quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Noites quentes!

- Vai receber os senhores condes, Rita!
- Ai, que maçada, que maçada, dona Caetana! Quem me dera que nunca tivessem chegado...
- Cala-te rapariga! Por acaso tu arrumaste o quarto dos senhores condes, ou não? Ai que eu não sei o que te faço!!!
- Arrumei!! Cruz, credo! Arrumei, sim senhora! Ora essa...Alguma vez fiz mal o meu trabalho?
- Queres mesmo que te responda, rapariga?- A dona Caetana, quando quer, é mázinha, chatinha e maçadora. Mas repito: quem me dera que estes dois nunca tivessem chegado aqui a Santa Terrinha. Já lá vai o tempo em que os unicos habitantes daqui eramos nós, o senhor prior S. Teotónio, que já lá está, os três padrecos que o acompanhavam e uns quantos camponeses mal trapilhos. Isso sim! Era vida...Eu vim para cá com a dona Caetana servir o prior. A minha mãe nunca quis saber de mim. Pariu-me, assim como pariu muitos, e depois "Oh! Mais uma! Quanto dão por ela?". Foi isto. Vendeu-me a uns ciganos que iam a passar. Sim, a minha mãe era uma senhora da vida. Da vidaça! Devo ter irmãos espalhados por tudo o que é lado, de várias nacionalidades, etnias, enfim! Tenho uma grande família. Depois dos ciganos me abandonarem na beira de uma estrada enlameada, fui encontrada pela pessoa a que chamei mãe toda a minha vida. Ela trabalhava na casa de uns senhores ilustres, lá para os lados de Alcobaça e, assim, levou-me com ela. A dona Caetana era colega dela, na cozinha. A mãe era criada de servir...Era, sim. Depois de metida num valente berbicacho que envolvia as joias da senhora da casa, um quadro valioso, foi apagada do mapa. Se alguém se preocupou? Não, até sei quem a matou: o dono da casa. Não vi, cruzes, mas todos diziam que assim foi. Enfim, à Caetana disseram-lhe que se não ficasse comigo, e como nem era filha verdadeira da minha mãe, que me matavam, ou me abandonavam na floresta mais proxima para que os lobos tratassem do trabalho. A Caetana nem pensou duas vezes! Ficou comigo, que também já não precisava de tantos cuidados. Já tinha 10 anos. Assim cresci, sempre atrás das saias da Caetana. Hoje tenho 18 anos e devo-lhe a vida. Andei sempre atrás dela, de casa de senhor em casa de senhor. Os últimos 5 anos tivemos com o padre S. Teotónio, que, por ser tão boa pessoa até foi tornado santo! Foi ele que fundou, a bem dizer, aqui a Santa Terrinha, e agora vêm me dizer que vem aí um conde qualquer ser uma espécie de chefe da malta, pff...grande coisa. Tenho tantas saudades do padre S. Teotónio...Eu não fazia nada da vida! O padre passava a vida na igreja! Eles e os seus padrecos, os novatos, seminaristas que de seminaristas não tinham nada. Namorisquei com todos eles: na sacristia, no confecionário, no orgão, de noite, de dia...Quando o padre morreu e eles se foram senti um vazio assustador, principalmente de noite, porque apesar de serem os tais seminaristas eles sabiam como aquecer os pés de uma mulher à noite, ou melhor, de como aquecer uma mulher! Enfim, eram bons moços e maus padres. Agora a dona Caetana já me avisou que isto vai ser uma correria! Só ter a condessa em casa noite e dia já é uma dor de cabeça!
- Rita!
- Vou já, vou já!- Fomos as duas à porta de casa, assim como alguns dos empregados que chegaram na vespera a mando do novo dono da casa. O povo estava muito alegre ao ver os condes. Flores, festa, uns pediam que o conde lhe beijasse as imagens dos santos! Enfim...
- Sejam bem vindos!- disse a dona Caetana- Eu e a Rita estaremos às suas ordens!
- Muito obrigada, Caetana. Já ouvi dizer muito bem de si. Tenho gosto que esteja aqui connosco- disse o conde, mesmo parecendo que não era aquilo que pensava. Falso. Depois de jantarem, fazerem serão, comerem a ceia e irem se deitar, finalmente, pude descansar.
- Ai credo! Tanto comem e bebem estas criaturas!
- Rita! Tu cala-me essa boca! Fala dos senhores com respeito, se fazes favor! Começas a levar uns quantos estalos! Era o que precisavas!
- Ai, dona Caetana- disse eu, sentando à bruta em cima da mesa e trincando uma maçã- eles são tão finos, não têm nada a ver com o santo padre! E porque vieram para aqui para esta terra de nenhures?
- Não te interessa nada disso. O que te interessa é servi-los, e bem! És paga para servir, não para pensar nem para falar- disse ela, limpando os pratos do jantar.
- Sim, sim...E o conde, dona Caetana? Gostou dele? Ele parece...
- Um óptimo senhor!
- Delicado de mais...
- Shiiiiiiu!! Tás parva?- disse ela, dando-me um valente safanão com o pano da loiça- Ai, ai...estás aqui estás na rua, rapariga!
- Mas não notou?
- Ele é delicado porque é fino, é um grande senhor. Hoje em dia, Rita, quem tem dinheiro é delicado.
- Delicado, hum...Sim, claro- disse eu, levantando-me e saltando para o chão.
- Shhhhhhiu! Os senhores já estão a dormir! Ai, isto vai ser bonito...Não custa nada te porem na rua!- disse ela.
- Sim, na verdade, tem razão! Já viu aquela mosca morta que anda sempre atrás da condessa?
- Rita...
- Vai me dizer que não reparou? Que irritante! "Sim, senhora", "Com certeza, senhora", " Como, senhora", "Sim, claro, senhora"...Ahhhhh! Deus me dê paciência, cruzes canhoto! Aurora, é como ela se chama. Que pãozinho sem sal, dona Caetana.
- É fina, pálida, bonita e, lá está, delicada.
- Sonsa! Aposto que às escondidas vai mexer na joias da "senhora", ou que dorme com o "senhor"- Neste momento, o pano da cozinha parecia ter vida própria e batia-me como se o dia que corria fosse o último do mundo. Depois da pacandaria continuei, claro- A dona Caetana é boa demais...Aquela sonsinha não a irrita?
- Ela é a dama de companhia da senhora!
- E sabe se lá se do senhor...Se não o tivesse visto com tamanhos gestos "delicodoces" diria que dorme com a criada.
- Rita! Vai dormir!
- Ela parece uma virgenzinha tontinha, uma santinha, uma deslavadinha.
- Virgenzinha...? Sei bem o que queres dizer com isso sua devassa! Anda, chô! Vai dormir!
- Oh, dona Caetana e aquele rapaz, o Frederico?
- Não me interessa- disse a Caetana, a apagar a última vela da cozinha.
- Ele até nem é mau de todo...Um franganito, magricelas! Mas mesmo assim...
- Ai que luxuriosa! Que horror, Rita de Fátima! Vai dormir!
- Vou sim, dona Caetana, vou sim! Mas antes vou lá fora apanhar ar que aqui está um calor que não se pode. Quando o padre S. Teotónio estava cá não havia este calor todo. Podera! Estes condes encheram a casa de porcaria! Está um ambiente insuportável! São baús e baús e o perfume daquela mulher? Ai...o perfume da condessa da-me a volta ao estômago. Não deve tomar banho e depois encharca-se em colónia ou lá o que é! Um nojo. Fui lá fora apanhar ar. Sentei-me num banquinho de madeira e deixei-me ali estar até sentir...até sentir, oh! Que estava a ser vigiada!
- Quem está aí?- perguntei, levantando-me rapidamente ao ver os arbustos a remexer- Responda! Eu...eu tenho...uma navalha! Saia ou corto-lhe a garganta! Vamos!- O arbusto parou e dele saiu um...ena! Homem!- Vamos! Diga! Quem sois?
- Um pobre e humilde...- Estranhei o sotaque. Não era português e estava a tentar fazer disso mesmo.
- Espanhol!!- Gritei, atirando-me a ele aos murros, e a gritar "Espanhol!"- Ele tapou-me a boca e, oh Deus, encostou-me firmemente contra si.
- Por qué no te callas?- Perguntou. E eu, com a boca tapada pela sua forte mão, claro que não respondi. Estava assustada, mas minimamente coonfortável, afinal, já fazia tempo que os seminaristas tinha abalado- Vou soltar-te, se continuares a gritar eu é que te corto a garganta!- Na verdade, ficava assim toda a noite, mas ele soltou-me.
- Malandro...-disse eu, compondo-me- Que fazes aqui?
- Eu sou Raúl, sou novo aqui na cidade.
- Mentiroso...Sei bem que andas a mando do conde Javier, inimigo do meu senhor- disse, juntando-me mais a ele, assim como quem não quer a coisa.
- Javier? Oh, não, não conheço ninguém com esse nome, deve estar enganada, eu sou Raúl, filho de Raúl e neto de Raúl e bisneto de...
- Raúl?
- Não, de Esteban.
- Ah...Então isso quer dizer que não é espanhol, ou seja, é espanhol mas não é pelo conde Javier?
-Claro que não sou minha doce, linda, magnifica, señorita...- Ai, "señorita" é d'homem! Ui!
- Alto!- disse alguém inesperadamente- Deixe a senhora e renda-se em nome de El-rei!- Era Frederico. Aii! Não é romantico ter dois homens a lutar por mim?- Rita, está bem?- perguntou ele.
- Sim, senhor Frederico, encontro-me em perfeito estado.
- E este senhor? Quem sois?- Disse ele, sempre de espada em punho.
- Sou...- disse o espanhol.
- É o Ra...-ia eu a dizer...
- Rafael!- disse ele. Olhou para mim com uns olhos que não sei se seriam mortais ou de desejo. E eu, como não gosto de me meter em confusões, não disse nada- Rafael, filho de Rafael, neto de Rafael e bisneto de...
- Rafael?
- Não, de Tomaz.
- Ah- disse o Frederico- e que fazes aqui?
- Vim fazer a corte à señorita...
- Blasfémia!- Gritei horrizada- Santa Fé! A corte? Pois se nem eu o conhecia!
- Vamos, señorita, não vale a pena negar...
- Não interessa!-disse o senhore Frederico zangado- fora daqui! Se quer fazer a corte à MENINA Rita, terá de pedir permissão à senhora Caetana, sua encarregada e de dia! Que inconveniente...Vamos, Rita, vamos para dentro. Não devia estar aqui fora com este malandro, nem com mais nenhum! Que perigo!
- Estava apenas com calor...-disse eu, com a cara mais angelical do mundo.
- Vamos beber água fresca do poço da herdade que eu mesmo fui buscar. As noites estão quentes- disse Frederico, escoltando-me até casa.
- Sim, muito quentes...- disse eu, ainda conseguindo piscar o olhinho ao espanholito Raúl Rafael, que se saía pelo portão.

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