Ai que frescante! Como ansiava por isto. É que a paisagem é inegávelmente bela, mas o calor é insuportável! - Obrigado Aurora! Bebe um pouco de água também e descansa minha querida, estás com um ar cansado.
- Obrigado senhora.
- E agora Leucárdio? Quando é que entramos na bendita terra? Não fizemos este caminho todo para cansares a guarda com esses espanhóis malditos e agora ficamos aqui a olhar ...
- Mas tu queres entrar pelas muralhas sem qualquer tipo de recepção? Se tu queres entrar por ali a dentro sem qualquer tipo de pompa e circunstância vai. Eu cá quero ser recebido de acordo com o meu estatuto!
- Desculpe meu querido esposo, mas como pensa fazer tal coisa se a comitiva mal chega para encher uma mesa de banquete? Está a pensar fazer os coitados andarem numa correria só para lhe irem jogando pétalas na venta?
- Veja lá se você também não me vai fazer os mesmo! Vá mas é dar um jeito no cabelo que está um desalinho!
Ai só Deus sabe como aguento estas humilhações! Eu podia muito bem usar o meu nome de família para lhe acalmar os ânimos, os Leucárdio são simples formigas ao pé dos Castro, mas sou uma pessoa civilizada e não me dou a essas baixarias. Mas ele que não pense que isto fica assim, o povo é que sabe reconhecer aqueles com mérito para governar e logo logo Isabel de Castro estará nos seus corações e quiçá no poder.
Se a príncipio Santa Terrinha parecia abandonada logo se revelou uma total surpresa. As portas abriram-se e revelaram um grande batalhão de soldados ... gordos e a cair de bêbedos. El-Rei quis proteger o tesouro de qualquer forma e a única mandeira de convencer os soldados a permanecerem num local tão perigoso foi com ... vinho! O alcoól afasta todos os males e dá coragem aos mais medrosos. Parece que o plano resultou já que os espanhóis nunca conseguiram transpor as muralhas de Santa Terrinha.
- Aí tens a tua recepção Leucárdio! - disse em num tom sarcástico.
- Querida Isabel fica a saber que devem ser valentes estes homens! Com eles estaremos seguros!
- E então já está tudo preparado para entrar? - perguntei impaciente.
- Claro que sim, o Frederico nunca me falhou! As famílias de camponeses que vieram conosco já estão no interior, vamos ser recebidos como reis.
Apesar de duvidar, admito que fiquei entusiasmada com a ideia. Resolvi que seria a melhor altura para usar as jóias da minha mãe, aquelas mulheres vão ficar impressionadas com tamanha riqueza. Agora sim vou ter a atenção que mereço, as vénias, os bébés que as senhoras trazem nos braços para serem beijadas por tão distinta senhora ... os cavaleiros apoiadas num joelho a oferecerem rosas, o Leucárdio a segurar-me com firmeza ... ai!
- Está linda minha senhora!
- Obrigado Aurora! Sinto-me óptima, vamos então. O meu povo esperame.
Ao sair da tenda que foi montado provisoriamente, deparei-me com o meu querido Leucárdio, qual noivo no altar. Lembrei-me do nosso casamento, de como estava nervoso e de como ele me pareceu maravilhoso, ali à minha espera. Voltei à realidade quando fui acordada do meu sonho pelo padre Damião.
- Minha filha peço-lhe que não tenha muitas expectativas em relação à recepção. É que o povo está cansado e faminto e o dito batalhão não vê mulheres à mais de 8 meses! Receio que nem a guarda do seu marido seja capaz de lhes conter o entusiasmo.
- E que quer que faça?
- Aconselho-a a recatar a indumentária e pedir o mesmo à sua dama de companhia. E acima de tudo a não os olhar nos olhos, concentre-se no caminho.
- Não se preocupe padre, vai correr tudo que é uma maravilha! - restorquiu Leucárdio visivelmente entusiasmado - Vamos lá que o povo chama!
Atendi aos recados do padre e usei um lenço para cubrir os ombros. Montei a minha bonita égua branca e lá fomos nós que nem os reis a entrar pela porta grande para o delírio de todos. Senti as primeiras pétalas tocarem-me o rosto mal atravessámos a porta de seguida só ouvi gritos e aplausos. Percebi que os soldados estavam nas muralhas em cima e por isso baixei a cabeça e tentei nem olhar para a multidão. Senti um grande aperto no coração mas decidi obedecer às ordens do padre.
- Querida Isabel não cumprimenta o povo? - pergunta Leucárdio entre dentes.
- Mas o senhor padre ...
- Esquece o padre e faz o que te digo! Eles não te vão comer mulher! Só querem um pouco de atenção ...
- Sim minha senhora, as mulheres comentam já que Dona Isabel é fria e cruel. Sabe como são as más linguas, dê-lhes um sorriso!
- Tens razão Aurora, afinal não preciso de olhar para cima.
Ao levantar a mão o povo delirou e depressa começaram a gritar o meu nome, gritavam "Santa Isabel" e surgiram crianças de todos os lados a dançar em volta do meu cavalo e a oferecerem flores. O padre Damião exagerou com certeza, sempre é melhor ser chamada de santa do que ser repudidada. Decidi então acenar aos homens lá em cima ...
- Olha aquela!! Bem boa han! Anda cá docinho que te dou uma dentada ... ai ai que não! - gritava um.
- Não tem cara de santa digo-te já! - respondeu o outro.
- Cambada de bêbedos! - protestou Leucárdio entre dentes.
- Eu avisei-a Isabel, estes homens não tinham a atenção de uma mulher ...
- É verdade senhor padre e uma destas então! Ui! - exclamou um dos soldados que nos recebeu à porta da igreja.
- Vamos lá a ter respeitinho! Olhe que se não modera os comentários arrisca-se a ficar sem cabeça!
- Cortada por mim 'tá a ouvir!! - ameaça Frederico.
- Vamos a ter calma, afinal foi uma coisa sem importância. Leocárdio estes bravos homens arriscaram as suas vidas para guardar aquilo que é nosso.
- Talvez por isso é que ainda não os mandei embora Isabel. Bom mas vamos ao que interessa ... quem é o responsável por ...
- Pelo nosso estado Leocr ... Leucérd ... Leónidas, o nosso estado é culpa de El-Rei que nos regou de vinho e ... (soluço) ... coiso ... você é boa ... (soluço) ...
- O que o meu marido queria saber soldado é quem ficou encarregado de guardar as terras, o vosso líder?
- Ah a senhora é que sabe ... (soluço) ... falar com o povo, o seu marido ... (soluço) ... fala esquesitamente e ... ora líder pode ser, pode ser eu ... que querem saber?
- Temos de falar em privado! Assuntos de estado não são discutidos assim em frente a toda a gente.
- Tem toda a razão ... (soluço) ... não se pode confiar nesta gente, entre faxavor senhor conde, esteja à vontade! "Mi casa es su casa!"
- Que disse??? - perguntou Leucárdio.
- Perdão?
- Repita lá isso!!
- Eu arrotei e pedi perdão ... (soluço) ... a minha mãe educou-me bem e ...
- Pensei ter ouvido outra coisa, outro idioma. Mas continuando, preciso que me diga onde está aquilo que você sabe.
- Aquilo que eu (soluço) sei?
- Sim o c ...
- Desculpe mas (soluço) não o percebo.
- Querido não acha cedo para já estar com esses assuntos? É tempo de celebrar, assar uns javalis e receber as gentes para o beija-mão. Devem estar esfomeados os coitados!
- Esfomeados? A gente? Não senhora (soluço) não. A gente tem a senhora Custódia que cozinha para gente, é uma cozinheira e tanto!
- Mas pensei que não viam mulheres à 8 meses?
- Oh Dona (soluço) Isabel, a senhora Custódia não é digamos propriamente ... coiso.
- Bom, bom não sei se me agradam esses termos soldado! Veja como fala. Isto agora é uma terra de gente honeste e devota, acabou-se os dias de devassidão.
- Com certeza senhor (soluço) conde! Vou mandar a Custódia fazer uns petiscos para honrar vossas senhorias.
Depois de um banquete digno de reis, foi tempo de subirmos ao quarto que eu já não aguentava os sapatos. Leucárdio ainda estava a pensar tratar do "assunto" mas eu insisti que já chegava de confusões por um dia. Sim por que no estado em que os homens estavam não se iam sequer chegar a conclusões. O Leucárdio já tomou conta da situação e as pipas de vinho que restam estão fechadas a cadeado na cave. A ressaca que se avizinha não será um espectáculo bonito de se ver.
Finalmente estava deitada na minha cama, a minha linda cama ao pé do meu lindo marido. É claro que como mulher apaixonada que sou tentei tornar a nossa primeira noite em Santa Terrinha uma noite especial. Fiz-lhe festas no cabelo, beijei-lhe o pescoço, entrelacei as minha mãos nas dele e nada! O homem permaneceu imóvel de olhos no tecto, quase parecia morto. Estava quase a desistir quando de repente se lança a mim numa fúria nunca antes vista. Assustei-me de ínicio mas depois deixei-me levar. Oh meu amor! Que emoção, ele ama-me como eu sempre soube!!
Passados 5 minutinhos apenas voltou-se de costas para adormecer. Bem não me posso queixar, muita mulher desejaria estar no meu lugar. Estava eu a voltar-me quando ouvi um "amén".
- Que foi isso meu amor? Disses-te alguma coisa?
- Eu? Eu estou é a tentar dormir, não teve já o que queria? Não era por isso que estava aí com essas ... coisas.
- Falas como se tivesses a cumprir uma missão! Uma tarefa!
- E não o é? Fiz o que tinha a fazer, agora é a sua vez de fazer a sua.
- Que queres dizer com isso?
- Quero um filho se não for pedir muito. Agora boa noite.
- Olha se é só para isso que me queres, e agora que já cumpris-te o teu dever, posso muito bem arranjar um amante que me satisfaça verdadeiramente! Quem sabe um espanhol, ouvi dizer que são mais ardentes!
- Vou fingir que não ouvi isso. Boa noite Isabel.
- Queres que repita?? Talvez mais alto ... VOU ARRANJAR ...
- CALA-TE JÁ!
E assim começou a nossa vida em Santa Terrinha. Mas ele está enganado se pensa que não vou cumprir a minha promessa! Sou uma mulher que honra as suas promessas, vou honrá-las e bem!
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