu bouu dedicar ... depo ... desta ... BUM - o Manel caiu redondo no chão.
- Bom era só isso que queria dizer. Sendo assim vou-me emb ...
- Não vai nada! A senhora vai ficar aqui e festejar connosco - diz o Bica oferecendo-me uma cerveja.
- É melhor não! Não posso beber, você não sabe como é quando fico bêbeda!
- Pois não e quero descobrir!
Escusado será dizer que as minhas memórias daquela noita são muito vagas. Lembro-me da cerveja que o Jerónimo me deu, lembro-me que estava calor, lembro-me de estar em cima de uma mes a a dançar, lembro-me de beijar o Manel e ... mais nada. ao menos estou na minha cama macia, fofinha e confortável e como já não está aqui o imbecil do Costeleta posso-me e-s-t-i-c-a-r e ... e tocar no ... Jerónimo! AHHHHHH!!!!
- Mas o que é que você faz aqui????
- Lindinha foi você que me arrastou! Eu nem queria a principio mas você insistiu e eu não ... - mal percebo o que diz mas sinceramente prefiro assim.
- Mas o que é que ... AHHHHHH!!!!
- Não se aborreça mulher ... eu não conto a ninguém a não ser que ...
- Que quê?
- Você é o mulher do poder eu sou um simples taberneiro ...
- Onde é que quer chegar com essa conversa?
- Bom ... não sei. Sempre tive o sonho de me tornar Presidente ... ou vá primeiro-damo!
- Mas você está louco? Pensa que eu sou assim fácil?
- Mas você é fácil! Não quer que eu vá por aí dizer que a futura presidente dorme com qualquer um que lhe ofereça uma bebida e lhe acaricia as orelhas. É que eu posso já tratar ...
- Cala-se homem! só diz disparates. Afinal o que é que você quer?
- Bem é que ... sabe ... o inspector Manteigas esteve no meu café à uns dias atrás e ... acho que ele suspeita de mim e ... já que você é tão influente podia ...
- Mas o que é que o casamento entre nós tem a ver com isso?
- Nada! Estava apenas a tentar, nunca se sabe ...
- Eu falo com o inspector Manteigas.
Que vergonha, vou tentar eliminar esta memória mas vai ser dificil. Só espero que aquele traste não se lembre de fazer mais exigências. Ainda por cima em época eleitoral não posso ter a minha imagem manchada.
- Senhor inspector posso entrar?
- Senhora Primeira Dama que deseja?
- Bom como futura Presidente é meu dever estar a par das investigações. Este assunto é da maior importância e eu quero saber como está a evoluir o caso.
- Desculpe minha senhora, mas não lhe puderei revelar nada. Os dados da investigação não podem ser revelados ao público!
- Público? Eu sou a primeira dama exigo saber! Para o bem da vila e para que ...
- Para quê?
- Nada, nada!
- Não lhe posso revelar nada. Desculpe mas vai ter de sair.
Desgraçado! Quem é que ele pensa que é? Posso acabar com a vida dele, tenho contactos! Ele vai ver. Toda esta agitação abateu-me esteticamente. Vou a Torres arranjar o cabelo e depois tenho de ir falar com o Bica.
Quando voltei ja era de noite. Dirigi-me ao café e reparei que o Bica não estava ao balcão. Estavam todos a rir e a beber como normalmente fazem. Mas havia algo de estranho ...
- Pirralho! O seu paizinho onde está?
- O pai está ... o polícia margarina veio buscá-lo e levou-o ... (tira macacos do nariz) e agora tá prendido!
- Prendido? Como? Preso? Mas ele disse alguma coisa? Sobre ...
- Disse que eu tinha tremoços no firgorifico para a janta ... e ...
- E...
- E qualque coisa acerca de você e ele terem andado a fazer malandrices.
-NÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

terça-feira, 24 de junho de 2008

Ajudar é positivo

Estava eu sentada na minha janela do quarto a acariciar a minha barriga que não parava de crescer e a pensar como o Mauzinho tinha sido um homenzão ao fazer produzir um bebé na minha barriga, quando vejo um oiço, e vejo, um grande alarido na rua! Pessoas iam para o meio da estrada, os cães ladravam e um carro verde a cair de podre passava na estrada aos "ésses" a apitar desde o começo até ao meio da vila. Vinha com latinhas a rebolar atrás de si e um burro agarrado ao porta bagagens que corria, e caia e reboladav (credo), conforme o carro balançava aos ziguezague, bom, conforme o carro andava. Olhei bem e tentei identificar as pessoazinhas: O homem do volante era o Manel! Não tinha carta estava visto. Mas ia tão feliz e tão contente que transpirava por todos os cantos do seu porquinho corpo e o cheiro dava para se sentir cá de cima da janela do primeiro andar. Apitava que nem um doido, que até tive medo que mexesse com o meu bebé...todo o cuidado é pouco! E gritava bem alto: "YEEEEI! TOU CAJADO! TOU CAJADO!". De cima da minha janela percebi que ele andava à procura de um cajado, mas logo percebi que ele tinha era casado com a filha da dona Marilde a Giselle. Ai, que nojo! UI...calma Marta! Tens de ter tento na lingua, o bebé pode ouvir! A rapariga vinha com o cotovelo de fora do vidro e a mãozinha em punho sustentava-lhe a cabeça que parecia que ia tombar a qualquer momento. Atrás, no carro vinha a dona Matilde e a mãe do Manel que estava em pé no banco e metida no tejadilho do carro a fazer sinal de vitória. O burro lá vinha de lingua de fora.
- Amor! Amor! Anda cá a baixo!- disse-me o meu Maurício. E eu, com as mãos nas cruzes, desci a escada e lá fui eu. O Mauzinho estava à porta de casa e via todo aquele aparato.- Já viste"s" amor? Mais um casal feliz!- Não gosto e contrariar o meu marido, e por isso, mesmo grávida , continuo a limpar a humidade do tecto, mas não pareciam todos felizes com o casamento...O carro parou. A fumaça abrandou. O burro caiu de cançado e o povo veio todo em festa ter com o Manel que saia do carro e gritava: "EIiiii!! TOU BEM BOM! TOU CAJADO!". A multidão fez um circulo e levantou-o ao ar fazendo vários "vivas". A dona Matilde saiu do carro com muita pressa.Bateu com a porta, o puxador da porta caiu, a fumaça levantou-se e correu a meter-se na sua casa com um ar de quem a todos devem e ninguém paga. A mãe do Manel saiu também e foi idolatrada por todas as beatas e sopeiras da vila.
- Epá! Boa ideia, mulher! Casar o fedorento do teu filho com a pecadora!
- Boa, mulher! Pelo menos deixas de lhe limpar as ceroulas!-A Giselle estava dentro do carro. O Jerónimo tinha preparado uma festa no café e todos foram para lá.
- Tremoços de borla!!- Disse o dono do café- E todos foram.
- Maurício? Onde vais, amor?
- Tremoços de borla? Só não vai quem é parvo!- E saiu a correr. A rua ficou deserta e eu ia a entrar para casa quando olhei para o carro velho e vi a rapariga lá dentro. Nunca me dei muito com ela. É minha vizinha da frente "prontos"...Mas estar grávida faz de mim uma mulher melhor e fui ter com ela. Estava toda encolhida, oh! credo! estava quase nuinha! Bati no vidro que agora estava fechado. A miuda chorava, também...casar com um coprólito daqueles...O meu bebé deu uma volta e eu senti naquele momento e senti-me feliz!! Ele é apenas do tamanho de uma fava mas eu sinto! Eu consigo diferenciar de um simples gás! Bati, então, novamente no vidro ea rapariga, nada. Ia-me embora quando o meu bebé deu outra votlinha e percebi que era o sinal para eu nao deixar aquela piquena ali só. Entrei no carro e arependi-me de me sentar no assento do condutor. O Manel tinha suado e aquilo, para além de ter a marca de suor, cheirava mesmo mal e sol fazia um efeito horrivel, parecia que cozinhava toda aquele horror!
- Ai, credo! cheira tão mal aqui- disse eu ao entrar e pensar se ia sair. A rapariga apanhou um susto e olhou para mim toda borrada- O meu vestido não vai sobreviver a este cheiro...-Mas sentei-me e senti uma coisa mole debaixo do meu trazeiro.
- Olhe...acabou de se sentar em cima do pão com chouriço e molho de mostarda do estupor do meu querido marido- disse a rapariga- O meu vestido, vermelho, lindo, às bolinhas brancas, que condizia perfeitamente com o meu laço de cabelo, estava oficialmente arruinado!
- Hum...Não faz mal, deixe lá- disse eu- Não está muito feliz para uma recém casada e...está nua.- A rapariga olhou para mim com um ar de "tira-me deste filme"- Precisa de ajuda?- perguntei.
- O que eu queria era me ir embora e nunca mais voltar. Estou farta de chorar porque gosto das pessoas erradas!
-Não gosta do Manel?- A rapariga olhou para mim com um ar trocista. Era obvio, como é que ela ia gostar?- Pois...não gosta. Eu estou grávida!- disse eu, naquele dia ainda não tinha dito a mais ninguém.
- Parabéns...- disse a rapariga sorrindo um bocadinho.
- Sabe, quando tiver um filhote, as coisas mudam! Vai ver! O filho, olhe...como hei de dizer? Dá outra alegria!
- Não quero ter filhos do Manel! Ele é horrivel! É nojento!
- Oh...mas é bom moço- disse eu.
- Mas eu não gosto dele!!- Foi então que a Giselle me contou a história toda. Pobrezinha, tive imensa pena. Levei-a para minha casa e vestia-a para aquela que iria ser a sua noite de núpcias.
- Cá está! A minha camisa de noite de seda, da minha primeira noite de casada. Vá..experimente-a!
- Não vou usar isto- disse a rapariga pondo-a por cima do corpo ao ver-se ao espelho.
- Não diga isso! Olhe como lhe realça os marmelinhos! Vá...- A miudita vestiu-a e até gostou de ser ver com ela.
- Esta camisa de noite...Poderia ser usada para outra pessoa, noutro sitio, sem um burro.- disse ela trisitnha, tristinha que só vendo.
- Com burro ou sem burro terá de cumprir as suas funções de esposa. Ah! E amanhã conta-me tudo! Sem pudor! HI hi hi, tenho a certeza que até é capaz de ser bem positivo. Aprovei.te! Diga ao Manel para tomar banho...- Ao outro dia a rapariga veio ter comigo a minha casa e trazia a camisa de noite já lavada e engomada.
- Não era preciso...eu mesma lavava!- disse eu acariciando a minha pancinha.
- Não, eu só tenho mesmo de lhe agradecer- disse ela, outra vez tristinha. Fomos para a sala comer uns biscoitinhos de gengibre que tinha feito, umas sandes e um cházinho e ela contou-me como tinha sido a noite de nupcias dela. Os bolinhos, o chá e tudo mais foram vomitados na primeira retrete que me apareceu à frente. Que horror...Desde esse dia, ficámos amigas, as melhores amigas!

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Casados de fresco

A Eunice disse que me ajudava a fugir, mas ultimamente não confio em ninguém. E todos sabem que para além de vadia ela é cusca e gosta de arranjar intrigas. O melhor é antecipar-me e fugir antes que ela dê por isso.
A mamã chamou-me para jantar, mas eu disse-lhe que não tinha fome e que me ía deitar mais cedo. Claro que a minha mãe não é parva e ficou a rondar a minha porta que eu bem vi a sombra dela a andar de um lado para o outro. Mas por volta da meia-noite foi para a cama ... o ressonar não engana. Tinha de partir imediatamente pois a Eunice disse que estava à minha porta à uma. Eu ainda pensei recorrer à velha técnica dos lençóis, mas demora muito tempo e tempo é coisa que não tenho. Também o meu quarto fica no primeiro andar, nem é muito alto talvez pudesse ... não! O Bica ainda não fechou o café! o melhor é tentar sair pelas traseiras ... mas para isso tenho de sair pela porta.
Peguei em três vestidos, duas peúgas, uma mão cheia de colares e brincos e o meu baton vermelho, algumas cuecas e soutiens e juguei tudo para um saco. Abri a porta do quarto muito devagarinho e ouvi o ressonar da minha mãe. Pronto não acordou! Agora é o pior ... ao minimo barulho no corredor e ela desperta! Bom descalcei os sapatos e fui em biquinhos de pé ... esquerda ... direita ... esquerda ... direita ... esquerda ... Patrícia ... direita PATRICIA! Por pouco não pisei a cadela!! Estava com fome e fui até à cozinha agarrar uma maçã para o caminho. Ora ... porta ... mesa ... fruteira ... banana não ... pêra não ... patrícia não ... maçã ... Patricia? Mas o que é que o raio da cadela está aqui a fazer? Calma bichinha!! Queres a maçã? Pronto é tua! Agora vê se não ... ladras ... até ... eu ... s-a-i-r ... linda menina!
Uff! Vou-me já embora antes que aconteça mais alguma coisa. Escadas ... porta ... rua finalmente! Bom agora tenho de ter cuidado para ninguém me reconhecer. Vesti uma capa para ninguém dar por mim. Fui rapidamente percorrendo as ruas da vila. Cheguei à praça e corria até à igreja quando ...

- Ostentação??? Meu malandro fugiste da prisão!! Olha que eu vou já chamar o Margarina e ele faz-te a folha!! - a histérica da Marcolina não prega olho desde da noite em que foi atacada.
- Fugi para dentro da Igreja antes que alguém acorda-se com a maluca da Marcolina. A porta principal fecha por volta das 23h00 mas o pixão deixa sempre uma das portas laterais para as nossas aulas de compensação nocturnas. Lá estava ele ... a fazer as malas com um ar miserável. Foi então que antes de lhe puder falar ...
- Seu padreco miserável!! Diz-me já onde está o Ostentação!! - é o Lando em roupão com o seu peitoral ao relento como que ... ahh! Desculpa Paixão mas ele possui todo um peito tonificado de ir às lágrimas!
- Eu não sei do que está a falar! Como se atreve a entrar assim na casa de Deus!!

Isto é estranho ... para o inspector estar a procurar o Ostentação é porque ele fugiu da prisão, o que é estranho pois o Lando deveria estar lá a guardá-lo mas no entanto está de pijama e foi extremamente rápido a cá chegar. A Dona Marcolina não tem telefone ... oh meu deus! Que imagem terrivel!! Sai! Sai!

- Ou me diz onde está o Ostentação ou sou obrigado a prende-lo e acusá-lo de cumplice!!
- Lando ele não fez nada! Não foi o Ostentação que entrou mas eu!!
- Giselle coelhinha? - dizem em coro.
- Sim sou eu!
- Pode-se se saber o que fazes aqui a estas horas? A tua mãe sabe que estás aqui?
- Não Land ... senhor inspector. Eu estou aqui para assumir a minha paixão pelo Paixão e venho para fugir para ele para Pastelinhos!
- Giselle tu desejas viver comigo em Pastelinhos! Fazias isso por mim?
- Faço.
- Pêga! Realmente devia ter desconfiado. Andavas sempre a evitar-me a mim que sou o mais belo da aldeia, do Norte, do país, de África! Tinhas de me trocar por esse ... esse ...
- Criminoso!!!! - Oh não a minha mãe!
- Dona Matilde o que disse? - o mister África começa a irritar-me.
- Eu sei que foste tu que matas-te a prima da Marcolina! Tenho provas!
- O quê? Isso é absurdo sou um homem de Deus! De Deus e da minha coelhinha.
- Que fofo!
- Você é um assassino. Aproveitou-se da pobre velhinha indefesa. Ela sabia um segredo seu e você resolveu calá-la não foi?
- O quê??
- Dona Matilde está a fazer acusações muito graves ... pode prová-lo?
- Posso.
- Então pronto ... Padreco, você está preso!
- Mas que provas? Exijo saber!
- Eu não desconfio da seriedade da Dona Matilde. É uma mulher integra e verdadeira não é como outras ...
- Atenção senhor inspector! Afinal de contas é a minha filha ...
- A sua filha? Mas eu não estava a ... a sim a sua filha! Grandessissima badalhoca realmente!
- Mas eu exijo saber as provas que têm contra mim!!
- Eu não posso revelar aqui as minhas fontes ... elas são do outro mundo!!
- Bruxa!
- Calminha senhor padre. Com sorte ainda consegue uma cela individual. Acredite que não a vai querer partilhar com o Teodolfo "Banana Podre".
- Com quem?
- Não queira saber.

Não acredito ... esta deveria ser a melhor noite da minha vida! A noite em que eu e o Paixão partiriamos em direcção ao paraíso. Ou melhor ... a Pastelinhos! O estúpido do inspector arrastou o meu Paixão pelas ruas como um animal até à esquadra e a mamã fez o mesmo a mim enquanto me dizia:

- Nem é tarde nem é cedo, tu e o Manel casam já amanhã. Nem que vás de camisa de noite! Arranjam-se perfeitamente 5 minutos para vos casare pronto! problema resolvido!

Chorei a noite toda. A Patricia andou de roda de mim, a lamber-me os dedinhos dos pés para me acalmar mas nada ... o meu pobre Paixão preso! E tudo por causa da mamã! Só de pensar que amanhã por esta hora tenho o Manel a roncar ao meu lado ... aiiiiiiiiiiiiiiiiiiii dói-me o coração! Mas porque é que tinha de acontecer logo hoje. Cinco minutos mais tarde e já tinhamos ido embora! mas quem é que terá avisado a mamã? Só se ... a cabra da Eunice! Ela vai ver!

(PUM)

7h00

Hmmmm ... dormi que nem uma pedra. Não sei o que me deu mas derepente simplesmente adormeci. Pff que pivete que vai neste quarto. Não me digam que o Manel esteve cá?

- Levanta-te Giselle! Hoje é o grande dia! Já avisei o Manel para se despachar que vocês iam casar ainda antes do almoço. Ele já está a caminho de Torres e nós vamos sair daqui a 5 minutos por isso sai dessa cama!
- Mas que idiotas é que se casam às 7 da manhã?
- Idiotas que andam a pecar com padres e a pecar na higiene.
- O vestido nem sequer está pronto!
- A Eunice diz que o trás daqui a nada para dar os últimos acertos. Por falar nela ...
- Bom dia minhas queridas! Cá está ele ... o mais lindo vestido de noiva de toda a vila!
- Mas ... isso não está um pouco curto?
- Encolheu na lavagem Matilde. Mas a esta hora vai ter de servir!
- Bom o importante é casarem-se.

A Eunice parece estar com muita pressa para que eu me case. A vadia deve andar de volta do meu Paixão ... aquelas perguntas no outro dia. Ela que nem pense!

- Eu não visto isso!
- Giselle não sejas criança! Vais vestir sim senhora!
- Não, não e não!
- Ai vestes vestes!
- Já disse que não.
- Óptimo então vais mesmo assim de soutien e cuecas queres?
- Quero!

Óbvio que a minha mãe nunca me deixaria ir assim para a rua. Aquela nem admite que eu ande por casa de mini-saia. Ela não fazia isso ... mãe!

- Mãe! Eu não vou sair assim neste estado!! Largue-me!!
- Foste tu que assim quises-te.

A estúpida da Eunice não pára de rir. Que vergonha! O Bica estava a abrir a porta e ficou a olhar-me de forma extremamente repugnante. A Marcolina gritou uns quantos insultos e ... ó não só faltava o inspector com aquele ar. Meteu-me na carreira à força. ao menos a Eunice ficou para trás. Torres fica a 10 minutos de carro da vila. Nem tive tempo para me recompor já tinhamos chegado! Oh não ... a minha vida acaba aqui!

- Giselle! Tu estás tão ... bem boa!
- Minha sinhora disculpe mas não posso pirmitir que a noiva si apresenti nestes preparos.
- Senhor padre estou a pagar-lhe e bem! Case-os e cale a boca!
- Ora bim ... vamis com calma.

Que horror. Isto só pode ser um pesadelo!! Não foi nada assim que imaginei o meu casamento ... eu praticamente nua, o noivo conseguiu vir ainda mais desanrajado do que o normal, o padre não pára de me olhar para as mamas e os 120 convidados com que sonhei resumem-se a duas velhas e a um burro com soluços.

- Estamis aqui para celebrar a união entre Manuel Xavier Coentrinho Gargalo dos Coices e Giselle dos Santos Birambá ...
- Senhor padre por amor de Deus salte essa parte. Passe à parte do aceito e mais não sei quê ...
- Minha sinhora tenha calma. Isto são coisias qui levam ... o seu ... t-e-m-p-o ...
- E páre de olhar para as mamas da minha filha!
- Bim ... Manel aceita casar com Giselle?
- Atão não! Claro que caso!
- E Giselle, aceita qui eu lhi acaricie ... perdão ... casar aqui ... ohhh qui bonito seio ... com o Manel?
- NÃO!
- Giselle?? Queres apanhar aqui na igreja!
- Mamã eu não caso! Não caso, não caso com este monte de estrume!
- Não se preocupe Dona Matilde! Beja ... já me está a elogiar ... pergunte outra bez senhor padre!
- Giselle ...
- NÃO!
- Bá lááá Giselle!
- Com uma condição! Vais dizer ao inspector que estavas a mentir e que o Paixão é inocente.
- Está bem.
- Então sim caso!
- Podi beijar o sei ... digo a noiva!

O amor move móveis!

- Não quero casar, mamã...Por favor! Eu fico de castigo para sempre! Até podia casar com qualquer pessoa, menos com ele, mamã...Por que razão estás a ser tão severa? Mãe! Fale comigo!Opaaaa!
- Está quieta rapariga! Ai, credo! Assim não te consigo alinhavar o vestido!
- Oh...Você é cabeleireira, nem costureira é! Mãe...ainda vamos a tempo, não quero casaaaaaaaaaaaaaar!!- Ai meu S. Palito! A rapariga não estava quieta e eu ali, a tentar alinhavar o vestido de noiva que era da mulher do senhor Ferdinando Crostácio, um amigo do Jerónimo, fornecedor de tremoços. A dona Matilde queria casar a filha à força! E prometeu que depois da festa de S. Palito, o casório era o mais rápido possivel! Toda a gente sabe o que aconteceu, não é? Eu não sou cá de mexeriquices, mas...Andava ali a mastigar o padre Paixão. E ele? Que padre! Que padre no sentido de ser bom como o milho (ai, se conseguisse fazer-lhe um corte naquele cabelo preto...era muito mais do que um simples brushing!) e por o que fez à piquena de...21 anos! Enfim, agora está feita, a moça. Berrava que se fartava e não era por lhe espetar os alfinetes no traseiro. Não tenho culpa! A mulher do senhor Ferdinando tem 120 quilos e a Giselle deve pesar menos que um baril de tremoços. Tive de ajustar o vestido todo, aliás, tentava faze-lo enquanto a Giselle se mexia que nem uma enguia.
- Ai, Eunice! Tem mais cuidado!
- Oh rapariga, se não páras quieta espeto-te o alfinete na regaleira! Estás nervosa, estás agitada, porra! Tem calma! O casamento só está marcado para daqui a duas semanas!
- Pois, Eunice- disse a dona Matilde que assistia a tudo sentada num banquinho de piquenique que eu tenho no meu cabeleireiro, para arranjar as unhas às clientes, e que fiz questão de levar para casa da dona Matilde- Mas os preparativos têm de começar já!
- Olha lá, Gisellota, diz aqui à cabeleireira: Como o é o fisico do Paixão debaixo daquela batina preta? Hum?- A moça olhou para a mãe, que olhou para mim com um ar de quem me ia matar. Mas eu não me calei- Então...E como é que foi? Onde é que "o" fizeram? Não me digas...oh! Não me digas que foi no altar! Oh! Meu S. Palito!
- EUNICE!- gritou a velha enquanto a miuda chorava desalmadamente- Faça o seu trabalho de costureira improvisada e deixe-se de perguntas pecadoras. Bem sei também o que anda a fazer com o Costeleta e não lhe digo nada, pois não?- Corei. Fogo...
- Mãe- começou a miuda que saia do cimo de uma cadeira, a cadeira onde eu lhe arranjava o vestidinho...vestidão- Se não me deixa ficar com o Paixão e fujo! Eu amo-o!
- Mas ele é padre! Ai...- disse eu metendo-me.
- Está calada, rapariga! Prova o vestido, mas é! Antes também amavas o inspector e agora já não gostas dele, aliás, tornaste-te tão repugnante...Nem ele nem ninguém te ia ligar! Só mesmo o abécula do Manel.
- Mas mãe! Ele não larga aquele burro e cheira tão mal!
- Terás de pagar os teus pecados, minha filha. Agora já não há mais nada a fazer...Paciência. Eunice! Ajeita aqui a cauda do vestido, e amplia-a. Já que não vai fazer juz à brancura, à pureza, ai como desonras-te Quimbé, Giselle...Vai com uma cauda bem grande e só não vai com umas orelhas de burro porque ainda és minha filha!- A pobre moça lá voltou para cima da cadeira e eu lá lhe espetei mais uns quantos alfinetes no corpinho. Estava tão triste a coitadinha...Mas, andou aí a brincar com o fogo, neste caso com o fogo do padre...Agora olha. Eu falo, falo, mas eu também gosto de namoriscar! Não tenho pudor, ou nem tive, em dar um beijo ardente, em frente de toda a gente, na festa de S. Palito, ao meu bifinhoziho, à minha coisinha mais linda, ao meu Frederico! Ora...Ele está separado da Prudência, não é? Então...E ele diz que vai querer o divórcio! Por isso...é meu. Mas atenção! Eu sou casta e pura! E hei de casar de branco. Não vou para nova, mas se a Giselle me emprestar também o vestido que era da mulher do Ferdinando, ai...Eu caso com o meu Frederico. Enfim...O vestido ficou mais ou menos pronto. Agora ainda vai para Torres mesmo para uma costureira ver melhor, fiz o que pude. Quando saí da casa da dona Matilde vi o senhora padre, com a estátua de S. Palito na mão e a dirigir-se para a estação de comboios.
- Então, padre? Onde é que vai por o Palito?- perguntei, ao que ele me respondeu, bastante triste, por sinal:
- No lixo.- Será que ele ia deixar o sacerdócio para se casar com a Giselle? Ai, estou mesmo a ver: Ela ia a dizer sim ao mal cheiroso, o padre aparece lá em Torres e grita "Não! Casa comigo! Já não sou padre!" e depois casava mesmo ali! E o Manel...Olha, há de arranjar uma éguazinha qualquer que queira casar com ele. Era lindo! Lindo! Mas...
- O santo foi comido pelo burro Simão, e as festas já passaram, por isso...Aposto que nunca mais se vão lembrar o S. Palito.
- Mas vai de comboio para algum lado, senhora padre?
- Vou, sim. Vou comprar o meu bilhete de ida para a minha cidade Natal: Pastelinhos. Fica no Norte do país. Vou me embora, dona Eunice. Nada mais me prende aqui. Já dei o meu contributo para as festas de S. Palito, ajudei algumas pessoas e...desajudei outras.
- O desejo carnal é o pior, não é senhor prior?- disse eu, inocente, pura inocente, como se de uma criança me tratasse. Ele não me respondeu. Baixou os olhos e foi lá ao senhor Bonifácio comprar o bilhete para aquela que iria ser a mais triste viagem da sua vidinha. Ai! Eu apressei-me a contar à Giselle! Eu não gosto de...escândalos! Mas ela tinha de saber! Primeiro fui ao cabelereiro, atendi umas clientes, fechei a porta do estabelecimento e fui ter com a moça que chorava no quarto.
- Já aqui estás outra vez?- disse a dona Matilde, enquanto lia um livro, na sala, em voz alta para a cadela Patrícia que estava deitada ao seu colo.
- Vim ver a Giselle, trago-lhe aqui um uns apliques muito giros para ela por no cabelo! Ela está lá em cima, não está? Vou lá ter com ela. Adeus!- E corri, rapidamente escada a cima e ainda ia no corredor já ouvia coisas a bater contra a parede, vidros a partirem-se. "O que estará a acontecer?", pensei. Entrei no quarto e havia moveis fora dos sítios, cotinados rotos. A Giselle estava a ter um ataque de ira. Outro pecado mortal, lá está. Parece que a convivência com o padre fez com que os pecadinhos dela viessem à superfícies. Encontrei, então, a rapariga a chorar e a atirar tudo o que tinha à mão. Quando entrei, preparava-se para atirar a mesa de cabeceira contra a cómoda. O amor transforma a força humana!. Fui ter com ela, acalmei-a e contei-lhe tudo e ainda a fui por a chorar mais.
- Então? Que vais fazer?- perguntei.
- S-Sei lá, Eu-Eu-Eunice! Eu não posso fa..fazer na..nada!- disse a pobrezinha no meio de choro e soluços, agora já sentada na sua cama sem lençois.
- Oh, mulher!- Disse eu, a voz da experiência- Vai ter com ele! Vai com ele! Diz que o amas! Vá!- Ela ficou a olhar para mim e disse que a mãe não a deixava sair de casa até ser velhinha. Eis então que me propus a ajuda-la a descer pela janela do quarto! O amor move tudo! Até escandalozinhos que me farão encher o cabeleireiro de mulheres desesperadas por um coque ou umas permanente e famintas de uma cusquice bem cuscada! O negócio está mau e visto que o negócio do amor também vai de mal a pior, porque não fazer com que pelo menos um tenha solução?

domingo, 22 de junho de 2008

S.Palito iria ficar orgulhoso!

Finalmente chegou o dia da festa! Se bem que os meus planos saíram furadinhos ... o pobre Ostentação tá a ber o sol aos quadradinhos, tá a chober a potes, logo a festa será dentro da igreja, a Matilde trancou a Giselle no quarto e não me deixa bê-la, o padre tá de cama não sei porquê e o inspector anda a tratar do julgamento do Ostentação por isso coro esquece, quanto a bailarico ... nada! Nem sequer há espaço na igreja. Só se mantém a barraquinha dos beijos e abraços porque o senhor ex-presidente insistiu. Ah! e o Simão tá com soluços!
Tanto trabalho para nada ... mas eu sou Manel das Coices e não desiste assim como quem dá cá aquela ... bufa! Eu não tenho medo do assassino!! Vou encontrá-lo e libertar o Ostentação ... mas ... só depois da festa, tenho ver se desenrasco qualquer coisinha. Bom o senhor padre diz que bai tentar dar a missa, isso debe lebar uma hora ... depois segue-se a refeição, hmmmm ... peço ao Bica uuns salgadinhos ... e coiso ... tenho de pedir à Eunice pa distribuir uns quantos linguados para compensar não poder haver alcool na igreja e ... no fim posso fazer um número com o Simão! Bão adorar!!
Bom toca a despachar que o dia bai ser longo ... primeiro Giselle! Estou com necessidades que só ela pode satisfajjer!

- Bom dia Dona Matilde! Tá bem boa hoje! Por acaso posso falar com a minha Giselle.
- Não.
- Bá lá!
- Nem pensar.
- Eh pá ... bá lá!!
- Fora daqui!
- Bá lá.
- Está bem.
- Bá lááááá ... à pronto obrigada!
- Mas só lhe falas pela porta. Ela está de castigo até aos 43 anos!
- Chiiiiiiii ... por essa altura já tá com as peles todas caídas e com as mamas a apontar para o Pólo Sul. Assim não quero.
- És tão romântico Manel. Queres ou não queres falar com ela?
- Quero sim!! Giselle? Estás a oubir? Giselle minha ratinha do campo?
- Olha as maneiras Manel!! tento na lingua!
- Minha passarinha da lavandaria?
- Menos.
- Meu bolinho seco com frutas cristalijadas?
- Hmmmm ... menos mal!
- Que queres? Já te disse que não "cambalho-to" contigo a três juntamente com o Simão!
- Bá láááááá!!
- Já disse que não! É só isso?
- Não ... queria perguntar-te se bais mais logo à festa? Gostaba tanto que estibesses lá ...
- Eu já te disse que ela não sai até fazer 43 anos!!
- Mas ó Dona Matildezinha ... eu até sou um rapaz cuidadoso e respeitador, e trabalhoso e ... bá láá!!
- Vou fingir que não ouvi o que acabas-te de dizer. Só com uma condição!
- Diga minha passar ... digo minha tábua de engomar!
- Vocês os dois vão retomar o noivado e casar o quanto antes. Para salvar o que resta da honra da minha badalhoca filha.
- Prometo!!
- NÃÃÃÃOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOO.
- É bom que seja assim porque de outro modo ...
- Giselle é a única forma!! Bamos ser tão felijess!
- Eu fico até aos 97 mas não me obrigues a casar com ele!!!!!!!!
- Está decidido. O casamento será celebrado daqui a uma semana em Torres. O padre daqui tem-se revelado um incompetente.

Ai, ai finalmente uma boa noticia ... eu e a Gisellinha bamos casar e desta bez é para baler! Bai ser minha e só minha!! Opsss já são quatro menos um quarto tenho de ir ao Bica buscar os pasteis!!

- Bica os pasteis que eu tenho pressa!! Ó Bica!! Bica? BICAAAAAAAAAAAAA??????????
- Que foii??
- Ahh era o teu rego!! Por momentos pensei que tinhas lebado um tiro ou assim ... Tem pus!
- Encantador como sempre ... qué que queres?
- Pasteis homem que haveria de ser!
- Pasteis? Que pasteis?
- Os que eu encomendei ontem ... ou hoje ... se calhar sonhei ... ah era um sonho era porque eu a Giselle e o Simão estábamos ...
- Oh filho tu não encomendas-te nada. O máximo que posso fazer é dar-te aqui esta metade de croquete e ... vejamos ... tenho um pires de caracóis de Maio de 37 e ainda cascas de tremoços.
- E uns palitos ... han? PALITOS! ( mijei-me nas cuecas a rir comigo mesmo ... o pior é que eram as da mamã pois ela labou as minhas) És o meu herói Bica! S.Palito te abençoe!

(E assim com tudo tratado! O padre não deu a missa porque começou a sangrar do nariz e ... a festa começou precisamente às 7 e 30 ... quer dizer ... 7 e 40 vá, porque os vila sem nomenses são conhecidos por chegarem a eventos de natureza vária atrasados dez minutos. Os de Torres chegam sempre adiantados 2 minutos)

7 e 30 ...

- Bem-Bindos! Temos beijos e abraços, foguetes e palhaços, bebedos e badias, confettis e bacias!

Imediatamente se gerou uma grande fila na barraquinha dos beijos e abraços. O Bica foi o primeiro mas apesar de insistir tebe de se contentar com um abraço, o ex-presidente estaba atrás e digamos que quase sugou a alma da moça, a seguir a Marcolina que se contentou com um beliscão e depois a Prudência que lhe deu um estaladão. Seguiu-se os comes e bebes, ou melhor, comes e bomitas. Parecendo que não os caracóis tiberam muita saída.

E chegou a minha bez!! Rezei a S.Palito para que corresse tudo bem e fui buscar o Simão ...

- Simão? Simão aonde andas tu meu asno? SIMÃO isso não se faz! Sacana do burro S.Palito não se come!! Os santos não são pa comer!

Justiça!

- Nãooo! Não podes fazer isso ó meu betinho!- Dizia o Manel deseperadamente, enquanto o inspector e a policia de Torres(sim, porque aqui na nossa vila o unico policia é o...o...Esteves! Ah, espera, faleceu à dois anos, pois, sendo assim não temos policia) levava o Ostentação numa carrinha toda gira com umas minigrades atrás- Se o lebas e ficas cá tu bais apanhar! Ele não fez nada, bolas! É um homem do bem!- continuava o Manel, correndo, agora, atrás da carrinha. Correu...correu...correu...Até não o avistarmos mais. O rapaz tem folego! E não podemos negar que quando se trata de amizade o mal-cheiroso do Manel dá tudo por tudo, lá isso é verdade. Bom, a multidão disperssou no meio de muitos " Ah...não acredito" ou de "quem diria? Aquele ar de bonzinho!" ou até de " Bem feito! Anda aqui a matar gente inocente!Fez-se justiça na minha vila!
- Não acho, dona primeira dama- disse eu, quando ouvi o comentário da dona primeira dama que agora anda toda coisinha...Era amiga dela, ou dizia que era porque ela tem "papel", mas agora anda tão "baca".
- Não acha?? Oh senhora Matilde, não diga uma coisa dessas! Já viu? O malandro queria assassinar a dona Marcolina! E matou a sua prima! Credo...
- Acha mesmo que foi o coitado do Ostentação, senhora Prudência? Tenha paciência! O homem não faz mal a uma mosca! Está tão velho que nem forças tinha para matar ninguém! E o que vai ser agora da Patricia? Bonito serviço dona Marcolina...- disse eu para a dona Marcolina que se chegava a nós com um certo ar de culpada.
- Bonito serviço? Valhame S. Palito! Ele queria matar-me!
- Oh...Oh...dona Marcolina- era o Crispim. Aquele piqueno gosta tanto da Marcolina que é obra!- eu estarei agora sempre a protege-la! Mas...Acha mesmo que foi o Ostenação?
- Sim, Marcolina! Achas mesmo que foi o coitado do homem? Já velho, sempre com a cadelita...- dizia o Jerónimo que se juntava à festa. A ele juntou-se mais pessoas que de uma maneira indirecta apontavam o dedo à Marcolina. A primeira dama ainda a tentou defender, mas parecia que o mendigo era mesmo muito querido por estas bandas. Ela foi a correr para casa, agarrada ao crucifixo que trazia ao peito e o resto da multidão afastou-se como o sol que deu lugar a uma tarde chuvooooooooosa, que meu S. Palito. Espero que para as festas esteja bom tempo, porque isto assim...Enfim, começou a chuver tanto que corri para o primeiro abrigo. Entrei, então, na igreja.
- Padre PAIXÃO!!!- Gritei eu. Mas ninguém respondeu. Fui até ao altar e falei com a estatueta de S. Palito que um homenzinho que é agricultor mas artesão nas horas "vagas", de Torres tinha feito. Ao olhar para o St. Assustei-me. Estava tão feio o coitadinho. Um santo com uma bigodaça farfalhuda? Com...capaxinho? Gordo? Unhas dos pés salientes e bem amarelinhas? Um santo porco? Ai, Cristo. Mas mesmo assim, era um santo e eu tinha de rezar! Foi então que olhei para o santinho, ou melhor, desviei o olhar para baixo, ajoalhei-me e começei:
- Olá Palito, como estás? Bem, olha, eu tenho pecado um bocadinho pequenino ( ai! tinha me esquecido do meu véu! preto, pois claro, em honra do meu Quimbé! Mas agora pronto...O santo também, devido à aparencia não levava a cerimónias) mas há quem peque mais! Olha a dona Maroclina...Coitado do Ostentação. Sei que não foi ele e tu sabes também! Ou será que foi ele...Oh, santinho! Dá-me um sinal! Eu sei que não foi ele...Boa pessoa, gosta de todos. Vou ficar com a cadela dele até ele voltar. Ela não anda nada bem! Nem ela nem o Simão e toda a bicharada daqui da vila. Que coisa estranha, não é Palitinho? Cruz, credo. Mas estava dizendo: Dá-me um sinal e eu terei a legitimidade de dizer ao senhor inspector que não foi o mendigo! Diz-me quem foi o assassino da velha e que queria também matar a dona Marcolina.- Eis então que sinto uma presença. Viro-me para trás bruscamente. olho em meu redor e...nada. Olho para os lado e de repente...nada. Olho para o altar e...nada. Olho para o santo, com esperança de que ele tivesse a deitar lágrimas de, já não digo de sangue, como inventam por aí, mas lágrimas de...leite condençado, ou assim e nada. Mas sinto aquela presença e um cheiro caracteristico.Olho novamente para o Palito. Sei lá, o santo aparentava ser tão desleixado, vai se lá a ver que o sinalera um traquezinho? Isto, são santos, são santos mas podem fazer tudo. Aqui os da terra têm de andar a pagar pecadinhos. É então que grito: QUIMBÈ! Era ele...eu sentia-o.
Quimbé! Amore mio! Estou te a sentir! Meu...meu S. Palito de capaxinho belo!! Este é o sinal não é? Não foi o Ostentação, pois não? Oh! Obrigada! Quimbé, amo-te!- Eu gritava na igreja. Ninguém me ouvia, estava tudo em casa por causa da chuva que caia violentaaaaaaaa lá fora, xi! Então fiquei orgulhosa de mim. Eu! Matilde! Presenciei, ou senti, um acto divino! Deixei de sentir Quimbé. Senti-me triste. Mas mesmo assim fiz o esforço de, sim, eu fiz isto, afinal é só uma estátua, dar um beijinho no pé de S. Palito.
- Vou-me confessar, agora meu Palito.- E dirigi-me à sacristia onde esperava encontrar o padre Paixão. Mas ele não estava lá. Ia a sair da igreja quando ouvi uns barulhos vindos do cofecionário. Optimo! O padre devia lá estar, ainda me confesso hoje!O confecionário andava às voltas! O padre devia estar a ter convulções! Estava a dançar um cha-cha-cha! (Ai, como eu e o Jerónimo dançamos bem!!! E que rabiosque tem aquele velho dum diabo! Ai, desculpe Palitinho!) Então, fui até ao confecionário, ajoelhei-me e perguntei:
- Oh, padre! Está aí? Está bem?- De repente, o confecionário parou de saltitar. E ficou tudo muito quieto. Ouvi um pequeno "ai", que não era da voz do padre. Ouvi depois um "cala-te", que era da voz do padre e de seguinda um " hum hum", que vinha de qualquer coisa, que nãoa boca do padre.- Oh! Pisté! Psst! Está aí alguém?- continueu eu a perguntar e bati na janelinha que se abriu e então vi a cara do padre Paixão aos quadradinho. Arfava como um boi.
- Dona...dona Matilde! Então, por aqui?- o padre estava meio desconjuntado. Sou velha, uso lentes nos meu óculos bem graduaditas, sim senhora, mas não sou patareca! Olha...eu vi, ele tava todo alterado. E estranhei. Porque normalmente o senhor padre pergunta sempre, em vez de " Então, por aqui?", "Então, minha filha, conta-me os teus pecados".
- Pois é, vim me confessar, senhor padre. O senhor padre está bem?
- Estou muuuuuuuuuuito bem- dizia o padre depois de um- aiii! paremos!- disse ele.
- Ai, mas senhor prioir, ainda nem comecei!- disse eu confusa.
- Não, não, não era consigo dona Margarete, era com...Deus! S. Palito!
- Margarete? Matilde! Ai, senhor padre...Desculpe lá, mas não se está a sentir muito bem, aliás isso aí deve estar muito quente! O senhor está a transpirar! Saia daí.
- Não! Eu estou optimo aqui! Optimo!- disse ele a rir, depois de um: "shiiiiiiuuu", para mim?
- Pronto, senhor padre, eu calo-me! Mas saia daí. Foi então que me levantei sem mais demora. O senhor padre está sempre preocupado com as suasa "ovelhas" e eu não o iria a judar agora? Ora essa! Foi então que abri o paninho de veludo vermelho do confcionário e
- GISELLE???- A minha filha. Que vergonha. Ela estava ao colo do padre a fazer sabe-se lá o quê!! (lembrei-me de mim e de Quimbé, quando tinhamos as nossas noites de amor. Disse noites? Oh! Dias! Manhãs, tardes, tardinhas, noites, ceias! Hi hi hi! mas estava possessa!!!)- Sai daí minha badalhoca!- disse eu arrancando a minha filha dos braços do padre. Padre? Quilo não era um padre! Ela estava espantada, ui, pois não? Eu sou muito rápida! Sabia que ali havia molho! Ai, credo, molho não! Ui! Pronto!
- Mãe! Não é nada disso! Eu estava a...catar piolhos ao senhor prior! Ui...agora há tantos mãezinha...
- Estavas? Estavas? Com a saia toda arregalada? Minha...- pegava-lhe por um braço e abanava-a bruscamente, enquanto o jovem padre estava sentado ainda no confecionário, com a cortininha fechada, a pensar que eu não dava por ele...ui! Era mesmo aqui a Matilde.- Tu pensas, minha filha leviana, tu pensas, minha pecadora, que me enganas? Hã? Pensas? Agora que já tens 21 anos pensas que podes fazer tudo?- Eis então que o padre abre a sua cortininha.
- 21? Não era 18?- pergunta ele
- É 15, é 18 é 21, é como der mais jeito! Nem muito nova nem muito velha!- disse a minha Giselle. Que vergonha.
- Cale-se! Seu padre de merda!
- Mamã...Está na casa do senhor!
- O senhor...O senhor já deve ter ouvido e inclusive visto! Visto coisas bem piores...Curso do troco paço, curso da burrenhanha...Cala-te tu também! Se Quimbé estivesse aqui, Giselle...Que vergonha. E o senhor padre? Recomponha-se! Vá, saia cá para fora!- ele saiu. Saiu e apanhou um tabefe do tamanho de um bacalhau crescido que lhe apanhou o olho!.
-Oh, dona Matilde...Tenha calma. Já viu? Agora não vejo bem do olho...
- Eu digo-lhe! Eu digo-lhe se não vê bem do olho...Meu...Olhe, eu só não vou dizer a toda a gente o que você é, porque tenho consideração por Deus, que o acolheu na sua santa casa! Seu aproveitador!
- Mamã!
- Cala-te! Anda para casa! Andori!- E qual não foi o espanto aqui da Matilde quando olhou para trás e viu meia vila sem nome ali, na igreja, a assistir a tudo! OS meus gritos ecoaram na igreja e vieram todos! Ai, que felicidade. Mais um feito de S. Palito e Quimbé! De mãos dadas, os dois, a velar pelo bem da vila e pela justiça. As pessoas estavam preplexas. Podera! E mal eu saí lançaram-se ao padre com unhas e dentes. O Inspector era o primeiro da fila dos revoltosos. A Giselle saiu acorrentada verozmente à minha mão. O sol estava de volta e lá ia eu.
- Anda Patrícia!- gritei eu para a cadela que também havia visto toda a cena- Agora vens comigo, enquanto o tio Quimbé e o Palitinho fazem justiça!

sábado, 21 de junho de 2008

Estava em muito bem a fazer ... coiso ... aquilo ... bem não me lembro quando me apercebi de uma confusão na praça. Olhei pela janela e ... era o inspector a gritar que nem um louco para que todos se juntassem a ele pois tinha algo muito importante a comunicar. Calcei as minhas "chenélas" vesti o roupão e fui ver o que se passava.
Quando cheguei já não consegui arranjar um bom lugar. Fiquei lá muito atrás e só via o cabelo do senhor inspector a andar de um lado para o outro. Dizia coisas como "Estamos a atravessar uma situação muito grave! Temos de tomar medidas para resolver a situação ... temos de apanhar o assassino!" e outras coisas como "Tás bem boa! Quem é que cheira mal dos pés? Essas calças fazem-te um rabo descomunal!" se bem que as últimas acho que foram o rapaz malcheiroso.
- Proponho fazer um interrogatório a toda a aldeia! Todos sem excepção vão ser interrogados! - grita o inspector.
- O filhinho isso é todo muito lindo mas eu tenho um café para gerir! Quando é que isso se vai fazer?
- Amanhã durante todo o dia eu vou andar de porta em porta e ...
- Amanhã???? Bocê tenha paciência mas nã dá! É festa de S.Palito e eu nã tive aqueles trabalhos todos para agora andar a ter conbersas com bocê meu ...
- Calma caro povo! Enquanto Primeira Dama e futura presidente considero que é importante resolvermos esta situação o mais depressa possível. Temos de proteger o nosso amado lar! O berço dos nossos filhos ... - a primeira dama continua a fazer campanha.
- Não, não! O mais importante é honrar S.Palito!! Todos nós necessitamos de alegrar as nossas vidas, comer, beber ... e além disso a Eunice vai estar na barraca dos beijos e abraços e então ... - o ex-presidente fala de forma arrastada e com soluços.
- Claro! Lá tinha de vir o traste beber, comer e andar de volta das vadias!! - a primeira dama começa a perder a compostura.
- Vadia?? Eu digo-lhe quem é a vadia! Ou não sabem porquê é que o leiteiro deixou de vir á Vila?
- responde a Eunice.
- Calma minha gente! Tudo se vai resolver o mais importante é descobrir o assassino. E para isso agradeço que todos colaborem. A festa infelizmente terá de ser adiada!
- Meu filho d'uma bac ...

Lá foi cada um para sua casa. Finalmente ía fazer-se justiça e o bandido que matou a minha querida Eug ... Laura ... não Úrsula ... rima com retrecte ... bom não interessa! Bom vou fazer a minha reza antes de dormir:

Jesusinho que estás no céu
Espero que me dês um bom soninho
Abençoa os meus lençóis
E o joanete do meu pezinho

Pronto! Deitei-me e esperei que viesse o sono. Virei-me para a esquerda, virei-me para a direita, cabeça para baixo, para cima, barriga para baixa, pino ... Ah!!!! Nada resultou. Estava tudo tão silencioso. Fui à janela espreitar e não se via ninguém na rua. O Ostentação não dormiu no banco do costume, o Jerónimo já tinha o café fechado e não havia sinal de bêbedos caídos à porta a tentar entrar. E derepente um cheiro estranho ...
- AHHHHHHHHHHHH! Que barulho é este? está frio e ... este cheiro! Está alguém aí? Algu ... Quem é você? O que faz aqui? Por amor de Deus sou apenas uma velhota temente a deus que faz as palavras cruzadas do jornal e gosta do seu Bica, quer dizer da sua bica de vez em quando!! O que tem na mão? É uma pis ... PUM ... MATOU-ME!

Ou então não! Estava vivinha da silva mas apanhei um susto de ir 'pa cova! Mas como é que ele entrou? Ai a minha cabeça ... tenho de ir ter com o inspector agorinha mesmo!!
Quando cheguei à câmara estava uma fila dos diabos! Estava lá toda a vila para testemunhar ... mas eu não podia esperar!
- Ei! Ei! Dona Marcolina temos fila pa respeitar estou aqui à mais de duas horas!! Não me benha cá com coisas! E o Simão está depois de mim!!
- Mas é urgente!
- Nem pensar!!

Interrogatório parte 1
(o interrogado: jerónimo da Bica)

-Onde estava no dia do assassinato e nos dias dos desmaios?
- Ora ... essa é complicada ... sou dono de um café ... por isso se calhar ... não sei ... talvez estivesse no cabeleireiro a fazer madeixas! tava no café homem!!! Olha que pergunta ... isto há com cada uma ...

Interrogatório parte 2
(o interrogado: Eunice, a cabeleireira)

- Qual era a sua relação com a ... a Dona ... a velha que morreu com a faca espetada nas costas?
- Bom fiz-lhe uma ou duas permanentes, uma manicure ocasional, cheguei a depilar-lhe os sovacos e se quer que lhe diga ...
- Não, não quero! sabe de alguém que tivesse algum motivo forte para a matar?
- Ora bem assim de repente não estou a ver, mas ... talvez a PRIMEIRA DAMA!
- Vinganças para com a vitima!
- Nesse caso talvez a ... PRIMEIRA DAMA!
- Você é a vadia a que ela se referiu na noite passada não é?

Interrogatório parte 3
(o interrogado: Giselle)

- Minha frutinha de época que saudades (beijo) nem sabes como sofri todos estes dias (beijo) pensei em ti a toda à hora! (beijo, abraço, apalpão)

Interrogatório parte 4
(o interrogado: Padre Paixão)

- Senhor padre diga-me o que quer você com a Giselle? Esses cursos parecem-me uma desculpa esfarrapada para ...
- Para quê? Para lhe salvar a honrinha que você manchou ao desencaminhá-la!! Passemos ao que importa ... supostamente vim para ser interrogado acerca do assassinato!
- Tem alguma coisa a dizer?
- Não.

Interrogatório parte 5
(os interrogados: Marta e Mauricio)

- Podem-me explicar porque é que exigem ser interrogados juntos?
- Eu não largo a minha Martinha desde que ela desmaiou! Todo o cuidado é poucoe com uma criança a caminho não podemos arriscar. Ainda mais com um louco à solta!
- O meu Mauzinho é um amor, um amor!
- Então digam-me ... têm algum suspeito?
- Eu não sou homem de intrigas mas ... aquele Manel Porcalhão é um pouco desiquilibrado.
- Concordo! Concordo!
- Mas viram ou ouviram alguma coisa estranha?
- Peidos!! Grandes e ruidosos peidos! Quem partem janelas e abanam o soalho!!

Interrogatório parte 6
(o interrogado: Manel ... esperem se calhar...)

- Senhor Margarina! Senhor Margarina! Eu vi o assassino!!!
- Minha baca!!! Espere a sua bez!!
- Tem a certeza Dona ... Dona Senhora Velha.
- É Marcolina seu malcriado! Eu vi-o com estes olhinhos que a terra há-de vomitar!!
- Mas que bergonha é esta? Já não se respeitam as bichas?
- Entre. Conte-me tudo o que sabe.

Lá estivemos mais de 2 horas. Só nós os dois, eu, ele, aquele corpinho pecaminosozinho ... ai! Não fosse eu tão velha e tão ... controla-te Marcolina! Bom disse-lhe tudo o que me lembrava ... o cheiro, o frio, e a pessoa de quem suspeitava. Ele não perdeu tempo e fomos imediatamente prender a pessoa em questão. Procurámos por todo o lado mas não o encontrávamos e ninguém o tinha visto o dia todo. Até que ...

- Ostentação mãos no ar!!! Você está preso pelo assassinato da "Dona velhota com uma faca espetada nas costas"! Não tente resistir ou será pior para si!
- O quê??? Que fiz eu???
- Não negue você matou a velha e ontem tentou atacar esta outra!
- Eu sei que foi você! não o vi ontem à noite no banco e depois fui atacada! E cheirava mal ... e todos sabem que a higiene não é o seu forte!!

terça-feira, 10 de junho de 2008

Raio dos bichos...

Estava sol. Havia algumas nuvens aqui no céu da nossa vila e eu estava a descansar esticadinho no banco do jardim aqui da nossa praça, com a Patrícia, claro, que me guarda sempre! A minha fiel Patrícia...A mulher que nunca tive. Oooora bem, lá estava eu até que me começou a cheirar a uma coisa esquisita e pensei que poderiam ser duas coisas: Ou já tinham aberto a barraca das pipocas para a festa de S. Palito, que anda para breve, e deixaram queimar o milho, ou a Patrícia estava mal da barriga. Sentei-me no banco e pensei ainda:- Epá, cheira a estruminho...- Foi então que perguntei à Patrícia:- Olha lá, oh Patrícia, andas-te a comer outra vez a feijoada do caixote de lixo do café do Bica? Minha cadela maluca?- Mas a bichinha nem respondeu. Achei estranho, ora bolas! A Patrícia entra em êxtase sempre que ouve a minha voz! Eu fiz tudo e mais alguma coisa: Gritei, abanei-a, peguei nela e virei-a de pernas para o ar e nada...a cadelita olhava para mim com um arzinho tristinho, tristinho...Heis que chega o nosso ex presidente, o senhor Moelas, ai...agora iam umas moelinhas...Não, o Costeleta, assim é que é. Epá umas costeletas grelhadas também marchavam!
- Então Patrício? Como vai a vida?- Perguntou-me ele, sentando-se ao meu lado no banco da praça.
- Carmindo, senhor...Carmindo Ostentação o seu mendigo, o seu servo...Tem uma moedinha? Ainda não comi nada hoje...
- Oh homem vá lá ali beber uma bica- E atirou-me um centavo para a mão. Eu corri para o café!
- Quero um bolo, uma bica, um bitoque!- disse eu ao Jerónimo que olhava para mim desconfiado.
- E vais pagar como?- perguntou o Jerónimo.
- Com esta moeda que o senhor Costeleta me deu!
- Isso só dá para uma bica ou para uma carcaça...Agora escolhe. Tu aqui não pagas fiado!- Sovina do Moelas, para não lhe chamar outra coisa. Ia comprar um café, adoro café, mas lembrei-me da Patrícia e como ela iria ficar feliz ao ver que tinha um pãozinho para comer e então comprei a carcaça. Quando voltei o senhor Costeleta estava lá no banco ainda e olhava para a Patrícia.
- Oh homem! A bicha está tão murchinha...Que é que ela tem?
- Não sei, senhor Costeleta...Ela andou ontem aí a vaguear e hoje acordou assim! Que é que acha que ela tem?- perguntei eu enquanto tentava fazer com que a cadelinha comesse um bocadinho de pão, mas sem sucesso. Sei lá! O homem foi presidente, deve entender mais destas coisas que eu, que sou mendigo.
- Ela parece que está...com uma enxaqueca!
- O que é isso, senhor?
- Sabes, aqui para nós, não sei bem...mas a minha mulher tem muitas! As mulheres e as cadelas devem ser parecidas nestas coisas! Ou então...
- Ou então o quê?
- Ou então a cadela anda naquela altura do mês que...
-Que...- Já não percebia nada.
- Deixa lá mendigo, não deve ser nada de grave.- Nisto vem o Manel a correr.
- Epá! Fogo, caraças! Biram o Simão? Biram? Biram? Biram ou não?
- Eh lá! Calma amigo!- O Manel estava alterado, todo suado (o que piora o seu cheiro). Deve ter vindo a correr lá da sua quinta que fica no fim da vila- O Simão fugiu?- perguntei.
- Poças pá! Eu acordei, tirei as ramelas com os dedos como sempre, espreguicei-me, como sempre, calcei as meias de sempre e fui ao palheiro onde dorme o Simão e ele não estaba lá! Já corri tudo e nada, fogo...- O Manel arfava de cansaço. Cheirava tão mal Deus meu.,.
- O burro deve andar por aí!- disse o Costeleta. E partimos os três à procura do burro. Andámos, andámos e encontramos o magano onde? Num beco ao pé do café do Bica! E...Oh...Era o mesmo local onde...
- Onde assassinaram a prima, irmã, conhada, sei lá, da dona Marcolina! Queres ver que foi o burro?- dizia o ex. presidente.
- Oh!!! Simão!!- Gritava o Manel, correndo para junto do burro que estava deitado, encostado à parede- Meu amigo! Porque te foste?? Ai...Simão! Tu não estás bem, meu irmão...Simão! Simão! FALA COM EU!!
- Manel!- disse eu- Ele não fala, seu parvo...Mas é estranho, ele está bastante em baixo...Tal como a minha Patrícia. Epá, isto já cheira mal!- E não era que cheirava mesmo? Cheirava mesmo muito mal naquele beco! Parecia que já não limpavam os esgotos da vila à anos. O cheiro do Manel ajudava, mas mesmo assim...Não era normal.
- Tanto o burro como a cadela precisam de ajuda médica!- disse o Costeleta- Providenciarei isso mesmo, meus caros eleitores! Eu sou Frederico Costeleta e vou vencer!- E fez um sorriso vencedor, como se nós achasse-mos muita graça àquilo, e saiu num passo apressado. O Manel estava debruçado sobre o burro que, de orelhas baixas, quase dormia.
- Oh, Simão...Que tens tu, meu amigo? Fala com eu...Surra pra eu! Oh, Carmindo!
- Hein?
- Achas que ele precisa de respiração boca-a-boca? Eu faço! Eu não tenho nojo do meu amigo!- Eu não tive tempo para responder...O Manel "acomodou" os lábios e...Bom...Ele estava praticamente a beijar o burro.
- Oh! Manel! Que nojo!!- Gritou uma voz vinda do inicio do beco- Eu sabia que eras nojento, e já te beijava pouco, mas se soubesse que para além de me beijares beijavas o burro...Que horror! E ainda queres que volte para ti!!- Era a Giselle, que ia a passar e viu o Manel a fazer respiração boca-a-boca ao Simão. É um rapaz impulsivo! Faz tudo para ajudar! Até juntar os seus lábios aos lábios de um burro mal cheiroso, apesar de o mal cheiroso não lhe fazer confusão...
- Não! Oh, amor meu! Giselle! Não estás a perceber, bezerrinha! Fogo, pá! Carmindo, fica aqui com o meu Simão que vou atrás da minha Giselle! Giseleeeeeeeeeeeeeeee!!- E saiu a correr. Eu tinha a Patrícia ao colo e sentei-me ao lado do Simão que parecia estar meio moribundo, o pobrezinho.
- Que é que andas-te a fazer seu burro? E tu Patrícia? Porque é que estão assim?
- Carmindo, és tu?- dizia o Crispim que me viu lá no beco com o burro e com a cadela. Incrível a quantidade de gente que passa por este beco...
- Sou eu sim, miúdo!- O miúdo aproximou-se e trazia ao ombro o seu papagaio, que tanto ele adora, o Marcolino- Então, estás bom?- perguntei ao moço.
- Eu estou, mas o Marcolino não...Está tão em baixo. Costuma estas mais alegre. Hoje nem cantou, não come uvas nem tremoços, não grita quando vê a dona Marcolina nem nada...Será que comeu alguma coisa estragada?
- Oh, puto...Isto hoje é assim, olha, os bichos hoje andam todos marados! O burro do Manel está como podes ver, a minha Patrícia está muito cabisbaixa e agora o teu piriquito...
-Papagaio
- Isso...Não sei...Alguma coisa está...
- Mal! Alguma coisa está mesmo muito mal!- Disse o inspector Manteigas, que tem andado desaparecido, entrando no beco.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Oh Diabo!

Ai a minha coelhinha anda muito vadiazinha para o meu gosto! Não vem à Igreja, é apanhada aos beijos com o maldito inspector e é falada por toda a vila ... perfeito! É a altura de me aproximar dela e de oferecer o meu apoiozinho moral. Sim porque eu ainda não desisti de a conquistar ... eu sou o Paixão! tenho tudo o que quero, ninguém me diz que não!
Vi-a a passar na praça e fui imediatamente ter com ela...
- Coel ... Giselle parece preocupada posso ajudar?
- Senhor padre obrigado mas não é nada!
- Minha filha eu sou o correspondente de Deus na Terra, mais do que ninguém posso dar uma ajudazinha! Ora vamos para a Igreja onde estamos mais à vontade. - a pequena seguiu-me de imediato, a fazer-se de dificil mas o que ela que é um pouco de Paixão (ahahah, o que eu me divirto comigo mesmo).
- Agora podes desabafar, sabes que o que me disseres ficará aqui mesmo, entre nós os dois, só os dois, tu, eu, eu, tu, ambos ...
- Senhor padre não sei se estou à vontade para falar consigo destas coisas!
- Minha querida podes contar com a minha total compreensãozinha!
- Bom ... o senhor já sabe o que aconteceu no ensaio, e ... depois do dia em que eu e o inspector desaparecemos eu tenho estado ... não me sinto bem e ...
- ESTÁS GRÁVIDA?
- NÃO!! Deus me livre! Tenho estado com sinusite!
- A bom nesse caso ... mas não é essa a razão que te preocupa? Vejo algo mais nessa carinha de coelh ... de anjo.
- Isso são borbulhas!! Estou na idade ... afinal tnho quinz ... desanove anos!
- Hmmmm sabes que é pecado mentir, diz-me o que se passa Gisellita!
- Bom a verdade é que ... estou apaixonada pelo inspector!!! E naquele dia desaparecemos porque tentámos fugir da aldeia! Mas eu mudei de ideias e ele agora nunca mais apareceuuu!!! E ... e eu disse-lhe que não podia deixar a minha mãe que já é velhinha e ... e disse-lhe que ele não podia abandonar a aldeia porque precisávamos dele para descubrir o assassino e ...
- Fizes-te bem minha filha não te preocupes! Homens como aqueles há muitos!
- Há? Onde?
- Filhinha ... tens de perceber, não passam de charlatões que seduzem todas as jovens enfraquecidas pelo desejo, que ambicionam o pecado ... mas to fizes-te bem em resistir-lhe! E agora a única solução que te resta é tentares redimir-te, tu pecas-te!
- E como faço isso?
- Chama-se Curso Católico Intensivo (CCI). Vou te ajudar na tua reconcialização com o Máior!
- O Manel??? Já lhe ouvi chamar tudo agora o Máior!
- Com Deus coelhinha!!
- CO... quê?
- Nada, nada. Vais ter de frequentar a Igreja todos os dias! Vamos trabalhar arduamente, destribuir folhetins, limpar o altar, espantar os mendigos da porta da igreja, e eventualmente vamos purificar os nossos corpos através da prática do nudismo! (Eu disse isto em voz alta?)
- E os ensaios? Apesar de não querer preciso de tempo para ensaiar1
- Claro! Mas nesses dias precisamos de fazer horas extraordinárias. Estou aqui para te ajudar, quero limpar o teu nome coelhinha.
- Coelhinha é assim que você me chama?
- O quê filha não entendi?
- Senhor padre, pode não parecer mas não sou parva! Sei que anda de olho em mim desde que aqui chegou!
- Disparates! Eu sou um padrezinho não há cá pecado!
- Mas sabe ... você até é um homem atraente ... e agora que o Landinho não está cá ...
- Oh Diabo!!!! (salvo seja)

domingo, 8 de junho de 2008

Eu gosto dela

-Dona Marcoliiiinnaaa, dê-me dinheiro!
- Olha!Puff! Que descaramento...E não fosses tu filhinho de quem és! Nosso Senhor seja louvado, Cristo, Jesus Maria José! Esta canalha de hoje em dia...Para que queres dinheiro, oh miúdo?
- Para a quermesse!
- Quê?
- Para a festa de S.Palito! - disse eu. Eu quero dinheirinho! Não quero bugigangaria! Sei que é para vender bibelôs e porcarias dessas, mas, se tiver dinheiro, posso comprar algumas dessas porcarias e ficar com algum para mim!
- Devias estar a pedir para o Senhor! És sacristão da igreja e não fazes nada pela Santa Fé, meu demoniozinho...Ai, desculpe-me senhor de proferir esta palavra mas sou humana e com certeza hoje mesmo irei me confessar com o senhor padre.- Disse a velha...A velha é estranha...É mesmo, mas eu até gosto dela...Ela chama-me demónio, parvo, miúdo estúpido, palerma, filho do ranhoso, filho do depravado, miúdo balão...Mas eu até gosto dela. E chama-me isto tudo e, pelo que parece, o Deus desculpa-a. No entanto, quando eu faço asneiras o meu pai diz que o Deus me castiga. O Deus não gosta de mim, mas gosta da dona Marcolina. Talvez se eu gostar da dona Marcolina o Deus goste de mim...Mas mesmo assim...Eu gosto da dona Marcolina, ela não gosta de mim, e, mesmo assim, o Deus não gosta de mim, porque me castiga, porque vê tudo o que faço! Que falta de privacidade!...Hum...Não sei o que é privacidade, mas o meu pai costuma dizer que quer essa coisa da privacidade. Se for um bolo devo gostar. Privacidade...Será falta de açúcar no sangue? Não sei, tenho de perguntar ao senhor Costeleta. Ele sabe tudo! Agora está de lado, a senhora mulher dele a senhora Bifana "Deu-lhe com os pés cá com uma força". É o que o pai costuma dizer...Nunca mais vi o senhor Costeleta. Provavelmente deve estar no hospital, já que levou pontapés da mulher com toda a força...E eu sei que a senhora primeira dama Bifaninha é brava! Um dia puxou-me a orelha com tanta força que quase fiquei com ela do tamanho das do Simão! Só porque a apanhei a escutar atrás da porta privada do cabeleireiro da Euníce. Naquela porta ninguém entra! Só a Euníce. Mas a Bifana estava a escutar, eu vi! Sim, sim! Eu ia levar lá ao cabeleireiro uma encomenda de bolinhos de feijão. Mas mesmo assim eu até gosto de viver aqui...Tenho já 8 anos! E sou um sortudo por viver com o meu pai. Gosto dele. Ele grita muito, mas eu gosto dele. Também gosto da dona Marta, a nova vizinha aqui da vila, ela cheira bem e dá-me rebuçados que o marido trás grátis do trabalho, porque diz que não quer engordar. O marido dela já não é tão simpático, mas tem um carro bem bom! Mas, de quem eu gosto mesmo é da dona Marcolina. Também gosto do Manel (menos do cheiro), da dona Matilde, da Giselle...Mas a dona Marcolina maltrata-me! Não gosto disso, mas gosto dela e o Deus que gosta dela não gosta de mim porque ela não gosta de mim. Ás vezes fico triste quando ela me chama coisas feias. Ela é feia. Mas eu continua a gostar dela e do seu cheirinho a...Marcolina. O meu pai não gosta muito dela. Finge que gosta, mas não gosta...Ele agora anda lá todo coisinho com a dona Matilde, para a festa de S. Palito. Eu sei! Eu não sou o Simão ou a Patrícia que só andam aqui a ver passar as andorinhas! Não...sou um puto esperto! A dona Matilde gosta do meu pai. Mas eu preferia que ela não fosse a minha mãe. Gosto mais da dona Marcolina...Mas o meu pai não gosta dela e o Deus não gosta de mim por isso...Isso nunca vai acontecer. Mas eu gostava! E gostava de ter um papagaio chamado Sarafim Minhoca!
- Crispiiiiim!!!- O meu pai chama por mim- Anda cá aqui ao balcão do café para ver o que te comprei!!- Eu fui, claro, não vamos fazer com que o Deus não goste de mim. Quando lá cheguei não queria acreditar!!! Um...um...
- PAPAGAIO!!!!- O meu pai tinha me comprado um papagaio!!- SARAFIM MINHOCA!!MINHOCA!!MINHOCA!!!- Fiquei fora de mim!! Abracei o Papagaio que era, e é, verde com penas amarelas!
- Era lá do sítio do Manel...Ele disse que estava lá a fazer muito barulho de manhã e que a mãe dele não conseguia dormir e olha...Já que gostavas tanto de ter...Agora, tens de tratar dele! E ele tem de ficar aqui à porta do café para chamar os clientes! Os bichos amolecem sempre o coração dos humanos...- disse o pai-Agora, filhote...Sarafim Minhoca, filho? Põem-lhe antes...humm...Palito! Em honra do nosso santo!- sugeriu o papá.
-Ahhhhh...Tás bem boa!- Disse o papagaio- Bemmmm booooaaaaaaaaa! Tás bem bom! Tás bem boa! Ahhhhhhh- repetiu o bichinho.
- Não! Não!Não! Ou é Sarafim Minhoca ou é...Pati...Croque...Marcolino...É Marcolino! Vai se chamar MARCOLINO!- Disse eu radiante!
- Marcolino?? Oh Crispim...Esse nome é muito feio!
- Ahhhhh tá bem bom!- Disse o Marcolino.
- Estás a ver pai? Ele gosta, não gostas Marcolino? Gostas? Ai...coisa mais linda!!
- Ahhhhhh...bem boa!

Ai que nervos!

Estes ultimos dias têm sido um inferno! Desde que o Manel me apanhou a mim e ao senhor Inspector, de lábios carnudos, rabo firme, peito ... aos beijos que esta vila de anormais não me larga! Gentinha sem vida que não tem mais nada que fazer senão andar a meter na vida dos outros. a minha mãe evita o assunto. A mulher ás vezes parece que vai rebentar. Tem evitado falar sobre o assunto e nem sequer me perguntou onde estive no outro dia. Quanto ao resto, não posso ir a lado nenhum sem ouvir uns zumbidos aqui e ali. Não vou ao cabeleireiro à semanas, nem vale a pena chegar perto, aquilo está infestado de piranhas e raneiras! No café do Jerónimo passo de cabeça baixa para ninguém dar por mim, aquela cambada de velhos rebarbados que me espiam a toda a hora. Ainda por cima a única oportunidade que tenho para estar com o meu querido Lando é nos ensaios, mas como está lá o Manel, nem sequer tem aparecido. sim por que ele saiu da nossa casa e foi para pensão em Torres. Já não vem à vila à muito tempo. O Manel anda sempre com um ar de carneiro mal morto, mas eu sei que não tarda nada está aí à minha porta a implorar ...
(Toca a campainha)
- Giselle!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! Por amor de deus bolta pa euuuuuuuuuuuuuuu! Não consigo biber sem tiii Giselleee!! O Simão está inconsolábellllllll!! Eu sei que foi aquele bruta montes extremamente sensual que te agarrou e se aproveitou de ti! Volta por amor da santa!!!!!
- Manel em vez de estares a fazer essas figuras devias fazer algo de útil para ti e para todos desta vila que era ... TOMAR BANHO! Estás cada vez pior!
- Eu não tenho bontade de nada Giselle!!! Não consigo comer, não consigo dormirrrrrrrrrrrr! Passo os dias com o Simão! Ele é o meu único apoio! (Bum)
- Manel? MANEL deixa de ser estúpido!!! Levanta-te!!! Não estou para aturar as tuas fitas e ... (bum)
(Passado uma duas horas)
- GISELLE!!!! Estás bem? OH MEU DEUS! que é que aconteceu à minha menina ... o que é isto? Cheira a podre e ... ah é o Manel! Mas espera! Esta brisa ... hmmm há outro cheiro no ar ... será que ... Quimbé???? És tu Quimbé? Amante dos amantes, marido dos maridos eu sinto-te! Sinto o teu cheiro! O teu odor, os teus ...
-Peido
- Primeira Dama Prudência?
- Futura Presidente de Vila Sem Nome a seu dispor! Sim porque desde que o meu chuc... aquele canalha resolveu pular a cerca, sou eu que controlo os destinos desta vila! E estou sempre alerta para auxiliar os meus queridos eleitores com os seus problemas mundanos e sem importância! Ah e não sei se sabe que me encarreguei pessoalmente de contratar o grande Edgar Barnabé para actuar nas festas em honra de São Palito!
- Pois ... mas a questão é que A MINHA GISELLE DESMAIOU DE NOVO E ESTOU DESESPERADA E O MANEL TAMBÉM ESTÁ AQUI CAÍDO FAÇA ALGUMA COISA!
- Acalme-se querida Matilde! De tanta preocupação descuidou-se umas quantas vezes e o cheiro é francamente insuportável! Talvez tenha sido por isso que estes grandes queridos desmaiaram!
- Do que está a falar?
-Peido
-Han?
-Esqueça, esqueça! Vamos ao que interessa os pequenos não têm um ar nada saudável. Estão bastante pálidos. Mas não tema minha grande querida vou ajudá-la! Vou cantar uma música que aprendi durante uma viagem que fiz a Paris. Ajuda a relaxar! Aprendia com um budista que conheci. Um grandessimo querido que vendia rosas ao pé da Torre Eiffel e ... por acaso é uma história curiosa! Estava eu a passear com o meu chuch... bom adiante ... esta a passear quando se atravessou no meu caminho uma senhora que à primeira vista me pareceu ser a Maria de Jesus, uma senhora adorável que foi quem me amamentou quando nasci, porque a minha mãe teve um acidente de papagaio e ficou sem um olho ... e então digo ...
- Dona Primeira Dama se calhar é melhor ir para casa é que os pequenos já se levantaram e foram cada um para casa e a senhora está a falar sozinha à mais de 20 minutos!
- Eu não disse que era infalivel! Não precisa de agradecer!

- Giselle já te sentes melhor?
- Mãezinha preciso de te contar uma coisa!