domingo, 3 de maio de 2009

Feio, porco e mau

Só me dão trabalhos aquelas três. Não pode um deus estar sossegado a aproveitar o seu sábado numa banheira com água quentinha aquecida pelas alminhas penadas. Confesso que até me faz bem apanhar os ares lá de cima, isto aqui torna-se abafado e os salões cheiram um pouco a mofo. Para além disso é muito solitário, sem contar com as alminhas que por aqui andam sem rumo tenho apenas o barqueiro que sinceramente é aborrecido e tem mau humor. E claro o meu companheiro Cérbero, o meu cão de guarda com o triplo do tamanho dos cãezinhos lá da terra, o triplo do apetite e o triplo de cabeças. É bastante intimidante e já tive algumas queixas por parte das alminhas que cá chegam. Dizem que faz demasiado barulho à noite e que quando o barqueiro entrega as suas mais recentes vítimas o pobrezinha lá se entusiasma e gosta de dar uma mordidela ou outra. BAH! Tretas, essas insensíveis nem sentem os dentes do cão, lá está. É um amor de bicho, só quer é carinho, festinhas e vacas, o seu prato preferido. Ás vezes penso na minha vida, nos meus irmãos, na nossa partilha. Está bem que sempre fui um pouco calado e não tão extrovertido como o Posídon ou divertido e bonito como Zeus, mas não sou má pessoa. A sério! Eu apenas cultivo esta imagem para me deixarem em paz, mas começo a sentir o peso da solidão. As piadas são para disfarçar, o que eu gostava era de sair daqui e fazer-me à vida sei lá. Mas que estou para aqui a dizer! Disparates ... não sou fraco como os meus irmãos que ficam mansos com as atenções de mulheres. Eu sou mau! Terrível, uma peste! Vamos lá dar cabo do tal mercador!
Há tanto tempo que não subia lá a cima, tinha-me esquecido quanto custa. É verdade que me preocupo com o meu corpo e até faço bastante exercício físico. Deve ser da idade. Bem cá estou no mercado, tenho de passar despercebido é melhor colocar o meu elmo para assim ficar ínvisivel aos olhos dos outros. Podem dizer que eu utilizo o elmo para esconder os meus sentimentos e é uma forma de a minha timidez prevalecer, e é uma grande verdade. Mas estes momentos é o meu maior aliado, não gosto de utilizar os disfarces ridicúlos que o meu irmão insiste em usar.
Já estávamos a meio do dia e a feira estava cheia de gente, e agora como vou encontrar aquele desgraçado? Aquelas senhoras não sabem fazer o seu trabalho e é o Hades que vem tratar dos seus assuntos. Isto não estava no contrato minha gente! Com esta confusão quem é que encontra o dito homem? Resolvi dar umas voltas pelas bancas que estão do lado de fora, longe da confusão. Já que estava invisivel não podia andar por aí a questionar as pessoas, limitei-me a apanhar as conversas que circulavam nas bocas das senhoras mais informadas.
- Ai filha nem sabes o que me aconteceu ontem?
- Conta miga.
- Ai não posso!
- Vá lá.
- Ai não devo!
- Conta lá porra!! - opss talvez tenha falado alto de mais. O certo é que a mulher lá começou a desvendar o mistério, que esta gente só precisa de um empurrão para desatar a língua. Falou do marido que é um bêbedo desavergonhado, da filha que só lhe dá desgostos, do irmão que se gosta de vestir de mulher, enfim ... as trivialidades das gentes cá de cima. Com tanta história comecei a desesperar, o tal assunto tão importante nunca mais vinha à tona. Resolvi dar um novo empurrão, mas desta vez tentei dar um tom mais feminino à minha voz:
- Então e o que aconteceu ontem, mulher ... miga?
- Estás com uma voz esquesita tu!
- Quê?
- Mas enfim vou contar. Tu sabes o senhor X? Aquele onde eu comprei um serviço de barro na semana passada? Então ... parece que desapareceu misteriosamente ontem à noite, é o que se anda hoje a comentar por aí.
- E então?
- Espera, o meu marido disse-me ontem à noite que o viu na rua, assim muito estranho. Não falou com ninguém, nem sequer deu as boas noites a quem passava. Estava todo tapado com um manto e com os braços cruzados. O meu marido não sabe, mas eu vi tudo da janela, ele estava à espera de um homem que lhe trouxe um cavalo ...
- E depois? Se calhar foi abastecer-se para as vendas do dia seguinte!
- Mas ele hoje não voltou! E para além disso, quando ele estava a montar o cavalo algo me chamou a atenção ... um reflexo dourado no rosto dele! Vinha de dentro do manto e ele logo o escondeu. Ele roubou alguma coisa! Alguma coisa valiosa, ou então deram-lhe a ele em troca de algo.
Não pode ser! Será possível? Quer dizer tudo bate certo, o meu querido irmãozinho perde os seus bens mais valiosos, está tudo em segredo e por isso a morte daquele homem é inadiável. De certeza que Zeus já anda por aí à procura, tenho de encontrar aquele homem primeiro! E quem saberá disto? Apenas cumpri as ordens que me deram, e os raios podem ter sido roubados por algum ladrãozeco, as ruas de Atenas sempre foram perigosas. Finalmente isto de estar longe do mundo dos vivos, e dos deuses do Olimpo tem as suas vantagens. Ninguém entrará sem a minha autorização, a não ser que esteja morto obviamente.
O pior é que o dito homem já deve ir longe por esta altura, a mulher acrescentou que o cavalo se dirigiu para norte, é essa a minha única pista. Preciso de um meio de transporte razoavelmente rápido se quero encontrá-lo antes de Zeus. E preciso de o encontrar rapidamente. Ora ... cá está ele! Bem sei que não é o mais rápido mas é o único de momento. E ainda algum espaço para mim. O condutor tem um ar ... rural que condiz com o meio de transporte (carroça) e com o conteúdo a transportar (porcos). Lá me consegui enfiar no dito veículo, xii minha mãe que aqui cheria pior que no submundo! Ainda bem que só recebo pessoas lá em baixo!
Durante a viagem fui olhando em volta à procura de sinais do mercador, do seu cavalo, de ... ZEUS! É ele, eu sei que é! É o seu típico disfarce para galar as senhoras mais fracas de coração. E a rapariga é Atena de certeza, a única que ainda atura os devaneios do seu pobre paizinho. Decidi que esta era a minha paragem, e apesar de querer meter-me um pouco com o meu querido irmãozinho, detive-me a tempo, era essencial que não me descobrissem. Fui andando atrás deles tentando não fazer barulho nem aproximar-me demasiado. Mas porque decidiram vir a pé? e é claro que Zeus resolveu aligeirar a viagem contando as suas belas anedotas, que prevísivel.
- E agora diz-me lá minha filha, a diferença entre Hades e um porco?
- Não sei papá. - responde Atena num tom claramente aborrecido.
- É rosa, adorado pelos mais pequenos, é comestível, saboroso e ...
- ... cheira bem. - responde Atena novamente naquele tom.
Que engraçadinho, tantos anos e ainda conta a mesma piada. Tive de fazer uma força enorme para me conter e não o atirar monte abaixo.
- E esta e esta ... porque é que Hades não sai do submundo e vem para junto dos vivos?
- Porquê pai?
- Para não aturar idiotas como tu! - pronto dei cabo de tudo.
- H-Hades? Q-Que fazes tu aqui?

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