- Señor! Señor! Olhe a comitiva que está aí a chegar! Parecem...oh, não! As carruagens têm o simbolo da coroa portuguesa, señor! A coisa vai azedar...- Saiam da frente! Saaaaiam!! Apre!- Disse, enquanto ia ao encontro do Raúl, que me chamava como que estivessemos a ser invadidos. O facto de ter trazido aquela gente toda de mi España foi talvez um erro...Mas, a tia, sempre com aquela de que os velhos têm mais sabedoria, teve esta ideia e eu nada posso fazer contra isso- saiam daqui! Raúl, não percebi nada do que disseste, repete, por favor- Não foi preciso repetir. Vi várias carruagens a pararem em frente àquela que iria ser a nossa cidade. Fiquei supreso, cresci três palmos, compus-me e avancei.
- Quem sois?- Perguntei a um criado, o primeiro, que seguia em frente daquela romaria.
- São os senhores condes: Leucárdio e Isabel. Por ordem de El-rei de Portugal vimos ocupar as terras santas desta zona- A surpresa foi ainda maior quando vejo um pequeno pé a descer de uma das carruagens. Um pé pequeno, é certo, mas que pertencia a uma pessoa grande, em nome, título e estatura.
- Saiam daí! Xô! Que maçada...Oh! Pst! O senhor aí!- Olhei para todos os lados, apontei para mim mesmo e constactei que se dirigia a mim- Sim, o senhor. Vá lá dizer ao seu senhor, ou lá o que é, para tirar aí a gentalha da frente que eu tenho mais que fazer! Quero passar!- Fiquei a olhar para ele, chocado, por me confundir com um reles criado!
- Senhor! Estais a falar com o conde Javier!- Disse Raúl, que desceu do seu cavalo, ao ouvir tamanha injustiça.
- Javier?- disse o conde de meia tigela- És tu? Oh, oh! Estás velho como um tronco de carvalho!- Desceu totalmente da carruagem e veio ter comigo. Dando-me uma palmadinha nas costas acrescentou:- Não te lembras de mim?...- Não respondi, achei que a minha expressão revelava o que sentia- Ora...Javier! Sou o Leucárdio, brincámos juntos quando eramos crianças! O meu pai, Guilherme Leucárdio, que Deus nosso Senhor Jesus Cristo em todo a sua glória tem, e o teu eram amigos, conhecidos vá...- Continuei a olhar para ele por uns segundos. Na verdade não me lembrava de ninguém com esse nome e...Velho? Eu? Quem é ele para dizer isso? Ele era, de longe, mais velho que eu uns 10 anos! Pronto, talvez só 5.
- Perdoai-me senhor por duas coisas: Em primeiro lugar não me lembro de si. Nunca saí de Espanha quando era pequeno, na verdade, começei só agora a fazer algumas viagens, todas elas de negócios. Em segundo lugar: Não vou sair daqui.
- Mas que arrogância! Vai sim que eu tenho ordem de El-Rei! Tenho um papel com a assinatura dele e tudo! Vá, saia lá, senão vamos ter de resolver isto de outra forma...
-Que seja de outra forma!! Raúl!!- Gritei, fiz um gesto e o Raúl impos a sua espada mesmo em frente do nariz do conde , no entanto, saltou logo um meia-leca do lado português para defender o seu senhor.
- Muito bem- disse o cobardolas- se tem de ser assim, assim será. Só espero que tenha uma boa guarda, meu caro conde Javier, porque a minha guarda pessoal é do melhor que há na Península Ibérica! Começando aqui pelo fiel Frederico- Toda a minha comitiva se começou a rir.
- Quanto é que quer por esta...terrinha?- perguntei, chegando-me mais perto dele.
- Chegue-se para lá!- gritou o tal Frederico.
- Quanto é que quero?? Quanto é que quero?? Mas você acha que eu sou o quê? Pensa que me vai comprar? Pensa que eu não sei o valor destas terras? Hã? Pensa que eu não sei que, graças a Deus, se esconde no chão, na terra, nas entranhas desta pequena terra, aquele que é o cálice sagrado? A taça de Jesus Todo Poderoso! Seu...trafulha! Eu não quero nada em troca, nada, está a ouvir? Quero aquilo que é meu por direito, que El-Rei me concedeu com toda a confiança! Ordeno que saia das minhas terras agora!...Já!- Não saí e começou uma luta, uma batalha, uma guerra! Entre os meus e os dele, entre eu e...eles, porque mal começou a luta, o tenebroso, malvado, conde Leucárdio saltou para os braços do fraco Frederico, que o levou assim mesmo, ao colo, para dentro da carruagem. Infelizmente, o final feliz foi para os portuguêses. Sim, o condezeco tinha razão: a guarda dele era muito mais forte que a minha.
- Eu volto!!- disse eu, saindo com toda aquela gente atrás- Não me veceste ainda Leucárdio, filho de Guilherme Leucárdio!- A minha armada foi, a minha gente foi, mas eu fiquei a espiar mais o Raúl. Tinhamos de saber onde ficariam eles, que tipo de gente era aquela. Mal "saímos", o conde pos a cabecinha de fora.
- Ai...Meu Deus, Meu Deus, Meu Deus!! Que mal fiz?? Mas porquê??- dizia ele, enquanto saía da carruagem, compondo-se- Quase que me abalrroam a carruagem, com duas senhoras dentro, meu santissimo sacramento! Isabel, Aurora, caras senhoras, tenham a bondade de sair e ver esta bela paisagem...- Sim, a paisagem era das mais belas já vistas. Santa Terrinha era pequena mas muito verde, com campos ainda mais verdes, prontos para serem cultivados. Oh...Tanta e tão boa agricultura se pode fazer naquela terra sagrada. Por ser sagrada é abençoada, por ser abençoada é fértil e arenosa, em suma, óptima para criar alimento e dinheiro!
- Ai, senhor meu marido...Estou exausta! Amarrotada! Leva-me daqui agora, preciso de um banho...Não exageremos, pode ser apenas lavar a cara. Aurora! Vem me ajudar, estou toda descomposta!- Naquele momento saiu daquela carruagem a mais bela criatura que já alguma vez tinha visto ao cimo da terra. Aurora...Aurora, bela como a manhã, um primeiro raio de sol, uma luz clara que a rodeia. Não podia ter nome melhor...Aurora...
- Sim, minha senhora, vou já- e começou a ajeitar o vestido da sua senhora- Assim está melhor, senhora?
- Sim, obrigada querida. Agora, Leucárdio! Vamos embora, já bem basta termos de lidar com aquela espanholada toda, cruzes!
-Sim, vamos sim, temos de tomar conta da nossa Santa Terrinha! Vamos, vamos em frente!- Disse o conde.
- Señor?...Señor?- disse o Raúl, acordando-me daquele sonho da manhã...Aurora...deixou-me nas nuvens.
- Amanhã começamos o cerco?- perguntou.
- Sim, amanhã eu terei a Santa Terrinha e, quem sabe, algo mais...
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