Estava eu sentada na minha janela do quarto a acariciar a minha barriga que não parava de crescer e a pensar como o Mauzinho tinha sido um homenzão ao fazer produzir um bebé na minha barriga, quando vejo um oiço, e vejo, um grande alarido na rua! Pessoas iam para o meio da estrada, os cães ladravam e um carro verde a cair de podre passava na estrada aos "ésses" a apitar desde o começo até ao meio da vila. Vinha com latinhas a rebolar atrás de si e um burro agarrado ao porta bagagens que corria, e caia e reboladav (credo), conforme o carro balançava aos ziguezague, bom, conforme o carro andava. Olhei bem e tentei identificar as pessoazinhas: O homem do volante era o Manel! Não tinha carta estava visto. Mas ia tão feliz e tão contente que transpirava por todos os cantos do seu porquinho corpo e o cheiro dava para se sentir cá de cima da janela do primeiro andar. Apitava que nem um doido, que até tive medo que mexesse com o meu bebé...todo o cuidado é pouco! E gritava bem alto: "YEEEEI! TOU CAJADO! TOU CAJADO!". De cima da minha janela percebi que ele andava à procura de um cajado, mas logo percebi que ele tinha era casado com a filha da dona Marilde a Giselle. Ai, que nojo! UI...calma Marta! Tens de ter tento na lingua, o bebé pode ouvir! A rapariga vinha com o cotovelo de fora do vidro e a mãozinha em punho sustentava-lhe a cabeça que parecia que ia tombar a qualquer momento. Atrás, no carro vinha a dona Matilde e a mãe do Manel que estava em pé no banco e metida no tejadilho do carro a fazer sinal de vitória. O burro lá vinha de lingua de fora.- Amor! Amor! Anda cá a baixo!- disse-me o meu Maurício. E eu, com as mãos nas cruzes, desci a escada e lá fui eu. O Mauzinho estava à porta de casa e via todo aquele aparato.- Já viste"s" amor? Mais um casal feliz!- Não gosto e contrariar o meu marido, e por isso, mesmo grávida , continuo a limpar a humidade do tecto, mas não pareciam todos felizes com o casamento...O carro parou. A fumaça abrandou. O burro caiu de cançado e o povo veio todo em festa ter com o Manel que saia do carro e gritava: "EIiiii!! TOU BEM BOM! TOU CAJADO!". A multidão fez um circulo e levantou-o ao ar fazendo vários "vivas". A dona Matilde saiu do carro com muita pressa.Bateu com a porta, o puxador da porta caiu, a fumaça levantou-se e correu a meter-se na sua casa com um ar de quem a todos devem e ninguém paga. A mãe do Manel saiu também e foi idolatrada por todas as beatas e sopeiras da vila.
- Epá! Boa ideia, mulher! Casar o fedorento do teu filho com a pecadora!
- Boa, mulher! Pelo menos deixas de lhe limpar as ceroulas!-A Giselle estava dentro do carro. O Jerónimo tinha preparado uma festa no café e todos foram para lá.
- Tremoços de borla!!- Disse o dono do café- E todos foram.
- Maurício? Onde vais, amor?
- Tremoços de borla? Só não vai quem é parvo!- E saiu a correr. A rua ficou deserta e eu ia a entrar para casa quando olhei para o carro velho e vi a rapariga lá dentro. Nunca me dei muito com ela. É minha vizinha da frente "prontos"...Mas estar grávida faz de mim uma mulher melhor e fui ter com ela. Estava toda encolhida, oh! credo! estava quase nuinha! Bati no vidro que agora estava fechado. A miuda chorava, também...casar com um coprólito daqueles...O meu bebé deu uma volta e eu senti naquele momento e senti-me feliz!! Ele é apenas do tamanho de uma fava mas eu sinto! Eu consigo diferenciar de um simples gás! Bati, então, novamente no vidro ea rapariga, nada. Ia-me embora quando o meu bebé deu outra votlinha e percebi que era o sinal para eu nao deixar aquela piquena ali só. Entrei no carro e arependi-me de me sentar no assento do condutor. O Manel tinha suado e aquilo, para além de ter a marca de suor, cheirava mesmo mal e sol fazia um efeito horrivel, parecia que cozinhava toda aquele horror!
- Ai, credo! cheira tão mal aqui- disse eu ao entrar e pensar se ia sair. A rapariga apanhou um susto e olhou para mim toda borrada- O meu vestido não vai sobreviver a este cheiro...-Mas sentei-me e senti uma coisa mole debaixo do meu trazeiro.
- Olhe...acabou de se sentar em cima do pão com chouriço e molho de mostarda do estupor do meu querido marido- disse a rapariga- O meu vestido, vermelho, lindo, às bolinhas brancas, que condizia perfeitamente com o meu laço de cabelo, estava oficialmente arruinado!
- Hum...Não faz mal, deixe lá- disse eu- Não está muito feliz para uma recém casada e...está nua.- A rapariga olhou para mim com um ar de "tira-me deste filme"- Precisa de ajuda?- perguntei.
- O que eu queria era me ir embora e nunca mais voltar. Estou farta de chorar porque gosto das pessoas erradas!
-Não gosta do Manel?- A rapariga olhou para mim com um ar trocista. Era obvio, como é que ela ia gostar?- Pois...não gosta. Eu estou grávida!- disse eu, naquele dia ainda não tinha dito a mais ninguém.
- Parabéns...- disse a rapariga sorrindo um bocadinho.
- Sabe, quando tiver um filhote, as coisas mudam! Vai ver! O filho, olhe...como hei de dizer? Dá outra alegria!
- Não quero ter filhos do Manel! Ele é horrivel! É nojento!
- Oh...mas é bom moço- disse eu.
- Mas eu não gosto dele!!- Foi então que a Giselle me contou a história toda. Pobrezinha, tive imensa pena. Levei-a para minha casa e vestia-a para aquela que iria ser a sua noite de núpcias.
- Cá está! A minha camisa de noite de seda, da minha primeira noite de casada. Vá..experimente-a!
- Não vou usar isto- disse a rapariga pondo-a por cima do corpo ao ver-se ao espelho.
- Não diga isso! Olhe como lhe realça os marmelinhos! Vá...- A miudita vestiu-a e até gostou de ser ver com ela.
- Esta camisa de noite...Poderia ser usada para outra pessoa, noutro sitio, sem um burro.- disse ela trisitnha, tristinha que só vendo.
- Com burro ou sem burro terá de cumprir as suas funções de esposa. Ah! E amanhã conta-me tudo! Sem pudor! HI hi hi, tenho a certeza que até é capaz de ser bem positivo. Aprovei.te! Diga ao Manel para tomar banho...- Ao outro dia a rapariga veio ter comigo a minha casa e trazia a camisa de noite já lavada e engomada.
- Não era preciso...eu mesma lavava!- disse eu acariciando a minha pancinha.
- Não, eu só tenho mesmo de lhe agradecer- disse ela, outra vez tristinha. Fomos para a sala comer uns biscoitinhos de gengibre que tinha feito, umas sandes e um cházinho e ela contou-me como tinha sido a noite de nupcias dela. Os bolinhos, o chá e tudo mais foram vomitados na primeira retrete que me apareceu à frente. Que horror...Desde esse dia, ficámos amigas, as melhores amigas!
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