As lágrimas cobriam os meu olhos como uma ténue cortina cristalina. Não fossem as lágrimas resultantes de tamanha dor, ninguém poderia acha-las feias enquanto brilham e caem à luz da vela que, com a sua instável presença, acolhia-nos a alma, os pensamentos, a tristeza. Despertava em mim o que de mais intimo sentia.
Repousava a cabeça ao colo de Rafael, agradecida pelo seu apoio e por me dar a conhecer o seu lado mais amigo, emocional, e verdadeiro. Da maneira como me sentia, podia ser qualquer um, precisava apenas de uma presença que não me fizesse sentir abandonada. Mas estava muito feliz de ser o Rafael quem ocupava esse lugar agora.
- sei que é difícil para ti, mas mais tarde ou mais cedodevemo-nos por a caminho. E sabes que quanto mais cedo melhor. – disse Rafael em jeito de suspiro. Não respondi. Sabia que tinha razão mas a verdade é que nem falar me apetecia, quanto mais mentalizar-me para partir.
Viri-me com o ventre para cima, de maneira a que as lágrimas não me fizessem cócegas no nariz enquanto caminhavam pela a minha face.
- Rafel? – Chamei. Mas ele não respondeu, a sua alma não se encontrava naquele quarto. Os seus olhos mostravam o sentimento de culpa que ainda sentia por não ter conseguido comprir a missão. Nunca tinha visto aqueles olhos verdes tão vazios.
A luz da vela começava a incomodar-me a vista. Resolvi fechala.
Momentos depois senti-e envolver por uma luz branca que me acalmou. Estou a sonhar. Pensei. Mas como poderia pensar em algo assim, sonhando? Esta duvida não permaneceu muito tempo na minha mente, pois apesar de fazer sentido, não era algo que me fosse preocupar no momento. Esta luz tinha afastado de mim toda a tristeza e estava grata por isso. Como uma imagem repentina, o interior da abadia apareceu à minha frente, desaparecendo logo em seguida. Tinha gostado mesmo muito daquele lugar. Daquelas imagens tão familiares e ainda assim tão misteriosas.
- eu sei que vos custa muito mais a vocês, mas nós também não nos sentimos bem com o que deixamos acontecer. – disse uma voz artrás de mim. Para me virei para tentar ver de quem se tratava, não consegui perceber ou destinguir os contornos, mas a sensação que tive foi a mesma da capela.
- Não nos podemos marterizar com isto, por muito cruel que seja, o importante não é uma pessoa só. O Pedro foi muito corajoso e fez o que tinha de fazer. Não tenham duvidas de que ele será recompensado por isso. – Disse outra voz masculina à minha esquerda.
Dei por mim como uma visitante numa reunião onde não era suposto estar; e a qual não conseguia compreender. Parecia um sonho cheio de paz e tranquilidade, onde os intervenientes se apresentavam com contornos humanos mas de tal forma iluminados que eram impreceptiveis. A frustração crescia em mim pelo facto de ter a certeza que conhecia aqueles pessoas, aquelas criaturas, pelo facto de estarem a falar de Pedro como se tivessem estado lá, no momento em que tudo aconteceu. Mas eu não consegui sabem quem estava ali.
- e quanto à Isabel? Quando vai acordar? – Era Miguel, era a voz dele, tinha a certeza, mas apresentava-se como os de mais. Eu não tinha voz ali, não conseguia falar, descubri isso mesmo quanto abri a boca para tentar chamar por ele.
- Não sei, esperava que fossem vocês a dizer-nos – Ouviu-se a primeira voz que falara anteriormente.
- Ainda va demorar – ecoava agora a voz de Rafael. – Nunca vi ninguém tão adormecido ou recalcado. Pelo menos nunca a tinha visto assim.
- Rafael! – chamava agora uma nova voz. – Trouxeste alguém a mais. – apesar de repreensivo, o timbre da sua voz era calmo e querido, como se chamasse a atenção gentilmente.
- Bom dia!! Isso é que é dormir! Obrigada....a minha caminha é boa não é??!
- Han? O quê? Onde estou??
- No meu quanrto, mais propriamente enterrada nas minhas almofadas. Até me fez dormir no chão com um mísero cobertor, que ainda fui a tempo de resgatar antes de caíres como um calhau a roncar!. – Disse Rafael enquanto eu me endireitava na cama, ainda ensonada.
- Ah...estava mesmo a dormir...E OS CALHAUS NÃO RONCAM!! – resmunguei eu.
- Credo, cara feia logo de manhã! Se eu acordasse a sssim e me visse ao espelho também ficava mal disposto o resto do dia!
- Xiu! Quem te dera seres assim uma pessoa linda e fofinha como eu!
Rafael, om um sorriso de gozão, disse:
- Deixa-te de aumentar o ego e vai lá abaixo que ouvi dizer que há leite quentinho.
Com o barulho da minha barriga nem deu para disfarçar a fome. E havia leitinho!! Não tinha comido nada no dia anterior. Nem tinha, sequer, conseguido pensar em comida ou fosse o que fosse.
Desci as escadas num ápice e quando cheguei lá a baixo encontrei uma mesa divinal, com o resto do grupo à volta da mesma. Para alegrar um pouco o meu coração, David foi ter comigo e depois de um abraço de pai disse-me que passaríamos mais dois dias no estabelecimento, Escalus, cortezia dos anfitriões depois de se terem deparado com o nosso estado.
- Hoje, em vez de cavalgar, vou passear!
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