quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

1895, Fosse tudo isto um sonho

Cada palavra ficou gravada na minha memória e só passado alguns minutos depois daquela conversa é que pude aperceber-me do seu significado. Imediatamente me lembrei das poucas frases que a Antónia revelou sobre o passado dos meus pais e como elas eram tão mais reconfortantes do que a verdade. Pensava eu que não conhecia os meus pais sem saber nada deles e agora que sei os seus segredos sinto-me ainda mais distante deles. A minha mãe, D. Isabel Alvarenga era a única herdeira de uma importante família fidalga e uma das mais importantes de Portugal, tendo uma forte influência na corte há vários séculos. Foi sempre cortejada pelos mais ilustres senhores não só pela sua beleza mas também pela a riqueza que lhes estava destinada. Foi nesse momento que o meu pai a conheceu e a levou consigo, contra a sua própria vontade. Aparentemente a história de amor de que Antónia me falava foi apenas uma fantasia para calar as perguntas de uma rapariguinha inocente. É verdade que o meu pai se apaixonara perdidamente por ela e que a herança não foi o seu objectivo final, até porque partiram sem o dinheiro e ele nunca falou no assunto. Passaram-se vários anos até a minha mãe aceitar este homem que errou e não soube respeitar os sentimentos dos outros acima dos seus. Não que tivesse sido raptada, apenas não teve consciência do que estava a fazer deixou-se levar pelas galanteios daquele “cavaleiro” que lhe prometia uma vida em liberdade e longe das responsabilidades que a assustavam.
Passaram vários anos de um lado para outro em constante movimento até que vieram para Tomar para a casa do irmão de David. Isabel foi-lhe apresentada como sua mulher, apesar de os dois não terem contraído matrimónio. O tio Manuel já era casado. A minha tia desaprovou o facto de estar a dar abrigo a um casal de pecadores que viviam à 2 anos juntos sem nunca terem visto a sua relação abençoada. Insistiu para que ao menos um padre viesse em segredo casá-los mesmo que não fossem à igreja. E foi assim que se casou David casou com D. Isabel Alvarenga, a mais ilustre senhora da corte, digna de um rei como muitos afirmavam, casada numa casa humilde com um casal de burgueses e um cão como testemunhas. Mas a paz não durou, pouco tempo depois partiram novamente. O tio Manuel insistiu que Tomar era o melhor lugar para ficarem até o nascimento da criança. Mas o meu pai era teimoso e eu nasci já em Sintra na casa que conheci nos meus primeiros 12 anos de vida.
Mas a história não parou por aqui. Concluí com o que me foi contado que a razão de todo o secretismo e mudança ao longo dos anos fosse então para esconder o paradeiro da minha mãe e de o homem que a levou da sua família e do seu noivo. Mas o passado do meu pai revelava-se ainda mais surpreendente. David pertencia à Ordem dos Templários que apesar de se ter dissolvido à muito, continuava viva através de sociedades secretas que juraram não deixar morrer os seus ideais e lutar pelos seus princípios. As vidas daqueles que integravam a Ordem estavam condenadas à clandestinidade e ao sacrifício. Atitudes que pusessem em causa a sobrevivência da Ordem em Portugal ou de algum dos seus membros era severamente punida. No dia em que meu pai ousou enfrentar uma das mais poderosas famílias da corte portuguesa pôs em risco a própria Ordem, para satisfazer um capricho. Ao fazer com que o procurassem, com que seguissem os seus passos estaria a condenar a vida de todos os que pertenciam à Ordem. Foi expulso, declarado como traidor e como um inimigo da sua causa. As informações sobre as localizações e até documentos que tinha em sua posse tornavam-no perigoso e por isso era necessário vigiá-lo atentamente.
E assim terminou o tio Manuel, acrescendo apenas que era necessário compreender que o meu pai tinha feito tudo com as melhores intenções, mas que era jovem na altura e não pensou nas consequências. Foi egoísta e imaturo mas que pagou a vida toda por aquilo que fez. E com isto saiu e fechou a porta do quarto. Apesar de tudo o que me disse, de tudo o que descobri não pude deixar de sentir que ele me tinha ocultado alguma coisa. E eu que faço no meio de tudo isto? Farta estou eu de pagar por erros que não cometi!
Resolvi que o melhor seria fingir ainda não ter recuperado de forma a que me deixassem em paz. Levantei-me da cama e sentei-me à janela, tentando não pensar em nada e ficar apenas a observar o que se passava lá fora. Vidas que pareciam tão mais simples do que a minha, com as suas preocupações quotidianas e banais que eu tanto invejo. Pudera eu ser como eles e ter uma vida insignificante que dependia apenas de mim e não dos que me antecederam. Ser ninguém, daqueles por quem passamos na rua sem nos deixarem qualquer impressão. Ser apenas mais um ser insignificante que só quer ter um tecto e pão na mesa. Dei por mim a pensar se o casamento com Rafael me traria tudo isso, ser a mulher de alguém, servi-lo, ter filhos e esquecer tudo o resto. Como é que cheguei a isto? Contentar-me com tão pouco. Agora que os segredos parecem ter sido revelados não me sinto melhor do que antes, talvez se pudesse voltar atrás desejava permanecer na ignorância.
Todos estes pensamentos reflectiram-se numa dor de cabeça insuportável, decidi que tinha de sair do quarto abafado e ir apanhar ar fresco. Desci as escadas e avisei que ia sair um bocadinho, dar uma volta e espairecer. O João implorou para o levar e eu concordei em levá-lo comigo. Pegou-me na mão com força e sorriu para mim. Ás vezes são injusta para ele, cresceu sem os pais, sem a comida da Antónia sem o ar de Sintra e com uma irmã que mais parecia uma madrasta dos contos de fadas. Talvez agora tivesse tempo para me redimir.
Andámos à beira rio a sujar os pés, a molhar as roupas, a correr e a fazer mil e um disparates que não fazia desde que morava em Sintra. Estava ensopada e feliz. Dei um grande beijo ao João e pedi-lhe para me ajudar a levantar gritando um “já estou a ficar velha”! Fizemos o caminho de volta praticamente às escuras. Sentia-me gelada e comecei a pensar se teria sido boa ideia ter trazido o João e termos nadado no rio.
- João! João vem para perto de mim que eu já mal te consigo ver!
Peguei-lhe na mão gelada e percebi que estava a tremer, a testa por sua vez estava a ferver. Só pensei de como tinha sido estúpida em ter trazido o meu irmão. Devia ter vindo sozinha! Peguei-o ao colo e corri o mais depressa que pude gritando por ajuda. Depois disso tudo se tornou confuso e não me lembro de quanto tempo passou até eu chegar a casa. Quando “acordei” do pesadelo já o João estava nos braços da minha tia. Quem me dera que tudo isto fosse um sonho e que eu fosse acordar no meu quarto, antes de o meu tio me contar tudo, antes de ter descido as escadas, antes do João me ter agarrado a mão e saído comigo.

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