segunda-feira, 20 de outubro de 2008

O olhar de uma criança ... perdão ... um homem!

Parece que a festa vai ser já esta sexta-feira. A mãe tem andado muito atarefada a preparar tudo e nos intervalos aproveita para fazer o meu fato. É uma coisinha ridícula, cor-de-rosa, com botões e cheio de remendos em tons semelhantes, já que o tecido não chegou. A verdade é que estou um pouco para o cheinho, quiçá obeso, mas a minha mãe acha que eu estou perfeito. Chama-me "porquinho". Sim e o meu disfarce vai ser esse. Eu perdoo-lhe pois é mulher e elas tendem a olhar para o mundo de uma forma pirosa, sonhadora e ... estúpida! Mas pronto o que se pode fazer, apesar de tudo faz um pudim de banana divinal e por isso está perdoada.
- Mio bébé está tão lindo! Coza fofa da mamã!
Eu dou um risinho irritante para ela se derreter e me deixar em paz depois de um último "aperto" de bochechas. Queria ver se ela gostava se lhe fizessem o mesmo! Ás vezes ouço o meu pai a tentar as "bochechas" mas a resposta dela não é um risinho irritante mas antes uma chapada ruidosa seguida de um "abuzado".
Como está na hora do jantar a minha mãe desceu para ajudar no restaurante. Aproveitei para gatinhar até ao quarto do russo para continuar a minha leitura. A mamã ainda não mexeu no quarto desde que ele saiu, em parte porque a avó não a deixa, diz que ele vai voltar e por isso não se vai mover uma cadeira que seja. Ela vai para lá todos os dias, abre os armários, tira as roupas das gavetas e deita-se na cama abraçada a elas. Cheira-as, beija-as eu tenho impressão que a velha tem andado com as cuecas dele vestidas.
Bom, mas eu tenho é de procurar o livro ... ora eu deixei-o em cima da mesa-de-cabeceira. Onde está o livro??? Mas ... eu tinha-o deixado aqui tenho a certeza! Desatei a chorar.
- Qui foi mio amore? Tens cocó?
A consideração que esta mulher tem por mim! Ou está com fome, ou borrou-se ... francamente, este é claramente um choro de "mãe auxilia-me na procura do livro Crónicas da Batata Ferida de Dimitri Tuberculov"!
- Oh pobrezito! Devem ser cólicas ... mama chega aqui por favore!
- Le amore di mi vita voltou?
- Non mama, o Nico está com cólicas!
- Qué puto maricas.
Já te digo quem é o maricas velha trabiteira. Levanto-lhe a saia e ...
- Ah!! Maledito ... vais levar umas palma...
- MAMA? Essa cuecas são de ... MAMA!
- E depois? E-eu fiquei sem cuecas e ... tu não lavas as minha cuecas tenho de me arrandjar!
- Por amore de Dio tiro isso mama.
- Pronto, pronto!
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH! Ponha de novo! Ponha de novo!
Nunca na minha vida pensei ver a ... intimidade de uma senhora de idade e prefiro não ter de assistir novamente ao ...
- Oh vomitou! O mio porquinho ... o almozo fez-lhe male. Pronto já passou!
E pronto, mais um dia que fiquei na agonia de não saber o que aconteceu à batata soviética ... se foi cozida ou assada. A mamã deitou-me na minha cama e apagou a luz. não tinha sono e fiquei a olhar para o tecto e a ouvir o barulho vindo do restaurante. A noite foi concorrida, ouvia-se muita gente a falar mas não conseguia perceber o que diziam. Depois comecei a pensar no meu fato, aquela coisa horrenda e cor-de-rosa, posso ser apenas um bébé mas tenho uma reputação a manter. O Jean-Paul também vai cá estar e vai me torturar a noite toda se me vir naquele estado. Tenho de fazer alguma coisa.
Os meus pensamentos foram interrompidos por um grito. Pareceu-me ouvir a Panelona a falar e depois a minha mãe gritou qualquer coisa que não percebi. Depois ouvi alguém a subir as escadas a correr, passos no corredor que param junto à minha porta. Fechei os olhos fingindo estara dormir.
- Nico? Estás acordado filho?
Mesmo que estivesse a dormir ela fez-me o favor de me levantar da cama. Levou-me para à rua. Estava muito frio e a chuviscar. Tapou-me com o seu casaco e entrámos num carro. Para onde será que vamos?
A viagem foi curta, menos de 10 minutos. A mamã e o papá deixaram-me a mim, às gémeas e ao meu irmão na casa dos Paiva. Despediu-se dizendo que iam fazer uma curta viagem e que estavam de volta na manhã seguinte. Deve ser grave para terem fechado o restaurante tão cedo. O senhor Paiva e Castro segurou-me ao colo. Gosto do homem. Inteligente e de poucas palavras, a primeira a pessoa que me trata como um adulto. Levou-me à janela para os ver partir. O carro era do marido da Panelona. Ele ía a conduzir com a esposa ao lado, a mamã e o papá vão no banco de trás. Coisa estranha!
- Não te preocupes os teus pais foram tratar de uns assuntos.
Olhei para ele com ar de quem quer mais informação ... ele percebeu-me.
- Parece que a minha Regina está na fronteira mas não consegue entrar no país porque não tem identificação. Eu bem queria ir ter com ela mas a Malú não me deixa, diz que estou velho para estas coisas.
Tentei transmitir-lhe, novamente através de um olhar, que as mulheres não percebem nada de ... coisas. Ele percebeu-me.
- Tens razão Nico eu devia ter ido. Não confio naquela mulher.
(Na minha mãe?)
- Não. Na Rosália, ela quer alguma coisa não ajuda as pessoas sem outra razão ou algo que lhe convenha. Ainda estou para perceber como é que ela soube onde a Regina estava.
(Deve ter sido através do marido.)
- Não ela sempre teve problemas de reumático!
Ele não me percebeu.
Dormi confortávelmente numa caminha de menino crescido, desculpem, numa cama de homem. Fui o primeiro a acordar e por isso resolvi dar uma volta pela casa, estava curioso para conhecer a biblioteca. A casa é grande, tem dois andares. Como todos os bébés odeio escadas e por isso rezei para que tudo o que me interessa-se estivesse naquele piso. As escadas são complicadas e não percebo como se utilizam. O meu percurso foi subitamente interrompido.
- Oh qui coisita mais fuofa!
Uma empregada espanhola, era só o que me faltava.
- Tão gordito.
Tentei ignorá-la mas ela pegou em mim e não pude fazer nada. Beijou-me, beliscou-me, abraço-me ... bolas que rapariga carente! No último abraço fiquei sem ar. Quase que desfaleci!
- Que está você a fazer? Deixe o Nico em paz não vê que a criança está roxa?
- Perdon senhore Paiva.
- Vá trabalhar "senhorita".
- Desculpa Nico não te falei da Pilar a nossa empregada. Ainda bem que estás acordado quero-te mostrar uma coisa.
Parece que leu os meus pensamentos. Levou-me à biblioteca e percorremos as estantes, as prateleiras ... foi mágico! Tentei dizer-lhe "adopte-me" com os olhos mas ele mais uma vez não percebeu. Acho que perdemos a nossa ligação.
- Eduardo! A Gigi chegou!
- Gigi!
E pronto. Quase que me deixou cair ao chão. Beijou-a, abraçou-a enquanto chorava desalmadamente. A rapariga estava diferente. Continuava bonita, mas estava magra e com um ar cansado. Deve ter tido uma viagem dificil.
A Panelona estava à porta com um ar misterioso, como se estivesse a planear alguma coisa. Depois veio juntou-se aos outros e anunciou que a Regina ía ficar na casa dela e não voltaria a trabalhar no restaurante. O Eduardo protestou mas a Regina nada disse. Saiu com a Panelona e o marido e nem se despediu.
Evitou-se falar na Regina, principalmente por causa do russo. Todos sabiam que estava fugido e não queriam que ele fizesse uma loucura e fosse apanhado novamente. A policia começou a desconfiar do padre e o papá ofereceu-se para abrigar o russo novamente. Volta hoje à tarde. A avó ainda não saiu da banheira, tem estado de molho a manhã toda. O Gil tem andado pela casa a protestar por causa do russo e a exigir que lhe contem sobre o paradeiro da Regina.
Para acalmar as coisas a mamã pediu para que ele e o Amadeu fossem ao mercado a "Trombas" para não haver confusão. Eu aproveitei e vomitei o meu fato de porco e a minha mãe começou a fazer um de abelha. Sempre é uma cor mais masculina.
O russo chegou descretamente pelas traseiras. E descretamente a minha avó atirou-se a ele.
- Amore mio!!! Nunca mais vais fugir de mim!
- Senhora Belina tenha calma. Não quer que me apanhem pois não?
- Claro que no. Vo parlare mais baixo amore!
- Deixe o homem mama! Vamos venha para cima o seu quarto está na mesma à espera que regressa-se.
- Obrigada. - disse o russo dando-lhe um beijo na face.
A minha mãe corou. Eu não sei o que é que aquele homem tem mas é o meu herói. Quando for grande quero ser como ele!
- Eu sei que pode paredzer cedo mas ... vamos ter a festa amanhã e ... eu arranjei-lhe um fato! Era do Giuseppe, mas agora não lhe serve. O desgrazado engordou!
O russo riu-se. Era o fato de principe do meu pai. "Princeppe Encantado" como ele sempre dizia. Não sei porquê mas acho que ele não gostar nada disto.
- Não posso aceitar! E o seu marido?
- Não se preocupe, o Giuseppe já tem fato! Fiz-lhe um que lhe serve que nem uma luva ... Boi! Com cornos e tuto!
- Está bem, então aceito.
No dia seguinte as coisas não foram tão pacíficas ...
- O Quê??? O meu fato???
- Sim Giuseppe acho que é bom mudar ... e tens de admitir qué engordas-te muito desde o ano pazado.
- Engordar ??? Io?
Ela lá o convenceu com um segredinho seguido de um sorriso malandro e é claro que eu sei o que isso significa. Ela vai devolver-lhe as botas de cowboy que lhe tirou na última vez que o apanhou com outra, envergando as ditas botas.
O fato de abelha não ficou nada mal. Tinha um ferrão e tudo ... o Jean-Paul ficou cheio de inveja. Aquele menino da mamã estava vestido de mosqueteiro ... espera lá! Ele tinha uma espada! Também quero buááá!!!
A Melanie estava muito produzida. Eu nem percebi qual era o disfarce dela, mas todos os homems ficaram a olhar para ela especados mal ela entrou. Tinha um vestidinho curtinho, apertadinho e com uma cor esquesita, era ... quase cor de pele e ...
- Transparente? Melanie vai por alguma coisa ... tapa-te com a capa ao menos!
Quando a mamã disse aquilo os homens começaram a olhá-la de forma maldosa. Depois é que reparei que a Melanie tinha um cestinho. Era o Capuchinho Pelado (na verdade ela tinha lingerie por baixo, mas o papá achou o nome engraçado).
Foi então que ela entrou. De vestido branco e longo, com o cabelo negro apanhado e uma máscara dourada. Estavam todos embasbacados com tamanha beleza. Percebi que ninguém a tinha reconhecido, mas eu vi logo que era a Regina. O russo também a reconheceu quando o vi estender a mão e a convidou para dançar.

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