-Não...- Digo-lhe, senhora Marcolina. O Jerónimo está preso. Ainda não sabia? Então...Até é o Manel que agora está no café. Não acredito que não sabia...
- Não...Mas porquê? Andou a fazer contrabando de tremoços? Eu não acredito que ando outra vez no contra...
- Não, dona Marcolina, nãaaao...Ele matou foi a velha da facalhada nas costas.
- Ai...Ai Jesus que se me apaga a luz! Ai acode-me Eunice!
- Mas não lhe quer que acabe de fazer a banana para levar ao casamento da sua prima Leopolda?
- Quero lá saber mulher...Ai que me estou a ir!
- Acudam! Acudam!- Gritava a Eunice enquanto eu desmaiava no cabeleireiro. A sorte é que estava sentada na cadeira...Já tenho grandes problemas de reumatismo, se caísse partia-me toda. Menos mal assim.- Ai, acudam! Cruz credo! Dona Marcolina, aguente-se!- Foi então que a Eunice agarrou no chuveiro, abriu-me a golela e abriu a torneira. Toda eu estremeci com o choque da água fria. O meu cabelo arranjado em banana olha...foi por àgua a baixo. O sétimo casamento da minha prima Leopolda, em A-da-Pipoca, terra de minha falecida mãe que Deus tem em suas graças, não contaria com a minha presença.
- Aiiiii!- gritei- Estou-me a afogar! Acudam! Acudam! Ai! AU! EUNICE!- A Eunice dera-me uma chapada. Também não era para tanto...
- Oh dona Marcolina, por S. Palito! Então mulher?- dizia ela enquanto todas as outras velhas que lá estavam a arranjar a crina olhavam embasbacadas para mim.
- Ai! Que coisa! Que coisa! A dispersar! A dispersar!- disse eu, fazendo um movimento para enxotar a velharia.
- Quer um copinho de água com açúcar?- perguntou a Eunice.
- Água? Não...Mas...O Jerónimo? Ele não matou ninguém, por nosso Jesus O salvador! Aquele inspector não tem provas! Mas quem pensa ele que é? Hum? Ai...isto não fica assim, não fica não!
- Pois...Mas sabe o que andam aí a dizer? É que ele andava metido com a Prudência...Sim! A costeleta podre! Ai...ri-me tanto quando...
- O QUÊ?- Não...o Jerónimo não podia ter-me trai...- Cala-te moça! Ai, meu S. Palito, ela não sabe o que diz!
-É totalmente verdade, dona Marcolina- dizia-me ela enquanto me recomponha a banana agora já sem vida e toda desfeita- As pessoas começaram a comentar porque umas parece que ouviram do café e depois outras também viram umas cuecas de homem penduradas no estendal da casa da dona primeira dama...Parece que a empregada, aquela rapariguinha que de vez em quando vem aqui fazer as unhas comigo, a Vanda, pegou em tudo, na roupa toda de cama, está a ver? E lavou aquilo tudo. Quando foi a estender olha...Apareceram as cuequinhas!
- De cama?...- Que horror! Que horror! Como é que o Jerónimo me pode fazer isto? Ai, credo! Não pensem que amo aquele homem mas...tivemos uma história...uma bonita história que nunca contei a ninguém! De repente lembrei-me: Se o Jerónimo estava preso quem estaria a tomar conta do Crispim? Levantei-me da cadeira, a banana desfez-se e fiquei com o cabelo todo esticado e comprido, como tinha, quando era nova. Corri para o café. O Manel estava lá a liderar um concurso de escarretas do balcão para o lavatório. Enrei, enojada e passei a porta que liga o café à casa do Bica. Encontrei o rapaz na cama a ler um livro.
- Senhora Prudência? Que gadelha!!
- Olá, meu querido...
- Meu querido? Senhora Prudência, sente-se bem?- Foi então que me cheguei ao pé dele e lhe dei um abraço. Aquele abraço que estava escondido à tanto tempo, aquele abraço que não podia ser dado porque podia fazer falatórios e cusquices...
- Oh...meu filho- deixei eu escapar da minha sagrada boca- Por Deus...Vem comigo. Quem toma conta de ti agora?
- O Marcolino- disse o rapaz. Era o papagaio que agora tomava conta dele.
- Hum...E que me dizes de ires agora morar comigo e com o Maroclino lá para minha casa, enquanto o teu pai não sai da prisão?- O rapaz saltou de contentamento. Num minuto fez as malas pegou no pássaro e fomos para minha casa. Levei-o a um dos quartos que tenho vagos, o mais bonito e espaçosos deles e ele adorou.
- Olha- disse-lhe- agora, eu tenho de ir às compras. Ficas aqui em casa, podes fazer o que quizeres, mas não mexas no lume, por nosso senhor Jesus Cristo. - O miudo concentiu em não tocar no fogo e foi brincar para o quintal. Eu fui ver o Jerónimo de seguida, sem me arranjar nem nada...Mas o que interessava não era isso. Era ir dar todo o meu apoio àquele que foi o grande amor da minha vida. Ele estava em Torres e por isso tive de ir de carro até lá. O policia levou-me à cela dele. Estava tão triste e quando me viu nem me reconheceu!
- Dona Marcolina?- disse ele.
- Sim, sou eu, a Lininha...- Disse eu, chegando-me o mais que podia às grades. Ele veio ter comigo e ficamos cara a cara.
- Finalmente, depois de tanto tempo decidiste soltar o cabelo...
- Ai! Credo não! Isto foi a Eunice que não conseguiu fazer a banana!
- Ah...
- O teu filho está comigo, não te preocupes.
- Obrigada, sinto tanta falta dele, Lininha.
- Eu sei Jójó...Eu sei...Mas tens de ter calma. Tenho a certeza que não cometeste nenhum crime e muito menos te meteste na cama com a ex. Costeleta, não é?- Ele não respondeu. Fiquei nervosa, por S. Palito!- Não é??- repeti.
- Matar não matei, Lininha, mas...Foi ela! Foi! Eu juro! Ela é que me levou e me agarrou e me...- Não queria acreditar! Depois de tantos anos, agora que queria uma reconciliação e viver feliz com ele, para sempre, com o nosso filho Crispim,o meu Jójó arranja outra! E é a velha e mal passada Costeleta.
- Jerónimo...Ela é uma mulher casada! Como foste capaz!
- Marcolina! Não te podes queixar! O único que se pode queixar sou eu! E quando tu eras casada e eu me apaixonei por ti, eu, um simples taberneiro, na altura jovem, muito bem parecido por sinal...Tu estavas casada com o paspalho do teu marido, o não sei das quantas Pimpolhete e nós vivemos um amor às escondidas! Um amor cego de paixão!
- Cala-te homem...olha os guardas!
- Ainda queres esconder? No dia em que te vi...quando estava a tirar um carregamento novo de tremoços para o café que acabava de abrir...linda! Cabelos ao vento! Linda, mas acorrentada ao Pimpolhete! Mas não descansei enquanto não foste minha, pois não? E eras casada, não eras? Ah...como era lindo quando nos amávamos em cima dos sacos de batatas podres, que obviamente não eram servidas no café. Faziamos puré!- O Jerónimo estava-me a envergonhar. Mas no meio de tudo, relembrar os velhos tempos estava-me a fazer bem...- E eu era tão jovem e cheio de sonhos! Sonhava abrir várias tabernas e cafés por este país fora. Lembras-te? Cada café teria o nome de um dos nossos filhos!
- Se me lembro...
- E tu Marcolina...Eras casada. Andámos quase 15 anos a namorar ás escondidas...Depois o teu marido morreu, nunca o deixas-te porque ele era podre de rico...Depois logo quando ele morreu tu subitamente foste para A-da-Pipoca porque estavas grávida e não querias que ninguém soubesse e eu fiquei ali...no café, a rezar por ti e pelo nosso catraio que haverias de parir! E não é lindo o nosso filho? Um tremoçinho!
- É...
- Pois...Depois entregaste-mo e até então nunca lhe disses-te que és a mãe dele...
- Eu sei! Eu sei! Perdoa-a mas eu cometi um grande pecado...tenho tanta vergonha, sou uma pessoa tão virtuosa e respeitadora e temente a Deus...Não podiam pensar que fui infiel!- O Jerónimo sentou-se no colchão de pedra que tinha na cela. E disse:
-Lininha, meu amor, meu único amor da minha vida da minha morte do meu café! Perdoo-te se me perdoares por ter ido para a marmelada com a dona Prudência...- Por Graça do Senhor! O que haveria eu de fazer?
- Anda cá, Jerónimo-disse eu fazendo-lhe sinal para ele se chegar ao pé das grades. E então, quando ele se chegou, desviei o meu cabelo para trás e agarrei-o e beijei-o! Um beijo lindo! (depois disto tenho de me ir confessar, ai que luxuriosa que estou, credo!)
- Lininha...
- Jójó...
- Lininha...
- Jójó...
- Lininha...Deves ter engolido o meu dente de ouro, está em falta!- desatei a tussir, com tanta coisa, não é que tinha o dente do Jerónimo entalado na garganta? Ai, cruzes!
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