terça-feira, 10 de junho de 2008

Raio dos bichos...

Estava sol. Havia algumas nuvens aqui no céu da nossa vila e eu estava a descansar esticadinho no banco do jardim aqui da nossa praça, com a Patrícia, claro, que me guarda sempre! A minha fiel Patrícia...A mulher que nunca tive. Oooora bem, lá estava eu até que me começou a cheirar a uma coisa esquisita e pensei que poderiam ser duas coisas: Ou já tinham aberto a barraca das pipocas para a festa de S. Palito, que anda para breve, e deixaram queimar o milho, ou a Patrícia estava mal da barriga. Sentei-me no banco e pensei ainda:- Epá, cheira a estruminho...- Foi então que perguntei à Patrícia:- Olha lá, oh Patrícia, andas-te a comer outra vez a feijoada do caixote de lixo do café do Bica? Minha cadela maluca?- Mas a bichinha nem respondeu. Achei estranho, ora bolas! A Patrícia entra em êxtase sempre que ouve a minha voz! Eu fiz tudo e mais alguma coisa: Gritei, abanei-a, peguei nela e virei-a de pernas para o ar e nada...a cadelita olhava para mim com um arzinho tristinho, tristinho...Heis que chega o nosso ex presidente, o senhor Moelas, ai...agora iam umas moelinhas...Não, o Costeleta, assim é que é. Epá umas costeletas grelhadas também marchavam!
- Então Patrício? Como vai a vida?- Perguntou-me ele, sentando-se ao meu lado no banco da praça.
- Carmindo, senhor...Carmindo Ostentação o seu mendigo, o seu servo...Tem uma moedinha? Ainda não comi nada hoje...
- Oh homem vá lá ali beber uma bica- E atirou-me um centavo para a mão. Eu corri para o café!
- Quero um bolo, uma bica, um bitoque!- disse eu ao Jerónimo que olhava para mim desconfiado.
- E vais pagar como?- perguntou o Jerónimo.
- Com esta moeda que o senhor Costeleta me deu!
- Isso só dá para uma bica ou para uma carcaça...Agora escolhe. Tu aqui não pagas fiado!- Sovina do Moelas, para não lhe chamar outra coisa. Ia comprar um café, adoro café, mas lembrei-me da Patrícia e como ela iria ficar feliz ao ver que tinha um pãozinho para comer e então comprei a carcaça. Quando voltei o senhor Costeleta estava lá no banco ainda e olhava para a Patrícia.
- Oh homem! A bicha está tão murchinha...Que é que ela tem?
- Não sei, senhor Costeleta...Ela andou ontem aí a vaguear e hoje acordou assim! Que é que acha que ela tem?- perguntei eu enquanto tentava fazer com que a cadelinha comesse um bocadinho de pão, mas sem sucesso. Sei lá! O homem foi presidente, deve entender mais destas coisas que eu, que sou mendigo.
- Ela parece que está...com uma enxaqueca!
- O que é isso, senhor?
- Sabes, aqui para nós, não sei bem...mas a minha mulher tem muitas! As mulheres e as cadelas devem ser parecidas nestas coisas! Ou então...
- Ou então o quê?
- Ou então a cadela anda naquela altura do mês que...
-Que...- Já não percebia nada.
- Deixa lá mendigo, não deve ser nada de grave.- Nisto vem o Manel a correr.
- Epá! Fogo, caraças! Biram o Simão? Biram? Biram? Biram ou não?
- Eh lá! Calma amigo!- O Manel estava alterado, todo suado (o que piora o seu cheiro). Deve ter vindo a correr lá da sua quinta que fica no fim da vila- O Simão fugiu?- perguntei.
- Poças pá! Eu acordei, tirei as ramelas com os dedos como sempre, espreguicei-me, como sempre, calcei as meias de sempre e fui ao palheiro onde dorme o Simão e ele não estaba lá! Já corri tudo e nada, fogo...- O Manel arfava de cansaço. Cheirava tão mal Deus meu.,.
- O burro deve andar por aí!- disse o Costeleta. E partimos os três à procura do burro. Andámos, andámos e encontramos o magano onde? Num beco ao pé do café do Bica! E...Oh...Era o mesmo local onde...
- Onde assassinaram a prima, irmã, conhada, sei lá, da dona Marcolina! Queres ver que foi o burro?- dizia o ex. presidente.
- Oh!!! Simão!!- Gritava o Manel, correndo para junto do burro que estava deitado, encostado à parede- Meu amigo! Porque te foste?? Ai...Simão! Tu não estás bem, meu irmão...Simão! Simão! FALA COM EU!!
- Manel!- disse eu- Ele não fala, seu parvo...Mas é estranho, ele está bastante em baixo...Tal como a minha Patrícia. Epá, isto já cheira mal!- E não era que cheirava mesmo? Cheirava mesmo muito mal naquele beco! Parecia que já não limpavam os esgotos da vila à anos. O cheiro do Manel ajudava, mas mesmo assim...Não era normal.
- Tanto o burro como a cadela precisam de ajuda médica!- disse o Costeleta- Providenciarei isso mesmo, meus caros eleitores! Eu sou Frederico Costeleta e vou vencer!- E fez um sorriso vencedor, como se nós achasse-mos muita graça àquilo, e saiu num passo apressado. O Manel estava debruçado sobre o burro que, de orelhas baixas, quase dormia.
- Oh, Simão...Que tens tu, meu amigo? Fala com eu...Surra pra eu! Oh, Carmindo!
- Hein?
- Achas que ele precisa de respiração boca-a-boca? Eu faço! Eu não tenho nojo do meu amigo!- Eu não tive tempo para responder...O Manel "acomodou" os lábios e...Bom...Ele estava praticamente a beijar o burro.
- Oh! Manel! Que nojo!!- Gritou uma voz vinda do inicio do beco- Eu sabia que eras nojento, e já te beijava pouco, mas se soubesse que para além de me beijares beijavas o burro...Que horror! E ainda queres que volte para ti!!- Era a Giselle, que ia a passar e viu o Manel a fazer respiração boca-a-boca ao Simão. É um rapaz impulsivo! Faz tudo para ajudar! Até juntar os seus lábios aos lábios de um burro mal cheiroso, apesar de o mal cheiroso não lhe fazer confusão...
- Não! Oh, amor meu! Giselle! Não estás a perceber, bezerrinha! Fogo, pá! Carmindo, fica aqui com o meu Simão que vou atrás da minha Giselle! Giseleeeeeeeeeeeeeeee!!- E saiu a correr. Eu tinha a Patrícia ao colo e sentei-me ao lado do Simão que parecia estar meio moribundo, o pobrezinho.
- Que é que andas-te a fazer seu burro? E tu Patrícia? Porque é que estão assim?
- Carmindo, és tu?- dizia o Crispim que me viu lá no beco com o burro e com a cadela. Incrível a quantidade de gente que passa por este beco...
- Sou eu sim, miúdo!- O miúdo aproximou-se e trazia ao ombro o seu papagaio, que tanto ele adora, o Marcolino- Então, estás bom?- perguntei ao moço.
- Eu estou, mas o Marcolino não...Está tão em baixo. Costuma estas mais alegre. Hoje nem cantou, não come uvas nem tremoços, não grita quando vê a dona Marcolina nem nada...Será que comeu alguma coisa estragada?
- Oh, puto...Isto hoje é assim, olha, os bichos hoje andam todos marados! O burro do Manel está como podes ver, a minha Patrícia está muito cabisbaixa e agora o teu piriquito...
-Papagaio
- Isso...Não sei...Alguma coisa está...
- Mal! Alguma coisa está mesmo muito mal!- Disse o inspector Manteigas, que tem andado desaparecido, entrando no beco.

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