sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Opera, Fronteira Italiana 1159

O horizonte rompeu com um tom violeta misturando-se com o azul escuro do manto celestial.
Acordei às 8 horas da manhã, ou algo parecido, para me preparar e ter a certeza de que não me esquecia de nada. Ainda tudo dormia quando fui para a casa de banho em biquinhos de pés. Esta não era mais do que um grande alguidar de latão onde despojava a água aquecida na grande lareira. Despi-me e deixei-me mergulhar na agua quentinha, bem quente. Tão bom, calmo e relaxaste, nua envolta naquela água transparente e ondulante, enquanto o sol entrava pela janela já no seu tom alaranjado e tocava-me na cara e braços descobertos. Há já algum tempo que não me sentia assim tão limpinha e aconchegada.
Um relinchar rompeu com a minha paz de alma, lá fora. Levantei-me a pingar e coloquei a toalha castanha à minha frente enquanto me encaminhei para a janela fechada. Através do meu reflexo vi o Miguel já a preparar o cavalo com as malas abastecidas de comida, água e algumas roupas emprestadas permanentemente. A ele juntou-se o Gualdim e o David com as respectivas montadas e mantimentos. - Bom dia David! Ontem deves ter enchido bem a goela han? - disse Antonio seguindo David e Gualdim.
- Por acaso não me posso queixar, mas porque dizes isso?
- Porque roncaste de uma maneira que ias deitando o telhado da tabela abaixo! - riu António.
- De facto, a minha sorte foi estar igualmente refastelado e dormir que nem uma pedra! - gozou Miguel.
- Desculpa? Eu acordei às tantas da manhã e não te vi na cama..por isso não deves ter sido uma pedra durante muito tempo.. - Respondeu David.
- Verdade sim senhor… Bem vou ver do Rafael…que ainda deve estar enrolado nos lençóis! - disse Miguel encaminhando-se para a capela.
Assim que entrou na capela deparou-se com Rafael com o seu casaco preto comprido de cruz vermelha ao peito.
- Então rapaz andas perdido?
- Bon journo para ti também Miguel…estou cansado..deitei-me tarde..
- Que eu saiba deitaste-te à mesma hora do que eu.
- Ah pois foi…passei foi a noite em branco..achas que ela se lembra de alguma coisa?
- Duvido muito, deve ter pensado ser um sonho ou então não se lembrar de todo. - Calculou Miguel ajeitando as vestes de Rafael, que se encontravam mais enroladas do que os seus caracóis. - Epá estás cá com um aspecto hoje, vai tratar desse cabelo que esta num perfeito desalinho e aproveita e corta a barba, tens navalha?
- Sempre - Disse Rafael desembainhando a navalha pormenorizada num ápice, vendo o seu olhar reflectido na lamina.
- Óptimo, então vai tratar disso, eu vou ver do Angelus e prepara-lo para a Liena.
- Ah pois porque a excelência não pode acordar mais cedo para tratar do próprio cavalo como todos nós.
- Faz de durão à vontade, estás a esquecer-te de uma coisa apenas, ela não está aqui, logo podes poupar-me dessa personagem que eu sei muito bem como és.
- Trata da tua vida enquanto aqui estamos e eu olho pela minha, Miguel Ângelo.
Posto isto, subiu as escadas saltando dois degraus de cada vez. Ao passar pelo quarto de Liena viu que a porta estava entre-aberta e que a única coisa que o ângulo de visão dava para ver era um embrulho azul. De olhos postos no objecto ia abrir a porta do quarto quando se apercebeu que Liena poderia estar imprópria e seria um grande constrangimento para os dois. Recuou e voltou ao caminho pensando no que poderia ter acontecido, fazendo o filme todo na sua cabeça e sentindo subitamente as bochechas a fervilhar. O David matava-me com as próprias mãos, pensou. Finalmente no ultimo piso abriu repentinamente a porta da casa de banho.
- AH!! - Gritei horrorizada ao vê-lo entrar daquela maneira pela casa de banho a dentro estando eu apenas com uma toalha à frente.
- Desculpa!!! Desculpa por favor…eu devia ter batido primeiro…mas…eu pensei que estivesses…no quarto - Explicou-se voltado para a porta. Tinha a sua piada, acabara por acontecer tudo o que pensara que tinha evitado.
- Pois…calculo que sim. Eu também já estou aqui há algum tempo já deveria estar despachada - Falei com um dicção surpreendentemente calma para a situação. Possivelmente era de ainda nem estar em mim. Enrolei-me o melhor que pude na toalha para ir para o meu quarto rapidamente.
- Rafael…
- Sim?
- NÃO OLHES!
- Desculpa!
- É que estás à frente da porta e assim não consigo sair.
- Ah está bem - Recuou nos passos sem olhar para trás.
- CUIDADO!
Rafael na banheira. Desmanchei-me num completo riso a observar a situação, foi lindo maravilhoso, que maneira diferente de começar o dia.
- Realmente Deus escreve direito por linhas tortas, assim estás mais limpinho e cheiroso. Além disso assim arrefeceste-te um pouco, parecias-me meio vermelho. - Em risos falei e em risos fui embora para o meu quarto. Era como se os papeis se tivessem invertido e agora era eu a deixar o mulherengo pendurado. A euforia percorria-me o estômago só de pensar no sucedido.
O pobre Rafael, todo vestido enfiado de rabo na banheira estava agora a amaldiçoar (ou a bendizer) a sua sorte.
- Deus…que irónico… - disse para si mesmo.
Despachei-me o mais depressa que pude, o que foi algum tempo visto a quantidade de coisas que tinha de manter em segurança, o dinheiro, mantimentos, os pergaminhos, o embrulho. Em Tomar, pensei, em Tomar saberei o teu significado.
Finalmente cheguei junto do grupo que estava já pronto a partir.
- Desculpem o atraso
- Ah mulheres, já sabemos com lidar com esse mal - brincou António.
Montei o meu lindo Angelus com Pedro do meu lado e Gualdim do outro. Rafael ia à frente com Miguel, logo atrás de meu pai. Já tinha voltado tudo ao normal, a excelência olhou-me de nariz empinado e riso torto e eu percebi que já tinha voltado ao galã de sempre. Fim do meu império.
- Bem meus meninos! E menina. Depois de passarmos o rio estaremos em terras Gaulesas. Lá encontraremos tantos aleados como inimigos e tanto quando sei, Sua Alteza o Sumo Pontifice encontra-se actualmente no país e ele não encara com muito bons olhos a nossa Razão. - Introduziu David.
- É o que faz os valores monetário e de puder falarem mais alto do que a salvação do Espírito… - retorquiu Miguel.
- Infelizmente é verdade. Mas em breve estaremos em Portugal e assim que isso acontecer a nossa causa será conhecida e a Verdade espalhada. E muitos segredos farão sentido para muita gente. Alcançaremos grande glória!! E inevitavelmente perdas de grande sofrimento..
Esta última frase foi dita de tal forma que mal se percebeu, mas a expressão do meu pai falou por si.
- Itália fica para tras!
- Dal nostro spirito va con voi! - Interrompeu o Padre Romeu, acenando da porta.
Sorrimos-lhe em troca.
Cavalos em duas patas e cavalga-mos uma vez mais, agora, pela água.
- Andium Angelus, tottu vitta staret bon...

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