Vários dias passaram desde deixamos a Capela e o bravo Padre Romeo, que mesmo correndo o risco de ser descoberto, ajudou-nos sem pensar duas vezes.
Perdi a conta ao numero do dias que passamos em viagem desde que despistamos os mouros pelo rio. Tinha a sensação de ter sido uma eternidade, mas a contar pelo número de vezes que o Sol e a Lua se erguiam alternadamente, não devíamos estar neste passo há mais de uma semana. As provisões com que nos abastecemos estavam agora a acabar e tínhamos apenas duas opções: confiar em alguém de uma terra pequena e alienada da informação do mundo (não era muito difícil, pior era convencer a alojarem-nos), ou então, roubar.
Ao avistar uma pequena povoação com chaminés a desenharem o ar coloquei-me a postos para avisar o meu pai, mas ao olhar de lance para o Pedro, as palavras não chegaram a sair da minha boca. Estava tão concentrada no meu cansaço que nem tinha reparado no estado em que o Pedro se encontrava, e pelos vistos, nem eu, nem ninguém.
- Pedro? – sussurrei.
Ele levantou o olhar na minha direcção mas este estava tão vazio que nem a alma lhe vi. Os olhos eram cercados por umas olheiras medonhas da cor de cinza, os lábios secos e sem cor, a tez pálida como a neve amontoada, o cabelo empastado dava-lhe ainda mais a sensação de definho.
- Pai!! O Pedro não está bem!
- O quê? – retorquiu olhando para trás pela primeira vez desde que voltamos a montar.
- Eu estou bem...não se preocupem comigo..
Ao aproximar-me mais dele para lhe medir a febre ouvi algo que parecia trespaçar o ar.
Uma flecha moura acabara de aterrar mesmo em frente ao cavalo de Pedro, fazendo com que este relinchasse colocando todo o seu peso nas duas patas traseiras e mandando Pedro ao chão.
- Mouros!! – gritou António.
- O despiste não nos ajudou muito...desembainhem as espadas!
Feixes de luz rodearam-nos enquanto revelávamos as armas, ou seria algo mais...
- Formação circular! – Ordenava David – Escudos a postos, protejam os cavalos, armas ao peito! Gualdim, estratégia!
- A sudoeste as fileiras são mais pequenas, não adianta oferecer resistência, temos de arranjar maneira de fugir. – Improvisou Gualdim olhando suspreendido pela situação.
- Ouviram o homem, Rafael vem comigo À frente, temos de abrir caminho a todo o custo, António! Cobre o meu lado esquerdo! Miguel, no fim do grupo, usa os dois escudos para proteger a rectaguarda! Liena..no meio de nós, mantei o Pedro e o embrulho a salvo!
Quando as ordens acabaram ja nós estávamos a caminho ocupando as posições comandadas, Pedro ia cambaleando à minha frente em cima de Angelus enquanto o cavalo dele acompanhava-nos em paralelo.
Os mouros desciam os montes na nossa direcção, enviando flechas velozes contra os escudos de Miguel que cavalgava de costas mostrando uma confiança sobre-humana no seu animal. O confronto directo aproximava-se e os olhares dos três guerreiros da dianteira mantinham-se estáveis tal qual três falcões de olhos postos nas presas. Invejava naquele momento toda aquela confiança e coragem.
O inimigo dirigia-se igualmente na nossa direcção, a pé, encurtando a distância entre nós.
Toda uma algazarra se apoderara dos nosso ouvidos, gritos de emboscada ecoavam pelo vale no sul de terras gaulesas. Subitamente, tudo se silenciou, e eu ouvia apenas os passos dos nossos bravos lusitanos como batimentos cardíacos...um, dois....um,dois....um,dois e uma luz irrompeu pelo ar quando as espadas se cruzaram e as nossas criaturas flutuavam por cima dos mouros. A primeira fileira estava para trás, a segunda também, e Luz e égua assustada de Pedro é atingida na perna traseira e é derrubada.
- Miguel!! Cuidado!! – gritei a plenos pulmões.
Olhando para trás, Miguel só teve tempo de saltar do cavalo, abandonar os escudos e resgatar da bainhas duas espadas singulares para combater os inimigos no chão, enquanto o seu cavalo saltava por cima de Luz.
- Liena, vem!
- O quê?? Não pai! O Miguel!!
- O Miguel não fica assim, e se ficar é porque Deus assim o quis. Angelus andium!!
Angelus começou a correr na direcção do grupo para fora do perigo. Pedro saltou da minha frente.
- Pedro, volta aqui!! Estás doente!! Não podes...
- Minha Liena, a minha pequena irmãzinha...Miguel está ali por minha culpa...eu já perdi a Luz, não deixarem que percam o nosso Miguel Ângelo...foi um prazer partilhar esta missão, até à próxima.
E com um sorriso doente e fraco virou as costas e lutou com as forças que lhe restavam. Uma nuvem de pó envolveu-os enquanto nós fora do ângulo de visão nos misturava-mos rapidamente com a paisagem. Uma sombra veloz sobressaiu da nuvem de morte sã e salva, era Miguel no seu cavalo que fora em seu socorro e sozinho seguiu em direcção oposta, levando o inimigo a segui-lo para noroeste. Sozinho.
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