Estava um dia quente, tão quente que para além do chapéu tive de levar uma sombrinha para sair à rua. Mal abri a porta senti o ar abafado e tive de voltar para trás e passar um pouco de água no pescoço. O João correu logo atrás de mim quando saí pela porta e implorou para ir comigo, estava farto de aturar o tio Manuel e as suas alterações repentinas de humor. Concordei que ele ficasse a brincar com os outros miúdos ao pé do rio, mas não o queria sempre agarrado às minhas saias a pedir-me para lhe comprar tudo o que estava no mercado e fazer as maiores birras quando não lhe fazia as vontades. De qualquer forma ele já é crescidinho, mas mesmo com os seus 8 anos continua um bebé mimado. A minha tia tem grande parte da culpa, fez de tudo para que a ausência de mãe lhe passa-se despercebida enchendo-o de inutilidades e educando-o de uma forma que tenho a certeza desagradaria a meu pai.
Desde aquele dia, à oito anos atrás, que não temos qualquer notícia do pai, da mãe, da Antónia. O tio Manuel diz sempre que é bom sinal, que as noticias más sabem-se logo e que o mais provável é que tenham saído do país para acalmar os ânimos. Já sou crescidinha e compreendo que por mais que os queira ver prefiro que estejam seguros mesmo que longe de nós. Apesar da separação e da forma como tudo aconteceu, tenho de admitir que a nossa vida melhorou. O simples facto de puder hoje sair à rua sem qualquer impedimento e a sensação de liberdade que me trouxe conforta-me. E nesta casa sentimo-nos seguros, o tio Manuel e a tia Alice sempre nos ajudaram e nunca nos sentimos estranhos numa casa que não é a nossa. A casa é mais pequena e estamos numa rua, rodeados por outros vizinhos e onde não parece haver silêncio o dia todo. Para alguém que não conheceu mais de seis ou sete pessoas até aos 12 anos, tanta gente só provoca uma confusão de rostos e nomes, mas vou-me habituando. O meu próprio nome foi uma dor de cabeça no inicio. Os meus tios acharam que utilizar Guinevere numa comunidade tão pequena só iria levantar suspeitas e nada como o nome Maria, tão comum entre a população, para passar despercebida. De Maria Francisca para Guinevere, de Maria Francisca para só Maria.
O tio tem uma loja de flores em baixo da casa. É pequenina e nem temos muitos clientes mas é uma forma de o tio ocupar o seu tempo. As flores vamos buscá-las ao pátio interior da casa e outras vezes ao campo. Eu vou muitas vezes com a Lídia logo de manhãzinha colher as flores e andar descalça ao pé do rio. A Lídia é a minha melhor amiga, mora na casa ao lado dos tios e é um pouco mais nova que eu. Foi a primeira pessoa que realmente me acolheu quando chegámos a Tomar, numa altura em que os meus tios ainda não sabiam muito bem como lidar com duas crianças em casa.
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Já devem ser quase 9 horas e o mercado está a fervilhar de gente. Mal consigo andar entre as bancas e com muito dificuldade me consigo fazer ouvir aos comerciantes. Comprei laranjas, limões e um raminho de hortelã que levava ao nariz de vez em quando. Fazia-me lembrar os dias em Sintra com a Antónia na cozinha e eu sentada à porta a ler.
Fui buscar o João perto do rio e para meu espanto estava coberto de lama, da cabeça aos pés! Nunca pensei que um menino tão medroso, que não dá dois passos sem estar agarrado à saia da tia Alice, fosse fazer tamanho disparate. Peguei-lhe na mão com força, fiz questão de o magoar, para perceber que eu não vivo para lhe andar a emendar as asneiras e que tem idade para perceber o que deve ou não deve fazer. Entrámos pelas traseiras, eu não queria que o meu tio o visse naquele estado, e conduzi-o de imediato ao quarto-de-banho onde lhe dei uma esfrega capaz de lhe arrancar a pele.
- Agora vais te vestir rapidamente e sem reclamar! Desces em 5 minutos e não quero ouvir um pio nem uma queixa à tia ou ao tio! – ameacei.
Estava à beira das lágrimas, eu própria estava demasiado nervosa e tive de me sentar. Exagerei, agora consigo perceber isso. E isto tudo simplesmente porque o Rafael vai voltar. Muito me custa admitir mas a ideia de o rever faz-me tremer de cima a baixo. Depois de termos deixado Sintra e até chegarmos a Tomar o Rafael mostrou-se muito atencioso. Finalmente percebi porque é que o meu pai confiava nele ao ponto de o encarregar de levar os seus filhos para tão longe dele. Assim que cumpriu o seu dever partiu e já lá vão oito anos que não o vejo. Não sei o que sentir, estou confusa com este nervosismo mas acho que se resume a reencontrar alguém que fazia parte do meu passado que já vai tão distante.
Desci até à loja onde encontrei o tio adormecido, pendendo da cadeira quase a tocar no chão. A loja estava vazia, nos dias de mercado não tínhamos quase clientes e fechámos assim que chegava o meio dia. Depois de uma tentativa frustrada de acordar o tio Manuel fechei a porta da loja e recolhi os vasos que sobravam. Espalhei-os por todos os cantos da casa, rosas brancas, cravos vermelhos e margaridas amarelas a que juntei fitas de seda e folhinhas de alfazema. Depois voltei ao meu quarto e sentei-me em frente ao espelho para me preparar, já não faltava muito tempo e eu ainda tinha o cabelo num desalinho. Fiz uma trança que terminei com um laço azul e desci pouco depois de ter ouvido bater à porta.
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