Não sei o que me passou pela cabeça naquele momento. Muito menos o que passou pelo coração. Um enorme vazio preenchia o meu peito com uma vontade de gritar, de fugir, de procurar o pedaço de alma que desaparecera sem dar aviso. Acabara de perder um irmão, o irmão. E todas as memórias que guardava do tempo de criança pareciam-me agora escassas e envoltas por um véu feito de névoa.
- Porque tinha isto de acontecer? Parecia...parecia que ele já sabia o que o futuro lhe reservava quando ficou doente...
- Não sejas tonta Liena... ninguém pode adivinhar estas coisas. Nem o próprio Miguel pode. –disse David.
- Han?
- Nada filha, deixa.
- Será que ele morreu mesmo? – insisti eu, tentado afastar um pouco mais a realidade de mim.
- A menos que ele tenha um escudo invisível enviado por Deus, ele não estará mais aqui querida. O destino dele é uma hipótese de futuro para cada um de nós, ninguém se pode esquecer disso...
- David – Interrompeu Rafael. – Está na hora de continuar, se ficarmos neste buraco seremos descobertos mais tarde ou mais cedo e o sacrifício de Pedro terá sido em vão.
Subitamente o meu peito voltou a badalar com uma lembrança súbita.
- E Miguel?? Miguel foi na direcção oposta! Que será dele agora sozinho com todos aqueles mouros atrás?
- É verdad... – começou António.
- Miguel está bem e ficará bem até nos encontrar – interrompeu Rafael com uma estranha certeza nas palavras. – Talvez tenha chegado a altura de perceberem que aqui cada um se deve preocupar consigo mesmo. Caso contrario serão mortos enquanto estiverem à procura de um amigo!
- Calma Rafael – Também David percebera que algo tinha mexido com Rafael. Talvez porém era esta a forma que ele tinha de lidar com sentimentos de perda e tristeza. Se eu conseguisse dominar os meus sentimentos assim...
Pusemo-nos a caminho, desta vez rumo a Bordeaux, era Gualdim quem nos guiava, decidia destinos, caminhos, estudava as informações que recolhíamos da viagem para traçar o melhor caminho até Portugal. Era de facto muito inteligente e apesar de ser o decisor do grupo, passava facilmente por despercebido. Eu sempre achei esta atitude dele algo muito nobre e honrável, principalmente quando estamos rodeados por pessoas que fazem de tudo para se destacar e afirmar o seu puder sobre os demais.
Lá ia ele, no seu cavalo malhado, Escópio, caladinho, com o seu mapa desenhado e o olhar a tentar captar o mundo. O seu cabelo preto-asa-de-corvo, caia para trás trapando-lhe o pescoço mas tocando somente ao de leve nos ombros. A franja desalinhada desenhava uma sombra nos olhos onde o verde água se destacava cheio de vida. Ao contrario de David, Gualdim ainda tinha paciência para pegar numa faca e fazer a barba do seu reflexo na água.
- Agora andas de olho no Gualdim? – surpreendeu-me Rafael.
- Não sejas parvo... não ando de olho em ninguém. Mas estou contente que tenhamos no grupo alguém como ele, que consegue manter a cabeça naquilo que é mais importante e com grande subtileza.
- Sim, tens razão, nem se dá por ele mas se não tivesse vindo ainda estaríamos a chegar a Itália por estas horas. Isto se ainda estivéssemos vivos claro.
- Vivos... eu também reparei que ficaste perturbado com a morte de Pedro. – toquei no assunto nem sei porquê. Eu na queria relembrar o que acontecera mas dei por mim a falar directamente do coração.
- Eu não conhecia bem o Pedro – respondeu – pelo menos não tão bem como tu. Pelo que vejo e a avaliar pela tua calma o teu consciente ainda não deve ter assimilado o que aconteceu... daqui a uns dias quero que saibas que podes contar comigo seja a que momento for.
- ...Obrigada...
- Quanto à tua afirmação. O meu dever, depois de te deixar em segurança em Portugal com esse embrulhinho, é manter-vos em segurança até terras protegidas. Tomar conta de voz. Proteger-vos de todo o tipo de inimigos. A morte de Pedro, para além de ter perdido um companheiro de viajem maravilhoso e que poderia ser um grande amigo como Miguel, veio derrubar aquilo a que me propus... e agora tenho de me dedicar de corpo e alma àquilo que me resta.
- Mas porque te propuseste a tamanha coisa?? E ainda há pouco disseste que cada um tinha de olhar por si!
- Para começar não tive propriamente escolha, mas não poderia estar mais feliz e honrado por o fazer. Segundo, faz o que eu digo, não o que eu faço.
Com isto galopou até David e Gualdim na frente do grupo, deixando-me cheia de enigmas e sem respostas. (Para variar...como é que é possível!) Quem terá mandado Rafael com tamanha missão?
Dois dias passaram em silêncio e em tormenta. Dormindo encima dos cavalos, parando apenas para que estes pudessem beber água e descansar um pouco.
- Ahhh mais um palácio! – disse António rompendo com a monotonia.
Estávamos em frente ao nosso local de descanso. Até que enfim. Os donos da estalagem, que vim a descobrir serem das margens do Zêzere, já nos esperavam à porta do abrigo com sorrisos que se espalhavam até aos olhos. Por cima deles, o nome da estalagem brilhava. Escalus Angelorum.
- Escalus Angelorum?? Mas..Gualdim! – chamei.
- Pois não?
- Escalus Angelorum não era o nome da ultima estalagem em que estivemos em Génova?
- É sim, que atenta menina Liena! É o nome pelo qual sabemos que estamos entre os nossos e em segurança.
- Mas em Opera, na abadia... nada dizia Es...
- Haveis ido ao campanário?
Agora que ele falava nisso, lembrava-me de umas letras lindamente desenhadas no campanário mas a beleza da estátua do Arcanjo roubou-me toda a atenção desde o momento em que pisei a abadia.
- Sejam muito benvindos!! – cumprimentaram os donos da estalagem em uníssono.
Que cumprimento mais caloroso! Que maravilha. O dono da estalagem tinha um bigode farfalhudo, mostrando as influências francesas, juntando-se a este, uma pequena mosca em baixo do lábio inferior. Contudo a sua barriguinha grávida de comida e tintol mostravam claramente a sua origem portuguesa. Já a senhora de bochechas rosadas podia dizer-se que era muito bem fornecida pela natureza anatómica na parte dos seios. Por outras palavras a senhora tinha umas grandes mamas. Quanto à sua parte lusitana estava, sem duvida, presente a recepção calorosa e hospitaleira.
A estalagem era pequena e comprida. Feita de madeira tinha uma decoração aconchegante e acolhedora. Fomos cada um para seu aposento, sendo que o meu era o ultimo quarto do lado direito.
Como a lua já ia alta no céu e nenhum de nos tinha mais fome do que sono, tomamos apenas uma pequena ceia, onde conversamos com os nossos anfitriões e recebemos noticias de Portugal e Espanha em troca das nossas aventuras.
Quando finalmente cheguei ao meu quarto, escuro com apenas uma vela como ponto de iluminação, deitei-me de lado na cama sem me trocar e abracei o embrulho azul encostando-o ao peito. Porquê? Porque tinha Pedro de morrer em troca disto? Porque está agora a nascer em mim esta tristeza juntamente com esta solidão, como se fosse uma fonte que jorra para todas as minhas veias? Porque tive de ficar sem o meu irmão??!
Pelas estrelas devia ser umas 3 das manhã. Fechei os olhos por uns momentos e a imagem do Arcanjo Rafael da abadia, com a sua iluminação surreal. Rafael. Fui chama-lo como ele mo tinha pedido, e na sua companhia chorei a noite inteira.
terça-feira, 21 de dezembro de 2010
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Tudo está prestes a mudar
A carta do meu pai teve um grande efeito em mim. No dia seguinte podia ver-se na minha cara que não tinha pregado olho a noite inteira. A minha tia olhou para mim e passou-me a mão na testa sem no entanto acrescentar nenhuma palavra. Eu própria nem sei definir o meu estado de espírito, tenho assim tantas razões para estar preocupada? Acho que o que mais me perturbou foi o facto de se confirmar que nunca tive ou terei controlo da minha própria vida. Pouco sei sobre as pessoas que me rodeiam, que se escondem e fogem de mim e que decidem o meu futuro. Estes anos todos desde que saí de Sintra já o meu pai tinha planeado um casamento com alguém que deve ter feito parte de uma semana da minha existência.
Pelo ar do meu tio e do Rafael percebi que a tia não lhes tinha dito nada. Estavam sentados à mesa a comer o pequeno-almoço sem sequer falarem um com o outro. Sentei-me ao lado do João e tentei não olhar para o Rafael. Começaram a surgir os pensamentos que me assolaram a noite inteira “será que é por isso que ele voltou?”, “terei de me ir embora agora que finalmente estava tão feliz?”. Tentei concentrar-me no meu pão e naquilo que está a fazer ou ainda ficava sem um dedo ao barrar a manteiga.
A tia odeia silêncio e a sua natureza faladora fez com que iniciasse uma qualquer conversa banal sobre o tempo, os problemas com as colheitas, a falta de clientes e terminou com o discurso acerca da vizinha da frente que tem o desplante de trair o marido à luz do dia. Com estes anos de convivência consigo perceber quando a tia anda à volta de um assunto e sei perfeitamente quando ela está prestes a chegar a ele. Olhou para mim de relance, baixou os olhos e depois olhou para o tio Manuel pegando-lhe a mão. Soube imediatamente que algo se ia passar, principalmente porque o meu tio ficou sério como nunca tinha visto.
- Meus queridos sobrinhos, chegou finalmente a hora de saberem tudo o que estes anos vos foi ocultado.
Deu-me um aperto no coração, só consegui pensar que alguma coisa tinha acontecido aos meus pais e o mais provável era neste momento ser órfã. Devo ter ficado branca, senti o sangue gelar e perdi as forças e o meu corpo escorregou da cadeira.
Quando acordei estava no meu quarto. Vinha um ar fresco da janela e os raios de sol entravam pelo quarto dentro reflectindo a luz nos espelhos. Olhei em volta e vi o João adormecido aos pés da cama com olhos inchados de tanto chorar. Ainda soluçava mesmo a dormir. Ia levantar-me para o acordar mas nesse mesmo instante a porta abriu-se, era o Rafael.
- Pregaste-nos cá um susto! – exclamou.
Os olhos vermelhos denunciaram-no. Nem sabia o que responder, as ideias ainda estavam misturadas e senti-me a desfalecer outra vez mas ele prontamente me segurou a mão. Perguntou-me se eu estava bem, se queria que fosse buscar água, mantas o que fosse preciso. Eu só lhe respondia “não, não” umas vezes só acenava com a cabeça. Foi aí que os tios entraram no quarto e fecharam a porta. Agora não havia como escapar às noticias, nem mesmo o meu corpo me podia poupar a elas desligando-se outra vez.
- Espero que te sintas melhor minha querida. Sabes que eu me preocupo contigo e não viria aqui perturbar-te com grandes conversas se elas pudessem ser adiadas. – disse o tio Manuel enquanto se chegava mais perto de mim. Nem ousei dizer nada, percebi que o melhor era ouvir, afinal não era isso que eu sempre quis? Saber a verdade sobre os meus pais e sobre a razão de tanto secretismo. O meu tio lá começou a falar depois de um longo suspiro.
Pelo ar do meu tio e do Rafael percebi que a tia não lhes tinha dito nada. Estavam sentados à mesa a comer o pequeno-almoço sem sequer falarem um com o outro. Sentei-me ao lado do João e tentei não olhar para o Rafael. Começaram a surgir os pensamentos que me assolaram a noite inteira “será que é por isso que ele voltou?”, “terei de me ir embora agora que finalmente estava tão feliz?”. Tentei concentrar-me no meu pão e naquilo que está a fazer ou ainda ficava sem um dedo ao barrar a manteiga.
A tia odeia silêncio e a sua natureza faladora fez com que iniciasse uma qualquer conversa banal sobre o tempo, os problemas com as colheitas, a falta de clientes e terminou com o discurso acerca da vizinha da frente que tem o desplante de trair o marido à luz do dia. Com estes anos de convivência consigo perceber quando a tia anda à volta de um assunto e sei perfeitamente quando ela está prestes a chegar a ele. Olhou para mim de relance, baixou os olhos e depois olhou para o tio Manuel pegando-lhe a mão. Soube imediatamente que algo se ia passar, principalmente porque o meu tio ficou sério como nunca tinha visto.
- Meus queridos sobrinhos, chegou finalmente a hora de saberem tudo o que estes anos vos foi ocultado.
Deu-me um aperto no coração, só consegui pensar que alguma coisa tinha acontecido aos meus pais e o mais provável era neste momento ser órfã. Devo ter ficado branca, senti o sangue gelar e perdi as forças e o meu corpo escorregou da cadeira.
Quando acordei estava no meu quarto. Vinha um ar fresco da janela e os raios de sol entravam pelo quarto dentro reflectindo a luz nos espelhos. Olhei em volta e vi o João adormecido aos pés da cama com olhos inchados de tanto chorar. Ainda soluçava mesmo a dormir. Ia levantar-me para o acordar mas nesse mesmo instante a porta abriu-se, era o Rafael.
- Pregaste-nos cá um susto! – exclamou.
Os olhos vermelhos denunciaram-no. Nem sabia o que responder, as ideias ainda estavam misturadas e senti-me a desfalecer outra vez mas ele prontamente me segurou a mão. Perguntou-me se eu estava bem, se queria que fosse buscar água, mantas o que fosse preciso. Eu só lhe respondia “não, não” umas vezes só acenava com a cabeça. Foi aí que os tios entraram no quarto e fecharam a porta. Agora não havia como escapar às noticias, nem mesmo o meu corpo me podia poupar a elas desligando-se outra vez.
- Espero que te sintas melhor minha querida. Sabes que eu me preocupo contigo e não viria aqui perturbar-te com grandes conversas se elas pudessem ser adiadas. – disse o tio Manuel enquanto se chegava mais perto de mim. Nem ousei dizer nada, percebi que o melhor era ouvir, afinal não era isso que eu sempre quis? Saber a verdade sobre os meus pais e sobre a razão de tanto secretismo. O meu tio lá começou a falar depois de um longo suspiro.
sábado, 4 de dezembro de 2010
O artigo
"Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici, la cinquiéme", Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, a quinta, era o título do mais recente trabalho publicado na Ordem online.
- Quero queijo!
- Está no frigorífico!
- Não está!...Ah, está aqui.
Enquanto eu tentava abrir o ficheiro que o cavaleiro “Jacques”, havia publicado. O Rafael remexia o frigorífico para fazer uma sandes de queijo. Tinha ido à minha casa uma semana depois do incidente com o David para me ajudar num trabalho para Teologia. Bom, supostamente quem me ia ajudar era o Miguel, já que é seminarista, mas o Rafael ofereceu-se para ajudar. Do meu tio Pedro nem sinal de vida. Desde que tinha vindo do jantar da quinta que não o via. Antes que o Rafael chegasse à sala e o ficheiro descarregasse lembrei-me de ir a casa da minha vizinha, a tal, muito disposta para o meu tio, e perguntar se, por acaso, o tinha visto ou se, por acaso, ele não se encontrava no meio dos seus lençóis. Não me surpreendia nada esta situação, do meu tio andar desaparecido, ou de o apanhar na cama da vizinha, mas, de facto, ele, sempre um espírito livre, passava dias sem aparecer na casa da minha pobre avó, que rezava a todos os santos para que nada mal lhe acontecesse. À conta disso viajou à boleia pelo mundo. “Onde estiveste, Pedro Manuel?”, “Fui dar uma voltinha a Paris”, “Ai, credo, que este rapaz é sempre a mesma coisa”. Era assim. Mas, não conseguia deixar de me preocupar com ele. Era meu hóspede, no fim das contas.
- Olá, minha querida Helena!!
- Boa tarde, o meu tio Pedro está por aí?
- Não queres entrar?
- Oh, não se incomode! Ele está aí? – dizia eu, espreitando para dentro de casa da minha simpática vizinha.
- Não…Infelizmente não…Mas porquê? Acabei de fazer um bolo, não queres?
- Não, não, obrigada! – e desapareci. Mas onde se teria metido o homem? Cheguei a casa e encontrei o Rafael sentado na minha cadeira, em frente ao meu computador.
- Guen- disse ele, com a boca cheia de pão, virando-se para trás e insistindo em me chamar pelo mesmo nome do site, mesmo já sabendo o verdadeiro – já leste isto? – Aproximei-me.
- Ah! Andas a abrir as minhas coisas…Isso é o artigo do tal Jacques Moley, o novo utilizador do site. Que tem?
- Lê…- O artigo ainda era grande, mas a entrada denunciava o tema. O homem, louco, defendia, numa linguagem quase indecifrável e confusa, que não havia existido uma, mas cinco ordens templárias. Para além disso, quase que jurava a pés juntos que Portugal é a Porta-do-Graal, e que…
- Então? Acaba aí?- perguntei- Anda com o rato mais para baixo.
- Acaba aqui! – disse o Rafael- Até o artigo em si, aqui mais a baixo, chega a esta parte da explicação e termina - O homem esqueceu-se de fazer ou de acrescentar ou de mandar o ficheiro certo.
- Não pode…
- O texto está muito confuso, o homem não sabe português! – disse o Rafael – Olha-me para isto. Virgulas não é com o gajo…
- É uma misturada de francês e latim e português…Uma misturada com coisas importantes. Cinco Ordens?
- Epá, ele é maluco. Deixa lá isso – disse o Rafael, levantando-se da cadeira e indo até à janela – Olha, já lá vem o Miguel. Vou lá abaixo abrir-lhe a porta, anda meio perdido aqui na rua – Seja lá o que fosse aquele artigo, fosse ou não o Papa que o tivesse escrito, e mesmo que estivesse o mais confuso possível, não me deixava desprender os olhos do ecrã do computador. Compreendia-se que seriam cinco ordens. Cinco ordens dos cavaleiros templários. A quinta, a última, era a descrita pelo autor. Era o que parecia. No entanto, era quase impossível ler uma frase seguida. O cavaleiro, Jacques de seu nome, e não tivesse eu estudado tudo sobre o tema não saberia que Jacques Moley foi o último grão-mestre da Ordem, havia de ser um homem louco. A existência de cinco ordens era impensável. Uma ordem e vários seguidores era mais compreensível e imaginável. Quanto à importância de Portugal na história dos templários, bom, isso já era mais aceitável. São vários os autores que defendem essa possibilidade apontando, até, sítios estratégicos do nosso País como possíveis guardadores do santo cálice ou do santo manto de Cristo. Depois, há aqueles que defendem que o Graal poderia ser tudo menos estas duas opções, mas isso são outras histórias, nenhuma delas que tivesse a ver com o artigo. Nessa parte o texto terminava, sem mais nem menos. Fui ao registo do “Jacques” e não encontrei qualquer contacto. Isso deixou-me ainda mais intrigada. Todos os “cavaleiros/as” ao efectuarem o registo online têm de por, pelo menos, um email, e este não tinha nenhum. Era impossível. Se não preenche-se todos os campos obrigatórios, como o contacto online, nunca poderia fazer o registo e fazer “login”. Recorri à lista de nomes registados umas quantas vezes, não me tivesse escapado nas primeiras, e nada. “Jacques Moley”, era o único nome, a única coisa a respeito do autor do artigo. Pensei em publicar o artigo no site, podia uma ou outra pessoa se manifestar, mas decidi guarda-lo, por agora.
- Olá, Lena!
- Miguel! Como estás? – disse, fechando rapidamente o portátil - pronto para me explicares tudo sobre os ensinamentos teológicos no século XI?
- No que eu puder ajudar…
- Ah! Pode ajudar sim! - disse o Rafael, dando uma pancadinha nas costas do amigo. Vou arranjar um lanche.
- Deixas-me o frigorífico a zeros! - gritei da sala – Sentamo-nos à mesa. Não conseguia deixar de pensar no artigo – Miguel, isto não tem nada a ver com a matéria, ou talvez tenha, sei lá… há a possibilidade de ter existido mais do que uma Ordem dos Templários? – o Miguel, que tirava calmamente os cadernos da mochila, parou, ficou estático, olhou para mim e, depois de uma pausa, pousou o caderno em cima da mesa.
- Donde é que tiraste essa ideia? – Perguntou. Foi então que lhe expliquei o artigo – Parece-me um bocado impossível respondeu, finalmente – Se houve, não eram “oficiais”. Há ainda várias lendas sobre…
- A existência de mulheres na ordem? – disse rapidamente – o artigo fala numa lenda sobre isso, o que também me intrigou, é algo em que nunca tinha pensado! – estava mesmo entusiasmada.
- Também – respondeu – também, também, sim, já ouvi falar mas nunca me dediquei muito a estudar isso… mas há variadíssimas lendas sobre os cavaleiros, a sua saga, as suas paixões…
- O artigo fala da existência de pelo menos uma mulher na Ordem.
- E que houve cinco ordens?
- Foi o que percebi – Foi então que me deixei de coisas e fui imprimir o artigo – Não está terminado…- disse, entregando-o em mãos ao Miguel.
- Falta-lhe a parte do Graal – disse o Rafael, entrando na sala com um tabuleiro todo composto, com café, bolachas e sandes.
- Mas que simpático da tua parte! - disse eu – Tenho te a dizer que amanhã vamos os dois ao supermercado, Sir Rafael.
- Está doente! – disse o Miguel – ou então…
- Ou então estou cheio de fome! – disse logo o cavaleiro das trevas. A tarde foi passada a comer o lanche do Rafael e a falar sobre o artigo. Concluímos que era impossível aquilo ter sido escrito por alguém de nacionalidade portuguesa ou que vivesse em Portugal. A mistura de línguas era complicada e nenhum de nós era barra em Francês - Gosto mais de italiano – disse o Rafael. Concluímos ainda que o artigo trazia um desenho, um mapa, mas não um mapa qualquer. Não um mapa de tesouro, nem um que indicava um caminho. Era um mapa
- Astral, é um mapa astral, muito antigo, é certo, mas é um…- disse aos dois rapazes. O Miguel, futuro padre, pouco ou nada acredita em astrologia e desconhece voluntariamente os caminhos das estrelas bem como as
- Salganhadas de riscos e bonecadas! - dos mapas astrais, tal como disse naquela tarde.
- Mas ela tem razão, é uma cena dessas…- disse o Rafael. Naquela tarde decidimos que íamos recorrer aos outros cavaleiros da ordem online para nos ajudar, mas que o texto não seria publicado. Eu própria me iria encarregar de falar com eles, marcar um encontro, e tirar a teima do raio do texto que cada vez mais me deixava os nervos em franja. Havia de descobrir tudo sobre aquele artigo e tudo sobre aquele autor. No final do dia, os ensinamentos teológicos do séc. XI, tinham ido por água abaixo.
- Acabámos por não estudar nada, Lena…
- Ah, Miguel, não te preocupes. O que nós fizemos foi muito mais divertido – disse eu, abrindo a porta da rua e permitindo que os dois rapazes saíssem. O Miguel foi chamar o velho elevador do meu prédio e o Rafael encostou-se à porta da rua.
- Ficas bem aqui sozinha? – perguntou.
- Fico, já estou habituada…
- E o teu tio? Não aparece…
- Não faço ideia onde possa estar, começo mesmo a ficar preocupada - naquele momento o telefone tocou e tive de despachar mesmo os meus amigos.
- Espera!- disse o Rafael forçando a porta- Lembrei-me que deixei o meu mp3 no teu quarto! – enquanto ele foi ao quarto eu atendi o telefone. A mensagem não foi a melhor – Guen? Estás bem? Estás pálida…- imóvel, com o telefone na mão, virei-me lentamente para o Rafael.
- O meu tio…
- …
- Está no hospital, em coma – O abraço que se seguiu deu-me coragem para pegar no casaco e sair por Lisboa fora.
- Não precisas de vir comigo, Rafael…
- Mas quero.
- Quero queijo!
- Está no frigorífico!
- Não está!...Ah, está aqui.
Enquanto eu tentava abrir o ficheiro que o cavaleiro “Jacques”, havia publicado. O Rafael remexia o frigorífico para fazer uma sandes de queijo. Tinha ido à minha casa uma semana depois do incidente com o David para me ajudar num trabalho para Teologia. Bom, supostamente quem me ia ajudar era o Miguel, já que é seminarista, mas o Rafael ofereceu-se para ajudar. Do meu tio Pedro nem sinal de vida. Desde que tinha vindo do jantar da quinta que não o via. Antes que o Rafael chegasse à sala e o ficheiro descarregasse lembrei-me de ir a casa da minha vizinha, a tal, muito disposta para o meu tio, e perguntar se, por acaso, o tinha visto ou se, por acaso, ele não se encontrava no meio dos seus lençóis. Não me surpreendia nada esta situação, do meu tio andar desaparecido, ou de o apanhar na cama da vizinha, mas, de facto, ele, sempre um espírito livre, passava dias sem aparecer na casa da minha pobre avó, que rezava a todos os santos para que nada mal lhe acontecesse. À conta disso viajou à boleia pelo mundo. “Onde estiveste, Pedro Manuel?”, “Fui dar uma voltinha a Paris”, “Ai, credo, que este rapaz é sempre a mesma coisa”. Era assim. Mas, não conseguia deixar de me preocupar com ele. Era meu hóspede, no fim das contas.
- Olá, minha querida Helena!!
- Boa tarde, o meu tio Pedro está por aí?
- Não queres entrar?
- Oh, não se incomode! Ele está aí? – dizia eu, espreitando para dentro de casa da minha simpática vizinha.
- Não…Infelizmente não…Mas porquê? Acabei de fazer um bolo, não queres?
- Não, não, obrigada! – e desapareci. Mas onde se teria metido o homem? Cheguei a casa e encontrei o Rafael sentado na minha cadeira, em frente ao meu computador.
- Guen- disse ele, com a boca cheia de pão, virando-se para trás e insistindo em me chamar pelo mesmo nome do site, mesmo já sabendo o verdadeiro – já leste isto? – Aproximei-me.
- Ah! Andas a abrir as minhas coisas…Isso é o artigo do tal Jacques Moley, o novo utilizador do site. Que tem?
- Lê…- O artigo ainda era grande, mas a entrada denunciava o tema. O homem, louco, defendia, numa linguagem quase indecifrável e confusa, que não havia existido uma, mas cinco ordens templárias. Para além disso, quase que jurava a pés juntos que Portugal é a Porta-do-Graal, e que…
- Então? Acaba aí?- perguntei- Anda com o rato mais para baixo.
- Acaba aqui! – disse o Rafael- Até o artigo em si, aqui mais a baixo, chega a esta parte da explicação e termina - O homem esqueceu-se de fazer ou de acrescentar ou de mandar o ficheiro certo.
- Não pode…
- O texto está muito confuso, o homem não sabe português! – disse o Rafael – Olha-me para isto. Virgulas não é com o gajo…
- É uma misturada de francês e latim e português…Uma misturada com coisas importantes. Cinco Ordens?
- Epá, ele é maluco. Deixa lá isso – disse o Rafael, levantando-se da cadeira e indo até à janela – Olha, já lá vem o Miguel. Vou lá abaixo abrir-lhe a porta, anda meio perdido aqui na rua – Seja lá o que fosse aquele artigo, fosse ou não o Papa que o tivesse escrito, e mesmo que estivesse o mais confuso possível, não me deixava desprender os olhos do ecrã do computador. Compreendia-se que seriam cinco ordens. Cinco ordens dos cavaleiros templários. A quinta, a última, era a descrita pelo autor. Era o que parecia. No entanto, era quase impossível ler uma frase seguida. O cavaleiro, Jacques de seu nome, e não tivesse eu estudado tudo sobre o tema não saberia que Jacques Moley foi o último grão-mestre da Ordem, havia de ser um homem louco. A existência de cinco ordens era impensável. Uma ordem e vários seguidores era mais compreensível e imaginável. Quanto à importância de Portugal na história dos templários, bom, isso já era mais aceitável. São vários os autores que defendem essa possibilidade apontando, até, sítios estratégicos do nosso País como possíveis guardadores do santo cálice ou do santo manto de Cristo. Depois, há aqueles que defendem que o Graal poderia ser tudo menos estas duas opções, mas isso são outras histórias, nenhuma delas que tivesse a ver com o artigo. Nessa parte o texto terminava, sem mais nem menos. Fui ao registo do “Jacques” e não encontrei qualquer contacto. Isso deixou-me ainda mais intrigada. Todos os “cavaleiros/as” ao efectuarem o registo online têm de por, pelo menos, um email, e este não tinha nenhum. Era impossível. Se não preenche-se todos os campos obrigatórios, como o contacto online, nunca poderia fazer o registo e fazer “login”. Recorri à lista de nomes registados umas quantas vezes, não me tivesse escapado nas primeiras, e nada. “Jacques Moley”, era o único nome, a única coisa a respeito do autor do artigo. Pensei em publicar o artigo no site, podia uma ou outra pessoa se manifestar, mas decidi guarda-lo, por agora.
- Olá, Lena!
- Miguel! Como estás? – disse, fechando rapidamente o portátil - pronto para me explicares tudo sobre os ensinamentos teológicos no século XI?
- No que eu puder ajudar…
- Ah! Pode ajudar sim! - disse o Rafael, dando uma pancadinha nas costas do amigo. Vou arranjar um lanche.
- Deixas-me o frigorífico a zeros! - gritei da sala – Sentamo-nos à mesa. Não conseguia deixar de pensar no artigo – Miguel, isto não tem nada a ver com a matéria, ou talvez tenha, sei lá… há a possibilidade de ter existido mais do que uma Ordem dos Templários? – o Miguel, que tirava calmamente os cadernos da mochila, parou, ficou estático, olhou para mim e, depois de uma pausa, pousou o caderno em cima da mesa.
- Donde é que tiraste essa ideia? – Perguntou. Foi então que lhe expliquei o artigo – Parece-me um bocado impossível respondeu, finalmente – Se houve, não eram “oficiais”. Há ainda várias lendas sobre…
- A existência de mulheres na ordem? – disse rapidamente – o artigo fala numa lenda sobre isso, o que também me intrigou, é algo em que nunca tinha pensado! – estava mesmo entusiasmada.
- Também – respondeu – também, também, sim, já ouvi falar mas nunca me dediquei muito a estudar isso… mas há variadíssimas lendas sobre os cavaleiros, a sua saga, as suas paixões…
- O artigo fala da existência de pelo menos uma mulher na Ordem.
- E que houve cinco ordens?
- Foi o que percebi – Foi então que me deixei de coisas e fui imprimir o artigo – Não está terminado…- disse, entregando-o em mãos ao Miguel.
- Falta-lhe a parte do Graal – disse o Rafael, entrando na sala com um tabuleiro todo composto, com café, bolachas e sandes.
- Mas que simpático da tua parte! - disse eu – Tenho te a dizer que amanhã vamos os dois ao supermercado, Sir Rafael.
- Está doente! – disse o Miguel – ou então…
- Ou então estou cheio de fome! – disse logo o cavaleiro das trevas. A tarde foi passada a comer o lanche do Rafael e a falar sobre o artigo. Concluímos que era impossível aquilo ter sido escrito por alguém de nacionalidade portuguesa ou que vivesse em Portugal. A mistura de línguas era complicada e nenhum de nós era barra em Francês - Gosto mais de italiano – disse o Rafael. Concluímos ainda que o artigo trazia um desenho, um mapa, mas não um mapa qualquer. Não um mapa de tesouro, nem um que indicava um caminho. Era um mapa
- Astral, é um mapa astral, muito antigo, é certo, mas é um…- disse aos dois rapazes. O Miguel, futuro padre, pouco ou nada acredita em astrologia e desconhece voluntariamente os caminhos das estrelas bem como as
- Salganhadas de riscos e bonecadas! - dos mapas astrais, tal como disse naquela tarde.
- Mas ela tem razão, é uma cena dessas…- disse o Rafael. Naquela tarde decidimos que íamos recorrer aos outros cavaleiros da ordem online para nos ajudar, mas que o texto não seria publicado. Eu própria me iria encarregar de falar com eles, marcar um encontro, e tirar a teima do raio do texto que cada vez mais me deixava os nervos em franja. Havia de descobrir tudo sobre aquele artigo e tudo sobre aquele autor. No final do dia, os ensinamentos teológicos do séc. XI, tinham ido por água abaixo.
- Acabámos por não estudar nada, Lena…
- Ah, Miguel, não te preocupes. O que nós fizemos foi muito mais divertido – disse eu, abrindo a porta da rua e permitindo que os dois rapazes saíssem. O Miguel foi chamar o velho elevador do meu prédio e o Rafael encostou-se à porta da rua.
- Ficas bem aqui sozinha? – perguntou.
- Fico, já estou habituada…
- E o teu tio? Não aparece…
- Não faço ideia onde possa estar, começo mesmo a ficar preocupada - naquele momento o telefone tocou e tive de despachar mesmo os meus amigos.
- Espera!- disse o Rafael forçando a porta- Lembrei-me que deixei o meu mp3 no teu quarto! – enquanto ele foi ao quarto eu atendi o telefone. A mensagem não foi a melhor – Guen? Estás bem? Estás pálida…- imóvel, com o telefone na mão, virei-me lentamente para o Rafael.
- O meu tio…
- …
- Está no hospital, em coma – O abraço que se seguiu deu-me coragem para pegar no casaco e sair por Lisboa fora.
- Não precisas de vir comigo, Rafael…
- Mas quero.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
Saint-Etienne, França, 1 de Dezembro de 1159
Vários dias passaram desde deixamos a Capela e o bravo Padre Romeo, que mesmo correndo o risco de ser descoberto, ajudou-nos sem pensar duas vezes.
Perdi a conta ao numero do dias que passamos em viagem desde que despistamos os mouros pelo rio. Tinha a sensação de ter sido uma eternidade, mas a contar pelo número de vezes que o Sol e a Lua se erguiam alternadamente, não devíamos estar neste passo há mais de uma semana. As provisões com que nos abastecemos estavam agora a acabar e tínhamos apenas duas opções: confiar em alguém de uma terra pequena e alienada da informação do mundo (não era muito difícil, pior era convencer a alojarem-nos), ou então, roubar.
Ao avistar uma pequena povoação com chaminés a desenharem o ar coloquei-me a postos para avisar o meu pai, mas ao olhar de lance para o Pedro, as palavras não chegaram a sair da minha boca. Estava tão concentrada no meu cansaço que nem tinha reparado no estado em que o Pedro se encontrava, e pelos vistos, nem eu, nem ninguém.
- Pedro? – sussurrei.
Ele levantou o olhar na minha direcção mas este estava tão vazio que nem a alma lhe vi. Os olhos eram cercados por umas olheiras medonhas da cor de cinza, os lábios secos e sem cor, a tez pálida como a neve amontoada, o cabelo empastado dava-lhe ainda mais a sensação de definho.
- Pai!! O Pedro não está bem!
- O quê? – retorquiu olhando para trás pela primeira vez desde que voltamos a montar.
- Eu estou bem...não se preocupem comigo..
Ao aproximar-me mais dele para lhe medir a febre ouvi algo que parecia trespaçar o ar.
Uma flecha moura acabara de aterrar mesmo em frente ao cavalo de Pedro, fazendo com que este relinchasse colocando todo o seu peso nas duas patas traseiras e mandando Pedro ao chão.
- Mouros!! – gritou António.
- O despiste não nos ajudou muito...desembainhem as espadas!
Feixes de luz rodearam-nos enquanto revelávamos as armas, ou seria algo mais...
- Formação circular! – Ordenava David – Escudos a postos, protejam os cavalos, armas ao peito! Gualdim, estratégia!
- A sudoeste as fileiras são mais pequenas, não adianta oferecer resistência, temos de arranjar maneira de fugir. – Improvisou Gualdim olhando suspreendido pela situação.
- Ouviram o homem, Rafael vem comigo À frente, temos de abrir caminho a todo o custo, António! Cobre o meu lado esquerdo! Miguel, no fim do grupo, usa os dois escudos para proteger a rectaguarda! Liena..no meio de nós, mantei o Pedro e o embrulho a salvo!
Quando as ordens acabaram ja nós estávamos a caminho ocupando as posições comandadas, Pedro ia cambaleando à minha frente em cima de Angelus enquanto o cavalo dele acompanhava-nos em paralelo.
Os mouros desciam os montes na nossa direcção, enviando flechas velozes contra os escudos de Miguel que cavalgava de costas mostrando uma confiança sobre-humana no seu animal. O confronto directo aproximava-se e os olhares dos três guerreiros da dianteira mantinham-se estáveis tal qual três falcões de olhos postos nas presas. Invejava naquele momento toda aquela confiança e coragem.
O inimigo dirigia-se igualmente na nossa direcção, a pé, encurtando a distância entre nós.
Toda uma algazarra se apoderara dos nosso ouvidos, gritos de emboscada ecoavam pelo vale no sul de terras gaulesas. Subitamente, tudo se silenciou, e eu ouvia apenas os passos dos nossos bravos lusitanos como batimentos cardíacos...um, dois....um,dois....um,dois e uma luz irrompeu pelo ar quando as espadas se cruzaram e as nossas criaturas flutuavam por cima dos mouros. A primeira fileira estava para trás, a segunda também, e Luz e égua assustada de Pedro é atingida na perna traseira e é derrubada.
- Miguel!! Cuidado!! – gritei a plenos pulmões.
Olhando para trás, Miguel só teve tempo de saltar do cavalo, abandonar os escudos e resgatar da bainhas duas espadas singulares para combater os inimigos no chão, enquanto o seu cavalo saltava por cima de Luz.
- Liena, vem!
- O quê?? Não pai! O Miguel!!
- O Miguel não fica assim, e se ficar é porque Deus assim o quis. Angelus andium!!
Angelus começou a correr na direcção do grupo para fora do perigo. Pedro saltou da minha frente.
- Pedro, volta aqui!! Estás doente!! Não podes...
- Minha Liena, a minha pequena irmãzinha...Miguel está ali por minha culpa...eu já perdi a Luz, não deixarem que percam o nosso Miguel Ângelo...foi um prazer partilhar esta missão, até à próxima.
E com um sorriso doente e fraco virou as costas e lutou com as forças que lhe restavam. Uma nuvem de pó envolveu-os enquanto nós fora do ângulo de visão nos misturava-mos rapidamente com a paisagem. Uma sombra veloz sobressaiu da nuvem de morte sã e salva, era Miguel no seu cavalo que fora em seu socorro e sozinho seguiu em direcção oposta, levando o inimigo a segui-lo para noroeste. Sozinho.
Perdi a conta ao numero do dias que passamos em viagem desde que despistamos os mouros pelo rio. Tinha a sensação de ter sido uma eternidade, mas a contar pelo número de vezes que o Sol e a Lua se erguiam alternadamente, não devíamos estar neste passo há mais de uma semana. As provisões com que nos abastecemos estavam agora a acabar e tínhamos apenas duas opções: confiar em alguém de uma terra pequena e alienada da informação do mundo (não era muito difícil, pior era convencer a alojarem-nos), ou então, roubar.
Ao avistar uma pequena povoação com chaminés a desenharem o ar coloquei-me a postos para avisar o meu pai, mas ao olhar de lance para o Pedro, as palavras não chegaram a sair da minha boca. Estava tão concentrada no meu cansaço que nem tinha reparado no estado em que o Pedro se encontrava, e pelos vistos, nem eu, nem ninguém.
- Pedro? – sussurrei.
Ele levantou o olhar na minha direcção mas este estava tão vazio que nem a alma lhe vi. Os olhos eram cercados por umas olheiras medonhas da cor de cinza, os lábios secos e sem cor, a tez pálida como a neve amontoada, o cabelo empastado dava-lhe ainda mais a sensação de definho.
- Pai!! O Pedro não está bem!
- O quê? – retorquiu olhando para trás pela primeira vez desde que voltamos a montar.
- Eu estou bem...não se preocupem comigo..
Ao aproximar-me mais dele para lhe medir a febre ouvi algo que parecia trespaçar o ar.
Uma flecha moura acabara de aterrar mesmo em frente ao cavalo de Pedro, fazendo com que este relinchasse colocando todo o seu peso nas duas patas traseiras e mandando Pedro ao chão.
- Mouros!! – gritou António.
- O despiste não nos ajudou muito...desembainhem as espadas!
Feixes de luz rodearam-nos enquanto revelávamos as armas, ou seria algo mais...
- Formação circular! – Ordenava David – Escudos a postos, protejam os cavalos, armas ao peito! Gualdim, estratégia!
- A sudoeste as fileiras são mais pequenas, não adianta oferecer resistência, temos de arranjar maneira de fugir. – Improvisou Gualdim olhando suspreendido pela situação.
- Ouviram o homem, Rafael vem comigo À frente, temos de abrir caminho a todo o custo, António! Cobre o meu lado esquerdo! Miguel, no fim do grupo, usa os dois escudos para proteger a rectaguarda! Liena..no meio de nós, mantei o Pedro e o embrulho a salvo!
Quando as ordens acabaram ja nós estávamos a caminho ocupando as posições comandadas, Pedro ia cambaleando à minha frente em cima de Angelus enquanto o cavalo dele acompanhava-nos em paralelo.
Os mouros desciam os montes na nossa direcção, enviando flechas velozes contra os escudos de Miguel que cavalgava de costas mostrando uma confiança sobre-humana no seu animal. O confronto directo aproximava-se e os olhares dos três guerreiros da dianteira mantinham-se estáveis tal qual três falcões de olhos postos nas presas. Invejava naquele momento toda aquela confiança e coragem.
O inimigo dirigia-se igualmente na nossa direcção, a pé, encurtando a distância entre nós.
Toda uma algazarra se apoderara dos nosso ouvidos, gritos de emboscada ecoavam pelo vale no sul de terras gaulesas. Subitamente, tudo se silenciou, e eu ouvia apenas os passos dos nossos bravos lusitanos como batimentos cardíacos...um, dois....um,dois....um,dois e uma luz irrompeu pelo ar quando as espadas se cruzaram e as nossas criaturas flutuavam por cima dos mouros. A primeira fileira estava para trás, a segunda também, e Luz e égua assustada de Pedro é atingida na perna traseira e é derrubada.
- Miguel!! Cuidado!! – gritei a plenos pulmões.
Olhando para trás, Miguel só teve tempo de saltar do cavalo, abandonar os escudos e resgatar da bainhas duas espadas singulares para combater os inimigos no chão, enquanto o seu cavalo saltava por cima de Luz.
- Liena, vem!
- O quê?? Não pai! O Miguel!!
- O Miguel não fica assim, e se ficar é porque Deus assim o quis. Angelus andium!!
Angelus começou a correr na direcção do grupo para fora do perigo. Pedro saltou da minha frente.
- Pedro, volta aqui!! Estás doente!! Não podes...
- Minha Liena, a minha pequena irmãzinha...Miguel está ali por minha culpa...eu já perdi a Luz, não deixarem que percam o nosso Miguel Ângelo...foi um prazer partilhar esta missão, até à próxima.
E com um sorriso doente e fraco virou as costas e lutou com as forças que lhe restavam. Uma nuvem de pó envolveu-os enquanto nós fora do ângulo de visão nos misturava-mos rapidamente com a paisagem. Uma sombra veloz sobressaiu da nuvem de morte sã e salva, era Miguel no seu cavalo que fora em seu socorro e sozinho seguiu em direcção oposta, levando o inimigo a segui-lo para noroeste. Sozinho.
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