- Não quero casar, mamã...Por favor! Eu fico de castigo para sempre! Até podia casar com qualquer pessoa, menos com ele, mamã...Por que razão estás a ser tão severa? Mãe! Fale comigo!Opaaaa!- Está quieta rapariga! Ai, credo! Assim não te consigo alinhavar o vestido!
- Oh...Você é cabeleireira, nem costureira é! Mãe...ainda vamos a tempo, não quero casaaaaaaaaaaaaaar!!- Ai meu S. Palito! A rapariga não estava quieta e eu ali, a tentar alinhavar o vestido de noiva que era da mulher do senhor Ferdinando Crostácio, um amigo do Jerónimo, fornecedor de tremoços. A dona Matilde queria casar a filha à força! E prometeu que depois da festa de S. Palito, o casório era o mais rápido possivel! Toda a gente sabe o que aconteceu, não é? Eu não sou cá de mexeriquices, mas...Andava ali a mastigar o padre Paixão. E ele? Que padre! Que padre no sentido de ser bom como o milho (ai, se conseguisse fazer-lhe um corte naquele cabelo preto...era muito mais do que um simples brushing!) e por o que fez à piquena de...21 anos! Enfim, agora está feita, a moça. Berrava que se fartava e não era por lhe espetar os alfinetes no traseiro. Não tenho culpa! A mulher do senhor Ferdinando tem 120 quilos e a Giselle deve pesar menos que um baril de tremoços. Tive de ajustar o vestido todo, aliás, tentava faze-lo enquanto a Giselle se mexia que nem uma enguia.
- Ai, Eunice! Tem mais cuidado!
- Oh rapariga, se não páras quieta espeto-te o alfinete na regaleira! Estás nervosa, estás agitada, porra! Tem calma! O casamento só está marcado para daqui a duas semanas!
- Pois, Eunice- disse a dona Matilde que assistia a tudo sentada num banquinho de piquenique que eu tenho no meu cabeleireiro, para arranjar as unhas às clientes, e que fiz questão de levar para casa da dona Matilde- Mas os preparativos têm de começar já!
- Olha lá, Gisellota, diz aqui à cabeleireira: Como o é o fisico do Paixão debaixo daquela batina preta? Hum?- A moça olhou para a mãe, que olhou para mim com um ar de quem me ia matar. Mas eu não me calei- Então...E como é que foi? Onde é que "o" fizeram? Não me digas...oh! Não me digas que foi no altar! Oh! Meu S. Palito!
- EUNICE!- gritou a velha enquanto a miuda chorava desalmadamente- Faça o seu trabalho de costureira improvisada e deixe-se de perguntas pecadoras. Bem sei também o que anda a fazer com o Costeleta e não lhe digo nada, pois não?- Corei. Fogo...
- Mãe- começou a miuda que saia do cimo de uma cadeira, a cadeira onde eu lhe arranjava o vestidinho...vestidão- Se não me deixa ficar com o Paixão e fujo! Eu amo-o!
- Mas ele é padre! Ai...- disse eu metendo-me.
- Está calada, rapariga! Prova o vestido, mas é! Antes também amavas o inspector e agora já não gostas dele, aliás, tornaste-te tão repugnante...Nem ele nem ninguém te ia ligar! Só mesmo o abécula do Manel.
- Mas mãe! Ele não larga aquele burro e cheira tão mal!
- Terás de pagar os teus pecados, minha filha. Agora já não há mais nada a fazer...Paciência. Eunice! Ajeita aqui a cauda do vestido, e amplia-a. Já que não vai fazer juz à brancura, à pureza, ai como desonras-te Quimbé, Giselle...Vai com uma cauda bem grande e só não vai com umas orelhas de burro porque ainda és minha filha!- A pobre moça lá voltou para cima da cadeira e eu lá lhe espetei mais uns quantos alfinetes no corpinho. Estava tão triste a coitadinha...Mas, andou aí a brincar com o fogo, neste caso com o fogo do padre...Agora olha. Eu falo, falo, mas eu também gosto de namoriscar! Não tenho pudor, ou nem tive, em dar um beijo ardente, em frente de toda a gente, na festa de S. Palito, ao meu bifinhoziho, à minha coisinha mais linda, ao meu Frederico! Ora...Ele está separado da Prudência, não é? Então...E ele diz que vai querer o divórcio! Por isso...é meu. Mas atenção! Eu sou casta e pura! E hei de casar de branco. Não vou para nova, mas se a Giselle me emprestar também o vestido que era da mulher do Ferdinando, ai...Eu caso com o meu Frederico. Enfim...O vestido ficou mais ou menos pronto. Agora ainda vai para Torres mesmo para uma costureira ver melhor, fiz o que pude. Quando saí da casa da dona Matilde vi o senhora padre, com a estátua de S. Palito na mão e a dirigir-se para a estação de comboios.
- Então, padre? Onde é que vai por o Palito?- perguntei, ao que ele me respondeu, bastante triste, por sinal:
- No lixo.- Será que ele ia deixar o sacerdócio para se casar com a Giselle? Ai, estou mesmo a ver: Ela ia a dizer sim ao mal cheiroso, o padre aparece lá em Torres e grita "Não! Casa comigo! Já não sou padre!" e depois casava mesmo ali! E o Manel...Olha, há de arranjar uma éguazinha qualquer que queira casar com ele. Era lindo! Lindo! Mas...
- O santo foi comido pelo burro Simão, e as festas já passaram, por isso...Aposto que nunca mais se vão lembrar o S. Palito.
- Mas vai de comboio para algum lado, senhora padre?
- Vou, sim. Vou comprar o meu bilhete de ida para a minha cidade Natal: Pastelinhos. Fica no Norte do país. Vou me embora, dona Eunice. Nada mais me prende aqui. Já dei o meu contributo para as festas de S. Palito, ajudei algumas pessoas e...desajudei outras.
- O desejo carnal é o pior, não é senhor prior?- disse eu, inocente, pura inocente, como se de uma criança me tratasse. Ele não me respondeu. Baixou os olhos e foi lá ao senhor Bonifácio comprar o bilhete para aquela que iria ser a mais triste viagem da sua vidinha. Ai! Eu apressei-me a contar à Giselle! Eu não gosto de...escândalos! Mas ela tinha de saber! Primeiro fui ao cabelereiro, atendi umas clientes, fechei a porta do estabelecimento e fui ter com a moça que chorava no quarto.
- Já aqui estás outra vez?- disse a dona Matilde, enquanto lia um livro, na sala, em voz alta para a cadela Patrícia que estava deitada ao seu colo.
- Vim ver a Giselle, trago-lhe aqui um uns apliques muito giros para ela por no cabelo! Ela está lá em cima, não está? Vou lá ter com ela. Adeus!- E corri, rapidamente escada a cima e ainda ia no corredor já ouvia coisas a bater contra a parede, vidros a partirem-se. "O que estará a acontecer?", pensei. Entrei no quarto e havia moveis fora dos sítios, cotinados rotos. A Giselle estava a ter um ataque de ira. Outro pecado mortal, lá está. Parece que a convivência com o padre fez com que os pecadinhos dela viessem à superfícies. Encontrei, então, a rapariga a chorar e a atirar tudo o que tinha à mão. Quando entrei, preparava-se para atirar a mesa de cabeceira contra a cómoda. O amor transforma a força humana!. Fui ter com ela, acalmei-a e contei-lhe tudo e ainda a fui por a chorar mais.
- Então? Que vais fazer?- perguntei.
- S-Sei lá, Eu-Eu-Eunice! Eu não posso fa..fazer na..nada!- disse a pobrezinha no meio de choro e soluços, agora já sentada na sua cama sem lençois.
- Oh, mulher!- Disse eu, a voz da experiência- Vai ter com ele! Vai com ele! Diz que o amas! Vá!- Ela ficou a olhar para mim e disse que a mãe não a deixava sair de casa até ser velhinha. Eis então que me propus a ajuda-la a descer pela janela do quarto! O amor move tudo! Até escandalozinhos que me farão encher o cabeleireiro de mulheres desesperadas por um coque ou umas permanente e famintas de uma cusquice bem cuscada! O negócio está mau e visto que o negócio do amor também vai de mal a pior, porque não fazer com que pelo menos um tenha solução?
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