quinta-feira, 15 de março de 2012

Histórias da Capoeira - Tia Alice

Tia Alice sempre gostou de se levantar cedo. No ínicio acreditava no ditado e pensava que assim iria crescer mais uns centímetros, mas depressa percebeu que estava destinada a ficar com os seu metro e meio. Mas levantar cedo é necessário quando se tem uma quinta e o dia começa sem excepção às 6h da manhã. Sem filhos nem marido com que se preocupar a sua vida eram os seus animais, a vaca Hortênsia, o porco Jacobino, a gata Josefa e claro as suas adoradas galinhas!
A tia Alice sempre preferiu os animais às pessoas, principalmente porque os animais não falam e nisso poupam-se muitos desgostos. Não podem responder nem ser malcriados, não são opinativos ou inconvenientes e o melhor de tudo não é que não te podem julgar. Para Tia Alice são a companhia perfeita! Apesar destas qualidades, Tia Alice sempre teve a sensação estranha de que os animais ganhavam uma personalidade humana assim que ela virava as costas. É como se fossem pessoas em miniatura, mas viviam em capoeiras, pastavam e punham ovos. Não pensem que se trata de loucuras de uma velha que vive sozinha há muitos anos, ela tem motivos para acreditar nisto. As suspeitas começaram no mês passado, enquanto estava a limpar o galinheiro, encontrou uma tableta que dizia "El Galinhola D'Ouro". Por mais estranho que pareça tentou arranjar uma explicação, talvez fosse a marca dos caixotes que estão dentro do galinheiro "talvez seja isso" pensou ela. Mais estranho foi quando estava a dar de comer ás galinhas no pátio e, dando por falta de uma, foi ao galinheiro procurá-la e "posso jurar pelos meus santinhos" que viu a galinha sentada a remendar um par de meias enquanto cantarolava. Soltou um "ai meu deus" bem sonoro e a galinha ao aperceber-se voltou à sua vida animal e soltou um "bocóó".
Depois disto Tia Alice nunca mais foi a mesma, a sensação de que havia algo na sua casa que ela desconhecia assustou-a. Foram noites sem dormir, cházinhos para os nervos, longas horas ao telefone com a Chica (sua vizinha e amiga de infância). As noites eram passadas na cama de olhos bem abertos a pensar no que estaria a passar ali a dois passos no seu pátio. Determinada como sempre resolveu acabar com as suas dúvidas, calçou as suas pantufas cor-de-rosa, vestiu o roupão pôs os óculos com lentes fundo de garrafa e desceu as escadas tentando não fazer barulho. Ao abrir a porta sentiu o frio da madrugada e pensou se não seria melhor voltar para trás ou arriscava-se a chocar uma valente gripe. "Não passa d'hoje!" pensou para si, saiu para o pátio e quando ia abrir a porta da capoeeira ...
- Ai que susto! - gritou desesperada.
Era a gata Josefa que se meteu no caminho. Estragou-lhe o plano pois ao olhar para a capoeira as galinhas estavam perfeitamente alinhadas de olhos fechados. "Terá de ficar para amanhã!" exclamou a Tia Alice.

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