A conversa estava muito animada. Nunca me senti tão bem em toda a minha vida. Aquelas pessoas gostavam das mesmas coisas que eu, liam os mesmos livros, falavam sobre as mesmas coisas. Numa mesa enorme não se fizeram grupos. Todos falámos, todos completos desconhecidos que de um momento para o outro se tornaram os melhores amigos. A Lidia, apaixonada pela lenda da Arca da Aliança, contava sonhos que tiveram onde a arca, que é descrita na Bíblia como o objecto em que as tábuas dos Dez Mandamentos teriam sido guardadas, e que os templários guardavam, estava escondida perto da sua rua. David, um outro “cavaleiro” da nossa ordem, confessava a ligação dos seus antepassados à Maçonaria, não conseguindo ocultar o seu interesse e, quem sabe, também o seu envolvimento. O Rafael, o mais presente em todas as conversas, falava do seu fascínio pela busca incessante do Santo Graal. Um cálice? Um pano? Uma mulher? O filho de Jesus? Uma terna dúvida…Todos eles diferentes pessoas, historiadores e dentistas, sapateiros e costureiras, professores e tatuadores. Todos gente tão diferente mas com uma paixão comum. A conversa, regada com um bom vinho tinto fazia as delicias partilhadas por um peru com castanhas bem servido numa travessa de prata, rodeada de batatas assadas. Quem diz o peru diz o pernil de javali, a bela terrina de sopa e os mais variados pratos espalhados pela mesa. “Meus ricos euros, que lindos!”-pensei. Conversa puxa conversa, brinde a brinde a noite foi-se passando. Eram quase três da manhã e nós todos ainda à mesa, como amigos de longa data. Descobri tanta coisa para além de um “nickname”. A Lídia era psicóloga e taróloga, nas horas vagas. O Rafael, claro está, actor. O “Gualdim”, cujo nome verdadeiro é Gil, trabalha num observatório estrelar, algo que nem imaginava que existia. O Miguel, amigo mais chegado ao Rafael, para além de também ser actor, surpreendam-se, estava a estudar para padre! Um padre entre nós, um padre que se meteu naquilo que eu pensei que seria maluquice minha, o site-fórum, e que agora se revelou um sucesso! O David, outro tão querido amigo do Rafael, é arquitecto e apaixonado pela Quinta da Regaleira e as suas passagens secretas, o António, gestor industrial, quem diria, viciado em armas brancas, coleccionador nato! Depois de várias pessoas se terem ido embora, acabámos por ficar com este rol de fascinados, que, uns já mais “alegres” que outro, continuavam a falar. A noite foi fechada com o tema “Templários e Portugal”. Todos acreditamos que Portugal pode ser a “Porta do Graal” e todos sabemos que é bem possível que debaixo do nosso nariz esteja aquele que é o tesouro mais procurado de todos os tempos. Os templários entraram em Portugal por volta de 1126 e fixaram-se em Penafiel. Dona Teresa, a querida mãe do nosso primeiro rei, doou gentilmente à Ordem a povoação anteriormente chamada de Fonte Arcada, em Penafiel. Um ano depois, instalaram-se no Castelo de Soure, sob a promessa de ajudarem na conquista das terras aos mouros, que avançavam sem piedade. Após a conquista de Santarém, D. Afonso Henriques, em gesto de agradecimento, ofereceu o território entre o Mondego e o Tejo, a montante da localidade. Só mais tarde, por volta de 1160, é que a Ordem dos Templários ficou sediada na minha querida cidade de Tomar. No entanto, nem sempre a igreja foi pacífica em relação a esta organização. O Papa Clemente V abre um processo contra os Templários, através da bula Regnans in coelis e os monarcas da Península Ibérica partem para a batalha contra a Ordem, sendo decretada prisão de todos os envolvidos em 1310. Como cavaleiros bravos que sempre foram continuaram a servir o seu propósito. Passados cerca de 9 anos após ter sido iniciada a perseguição aos Templários, o Papa João XXII instituiu a Ordo Militiae Jesu Christi, uma Ordem dos Templários, mascarada, se assim quisermos, que, após uma breve passagem pelo Algarve, se sediou também em Tomar. A Ordem de Cristo, estava agora oficialmente em Tomar. A entrada dos Templários em Portugal deve-se particularmente ao rei poeta, D.Dinis, que, segundo se diz, permitiu que Portugal servisse de abrigo à Ordem, vinda de, antigamente, terras longínquas. Hoje a passagem dos cavaleiros é visível. Em vários pontos do país há monumentos a eles associados, as cruzes que adejavam nas velas das caravelas portuguesas, do tão famoso navio - escola “Sagres”. Hoje os aviões e helicópteros da Força Aérea Portuguesa têm a cruz templária; e as camisolas da Selecção Nacional?
-A presença deles está por todo o lado! – Concluiu o Rafael, após ter falado tudo o que sabia a respeito da presença dos cavaleiros em Portugal.
- Portugal não pode ser apenas aquele “cantinho a beira mar plantado”, não com tanta história que tem entre as suas entranhas - disse o Gualdim.
- Só este sítio tem uma vibração diferente, as energias são diferentes, são poderosas- disse a Lídia, revelando a sua sensibilidade.
- Para não falar das excelentes infra-estruturas, passagens secretas, recantos escondidos, lagos submersos, que esta quinta tem! – Revelou o David, dando o último gole de vinho. Estava espantada com tudo isto. Maravilhada com as pessoas. Deslumbrada com o brilho que cada palavra tinha ao sair das suas bocas. Eram as pessoas certas, os companheiros ideais para iniciar não só uma bela amizade com uma pesquisa muito mais aprofundada do mundo dos Templários. E falando em iniciar…
- Acho que devíamos proceder a um ritual iniciático - disse o António, com já uns copos a mais.
- Ai, ai…- respondeu a Lídia – vamos para casa…Não te ponhas com avarias.
- Eh! Qual quê? Avarias? Íamos para o poço, tal qual maçónicos! – Eu e a Lídia, ao que parece as únicas cabeças pensantes da altura, não estávamos a concordar…
- Oh, mas agora? Porque não amanhã? – acrescentei.
- Agora, na verdade, está escuro…mas eu posso ir lá com vocês! Eu e o Miguel conhecemos os cantos à casa! – E o Miguel, que deveria ser o mais atinado, foi o primeiro a levantar-se e a dizer: - Vamos lá a isto! Somos uma Ordem ou não somos? – bêbados e desajeitados lá foram. O Rafael, em vez de ir à frente ia atrás, comigo e com a Lídia, enquanto os outros, o Gualdim, o Miguel, o António e o David, iam à frente, a rir.
- Está cá um briol…- disse a Lídia.
- Toma- disse o Rafael, tirando o casaco- já estou habituado a este clima, a este frio…- Ela ficou toda sensibilizada…
- Oh…Rafael…Muito obrigada ! – E desfizeram-se em sorrisos. “Então??”, pensei eu. Uma reacção estranha da minha parte. Disse estranha? Sim…talvez seja essa a ideia.
- Epaaaa!- dizia o Gualdim- estou meio tonto.
- Acho melhor voltarmos para o restaurante, Rafael – sugeri.
-Está com medo dos fantasmas da quinta é, lady Guinevere?
- Engraçadinho…não acredito nessas coisas. Teria todo o gosto em fazer um ritual de iniciação desse género, era giro e tal! Mas às 4h da manhã, sem luz, na Quinta da Regaleira, com frio desgraçado….
-As luzes providenciamos nós!
- Rafael, a sério, não estou a gostar nada disto…
- Ei!?- disse o Gualdim – falta aqui o David! David? David??
Nenhum comentário:
Postar um comentário