- Percebes-te tudo, meu filho?- Percebi, senhor padre...O Dário finge desmaiar, o senhor depois passa-me as chaves, corro, troco de roupa com o Quim.
- Então? Já não chega de falatório e pecadinhos?- disse o guarda, o Zé, um fofo.
- Ah! Sim- disse eu- falta só um pecadinho pequenino...Mas como está tão sozinho eu vou lhe fazer companhia e deixar este senhor se confessar em paz.
-Não, não se incomode...
- Faço questão! Até porque não é de bom tom estar aqui a ouvir o que este belo macho fez de mal na vidinha...Vá, vamos lá os dois conversar! Por acaso viu por aqui o Silva?- perguntei.
- Não, ele foi visitar a mãe.
- Óptimo!
- Óptimo?
- Claro, assim estamos mais...à vontadinha!- Nunca trocaria o russo pelo Zé Carlos! Oh, Cristo! Nunca na vida, isso seria um grande pecado, um pecadão! Mas pronto...Lá teve de ser. Ah! Já me esquecia:
- Bóris!- sussurei para o russinho, antes de seguir atrás do Zé- se o plano A não der certo, parte para o plano B!
- Hã? E como é que eu sei qual é o plano B??
- Vais saber!! Beijos.- E lá fui eu atrás do Zé Carlos. O Zé Carlos sentou-se numa cadeirinha de madeira, logo à saída das celas e eu fiquei em pé, a olhar para ele e para o guarda que organizava uns papeis numa secretaria ranhosa mais à esquerda. O silêncio era um horror.
- Está húmido...Ainda apanha aqui uma daquelas doenças dos ossos que agora se ouve tanto falar!- disse eu- Não o aflige?
- Nã! Sou forte!
- Lá isso é...E agora é guarda? Que giro...O que mais ambiciona?
- Hã? Não percebi.
- Nada, deixe estar...Está mesmo fresquinho aqui, possas! Estou a ficar com friozinho...Não tem uma mantinha?
- Não tenho cá nada dessas coisas...só uns cobertores nas celas.
- E não me quer ir buscar um? Estou a morrer de frio...Este Inverno tem sido gelado...Não acha?
- Sim, mas não tenho autorização para abrir as celas, peço perdão- Foi então que decidi que tinha de agir! Comecei então a encenar. Sempre tive jeito para o teatro, sou tão gira!
- Ai...Atchim!!
- Santinha! NHO! Desculpe...
- Ai...estou a sentir uns calores...Uns calafrios, uma dor de cabeça uma...acho que vou desmaiar!!!- encostava-me a uma parede fria daquela espelunca, a minha mão pousava suavemente sobre a minha testa e revirava os olhos de uma maneira tão doce que até me fez chorar de emoção...O que foi bom.
- Não vai nada desmaiar!- disse o Zé Carlos, levantando-se rapidamente da sua cadeira, assustando o seu coleguinha fofinho da secretária. Ai, que corpo! E a farda de guarda? Um xuxuzinho! Deixei o Zézinho se aproximar de mim e caí-lhe nos braços docement! Que musculos!
- Epá!! Oh Pascoal! Ajuda aqui que a bicha caiu!- Disse o Zé comigo nos braços. Naquele momento...
- Dário, meu filho!
- Senhor padre! Ele ou ela desmaiaram!
- Espere- disse o padre- tente deita-lo na secretária!- Esperto, o senhor padre, sabe a toda! Será que é gay? Bom, naquela coisa de me pegarem pelos ombros, de me pegarem pelos pés de me...oh! Que homens! O senhor padre zuca! Tira as chaves do bolso do Zé...Oh, Deus misericordioso! Ele mexeu no bolso dele! Porque é que tenho de ficar com os papeis mais frágeis? Não esperavamos que ele tivesse guardado as chaves no bolso, na verdade pensavamos que estavam penduradas na parede, por cima da cadeira dele, mas não...só nos dificultou a vida e o plano!
- Então, senhor prior? Onde é que está a pôr a mão?
- Ah, meu filho, Zé Carlos, isto é uma nova lei da igreja!
- Hã? E porque é que tem as chaves na mão?
- Hã? E-eu? Ah, isto...Pois, simboliza as chaves do céu! De S. Pedro, o guardião do paraíso!- Mas o Zé Carlos não é tão burro como isso. Ia se lançar ao padre (quem me dera) para lhe tirar as chaves da mão, quando de súbito eu acordei.
- CORRRAAAAAAA! PLANO B! PLANO B!- Gritei eu agarrado ao Pascoal, aquele que quiçá, um dia, será o meu amante quando me casar com o Bóris, isto se a Regina o regeitar...O que não vai acontecer, ou seja, Pascoal, meu amor, és meu. Ao ouvir o meu grito, o padre transformou-se num verdadeiro...hum...homem! Beijou o seu terço de madeira, que trás sempre ao pescoço, arregaçou as saias e, com as chaves na mão, correu como o vento até à cela do russo, que o esperava ansiosamente belo. Para dificultar a tarefa aos guardas, agarrava com unhas e dentes o Pascoal e tentava beija-lo, ali, selaríamos a nossa paixão repentina. No entanto, sou só um e não consegui impedir que o Zé Carlos corre-se atrás do padre, que só dizia "perdoai-me senhor". Não consegui por muito mais tempo segurar o Pascoal, ele era forte e másculo e atirou-me para o chão num acto sedutor de violência. Caí no soalho como uma menina desamparada e fiz beicinho, transportando o meu lábio inferior para a frente e fazendo-o tremer como se estivessem sete graus negativos. Mesmo assim, sem saber porquê, o Pascoal não se rendeu, e sendo assim, tive de pegar numa cadeira e dar-lhe com ela na cabeça, quando se preparava para seguir atrás do Zé e do senhor padre. Fez um estrondo enorme e pensei: "É por uma boa causa, amor, um dia vais me perdoar...". Depois lixei-me par ao Pascoal! Corri atrás dos outros e ainda consegui ver o Zé Carlos tropeçar no Quim, que tinha alargado o seu leito de descanço pelo chão todo do corredor das celas! O Zé caiu no chão, o padre abriu as grades da cela e...oh, não! O Zé vai se levantar! Tens de entrar em acção, Dário, amoooor! Saltei para cima do Zé...No ar, antes de cair em cima daquele corpo extremamente transpirado, senti-me leve, como uma pena, aquele salto pareceu durar minutos, e, finalmente, passou-me tudo pela cabeça: A Regina, o casamento, as situações por que passei, como estava a fazer uma boa acção e o mais importante de tudo: O facto de perceber que naquele preciso momento tinha conseguido resolver o meu grande problema, que atormenta à anos: A barriga inchada. POFFF! Caí!
- Sai de cima de mim bicha maluca!- Disse o Zé Carlos. Que excitação! Não aguentei, tive, sim, tive mesmo, foi um esforço, de beijar, sim, beijar, aquele bigode farfalhudo!! Entretanto, entre o beijinho, gritava: Plano B!(mais beijinho, o Zé esperneava) Plano B! (continuação do beijinho, o Zé grunhia)Plano B! (continua, o Zé esperneava e grunhia e tudo mais! Mas eu não o largava, não sei onde fui buscar tanta força! O Quim acordou estremunhado e eu fiz-lhe sinal para ir atrás dos outros. E lá foi ele. Depois, o que vou contar agora, foi o padre que me contou. Não sabiam o que era o plano B, mas logo ficaram a saber. Ao ouvir os outros guardas a chegarem esconderam-se numa portinha nas traseiras. Ah, ah! A portinha onde tinha guardado o plano B! Fiz questão de pôr lá dois sacos de plástico que diziam "Aqui está o plano B".
- Padre! O plano B!- disse o russo. Abriram o saco.
- Roupas?
- De senhora?
- De pêga, quer o senhor padre dizer!
- Jesus!- O papel dizia. "Vistam-nas". E vestiram-nas! (passado alguns minutos)
-Epááá!- o Quim avistou-as- Mas que beldades! Da onde saíram as meninas?- Eu também as vi, e logo larguei o bigode do Zé Carlos, para olhar para tais...aberrações. O Bóris, mesmo em gaja, fica um pão! De cabeleira loira e vestidinho rosa, era a melhor menina do plano B! E aquele leque lindo, que lhe cobria o rostinho...coisa mais linda! O senhora padre estava de freira. Uma fantasia, parva, que arranjei num bar de strip em A-dos-Cagados, perto de Moscardo. O Zé Carlos ao se ver solto por mim, começou a correr e desapareceu, ao abrir a porta das traseiras, deixando-nos sozinhos, com o Pascoal caído no chão.
- Rápido vamos embora daqui!- disse o Bóris arrastando as saias e lançado cabelinhos loiros da bela peruca que tinha.- Ai! Dário! Que foi isso?- Sim, eu apalpei-o! Que rabiosque!
- Vá, não podemos perder tempo!- disse o padre/freira arrastando do Quim.
- Esperem!- disse eu- E o Pascoal?
- O Pascoal? Vai ser minha testemunha!- disse o...Zé Carlos!!! Bolas! Percebeu que as miudas eram eles! Começámos a correr, mas ele vinha atrás de nós. Agarrou-se às saias do Bóris, ele caiu e eu não tolerei a presença de mais uma mão no meu território. PIMBAS! Levou com a mesma cadeira com que levou o Pascoal. Ficaram os dois estendidos no chão e nós lá fomos, pelas traseiras para a casa paroquial. Era hora de almoço, estava tudo a almoçar, não estava ninguém na rua e os guardas que nos viram, apenas atiraram para o ar uns piropos traquinas e malandrecos. Foi chiquérrimo!
- Finalmente em casa, senhor! Graças a Maria!- Disse o senhor padre, ao sentar-se no seu sofá, assim como todos nós, menos o Quim, que foi direito à garrafeira.
- Graças à Maria das Pernas Altas! Quer o senhor dizer! Que se não fosse ela a dispensar os trajes das suas meninas ainda agora aqui o russo mais lindo estava a ver o sol quadrado!
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