segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Senhor dai-me forças!

- Por amor de Deus Isabel! Será que precisas de tanta coisa para sobreviver?
- E tu achas bem que uma mulher tão importante como eu, com uma responsabilidade para com sua Majestade e para com o povo, deva vestir-me dia após dia com a mesma indumentária?
- Podias alternar ao menos! Com isto tudo não chegamos à Santa Terrinha nem daqui a um ano!
- Mas agora a sério Leocárdio, qual é o nome da terra que te coube gerir e povoar?
- Santa Terrinha! Acabei de te dizer, mas agora para além de estéril és surda? Se sua Majestade está à espera que povoemos sózinhos a região bem pode esperar sentado.
- Não basta dizeres essas barbaridades ainda fazes questão que os criados as oiçam? Ao menos tem a decência de guardar tais pensamentos. E ainda para mais não sabemos se o problema será meu. O padre Damião referiu que muitas vezes as mulheres são acusadas de infertilidade quando o problema reside em maridos incapazes.
- A ti te garanto que o problema é teu!
- Que conversa é essa?? Por acaso já andas-te a testar as tuas sementes por aí?
- Mas como ousas falar assim com o teu marido? Deves-me respeito!! Nunca vi mulher mais irresponsável, malcriada, desavergonhada ... o meu pai bem me avisou que eu não devia olhar à aparência. Tinha ficado mais bem servido com a gorda da Maria Glória!! Essa só faz é ter filhos!
- Então aindas estás a tempo! Pede a anulação e vai atrás dela, que eu também não irei ficar sozinha por muito tempo ...
- Insolente ... queres desfazer aquilo que Deus abençoou??
- Desculpe senhor ... mas o padre Damião está impaciente e ... pergunta se está demorada a partida? - pergunta o escudeiro Frederico amedrontado.
- Ele que espere! - respondi.
- Ele que suba! - lançou Isabel.
Esta mulher dá me cabo dos nervos! Antes que perca a cabeça vou mas é beber alguma coisa que me adormeça a mente. E agora ainda vou ter de aturar aquele maldito padre que só me sabe criticar, eu um homem que serve a Deus com tanto temor. Aquela mulher sim é obra do diabo e foi por isso que conseguiu virá-lo contra mim. Se não fosse a honra que El-Rei me concedeu estaria a um passo da loucura! Mas tenho esperança que os ares do campo me façam bem.
- Querida Isabel!
- Padre Damião! Fico tão feliz de aqui estar!
- Senhor conde.
- Padre Damião. Bom vou deixar-vos a sós, não se demore minha querida. - despide-me com um beijo na mão.
- Então diga-me minha querida, como tem estado?
- Ansiosa senhor padre, sempre vivi na capital, no centro de tudo ... e agora vou para nenhures, ao que dizem lado a lado com os espanhóis, desejosos de se apoderarem daquelas terras.
- Acredite minha querida que El-Rei confia que o seu marido tem capacidade para se ocupar da situação e considera a tarefa demasiado importanten para a entregar a qualquer um. E mais, segundo algumas informações, parece que a recompensa não será modesta. Quem sabe se a sua família não será em breve uma das mais importantes de Portugal, os seus filhos poderão mesmo ser ligados ao futuro dos infantes.
- Acha mesmo?
- Claro minha filha.
- Mas aí reside o problema como sabe.
- Vai ver que o campo fará bem ao feitio do seu esposo. Lá terá menos distrações, de saias pelo menos.
- Se Deus quiser! Não sei quanto mais tempo aguentarei esta situação sem dizer uma palavra.
- Mas é esse o teu dever minha filha. Verás que logo logo terás um filho nos teus braços!
- Querido padre, tem sido o melhor dos amigos!
Andei de um lado para o outro impaciente. Fiz questão de mostrar o meu descontentamento a quem me viesse maçar com questões sobre a viagem. Isto vai mudar assim que chegarmos a Santa Terrinha! Onde já se viu uma mulher responder ao marido naqueles termos? O meu pai é que sabia do que falava! Assim que a viu avisou-me, mas eu estava cego demais para ouvir os seus conselhos ... "tem cuidado com as mulheres bonitas", "olha que fazem de ti o que querem e tu perdes controlo dos teus próprios pensamentos" e o mais flagrante foi "não cases com a Isabel que ela vai fazer-te a vida um inferno!". Meu santo pai tinha toda a razão. E sendo eu um homem que acredita profundamente em Deus e na religião seria o último homem que deveria deixar-se enganar pelos encantos daquela mulher. Mas agora aqui estou preso a ela e sem hipótese de fuga.
- Cá estamos meu querido, prontos para a viagem das nossas vidas!
- Como assim estamos?
- O padre Damião vai nos acomponhar e guiar nesta difícil tarefa.
- Sem querer ofender o senhor padre, mas o rei nomeou um sacerdote especialmente para nos acompanhar. Não queres ir contra a vontade de ...
- Desculpa interrompê-lo caro conde, mas houve uma alteração de última hora e sou eu que vos vou acompanhar. Fiz valer a minha vontade junto de El-Rei e este aceitou de imediato.
- Estou a ver. Nesse caso penso que podemos fazer-nos à viagem.
Maldito padre. A desautorizar-me em frente aos meus servos, à gentalha! Vou ser a chacote da terra, um conde manipulado pela mulher e pelo padre. Agora sim a minha desgraça está completa!
A carruagem cedida por sua Majestade reunia todas as condições, tornando a viagem bem mais agradável do que o esperado. O mesmo não podem dizer os criados que se tiveram de contentar com uma carroça que os espunha ao calor e aos insectos. Mas nada posso fazer, para além disso já estamos umas horas atrasados não nos podemos dar ao luxo de andar a fazer paragens por tudo e por nada. O Frederico ficou encarregue de anotar todos os precalsos que surgiam no caminho, todas as avarias, desentendimentos e desmaios das senhoras mais sensiveis. El-Rei quer saber de tudo e eu não o quero contrariar de forma alguma.
Depressa se fez noite e devido ao cansaço dos animais decidi que o melhor seria pernoitar na aldeia mais próxima, não fossem os bandidos aproveitar a escuridão para se lançarem às caruagens. Encontrámos uma pequena povoação com cerca de 20 casas e resolvi que seria ali que iríamos ficar.
- Frederico chega aqui!
- Sim senhor! Que deseja?
- Tu vais à frente, fala com as gentes daquela casa, a maior de todas, faz saber aos seus habitantes que o Conde Leocárdio de Santa Terrinha a mando de El-Rei deseja lá pernoitar e que a sua escolha não deve ser posta em causa! Se alguma questão for levantada, será detido e levado a julgamento!
- Mas devo apresentar-me antes? Ou prefere que repita as suas palavras?
- As minhas palavras!! Sem qualquer acrescento!!
- Duvido que seja bem recebido mas enfim ...
- Disse alguma coisa escudeiro Frederico?
- Nada meu senhor, irei de imediato.
- Acho bem. Sem demoras que D. Isabel está com aflição e deseja com toda a emergência os serviços de um penico.
- Precisa de c... com certeza!
Partiu sem olhar para trás e eu dirigi-me para ao lado de Isabel que gritava o meu nome.
- Isabel podes fazer menos barulho? Estás a assustar o gado!
- Eu? Se tu ouvisses e atendesses os meus desejos nada disso acontecia, estou aqui a gritar por ti à horas!! E tu a dormir que nem um porco na tua carruagem!
- Respeito Isabel!
- E vamos ficar nesta espelunca? Se tiveres o azar que eu apanhe piolhos e tenha de rapaz os meus lindos cabelos negros, aí sim sentirás a minha ira!!
- Está descansada que os piolhos não vão querer coisa tão ruim como o teu ninho de ratos!
- Então meus filhos vamos a acalmar. Não é esse o exemplo que querem dar ao vosso povo!
- Vê padre Damião? É isto que lhe estava a falar, falta-me ao respeito em frente a esta gente! E depois admira-se que eu me revolte, eu que não sou mulher de me calar!
- Lá isso concordo contigo! Não te calas por nada, oiço-te o dia inteiro sem descanso. Nos meus sonhos todas as pessoas têm a tua voz!
- Vês minha filha? É um sinal que o teu marido te ama e só a ti te ouve.
- Antes fosse senhor padre. Mas eu já não me deixo enganar!
Nisto aparece o escudeiro Frederico, de certo com boas novas.
- Então fizes-te o que te pedi? Já podemos instalar-nos?
- Sim e não.
- Desculpa? Ousam questionar a minha autoridade??
- Bom é que ... eu atrapalhei-me senhor. Bem sabe que nunca tive boa memória nem para me lembrar das suas ordens, quanto mais ... recitar as suas próprias palavras.
- Mas que disseram?
- Bom disseram que a minha senhora que se fosse aliviar aos bosques, que aquela casa não recolhia dejectos alheios.
- O QUÊ???????? Como se atrevem a falar da minha esposa nesses termos??
- O meu querido Leocárdion a defender a minha honra! Padre Damião sempre há esperança afinal!
- CALA-TE Isabel ou eu perco a cabeça!! Que foste dizer Frederico?
- Bom, no fundo foi uma adaptação das suas palavras ... disse que ... que ...
- QUE ...
- ... que o meu senhor, o conde Leocárdio precisava de assentar arreais na seua casa por esta noite que a sua senhora Dona Isabel estava aflita para ...
- PARA ...
- ... cagar.
Isabel desmaiou nos meus braços. Nunca fora exposta a tamanha palavra, tão vulgar, impura e imprópria para uns ouvidos de uma dama. Apeteceu-me arrancar a cabeça do desgraçado com as minhas próprias mãos, mas depressa afastei esses pensamentos imundos, de certeza que não valeria apena arriscar a minha entrada no paraíso por culpa daquele imbecil. Fiz dele um exemplo. Ficou sem comer nem beber o resto da noite e dormiu junto dos animais.
Tive de eu mesmo me dirigir à casa e tratar do assunto. O homem a principio mostrou-se céptico, mas toda a comitiva o convenceu de que não era mais um louco que o vinha perturbar e até fez questão de ceder o seu quarto para os tão distintos condes. Ainda há gente simpática! Parece que o Federico foi recebido por um simples criado que o confundiu com um mendigo que costuma andar pelas redondezas.
De qualquer forma o bom vinho e a carne assada de javali fizeram-nos esquecer o incidente e no fim da noite tudo estava resolvido. Dirigi-me ao quarto para uma boa noite de descanso quando me deparei com a mais bela das jovens. Fiquei completamente atordoado com a sua beleza, tanto que não conseguia se quer falar. A sua pele clara, olhos transparentes e cabelo cor de fogo foram suficientes para me enfeitiçar. Perguntei-lhe o nome, ao que ela respondeu quase sussurando "Aurora".
- Ah senhor conde já conheceu a minha menina!
- É sua filha esta encantadora jovem?
- É a minha Aurora, a luz dos meus olhos. Faz-me companhia agora que a mãe morreu.
- Mas não está sozinho, vejo que tem alguns criados que lhe devem dar algum conforto.
- Claro que sim, mas preferia viver na pobreza só para a ter sempre perto de mim. Não que seja rico, não estou ao nível de vossa senhoria é claro.
- Mas tem de concordar que é uma pena uma jovem tão encantadora estar confinada a este local tão pequeno.
- Nunca mostrou desejo de sair daqui.
A rapariga permaneceu silenciosa, como se estivesse noutro lugar. Desejei-lhes boas noites e subi para o quarto sempre com o seu rosto no pensamento. Tentei dormir mas Isabel não parava de se mexer na cama, dava voltas e voltas e falava como se estivesse possuída. Meu Deus que esta ulher ainda vai ser a minha desgraça. Só quando me lembrei da doce Aurora consegui algum sossego e consegui finalmente adormecer.
Ao acordar deparei-me com Isabel pálida e encharcada em suor. Chamei pelo padre que depressa acorreu. Parece que comer algo que não lhes fez bem pois depois de "sair de si mesma" voltou à normalidade. Sempre foi uma mulher fraca e sensível e por isso não liguei mas o padre Damião aconselhou-me a vigiar estas indisposições não fosse revelar-se algo mais grave.
Estava na altura de partir e não pude deixar de agradecer a hospitalidade do nosso anfitrião.
- Muito obrigado pela sua gentileza! Não me esquecerei do que fez por nós.
- Foi um prazer senhor conde.
- Não posso deixar de lhe fazer uma proposta. A sua filha, quer dizer, seria uma honra que a sua filha fizesse parte ... digamos servisse a D. Isabel, como dama de companhia.
- Estava à espera desse convite. Mas deve fazer o convite a Aurora, a decisão deve ser ela a tomá-la.
- Claro tem toda a razão.
A rapariga aceitou de imediato para minha surpresa. Pareceu-me estranho mas não quis que mudasse de ideias. O pai pareceu aceitar apesar de ter ficado visivelmente abatido. Quem não gostou da ideia foi Isabel.
- Ai é assim que pretendes respeitar-me? Aproveitar a minha fragilidade para arranjares alguma beldade para as noites frias de Santa Terrinha!
- Mas pensa que estás a falar com quem? Sou muito respeitador e temente a ...
- Temente a Deus já se sabe! Mas para mim isso é só conversa, não me enganas ...
- Seja como for a rapariga já está de malas feitas e quem toma as decisões sou eu! E ela vai ser tua dama de companhia e tu vais tratá-la com respeito e fim da conversa!
Isabel não respondeu, e que bem que soube finalmente ter a palavra final numa discussão. Fiquei mais animado e segui a cavalo com Frederico do meu lado.
- Que é isso Frederico? Tens alguma coisa dentro desse saco? Tu não me digas que roubas-te algo ao homem?
- Desculpe senhor conde, mas ontem à noite ao dormir nos estábulos não resisti e trouxe este bezerrinho. Estava tão indefeso e é amoroso não é?
- Ahahahah! Só tu para me fazeres rir! E já lhe deste nome?
- Não, ainda estou a pensar. Afinal um nome não é coisa para se decidir assim apressadamente. A minha mãe disse que o meu nome só lhe surgiu 12 anos depois de eu ter nascido.
- E até essa idade? Não tinhas nome?
- A minha mãe sempre me tratou por "meu querido filho" o meu pai chamava-me "burro desgraçado"! Mas eu quero um nome decente para o bezerro, senhor conde, posso ter a honra de o baptizar com o seu nome?
- Claro que não homem!! Que falta de respeito!
- E o de Dona Isabel?
- Mas não é um macho?
- Tem razão. Já sei! Talvez Damião como o padre, que é um homem íntegro e ligado a Deus.
- Chama-lhe Leocárdio pronto!
- Muito obrigado senhor conde.
- Mas não andes por aí a gritar o nome do bicho, posso ficar mal visto.
- Senhor conde veja! Ali está Santa Terrinha!!
- Que Deus me abençoe e à minha terra!
- Senhor conde, parece que há fila para entrar.
- Quê? Mas ... espanhóis!
- Como sabe senhor conde? O Leocárdio mémé acha que são turistas. Está ali um que deve ser o chefe, está todo bem vestido! Está a ver senhor conde?
- Oh não! É o Javier! Senhor dai-me forças ...

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