- Então? Como é que ele está?
- Está na mesma…
- Mas já não está melhor?
- Oh…não, mas não fala, não reage, é alimentado por uma sonda…- Passou uma semana depois de eu ter ido ver o meu tio ao hospital, uma imagem que quero apagar por completo da minha memória. Naquela noite, eu e o Rafael chegámos preocupadíssimos ao hospital, tentei saber do meu tio, mas a desordem das urgências punha-me os nervos em franja e quase que atropelava violentamente uma criancinha que tinha partido a cabeça e que chorava desalmadamente. “Desculpa lá, puto”, disse o Rafael, uma vez que eu nem para o miúdo olhei. Perguntei para o meu tio e levaram-me à sala dele. Lá estava. Imóvel, sereno, estava a dormir tão bem. “Como foi isto acontecer?”, perguntei à enfermeira que me guiou pelos corredores de maneira a que eu não chocasse com mais nenhuma criancinha acidentada. “Segundo consta o relatório ele foi encontrado desmaiado”, disse ela. “E onde? Aqui em Lisboa?”. Não. Tinha sido encontrado em Sintra. Ao que parece o meu tio visitava a vila. Foi encontrado numa das bermas da estrada, perto do hotel dos Seteais, deitado no chão. “ E agora senhora enfermeira? Quanto tempo ficará ele assim?”. Pouco tempo. No final da semana abriu os olhos. “Tio! Olá! Tudo bem consigo? Consegue ouvir-me? Mas que dorminhoco, tio Pedro, hã? Olhe só o susto que nos pregou!... tio? Tio fale comigo, não se lembra de mim?”. Lembrar até podia lembrar, disse o médico, mas não dizia nada. “Oh, Doutor mas diga lá, não há suspeitas do que possa ter acontecido, ter batido com a cabeça, alguma coisa?”, perguntou o Rafael, incansável companheiro. “Meu caro amigo, não há registos de traumatismos na cabeça. O que lhe posso dizer é que tudo indica que ele está em estado de choque”. Estado de choque? Sim, estado de choque. O meu tio, o valentão, estava chocado “mas com o quê, doutor?”, “isso agora já não sei, não é amiga? Isso agora já são outros quinhentos, ora. Eu não estava lá no momento da crise. Pode sempre ver é se houve testemunhas”. Foi então que desisti de tentar fazer com que o meu tio falasse, pobre homem, e fui à recepção. “ Na volta o teu tio foi encontrado por aqueles malucos que fazem cenas maradas na serra de Sintra”, disse o Rafael. Não devia estar longe…”Ora, o seu tio deu entrada no hospital às quatro e quarenta e cinco da manhã”, disse a recepcionista. Concordei com o Rafael quando ele disse que eu já devia ter visto isso há mais tempo, mas o que aconteceu foi que andei muito atarefada com coisas da faculdade, milhares de livros para ler e também sempre preocupada com a questão do artigo do Jacques Moley, e do tal mapa astral. “Cinco e meia da manhã?...Não tem o nome aí de quem o trouxe?”, perguntei. Não. Nada. Só a ficha dele que fui eu que preenchi. No dia seguinte voltei ao hospital, vi como ele estava e voltei para casa. Foi então que recebi a chamada do Rafael, sempre preocupado.
- Olha lá – disse ele – ele foi encontrado perto do hotel dos Seteais, certo?
- Sim.
- E isso é…perto da Quinta da Regaleira.
- Onde queres chegar?
- Ao incidente que houve há dias com o David no jantar da Ordem.
- E dizias tu que a Quinta não tinha fantasmas, Sir Rafael.
- Pára com brincadeiras. Ontem uma mulher apareceu caída no Patamar dos Deuses, na Quinta - fiquei sem reacção - está em coma.
- Achas que há relação? – perguntei estupidamente - O David, o meu tio, a mulher...
- Pode haver ou não. Irrita-me solenemente isto, eu não era assim e agora imagino coisas destas e…
- e…
- No outro dia estava com o Miguel a acartar um material de um dos espectáculos, já era noite. Estávamos a por as coisas para a carrinha quando ouvimos uns barulhos. Pensámos que eram pássaros, mas não eram. “Ouviste isto?”, disse eu ao Miguel. “Isto o quê?...Pára lá com isso, meu Deus…já chega de história fantasmagóricas, o teatro já acabou, Rafa.” . E Eu disse “Epá pára lá com isso tu, Miguel! Não é nada disso…”. Foi então que ele entrou para a casinha das arrumações e eu fiquei ali a olhar para todos os lados.
- Desenvolve…
- Calma, isto também não é assim! Guen, eu vi um vulto, juro que vi! Epá era um gajo, tenho a certeza. Fui a correr chamar o Xavier, que é o gajo da segurança, e ele ficou a olhar para mim, parecia que estava a olhar para um maluco que tinha acabado de sair do manicómio. “ Vai dormir, Rafael! Estás cansado! Está tudo contabilizado, quem entra, quem sai e agora não está cá ninguém”, disse ele. Depois de eu lhe ter dito que não podiam ter esse controlo tão preciso e de ele começar a disparatar “estás a por em causa o meu trabalho?” e não sei mais o quê eu parei. Parei, mas não parei por ali. Fui ver atrás dos arbustos, das árvores. E no dia seguinte, pronto, a mulher aparece caída no Patamar dos Deuses, que, como sabes, não fica tão longe do sítio onde fazemos o teatro, que é naquele átrio perto do…
-Sim, sim, eu sei, já devo ter assistido a dezenas…A única relação que existe é o coma…e o David nem entrou em coma, quer dizer…
- Ok, sim, mas é estranho. E eu vi, ninguém me tira da cabeça que eu vi um homem. Era um homem, eu vi a silhueta dele, apesar da pouca luz. É tanta coisa acontecer ao mesmo tempo…e sobre a data da reunião por causa do artigo, já sabes de alguma coisa?
- O pessoal da Ordem aponta para esta sexta à noite.
- Seja! Quando mais rápido melhor! Estou farto de enigmas.
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