sábado, 3 de março de 2012

Histórias da Capoeira - O estranho

Quando a tia Alice encerrou a quinta naquele final de tarde todos se preparavam para mais um fim de semana vibrante no bar "El Galinhola D'Ouro", mais conhecido como o bar da Lola, a galinha espanhola que havia chegado à quinta fazia naquele dia um ano. Para comemorar haveria sumo de milho mais barato para todos os animais da quinta e as fêmeas não pagavam a primeira bebida, como anunciava o letreiro "Lady's Noche". Para além disso havia uma surpresa preparada pela Lola.

- Lola! Conta lá...conta lá qual é a surpresa! Estamos em pulgas - disse a Galinha Linha, barwoman do estabelecimento.
- Ay hija, dijo que no le digas a nadie y no voy a decirlo!
- Mas porquê?
- És sorpresa! Vai tabajar! Vai! - E lá foi a Linha chocalhar umas quantas massarocas. Na verdade, todos estavam ansiosos para saber qual a surpresa da Lola. Daquela galinha podia-se esperar tudo e mais alguma coisa. No dia em que a tia Alice a comprou na feira agrícola chovia a potes! E logo após a tia te-la deixado na Capoeira e se ausentar, a Lola sacou de uma mala e retirou de lá de dentro um lenço, que colocou sobre a cabeça e um leque com imagens de tourada e disse: Holla. Dondé está el bañeiro? - Todos ficaram a olhar para ela com pasmo e o Pinto-pintinho, pinto orfão desta quinta, levou-a à palha mais próxima.
- Eu costumo fazer as minhas necessidades aqui...a dona Garnisé diz ser o local mais higiénico - Lola olhou para aquela coisa fofa, pequena e amarela que era, e ainda é, o Pinto-pintinho e decidiu então que deixaria o assunto dos lavabos para mais tarde. Aos poucos e poucos foi se ambientando. Começou por ficar grande amiga da galinha Linha, que dorme na palha por cima da sua, é a sua vizinha de cima, a bem dizer. Quando Lola pensou em abrir o bar a Linha foi logo a primeira a prontificar-se para tudo e mais alguma coisa. E desde então são amigas.

Algum tempo depois conheceu a Canginha. Ninguém gosta muito de lhe dar conversa, isto porque a Canginha é meio doida da cabeça. Anda sempre adoentada, estranha, muito magra...Diz que um dia pôs 3 ovos de ouro, mas ninguém se acredita. O Sr. Granizo, marido da Sr. Garnizé, que formam o casal amoroso e idoso de galinhas anãs, diz que ela viu mal, que naquele dia o sol estava forte e que a fez ver mal. Mas a Canginha jura a patas juntas que não! Que viu muito bem!
- Mas se os tiveste, onde é que eles estão, sua galinha maluca? - dizia o Sr. Granizo.
- Tirara-mos! O sobrinho da tia Alice tirou-mos!- Dizia a Canginha. O que é certo é que há a história de quem enriqueça com a galinha dos ovos de ouro, neste caso só com os ovos, e o sobrinho da tia Alice estava podre de rico, sem razão provada - tiraram os meus bebés dourados...- dizia a Canginha. Uns dizem que foi assim que ela enlouqueceu, outros dizem que ela simplesmente nasceu assim. Enfim, numa capoeira tão grande havia lugar para todos! Para a Linha, para a Lola, para a Canginha e os seus dilemas do passado, para o Sr. Granizo e para a Sra. Garnizé, para o Pinto-pintinho e para aquele que diziam que seria o grande amor da vida de Lola...O Frango Tango. O Frango Tango era um frango que, segundo a Franganita, franguinha que vendia as melhores palhas para o poleiro de cada galinha, "já devia ter ido para o tacho há muito tempo!". Era um Frango...chato, velho, que aparecia do nada, nos momentos menos oportunos, com uma rosa vermelha na boca a dançar tango, fingindo dançar com uma companheira, quando na verdade dançava sozinho. Sempre. Sempre, sozinho. Quando viu Lola pela primeira vez apaixonou-se perdidamente e começou a falar o espagalinhol estranho enquanto lhe lançava beijos pelo ar.
- Pero...quien es ese loco? - disse Lola.
- Hum...é o Frango Tango. Um...
- Um servo para si señorita bonitita Lilitita... - interrompeu Tango as palavras da Sra. Garnisé, que correu logo para o seu poleiro conjugal.
- Pero...A dónde vas Garnisé?
- Eu vou para o meu sitio, Lola, não quero cá problemas com o meu macho! Nem tenho já idade para essas coisas.
- Pero...
- Pero, uva, maçã...tudo o que quiseres, mi Lolita - dizia Tango, e continuava - sabias, mi amora silvestre, que soy argentino?
- Oh Si?
- Si...Argentino de gema! Ahahahah - e ria-se. Mas Lola não percebia e mantinha a sua cara de nojo com o bico fechado. Caiu no bom senso de dizer as palavras mágicas:
- Pois...hum, gracias por tudo Tango, no és tu nombre?
- Tango...Frango Tango...um servo para t...
- Gracias! Tengo algunas cosas para hacer e...adios! - Desde esse dia que Tango dedica a sua vida a Lola. Escreve-lhe poemas, canta-lhe músicas, dedica-lhe tangos do Astor Piazzola e Lola nada, não lhe dá uma hipótese. Enfim, amores e desamores de uma capoeira!

Voltando àquela noite...Tudo estava preparado e os pintos e pintaínhas já dançavam no salão um slow, ao som do grande êxito "Gala-me, Gala-me mucho como se fosse esta noche la ultima vez". Várias massarocas abertas, rodando, com luz, davam ao bar da Lola um ambiente divertido e todos se estavam a divertir, mesmo o casal de galinhas Garnizés. Porém, Granizo não se sentia muito bem.
- Estou farto de estar aqui.
- Oh que resmungão! - dizia a Sra. Garnisé - diverte-te. Quando éramos novos não havia nada disto!
- Mas não me sinto bem por não terem convidado o Pena-Longa...- Dizia Granizo. Pois é, Pena Longa: o caso bicudo daquele galinheiro. Pena Longa havia sido comprado pela tia Alice pouco depois de aparecerem por aquelas bandas o casal das Garnisés. Era veterano, tinha o seu espaço, o seu local de culto. Era respeitado por todas as galinhas e galos da capoeira, mas nada mais do que apenas e só respeito. O Pena-Longa metia medo, era misterioso demais e não falava a ninguém. Dizia-se que tinha vindo de uma tribo índia e que falava pouco pois não compreendia a língua daquela capoeira. No entanto, esta não é, de todo, uma boa razão para não o convidarem para o baile da Lola. A razão remonta para uns atrás quando se suspeitou de algo horrível.
- Estas galinhas não me estão a por ovos! - disse a tia Alice, ao recolher o único ovo colocado, por acaso, por Lola - que será que se passa? - disse, fechando o galinheiro e saindo da quinta. Que se passaria? Foi então convocada uma reunião de capoeira.
- Está aberta a sessão - disse Franganita.
- Afinal, o que se passa connosco? - dizia Linha - eu não ponho ovos há semanas e semanas!
- E yo? Esto fue un descuido! - disse Lola colocando todos a olharem para ela. De súbito no meio da multidão galinácea surge a voz de alguém que nem sempre era ouvida por todos. A voz de Maria Macumba, a galinha preta:
- Eu sei! Eu sei! É uma maldição! Vi nas minhas penas eu vi! Eu vi nas minhas penas...
- De que falas tu, galinha maluca? - disse logo Granizo.
- Já pensaram que o índio, o Pena-Longa, pode ter feito algo? Alguma maldição?
- Ele ás vezes fuma cachimbo! - disse o Pinto-pintinho escondendo-se aterrorizado nas penas da Galinha Linha.
- E eu já o ouvi a murmurar umas coisas! - Disse Maria Macumba. Todos sabiam que quem era dessas coisas, maldições e etc, era Maria Macumba. Para que servem as galinhas pretas? Enfim, e foi assim que as suspeitas começaram. Lola, sempre contra essas coisas, não convidou o Pena-Longa, que ficou sozinho no seu poleiro, longe da festa, mas também não tinha remorsos por isso. Dançava e cantava toda animada, abanando as penas para lá e para cá. Só mesmo Granizo, que ainda se dava com ele, pois não acreditava nessas coisas de bruxedos, é que tinha pena do seu amigo solitário.
- Amigos, amigas, conhecidos e conhecidas e galináceos que nunca vi en mi vida! - disse Lola, em jeito de anunciação - Yo: Lola La Galinhola Espanhola, Olé! Vou vos apresentar a atracção desta noche! Mi gran amigo, del mesmo creador que yo, el Gallo de la medianoche! - E dito isto surgiu de rompante entre as cortinas vermelhas o Galo Meia-Noite. Charmoso, elegante, penas brilhantes, crista arranjada era...
- Um sonho de galo...- disse Franganita, caindo nos braços de Canginha que, mais uma vez doente e sem forças, caiu redonda no chão.
(Continua...)


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