A carta do meu pai teve um grande efeito em mim. No dia seguinte podia ver-se na minha cara que não tinha pregado olho a noite inteira. A minha tia olhou para mim e passou-me a mão na testa sem no entanto acrescentar nenhuma palavra. Eu própria nem sei definir o meu estado de espírito, tenho assim tantas razões para estar preocupada? Acho que o que mais me perturbou foi o facto de se confirmar que nunca tive ou terei controlo da minha própria vida. Pouco sei sobre as pessoas que me rodeiam, que se escondem e fogem de mim e que decidem o meu futuro. Estes anos todos desde que saí de Sintra já o meu pai tinha planeado um casamento com alguém que deve ter feito parte de uma semana da minha existência.
Pelo ar do meu tio e do Rafael percebi que a tia não lhes tinha dito nada. Estavam sentados à mesa a comer o pequeno-almoço sem sequer falarem um com o outro. Sentei-me ao lado do João e tentei não olhar para o Rafael. Começaram a surgir os pensamentos que me assolaram a noite inteira “será que é por isso que ele voltou?”, “terei de me ir embora agora que finalmente estava tão feliz?”. Tentei concentrar-me no meu pão e naquilo que está a fazer ou ainda ficava sem um dedo ao barrar a manteiga.
A tia odeia silêncio e a sua natureza faladora fez com que iniciasse uma qualquer conversa banal sobre o tempo, os problemas com as colheitas, a falta de clientes e terminou com o discurso acerca da vizinha da frente que tem o desplante de trair o marido à luz do dia. Com estes anos de convivência consigo perceber quando a tia anda à volta de um assunto e sei perfeitamente quando ela está prestes a chegar a ele. Olhou para mim de relance, baixou os olhos e depois olhou para o tio Manuel pegando-lhe a mão. Soube imediatamente que algo se ia passar, principalmente porque o meu tio ficou sério como nunca tinha visto.
- Meus queridos sobrinhos, chegou finalmente a hora de saberem tudo o que estes anos vos foi ocultado.
Deu-me um aperto no coração, só consegui pensar que alguma coisa tinha acontecido aos meus pais e o mais provável era neste momento ser órfã. Devo ter ficado branca, senti o sangue gelar e perdi as forças e o meu corpo escorregou da cadeira.
Quando acordei estava no meu quarto. Vinha um ar fresco da janela e os raios de sol entravam pelo quarto dentro reflectindo a luz nos espelhos. Olhei em volta e vi o João adormecido aos pés da cama com olhos inchados de tanto chorar. Ainda soluçava mesmo a dormir. Ia levantar-me para o acordar mas nesse mesmo instante a porta abriu-se, era o Rafael.
- Pregaste-nos cá um susto! – exclamou.
Os olhos vermelhos denunciaram-no. Nem sabia o que responder, as ideias ainda estavam misturadas e senti-me a desfalecer outra vez mas ele prontamente me segurou a mão. Perguntou-me se eu estava bem, se queria que fosse buscar água, mantas o que fosse preciso. Eu só lhe respondia “não, não” umas vezes só acenava com a cabeça. Foi aí que os tios entraram no quarto e fecharam a porta. Agora não havia como escapar às noticias, nem mesmo o meu corpo me podia poupar a elas desligando-se outra vez.
- Espero que te sintas melhor minha querida. Sabes que eu me preocupo contigo e não viria aqui perturbar-te com grandes conversas se elas pudessem ser adiadas. – disse o tio Manuel enquanto se chegava mais perto de mim. Nem ousei dizer nada, percebi que o melhor era ouvir, afinal não era isso que eu sempre quis? Saber a verdade sobre os meus pais e sobre a razão de tanto secretismo. O meu tio lá começou a falar depois de um longo suspiro.
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