quarta-feira, 6 de maio de 2009

Amores há muitos!

"-Amo-te, Licos!
- Oh, como te amo também, Neera!
- Que Afrodite nos abençoe, Licos!
- Sim, Neera, ela vai nos abençoar porque ela é a defensora do amor sem barreiras, sem entraves, sem maldade, Neera!
- Oh, Licos, és o meu herói grego!
- Oh...Neera..."
Ba-le-las! Afrodite para aqui, Afrodite para acolá...Gastam-me o nome! Passo horas naquele templo a ver os casalinhos apaixonados, mães a pedir pelas filhas, filhas a pedir por elas mesmas, homens a pedir por mulheres, e por homens também...Enfim! Sinto-me cansada. Se não fosse deusa estava já com quilómetros de rugas na minha cara. E depois são as oferendas: "Oh, Afrodite, deusa da beleza e do amor, aceita este cabaz de frutas!"; "aceita estas carnes"; "aceita estes doces"; "aceita este vinho"...E eu aceito. As coisas não vão ficar lá a apodrecer, não é? Mas não como tudo! Uma mulher tem de manter a linha, não é como aquele abominável anão dos céus, o parvalhão do cupido.
- Minha xenhora extá ali um xenhor que qué falá conxigo.
- Oh, Zeus! Quem é agora, Partula?- Partula, a minha empregada do norte da Grécia, um amor de "xe"nhora- Toda a hora, toda a hora, bolas!
- Ele tem o rabiosque à mostra, minha xenhora, mas cheira bem...o xenhor!- Um só nome, uma só praga: Cupido. Ele de vez em quando faz-me visitinhas. Falar no diabo...
- Rápido, rápido, rápido, estou com pressa, tenho coisas para fazer, casais para abençoar, namorados para procurar, etc, etc por isso diz lá o que tens a dizer e rapidinho- Ele ficou a olhar para mim com aquela fralda que ele trás sempre vestida, com as bochechas que hoje estavam ainda mais vermelhas, com aquele nariz de batata e com aqueles cabelinhos ridículos, aos caxinhos, mais parece uma menina, coladinhos à cabeça.
- Aconteceu uma coisa que nunca me tinha acontecido e preciso da tua ajuda.
- Oh! Não acredito!- disse eu- Tu? O menino dos céus, o anjinho de rabinho rosa e setinhas aos corações? Tu, aquele que acerta com uma flecha certeira, no coração dos menos apaixonados e os fazes delirar de amor...? Deixa-me rir bebé chorão! Conta outra.
- Estou a falar a sério- Oh...ele estava a falar a sério.
- Juras?- disse eu, ajeitando os meus cabelos longos.
- Se paráres com brincadeiras, eu conto-te o que aconteceu- E assim foi. Não o deixei sentar numa das minhas preciosas poltronas, obviamente, pela simples razão do anão andar de fralda...Nem pensar! Mas ele lá me contou e a coisa não era boa.
- Eu andava a vaguear pela terra, a ver se havia alguém pronto para despertar para o amor e vejo Zeus.
- Oh, não...Eu não entro em mais complôs com o Zeus! O ano passado obrigou-me a fazer com que duas humanas lhe caissem aos pés e não recebi nada em troca.
- Vi Atena.
- Oh, mas isso é normal. De todos nós é a que mais anda lá em baixo.
- E vi Hades.
- Isso não é normal. Esse costuma estar mais em baixo do que o baixo que disse antes. Mas...
- Estavam a falar, a discutir. O Hades começou a abanar o Zeus, a Atena a tentar acalma-los e eu também quis ajudar! Só que tinha ido ao Hefestos buscar um carregamento de setas novas e estava muito pesado e então, ao descer as setas caíram. Com a altitude ganharam velocidade e acertaram mesmo no...
- Ai, não...
- No Hades e...
- Atena??
- Não! Não! Ela é sobrinha dele, não...Mas acertaram numa rapariga que ia a passar, numa humana.
- Hiac! Oh, mas espera. O Hades esta disfarçado, certo?
- Sim, estava, estava, senão que horror! Quem iria querer um bicho daqueles...?- e começámos a rir ao mesmo tempo e depois, quando nos apercebemos disso, voltámos às nossas posições iniciais.
- Pois, então quer dizer que fizeste asneira, não é bichinho? Zeus vai saber disto...
- Não vim aqui para me entregar ou para me denunciares, Afrodite! Vim aqui para te pedir ajuda, bolas! Trabalhamos no mesmo ramo desde que nascemos, sabemos destas coisas apesar de não termos ninguém...- Naquele momento, ai, até me custa dizer isto, passa Apolo...O deus do Sol, o meu Sol! Para o carro ao pé da minha janela da sala e pisca-me o olho.
- Então minha deusa? Vamos bem...?- Perguntou ele, com aquela voz, aqueles olhos, aqueles musculos, aaaaaaaaiiii!!!
- Apolo!- disse eu, dando um chuto no gordo e anafado anão cor de rosa, e indo para ao pé da janela, debruçando-me quase, quase até cair...Podia ser que ele me fosse salvar, no seu carro dourado...- Por aqui tão cedo?
- Sabes como é- disse ele a rir- a coisa tem o seu tempo, daqui ao outro lado ainda demoro um bocadito e então...Cheira a naftalina, estás com visitas?
- Não!! Ninguém, a...naftalina é da Partula.
- Ah...Bom, azeus, minha deusa!
- Azeus, Apolo...Olha!- disse eu já ele levava o sol para o outro lado- Não queres passar aqui depois do sol se pôr?
- Passo, claro. Mas um bocadinho mais tarde, essa tarefa é minha, as coisas demoram o seu tempo, sabes como é...
- Sim, sim, sim, sim!! Estarei à tua espera...Apolo...Azeus! Azeus!- disse eu, levantando o meu doce bracinho e acenando para aquele deus grego que desaparecia do horizonte, deixando uma escoridão atrás de si. Ai...Onde é que eu ia? Até me perdi...ah! Anão! O Anão lá estava, onde o tinha deixado.
- Podemos continuar a nossa conversa? Preciso da tua ajuda! Aquelas setas não eram para a humana nem muito menos para o Hades!!
- Já percebi isso, sabes gordinho?
- Eram para um mercadorzeco e para uma sopeira de Thivai!
- Thivai? Tão longe? Não o podias fazer apaixonar por uma sopeira, cozinheira ou doceira de Atenas? Coitado do homem, o que tem de andar, olha que tu, realmente...
- Ele vai para Levadhia !
- Ah, então fica no caminho...E no meio disso tudo onde entro eu?
- Bom...Queria que me ajudasses a desfazer isto tudo...Tu és deusa, podes fazer e desfazer as coisas eu só posso fazer com que aconteçam.
- Hum...Queres que eu desfaça o facto do Hades estar apaixonado por uma rapariguinha de Atenas e que ela mesmo se "desapaixone" dele...Hum...Mas isso era engraçado acontecer, Cupido! O Hades está sempre a criticar Zeus por isso mesmo. Que tal ele passar por isto também? Um amor impossível! Aahhh era tão giro!
- Não inventes...Com estas coisas não se brinca. Ja sabemos o desfecho desta tua comédia romântica: Ele vai ter de adeixar, porque é um deus, e ela fica com o coração despedaçado.
- És tão atrasado, rosinha...Era mais uma cliente tua!
- Não quero clientes assim! E aliás, os meus clientes têm de estar puros, ou seja, nunca se podem ter apaixonado na vida. Já tu e os teus prazeres...
- Hei! Tudo isso faz parte da paixão, do amor, do desejo...Tenho um curso nessa área, lembraste? Não me saiu na boca de um peixe, como o teu. Tenho canudo.
- Somos diferentes.
- Em to-dos, to-dos, os aspectos. Enfim, não me apetece desfazer nada disso.
- Mas...
- O Hades é um cromo! Faz-se a todas as deusas, é feio, é rude, mauzinho, só sabe criticar a vida no Olimpo, não sabe o que é o amor, o amor pela vida! Está na hora de ele aprender uma lição...
- Mas e o mercador? Sabes o lema: não podemos alterar a ordem normal das coisas.
- Em quantos dia chega o mercador a Thivai?
- Hum...- disse o Cupido- ele vai a pé, pedindo boleia aqui e ali, dormindo pelo caminho. Acho que uns três dias. Sim, em três dias ele chega Thivai, depois para a cidade já é mais rapadido, e ele é esperto, apanha boleias de gente que passa...
- Então e porque não deixamos que Hades se contorça estes três dias por amor? Hã? Vá lá, caracolinhos d'ouro...O Hades merece! Imagina que ele se decide a ficar pela terra e a deixar o submundo por amor?? Ah! Ah! AH! Ias tu para o lugar dele!
- Não brinques!- Disse o rosa mais vermelho- Três dias ainda é um bocado...
- Passa a correr!
- E o mercador?
- Está na sua vida! Ah! Só mais uma coisa!- disse eu- Em troca quero ganhar alguma coisa, para além da satisfação em ver Hades a morrer de amores (ai! Mal posso esperar!). Quero que...-e olhei para a janela- Que faças com que o Apolo se apaixone por mim!
- Eu não posso fazer isso! Porque não fazes tu isso? Ah, ah! Porque não podes! Zeus não permite que usemos os nossos poderes para beneficio pessoal...
- Oh, por amor de Zeus! Ele faz isso constantemente! Repara: Ele está na terra. Ele anda com mulheres, humanas. Ele faz batota quando joga com o Dionísio às cartas...Queres mais? E sim, está bem, eu não posso fazer isso mas TU, pequeno porquinho rosa, não o fazes em beneficio pessoal, ou seja, ao me atingires com uma dessas tuas setas pirosas e atingires o Apolozinho com outra, o que ganhas tu para o teu beneficio pessoal? Nada, riem!
- Mas tu és uma deusa...Zeus disse que também não podemos usar os poderes nos nossos idênticos!
- Tens a matéria estudada, sem dúvida mas isto é como tudo no amor- Aprende-se e não se aplica! As coisas fluem normalmente, bebé. E é assim: não estou para estar aqui a gastar o meu latim. Ou sim ou sopas! Apolo meu ou nada feito com o mercador.
- Bom...E os três dias?
- Três dias de pura diversão, Cupidinho! Vamos ver o Hades a cair de amor! Como nunca vimos. E, para todos os efeitos, porque o Hermes deve vir pedir explicações logo que souber, foi um simples acidente! Entendes? Sim?
- Está bem. Mas eu só faço com que o Apolo se apaixone por ti quando tu desfizeres toda esta trapalhada!
- Tudo bem. Feito. Esperamos três dias e tudo se resolverá. Agora...podes ir embora? O Apolo está a chegar aí, e...- E lá foi ele, nas suas asinhas parvinhas e ridículas. E eu esperei por ouvir aquela voz, aquela voz quente como o sol que me aquece ao entrar pela minha janela...
- Afrodite?- O Apolo tinha chegado, finalmente.

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