sábado, 4 de dezembro de 2010

O artigo

"Ordo Pauperum Commilitonum Christi Templique Salominici, la cinquiéme", Ordem dos Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão, a quinta, era o título do mais recente trabalho publicado na Ordem online.
- Quero queijo!
- Está no frigorífico!
- Não está!...Ah, está aqui.
Enquanto eu tentava abrir o ficheiro que o cavaleiro “Jacques”, havia publicado. O Rafael remexia o frigorífico para fazer uma sandes de queijo. Tinha ido à minha casa uma semana depois do incidente com o David para me ajudar num trabalho para Teologia. Bom, supostamente quem me ia ajudar era o Miguel, já que é seminarista, mas o Rafael ofereceu-se para ajudar. Do meu tio Pedro nem sinal de vida. Desde que tinha vindo do jantar da quinta que não o via. Antes que o Rafael chegasse à sala e o ficheiro descarregasse lembrei-me de ir a casa da minha vizinha, a tal, muito disposta para o meu tio, e perguntar se, por acaso, o tinha visto ou se, por acaso, ele não se encontrava no meio dos seus lençóis. Não me surpreendia nada esta situação, do meu tio andar desaparecido, ou de o apanhar na cama da vizinha, mas, de facto, ele, sempre um espírito livre, passava dias sem aparecer na casa da minha pobre avó, que rezava a todos os santos para que nada mal lhe acontecesse. À conta disso viajou à boleia pelo mundo. “Onde estiveste, Pedro Manuel?”, “Fui dar uma voltinha a Paris”, “Ai, credo, que este rapaz é sempre a mesma coisa”. Era assim. Mas, não conseguia deixar de me preocupar com ele. Era meu hóspede, no fim das contas.
- Olá, minha querida Helena!!
- Boa tarde, o meu tio Pedro está por aí?
- Não queres entrar?
- Oh, não se incomode! Ele está aí? – dizia eu, espreitando para dentro de casa da minha simpática vizinha.
- Não…Infelizmente não…Mas porquê? Acabei de fazer um bolo, não queres?
- Não, não, obrigada! – e desapareci. Mas onde se teria metido o homem? Cheguei a casa e encontrei o Rafael sentado na minha cadeira, em frente ao meu computador.
- Guen- disse ele, com a boca cheia de pão, virando-se para trás e insistindo em me chamar pelo mesmo nome do site, mesmo já sabendo o verdadeiro – já leste isto? – Aproximei-me.
- Ah! Andas a abrir as minhas coisas…Isso é o artigo do tal Jacques Moley, o novo utilizador do site. Que tem?
- Lê…- O artigo ainda era grande, mas a entrada denunciava o tema. O homem, louco, defendia, numa linguagem quase indecifrável e confusa, que não havia existido uma, mas cinco ordens templárias. Para além disso, quase que jurava a pés juntos que Portugal é a Porta-do-Graal, e que…
- Então? Acaba aí?- perguntei- Anda com o rato mais para baixo.
- Acaba aqui! – disse o Rafael- Até o artigo em si, aqui mais a baixo, chega a esta parte da explicação e termina - O homem esqueceu-se de fazer ou de acrescentar ou de mandar o ficheiro certo.
- Não pode…
- O texto está muito confuso, o homem não sabe português! – disse o Rafael – Olha-me para isto. Virgulas não é com o gajo…
- É uma misturada de francês e latim e português…Uma misturada com coisas importantes. Cinco Ordens?
- Epá, ele é maluco. Deixa lá isso – disse o Rafael, levantando-se da cadeira e indo até à janela – Olha, já lá vem o Miguel. Vou lá abaixo abrir-lhe a porta, anda meio perdido aqui na rua – Seja lá o que fosse aquele artigo, fosse ou não o Papa que o tivesse escrito, e mesmo que estivesse o mais confuso possível, não me deixava desprender os olhos do ecrã do computador. Compreendia-se que seriam cinco ordens. Cinco ordens dos cavaleiros templários. A quinta, a última, era a descrita pelo autor. Era o que parecia. No entanto, era quase impossível ler uma frase seguida. O cavaleiro, Jacques de seu nome, e não tivesse eu estudado tudo sobre o tema não saberia que Jacques Moley foi o último grão-mestre da Ordem, havia de ser um homem louco. A existência de cinco ordens era impensável. Uma ordem e vários seguidores era mais compreensível e imaginável. Quanto à importância de Portugal na história dos templários, bom, isso já era mais aceitável. São vários os autores que defendem essa possibilidade apontando, até, sítios estratégicos do nosso País como possíveis guardadores do santo cálice ou do santo manto de Cristo. Depois, há aqueles que defendem que o Graal poderia ser tudo menos estas duas opções, mas isso são outras histórias, nenhuma delas que tivesse a ver com o artigo. Nessa parte o texto terminava, sem mais nem menos. Fui ao registo do “Jacques” e não encontrei qualquer contacto. Isso deixou-me ainda mais intrigada. Todos os “cavaleiros/as” ao efectuarem o registo online têm de por, pelo menos, um email, e este não tinha nenhum. Era impossível. Se não preenche-se todos os campos obrigatórios, como o contacto online, nunca poderia fazer o registo e fazer “login”. Recorri à lista de nomes registados umas quantas vezes, não me tivesse escapado nas primeiras, e nada. “Jacques Moley”, era o único nome, a única coisa a respeito do autor do artigo. Pensei em publicar o artigo no site, podia uma ou outra pessoa se manifestar, mas decidi guarda-lo, por agora.
- Olá, Lena!
- Miguel! Como estás? – disse, fechando rapidamente o portátil - pronto para me explicares tudo sobre os ensinamentos teológicos no século XI?
- No que eu puder ajudar…
- Ah! Pode ajudar sim! - disse o Rafael, dando uma pancadinha nas costas do amigo. Vou arranjar um lanche.
- Deixas-me o frigorífico a zeros! - gritei da sala – Sentamo-nos à mesa. Não conseguia deixar de pensar no artigo – Miguel, isto não tem nada a ver com a matéria, ou talvez tenha, sei lá… há a possibilidade de ter existido mais do que uma Ordem dos Templários? – o Miguel, que tirava calmamente os cadernos da mochila, parou, ficou estático, olhou para mim e, depois de uma pausa, pousou o caderno em cima da mesa.
- Donde é que tiraste essa ideia? – Perguntou. Foi então que lhe expliquei o artigo – Parece-me um bocado impossível respondeu, finalmente – Se houve, não eram “oficiais”. Há ainda várias lendas sobre…
- A existência de mulheres na ordem? – disse rapidamente – o artigo fala numa lenda sobre isso, o que também me intrigou, é algo em que nunca tinha pensado! – estava mesmo entusiasmada.
- Também – respondeu – também, também, sim, já ouvi falar mas nunca me dediquei muito a estudar isso… mas há variadíssimas lendas sobre os cavaleiros, a sua saga, as suas paixões…
- O artigo fala da existência de pelo menos uma mulher na Ordem.
- E que houve cinco ordens?
- Foi o que percebi – Foi então que me deixei de coisas e fui imprimir o artigo – Não está terminado…- disse, entregando-o em mãos ao Miguel.
- Falta-lhe a parte do Graal – disse o Rafael, entrando na sala com um tabuleiro todo composto, com café, bolachas e sandes.
- Mas que simpático da tua parte! - disse eu – Tenho te a dizer que amanhã vamos os dois ao supermercado, Sir Rafael.
- Está doente! – disse o Miguel – ou então…
- Ou então estou cheio de fome! – disse logo o cavaleiro das trevas. A tarde foi passada a comer o lanche do Rafael e a falar sobre o artigo. Concluímos que era impossível aquilo ter sido escrito por alguém de nacionalidade portuguesa ou que vivesse em Portugal. A mistura de línguas era complicada e nenhum de nós era barra em Francês - Gosto mais de italiano – disse o Rafael. Concluímos ainda que o artigo trazia um desenho, um mapa, mas não um mapa qualquer. Não um mapa de tesouro, nem um que indicava um caminho. Era um mapa
- Astral, é um mapa astral, muito antigo, é certo, mas é um…- disse aos dois rapazes. O Miguel, futuro padre, pouco ou nada acredita em astrologia e desconhece voluntariamente os caminhos das estrelas bem como as
- Salganhadas de riscos e bonecadas! - dos mapas astrais, tal como disse naquela tarde.
- Mas ela tem razão, é uma cena dessas…- disse o Rafael. Naquela tarde decidimos que íamos recorrer aos outros cavaleiros da ordem online para nos ajudar, mas que o texto não seria publicado. Eu própria me iria encarregar de falar com eles, marcar um encontro, e tirar a teima do raio do texto que cada vez mais me deixava os nervos em franja. Havia de descobrir tudo sobre aquele artigo e tudo sobre aquele autor. No final do dia, os ensinamentos teológicos do séc. XI, tinham ido por água abaixo.
- Acabámos por não estudar nada, Lena…
- Ah, Miguel, não te preocupes. O que nós fizemos foi muito mais divertido – disse eu, abrindo a porta da rua e permitindo que os dois rapazes saíssem. O Miguel foi chamar o velho elevador do meu prédio e o Rafael encostou-se à porta da rua.
- Ficas bem aqui sozinha? – perguntou.
- Fico, já estou habituada…
- E o teu tio? Não aparece…
- Não faço ideia onde possa estar, começo mesmo a ficar preocupada - naquele momento o telefone tocou e tive de despachar mesmo os meus amigos.
- Espera!- disse o Rafael forçando a porta- Lembrei-me que deixei o meu mp3 no teu quarto! – enquanto ele foi ao quarto eu atendi o telefone. A mensagem não foi a melhor – Guen? Estás bem? Estás pálida…- imóvel, com o telefone na mão, virei-me lentamente para o Rafael.
- O meu tio…
- …
- Está no hospital, em coma – O abraço que se seguiu deu-me coragem para pegar no casaco e sair por Lisboa fora.
- Não precisas de vir comigo, Rafael…
- Mas quero.

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