As coijas xão para xe fajer bem feitas. E eu fiz! Estive perturbado todo este tempo por cauja da minha filha, Regina Maria. Nunca lhe dixe que era pai dela porque não me foi, a bem dijer, permitido. A Aida e eu preferimos manter segredo e fingir que o Vasco da Pipa era o pai dela...Oh! Como era jovem quando procriei a Regina...Eu e a Aida eramos dois gaiatos. Moravamos em Canequinhas, uma terra, não muito longe de Moscardo. Eu morava na barraca da esquerda e ela na da direita. Dei por ela quando me pisou um calo que tinha feito no pé, ao deixar cair a enchada no dedo grande. Lavrava a terra, eu. Era mais uma mão para a terra do meu paizinho, Quim Perneta. Era perneta. Mesmo axim colocou ele próprio, com a ajuda do do meu tio Jojé do Deperdício, que tinha um ferro velho, um ancinho na perna. Ficava-lhe bem. A minha mãejinha é que não gostava muito, por cauja do chão da casa, ficava xempre todo riscado. Minha rica mãezinha, quanta cera comprava. Quando vinhamos da lavoura, comíamos, e íamos nos logo deitar. Quando antes do pôr do sol não estava um filho em casa, e chegava o paizinho...ui! Era tudo corrido ao ancinho. "LEVAS UM PONTAPÉ!", dijia o pai, e nós já saibamos que íamos acordar todos riscadinhos. Bons tempos. Mas estava a falar da Aida, era uma bela moça, agora em velha é feia, mas quando era nova tinha um bonito sorriso, que foi morrendo ao longo dos tempos...Não porque o Vasco da Pipa a trataxe mal, era bêbado e tal, e exa era a xua única virtude, mas porque os dentes foram caindo e caindo a ponto de lhe restar um pequeno molarzinho, com que comia velozmente os casqueiros. Ela gostava de mim, eu gostava dela, e um dia, estavamos nós a acabar o trabalho vai ela e diz se me quero banhar no rio. Ora eu, gaiato, cheio de calor, era Verão, claro que disse que sim. E fomos. Banha-mo-nos e coijo e depois paxado uns dias: "Olha Quim estou prenha". E eu " Epá, oh Aida, vira para lá exa boca" e ela " Cala-te que é verdade. " e eu "Oh diabo!". O problema é que ela estava de noivado com o Vasco, tinha mais terras que eu e tal, e então, como ia casar dali a uns dias combinamos axim, porque era uma vergonha para as noxas famílias e para o ancinho do paizinho. A Aida agora está lá para a nossa terra, o Vasco já não está entre nós e eu decidi contar à Regina que é feita da mesma substânxia que eu. Com muita sorte ou muito azar, olha, ela foi-se, mesmo no dia do cajamento, ficando isto tudo em àguas de bacalhau, não é? Depois do casamento da Aida, acabei por casar, sim, é verdade...Tenho filhos e tudo. Mas o meu irmão, o padre aqui da vila, decidiu que era melhor vir viver com ele, já que os meus filhos já são casados e a minha mulher é uma...-Melanie!
- Bonjour senhorr Quim!
- Oh, Matteo, trás aí mais um bagaço, filho, aqui para o tio Quim...Tão e tás aqui a fajer o quê? Não andavam atrás do...russo?- Digo indignadiximo ao ver, da janela do restaurante dos italianitos, o russo, de algemas, com o Xilva e mais uma cambada de pessoas, uma comitivajinha atrás dele. Fui logo para a porta. Levei comigo o copo. As pessoas vinham às janelas para ver aquilo tudo...Apanharam o russo, o Bóris. E...a minha filha Regina? Deixei passar a multidão que apedrejava o russo e chamavam-lhe coijas feias. Depois, fui falar com o Xilva.
- XIIIILVA!- Gritei ao vê-lo sair da esquadra- Espera aí um minutinho que prexijo de ter dois dedos de proja contigo.
- Você está bêbado?- Disse logo ele.
- Não! Eu nunca estou bêbado...
- Mas cheira a alcool...Chegue-se para lá, este fato é novo.
- Ah e é muito jeitojo, mas olhe, e...a Regina?
- Não sei de nada, não falo de nada, agora é tudo com os advogados.
- Não, não está a perceber, a minha filha Regina, não sabe dela?
- Não sei de nada! E agora deixe-me ir...Melanie! Espere aí!- E lá foi ele atrás da francesa. Será que ela trabalha às manhãs? E por onde andava a minha filha? Decidi ir à esquadra. Quando lá cheguei pedi para falar com o russo e lá fui eu. Na xela estava lá a dona Franxesca, levava uns bolinhos e um refresco ao recém chegado.
- Bons dias!- disse eu.
- Quim? Ma que esta a fazere aqui?
- Vim falar com o moxo. Prexijo de projear com ele umn minutitos...
- Eu já estava de saída. Arivederci, Bóris. Chio Quim.- E lá foi a madama. Eu cheguei mais perto das grades.
- Então, bons dias.
- Só se for para si...
- Então, meu rapaz? Que se paxa?
- Estou preso...
- Ah...É chato. Olha, e onde é que deixas-te a Regina?
- A Regina? Para que quer você saber da Regina? Espere lá...você é aquele bêbado do restaurante dos Bellini, não é?
- Não sou bêbado sou aprexiador vinicula.
- Isso não existe...Mas enfim, para que quer saber dela? Sabe o porquê dela ter fugido? Sabe? Eu pensava que ela tinha casado com o Gil, mas depois disseram-me que não, que ela tinha fugido...- O rapajola estava agora agarrado ás grades, inquieto.
- Olha, moxo, eu xó xei que ela fugiu, e é o qua andam a dizer por aí, para ir ter contigo.
- Comigo? Oh...meu amor!
- Eu? Epáááá!
- Não! A Regina. E que mais sabe?- Foi então que lhe contei o que tinha acontexido. O eu lhe ter dito que era o xeu paizinho e ela ter saído a correr; quando a Melanie e mais uns foram à procura deles, enfim, tudo mais ou menos.
- É incrível...Pensam que ela fugiu por minha causa?
- Pensam, não- dixe alguém atrás de mim- eu tenho a certeza- Era o Dário. O larilas.
- Dário!- dixe o ruxo- Que saudades!
- A sério, amor?- dixe o enrrabixado de homens.
- Não interessa...Onde está a Regina? Morro de saudades dela, quero estar com ela! Quando me disseram que ela não tinha casado com o Gil fiquei feliz mas depois disseram-me que ela tinha fugido e...o mundo caiu-me aos pés.
- Ixo é mau...
- Onde está ela? Tu sabes?- continuou o ruxo.
- Não sei ao certo...- dixe o rapaz. E começou a contar uma história que dizia que depois do casamento ele e o Jean, o puto da franxeja, a tinam visto arrumar as coisas rapidamente e partir para o porto, onde dizia que ia apanhar um barco para Deolindinhos e seguir para...Paris!
- Paris?? Como? Porquê?- dixe o ruxo. E então o Dário contou uma outra história xobre um livro que o Ismael da peixaria tinha dado, pelo Natal, à minha filha, e que era o diário dele, do ruxo Bóris, e que lá a Regina tinha visto que o Bóris ia para Paris.
- O Ismael? Eu nem o conheço!
- Pois, Bóris, mas quanto a isso foi um engano...Ele não tinha nada para lhe dar e então deu-lhe o que encontrou, eu mesmo já fui falar com ele, amor. Agora quando à Gigi, não sei como vamos fazer...
- Podemos ir à procura dela- xugeri eu.
- Já anda muita gente à procura de muita gente e gente metida onde não é chamada e gente onde não deve!- dixe o moxo do restaurante.
- E eu estou preso...Dário, achas mesmo que ela está em Paris?
- Ela é de ideias fixas, amor, ela se disse que ia para lá, é lá que ela está...
- Pois, mas eu estou preso...
- E eu estou bêbado! E também ando nesta vida!
- Senhor Quim!- dixe o Dário- o senhor está bêbado porque quer! O Bóris não pode sair daqui!
- Não pode?- dixe eu- Ixo é o que vamos ver!
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