- Luiz Alvarez! Alvarez, Alvarez! Chamava-lhe um figo! Ai que homem, já viram? Que categoria!- Dizia a lavadeira.
- É muito novo para ti! Deixa-o cá para mim, aquele pedaço de mau caminho!- Dizia a cozinheira.
-Bem preciso de um homem que me aqueça os pés à noite...Os pés e a alma!- Dizia, rindo, a criadita rechonchuda. Todas me achavam um máximo, um homem para casar, mas também muito misterioso...
- Mas olha lá- dizia a cozinheira- ele veio de onde? Castela? Não me parece...
- Dizem que veio de muito longe para ajudar o señor conde, agora não sei donde.
- Veio do paraíso...-suspirava a criadita- É um anjo, um homem como nunca vi!- Fiz furor no meio da criadagem do conde espanhol. A ideia do senhor conde Leucádio foi de génio! Faço-me passar por espanhol, fico a saber de tudo e, para além disso, ainda resgato a senhorita Odete e, com sorte, mando a senhora condessa para bem longe! O plano perfeito, que teria de ser muito bem engendrado e cautelosamente executado. Após ter raptado o verdadeiro Luiz Alvarez, tudo ficava muito fácil.
- Luiz Alvarez, ao seu dispor.
- Ia jurar que já o vi em algum lado...-disse Raúl, ao olhar-me de cima a baixo. No entanto, com a cabeleira loira, as vestes pomposas e aespanholadas, assim como a barba que deixei crescer para tal propósito, nunca me iriam reconhecer.
- Creio que nunca nos vimos, senhor- disse eu- apenas devo ter um rosto comum.
- Verdade!- disse a condessa, que apareceu no momento- O seu rosto deve ser mesmo muito comum, porque parece-me muito familiar. E digo-lhe mais, não é só o rosto que põe a cabeça das raparigas à roda!- Disse a condessa, piscando-me o olhos nojentamente, se assim o posso dizer.
- Sois muito gentil, cara senhora- respondi- Mas a minha missão não é, de todo, arranjar casamento. Vim para ajudar o señor conde Javier a ter Santa Terrinha. Afinal de contas é lá que se esconde o grande e sagrado Santo Gral.
- Verdade!- disse a condessa, de novo, atropelando as palavras de Raúl.
- E faz muito bem, Alvarez- disse ele, finalmente. No entanto, temos outro cargo para si. Apesar de sabermos das sua destreza, da sua sabedoria e da sua valentia, precisamos de uma...escolta, digamos assim, para a futura condessa: Odete.
- Futura condessa...- disse a condessa portuguesa- A conversa já está a cheirar mal! Adious!- E foi-se embora. Para mim a conversa estava a cheirar a rosas! Estar com a Odete? Que mais poderia eu querer?
- E em que consiste a minha função?- perguntei.
- O senhor conde pretende que nunca tire os olhos de cima de Odete. Ninguém pode chegar perto dela, ninguém!
- Certo.
- Ninguém! Só as damas de companhia, vá...De resto, só eu e o senhor conde podemos trocar palavras com ela.
- E onde se encontra agora a futura condessa?
- Está no jardim. Sei que tudo isto é um jardim, uma vez que estamos num acampamento, por pouco tempo, claro.
- Para quando planeiam o ataque- perguntei.
- Para muito breve...Quem sabe amanhã, pela calada da noite.
- Muito bem. Claro que também ajudarei.
- Sim, sim, contamos consigo. Agora vou apresenta-lo à condessa Odete.- E fomos até a um rio, junto da fronteira, onde as damas de companhia de Odete se refrescavam. Porém, Odete estava sentada numa pedra. Imóvel.
- Cara futura condessa Odete- disse Raúl- como estais bela hoje!- e ela nada disse- Trago-lhe aqui uma pessoa que cuidará de si. Luiz Alvarez, seu escudeiro e protector.
- Não preciso que me guardem.- disse ela, nunca deixando de olhar para o horizonte.
- Precisais, precisais...é vosso futuro marido que assim deseja. Agora deixo-o aqui consigo. Hei!- disse ele virando-se bruscamente para mim- nada de olhar para as meninas no riacho e deixar fugir a senhora futura condessa!
- Por quem sois, señor...Podeis confiar em mim cegamente- e lá foi ele, provavelmente atrás da sua já não condessa portuguesa.Odete nem tinha olhado para mim. Continuava triste, branca, clara, a olhar para o horizonte, serena e delicada.Sentei-me numa pedra mais pequena, ao lado dela. Continuei a fazer a voz mais grossa que anteriormente havia feito.
- Que belo dia- disse eu.Não respondeu. Continuei- De manhã choveu e agora os raios de Sol rasgam o céu!
- Que poético- disse ela, num tom jocoso.
- E o rio? Maravilhas da natureza!
- Sois muito sensível para quem é uma besta de guerra.- disse, continuando a fitar o horizonte. Imóvel.
- Não sou uma besta de guerra...vossa senhora insulta-me ao proferir tais palavras.
- Perdoai-me se o fiz. Não costumo ser assim, mas as circunstâncias da vida fazem com que o mais tenebroso e ruim que o meu ser possui saia sem qualquer pudor.
- Porque estais aqui?
- Não sabeis?- disse ela, alargando agora o seu horizonte para as raparigas que brincavam no rio- Fui roubada.
- A quem?- perguntei.
- A quem amo- O silêncio veio com uma brisa fresca. Mas ela quebrou-o:- Sou portuguesa, gosto de Portugal, da minha terra e de Santa Terrinha, claro. Sou uma espécie de troféu. Javier quer-me porque pertencia ao conde Leucádio, nada mais. Nao é por me amar...
- E o conde Leucádio?
- Esse sim...- disse ela. Sem terminara a frase olhou-me finalmente nos olhos. Estranhava tantas perguntas. Olhou-me muito tempo.- Sois muito parecido com alguém que eu conheço, conheci, sei lá...Um amigo, um bom amigo- e continuava a olhar para o fundo dos meus olhos. Chegou mais perto, muito perto- E tens em teus olhos tudo o que ele tinha nos dele- e continuava a olhar- para além disso...- e parou por momentos- todos os seus traços...são...incrivelmente parecidos com...- Foi então que esbocei um sorriso.
- Frederico! Sois vós!- disse ela, não muito alto, olhando para todos os lados, para todos os sentidos, certificando-se que ninguém nos observava.
- Senhorita Odete, peço-lhe calma e que seja discreta nas suas acções. Tudo isto faz parte de um plano do conde para que possamos resgata-la e impedir o ataque dos espanhóis.
- Oh, Deus! Obrigada, obrigada! Quando voltamos para Santa Terrinha?
- Temos de ir com calma, Odete- disse eu, completamente deliciado com toda a doçura daquela dama. Dama essa que pertencia somente ao conde Leucádio, meu senhor. Nada de devaneios!- Eles planeiam atacar amanhã à noite, no entanto, é imprescindível que eu esteja com eles no momento do ataque.
- Mas porquê? Irás correr perigo!
- Não, tudo está cautelosamente planeado. Vou atraí-los para as masmorras da muralha.
- A muralha tem masmorras?
- Também fiquei a saber há pouco tempo, mas, sim, tem. Segundo o senhor conde, uma das passagens fica à esquerda da ponte. Não se vê bem, mas ao entrar lá têm-se passagem para dentro da muralha, por um sitio secreto.
- Não seria melhor fazeres o contrário? Leva-los para um sítio em que eles não conseguissem entrar! É perigoso para todos os de Santa Terrinha! As mulheres, as crianças, o senhor padre! Cristo!
- O objectivo é incorra-la-los entre o castelo e a muralha, nessa passagem. Os guardas de Leucádio estarão do outro lado e não permitiram a passagem. Depois, do lado da entrada deles, da muralha, mais guardas do conde Leucádio virão ajudar e assim apanha-mo-los!
- Muito bem, muito bem! Estou tão contente. Graças a Deus!
- Vai correr tudo bem...
- Amém! Amém!
- Vejo que já se entendem...-disse Javier, ao aproximar-se.Com a sua presença levantei-me rapidamente.
- O senhor Alvarez estava-me a contar uma piada, Javier- disse Odete.
- Sem querer ser ofensivo, caro señor - disse eu.
- Não! Por que sois! Sois de grande confiança, caro amigo. Castela é um reino de grande lealdade. Bom, Odete, a cozinheira preparou-nos uma refeição, vamos?
- Sim...-disse ela, coitada, sem vontade nenhuma da companhia nem da comida. Levantei-me para os acompanhar, uma vez que teria de ser a vigia de Odete.
- Não precisa de vir agora, caro Luiz- disse Javier. Bem sei que gosta das belezas espanholas. Olhe aí tantas! Escolha uma! Divirta-se! Quando Odete quiser passear eu mesma a trarei até aqui. Após irem embora, os dois, sentei-me novamente na pedra. Que belas raparigas se banhavam. Cabelos ao vento entre salpicos de água e chapinhares ruidosos. Uma delas saí, e compôs-se. Vinha em minha direcção. Sentou-se ao meu lado.
- Holla, que tal?- disse-me.
- Bien- disse eu, forçando o meu espanhol meio ranhoso.
- Bien! Estou a ver que estamos a melhorar o espanhol, hã Frederico?
- Rita???
- Euzinha em carne e osso, señor! Sim, a pergunta que se segue é: O que é que estás aqui a fazer? Não é?...O mesmo que tu, caro Frederico. Venho a mando do senhor conde Leucádio. Por sorte sou uma das criadas da casa.
-És dama de companhia da Odete.
-Não,não tive a mesma sorte que tu...Estou na cozinha, a lavar partos. Nojentos estes espanhóis...ui!
- E qual é o objectivo do senhor Leucádio?
- Bom, espiar o conde Javier e levar a Odetezinha sem sal para ele, de novo.
- E a Odete? Já sabe que és tu?
- Não! Nem vai saber! Nao quero cá gratidões! Faço isso porque o senhor Leucádio me prometeu terras e mais terras! Aquele pãozinho sem sal? Quero lá saber dela!
- Se alguém te descobre estamos lixados. Eu e tu!
- Calma, Frederiquinho. O primeiro passo é apanhar o Raúl. Apanhando o Raúl, no fundo, o cérebro do Javier, o ataque vai ser menos planeado. Só temos de fazer com que o Raúl desapareça para sempre. E eu já sei como...
- Vamos matá-lo???
- Sim, de de-se-jo...- Não queria acreditar que a louca da Rita estava também envolvida em toda esta trama! O senhor conde só podia estar maluco!!Mesmo assim, o que poderia fazer? Só tinha de alinhar no plano esquisito da Rita e tentar safar-me! Na verdade, ela tinha razão...Com o Raúl fora era tudo muito mais fácil. Ele é o cérebro disto tudo e, com ele fora de combate, tudo correria às mil maravilhas! O plano da Rita era quase infalível, a meu ver, no entanto, mostrou-se, para além de perigoso, completamente infalível! Quem diria que aquela moça tinha toda aquela ginga e esperteza. Ela já sabia os cantos à casa e uma bela noite conseguiu atrair, sabe-se lá como, o Raúl para junto do rio. Eu assistia a tudo, com medo do que poderia ver, para na hora H capturar o safado e leva-lo para bem longe. Atrás de umas árvores e arbustos estava uma carroça, com dois cavalos, que levariam o Raúl para lá da fronteira, para longe de tudo e de todos. Brincavam os dois à beira rio:
- Ai, espanholita, espanholita! Estás a fazer com que seja infiel à minha ex.condessa!- Dizia ele, correndo atrás dela, que fugia dele matreiramente.
- Yo? Soi una criadita, apenas!
- Anda cá, não fujas!- Dizia ele, já a cair de bêbado. Sim, a Rita fez questão de o embebedar até à última casa! Contavam-se 2 garrafas de vinho e uns quantos copinhos de licor. Ela continuava a fugir dele, atraindo-o para o local onde eu estava, e onde estava a carroça, que o levaria. Finalmente ele conseguiu agarra-la.
- Ahora não me escapas!- Naquele momento a Rita pega numa enxada velha que tinha sido estrategicamente posta naquele local, e dá com ela na cabeça do homem! Ele cai, redondo, no chão, sem ai nem ui.
- Virgem santa, pai salvador! Matei o desgraçado!- Disse ela, com as mãos na cabeça. Sem qualquer paciência para ouvir lamentos, agarrei no homem, embrulhei-o numa manta velha e ala que se faz tarde!
- Para onde vamos?- disse a Rita, na carroça, enquanto levava-mos o homem para o longe, pela noite dentro.
- Para uma cabana abandonada, do outro lado da fronteira!
- Sois tão esperto, Frederico...Se não fosses tão pau mandado até casava contigo!- Após um sorriso esperançoso meu, continuámos a nossa viagem. Chegando à casa abandonada, deitámos o homem numa cama, conforto a cima de tudo, amarra-mo-lo às grades, prendemos-lhe os pés, fechámos as janelas e deixámos um jarro de água e um pedaço de pão em cima de uma mesa velha.
- Olha como dorme...que anjo!- disse a Rita.
- Vocês mulheres são incompreensíveis! Primeiro...depois...e agora...Vamos mas é embora!!
- Olha, olha, o fiel escudeirinho com ciúmes...Aguenta-te, Frederico. Aguenta-te!- E lá fomos nós, noite dentro. Chegámos ao acampamento já o sol raiava. Javier saiu da sua tenda e viu-me a ajudar a Rita a descer da carroça.
- Ena, ena...Um bom dia meus senhores!- Disse Javeier, acenando.
- Bom dia, señor.- respondemos
- Bem venho que optou por uma das moças do acampamento, caro Alvarez. E fez bem! Seguiu o meu conselho, muito bem. E por falar em conselho, viram o Raúl?- A Rita saiu a correr logo que ele perguntou.
- Tímida- disse ele.
- Non, senõr. Estive fora toda a noite, não vejo o Raúl desde ontem à tarde.
- Estranho...Ele costuma acordar muito cedo! Enfim, ele depois há de aparecer. Sabe que hoje é o grande dia, ou a grande noite!
- Bem sei que sim- disse eu.
- Amanhã acordamos já com a Santa Terrinha!
- Por falar nisso, caro conde, tenho uma proposta a fazer...- Foi então que lhe contei todo o plano das masmorras. Perguntou-me como sabia isso tudo e tive que lhe dizer que eu próprio andei a sondar ao terreno.
- Caro Luiz, serei para sempre grato! E serás condecorado logo que acabe esta guerra toda!
- Fico feliz por saber que sou útil, caro conde- No papo!! Depois de todos andarem à procura do Raúl, e da Aurora chorar por não saber do seu mais que tudo, o conde Javier decidiu dar o caso por encerrado.
- O Raúl acobardou-se!
- Não! Não diga isso, Javier!- dizia a condessa portuguesa num grande sufoco.
- Ele fugiu, mulher!
- Não, não, impossível! Só Deus sabe como amava tudo isto, conde! O Raúl é um guerreiro! Não é um cobarde! Algo de grave lhe aconteceu.
- Caluda! Vá para junto das suas aias e coisinhas dessas! Preciso de mais uma vez rever o meu plano. Sois uma estúpida, também!
- Oh!- disse ela, limpando as lágrimas ao seu delicado lencinho.
- Moraste naquela espelunca e nem sabias da existência de masmorras e passagens...Inútil! Nem sei como o Raúl gostava de ti..
- Sou uma dama! Não tenho de saber dessas coisas!
- Dama...Rua! Sai da minha tenda! Ainda vou pensar o que vou fazer contigo.
- Oh, não! Não me deixe! Eu não tenho para onde ir- dizia ela a chorar compulsivamente.
- Calma senhora...-diziam as aias.
- Calma nada! Eu sou uma dama! Sou casada! Sou condessa!
- E é estúpida! Fora!!!!- gritou o conde. Eu estava do lado de fora da tenda e ouvi tudo. A Odete, claro, estava comigo. Ao sair da tenda do conde a condessa ainda acrescentou:
- A culpa é tua, sua sonsa, suma mirradinha, palidazinha sem sal!! Bruxa, que enfeitiças os homens!!- Ao ouvir isto, o conde Javier sai calmamente da sua tenda.
- Ouvi chamares a minha mujer de bruxa?- A condessa ajoelhou-se.
- Misericórdia! Perdoai-me! Não volta a acontecer!
- Matem-na!
- Nãaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaao!!-Gritou ela, enquanto esperneava e gritava e soluçava, entre os guardas que a agarravam- Nãaaaaaaaao! Não!!!! Sou uma dama!
- Levem-na para longe, atirem-na ao riu, façam comida de porcos com ela! Tirem-na daqui!!- A ira do conde assustou toda a gente, até Odete, que levou a sua delicada mãozinha à boca. Como sabia de tudo o que eu e a Rita haviamos feito e consciente de que nunca a iriamos tratar mal- à Aurora, condessa- pediu piedade ao conde, já dentro da tenda.
- Senhor, Piedade daquela alma...- disse ela.
- Piedade? É uma inútil!- disse o conde, bebendo vinho de um trago.
- Deixai então que Alvarez trate de a fazer desaparecer. É um homem digo, não um guerreiro frio como os seus guardas...Por favor, é o meu primeiro pedido...- Não resistindo a Odete, o conde lá deixou que eu mesmo tratasse do assunto. Eu e a Rita, já conhecida no acampamento, apesar de ter ficado comigo apenas uma noite, como a senhora Alvarez, pessoa idolatrada por toas as sopeiras, cozinheiras e criaditas, fomos, então, fazer com que a condessa portuguesa que já não é condessa nenhuma, desaparece-se de cena. Pois, foi para à casa do seu querido e amado Raúl.
- Para onde me levam?- dizia ela, com uma saca na cabeça?
- Para o paraíso, querida minha senhora- disse a Rita.
- Ai! Eu conheço esta voz...Rita! Rita! Estou salva! Graças a Deus!...Leucádio? Estás aí!? Olha que te amo! Muito, muito, mais que tudo nesta vida! Só fugi porque...precisava de mudar de ares!- Eu e a Rita riamos a bom rir com aquela senhora desesperada.
- Não, não está cá o parvo do seu marido, senhor conde que também respeito muito, está sozinha. Entregue às pulgas e aos escaravelhos e toda aquela chamada...porcaria da grossa! Vamos deixa-la num pântano nojeeeento, cheio de sapos e rãs que lhe vão comer os seus belos cabelos!- Dizia a Rita.
- Nãaaaaaaaaaaao! Leucádio! Eu amo-te!
- Ele não está aqui! Pode deixar-se dessas merdas!
- Rita!- disse eu.
- Perdoa-me, caro cavalheiro.
- Então quem está?- perguntava ela- Estúpida...
- Não te interessa, oh condessa de meia tigela!
- Rita!- disse eu.
- Desculpa, sempre ambicionei dizer isto! E olha, ramelosa! Chegámos ao teu novo lar! Imagina quem te espera, como bom amante, na cama...- Após tira-la da carroça, leva-mo-la para dentro da cabana e tiramos-lhe o saco da cabeça.
- Bem vinda a casa, condessa!- disse a Rita. Ao ver o Raúl, fraco, sem forças, também é um fraquinho fica uma noite sem comer nada e depois é assim ( é que ele ficou preso e não consegui alcançar nem o pão nem a água, fomos mauzinhos a esse ponto), a condessa correu para o auxiliar.
- Amo-te!- disse ela.
- Vaca!- disse a Rita.
- Amo-te com todas as minhas forças, apesar de não serem muitoas...
- Que cabra...- disse a Rita- Pronto!- continuou- agora que o casalinho feliz já está na sua casinha ranhosa vamos embora!
- Esperem!- disse a condessa- Eu sei que voces são do lado do Leucádio...Já sei quem tu és, Alvarez...Frederico...Nunca me enganaste!
- E não me denunciou?- perguntei eu.
- Eu sabia lá como tudo ia acabar? E se eu ficasse mal? E se o Javier perdesse? Eu não podia estar totalmente e só de um lado...Neste momento não quero mais nada!-Disse ela, sentando-se numa cadeira velha- O Raúl está doente, olhem para ele- Nós olhámos.
- Oh...- disse ele em sofrimento.
- Ele está fraco- continuou- e eu só quero cuidar dele! Podemos arranjar esta casinha e ficar com ela!
- Engana-me que eu gosto, branquela!- Disse a Rita- Mudaste da noite para o dia, acho isso estranho...
- Juro-te!- disse a condessa. Eu também estava desconfiado, mas, na verdade, sentia que havia alguma verdade naquilo que a condessa dizia- Toma!- continuou ela, e despiu todas as roupas até ficar de ceroulas- as minhas roupas são todas tuas!- A Rita apanhou o vestido e os lenços do chão e, séria,olhou para mim. Sabia que a sua senhora, por mais doida que estivesse nunca se desfazer-ia das suas caras roupas. Este era um caso sério.
- Está a brincar....-disse a Rita.
- Não...Vão lá à vossa vida! Eu fico aqui com o Raúl...Vou cuidar desta casa, terei filhos e em vossa honra chamar-lhes-ei Rita e Frederico.
- Oh, não se incomode com isso...- disse eu.
- Está bem- disse ela- também nem gosto dos nomes. Serão Marinela e Marcelo! E teremos um cão! E um gato! Criarei galinhas e galos! Oh! Seremos tão felizes, não é Raúl?
- Oh...-dizia ele deitado na cama.
- Agradeço-vos só mais uma vez- disse a condessa- Ainda bem que amarraram o meu amor, assim tenho a certeza de que ele não foge! AH ah ah ah ah!!- Disse ela, rindo e dando beijinhos na boca do seu "amor" que estava em sofrimento deitado na cama.
- Paga-se cá tudo, Raúl!- Disse a Rita, antes de fechar a porta da casa- Frederico?- disse ela- A condessa não está bem...
- Ela está louca, mesmo louca. Mas este é um bom castigo, tanto para ela como para ele.
- Ena, ena- disse-me ela,enquanto eu a ajudava a subir para a carroça- Mas que malvado...estou a gostar disso, daqui a nada peço-te em casamento.
- Tu?- disse eu, a rir- é o cavalheiro que pede a mão à donzela.
- Pois, mas tu não és cavalheiro e eu não sou donzela há muito, muito tempo! Casas comigo ou não, fiel escudeiro?- Olhei para ela, em cima daquela carroça, o sol a bater-lhe nos cabelos doirados (apesar de andar disfarçada, a Rita manteve o seu belo cabelo loiro descoberto), pensei na Odete, pensei, pensei, e percebi que ela era um caso perdido. Não me amava! Amava o conde Leucádio!
- Sim, eu aceito, fiel criadita!- disse eu, arrancado-lhe um beijo.
- Mas que atrevimento!- disse ela, logo depois- A partir de agora sou uma mulher comprometida! Ah! E convém ires falar com a cozinheira do conde Leucádio, minha mãe!
- Ela nem é tua mãe.
- Mas é como se fosse!- E, após "brincarmos" com a situação, seguimos viagem rumo ao acampamento, noivos. Ao chegar lá, já o sol escondia e todos preparavam "O ataque". A Odete preparava-se para se esconder numa tenda, enquanto tudo acontecia. Veio falar comigo, mal eu cheguei.
- Frederico, caro amigo, cuidado! Tenta tomar as rédeas, caso contrário está tudo perdido! Eu estarei na minha tenda. Assim que tudo tiver terminado conto contigo para me vires buscar. Estarei à tua espera. Ah! E a condessa?
- Enlouqueceu...
- Pobre mulher, que Deus a proteja! Mas que lhe fizeste?
- Não te preocupes agora com isso, senhorita. A condessa está bem, ninguém está morto, só doido. Vou,sim, tomar as rédeas de todo o plano, nada temas!
- Vou estar à tua espera- disse ela, antes de entrar para a tenda, com todas as suas damas de companhia.
- Caro Luiz!- disse Javier, dando-me um safanão nas costas, logo se seguida- Conto contigo para a a linha da frente,hã?
- Sim, claro meu señor!- E assim foi. Correu tudo como planeado. Espanhóis estúpidos, como diria a Rita. Caíram que nem uns patinhos! Uma vez nas masmorras nunca mais de lá saíram! Foram todos presos e o conde Leucádio saiu vencedor! Quanto a Javier, entre os calabouços de Santa Terrinha, alguma lhe fizeram. Nunca mais ninguém ouviu falar nele. As pessoas, espanhóis- crianças e mulheres, velhos e aleijados- que nada tinham a ver com toda esta trama e que poderiam sair lezados, formaram uma nova povoação onde estava o acampamento. Hoje fazem uma feira muito agradável, onde nós santaterrinhenses vamos lá comprar coisas. Naquela noite, após o "combate", não me esqueci de ir buscar a Odete. No entanto não fui exactamente eu, a pessoa que a foi resgatar...Abriu-se os panos da tenda e todas as mulheres estavam ajoelhadas a rezar para uma santa. Velas acesas e murmúrios...Ao sentirem a presença de alguém viraram-se, inclusive Odete, que se levantou rapidamente. Avistou, no fundo da tenda, um homem com uma capa preta e um capuz que lhe cobria o rosto. Chegou mais perto e de uma só vez retirou-o.
- Leucádio!!!!! Obrigada Santa Maria!- Abraçou-se ao seu amor e gritou- Vencemos! Vencemos! Oh, Graças a Deus!- Nunca tinha visto o meu senhor tão feliz como naquele momento. Levou Odete ao colo até ao cavalo, e galoparam até Santa Terrinha! Ajudou a sua amada a sair do cavalo e lá foram os dois, ele com ela ao colo, um casal feliz. O Santo-Gral, esse, nem vê-lo! Não se sabe de nada...Estará escondido, certamente, nas entranhas de Santa Terrinha! Enfim, permanecerá um mistério...Após estar embebecido a ver o senhor conde e a sua Odete, lembrei-me da minha Rita. Ela estava ainda em cima do meu cavalo, também deliciada com todo o momento.
- Então?- disse eu- Não queres descer desse cavalo, hoje?
- Ai...a imagem do casal feliz, de ele a salvar e de a trazer para casa num cavalo branco, ao colo...Um sonho!...Vá! Leva-me também ao colo!- disse ela, com toda a sua delicadeza normal.Ao descer do cavalo, peguei-lhe ao colo.
- Uffa...Epa...pesadota!
- Oh! Estás a chamar-me de gorda??
- Nãaaao!!
- Olha que estou muito bem...Para uma mulher grávida...
- ...Hã? Grávida???? Mas...de quem??...
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