quinta-feira, 30 de abril de 2009

Quando a cegueira pode matar muitos

Nascemos assim: uma será sempre adulta, uma será sempre de meia idade e outra será sempre velha. Uma tece, outra desenrola o novelo e outra remata e corta. Não somos costureiras mas andamos lá perto. A nossa vida é feita de coser, cortar, desenrolar, tecer, desembaraçar nós que às vezes estão tão cegos quanto a nossa irmã mais velha, a Átropos...
- Não consigo veeerr!!
- Átropos, por favor, já chega, lá estás tu outra vez a chamar à atenção, bolas! Bem o povo diz que quando se chega a velho as pessoas voltam a ser crianças!- disse a nossa irmã do meio, a Láquesis. Na verdade elas andam sempre, sempre às turras. Toda a vida andaram...A história é longa: eu sou a mais nova, apresento-me: Cloto, a mais nova das parcas, as tecedeiras da vida dos humanos e semi-deuses, as senhoras do destino, as que podem, enquanto Hades esfrega o olho, cortar o fio da vida de alguém e mandar essa pessoa para o submundo. Sim, somos guardiãs da vida! Muitas vezes nos deparamos com o nosso tear cheio de nós enterlaçados, e uns deles tão confusos que não nos restam alternativa senão corta-los. Mas essa tarefa não me compete. Sou a mais nova e a minha missão é o começo da vida. Começo por tecer o fio da vida durante nove luas, no útero das mulheres. Quando a criança nasce, na décima lua, a tarefa passa para a Láquesis, ela vai tecer a vida dela, é a que mais trabalha, é aquela que impõem as condições para a Átropos, no fim, rematar e cortar o fio da vida. Como podem imaginar a Átropos não é propriamente a mais famosa de nós três, ela basicamente, como é que hei de dizer isto?...É odiada por todos. Numa manhã apareceu cega e isso não é de todo uma boa notiícia.
- Juro! Não vejo nada! Não consigo ver!! - disse ela. Eu e a Láquesis começámos a ficar aflitas, parecia, desta vez, que a Átropos não estava a mentir...
- Mas não vez nem a luz do tear?
- Nada! E agora?
- Agora vai morrer menos gente!- disse eu.
- Não brinques com isso, Cloto. A coisa é séria, não podemos alterar o rumo da vida, do destino, só porque uma de nós cegou!- disse a Láquesis.
- Como vou cortar os fios? Como vou mandar pessoal para o Hades? Oh...ele vai-me matar...
- Isso não pode acontecer nunca, porque tu é que...- disse eu.
- Chega, Cloto!- Temperamental, esta Láquesis, já deu para perceber, não?- Temos de chamar Zeus. Vai buscar o teledivino.
- Não podemos perder tempo, Láquesis! Tenho um falecimento hoje às dez da manhã! Se não cortar o fio aquele homem vai ficar em muitos maus lençois!
- Quem é?
- É um vendedor ambulante lá do mercado.
- O Abdero?
- Não.
- O Duríade?
- Esse não sei quem é.
- O Eleusínias?
- Esse também não...
- Pronto, não interessa! E como pensas mata-lo?
- Tenho de cortar o fio!
- Como? O problema é que só tu podes pegar na tesoura de ouro, só tu podes fazer isso, nem indicações te podemos dar...Temos de chamar Zeus...CLOTO! Esse teledivino!- Sim, sou a "acabada de sair da adolescência", como diz a Láquesis, já deu para perceber também...Tentámos então ligar para Zeus e não atendeu. Fomos forçadas a invocar o Hermes que não gostou nada da situação.
- Por Zeus!- disse ele ao ver a minha irmã mais velha ceguinha, ceguinha- Não posso crer! Só nos faltava mais esta!
- Então? Mas que se passa, afinal?- perguntei.
- Andam a desaparecer misteriosamente pertences e coisas dos deuses do Olimpo- Pena não tecermos a vida dos Deuses, senão já saberíamos- Agora uma das parcas estar cega...? Isso vai mudar a ordem natural das coisas.
- Que vamos fazer?- perguntou a Átropos- tenho um falecimento às dez e este tem mesmo de morrer...
- Mas porquê?-perguntou o Deus.
- Hermes, não revelamos nem falamos da vida dos humanos, já devias saber isso! Sabemos de tudo mas não cuscamos a vida das pessoas, somos túmulos, mais a Àtropos...
- Cloto! Pára com brincadeiras!- disse a Láquesis, sempre do lado da razão. O que sugeres fazer?
- Bom, dada a urgência do falecimento, e já que a Átropos não o pode matar, porque arriscamos muito, pode cortar o fio errado e matar outra pessoa no lugar dele, então temos de recorrer ao Hades.
- Não gosto desse homem- disse eu. E era verdade! Somos opostos, o que eu começo, ele faz questão de acabar e arruinar, tirar a alma e ainda por cima cobrar um óbulo por isso, na travessia dos rios! Puff...Ganancioso.
- Cloto!- Láquesis- Mas Hermes, que pode o Hades fazer? Só a minha irmã tem o poder de poder cortar com a tesoura de ouro, mais ninguém.
- O Hades- explicou o mensageiro- não o pode matar, mas pode leva-lo para o submundo e manter a alma no prugatório até a Átropos recuperar a visão. A alma fica nas margens dos rios, não os atravessa com o barqueiro, não lhe é permitido pagar a passagem até se desprender do corpo totalmente.
- E entretanto como é que fica o corpo?- perguntei.
- Já ouviram falar de coma?- disse o deus- Novidades de uma coisa chamada medicina, coisas dos egipcios, enfim, ele fica "bem", não morre até a vossa irmã recuperar a visão.
- E como fica o fio no tear? Vai ficar em nó?- disse a Láquesis.
- Sim, provavelmente. Mas não se preocupem. Aliás, Láquesis, assegura-te que o fio do homem não se enterlaça com mais nunhum, mas com mais nenhum mesmo! O Hades não gosta de almas no purgatório, sabem como é...Gosta de ganhar o dele em dia.
- A questão é: Como é que a Àtropos vai recuperar a visão?- perguntei.
- Sim, porque está sempre a morrer gente! Tenho de recuperar o mais rápido possível! Senão o rumo natural das vidas altera-se e o mundo entra no caos!- disse a Àtropos a falar para uma parede. Nunca foi boa de ouvido.
- Só Zeus pode voltar a dar a visão. Ele está incontactável, não percebo...Já o tentei invocar e tudo, e nada...Só espero que não se tenha metido em confusões. Bom, mas isso nem é o mais urgente, vendo bem as coisas, desculpa Àtropos não quis ofender. Vamos infocar o Hades e depois logo se vê! Não literalmente...enfim- Lá invocámos o Hades e ele lá apareceu, zangado, e chamuscou a nossa carpete tecida com tanto amor.
- Espero que seja um assunto de morte ou morte porque realmente estava a meio de um banho relaxante. Que me querem?
- Hades! Ainda bem que conseguis-te aparecer!- disse a Láquesis. Sempre achei que ela tinha um fraquinho por ele. Afinal, os opostos atraem-se. Quer dizer, hum, ha...hum, no meu caso não! Que horror! Se eu ia querer aquele arrogantezinho. Ela lá explicou o que se tinha passado e, como calculei, o Hades torceu aquele seu narizinho empinado.
- Não gosto de ter pessoal no purgatório, estragam-me sempre os jardins, andam ali à solta, sem fazer nenhum, não são rentáveis!
- Não te pagam!-disse eu.
- Tinha de ser...- disse ele- a menina espertinha. Queira saber que não é por isso, está bem?
- Sim, pois...
- Mas Hades- disse o Hermes- tem mesmo de ser desta vez!
- E porque não chama o meu rico maninho, o deus dos deuses, o senhor do Olimpo, uhhhh!! Não gostam todos tanto dele? Então! Ele pode dar a visão ali à velhota!
- Sim, mas está incontactável- disse o Hermes com o teledivino numa mão e com o papel das invocações de urgência na outra. São quase dez horas, Hades...O homem tem de morrer às dez. Não te custa nada te-lo por lá, arranja-lhe um trabalho para fazer. Ele é comerciante, deve trazer qualquer coisa das vendas dele nos bolsos, nem que lhe pessas uns trocos pela estadia.
- Ai, mas não pensei eu noutra coisa! Ele vai ter de pagar qualquer coisa por lá estar, oh se vai! Não vai la andar de graça. Para todos os efeitos dou-lhe mais tempo de vida, coisa que vai contra os meus principios...
- És mesmo cruel- deixei escapar.
- É a minha função, lindinha, as coisas são assim- Odeio quando me chama assim- Tu dás a vida aos humanos eu recebo-os quando ali a tua irmã cegueta lhes corta o pio.
- O fio...-disse eu.
- Era uma piada, lindinha. Mas está bem! Onde é que anda então o tal comerciante?- Essa era a função da Láquesis, saber da vida das pessoas. Não somos cuscas, mas a Láquesis quando se junta com as ninfas e as centauras aquilo é um lavar de roupa suja dos humanos que só visto! Enfim, concluímos que o homem andava a fugir de alguma coisa de mercado em mercado. Estava agora no mercado de uma localidade perto de Atenas.
- Pronto, ja sei onde é- disse o Hades.
- Hades, isto é sigiloso, por favor, não podes contar isto a ninguém, nenhum humano ou deus pode saber disto.
- Descansa, Láquesis. Ninguém vai saber. O que vai acontecer é o seguinte: Vou desviar o caminho do mercador, vai para um lugar sem ninguém, um beco, uma coisa do género e pimbas! Fica ali caído, meio vivo meio morto, mais morto que vivo, apanhas-te a piada agora lindinha?- disse, olhando para mim, e continuou- Vem comigo lá para o meu doce lar purgatóriozinho e lá fica até aqui a velhota recuperar a visão- Assim foi. O Hades foi cumprir o que nos prometeu, o Hermes foi fazer o seu trabalho e tentar falar com Zeus o mais rápido possível. A Átropos ficou sentada sem fazer nada, a Léquesis tinha uns novelos por desenrolar e eu tinha o desenvolvimento de quadrigémeos marcado para o meio dia. Só nos restava esperar.

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