Se o visse na rua não o teria reconhecido. Já tinha 26 anos, um homem feito com barba e tudo. Mas olhando mais de perto tem a mesma cara de rapaz traquina e o mesmo cabelo longo e castanho. Devo ter ficado uns bons segundos a olhar para ele sem me dar conta que me tinha dirigido a palavra. Fiquei meio atrapalhada, baixei a cabeça, devo ter ficado vermelha que nem um tomate e disse-lhe qualquer coisa completamente inapropriada como “deixas-te crescer a barba” seguido de um “olá” trémulo. O João desatou aos risinhos assim como o tio Manuel. A tia lá fez sinal que o jantar já estava na mesa, que devia estar praticamente frio.
Após seis anos de separação ninguém sabia sobre o que falar primeiro. O tio Manuel fez as perguntas triviais “Então a viagem correu bem?”, “Já conheces a região?”, “Quanto tempo ficas por cá?”. Rafael foi respondendo educadamente a todas as perguntas mas reparei que de vez em quando olhava para mim. Tive a certeza que era sobre os meus pais, não conseguia era perceber se as noticias eram boas ou más. Mas logo a tia se lançou num rio de perguntas para satisfazer a sua curiosidade e das vizinhas no dia seguinte. Perguntou-lhe sobre as viagens às grandes capitais europeias, as modas estrangeiras e rapidamente se concentrou na sua vida amorosa.
- Ai mas não acredito que um homem assim não tenha para aí arranjinho! Com a tua idade já estava eu casada à uma eternidade. – dizia a tia.
- Eu não tenho tido vida para isso. Quase não paro 15 dias no mesmo sítio, as moças nem me vêem mais do uma vez. – respondeu Rafael visivelmente envergonhado.
- Tão e aqui a nossa Maria já está uma mulher! E aqui em casa ficas o tempo que quiseres! Não faças cerimónias homem! – afirmou o tio Manuel de imediato.
Agora estávamos os dois visivelmente vermelhos assim como o João que ria incontrolavelmente como todas as crianças ao ouvirem falar de beijinhos, carinhos, namoradinhos. Finalmente se mudou de assunto e finalmente o meu tio se lembrou que devia haver duas pessoas sentadas à mesa desejosas de saber de seus pais.
- Então e o meu irmão como está? – perguntou.
- Para além dos problemas da idade vai bem e lúcido. A senhora também se encontra bem de saúde e cheia de saudades da sua terra e dos filhos.
Estava claramente a limitar as informações aos meus tios, mas eu tinha esperança que mais tarde me conta-se a mim mais detalhadamente o que se passou durante estes oito anos. Ao menos senti um alivio enorme por estarem bem, há anos que vivia apenas com o conforto de não ter más noticias.
Após a refeição o tio levou o Rafael até à sua salinha privada e oferece-lhe um charuto e um lugar no seu cadeirão preferido. Pelo tossir que vinha da sala percebi que o Rafael não é um fumador regular e só aceitou o charuto por gentileza. Mas preferia estar dentro dessa sala cheia de fumo a ouvir os devaneios da minha tia.
- Não podes dizer que não é um bom homem! Até nem tem má figura rapariga! – exclamou no seu sentido de casamenteira frustrada.
- Oh tia ele mal chegou e já começa com essas conversas! Não ponha essa pressão no rapaz que ele foge daqui a sete pés e …
- Conversas? Tu é que tens de abrir os olhos! Rapaz? Ele já não é o menino que conheces-te e tens de te habituar à ideia!
- Qual ideia? – perguntei surpreendida.
- Que o homem chega nesta altura, avisando em cima da hora. Esteve fora sabe Deus quanto tempo, agora regressa assim do nada depois de uma visita a teus pais.
- Que quer dizer com isso?
- Sabes bem! O teu pai aparentemente fazia todo o gosto em que vocês se casassem, disse-o ao teu tio na carta que o Rafael nos trouxe quando para cá vieram morar.
- Mas que carta? Mas como é que me escondeu uma coisa dessas? – pergunto indignada.
- Oh filha tinham lá vocês idade para ler tal coisa! Veio destinada a nós e não tinha nenhuma referência para que vos mostrássemos a carta.
- Mas agora já sou uma mulher não é? Se eu lhe pedisse para vê-la não me ia dizer que não como a uma criança, pois não? – insisti.
Nisto o João entra pela porta dentro a gritar que não quer ir para a cama, que quer ir para a sala com os homens. A birra do costume. Mas desta vez a tia foi implacável e o João percebeu que não tinha forma de escapar com choros. Foi a arrastar os pés até à cama e a tia até lhe trancou a porta para garantir que não lhe viesse outra vez a fúria.
Fomos até ao quarto dos meus tios. Não tinha lá estado muitas vezes, não que estivesse proibida de o fazer mas a porta estava sempre encostada o que funciona como mensagem para “não há aqui nada para os teus olhos verem”. A tia abriu as portas do roupeiro e pegou numa caixinha de madeira que estava atrás dos vestidos. Tirou a chave, que estava no fio que trazia sempre ao pescoço, e abriu a caixa. Estava cheia de bugigangas que nem consegui identificar devido à escuridão e no fundo um papel meio corroído e amarelado.
- Aqui tens.
Acendeu a vela que estava em cima da cómoda e saiu deixando a porta encostada. Abri a carta devagarinho com muito cuidado para não a rasgar. A letra era pequenina e as palavras arrastavam-se dando a entender que tinha sido escrita apressadamente. Reconheci a letra do meu pai e comecei a ler, dizia:
“Querido Manuel,
Aquilo que te vou pedir não é fácil, saberás certamente que não o faria se não fosse absolutamente necessário. Sintra deixou de ser segura para a nossa família.
Parece que há muito que sabiam que estávamos naquela casa. Só rezo para que não saibam da existência das crianças e é por isso que elas não nos podem acompanhar. Peço-te que lhes dês abrigo e que os acolhas como filhos. Sabe Deus o tempo que será preciso para que possamos estar juntos de novo.
Com eles vai o Rafael, um rapaz da minha confiança. Ele acompanha-os na viagem mas também terá de deixar Portugal por tempo indefinido. O contacto connosco será feito através dele e caso aconteça alguma coisa é a ele que deves recorrer.
Eu não sei como vão ser os próximos anos e temo pelo futuro dos meus filhos. Caso por alguma razão não possa mantê-los perto de ti peço que consideres esta minha proposta. Sei que a minha filha estará segura com o Rafael e um casamento entre os dois iria deixar-me feliz e em paz. Rafael sabe deste meu desejo e quanto à Maria Luísa penso que compreenderá. A única condição é de que não devem deixar o irmão para trás.
Não tenho tempo para mais palavras.
Agradeço-te por todo o apoio e nunca esquecerei o que fizeste por mim.
David."
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