domingo, 27 de fevereiro de 2011

Primeiro ponto de análise: O Mapa

- Boas noites!
- Diz-se boa noite. Penso que te referes apenas a esta noite e não a mais...
- Ora aí é que te enganas! Sabes lá tu das minhas intenções!- Paralisei, com um estúpido pacote de leite de marca branca na mão, à porta da minha casa, enquanto o Rafael entrava pelo hall a dentro deitando para fora da sua boca tais palavras. Fechei a porta e com os olhos bem abertos olhei para ele, sem dizer uma palavra - sim - continuou o cavaleiro - intenções...sabemos lá nós quanto tempo vamos ter para analisar o malvado artigo mistério do Jaques Moley? Poderá durar noites! - ai esta minha mente...sim, agora percebo.
- Ah, sim, claro.E...que é isto?- perguntei agitando no ar o pacote de leite.
- Isso é leitinho- respondeu ele.
- Jura...
- Juro! Diz ai "leite UHT, meio gordo".
- Sim, já vi, mas é para quê?
- Então, não ia ser nada cortez da minha parte aparecer em tua casa de mãos a abanar.
- Mas é um jantar, Rafael- disse, desviando-me do meu convidado e entrando na minha cozinha.
- E então? Leitinho quentinho, na ceia, com bolachinhas, não é agradável?- Disse o gosão, encostado à ombreira da porta da cozinha, enquanto eu guardava o leite no frigorífico.
- É optimo, sim, mas acredito mais na hipotese de não teres mais nada em casa para trazeres - concluí.
- Ora e o que temos para a janta- continuou, sem responder- hummm cheira mesmo bem! Adorei a ideia de fazeres o jantar da Ordem aqui em tua casa. Assim posso vir as vezes que quiser ao frigorífico- depois disto levou um safanão no braço, tão típico...
- Deves te achar o dono da casa!- disse eu, retirando um rolo de carne, recheado com ovo e legumes, do forno.
- Epá, mas que coisinha mais apetitosa!
- Eu?
- Não, Lady Guen, referia-me ao rolo...- Adoro estas situações - e vem a cavalaria toda?
- Achas? Claro que não! Nem cabiam todos aqui em casa. Vêm só alguns. O António, a Lídia, o David, o Miguel,o Gil (Gualdim), eu e tu.
- Sete. Somos sete.
- Sim, sete - A partir das sete e meia começaram a chegar os convidados. Primeiro o Miguel, depois o David, o Gualdim e o António e, finalmente, a Lídia. O meu rolo de carne fez sucesso, assim como as batatas, o bom vinho trazido pelo David e uma mousse de chocolate divinal feita pela Lídia. Depois de tudo ter ficado bem jantado fomos ao que realmente interessava: o artigo do Jaques Moley: ""Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici, la cinquiéme". Sentados em volta da minha pequena mesa de centro, uns nos sofás outros em puffs, estendemos as várias páginas sobre a mesa e no centro o desenho do, suposto, mapa astral.
- Dizes tu que isto é um mapa astral?- perguntou o António ao Miguel.
- Sim, parece-me um- respondeu.
- Parece, não. É mesmo um- disse a Lídia. Taróloga e astróloga há alguns anos, sabia de que estava a falar - e é antiquíssimo - acrescentou, chegando mais perto. Todos tinham lido o artigo. Tinha tomado a liberdade de o enviar para os seis.
- E o que dizes sobre ele? - perguntou o Rafael.
- Não é de fácil leitura, tem imensos cruzamentos. Alturas em que a conjugação dos planetas não é das melhores.
- Uma pessoa que teve na vida muitos altos e baixos - disse o David.
- Pode se dizer que sim - respondeu ela- este cruzamento, esta influência destes dois planetas neste trânsito é muito interessante...- disse, seguindo com o dedo uma linha do mapa, inclinando-se na mesa.
- Como assim? Não percebo nada disso...e compreende que é difícil para mim - perguntou o Miguel- mas se te explicares melhor...
- Eu percebo, claro. Eu explico do início. Dêem-me um minuto...- Foi então que a Lídia colocou os óculos, puxou de um papel e de uma caneta e começou a falar sozinha e a rabiscar- Sol em Libra, Lua em Virgem...Ascendência, hum...Neptuno, peixes. Neptuno na casa 11, ok. Sol na casa 7, Lua casa 7, Saturno...hum...casa 11.
- E então?- disse eu.
- Isto leva o seu tempo - respondeu a Lídia, com a caneta no canto da boca.
O que salta à vista, logo à partida é o signo. É libra de ascendente em peixes e tem Neptuno na casa 11.
- Isso trocando por miúdos...
- Tendência a medionidade, clarividência. Misticismo num nível elevado, ocultismo, psicometria...por aí- respondeu a Lídia.
- E isso é? - perguntou o António.
-Basicamente é uma faculdade extra-sensorial, uma superintuição, se assim quiseres, ou uma capacidade mediúnica em perceber o conteúdo de algo...Como posso explicar? Vejamos, houve quem aplicasse essa capacidade em achados arqueólógicos ou casos policiais em que as pistas materiais são escassas. É uma forma de medionidade, no fundo.
- E esta pessoa era isso? - perguntou o Miguel, um pouco incrédulo.
- Não te posso dizer isso, não se consegue saber isso. Mas que tinha tendência para o ser isso é certo - E continuou: - é uma pessoa sensível, ligada a coisas sensíveis, a coisas belas, às artes, ao amor, às fortes amizades, sim, os trânsitos que aparecem dizem que as amizades são algo de muito importante. O Sol na casa onde está, na casa sete, refere-se à individualidade, que mais uma vez está associada a amizades, mas principalmente a questões amorosas. A Lua...hum...casa sete também. Bom, mostra insegurança, vários papeis, várias faces...Depois, Vénus na casa 8. Tudo indica que houve harmonia nos relacionamentos amorosos e sexuais.
- Epá! Sabes ver essas coisas??- disse logo o António, já enchendo o 3 copo de vinho- isso é agradável. Quanto é que levas por consulta?
- Isso não interessa agora!- ripostou logo o Miguel - Deixa-a continuar! Força, Lídia. Estás a ser muito clara.
- Obrigada, Miguel. Sim, de facto no amor esta pessoa não esteve mal, apesar de tudo indicar que as suas energias vitais e o seu prazer interior se revela pelo prazer espiritual e não material nem carnal. Depois a posição de Saturno é intrigante...teria de procurar mais coisas acerca disto, mas posso dizer que há aqui uma certa dose de ambição e justiça, muitas vezes excessiva. Depois a Lua em oposição ao ascendente denuncia, mais uma vez, a importância do subconsciente e de alguma insegurança. Depois há imensas outras coisas, outros trânsitos que deveriam ser bem estudados.
- Consegues ver se é homem ou mulher? - perguntou o David.
- É uma pergunta difícil, ainda mais para mim que não sou especialista na matéria de mapas. Mas eu arriscaria uma mulher.
- Faz algum sentido - disse- no artigo dão a intender da existência de uma mulher na Ordem. É uma lenda mas...Se é uma mulher só poderá ser aquela de que falam. Poderá esse ser o mapa astral dela?
- É uma hipótese- disse o Gualdim, o nosso "astrónomo", se assim podermos chama-lo, entrando de vez na conversa - se bem que nessa altura, e remonte-mo-nos para cerca de 1160, só alguém com algum dinheiro ou conhecimentos na área é que poderia ter algo deste género.
- Nem sabia que nessa época havia quem soubesse fazer tais coisas - disse o António.
- Pois, ao que parece - continuou o Gualdim- e como é sabido, as estrelas, os planetas, o espaço, sempre intrigaram o Homem.
- Estamos a falar de meados do século XII...- disse o Rafael.
- Claro e que tem?
- Pensava que só no Renascimento o homem despertou para esses assuntos.
- Sim, Rafael, é verdade. Mas se formos por aí...os egipcios já usavam as estrelas...
- Não esqueçamos a idade das trevas - interrompi eu.
- Claro que não- continuou - mas os sábios sempre existiram, os astrólogos, os mediuns.
- E há provas de medionidade nesta pessoa - acrescentou a Lídia - Isso é bem visível no mapa.
- Se tiver sido uma mulher poderá ter sido uma bruxa! Pode ter sido queimada na fogueira- disse o António, já com o quarto como meio cheio (ou meio vazio?).
- Não, António, isso é impossível - disse o Miguel, puxando dos seus conhecimentos - a inquisição medieval foi fundada em 1184, na França. Faltariam mais de vinte anos!
- E não podia ter sido queimada? - disse novamente.
- A questão que queremos desvendar não é essa. Essa poderá ser pertinente noutra altura - disse o David, o nosso arquitecto.
- O que me intriga é a data do mapa...- disse eu.
- O mapa é muito antigo, muito mesmo- disse a Lídia. Reparem no aspecto.
- Teríamos de encontrar o original.
- Isso é impossível, Gil - disse o Rafael para o Gualdim- nem sabemos como se chama o gajo que enviou este artigo, quanto mais onde procurar este mapa!
- Se falamos de 1160, então seria impossivel terem conhecimentos sobre o Sol, a Terra, a Lua...- continuou a Lídia - a teoria do heliocentrismo foi descoberta quando?...1630, 40? Remonta-nos a Galileu, por amor de Deus, como poderiam fazer tal coisas mais de quinhentos anos antes?
- Falaste em medionidade há pouco, querida Lídia - disse Miguel. Todos parámos. Estaria a começar a acreditar em tudo isto?
- Sim, falei...é uma hipótese.
- Medionidade, ocultismo, previsões, visões, transcendem o material, é algo metafísico, é algo ligado à evolução do espírito, ao conhecimento, a um novo plano.
- A um plano inteligivel, como dizia Platão - disse o Gualdim.
- Sim - acrescentei- um plano não material, completamente espiritual.
- Acham que a nossa mulher era assim? - perguntou o Rafael.
- Espiritual era, não há duvidas- disse a Lídia- Agora se foi ela que fez este mapa...
- Só Deus saberá - respondeu o Miguel.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Saint-Etiénne, França, 1159

As lágrimas cobriam os meu olhos como uma ténue cortina cristalina. Não fossem as lágrimas resultantes de tamanha dor, ninguém poderia acha-las feias enquanto brilham e caem à luz da vela que, com a sua instável presença, acolhia-nos a alma, os pensamentos, a tristeza. Despertava em mim o que de mais intimo sentia.
Repousava a cabeça ao colo de Rafael, agradecida pelo seu apoio e por me dar a conhecer o seu lado mais amigo, emocional, e verdadeiro. Da maneira como me sentia, podia ser qualquer um, precisava apenas de uma presença que não me fizesse sentir abandonada. Mas estava muito feliz de ser o Rafael quem ocupava esse lugar agora.
- sei que é difícil para ti, mas mais tarde ou mais cedodevemo-nos por a caminho. E sabes que quanto mais cedo melhor. – disse Rafael em jeito de suspiro. Não respondi. Sabia que tinha razão mas a verdade é que nem falar me apetecia, quanto mais mentalizar-me para partir.
Viri-me com o ventre para cima, de maneira a que as lágrimas não me fizessem cócegas no nariz enquanto caminhavam pela a minha face.
- Rafel? – Chamei. Mas ele não respondeu, a sua alma não se encontrava naquele quarto. Os seus olhos mostravam o sentimento de culpa que ainda sentia por não ter conseguido comprir a missão. Nunca tinha visto aqueles olhos verdes tão vazios.
A luz da vela começava a incomodar-me a vista. Resolvi fechala.
Momentos depois senti-e envolver por uma luz branca que me acalmou. Estou a sonhar. Pensei. Mas como poderia pensar em algo assim, sonhando? Esta duvida não permaneceu muito tempo na minha mente, pois apesar de fazer sentido, não era algo que me fosse preocupar no momento. Esta luz tinha afastado de mim toda a tristeza e estava grata por isso. Como uma imagem repentina, o interior da abadia apareceu à minha frente, desaparecendo logo em seguida. Tinha gostado mesmo muito daquele lugar. Daquelas imagens tão familiares e ainda assim tão misteriosas.
- eu sei que vos custa muito mais a vocês, mas nós também não nos sentimos bem com o que deixamos acontecer. – disse uma voz artrás de mim. Para me virei para tentar ver de quem se tratava, não consegui perceber ou destinguir os contornos, mas a sensação que tive foi a mesma da capela.
- Não nos podemos marterizar com isto, por muito cruel que seja, o importante não é uma pessoa só. O Pedro foi muito corajoso e fez o que tinha de fazer. Não tenham duvidas de que ele será recompensado por isso. – Disse outra voz masculina à minha esquerda.
Dei por mim como uma visitante numa reunião onde não era suposto estar; e a qual não conseguia compreender. Parecia um sonho cheio de paz e tranquilidade, onde os intervenientes se apresentavam com contornos humanos mas de tal forma iluminados que eram impreceptiveis. A frustração crescia em mim pelo facto de ter a certeza que conhecia aqueles pessoas, aquelas criaturas, pelo facto de estarem a falar de Pedro como se tivessem estado lá, no momento em que tudo aconteceu. Mas eu não consegui sabem quem estava ali.
- e quanto à Isabel? Quando vai acordar? – Era Miguel, era a voz dele, tinha a certeza, mas apresentava-se como os de mais. Eu não tinha voz ali, não conseguia falar, descubri isso mesmo quanto abri a boca para tentar chamar por ele.
- Não sei, esperava que fossem vocês a dizer-nos – Ouviu-se a primeira voz que falara anteriormente.
- Ainda va demorar – ecoava agora a voz de Rafael. – Nunca vi ninguém tão adormecido ou recalcado. Pelo menos nunca a tinha visto assim.
- Rafael! – chamava agora uma nova voz. – Trouxeste alguém a mais. – apesar de repreensivo, o timbre da sua voz era calmo e querido, como se chamasse a atenção gentilmente.
- Bom dia!! Isso é que é dormir! Obrigada....a minha caminha é boa não é??!
- Han? O quê? Onde estou??
- No meu quanrto, mais propriamente enterrada nas minhas almofadas. Até me fez dormir no chão com um mísero cobertor, que ainda fui a tempo de resgatar antes de caíres como um calhau a roncar!. – Disse Rafael enquanto eu me endireitava na cama, ainda ensonada.
- Ah...estava mesmo a dormir...E OS CALHAUS NÃO RONCAM!! – resmunguei eu.
- Credo, cara feia logo de manhã! Se eu acordasse a sssim e me visse ao espelho também ficava mal disposto o resto do dia!
- Xiu! Quem te dera seres assim uma pessoa linda e fofinha como eu!
Rafael, om um sorriso de gozão, disse:
- Deixa-te de aumentar o ego e vai lá abaixo que ouvi dizer que há leite quentinho.
Com o barulho da minha barriga nem deu para disfarçar a fome. E havia leitinho!! Não tinha comido nada no dia anterior. Nem tinha, sequer, conseguido pensar em comida ou fosse o que fosse.
Desci as escadas num ápice e quando cheguei lá a baixo encontrei uma mesa divinal, com o resto do grupo à volta da mesma. Para alegrar um pouco o meu coração, David foi ter comigo e depois de um abraço de pai disse-me que passaríamos mais dois dias no estabelecimento, Escalus, cortezia dos anfitriões depois de se terem deparado com o nosso estado.
- Hoje, em vez de cavalgar, vou passear!

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

1895, Fosse tudo isto um sonho

Cada palavra ficou gravada na minha memória e só passado alguns minutos depois daquela conversa é que pude aperceber-me do seu significado. Imediatamente me lembrei das poucas frases que a Antónia revelou sobre o passado dos meus pais e como elas eram tão mais reconfortantes do que a verdade. Pensava eu que não conhecia os meus pais sem saber nada deles e agora que sei os seus segredos sinto-me ainda mais distante deles. A minha mãe, D. Isabel Alvarenga era a única herdeira de uma importante família fidalga e uma das mais importantes de Portugal, tendo uma forte influência na corte há vários séculos. Foi sempre cortejada pelos mais ilustres senhores não só pela sua beleza mas também pela a riqueza que lhes estava destinada. Foi nesse momento que o meu pai a conheceu e a levou consigo, contra a sua própria vontade. Aparentemente a história de amor de que Antónia me falava foi apenas uma fantasia para calar as perguntas de uma rapariguinha inocente. É verdade que o meu pai se apaixonara perdidamente por ela e que a herança não foi o seu objectivo final, até porque partiram sem o dinheiro e ele nunca falou no assunto. Passaram-se vários anos até a minha mãe aceitar este homem que errou e não soube respeitar os sentimentos dos outros acima dos seus. Não que tivesse sido raptada, apenas não teve consciência do que estava a fazer deixou-se levar pelas galanteios daquele “cavaleiro” que lhe prometia uma vida em liberdade e longe das responsabilidades que a assustavam.
Passaram vários anos de um lado para outro em constante movimento até que vieram para Tomar para a casa do irmão de David. Isabel foi-lhe apresentada como sua mulher, apesar de os dois não terem contraído matrimónio. O tio Manuel já era casado. A minha tia desaprovou o facto de estar a dar abrigo a um casal de pecadores que viviam à 2 anos juntos sem nunca terem visto a sua relação abençoada. Insistiu para que ao menos um padre viesse em segredo casá-los mesmo que não fossem à igreja. E foi assim que se casou David casou com D. Isabel Alvarenga, a mais ilustre senhora da corte, digna de um rei como muitos afirmavam, casada numa casa humilde com um casal de burgueses e um cão como testemunhas. Mas a paz não durou, pouco tempo depois partiram novamente. O tio Manuel insistiu que Tomar era o melhor lugar para ficarem até o nascimento da criança. Mas o meu pai era teimoso e eu nasci já em Sintra na casa que conheci nos meus primeiros 12 anos de vida.
Mas a história não parou por aqui. Concluí com o que me foi contado que a razão de todo o secretismo e mudança ao longo dos anos fosse então para esconder o paradeiro da minha mãe e de o homem que a levou da sua família e do seu noivo. Mas o passado do meu pai revelava-se ainda mais surpreendente. David pertencia à Ordem dos Templários que apesar de se ter dissolvido à muito, continuava viva através de sociedades secretas que juraram não deixar morrer os seus ideais e lutar pelos seus princípios. As vidas daqueles que integravam a Ordem estavam condenadas à clandestinidade e ao sacrifício. Atitudes que pusessem em causa a sobrevivência da Ordem em Portugal ou de algum dos seus membros era severamente punida. No dia em que meu pai ousou enfrentar uma das mais poderosas famílias da corte portuguesa pôs em risco a própria Ordem, para satisfazer um capricho. Ao fazer com que o procurassem, com que seguissem os seus passos estaria a condenar a vida de todos os que pertenciam à Ordem. Foi expulso, declarado como traidor e como um inimigo da sua causa. As informações sobre as localizações e até documentos que tinha em sua posse tornavam-no perigoso e por isso era necessário vigiá-lo atentamente.
E assim terminou o tio Manuel, acrescendo apenas que era necessário compreender que o meu pai tinha feito tudo com as melhores intenções, mas que era jovem na altura e não pensou nas consequências. Foi egoísta e imaturo mas que pagou a vida toda por aquilo que fez. E com isto saiu e fechou a porta do quarto. Apesar de tudo o que me disse, de tudo o que descobri não pude deixar de sentir que ele me tinha ocultado alguma coisa. E eu que faço no meio de tudo isto? Farta estou eu de pagar por erros que não cometi!
Resolvi que o melhor seria fingir ainda não ter recuperado de forma a que me deixassem em paz. Levantei-me da cama e sentei-me à janela, tentando não pensar em nada e ficar apenas a observar o que se passava lá fora. Vidas que pareciam tão mais simples do que a minha, com as suas preocupações quotidianas e banais que eu tanto invejo. Pudera eu ser como eles e ter uma vida insignificante que dependia apenas de mim e não dos que me antecederam. Ser ninguém, daqueles por quem passamos na rua sem nos deixarem qualquer impressão. Ser apenas mais um ser insignificante que só quer ter um tecto e pão na mesa. Dei por mim a pensar se o casamento com Rafael me traria tudo isso, ser a mulher de alguém, servi-lo, ter filhos e esquecer tudo o resto. Como é que cheguei a isto? Contentar-me com tão pouco. Agora que os segredos parecem ter sido revelados não me sinto melhor do que antes, talvez se pudesse voltar atrás desejava permanecer na ignorância.
Todos estes pensamentos reflectiram-se numa dor de cabeça insuportável, decidi que tinha de sair do quarto abafado e ir apanhar ar fresco. Desci as escadas e avisei que ia sair um bocadinho, dar uma volta e espairecer. O João implorou para o levar e eu concordei em levá-lo comigo. Pegou-me na mão com força e sorriu para mim. Ás vezes são injusta para ele, cresceu sem os pais, sem a comida da Antónia sem o ar de Sintra e com uma irmã que mais parecia uma madrasta dos contos de fadas. Talvez agora tivesse tempo para me redimir.
Andámos à beira rio a sujar os pés, a molhar as roupas, a correr e a fazer mil e um disparates que não fazia desde que morava em Sintra. Estava ensopada e feliz. Dei um grande beijo ao João e pedi-lhe para me ajudar a levantar gritando um “já estou a ficar velha”! Fizemos o caminho de volta praticamente às escuras. Sentia-me gelada e comecei a pensar se teria sido boa ideia ter trazido o João e termos nadado no rio.
- João! João vem para perto de mim que eu já mal te consigo ver!
Peguei-lhe na mão gelada e percebi que estava a tremer, a testa por sua vez estava a ferver. Só pensei de como tinha sido estúpida em ter trazido o meu irmão. Devia ter vindo sozinha! Peguei-o ao colo e corri o mais depressa que pude gritando por ajuda. Depois disso tudo se tornou confuso e não me lembro de quanto tempo passou até eu chegar a casa. Quando “acordei” do pesadelo já o João estava nos braços da minha tia. Quem me dera que tudo isto fosse um sonho e que eu fosse acordar no meu quarto, antes de o meu tio me contar tudo, antes de ter descido as escadas, antes do João me ter agarrado a mão e saído comigo.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Estranhos desenvolvimentos

- Então? Como é que ele está?
- Está na mesma…
- Mas já não está melhor?
- Oh…não, mas não fala, não reage, é alimentado por uma sonda…- Passou uma semana depois de eu ter ido ver o meu tio ao hospital, uma imagem que quero apagar por completo da minha memória. Naquela noite, eu e o Rafael chegámos preocupadíssimos ao hospital, tentei saber do meu tio, mas a desordem das urgências punha-me os nervos em franja e quase que atropelava violentamente uma criancinha que tinha partido a cabeça e que chorava desalmadamente. “Desculpa lá, puto”, disse o Rafael, uma vez que eu nem para o miúdo olhei. Perguntei para o meu tio e levaram-me à sala dele. Lá estava. Imóvel, sereno, estava a dormir tão bem. “Como foi isto acontecer?”, perguntei à enfermeira que me guiou pelos corredores de maneira a que eu não chocasse com mais nenhuma criancinha acidentada. “Segundo consta o relatório ele foi encontrado desmaiado”, disse ela. “E onde? Aqui em Lisboa?”. Não. Tinha sido encontrado em Sintra. Ao que parece o meu tio visitava a vila. Foi encontrado numa das bermas da estrada, perto do hotel dos Seteais, deitado no chão. “ E agora senhora enfermeira? Quanto tempo ficará ele assim?”. Pouco tempo. No final da semana abriu os olhos. “Tio! Olá! Tudo bem consigo? Consegue ouvir-me? Mas que dorminhoco, tio Pedro, hã? Olhe só o susto que nos pregou!... tio? Tio fale comigo, não se lembra de mim?”. Lembrar até podia lembrar, disse o médico, mas não dizia nada. “Oh, Doutor mas diga lá, não há suspeitas do que possa ter acontecido, ter batido com a cabeça, alguma coisa?”, perguntou o Rafael, incansável companheiro. “Meu caro amigo, não há registos de traumatismos na cabeça. O que lhe posso dizer é que tudo indica que ele está em estado de choque”. Estado de choque? Sim, estado de choque. O meu tio, o valentão, estava chocado “mas com o quê, doutor?”, “isso agora já não sei, não é amiga? Isso agora já são outros quinhentos, ora. Eu não estava lá no momento da crise. Pode sempre ver é se houve testemunhas”. Foi então que desisti de tentar fazer com que o meu tio falasse, pobre homem, e fui à recepção. “ Na volta o teu tio foi encontrado por aqueles malucos que fazem cenas maradas na serra de Sintra”, disse o Rafael. Não devia estar longe…”Ora, o seu tio deu entrada no hospital às quatro e quarenta e cinco da manhã”, disse a recepcionista. Concordei com o Rafael quando ele disse que eu já devia ter visto isso há mais tempo, mas o que aconteceu foi que andei muito atarefada com coisas da faculdade, milhares de livros para ler e também sempre preocupada com a questão do artigo do Jacques Moley, e do tal mapa astral. “Cinco e meia da manhã?...Não tem o nome aí de quem o trouxe?”, perguntei. Não. Nada. Só a ficha dele que fui eu que preenchi. No dia seguinte voltei ao hospital, vi como ele estava e voltei para casa. Foi então que recebi a chamada do Rafael, sempre preocupado.
- Olha lá – disse ele – ele foi encontrado perto do hotel dos Seteais, certo?
- Sim.
- E isso é…perto da Quinta da Regaleira.
- Onde queres chegar?
- Ao incidente que houve há dias com o David no jantar da Ordem.
- E dizias tu que a Quinta não tinha fantasmas, Sir Rafael.
- Pára com brincadeiras. Ontem uma mulher apareceu caída no Patamar dos Deuses, na Quinta - fiquei sem reacção - está em coma.
- Achas que há relação? – perguntei estupidamente - O David, o meu tio, a mulher...
- Pode haver ou não. Irrita-me solenemente isto, eu não era assim e agora imagino coisas destas e…
- e…
- No outro dia estava com o Miguel a acartar um material de um dos espectáculos, já era noite. Estávamos a por as coisas para a carrinha quando ouvimos uns barulhos. Pensámos que eram pássaros, mas não eram. “Ouviste isto?”, disse eu ao Miguel. “Isto o quê?...Pára lá com isso, meu Deus…já chega de história fantasmagóricas, o teatro já acabou, Rafa.” . E Eu disse “Epá pára lá com isso tu, Miguel! Não é nada disso…”. Foi então que ele entrou para a casinha das arrumações e eu fiquei ali a olhar para todos os lados.
- Desenvolve…
- Calma, isto também não é assim! Guen, eu vi um vulto, juro que vi! Epá era um gajo, tenho a certeza. Fui a correr chamar o Xavier, que é o gajo da segurança, e ele ficou a olhar para mim, parecia que estava a olhar para um maluco que tinha acabado de sair do manicómio. “ Vai dormir, Rafael! Estás cansado! Está tudo contabilizado, quem entra, quem sai e agora não está cá ninguém”, disse ele. Depois de eu lhe ter dito que não podiam ter esse controlo tão preciso e de ele começar a disparatar “estás a por em causa o meu trabalho?” e não sei mais o quê eu parei. Parei, mas não parei por ali. Fui ver atrás dos arbustos, das árvores. E no dia seguinte, pronto, a mulher aparece caída no Patamar dos Deuses, que, como sabes, não fica tão longe do sítio onde fazemos o teatro, que é naquele átrio perto do…
-Sim, sim, eu sei, já devo ter assistido a dezenas…A única relação que existe é o coma…e o David nem entrou em coma, quer dizer…
- Ok, sim, mas é estranho. E eu vi, ninguém me tira da cabeça que eu vi um homem. Era um homem, eu vi a silhueta dele, apesar da pouca luz. É tanta coisa acontecer ao mesmo tempo…e sobre a data da reunião por causa do artigo, já sabes de alguma coisa?
- O pessoal da Ordem aponta para esta sexta à noite.
- Seja! Quando mais rápido melhor! Estou farto de enigmas.