Não sei o que me passou pela cabeça naquele momento. Muito menos o que passou pelo coração. Um enorme vazio preenchia o meu peito com uma vontade de gritar, de fugir, de procurar o pedaço de alma que desaparecera sem dar aviso. Acabara de perder um irmão, o irmão. E todas as memórias que guardava do tempo de criança pareciam-me agora escassas e envoltas por um véu feito de névoa.
- Porque tinha isto de acontecer? Parecia...parecia que ele já sabia o que o futuro lhe reservava quando ficou doente...
- Não sejas tonta Liena... ninguém pode adivinhar estas coisas. Nem o próprio Miguel pode. –disse David.
- Han?
- Nada filha, deixa.
- Será que ele morreu mesmo? – insisti eu, tentado afastar um pouco mais a realidade de mim.
- A menos que ele tenha um escudo invisível enviado por Deus, ele não estará mais aqui querida. O destino dele é uma hipótese de futuro para cada um de nós, ninguém se pode esquecer disso...
- David – Interrompeu Rafael. – Está na hora de continuar, se ficarmos neste buraco seremos descobertos mais tarde ou mais cedo e o sacrifício de Pedro terá sido em vão.
Subitamente o meu peito voltou a badalar com uma lembrança súbita.
- E Miguel?? Miguel foi na direcção oposta! Que será dele agora sozinho com todos aqueles mouros atrás?
- É verdad... – começou António.
- Miguel está bem e ficará bem até nos encontrar – interrompeu Rafael com uma estranha certeza nas palavras. – Talvez tenha chegado a altura de perceberem que aqui cada um se deve preocupar consigo mesmo. Caso contrario serão mortos enquanto estiverem à procura de um amigo!
- Calma Rafael – Também David percebera que algo tinha mexido com Rafael. Talvez porém era esta a forma que ele tinha de lidar com sentimentos de perda e tristeza. Se eu conseguisse dominar os meus sentimentos assim...
Pusemo-nos a caminho, desta vez rumo a Bordeaux, era Gualdim quem nos guiava, decidia destinos, caminhos, estudava as informações que recolhíamos da viagem para traçar o melhor caminho até Portugal. Era de facto muito inteligente e apesar de ser o decisor do grupo, passava facilmente por despercebido. Eu sempre achei esta atitude dele algo muito nobre e honrável, principalmente quando estamos rodeados por pessoas que fazem de tudo para se destacar e afirmar o seu puder sobre os demais.
Lá ia ele, no seu cavalo malhado, Escópio, caladinho, com o seu mapa desenhado e o olhar a tentar captar o mundo. O seu cabelo preto-asa-de-corvo, caia para trás trapando-lhe o pescoço mas tocando somente ao de leve nos ombros. A franja desalinhada desenhava uma sombra nos olhos onde o verde água se destacava cheio de vida. Ao contrario de David, Gualdim ainda tinha paciência para pegar numa faca e fazer a barba do seu reflexo na água.
- Agora andas de olho no Gualdim? – surpreendeu-me Rafael.
- Não sejas parvo... não ando de olho em ninguém. Mas estou contente que tenhamos no grupo alguém como ele, que consegue manter a cabeça naquilo que é mais importante e com grande subtileza.
- Sim, tens razão, nem se dá por ele mas se não tivesse vindo ainda estaríamos a chegar a Itália por estas horas. Isto se ainda estivéssemos vivos claro.
- Vivos... eu também reparei que ficaste perturbado com a morte de Pedro. – toquei no assunto nem sei porquê. Eu na queria relembrar o que acontecera mas dei por mim a falar directamente do coração.
- Eu não conhecia bem o Pedro – respondeu – pelo menos não tão bem como tu. Pelo que vejo e a avaliar pela tua calma o teu consciente ainda não deve ter assimilado o que aconteceu... daqui a uns dias quero que saibas que podes contar comigo seja a que momento for.
- ...Obrigada...
- Quanto à tua afirmação. O meu dever, depois de te deixar em segurança em Portugal com esse embrulhinho, é manter-vos em segurança até terras protegidas. Tomar conta de voz. Proteger-vos de todo o tipo de inimigos. A morte de Pedro, para além de ter perdido um companheiro de viajem maravilhoso e que poderia ser um grande amigo como Miguel, veio derrubar aquilo a que me propus... e agora tenho de me dedicar de corpo e alma àquilo que me resta.
- Mas porque te propuseste a tamanha coisa?? E ainda há pouco disseste que cada um tinha de olhar por si!
- Para começar não tive propriamente escolha, mas não poderia estar mais feliz e honrado por o fazer. Segundo, faz o que eu digo, não o que eu faço.
Com isto galopou até David e Gualdim na frente do grupo, deixando-me cheia de enigmas e sem respostas. (Para variar...como é que é possível!) Quem terá mandado Rafael com tamanha missão?
Dois dias passaram em silêncio e em tormenta. Dormindo encima dos cavalos, parando apenas para que estes pudessem beber água e descansar um pouco.
- Ahhh mais um palácio! – disse António rompendo com a monotonia.
Estávamos em frente ao nosso local de descanso. Até que enfim. Os donos da estalagem, que vim a descobrir serem das margens do Zêzere, já nos esperavam à porta do abrigo com sorrisos que se espalhavam até aos olhos. Por cima deles, o nome da estalagem brilhava. Escalus Angelorum.
- Escalus Angelorum?? Mas..Gualdim! – chamei.
- Pois não?
- Escalus Angelorum não era o nome da ultima estalagem em que estivemos em Génova?
- É sim, que atenta menina Liena! É o nome pelo qual sabemos que estamos entre os nossos e em segurança.
- Mas em Opera, na abadia... nada dizia Es...
- Haveis ido ao campanário?
Agora que ele falava nisso, lembrava-me de umas letras lindamente desenhadas no campanário mas a beleza da estátua do Arcanjo roubou-me toda a atenção desde o momento em que pisei a abadia.
- Sejam muito benvindos!! – cumprimentaram os donos da estalagem em uníssono.
Que cumprimento mais caloroso! Que maravilha. O dono da estalagem tinha um bigode farfalhudo, mostrando as influências francesas, juntando-se a este, uma pequena mosca em baixo do lábio inferior. Contudo a sua barriguinha grávida de comida e tintol mostravam claramente a sua origem portuguesa. Já a senhora de bochechas rosadas podia dizer-se que era muito bem fornecida pela natureza anatómica na parte dos seios. Por outras palavras a senhora tinha umas grandes mamas. Quanto à sua parte lusitana estava, sem duvida, presente a recepção calorosa e hospitaleira.
A estalagem era pequena e comprida. Feita de madeira tinha uma decoração aconchegante e acolhedora. Fomos cada um para seu aposento, sendo que o meu era o ultimo quarto do lado direito.
Como a lua já ia alta no céu e nenhum de nos tinha mais fome do que sono, tomamos apenas uma pequena ceia, onde conversamos com os nossos anfitriões e recebemos noticias de Portugal e Espanha em troca das nossas aventuras.
Quando finalmente cheguei ao meu quarto, escuro com apenas uma vela como ponto de iluminação, deitei-me de lado na cama sem me trocar e abracei o embrulho azul encostando-o ao peito. Porquê? Porque tinha Pedro de morrer em troca disto? Porque está agora a nascer em mim esta tristeza juntamente com esta solidão, como se fosse uma fonte que jorra para todas as minhas veias? Porque tive de ficar sem o meu irmão??!
Pelas estrelas devia ser umas 3 das manhã. Fechei os olhos por uns momentos e a imagem do Arcanjo Rafael da abadia, com a sua iluminação surreal. Rafael. Fui chama-lo como ele mo tinha pedido, e na sua companhia chorei a noite inteira.
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