-Viu-me lá na fronteira, dona Rosália?- E-eu?
- Sim...foi a senhora que me ajudou. Se não fosse a senhora a esta hora ainda estava lá, ou presa, quem sabe?- Eu arrumava as coisas da minha sacola suja, só me apetecia dormir na noite em que cheguei e por isso as arrumações ficaram para depois. A minha vida não foi nada fácil...Tanta coisa, tanta coisa para agora estar novamente sem o Bóris. Fugiu da prisão? Mas ele não viu que isso só ia complicar as coisas? Enfim, já não sei de nada! Eu fugi porque estava farta de tudo, desta vida, e porque queria ir atrás daquele que ainda hoje é o meu grande amor. Se fui até Paris? Fui, sim. Mas lá só tive chatices. Fiquei numa casa de "colegas da Melanie". Fui bem tratada...atenção! Bem tratada em termos de hospitalidade e simpatia! Não tive cá contactos com outros indivíduos que não o meu grande amor...Como sonhei, deitada naquele pequeno divan perto da marquise. Lembrava-me dos seus beijos, dos seus carinhos, das seus monólogos revolucionários que me faziam calar-lhe a boca com mais um delicioso e libertino beijo. Lembrei-me também dos senhores Bellini, da velhota, do meu amigo Matteo, de quem quero matar as saudades. Saudades das nossas conversas pela noite fora...Tive saudades das meninas Bellini, das suas zangas e diabruras e ainda mais do Nico, o miúdo mais querido de Coentros e mais porco. Ai...Até do senhor Custódio e da senhora Adelaide tive saudades. E do Ismael também, aliás, foi graças a ele que parti nesta aventura! Ainda nem lhe falei direito...Nem com ele nem com toda a gente! Mas agora no baile de máscaras vai ser mais fácil matar as saudades. Fiquei na casa da menina Rosália, que, curiosamente, já não é menina, é senhora. Grandes mudanças. Fiquei lá porque a casa é maior e para descançar. Se ficasse na dos Castro teria de falar de tanta coisa que agora ainda não me apetece contar. Se ficasse nos Bellini, a senhora Belina torturava-me noite a fora não só por causa do Bóris, mas para saber o que tinha feito. Grande jornalista dava a senhora Belina. É o jornal de Coentros. Um jornal internacional. Prossegui então com a minha pergunta:
- Então menina Rosália? Não me vai dizer o que estava a fazer na fronteira às tantas da manhã?- Ela abria cuidadosamente um fato que a senhora Paiva e Castro me comprou para o baile de mascaras.
- E o que é que isso interessa agora, rapariga? Despe-te mas é e veste lá aqui o vestido de noiva!- Vestido de noiva...Meu Deus! Eu deixei o Gil no altar! Como é que o vou encarar agora? A dona Rosália contou-me toda a aventura dele e da Melanie e da dona Bellina, entre outros, para me encontrar e encontrar o Bóris. Deus meu...Como vou olhar agora para a cara dele, depois de ter partido em mil bocadinhos o seu coração? Que horror, fui tão cruel para o Gil. Mas que poderia eu fazer? Ao menos por esta noite de aniversário do Dolce, no baile, estarei mascarada. Não tenho de dar a cara, se é que me entendem. Como irão reagir as pessoas?
- Hum...Primeiro- continuei eu- não respondeu à minha pergunta, menina Rosália e...
- Senhora!
- Seja...e segundo: Eu não me vou vestir com a senhor aqui...
- Não seja por isso eu saio!
- Não antes de me dizer o que fazia na fronteira àquela hora!- Ela já ia a sair quando se virou e disse:
- Eu e o meu marido fomos lá buscar uma encomenda da minha prima Janete.
- De onde?
- França.
- E os correios?
- Hã?
- Normalmente as encomendas vêm por correios...pessoas que trazem coisas...
- Ah! Mas isso...era importante, sabes? Foi entregue em mãos.
- E o que era?
- Ora! Tenho de te contar? Uma pessoa é simpática, ficas aqui para ficares sossegadita e és assim? Veste lá o vestido que é bem jeitoso, vá...- e deteve-se ao pé da porta.
- Hum...dona Rosália?
- Que é agora?
- Saia do quarto.
- Ah, ok- E saiu. Não me cheira nada bem esta história. E não estou ao pé do Nico! Quando me apercebi do vestido que me tinham comprado fiquei espantada...era mesmo de sonho! E deve ter sido tão caro. Uso esta noite e amanha faço questão de o devolver. E...uma máscara dourada. Os senhores Castro são tão queridos...uns verdadeiros pais. Pais? O Quim é o meu pai!! E deixei-o na igreja também a ele! Parece que quando andei fugida as memórias se apagaram...O meu único pensamento, para além do Bóris, constantemente, era " como é que eu vou sobreviver hoje". Não pensei em mais nada. Salvo quando pensava na marquise, à noite. Mas apenas tinha saudades, não pensava, se é que me faço entender...As coisas más, confusas e inquietantes ficaram todas em Coentros. As boas levei-as comigo. Vesti o vestido e olhei-me ao espelho do armário da dona Rosália. Era muito pequeno, só via o meu busto. Foi então que decidi partir à procura de um espelho de corpo inteiro e entrei num quarto. Era o quarto dela, da senhora menina Rosália. Só havia fotos dela espalhadas por todo o lado. Fotos com paisagens atrás que se viam que eram falsas, fotos na praia com um fato de banho às riscas, fotos dela num piquenique, fotos dela com a família e...espera...há duas meninas Rosálias? Iguais. Como duas gotas de água, na foto com menos 10 anos, é certo, mas...a menina senhora Rosália tinha uma irmã gémea!! Nunca contou a ninguém...porque será? E se...não. Adiante. Procurei um espelho grande e encontrei: Estava ao lado da janela do quarto mesmo ao lado da mesa de cabeceira que estava mesmo ao lado da cama cheia de folhos e flores e mil almofas de renda. Olhei-me ao espelho e fiquei sem reacção. Nunca na vida me tinha visto com um vestido assim e percebi que não era tão feia como me sentia. Cheguei a pensar como foi possível o Bóris gostar de mim...Não tenho nenhum atractivo! Mas com aquele vestido eu estava uma diva. E os sapatos? Ficava mais alta uns centímetros. Ainda bem que brinquei com os sapatos da minha mãe em pequena, porque agora ajuda a andar com aqueles sapatos que, apesar de não serem nem de perto iguais aos da minha mãe, têm salto. E a máscara? Ficava misteriosa, exactamente o que eu queria. Saí do quarto e fui me arranjar. Chegando à hora fui ter à sala, levando uma bolsinha que também a senhora Paiva e Castro me emprestara. O marido da dona Rosália: A sua máscara: Ele mesmo: Oficial do exercito alemão.
- Bem, gapagiga, estás muito bem aganjada! Olha lá! Não há gusso que te escape assim!- "gusso", soa tão mal...
- Obrigada, senhor "gusso", digo, senhor...
- XARAM!- A dona Rosália entra na sala. Tinha um vestido do século dezoito, pelo que estudei na escola.
- Gostam? Tenho conhecidos no teatro...emprestaram-me.
- Amog! Estás uma pguincesa! Mas agoga como é que sais do hall de entgada?- Esse foi o problema. Para sair, para andar na rua e até para entrar no restaurante. Eu, que queria ser o mais discreta possível, tive de levar com os olhares de gente admirada e assustada por a menina Rosália estar presa na porta do restaurante. Aquelas ancas do vestido eram demasiado largas. Cá para mim, é vingança de alguém. Por favor! Até na rua os cães ladravam e as crianças choravam quando a menina Rosália passava. Não fui discreta, portanto. A sua chegada foi anunciada pelo choro do Nico, uma pequena abelhinha com ferrão que fiz questão de abraçar mais tarde. Depois, segui-se o episódio das "ancas presas" era o alemão a empurrar de fora para dentro e os convidados dos Bellini a puxar para dentro. Um escândalo. No meio daquilo tudo, tocava a um canto um quarteto de cordas, que alegrava a malta tocando uma tarantela italiana, rápida, inspirada no puxa empurra da dona Rosália. Durante este episódio, matava saudades do restaurante a olhar para as mesas, para a decoração e para o...Gil? O Gil não estava vestido de noivo, como da última vez que o vi, mas de padre. Estava a um canto, a preparar qualquer coisa, nem me viu. Óptimo, estarei assim tão diferente? Olha...o Dário. Estava tão engraçado. Imaginem só! Vestido de mulher...quem diria?Uma mascara de penas e plumas rosas tapava-lhe o rosto. Estava ao balcão. Estranho.Cheguei-me ao pé do balcão e vi que preparava molhos.
- Se esse molho é para mim, prefiro sem nós moscada- Ele olhou para cima e estagnou.
- Sim senhora...a única pessoa que não gosta de nós moscada é...Regina és tu, amor!!! Amiga!! Estava a ver que nunca mais vinhas!
- Shhhhhhh! Não quero que meio mundo fique a saber que cheguei- Naquele momento a dona Rosália é solta da porta.
- Obrigadinha!- grita ela de braços no ar- Está tudo nos conformes!- Os músicos seguem para o fim da tarantela e as pessoas ou dançam ou comem da imensidão de comida italiana que havia. O Dário, entretanto enchia-me de beijos viscosos na cozinha. Tirou-me a máscara para me ver bem a cara, abriu-me bem os olhos, mediu-me o pulso e apalpou-me o rado.
- Tudo no lugar!- disse ele- Agora, vamos voltar para a festa, amor. Aquilo está um máximo- eu ia-me a virar para voltar para a festa...- Regina, amor, espera- disse o Dário. Há uma coisa que te quero contar...
-Hoje não, Dário, por favor! Hoje só me quero divertir...
- Como queiras, fofa!- disse ele pondo a mascara na cara e levando-me para a festança italiana. Bois, abelhas, fadas, mulheres do século XVIII com ancas do tamanho do globo terrestre, ciganas, minhotas, divas, capuchinhos esquisitos, padres a fingir, padre a sério, mosqueteiros e duendes, mulheres homens e homens mulheres e...príncipes? Tudo se viu naquela festa. Estava sentada numa mesa, com a senhora Castro, que apenas se limitou a levar uma máscara de cara que valia por todas as outras da sala quando alguém me estendeu a mão. Um príncipe. A tarantela já não era tocada e no salão dançava um boi e uma cigana, o senhor Belini e a senhora Francesca, ao som de uma música também italiana, mas uma música mais lenta. Aceitei o convite do estranho que apenas me estendeu a mão. Surgiram mais pares na pista e nós éramos agora mais um deles. A minha mão pousava no ombro dele e a sua tocava na minha cintura num envolvimento estranho e não totalmente desconhecido. Tinha uma mascara que lhe cobria o rosto todo. Se ao menos tivesse apenas os olhos tapados...Mas não. Comecei a falar durante a musica e alguns encontrões da menina Rosália, encontrões esses que ela não sentia. As suas ancas haviam ganhado vida própria e dançavam uma para cada lado.
- Esta música é bonita.
- Hum, hum- respondeu ele. Cheirava tão bem.
- Este quarteto é mesmo bom.
- Hum, hum- respondeu ele. Cheirava tão bem.
- O senhor é daqui de Coentros? Nunca o vi por cá...Bom, também andei um pouco por fora estes tempos porque...Bom, não interessa o porquê...-Naquele momento começámos a dançar mais para o lado da porta do quintal, começa-mo-nos a desviar, por assim dizer. Eu não disse nada, poderia até ofender o cavalheiro. Mas ele abre a porta do quintal e seguimos a nossa dança, sem ninguém notar, pelo jardim a fora. E paramos ao pé da fontezinha que o senhor Guiseppe fez para embelezar o pequeno jardim. Naquele momento, sem tantas luzes e cores e música alta, com apenas o som miúdo do quarteto, que tinha ficado na sala de festas, consegui ver o luar reflectido nos seus olhos. Pensei: Isto é demasiado romântico, o que estou aqui a fazer eu amo o Bóris. Mas naquele instante:
- Talvez a mim me interesse o porquê de teres fugido...- Semiserrei os olhos e olhei bem nos dele e, lentamente, aproximei-me do príncipe. Levantei a minha máscara. Suavemente fui levantando a dele. Surgiu um beijo demorado. Era ele, o meu amor. Não houve gritos, nem abraços exagerados nem muitas palavras.
- Estou com os Bellini, mas ninguém pode saber.
- Está bem...mas porque fugiste?
- Isso não interessa, Regina...O que interessa agora é que finalmente estamos juntos. Onde andas-te? O que fizeste? Deixas-te o Gil, viste o meu diário, o Dário contou-me e...
- HEI! MES AMIES! VAMOS CORTARRR O BOLO DO DOLCE PRAZERR!! Não querrem virr? AH! E a velha Belina vai fazerrr striipp tizeeeeeeeee! Borra?- Quem mais poderia ser? Melanie. Melanie bêbeda. Sem capuz, já. No momento em que entrou de rompante pela porta do quintal o Bóris virou-se para a lua, de costas para ela. E se querem que vos diga, mesmo que ela o tivesse visto ela nunca se ia lembrar. Naquela noite tive de falar com muita gente mas só um não me falou: O Gil. Tive de dançar com alguma gente mas só um me fez feliz: O Bóris. Tive de ver muita coisa mas só uma me chocou: A dona Bellina, vestida de "Minhoca de croché", pelo menos era o que dizia de que estava vestida, argumentando que era uma maneira de se manter quente e estar linda...Ainda me chocou mais quando lutava contra as malhas da sua "máscara" para dazer um "strrriiiipe teeezêêê!!!", como dizia a Melanie bebendo de um em um, humm...deixa ver...segundo, um copo com qualquer coisa. Até podia ser álcool puro.Ainda bem, e não sei como, que o Nico dormia ao meu colo quando tal acontecimento se deu. Pobre menino e pobre de mim. Olhei para ele, era tão fofinho e gordinho, e lembrei-me de que ficou mesmo muita coisa por dizer ao meu grande amor.
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