domingo, 22 de junho de 2008

Justiça!

- Nãooo! Não podes fazer isso ó meu betinho!- Dizia o Manel deseperadamente, enquanto o inspector e a policia de Torres(sim, porque aqui na nossa vila o unico policia é o...o...Esteves! Ah, espera, faleceu à dois anos, pois, sendo assim não temos policia) levava o Ostentação numa carrinha toda gira com umas minigrades atrás- Se o lebas e ficas cá tu bais apanhar! Ele não fez nada, bolas! É um homem do bem!- continuava o Manel, correndo, agora, atrás da carrinha. Correu...correu...correu...Até não o avistarmos mais. O rapaz tem folego! E não podemos negar que quando se trata de amizade o mal-cheiroso do Manel dá tudo por tudo, lá isso é verdade. Bom, a multidão disperssou no meio de muitos " Ah...não acredito" ou de "quem diria? Aquele ar de bonzinho!" ou até de " Bem feito! Anda aqui a matar gente inocente!Fez-se justiça na minha vila!
- Não acho, dona primeira dama- disse eu, quando ouvi o comentário da dona primeira dama que agora anda toda coisinha...Era amiga dela, ou dizia que era porque ela tem "papel", mas agora anda tão "baca".
- Não acha?? Oh senhora Matilde, não diga uma coisa dessas! Já viu? O malandro queria assassinar a dona Marcolina! E matou a sua prima! Credo...
- Acha mesmo que foi o coitado do Ostentação, senhora Prudência? Tenha paciência! O homem não faz mal a uma mosca! Está tão velho que nem forças tinha para matar ninguém! E o que vai ser agora da Patricia? Bonito serviço dona Marcolina...- disse eu para a dona Marcolina que se chegava a nós com um certo ar de culpada.
- Bonito serviço? Valhame S. Palito! Ele queria matar-me!
- Oh...Oh...dona Marcolina- era o Crispim. Aquele piqueno gosta tanto da Marcolina que é obra!- eu estarei agora sempre a protege-la! Mas...Acha mesmo que foi o Ostenação?
- Sim, Marcolina! Achas mesmo que foi o coitado do homem? Já velho, sempre com a cadelita...- dizia o Jerónimo que se juntava à festa. A ele juntou-se mais pessoas que de uma maneira indirecta apontavam o dedo à Marcolina. A primeira dama ainda a tentou defender, mas parecia que o mendigo era mesmo muito querido por estas bandas. Ela foi a correr para casa, agarrada ao crucifixo que trazia ao peito e o resto da multidão afastou-se como o sol que deu lugar a uma tarde chuvooooooooosa, que meu S. Palito. Espero que para as festas esteja bom tempo, porque isto assim...Enfim, começou a chuver tanto que corri para o primeiro abrigo. Entrei, então, na igreja.
- Padre PAIXÃO!!!- Gritei eu. Mas ninguém respondeu. Fui até ao altar e falei com a estatueta de S. Palito que um homenzinho que é agricultor mas artesão nas horas "vagas", de Torres tinha feito. Ao olhar para o St. Assustei-me. Estava tão feio o coitadinho. Um santo com uma bigodaça farfalhuda? Com...capaxinho? Gordo? Unhas dos pés salientes e bem amarelinhas? Um santo porco? Ai, Cristo. Mas mesmo assim, era um santo e eu tinha de rezar! Foi então que olhei para o santinho, ou melhor, desviei o olhar para baixo, ajoalhei-me e começei:
- Olá Palito, como estás? Bem, olha, eu tenho pecado um bocadinho pequenino ( ai! tinha me esquecido do meu véu! preto, pois claro, em honra do meu Quimbé! Mas agora pronto...O santo também, devido à aparencia não levava a cerimónias) mas há quem peque mais! Olha a dona Maroclina...Coitado do Ostentação. Sei que não foi ele e tu sabes também! Ou será que foi ele...Oh, santinho! Dá-me um sinal! Eu sei que não foi ele...Boa pessoa, gosta de todos. Vou ficar com a cadela dele até ele voltar. Ela não anda nada bem! Nem ela nem o Simão e toda a bicharada daqui da vila. Que coisa estranha, não é Palitinho? Cruz, credo. Mas estava dizendo: Dá-me um sinal e eu terei a legitimidade de dizer ao senhor inspector que não foi o mendigo! Diz-me quem foi o assassino da velha e que queria também matar a dona Marcolina.- Eis então que sinto uma presença. Viro-me para trás bruscamente. olho em meu redor e...nada. Olho para os lado e de repente...nada. Olho para o altar e...nada. Olho para o santo, com esperança de que ele tivesse a deitar lágrimas de, já não digo de sangue, como inventam por aí, mas lágrimas de...leite condençado, ou assim e nada. Mas sinto aquela presença e um cheiro caracteristico.Olho novamente para o Palito. Sei lá, o santo aparentava ser tão desleixado, vai se lá a ver que o sinalera um traquezinho? Isto, são santos, são santos mas podem fazer tudo. Aqui os da terra têm de andar a pagar pecadinhos. É então que grito: QUIMBÈ! Era ele...eu sentia-o.
Quimbé! Amore mio! Estou te a sentir! Meu...meu S. Palito de capaxinho belo!! Este é o sinal não é? Não foi o Ostentação, pois não? Oh! Obrigada! Quimbé, amo-te!- Eu gritava na igreja. Ninguém me ouvia, estava tudo em casa por causa da chuva que caia violentaaaaaaaa lá fora, xi! Então fiquei orgulhosa de mim. Eu! Matilde! Presenciei, ou senti, um acto divino! Deixei de sentir Quimbé. Senti-me triste. Mas mesmo assim fiz o esforço de, sim, eu fiz isto, afinal é só uma estátua, dar um beijinho no pé de S. Palito.
- Vou-me confessar, agora meu Palito.- E dirigi-me à sacristia onde esperava encontrar o padre Paixão. Mas ele não estava lá. Ia a sair da igreja quando ouvi uns barulhos vindos do cofecionário. Optimo! O padre devia lá estar, ainda me confesso hoje!O confecionário andava às voltas! O padre devia estar a ter convulções! Estava a dançar um cha-cha-cha! (Ai, como eu e o Jerónimo dançamos bem!!! E que rabiosque tem aquele velho dum diabo! Ai, desculpe Palitinho!) Então, fui até ao confecionário, ajoelhei-me e perguntei:
- Oh, padre! Está aí? Está bem?- De repente, o confecionário parou de saltitar. E ficou tudo muito quieto. Ouvi um pequeno "ai", que não era da voz do padre. Ouvi depois um "cala-te", que era da voz do padre e de seguinda um " hum hum", que vinha de qualquer coisa, que nãoa boca do padre.- Oh! Pisté! Psst! Está aí alguém?- continueu eu a perguntar e bati na janelinha que se abriu e então vi a cara do padre Paixão aos quadradinho. Arfava como um boi.
- Dona...dona Matilde! Então, por aqui?- o padre estava meio desconjuntado. Sou velha, uso lentes nos meu óculos bem graduaditas, sim senhora, mas não sou patareca! Olha...eu vi, ele tava todo alterado. E estranhei. Porque normalmente o senhor padre pergunta sempre, em vez de " Então, por aqui?", "Então, minha filha, conta-me os teus pecados".
- Pois é, vim me confessar, senhor padre. O senhor padre está bem?
- Estou muuuuuuuuuuito bem- dizia o padre depois de um- aiii! paremos!- disse ele.
- Ai, mas senhor prioir, ainda nem comecei!- disse eu confusa.
- Não, não, não era consigo dona Margarete, era com...Deus! S. Palito!
- Margarete? Matilde! Ai, senhor padre...Desculpe lá, mas não se está a sentir muito bem, aliás isso aí deve estar muito quente! O senhor está a transpirar! Saia daí.
- Não! Eu estou optimo aqui! Optimo!- disse ele a rir, depois de um: "shiiiiiiuuu", para mim?
- Pronto, senhor padre, eu calo-me! Mas saia daí. Foi então que me levantei sem mais demora. O senhor padre está sempre preocupado com as suasa "ovelhas" e eu não o iria a judar agora? Ora essa! Foi então que abri o paninho de veludo vermelho do confcionário e
- GISELLE???- A minha filha. Que vergonha. Ela estava ao colo do padre a fazer sabe-se lá o quê!! (lembrei-me de mim e de Quimbé, quando tinhamos as nossas noites de amor. Disse noites? Oh! Dias! Manhãs, tardes, tardinhas, noites, ceias! Hi hi hi! mas estava possessa!!!)- Sai daí minha badalhoca!- disse eu arrancando a minha filha dos braços do padre. Padre? Quilo não era um padre! Ela estava espantada, ui, pois não? Eu sou muito rápida! Sabia que ali havia molho! Ai, credo, molho não! Ui! Pronto!
- Mãe! Não é nada disso! Eu estava a...catar piolhos ao senhor prior! Ui...agora há tantos mãezinha...
- Estavas? Estavas? Com a saia toda arregalada? Minha...- pegava-lhe por um braço e abanava-a bruscamente, enquanto o jovem padre estava sentado ainda no confecionário, com a cortininha fechada, a pensar que eu não dava por ele...ui! Era mesmo aqui a Matilde.- Tu pensas, minha filha leviana, tu pensas, minha pecadora, que me enganas? Hã? Pensas? Agora que já tens 21 anos pensas que podes fazer tudo?- Eis então que o padre abre a sua cortininha.
- 21? Não era 18?- pergunta ele
- É 15, é 18 é 21, é como der mais jeito! Nem muito nova nem muito velha!- disse a minha Giselle. Que vergonha.
- Cale-se! Seu padre de merda!
- Mamã...Está na casa do senhor!
- O senhor...O senhor já deve ter ouvido e inclusive visto! Visto coisas bem piores...Curso do troco paço, curso da burrenhanha...Cala-te tu também! Se Quimbé estivesse aqui, Giselle...Que vergonha. E o senhor padre? Recomponha-se! Vá, saia cá para fora!- ele saiu. Saiu e apanhou um tabefe do tamanho de um bacalhau crescido que lhe apanhou o olho!.
-Oh, dona Matilde...Tenha calma. Já viu? Agora não vejo bem do olho...
- Eu digo-lhe! Eu digo-lhe se não vê bem do olho...Meu...Olhe, eu só não vou dizer a toda a gente o que você é, porque tenho consideração por Deus, que o acolheu na sua santa casa! Seu aproveitador!
- Mamã!
- Cala-te! Anda para casa! Andori!- E qual não foi o espanto aqui da Matilde quando olhou para trás e viu meia vila sem nome ali, na igreja, a assistir a tudo! OS meus gritos ecoaram na igreja e vieram todos! Ai, que felicidade. Mais um feito de S. Palito e Quimbé! De mãos dadas, os dois, a velar pelo bem da vila e pela justiça. As pessoas estavam preplexas. Podera! E mal eu saí lançaram-se ao padre com unhas e dentes. O Inspector era o primeiro da fila dos revoltosos. A Giselle saiu acorrentada verozmente à minha mão. O sol estava de volta e lá ia eu.
- Anda Patrícia!- gritei eu para a cadela que também havia visto toda a cena- Agora vens comigo, enquanto o tio Quimbé e o Palitinho fazem justiça!

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