sexta-feira, 19 de novembro de 2010

Estranhos delírios

Olhámos para trás e nem sinal do David.
- Epá, eu avisei, eu avisei que não era boa ideia! – disse a Lídia.
- Que menino… Bom, vamos andar para trás e vasculhar tudo! – disse o António. E fomos, como uns autênticos tótos, seguindo a iluminação do iPod do Rafael, todos em fila, como meninos da infantil.
- Assim não é fácil encontrar ninguém! – continuava a Lídia a queixar-se.
- É o que temos! – disse rapidamente o António, com toda a brutidade e secura do mundo. O Rafael era o único que não falava. Amigo do David há uns bons anos, estava visivelmente preocupado. Atrás dele, o primeiro da absurda fila, ia eu, com o meu mísero telemóvel, com a sua mísera iluminação.
- Nunca devia ter concordado com isto…que irresponsabilidade da minha parte - naquele momento, os copos de vinho pareciam nunca ter existido. O Rafael, outrora divertido, até demais, era agora o mais lúcido de todos, o mais preocupado.
- Calma, Rafael. Ele há de aparecer - falasse eu mais cedo. Lá estava o David estendido no chão. O Rafael passou-me o telefone para a mão e correu logo ao seu encontro.
- David! David! Acorda, pá! - dizia ele, dando-lhe pequenas chapadinhas. Eu estava completamente apática. Nunca na minha vida me tinha deparado com tamanha situação. O resto do pessoal estava de pé, a observar a cena, sem saber o que dizer ou fazer. O Miguel, ajoelhou-se ao lado do Rafael.
- Chamamos o 112? -disse.
- É melhor - respondi.
- Ele está a acordar, ele está a acordar! – Disse o António, apontando como uma criança para o pobre David. O David acordou, sim. Tentou levantar a cabeça dos braços do Rafael, mas logo de seguida se arrependeu.
- Fogo…a minha cabeça pesa quilos…- disse, agarrando-se a ela.
- Meu, deves ter batido com a cabeça – disse o Rafael, ajudando a sentar-se no chão, e sentando-se ao seu lado, sem qualquer tipo de problema por o chão estar enlameado- Vamos chamar uma ambulância.
- Não! – disse logo o David - eu aguento-me… epá, que coisa mais estranha. Ia atrás de vocês, de repente…só me lembro de ver uma luz muito forte, de alguém me dar com uma coisa na nuca e…não me lembro de mais nada – Após esta revelação todos ficámos calados. O Rafael olhou para o Miguel com a maior cara de caso.
- São delírios – disse logo o Rafael.
- Delírios? – perguntei . Se alguém lhe bateu e ele sentiu não é delírio nenhum!
- Oh, a vinhaça também ajudou à coisa…- disse o Gualdim.
- Epá, mas se foi algum gajo apanhamo-lo já aqui e damos-lhe já cabo do pêlo! – Predispôs-se logo o bravo António – Para onde foi o gajo? Viste?
- Não, já disse que não me lembro – disse o coitado do cavaleiro David, equilibrando-se no Miguel - mas que vi aquela luz brilhante, isso vi - Claro que eu fiquei logo com a pulga atrás da orelha. Uma luz brilhante que o encadeou em plena Quinta da Regaleira, às quatro e tal da manhã, seguida de uma pancada que o pôs inconsciente, não era um delírio, por mais bêbado que ele estivesse. E não estava. O David nem estava assim tão bêbado. O António e o Gualdim eram, na verdade, os mais afectados pelo belo néctar dos Deuses. A conversa pode ter caído em saco roto na altura, mas eu não me esqueci dela. Fomos todos para casa e no dia seguinte lá estávamos todos no fórum, à noite. Todos, menos o David.
“Guen – Então e o David? Tens notícias dele?”
“Rafael – Ah, ele está bem…”
“Guen- Mas ele foi ao hospital? Tem algum traumatismo?”
“Rafael- Não, aquela cabeça dura aguenta qualquer pancada! =P “
“Guen- Ah, então admites que sempre foi uma pancada…”
“Rafael – Não disse nada disso.”
“Guen- Disseste, sim. E sabes de alguma coisa não que não me queres contar. Tu e o Miguel, sabem, aliás.”
“Rafael – Estás doida? Sei do quê?”
“Guen – Sabes que não foi uma simples pancada. Não é de hoje que se fala em fenómenos estranhos na Quinta.”
“Rafael – E estás a pensar em quê? Que eu sei de tudo o que se passa lá.”
“Guen- Trabalhas lá…E conheces aquilo tudo. Vais me dizer que nunca sentiste nada ou viste nada?”
“Rafael- Nunca senti nem vi nada.”
“Guen- Mentiroso”.
“Rafael- Ai a menina…”
“Guen – Oh, Rafael, eu sei que sabes, eu percebi logo que sabias quando olhaste para o Miguel. Eu estudo vivo e bebo tudo o que tenha a ver com a Quinta da Regaleira, os Templários, a Maçonaria. Acaba por ser o meu trabalho, o meu objectivo de vida. E eu sei, porque também senti, que a Quinta é um espaço místico e cheio de várias energias.”
“Rafael- Agora os fantasmas dão pancada nos visitantes?”
“Guen- E eles existem?”
“Rafael - Quem sabe…a Quinta é cheia de mistérios. Mas se existirem, são mauzinhos…”
“Guen- Não necessariamente, e tu sabes que não…”
“Rafael- Sabes muita coisa sobre aquilo que sei, já vi…”

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